{"id":1019,"date":"2024-09-28T13:36:48","date_gmt":"2024-09-28T13:36:48","guid":{"rendered":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=1019"},"modified":"2024-09-28T13:38:30","modified_gmt":"2024-09-28T13:38:30","slug":"heptamerao-de-margarida-de-navarra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2024\/09\/28\/heptamerao-de-margarida-de-navarra\/","title":{"rendered":"Heptamer\u00e3o, de Margarida de Navarra"},"content":{"rendered":"\n<p>Voc\u00ea ir\u00e1 ler, a seguir, os primeiros contos da obra &#8220;Heptemer\u00e3o&#8221;, de Margaria de Navarra. Caso deseje saber mais sobre a obra, ou deseja adquiri-la, <a href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/heptamerao\/\" data-type=\"page\" data-id=\"1015\">clique aqui<\/a>, ou na capa do livro abaixo.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/heptamerao\/\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"231\" height=\"328\" src=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/capinha_heptamerao.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1016\" srcset=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/capinha_heptamerao.jpg 231w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/capinha_heptamerao-211x300.jpg 211w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/capinha_heptamerao-106x150.jpg 106w\" sizes=\"(max-width: 231px) 100vw, 231px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\"> <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>Pr\u00f3logo<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>No primeiro dia de setembro, quando os banhos nas montanhas dos Pirineus come\u00e7am a adquirir sua virtude, havia nos de Cauterets<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a> muitas pessoas tanto da Fran\u00e7a quanto da Espanha, algumas para beber a \u00e1gua, outras para se banhar nela, e ainda outras para experimentar a lama; todos esses sendo rem\u00e9dios t\u00e3o maravilhosos que pessoas desenganadas pelos m\u00e9dicos voltam de l\u00e1 completamente curadas. Meu prop\u00f3sito n\u00e3o \u00e9 falar a voc\u00ea sobre a situa\u00e7\u00e3o ou a virtude dos referidos banhos, mas apenas expor o que se relaciona ao assunto sobre o qual desejo escrever.<\/p>\n\n\n\n<p>Todas as pessoas doentes permaneceram nos banhos por mais de tr\u00eas semanas, at\u00e9 que, com a melhora de sua condi\u00e7\u00e3o, perceberam que poderiam retornar para casa. Mas, enquanto se preparavam para faz\u00ea-lo, ca\u00edram chuvas t\u00e3o extraordin\u00e1rias que parecia que Deus havia esquecido a promessa feita a No\u00e9 de nunca mais destruir o mundo com \u00e1gua; pois cada cabana e cada alojamento em Cauterets estava t\u00e3o inundado de \u00e1gua que n\u00e3o era mais poss\u00edvel permanecer l\u00e1. Aqueles que vieram do lado da Espanha voltaram para l\u00e1 atrav\u00e9s das montanhas como puderam, e os que conheciam o destino das estradas tiveram mais sorte em escapar.<\/p>\n\n\n\n<p>Os senhores e senhoras franceses pensaram em retornar a Tarbes t\u00e3o facilmente quanto haviam chegado, mas encontraram os ribeir\u00f5es t\u00e3o profundos que eram quase intranspon\u00edveis. Quando chegaram para atravessar o Gave de B\u00e9arn<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, que na ocasi\u00e3o de sua passagem anterior tinha menos de dois p\u00e9s de profundidade, encontraram-no t\u00e3o largo e volumoso que se desviaram para procurar as pontes. Mas estas, sendo apenas de madeira, haviam sido arrastadas pela turbul\u00eancia da \u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, alguns dos companheiros pensaram em conter a for\u00e7a da corrente atravessando em conjunto, mas foram rapidamente arrastados, e os outros que estavam prestes a seguir perderam toda a disposi\u00e7\u00e3o para faz\u00ea-lo. Assim, separaram-se, porque n\u00e3o estavam todos de acordo quanto a encontrar outro caminho. Alguns atravessaram as montanhas e, passando por Arag\u00e3o, chegaram ao condado de Roussillon e, a partir da\u00ed, a Narbona; enquanto outros foram diretamente a Barcelona, e de l\u00e1 pelo mar, alguns para Marselha e outros para Aigues-Mortes.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas uma senhora vi\u00fava de longa experi\u00eancia, chamada Oisille, resolveu deixar de lado todo o medo de estradas ruins e se dirigir a Nossa Senhora de Serrance<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela n\u00e3o era, de fato, t\u00e3o supersticiosa a ponto de acreditar que a gloriosa Virgem deixaria seu lugar \u00e0 direita de Seu Filho para vir habitar uma terra desolada, mas desejava ver o local sagrado do qual ouvira falar tantas vezes. Al\u00e9m disso, estava certa de que, se houvesse um meio de escapar de um perigo, os monges certamente o encontrariam. Finalmente, chegou, ap\u00f3s passar por lugares t\u00e3o estranhos e t\u00e3o dif\u00edceis de subir e descer que, apesar de seus anos e peso, teve que percorrer a maior parte do caminho a p\u00e9. O mais lament\u00e1vel foi que a maior parte de seus servos e cavalos ficou morta pelo caminho, e ela chegou a Serrance apenas com um homem e uma mulher, onde foi recebida caritativamente pelos monges.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os franceses, havia tamb\u00e9m dois cavalheiros que foram aos banhos mais para estar na companhia das damas de quem eram amantes do que por qualquer problema de sa\u00fade. Esses cavalheiros, vendo que o grupo estava partindo e que os maridos de suas damas as estavam levando embora, resolveram segui-los \u00e0 dist\u00e2ncia sem revelar seu plano a ningu\u00e9m. Mas numa noite, enquanto os dois cavalheiros casados e suas esposas estavam na casa de um homem mais ladr\u00e3o do que campon\u00eas, os dois amantes, que estavam hospedados em uma casa de campo nas proximidades, ouviram \u00e0 meia-noite um grande alvoro\u00e7o. Eles se levantaram, junto com seus servos, e perguntaram o que significava aquele tumulto. O pobre homem, com grande medo, disse-lhes que era causado por alguns malfeitores que vinham para compartilhar o saque na casa de seu colega bandido. Imediatamente, os cavalheiros pegaram suas armas e, com seus servos, partiram para socorrer as damas, considerando ser mais feliz morrer por elas do que sobreviver a elas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando chegaram \u00e0 casa, encontraram a primeira porta arrombada e os dois cavalheiros com seus servos se defendendo bravamente. Mas, como estavam em menor n\u00famero que os ladr\u00f5es e tamb\u00e9m gravemente feridos, come\u00e7aram a recuar, tendo j\u00e1 perdido muitos de seus servos. Os dois cavalheiros, olhando pelas janelas, viram as damas gritando e chorando t\u00e3o amargamente que seus cora\u00e7\u00f5es se encheram de pena e amor ao v\u00ea-las; e, como dois ursos enfurecidos descendo das montanhas, atacaram os bandidos com tanta f\u00faria que muitos deles foram mortos, enquanto os restantes, n\u00e3o querendo esperar pelo ataque, fugiram para um esconderijo conhecido por eles.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando os cavalheiros derrotaram esses malfeitores e mataram o pr\u00f3prio anfitri\u00e3o entre os demais, souberam que a esposa do homem era ainda pior que o marido; e, portanto, a enviaram para se juntar a ele com uma punhalada. Ent\u00e3o, entraram em um andar inferior, onde encontraram um dos cavalheiros casados \u00e0 beira da morte. O outro n\u00e3o tinha sofrido ferimentos, exceto que suas roupas estavam todas furadas por golpes e que sua espada estava quebrada ao meio. O pobre cavalheiro, percebendo a ajuda que os dois lhe prestaram, os abra\u00e7ou e agradeceu, e pediu-lhes que n\u00e3o o abandonassem, o que foi para eles um pedido muito agrad\u00e1vel. Depois de sepultar o cavalheiro morto e confortar sua esposa o melhor que puderam, tomaram o caminho que Deus lhes havia mostrado, sem saber para onde estavam indo.<\/p>\n\n\n\n<p>Se desejar saber os nomes dos tr\u00eas cavalheiros, o casado se chamava Hircan e sua esposa Parlamente, e a vi\u00fava era Longarine; dos dois amantes, um se chamava Dagoucin e o outro Saffredent. Depois de terem passado o dia inteiro a cavalo, ao anoitecer avistaram um campan\u00e1rio, para onde, com muito esfor\u00e7o, seguiram o melhor que puderam, e ao chegarem foram bem recebidos pelo Abade e pelos monges. A abadia \u00e9 chamada St. Savin<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>O Abade, que vinha de uma linhagem antiga, hospedou-os com honra e, ao lev\u00e1-los para seus aposentos, perguntou-lhes sobre suas aventuras. Quando ouviu a verdade, informou-lhes que outros haviam sofrido t\u00e3o mal quanto eles, pois em um de seus quartos tinha duas damas que haviam escapado de um perigo semelhante, ou talvez maior, na medida em que haviam enfrentado bestas, e n\u00e3o homens<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. A meia l\u00e9gua deste lado de Peyrechitte<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[6]<\/a>, as pobres damas encontraram um urso descendo da montanha, diante do qual fugiram com tal rapidez que seus cavalos morreram sob elas nas portas da abadia. Al\u00e9m disso, duas de suas mulheres, que chegaram muito tempo depois, relataram que o urso havia matado todos os servos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, as duas damas e os tr\u00eas cavalheiros entraram no quarto onde esses infelizes viajantes estavam, e os encontraram chorando. Reconheceram-nas como Nomerfide e Ennasuite, momento em que todos se abra\u00e7aram e contaram o que lhes havia acontecido. Sob as exorta\u00e7\u00f5es do bom Abade, come\u00e7aram a se confortar por terem se reencontrado, e pela manh\u00e3 assistiram \u00e0 missa com muita devo\u00e7\u00e3o, louvando a Deus pelos perigos dos quais haviam escapado.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto todos estavam na missa, entrou na igreja<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\">[7]<\/a> um homem vestido apenas com uma camisa, fugindo como se estivesse sendo perseguido, e clamando por ajuda. Imediatamente, Hircan e os outros cavalheiros foram ao seu encontro para ver o que estava acontecendo, e perceberam dois homens atr\u00e1s dele com espadas desembainhadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses, ao verem t\u00e3o grande companhia, tentaram fugir, mas foram perseguidos com fervor por Hircan e seus companheiros, e acabaram perdendo a vida. Quando Hircan voltou, descobriu que o homem com a camisa era um de seus companheiros chamado Geburon, que lhes contou como, enquanto estava deitado em uma casa de campo perto de Peyrechitte, tr\u00eas homens subiram as escadas e como ele, apesar de estar apenas com a camisa e sem outra arma al\u00e9m da sua espada, havia derrubado um deles no ch\u00e3o, mortalmente ferido. Enquanto os outros dois estavam ocupados em levantar seu companheiro, ele, percebendo-se nu e os outros armados, pensou que n\u00e3o poderia enfrent\u00e1-los, a n\u00e3o ser pela fuga, por estar menos carregado de roupas. E assim escapuliu, agradecendo a Deus e aos que o haviam vingado.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de ouvir a missa e almo\u00e7ar, enviaram algu\u00e9m para verificar se era poss\u00edvel atravessar o rio Gave, e ao saberem que n\u00e3o era, ficaram muito aflitos. No entanto, o Abade os implorou urgentemente para que ficassem com ele at\u00e9 que a \u00e1gua abaixasse, e concordaram em permanecer por aquele dia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 noite, enquanto iam se deitar, chegou um monge idoso que costumava ir todos os anos em setembro a Nossa Senhora de Serrance. Perguntaram-lhe sobre sua viagem, e ele lhes contou que, devido \u00e0s enchentes, havia atravessado as montanhas e os piores caminhos que j\u00e1 conhecera. No caminho, ele havia visto uma cena muito lament\u00e1vel. Encontrara um cavalheiro chamado Simontault, que, cansado de esperar a \u00e1gua do rio baixar e confiando na bondade de seu cavalo, tentara for\u00e7ar a passagem e colocara todos os seus servos ao seu redor para quebrar a for\u00e7a da corrente. Mas quando estavam no meio do leito do rio, aqueles que estavam com piores montarias foram arrastados corrente abaixo, cavalos e homens, e nunca mais foram vistos. O cavalheiro, encontrando-se sozinho, virou seu cavalo para voltar, mas antes que pudesse chegar \u00e0 margem, seu cavalo afundou. No entanto, Deus quis que isso acontecesse t\u00e3o perto da margem que o cavalheiro foi capaz, arrastando-se de quatro e n\u00e3o sem engolir uma grande quantidade de \u00e1gua, de se arrastar para as pedras duras, embora estivesse t\u00e3o fraco e cansado que n\u00e3o conseguiu ficar em p\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Por sorte, um pastor, trazendo suas ovelhas ao final da tarde, encontrou-o sentado entre as pedras, encharcado e triste n\u00e3o apenas por si mesmo, mas pelos servos que vira perecer diante de seus olhos. O pastor, que compreendeu melhor a sua necessidade pela apar\u00eancia do que pelas palavras, tomou-o pela m\u00e3o e o levou para sua humilde moradia, onde acendeu alguns gravetos e o secou da melhor maneira que p\u00f4de. Na mesma noite, Deus guiou at\u00e9 l\u00e1 este bom monge, que lhe mostrou o caminho para Nossa Senhora de Serrance, assegurando-lhe que seria melhor hospedado l\u00e1 do que em qualquer outro lugar, e que encontraria l\u00e1 uma vi\u00fava idosa chamada Oisille, que havia sido t\u00e3o infeliz quanto ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando toda a companhia ouviu falar da boa senhora Oisille e do gentil cavaleiro Simontault, ficaram extremamente felizes e louvaram o Criador, que, satisfeito com o sacrif\u00edcio dos servos, preservara seus senhores e senhoras. E mais do que todos os outros, Parlamente deu calorosos louvores a Deus, pois Simontault havia sido seu devotado amante por muito tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, fizeram uma diligente investiga\u00e7\u00e3o sobre o caminho para Serrance, e embora o bom velho declarasse que era muito dif\u00edcil, eles n\u00e3o se deixaram desanimar e decidiram partir para l\u00e1 naquele mesmo dia. Partiram bem equipados com tudo o que era necess\u00e1rio, pois o Abade os forneceu vinho e abundantes v\u00edveres<a href=\"#_ftn8\" id=\"_ftnref8\">[8]<\/a>, e com companheiros dispostos a gui\u00e1-los com seguran\u00e7a pelas montanhas.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses eles cruzaram mais frequentemente a p\u00e9 do que a cavalo, e ap\u00f3s muito trabalho e suor chegaram a Nossa Senhora de Serrance. Ali, o Abade, embora um tanto maldoso, n\u00e3o se atreveu a negar-lhes hospedagem por receio do Senhor de B\u00e9arn<a href=\"#_ftn9\" id=\"_ftnref9\">[9]<\/a>, que, como sabia, os estimava muito. Sendo um verdadeiro hip\u00f3crita, mostrou-lhes a melhor face que podia e os levou para ver a Senhora Oisille e o gentil cavaleiro Simontault.<\/p>\n\n\n\n<p>A alegria de toda essa companhia, que havia sido miraculosamente reunida, era t\u00e3o grande que a noite lhes pareceu curta enquanto louvavam a Deus na Igreja pela bondade que Ele havia mostrado a eles. Quando, perto da manh\u00e3, haviam descansado um pouco, foram todos ouvir a missa e receber o santo sacramento da comunh\u00e3o, no qual todos os crist\u00e3os s\u00e3o unidos como um s\u00f3, implorando a Ele que, por Sua miseric\u00f3rdia, os uniu assim, que Ele favorecesse sua jornada para Sua gl\u00f3ria. Depois de almo\u00e7arem, enviaram algu\u00e9m para saber se as \u00e1guas haviam baixado, e descobriram que, pelo contr\u00e1rio, estavam ainda mais altas e n\u00e3o podiam ser atravessadas com seguran\u00e7a por um bom tempo. Determinaram, ent\u00e3o, construir uma ponte apoiada em duas rochas que ficam muito pr\u00f3ximas uma da outra, e onde ainda h\u00e1 t\u00e1buas para os pedestres que, vindo de Ol\u00e9ron, desejam evitar a travessia pelas encostas. O Abade ficou muito satisfeito por eles fazerem essa constru\u00e7\u00e3o, para que o n\u00famero de peregrinos aumentasse, e forneceu-lhes trabalhadores, embora fosse avarento demais para dar um \u00fanico centavo.<\/p>\n\n\n\n<p>Os trabalhadores declararam que n\u00e3o poderiam terminar a ponte em menos de dez ou doze dias, e toda a companhia, tanto damas quanto cavaleiros, come\u00e7ou a ficar cansada. Mas Parlamente, que era esposa de Hircan e que nunca estava ociosa ou melanc\u00f3lica, pediu permiss\u00e3o ao marido para falar e disse \u00e0 senhora Oisille:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEstou surpresa, madame, que voc\u00ea, que tem tanta experi\u00eancia e agora ocupa o lugar de m\u00e3e para todas n\u00f3s mulheres, n\u00e3o invente algum passatempo para aliviar o t\u00e9dio que sentiremos durante nossa longa estadia; pois, se n\u00e3o tivermos alguma ocupa\u00e7\u00e3o agrad\u00e1vel e virtuosa, corremos o risco de adoecer.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o,\u201d acrescentou a jovem vi\u00fava Longarine, \u201cpior do que isso, nos tornaremos de mau humor, o que \u00e9 uma doen\u00e7a incur\u00e1vel; pois n\u00e3o h\u00e1 uma entre n\u00f3s que n\u00e3o tenha motivos para estar extremamente desanimada, considerando nossas diversas perdas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ennasuite, rindo, respondeu:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cCada uma n\u00e3o perdeu seu marido como voc\u00ea, e a perda de servos n\u00e3o precisa trazer desespero, j\u00e1 que outros podem ser facilmente encontrados. No entanto, tamb\u00e9m sou da opini\u00e3o de que dever\u00edamos ter algum exerc\u00edcio agrad\u00e1vel para passar o tempo, pois, caso contr\u00e1rio, estaremos mortas at\u00e9 amanh\u00e3.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Todos os cavalheiros concordaram com o que essas damas disseram e pediram a Oisille que lhes dissesse o que deveriam fazer.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMeus filhos,\u201d ela respondeu, \u201cvoc\u00eas me pedem algo que considero muito dif\u00edcil de ensinar, ou seja, um passatempo que possa aliviar o seu t\u00e9dio. Procurei por tal rem\u00e9dio toda a minha vida e s\u00f3 encontrei um, que \u00e9 a leitura das Sagradas Escrituras. Nelas a mente pode encontrar aquela verdadeira e perfeita alegria da qual prov\u00eam o repouso e a sa\u00fade corporal. Se voc\u00eas querem saber por que continuo t\u00e3o alegre e saud\u00e1vel na minha velhice, \u00e9 porque, ao me levantar, imediatamente pego as Sagradas Escrituras e as leio, e assim percebo e contemplo a bondade de Deus, que enviou Seu Filho ao mundo para nos proclamar a Palavra Sagrada<a href=\"#_ftn10\" id=\"_ftnref10\">[10]<\/a> e as boas novas pelas quais Ele promete a remiss\u00e3o de todos os pecados e a satisfa\u00e7\u00e3o de todas as d\u00edvidas pelo dom que nos fez de Seu amor, paix\u00e3o e m\u00e9ritos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO pensamento disso me d\u00e1 tanta alegria que pego meu Salt\u00e9rio e, com toda humildade, canto com o cora\u00e7\u00e3o e pronuncio com os l\u00e1bios os doces salmos e c\u00e2nticos que o Esp\u00edrito Santo colocou no cora\u00e7\u00e3o de Davi e de outros autores. E t\u00e3o aceit\u00e1vel \u00e9 o contentamento que isso me traz, que qualquer mal que possa me atingir durante o dia eu considero uma b\u00ean\u00e7\u00e3o, visto que tenho em meu cora\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da f\u00e9, Aquele que suportou todos eles por mim. Da mesma forma, antes do jantar, retiro-me para alimentar minha alma com a leitura, e ent\u00e3o, \u00e0 noite, lembro-me de tudo o que fiz durante o dia, para pedir perd\u00e3o pelos meus pecados, agradecer-Lhe por Suas miseric\u00f3rdias e, sentindo-me protegida de todo mal, descansar em Seu amor, temor e paz. Este, meus filhos, \u00e9 o passatempo que tenho praticado h\u00e1 muito tempo, ap\u00f3s experimentar todos os outros e n\u00e3o encontrar em nenhum deles contentamento espiritual. Acredito que, se voc\u00eas dedicarem uma hora todas as manh\u00e3s \u00e0 leitura e depois fizerem ora\u00e7\u00f5es devotas durante a missa, encontrar\u00e3o neste lugar solit\u00e1rio toda a beleza que qualquer cidade poderia oferecer. Aquele que conhece a Deus v\u00ea todas as coisas belas Nele, e sem Ele tudo parece desfeio; por isso, pe\u00e7o-vos que aceitem meu conselho, se desejarem viver com alegria.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o Hircan tomou a palavra e disse:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEsses, madame, que leram as Sagradas Escrituras, como acredito que todos n\u00f3s fizemos, reconhecer\u00e3o que o que voc\u00ea disse \u00e9 verdade. No entanto, deve considerar que ainda n\u00e3o estamos t\u00e3o mortificados que n\u00e3o necessitamos de algum passatempo e exerc\u00edcio f\u00edsico. Quando estamos em casa, temos a ca\u00e7a e a falcoaria, que nos fazem deixar de lado mil pensamentos tolos, e as damas t\u00eam suas preocupa\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas, seu trabalho e, \u00e0s vezes, a dan\u00e7a, em tudo o que encontram um exerc\u00edcio honroso. Portanto, falando em nome dos homens, proponho que voc\u00ea, que \u00e9 a mais velha, nos leia pela manh\u00e3 sobre a vida que Nosso Senhor Jesus Cristo levou e as grandes e maravilhosas obras que Ele fez por n\u00f3s; e que entre o almo\u00e7o e as v\u00e9speras escolhemos algum passatempo que seja agrad\u00e1vel ao corpo e, ao mesmo tempo, n\u00e3o prejudicial \u00e0 alma. Assim, passaremos o dia alegremente.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A Senhora Oisille respondeu que havia se esfor\u00e7ado para esquecer toda descri\u00e7\u00e3o de vaidade mundana e, portanto, temia n\u00e3o ter sucesso na escolha de tal entretenimento. O assunto deveria ser decidido pela maioria das opini\u00f5es, e ela pediu a Hircan que apresentasse sua pr\u00f3pria sugest\u00e3o primeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPor minha parte,\u201d disse ele, \u201cse eu pensasse que o passatempo que escolhesse fosse t\u00e3o agrad\u00e1vel para a companhia quanto para mim, minha opini\u00e3o seria rapidamente dada. No entanto, por ora, reservo-me e me conformo com o que os demais disserem.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Sua esposa, Parlamente, pensando que ele se referia a ela, come\u00e7ou a corar e, meio irritada e meio rindo, respondeu:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTalvez, Hircan, aquela que voc\u00ea acha que acharia mais tedioso poderia facilmente encontrar meios de compensa\u00e7\u00e3o se quisesse. Mas deixemos de lado um passatempo em que apenas dois possam participar e falemos de um que seja comum a todos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cJ\u00e1 que minha esposa entendeu t\u00e3o bem o significado das minhas palavras,\u201d disse Hircan a todas as damas, \u201ce um passatempo privado n\u00e3o \u00e9 do seu gosto, acredito que ela estar\u00e1 mais bem capacitada do que qualquer outra para nomear um que todos possam desfrutar; e com isso concordo com a opini\u00e3o dela, n\u00e3o tendo outra pr\u00f3pria.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A toda a companhia concordou com isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Parlamente, percebendo que lhe cabia decidir, falou o seguinte:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSe eu me encontrasse t\u00e3o capacitada quanto os antigos que inventaram as artes, eu deveria conceber algum esporte ou passatempo para cumprir a tarefa que voc\u00eas me imp\u00f5em. Mas conhecendo o meu pr\u00f3prio conhecimento e capacidade, que mal s\u00e3o capazes de recordar as dignas performances de outros, eu me consideraria feliz se puder seguir de perto aqueles que j\u00e1 satisfizeram seu pedido. Entre os demais, creio que n\u00e3o h\u00e1 um de voc\u00eas que n\u00e3o tenha lido os Cem Contos de Boccaccio, recentemente traduzidos do italiano para o franc\u00eas. Tais foram os elogios feitos a estes contos por Rei Francisco, o primeiro do nome, Monsenhor o Delfim<a href=\"#_ftn11\" id=\"_ftnref11\">[11]<\/a>, Madame a Delfina e Madame Margarida, que se Boccaccio<a href=\"#_ftn12\" id=\"_ftnref12\">[12]<\/a> tivesse ouvido apenas do lugar onde estava, o louvor dessas ilustres pessoas o teria levantado dos mortos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, ouvi h\u00e1 pouco tempo que as duas damas que mencionei, juntamente com v\u00e1rias outras da Corte, decidiram fazer como Boccaccio, com uma exce\u00e7\u00e3o, no entanto \u2013 n\u00e3o escreveriam nenhuma hist\u00f3ria que n\u00e3o fosse verdadeira. E essas damas, e Monsenhor o Delfim com elas, comprometeram-se a contar dez hist\u00f3rias cada uma, e a reunir no total dez pessoas, entre aquelas que consideravam mais capazes de narrar algo. Foram exclu\u00eddos aqueles que tinham estudado e eram pessoas de letras, pois Monsenhor o Delfim n\u00e3o permitiria que sua arte fosse empregada, temendo que as flores da ret\u00f3rica pudessem, de alguma forma, prejudicar a verdade das hist\u00f3rias. Mas os importantes assuntos nos quais o Rei estava envolvido, a paz entre ele e o Rei da Inglaterra, o parto da Delfina<a href=\"#_ftn13\" id=\"_ftnref13\">[13]<\/a>, e muitos outros assuntos de natureza a ocupar toda a Corte, fizeram com que a empreitada fosse completamente esquecida.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, devido ao nosso grande tempo livre agora, isso pode ser realizado em dez dias, enquanto esperamos que a nossa ponte seja conclu\u00edda. Se assim lhe agradar, poder\u00edamos ir todos os dias, do meio-dia at\u00e9 \u00e0s quatro horas, para aquele agrad\u00e1vel prado ao lado do rio Gave. As \u00e1rvores l\u00e1 s\u00e3o t\u00e3o frondosas que o sol n\u00e3o consegue penetrar a sombra nem transformar o frescor em calor. Sentados l\u00e1 \u00e0 vontade, cada um de n\u00f3s poderia contar uma hist\u00f3ria sobre algo que tenhamos visto ou ouvido de algu\u00e9m digno de f\u00e9. Ao final de dez dias, teremos completado as cem hist\u00f3rias<a href=\"#_ftn14\" id=\"_ftnref14\">[14]<\/a>, e se Deus quiser que nosso trabalho seja considerado digno pelos senhores e senhoras que mencionei, ao voltarmos dessa viagem o apresentaremos a eles, em vez de imagens e Pai Nossos<a href=\"#_ftn15\" id=\"_ftnref15\">[15]<\/a>, acreditando que ser\u00e1 um presente mais agrad\u00e1vel. Se, no entanto, algu\u00e9m puder conceber um plano mais agrad\u00e1vel do que o meu, aceitarei sua opini\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Toda a companhia respondeu que n\u00e3o era poss\u00edvel dar um conselho melhor e que aguardavam a manh\u00e3 com impaci\u00eancia para come\u00e7ar. Assim, passaram aquele dia alegremente, relembrando uns aos outros o que haviam visto em seu tempo. Assim que a manh\u00e3 chegou, foram ao quarto de Madame Oisille, a quem encontraram j\u00e1 em suas ora\u00e7\u00f5es. Ouviram-na ler durante uma hora inteira, depois assistiram \u00e0 missa com devo\u00e7\u00e3o e, em seguida, foram almo\u00e7ar \u00e0s dez horas<a href=\"#_ftn16\" id=\"_ftnref16\">[16]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s o almo\u00e7o, cada um retirou-se para o seu quarto e fez o que tinha a fazer. De acordo com o plano, ao meio-dia n\u00e3o deixaram de voltar ao campo, que era t\u00e3o bonito e agrad\u00e1vel que s\u00f3 um Boccaccio poderia descrev\u00ea-lo como realmente era; basta dizer que nunca se viu um lugar mais belo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando toda a companhia estava sentada na grama verde, que era t\u00e3o fina e macia que n\u00e3o precisavam de almofadas nem tapetes, Simontault come\u00e7ou dizendo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuem de n\u00f3s dever\u00e1 come\u00e7ar antes dos outros?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cComo voc\u00ea foi o primeiro a falar,\u201d respondeu Hircan, \u201c\u00e9 razo\u00e1vel que voc\u00ea nos dirija; pois no jogo somos todos iguais.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuem dera,\u201d disse Simontault, \u201ceu tivesse nenhuma desgra\u00e7a maior neste mundo do que poder dirigir toda a companhia presente.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ao ouvir isso, Parlamente, que sabia bem o que significava, come\u00e7ou a tossir. Hircan, portanto, n\u00e3o percebeu a cor que surgiu em suas bochechas, mas disse a Simontault para come\u00e7ar, o que ele fez conforme segue.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>Primeiro Dia<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p><em>No Primeiro Dia s\u00e3o contadas as maldades que foram feitas pelas mulheres aos homens e pelos homens \u00e0s mulheres.<\/em><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><a>Conto I. A esposa de um procurador<\/a><a href=\"#_ftn17\" id=\"_ftnref17\">[17]<\/a><\/h3>\n\n\n\n<p><em>A esposa de um procurador, tendo sido solicitada de forma insistente pelo Bispo de S\u00e9es, a tomou para seu pr\u00f3prio proveito, e, estando t\u00e3o insatisfeita com ele quanto com seu marido, encontrou um meio de ter o filho do Tenente-General de Alen\u00e7on para seu prazer. Algum tempo depois, ela fez com que este \u00faltimo fosse miseravelmente assassinado por seu marido, que, embora tenha obtido o perd\u00e3o pelo assassinato, foi posteriormente enviado para as gal\u00e9s com um feiticeiro chamado Gallery; e tudo isso foi causado pela maldade de sua esposa<a id=\"_ftnref18\" href=\"#_ftn18\"><strong>[18]<\/strong><\/a>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Senhoras, disse Simontault, eu fui t\u00e3o mal recompensado por meus longos servi\u00e7os, que, para me vingar do Amor e daquela que me trata t\u00e3o cruelmente, me esfor\u00e7arei para fazer uma cole\u00e7\u00e3o de todos os maus-tratos que as mulheres fizeram a homens infelizes; e, al\u00e9m disso, contarei apenas a pura verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Na cidade de Alen\u00e7on, durante a vida de Carlos, o \u00faltimo Duque<a href=\"#_ftn19\" id=\"_ftnref19\">[19]<\/a>, havia um procurador chamado St. Aignan, que havia casado com uma dama da vizinhan\u00e7a. Ela era mais bonita do que virtuosa e, devido \u00e0 sua beleza e comportamento leve, era muito desejada pelo Bispo de S\u00e9es<a href=\"#_ftn20\" id=\"_ftnref20\">[20]<\/a>, que, para alcan\u00e7ar seus objetivos, manipulou t\u00e3o bem o marido que este n\u00e3o apenas n\u00e3o percebeu a conduta viciosa de sua esposa e do Bispo, mas tamb\u00e9m foi levado a esquecer o afeto que sempre demonstrou no servi\u00e7o de seu senhor e senhora.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, de servo leal, ele tornou-se totalmente adverso a eles e, por fim, procurou feiticeiros para procurar a morte da Duquesa<a href=\"#_ftn21\" id=\"_ftnref21\">[21]<\/a>. Agora, por um longo tempo, o Bispo manteve rela\u00e7\u00f5es com essa infeliz mulher, que se submetia a ele mais por avareza do que por amor, e tamb\u00e9m porque seu marido a incentivava a mostrar-lhe favor. Mas havia um jovem na cidade de Alen\u00e7on, filho do Tenente-General<a href=\"#_ftn22\" id=\"_ftnref22\">[22]<\/a>, a quem ela amava tanto que estava quase louca por ele; e frequentemente ela recorria ao Bispo para que ele confiasse algum encargo ao seu marido, para que ela pudesse ver o filho do Tenente, chamado Du Mesnil, \u00e0 vontade.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse modo de vida durou muito tempo, durante o qual ela tinha o Bispo para seu proveito e o referido Du Mesnil para seu prazer. A este \u00faltimo, ela jurava que mostrava uma apar\u00eancia af\u00e1vel ao Bispo apenas para que seu pr\u00f3prio amor pudesse continuar mais livremente; que o Bispo, apesar das apar\u00eancias, n\u00e3o havia obtido mais do que palavras dela; e que ele, Du Mesnil, podia estar certo de que nenhum outro homem, al\u00e9m dele pr\u00f3prio, receberia algo mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dia, quando seu marido estava prestes a visitar o Bispo, ela pediu permiss\u00e3o para ir ao campo, dizendo que o ar da cidade era prejudicial para ela; e, ao chegar \u00e0 sua propriedade, imediatamente escreveu a Du Mesnil para que ele viesse v\u00ea-la, sem falta, por volta das dez horas da noite. O jovem fez isso; mas, ao entrar pelo port\u00e3o, encontrou a criada que costumava deix\u00e1-lo entrar, e que lhe disse: \u201cV\u00e1 para outro lugar, amigo, pois seu lugar j\u00e1 est\u00e1 ocupado.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Presumindo que o marido havia chegado, ele perguntou como estavam as coisas. A mulher, vendo que ele era t\u00e3o bonito, jovem e bem-educado, e ao mesmo tempo t\u00e3o amoroso e ainda t\u00e3o pouco amado, teve pena dele e lhe contou sobre a lasc\u00edvia de sua amante, pensando que ao ouvir isso ele se curaria de am\u00e1-la tanto. Ela lhe contou que o Bispo de S\u00e9es acabara de chegar e estava agora na cama com a senhora, algo que ela n\u00e3o esperava, pois ele n\u00e3o deveria ter chegado at\u00e9 o dia seguinte. No entanto, ele havia detido seu marido em sua casa e tinha escapado \u00e0 noite para v\u00ea-la secretamente. Se algum homem estava em desespero, era Du Mesnil, que, no entanto, n\u00e3o conseguia acreditar na hist\u00f3ria. No entanto, ele se escondeu em uma casa pr\u00f3xima e observou at\u00e9 tr\u00eas horas ap\u00f3s a meia-noite, quando viu o Bispo sair disfar\u00e7ado, mas n\u00e3o de modo t\u00e3o completo que n\u00e3o pudesse reconhec\u00ea-lo mais facilmente do que desejava.<\/p>\n\n\n\n<p>Desesperado, Du Mesnil retornou a Alen\u00e7on, para onde, igualmente, sua p\u00e9rfida amante logo veio e foi falar com ele, pensando em engan\u00e1-lo conforme seu costume. Mas ele lhe disse que, tendo tocado coisas sagradas, ela era muito santa para falar com um pecador como ele, embora seu arrependimento fosse t\u00e3o grande que ele esperava que seu pecado fosse perdoado muito em breve. Quando ela soube que seu engano havia sido descoberto, e que desculpas, juramentos e promessas de nunca mais agir de maneira semelhante n\u00e3o serviam para nada, ela se queixou ao seu Bispo. Ent\u00e3o, tendo ponderado sobre o assunto com ele, ela foi at\u00e9 seu marido e lhe disse que n\u00e3o podia mais residir na cidade de Alen\u00e7on, pois o filho do Tenente, a quem ele tinha t\u00e3o em alta considera\u00e7\u00e3o entre seus amigos, a perseguia incessantemente para roubar sua honra. Ela, portanto, pediu que ele permanecesse em Argentan<a href=\"#_ftn23\" id=\"_ftnref23\">[23]<\/a>, a fim de que toda suspeita fosse removida.<\/p>\n\n\n\n<p>O marido, que se deixava guiar pela esposa, consentiu; mas eles n\u00e3o estavam em Argentan h\u00e1 muito tempo quando essa m\u00e1 mulher enviou uma mensagem a Du Mesnil, dizendo que ele era o homem mais perverso do mundo, pois ela sabia muito bem que ele tinha falado mal dela e do Bispo de S\u00e9es; no entanto, ela se esfor\u00e7aria ao m\u00e1ximo para faz\u00ea-lo se arrepender disso.<\/p>\n\n\n\n<p>O jovem, que nunca tinha falado do assunto exceto para ela mesma, e que temia cair em desgra\u00e7a com o Bispo, foi a Argentan com dois de seus servos e, encontrando sua amante nas v\u00e9speras na igreja dos Jacobinos<a href=\"#_ftn24\" id=\"_ftnref24\">[24]<\/a>, foi ajoelhar-se ao lado dela e disse:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cVim at\u00e9 aqui, senhora, para jurar diante de Deus que nunca falei sobre sua honra para ningu\u00e9m al\u00e9m de voc\u00ea. Voc\u00ea me tratou t\u00e3o mal que nem fiz metade das censuras que voc\u00ea merecia; mas se houver homem ou mulher disposto a dizer que falei do assunto a eles, estou aqui para desmenti-los em sua presen\u00e7a.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Vendo que havia muitas pessoas na igreja e que ele estava acompanhado por dois robustos servos, ela se esfor\u00e7ou para falar da maneira mais graciosa poss\u00edvel. Disse-lhe que n\u00e3o duvidava de que ele estivesse dizendo a verdade e que o considerava um homem honrado demais para falar mal de algu\u00e9m, muito menos dela, que lhe tinha tanta amizade. No entanto, como seu marido tinha ouvido falar do assunto, ela lhe pediu que dissesse, na presen\u00e7a dele, que n\u00e3o havia falado mal dela e que n\u00e3o acreditava nisso.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele concordou de bom grado e, desejando acompanh\u00e1-la at\u00e9 sua casa, ofereceu-se para pegar no bra\u00e7o dela; mas ela lhe disse que n\u00e3o seria conveniente, pois seu marido poderia pensar que ela havia colocado essas palavras em sua boca. Ent\u00e3o, segurando um dos servos dele pela manga, disse:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDeixe-me este homem, e assim que for o momento, eu o mandarei buscar voc\u00ea. Enquanto isso, v\u00e1 descansar em sua hospedaria.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ele, sem suspeitar da conspira\u00e7\u00e3o que estava sendo tramada contra ele, foi para l\u00e1. Ela deu o jantar ao servo que havia ficado com ela, e que perguntava frequentemente quando seria o momento de buscar seu mestre; mas ela sempre respondia que ele chegaria em breve. Quando a noite chegou, ela enviou um de seus pr\u00f3prios servos para buscar Du Mesnil; e ele, sem suspeitar do mal que estava sendo preparado, foi corajosamente \u00e0 casa de St. Aignan. Como sua amante ainda estava entretendo seu servo ali, ele estava com apenas um servo consigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando estava entrando na casa, o servo que havia sido enviado disse-lhe que a senhora queria falar com ele antes que ele visse o marido dela, e que o esperava em um quarto onde estava a s\u00f3s com seu pr\u00f3prio servo; por isso, seria prudente enviar seu outro servo embora pela porta da frente. Ele assim o fez. Enquanto subia uma pequena escada escura, o procurador St. Aignan, que havia colocado alguns homens em emboscada em um arm\u00e1rio, ouviu o barulho e perguntou o que era. Disseram-lhe ent\u00e3o que um homem estava tentando entrar secretamente em sua casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse momento, um tal Thomas Gu\u00e9rin, um assassino profissional, contratado pelo procurador para esse fim, avan\u00e7ou e deu ao pobre jovem tantos golpes de espada que, por mais que ele tentasse se defender, n\u00e3o p\u00f4de evitar cair morto em meio a eles.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, o servo que estava com a senhora disse a ela:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOu\u00e7o meu mestre falando na escada. Vou at\u00e9 ele.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a senhora o impediu, dizendo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o se preocupe; ele vir\u00e1 logo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Pouco tempo depois, o servo, ouvindo seu mestre dizer: \u201cEstou morrendo, que Deus receba minha alma!\u201d, quis ir ajud\u00e1-lo, mas a senhora novamente o impediu, dizendo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o se preocupe; meu marido est\u00e1 apenas castigando-o por suas tolices. Vamos ver o que est\u00e1 acontecendo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, inclinando-se sobre o corrim\u00e3o no topo da escada, ela perguntou ao marido:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cBem, est\u00e1 feito?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cVenha ver\u201d, ele respondeu. \u201cAgora me vinguei do homem que te envergonhou tanto.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Dizendo isso, ele enfiou uma adaga que segurava de dez a doze vezes no ventre de um homem que, se estivesse vivo, ele n\u00e3o teria ousado enfrentar.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o assassinato foi consumado e os dois criados do morto fugiram para levar a not\u00edcia ao infeliz pai, St. Aignan pensou que o assunto n\u00e3o poderia ser mantido em segredo. Mas imaginou que ningu\u00e9m acreditaria no testemunho dos criados do morto e que ningu\u00e9m em sua casa havia visto o ato, exceto os assassinos, uma velha criada e uma menina de quinze anos de idade. Ele secretamente tentou prender a velha senhora, mas ela, encontrando meios de escapar, buscou ref\u00fagio com os jacobinos<a href=\"#_ftn25\" id=\"_ftnref25\">[25]<\/a>, e foi posteriormente a testemunha mais confi\u00e1vel do assassinato. A jovem empregada permaneceu por alguns dias na casa de St. Aignan, mas ele encontrou meios de fazer com que ela fosse levada embora por um dos assassinos que a levou para um bordel em Paris, para que seu testemunho n\u00e3o fosse recebido<a href=\"#_ftn26\" id=\"_ftnref26\">[26]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ocultar o assassinato, ele mandou queimar o cad\u00e1ver do infeliz, e os ossos que n\u00e3o foram consumidos pelo fogo fez com que fossem misturados com argamassa em uma parte da casa onde estava construindo. Em seguida, ele apressou-se a recorrer \u00e0 Corte em busca de perd\u00e3o, alegando que j\u00e1 havia v\u00e1rias vezes proibido a entrada em sua casa de uma pessoa que suspeitava estar conspirando contra a honra de sua esposa, e que, apesar dessa proibi\u00e7\u00e3o, a pessoa havia ido \u00e0 noite v\u00ea-la de maneira suspeita; ao encontr\u00e1-lo prestes a entrar no quarto dela, sua ira dominou sua raz\u00e3o e ele o matou.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, antes que pudesse enviar sua carta ao chanceler, o Duque e a Duquesa j\u00e1 haviam sido informados do ocorrido pelo pai do infeliz, e enviaram uma mensagem ao chanceler para impedir que o perd\u00e3o fosse concedido. Percebendo que n\u00e3o poderia obt\u00ea-lo, o infeliz homem fugiu para a Inglaterra com sua esposa e v\u00e1rios de seus parentes. Mas, antes de partir, ele disse ao assassino que, a seu pedido, havia cometido o crime, e que recebera ordens do rei para ser capturado e morto. No entanto, em reconhecimento ao servi\u00e7o prestado, desejava salvar-lhe a vida, dando-lhe dez coroas para que deixasse o reino. O assassino fez isso e nunca mais foi visto.<\/p>\n\n\n\n<p>O assassinato foi t\u00e3o bem comprovado pelos servos do falecido, pela mulher que buscou ref\u00fagio com os Jacobinos e pelos ossos encontrados na argamassa, que o processo legal foi iniciado e conclu\u00eddo na aus\u00eancia de St. Aignan e sua esposa. Ambos foram julgados \u00e0 revelia e condenados \u00e0 morte. Seus bens foram confiscados pelo pr\u00edncipe, e mil e quinhentas coroas foram destinadas ao pai do falecido para cobrir os custos do julgamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Estando na Inglaterra e percebendo que, aos olhos da lei, estava morto na Fran\u00e7a, St. Aignan, por meio de seus servi\u00e7os a v\u00e1rios grandes senhores e pelo favor dos parentes de sua esposa, conseguiu que o rei da Inglaterra<a href=\"#_ftn27\" id=\"_ftnref27\">[27]<\/a> solicitasse ao rei da Fran\u00e7a<a href=\"#_ftn28\" id=\"_ftnref28\">[28]<\/a> que lhe concedesse um perd\u00e3o e restaurasse suas posses e honras. Contudo, o rei da Fran\u00e7a, informado da maldade e enormidade do crime, enviou o processo ao rei da Inglaterra, pedindo-lhe que considerasse se a ofensa era digna de perd\u00e3o, e informando-lhe que ningu\u00e9m no reino, exceto o Duque de Alen\u00e7on, tinha o direito de conceder perd\u00e3o naquele ducado. No entanto, apesar de todas as desculpas, n\u00e3o conseguiu apaziguar o rei da Inglaterra, que continuou a insistir t\u00e3o veementemente que, a seu pedido, o procurador finalmente recebeu o perd\u00e3o e assim retornou \u00e0 sua terra natal.<a href=\"#_ftn29\" id=\"_ftnref29\">[29]<\/a> L\u00e1, para completar sua maldade, ele se associou a um feiticeiro chamado Gallery, na esperan\u00e7a de que, por meio da arte desse homem, pudesse escapar do pagamento das mil e quinhentas coroas ao pai do falecido.<\/p>\n\n\n\n<p>Para esse fim, ele foi disfar\u00e7ado para Paris com sua esposa. Ela, percebendo que ele costumava se trancar por um longo tempo em um quarto com Gallery, sem lhe informar o motivo, decidiu espion\u00e1-lo certa manh\u00e3 e viu Gallery mostrando-lhe cinco figuras de madeira, tr\u00eas das quais tinham as m\u00e3os abaixadas, enquanto duas as mantinham levantadas.<a href=\"#_ftn30\" id=\"_ftnref30\">[30]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDevemos fazer figuras de cera como estas\u201d, disse Gallery, falando com o procurador. \u201cAquelas que t\u00eam os bra\u00e7os abaixados ser\u00e3o para aqueles que desejamos causar a morte, e as outras, com os bra\u00e7os levantados, ser\u00e3o para as pessoas das quais voc\u00ea deseja obter amor e favor.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEsta aqui\u201d, disse o procurador, \u201cser\u00e1 para o rei, de quem eu desejo ser amado, e esta ser\u00e1 para Monsenhor Brinon, chanceler de Alen\u00e7on.\u201d<a href=\"#_ftn31\" id=\"_ftnref31\">[31]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;\u2013 As imagens \u2013 disse Gallery \u2013 devem ser colocadas sob o altar, para ouvir a missa, com palavras que eu lhe direi a seguir.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, falando das imagens com os bra\u00e7os abaixados, o procurador disse que uma delas deveria ser para Mestre Gilles du Mesnil, pai do homem morto, pois ele sabia que enquanto o pai vivesse, n\u00e3o cessaria de persegui-lo. Al\u00e9m disso, uma das mulheres com os bra\u00e7os abaixados deveria ser para a Duquesa de Alen\u00e7on, irm\u00e3 do Rei; pois ela tinha muito amor por seu antigo servo, Du Mesnil, e havia conhecido tantas outras maldades do procurador que, a menos que ela morresse, ele n\u00e3o poderia viver. A segunda mulher com os bra\u00e7os abaixados era sua pr\u00f3pria esposa, que era a causa de toda sua desgra\u00e7a e que, ele estava certo, nunca mudaria sua vida perversa.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando sua esposa, que podia ver tudo pelo buraco da fechadura, o ouviu coloc\u00e1-la entre os mortos, decidiu envi\u00e1-lo primeiro para l\u00e1. Sob o pretexto de emprestar algum dinheiro, foi a um tio seu, chamado Neaufle, que era Mestre dos Pedidos do Duque de Alen\u00e7on, e informou-o sobre o que havia visto e ouvido. Neaufle, como o velho e digno servidor que era, foi imediatamente ao Chanceler de Alen\u00e7on e contou-lhe toda a hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Como o Duque e a Duquesa de Alen\u00e7on n\u00e3o estavam na Corte naquele dia, o Chanceler relatou esse estranho caso \u00e0 Regente<a href=\"#_ftn32\" id=\"_ftnref32\">[32]<\/a>, m\u00e3e do Rei e da Duquesa, e ela enviou com urg\u00eancia o Provost de Paris<a href=\"#_ftn33\" id=\"_ftnref33\">[33]<\/a>, que se apressou tanto que imediatamente prendeu o procurador e seu feiticeiro, Gallery. Sem constrangimento ou tortura, eles confessaram livremente sua culpa, e seu caso foi documentado e apresentado ao Rei.<\/p>\n\n\n\n<p>Certas pessoas, desejando salvar suas vidas, disseram ao rei que s\u00f3 haviam buscado seu favor por meio de encantamentos; mas o Rei, considerando a vida de sua irm\u00e3 t\u00e3o preciosa quanto a sua pr\u00f3pria, ordenou que a mesma senten\u00e7a fosse aplicada a eles como se tivessem tentado contra sua pr\u00f3pria pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, sua irm\u00e3, a Duquesa de Alen\u00e7on, suplicou para que a vida do procurador fosse poupada, e a senten\u00e7a de morte comutada para algum castigo severo. Esse pedido foi concedido, e St. Aignan e Gallery foram enviados para os gal\u00e9s de St. Blancart em Marselha<a href=\"#_ftn34\" id=\"_ftnref34\">[34]<\/a>, onde passaram seus dias em cativeiro severo e tiveram tempo para refletir sobre a gravidade de seus crimes. A perversa esposa, na aus\u00eancia do marido, continuou com seus pecados ainda mais do que antes e, por fim, morreu em mis\u00e9ria.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cRogo-vos, senhoras, que considerem o mal causado por uma mulher perversa, e quantos males surgiram dos pecados daquela de quem falei. Encontrareis que, desde que Eva fez Ad\u00e3o pecar, todas as mulheres se empenharam em provocar o tormento, o massacre e a condena\u00e7\u00e3o dos homens. Por mim, tive tanta experi\u00eancia de sua crueldade que espero morrer e ser condenado simplesmente pelo desespero em que uma delas me lan\u00e7ou. E ainda assim, sou t\u00e3o grande tolo que n\u00e3o posso deixar de confessar que o inferno vindo de sua m\u00e3o \u00e9 mais agrad\u00e1vel do que o Para\u00edso viria da m\u00e3o de outra pessoa.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Parlamente, fingindo n\u00e3o entender que ele falava dela, disse-lhe:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cJ\u00e1 que o inferno \u00e9 t\u00e3o agrad\u00e1vel como dizes, n\u00e3o deverias temer o diabo que te colocou nele.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSe o meu diabo se tornasse t\u00e3o negro quanto foi cruel comigo,\u201d respondeu Simontault com raiva, \u201cele causaria \u00e0 presente companhia tanto medo quanto eu encontro prazer em olh\u00e1-los; mas os fogos do amor fazem-me esquecer os deste inferno. No entanto, para n\u00e3o falar mais sobre este assunto, dou meu voto \u00e0 Madame Oisille para contar a segunda hist\u00f3ria. Tenho certeza de que ela apoiaria minha opini\u00e3o se estivesse disposta a dizer o que sabe sobre as mulheres.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Imediatamente toda a companhia se voltou para Oisille, e pediu-lhe que prosseguisse, ao que ela consentiu e, rindo, come\u00e7ou da seguinte forma:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cParece-me, senhoras, que aquele que me deu seu voto falou t\u00e3o mal do nosso sexo em sua verdadeira hist\u00f3ria de uma mulher perversa, que devo recordar todos os anos da minha longa vida para encontrar uma cuja virtude seja suficiente para contrariar sua opini\u00e3o mal\u00e9vola. No entanto, como me lembrei de uma que merece ser lembrada, agora contarei sua hist\u00f3ria para voc\u00eas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><a>Conto II. A esposa de um tropeiro<\/a><\/h3>\n\n\n\n<p><em>A esposa de um carreteiro de Amboise preferiu morrer cruelmente \u00e0s m\u00e3os de seu servo a cair em seu prop\u00f3sito maligno<a id=\"_ftnref35\" href=\"#_ftn35\"><strong>[35]<\/strong><\/a>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Na cidade de Amboise havia um carreteiro ao servi\u00e7o da Rainha de Navarra, irm\u00e3 do Rei Francisco, o primeiro desse nome. Ela estava em Blois, onde havia dado \u00e0 luz um filho, e o referido carreteiro foi at\u00e9 l\u00e1 para receber seu pagamento trimestral, enquanto sua esposa permanecia em Amboise, em um alojamento al\u00e9m das pontes<a href=\"#_ftn36\" id=\"_ftnref36\">[36]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, aconteceu que um dos servos de seu marido a havia amado intensamente h\u00e1 muito tempo, e um dia n\u00e3o conseguiu se conter e falou sobre isso com ela. Ela, no entanto, sendo uma mulher verdadeiramente virtuosa, o repreendeu t\u00e3o severamente, amea\u00e7ando faz\u00ea-lo espancar e demitir por seu marido, que a partir daquele momento ele n\u00e3o se atreveu a falar com ela de tal maneira novamente nem a deixar seu amor ser percebido, mas manteve o fogo escondido em seu peito at\u00e9 o dia em que seu mestre havia sa\u00eddo de casa e sua senhora estava nas v\u00e9speras em S\u00e3o Florentim<a href=\"#_ftn37\" id=\"_ftnref37\">[37]<\/a>, a igreja do castelo, um longo caminho da casa do carreteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto ele estava sozinho, a ideia lhe ocorreu de que poderia obter \u00e0 for\u00e7a o que nem a ora\u00e7\u00e3o nem o servi\u00e7o haviam conseguido lhe proporcionar. Assim, ele rompeu uma divis\u00f3ria de madeira que separava o quarto onde sua amante dormia do seu pr\u00f3prio. As cortinas da cama do mestre de um lado e da cama do criado do outro cobriam tanto as paredes que escondiam a abertura que ele havia feito; e assim sua maldade n\u00e3o foi percebida at\u00e9 que sua amante estivesse na cama, junto com uma menina de onze ou doze anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a pobre mulher estava em seu primeiro sono, o criado, apenas de camisa e com sua espada nua na m\u00e3o, entrou pelo buraco que havia feito na parede para a cama dela. Mas assim que ela o sentiu ao seu lado, saltou para fora, dirigindo a ele todas as reprova\u00e7\u00f5es que uma mulher virtuosa poderia proferir. No entanto, seu amor era apenas bestial, e ele entenderia melhor a linguagem de suas mulas do que os argumentos honor\u00e1veis dela; de fato, ele mostrou-se ainda mais bestial do que os animais com os quais havia convivido. Vendo que ela corria t\u00e3o rapidamente ao redor de uma mesa que ele n\u00e3o conseguia peg\u00e1-la, e que ela era forte o suficiente para se soltar dele duas vezes, ele desesperou-se de a possuir viva e desferiu nela um terr\u00edvel golpe de espada nos flancos, pensando que, se o medo e a for\u00e7a n\u00e3o a fizeram ceder, a dor certamente o faria.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, aconteceu o contr\u00e1rio, pois assim como um bom soldado, ao ver seu pr\u00f3prio sangue, se enfurece mais para se vingar dos inimigos e ganhar renome, o cora\u00e7\u00e3o casto dela encontrou novas for\u00e7as enquanto ela corria fugindo das m\u00e3os do vil\u00e3o, dizendo-lhe tudo o que podia pensar para faz\u00ea-lo ver sua culpa. Mas ele estava t\u00e3o cheio de raiva que n\u00e3o prestava aten\u00e7\u00e3o \u00e0s palavras dela. Ele lhe deu v\u00e1rios outros golpes, para os quais ela continuou correndo enquanto suas pernas aguentavam.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando, ap\u00f3s grande perda de sangue, ela sentiu que a morte estava pr\u00f3xima, levantou os olhos ao c\u00e9u, juntou as m\u00e3os e agradeceu a Deus, chamando-O de sua for\u00e7a, sua paci\u00eancia e sua virtude, e orando para que aceitasse seu sangue que havia sido derramado pela observ\u00e2ncia de Seu mandamento e em rever\u00eancia a Seu Filho, atrav\u00e9s do qual ela acreditava firmemente que todos os seus pecados haviam sido lavados e apagados da lembran\u00e7a de Sua ira.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto pronunciava as palavras: \u201cSenhor, recebe a alma que foi redimida por Tua bondade\u201d, ela caiu com o rosto no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seguida, o criminoso lhe desferiu v\u00e1rios golpes e, quando ela perdeu a fala e a for\u00e7a do corpo e n\u00e3o conseguiu mais se defender, ele a violentou<a href=\"#_ftn38\" id=\"_ftnref38\">[38]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de satisfazer assim sua lux\u00faria perversa, ele fugiu apressadamente e, apesar de todas as buscas, nunca mais foi visto.<\/p>\n\n\n\n<p>A menina, que estava na cama com a esposa do tropeiro, havia se escondido sob a cama, assustada; mas, ao ver que o homem havia ido embora, ela se aproximou de sua senhora. Encontrando-a sem fala e movimento, chamou os vizinhos pela janela para pedir socorro; e, como amavam e estimavam sua senhora tanto quanto qualquer mulher da cidade, vieram imediatamente, trazendo cirurgi\u00f5es com eles. Estes encontraram que ela havia recebido vinte e cinco ferimentos mortais em seu corpo e, embora tentassem fazer o que podiam para ajud\u00e1-la, tudo foi em v\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, ela sobreviveu por mais uma hora sem falar, mas fazendo sinais com os olhos e as m\u00e3os para mostrar que n\u00e3o havia perdido a compreens\u00e3o. Perguntada por um padre em que f\u00e9 ela morria, ela respondeu, com sinais t\u00e3o claros quanto qualquer discurso, que depositava sua esperan\u00e7a de salva\u00e7\u00e3o somente em Jesus Cristo; e assim, com o semblante alegre e os olhos voltados para o c\u00e9u, seu corpo casto entregou sua alma ao Criador.<\/p>\n\n\n\n<p>Justamente quando o cad\u00e1ver, tendo sido preparado e envolto<a href=\"#_ftn39\" id=\"_ftnref39\">[39]<\/a>, foi colocado \u00e0 porta para aguardar a companhia para o sepultamento, o pobre marido chegou e viu o corpo de sua esposa em frente \u00e0 sua casa, antes mesmo de ter recebido not\u00edcias de sua morte. Ele perguntou a causa disso e descobriu que tinha motivos duplos para lamentar; e seu sofrimento foi t\u00e3o grande que quase o matou.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta m\u00e1rtir da castidade foi enterrada na Igreja de S\u00e3o Florentin, e, como era seu dever, todas as mulheres virtuosas de Amboise n\u00e3o deixaram de prestar-lhe todas as honras poss\u00edveis, considerando-se afortunadas por pertencerem a uma cidade onde uma mulher t\u00e3o virtuosa havia sido encontrada. E vendo a honra prestada \u00e0 falecida, as mulheres que eram libertinas e impuras resolveram emendar suas vidas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEsta, senhoras, \u00e9 uma hist\u00f3ria verdadeira, que deve nos inclinar mais fortemente a preservar a bela virtude da castidade. N\u00f3s, que somos de sangue nobre, dever\u00edamos morrer de vergonha ao sentir em nossos cora\u00e7\u00f5es aquela lux\u00faria mundana da qual a pobre esposa do tropeiro n\u00e3o hesitou em enfrentar uma morte t\u00e3o cruel. Algumas se consideram mulheres virtuosas que nunca, como esta, resistiram at\u00e9 o derramamento de sangue. \u00c9 adequado que devemos nos humilhar, pois Deus n\u00e3o concede Sua gra\u00e7a aos homens por seu nascimento ou riquezas, mas conforme Sua pr\u00f3pria boa vontade. Ele n\u00e3o faz acep\u00e7\u00e3o de pessoas, mas escolhe de acordo com Seu prop\u00f3sito; e aqueles que Ele escolhe, Ele honra com todas as virtudes. E frequentemente, Ele escolhe os humildes para confundir aqueles que o mundo exalta e honra; pois, como Ele mesmo nos disse: \u2018N\u00e3o devemos nos regozijar em nossos m\u00e9ritos, mas sim porque nossos nomes est\u00e3o escritos no Livro da Vida, do qual nem a morte, nem o inferno, nem o pecado podem apag\u00e1-los.\u2019\u201d<a href=\"#_ftn40\" id=\"_ftnref40\">[40]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o havia uma \u00fanica dama no grupo que n\u00e3o tivesse l\u00e1grimas de compaix\u00e3o nos olhos pela morte triste e gloriosa da esposa do tropeiro. Cada uma pensava consigo mesma que, caso a fortuna lhe concedesse a mesma sorte, se esfor\u00e7aria para imitar aquela pobre mulher em seu mart\u00edrio. Oisille, por\u00e9m, percebendo que o tempo estava sendo perdido elogiando a falecida, disse a Saffredent:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA menos que voc\u00ea possa nos contar algo que fa\u00e7a o grupo rir, creio que nenhuma delas me perdoar\u00e1 pelo erro que cometi ao faz\u00ea-las chorar; portanto, dou meu voto para que voc\u00ea conte a terceira hist\u00f3ria.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Saffredent, que teria gostado de narrar algo agrad\u00e1vel para o grupo, e acima de tudo para uma das damas, disse que n\u00e3o era sua vez de falar, visto que havia outros mais velhos e mais instru\u00eddos do que ele, que deveriam, por direito, falar primeiro. No entanto, uma vez que a escolha reca\u00edra sobre ele, preferia terminar logo, pois quanto mais numerosos fossem os bons narradores antes dele, pior pareceria a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><a>Conto III. A rainha de N\u00e1poles<\/a><\/h3>\n\n\n\n<p><em>A rainha de N\u00e1poles, ao ser injusti\u00e7ada pelo rei Alfonso, seu marido, vingou-se com um cavalheiro cuja esposa era amante do rei; e esse relacionamento durou toda a vida de ambos, sem que o rei suspeitasse disso em momento algum<a id=\"_ftnref41\" href=\"#_ftn41\"><strong>[41]<\/strong><\/a>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Tenho muitas vezes desejado, senhoras, compartilhar a boa sorte do homem cuja hist\u00f3ria estou prestes a relatar a voc\u00eas. Saibam que, na \u00e9poca do rei Alfonso<a href=\"#_ftn42\" id=\"_ftnref42\">[42]<\/a>, cujo desejo era o cetro de seu reino<a href=\"#_ftn43\" id=\"_ftnref43\">[43]<\/a>, vivia na cidade de N\u00e1poles um cavalheiro t\u00e3o honrado, atraente e agrad\u00e1vel que suas perfei\u00e7\u00f5es levaram um velho cavalheiro a dar-lhe sua filha em casamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela rivalizava com o marido em gra\u00e7a e beleza, e havia grande amor entre eles, at\u00e9 um certo dia durante o Carnaval, quando o Rei saiu mascarado de casa em casa. Todos se esfor\u00e7avam para lhe dar a melhor recep\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, mas quando ele chegou \u00e0 casa deste cavalheiro, foi recebido melhor do que em qualquer outro lugar, com doces, cantores, m\u00fasica e, al\u00e9m disso, a mulher mais bela que, na opini\u00e3o dele, ele havia visto. Ao final do banquete, ela cantou uma can\u00e7\u00e3o com o marido de forma t\u00e3o graciosa que parecia ainda mais bonita.<\/p>\n\n\n\n<p>O Rei, percebendo tantas perfei\u00e7\u00f5es reunidas em uma s\u00f3 pessoa, n\u00e3o ficou muito satisfeito com a harmonia gentil entre o marido e a esposa e ponderou sobre como poderia destru\u00ed-la. A principal dificuldade que encontrou foi o grande afeto que observou entre eles, e por isso escondeu sua paix\u00e3o no cora\u00e7\u00e3o o mais profundamente poss\u00edvel. Para aliviar-se um pouco, deu muitos banquetes aos senhores e damas de N\u00e1poles, e, nesses eventos, o cavalheiro e sua esposa n\u00e3o foram esquecidos. Agora, na medida em que os homens acreditam facilmente no que desejam, parecia ao Rei que os olhares desta dama lhe prometiam um futuro feliz, se ela n\u00e3o fosse restringida pela presen\u00e7a do marido. Assim, para descobrir se sua suposi\u00e7\u00e3o era verdadeira, o Rei confiou uma miss\u00e3o ao marido e enviou-o em uma viagem a Roma por quinze dias ou tr\u00eas semanas.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim que o cavalheiro partiu, sua esposa, que nunca antes havia sido separada dele, ficou em grande ang\u00fastia; mas o Rei a confortou sempre que p\u00f4de, com persuas\u00f5es gentis e presentes, de modo que, por fim, ela n\u00e3o apenas foi consolada, mas tamb\u00e9m ficou bem satisfeita com a aus\u00eancia do marido. Antes que as tr\u00eas semanas terminassem, quando ele deveria voltar para casa, ela havia se apaixonado tanto pelo Rei que o retorno do marido foi t\u00e3o desagrad\u00e1vel para ela quanto sua partida havia sido. N\u00e3o querendo ser privada da companhia do Rei, ela concordou com ele que, sempre que o marido fosse para sua casa de campo, ela o avisaria. Assim, ele poderia visit\u00e1-la com seguran\u00e7a e com tal segredo que sua honra, que ela valorizava mais do que sua consci\u00eancia, n\u00e3o sofreria<a href=\"#_ftn44\" id=\"_ftnref44\">[44]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Tendo essa esperan\u00e7a, a dama continuou com o esp\u00edrito muito alegre, e quando o marido chegou, ela o recebeu com tanto ardor que, mesmo que lhe dissessem que o Rei a havia procurado na sua aus\u00eancia, ele n\u00e3o teria suspeitado de nada. Com o tempo, por\u00e9m, a chama, que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil de esconder, come\u00e7ou a se manifestar, e o marido, tendo uma forte intui\u00e7\u00e3o da verdade, manteve uma vigil\u00e2ncia rigorosa, o que o levou a quase estar convencido. No entanto, como temia que o homem que o havia prejudicado o tratasse ainda pior se aparentasse notar isso, resolveu dissimular, achando melhor viver com o inc\u00f4modo do que arriscar sua vida por uma mulher que havia deixado de am\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Na sua irrita\u00e7\u00e3o, decidiu, se pudesse, retaliar contra o Rei, e sabendo que as mulheres, especialmente aquelas de mentes nobres e honor\u00e1veis, s\u00e3o mais movidas pelo ressentimento do que pelo amor, teve a aud\u00e1cia, um dia, enquanto conversava com a Rainha<a href=\"#_ftn45\" id=\"_ftnref45\">[45]<\/a>, de lhe dizer que o movia \u00e0 piedade v\u00ea-la t\u00e3o pouco amada pelo Rei.<\/p>\n\n\n\n<p>A Rainha, que tinha ouvido falar da afei\u00e7\u00e3o existente entre o Rei e a esposa do cavalheiro, respondeu:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o posso ter tanto a honra quanto o prazer juntos. Sei bem que tenho a honra enquanto outra tem o prazer; e da mesma forma, aquela que tem o prazer n\u00e3o tem a honra que \u00e9 minha.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o o cavalheiro, que compreendeu perfeitamente a quem essas palavras eram dirigidas, respondeu:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSenhora, a honra \u00e9 inata em voc\u00ea, pois sua linhagem \u00e9 tal que nenhum t\u00edtulo, seja de rainha ou imperatriz, poderia aumentar a sua nobreza; ainda assim, sua beleza, gra\u00e7a e virtude merecem muito prazer, e quem a priva do que \u00e9 seu faz um mal maior a si mesma do que a voc\u00ea, pois, por uma gl\u00f3ria que se volta para sua vergonha, ela perde tanto prazer quanto voc\u00ea ou qualquer dama do reino poderia desfrutar. Posso lhe dizer, senhora, que se o Rei deixasse de lado sua coroa, ele n\u00e3o teria nenhuma vantagem sobre mim para satisfazer uma dama; ao contr\u00e1rio, estou certo de que, para contentar uma pessoa t\u00e3o digna quanto voc\u00ea, ele realmente ficaria satisfeito em trocar seu temperamento pelo meu.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A Rainha riu e respondeu:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO Rei pode ter um temperamento menos vigoroso que o seu, mas o amor que ele me dedica me satisfaz bem, e eu prefiro isso a qualquer outro.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSenhora,\u201d disse o cavaleiro, \u201cse assim fosse, eu n\u00e3o teria pena de voc\u00ea. Tenho certeza de que voc\u00ea ficaria bem satisfeita se encontrasse no cora\u00e7\u00e3o do Rei um amor semelhante ao seu; mas Deus o retirou de voc\u00ea para que, ao n\u00e3o encontrar o que deseja em seu marido, voc\u00ea n\u00e3o o fa\u00e7a seu deus na terra.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cConfesso a voc\u00ea,\u201d disse a Rainha, \u201cque o amor que sinto por ele \u00e9 t\u00e3o grande que n\u00e3o se poderia encontrar algo semelhante em nenhum outro cora\u00e7\u00e3o al\u00e9m do meu.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPerdoe-me, senhora,\u201d disse o cavalheiro; \u201cvoc\u00ea n\u00e3o conhece o amor de todos os cora\u00e7\u00f5es. Serei ousado em lhe dizer que voc\u00ea \u00e9 amada por algu\u00e9m cujo amor \u00e9 t\u00e3o grande e imensur\u00e1vel que o seu pr\u00f3prio amor \u00e9 nada comparado a isso. Quanto mais ele percebe que o amor do Rei falha com voc\u00ea, mais o seu pr\u00f3prio amor cresce e se aumenta, a ponto de, se assim for de seu desejo, voc\u00ea poder ser recompensada por tudo o que perdeu.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A Rainha come\u00e7ou a perceber, tanto pelas palavras quanto pela express\u00e3o do cavalheiro, que o que ele dizia vinha do fundo de seu cora\u00e7\u00e3o. Lembrou-se tamb\u00e9m de que h\u00e1 muito tempo ele havia buscado com tanto zelo servi-la que havia ca\u00eddo em tristeza. At\u00e9 ent\u00e3o, ela havia pensado que isso se devia \u00e0 sua esposa, mas agora estava firmemente convencida de que era por amor a ela. Al\u00e9m disso, a pr\u00f3pria qualidade do amor, que se imp\u00f5e a ser reconhecido quando \u00e9 genu\u00edno, fez com que ela se sentisse certa sobre o que tinha sido ocultado de todos. Ao olhar para o cavalheiro, que era muito mais digno de ser amado do que seu marido, refletiu que ele era abandonado por sua esposa, assim como ela mesma era pelo Rei; e ent\u00e3o, tomada pela irrita\u00e7\u00e3o e ci\u00fames contra seu marido, bem como movida pelo amor do cavalheiro, come\u00e7ou com suspiros e olhos lacrimejantes a dizer:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAh, eu! Ser\u00e1 que a vingan\u00e7a prevalecer\u00e1 onde o amor n\u00e3o teve efeito?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O cavalheiro, que entendeu o que essas palavras significavam, respondeu:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cVingan\u00e7a, senhora, \u00e9 doce quando, em vez de matar um inimigo, d\u00e1 vida a um verdadeiro amante<a href=\"#_ftn46\" id=\"_ftnref46\">[46]<\/a>. Penso que \u00e9 hora de a verdade fazer com que voc\u00ea abandone o amor tolo que sente por algu\u00e9m que n\u00e3o a ama, e que um amor justo e razo\u00e1vel afaste o medo, que n\u00e3o pode residir em um cora\u00e7\u00e3o nobre e virtuoso. Venha, senhora, deixemos de lado a grandeza de sua posi\u00e7\u00e3o e consideremos que, entre todos os homens e mulheres do mundo, somos os mais enganados, tra\u00eddos e zombados por aqueles que mais verdadeiramente amamos. Vinguemo-nos, senhora, n\u00e3o tanto para retribu\u00ed-los como merecem, mas para satisfazer esse amor que, por minha pr\u00f3pria parte, n\u00e3o posso continuar a suportar e viver. E penso que, a menos que seu cora\u00e7\u00e3o seja mais duro que granito ou diamante, voc\u00ea n\u00e3o pode deixar de sentir alguma fa\u00edsca dos fogos que s\u00f3 aumentam quanto mais eu busco ocult\u00e1-los. Se a pena por mim, que estou morrendo de amor por voc\u00ea, n\u00e3o a mover para me amar, pelo menos a pena por si mesma deveria. Voc\u00ea \u00e9 t\u00e3o perfeita que merece conquistar o cora\u00e7\u00e3o de todo homem honrado do mundo, e ainda assim \u00e9 desprezada e abandonada por aquele por quem voc\u00ea menosprezou todos os outros.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ao ouvir essas palavras, a Rainha ficou t\u00e3o profundamente comovida que, com medo de mostrar no seu semblante a ang\u00fastia de sua mente, tomou o bra\u00e7o do cavalheiro e dirigiu-se a um jardim pr\u00f3ximo ao seu apartamento. L\u00e1, ela andou para l\u00e1 e para c\u00e1 por um longo tempo, sem conseguir dizer uma palavra a ele. O cavalheiro percebeu que ela estava quase conquistada, e quando chegaram ao final do caminho, onde ningu\u00e9m poderia v\u00ea-los, fez uma declara\u00e7\u00e3o muito completa do amor que havia escondido dela por tanto tempo. Descobriram que estavam de acordo quanto ao assunto e concretizaram a vingan\u00e7a<a href=\"#_ftn47\" id=\"_ftnref47\">[47]<\/a> que n\u00e3o podiam mais adiar. Al\u00e9m disso, concordaram que sempre que o marido fosse para o campo e o Rei deixasse o castelo para visitar a esposa na cidade, o cavalheiro deveria sempre voltar e ir ao castelo para ver a Rainha. Assim, os enganadores, sendo eles mesmos enganados, compartilhariam todos os prazeres que dois deles haviam pensado em manter para si.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o acordo foi feito, a Rainha voltou para seu apartamento e o cavalheiro para sua casa, ambos t\u00e3o satisfeitos que haviam esquecido todos os problemas anteriores. O ci\u00fame que haviam sentido anteriormente com as visitas do Rei \u00e0 dama foi transformado em desejo, de modo que o cavalheiro ia mais frequentemente do que o habitual para sua casa no campo, que ficava apenas meia l\u00e9gua de dist\u00e2ncia. Assim que o Rei soube de sua partida, nunca deixava de ir ver a dama; e o cavalheiro, quando a noite chegava, ia ao castelo para encontrar a Rainha, onde cumpria seu dever como tenente do Rei, de forma t\u00e3o secreta que ningu\u00e9m jamais descobriu.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse modo de vida durou um longo tempo; mas como o Rei era uma pessoa de posi\u00e7\u00e3o p\u00fablica, n\u00e3o conseguia esconder seu amor suficientemente bem para evitar que acabasse vindo ao conhecimento de todos; e todas as pessoas honor\u00e1veis sentiam grande pena do cavalheiro, embora v\u00e1rios jovens maliciosos costumassem zombar dele fazendo chifres nas suas costas. Mas ele sabia das zombarias e isso lhe dava grande prazer, de modo que passou a considerar seus chifres com a mesma estima que a coroa do Rei.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dia, por\u00e9m, o Rei e a esposa do cavalheiro, ao notarem uma cabe\u00e7a de cervo que estava exposta na casa do cavalheiro, n\u00e3o puderam se conter e riram, dizendo que a cabe\u00e7a era adequada para a casa. Pouco depois, o cavalheiro, que n\u00e3o era menos espirituoso que o Rei, mandou escrever as seguintes palavras sobre a cabe\u00e7a do cervo: \u2013 \u201cIo porto le corna, ciascun lo vede, Ma tal le porta che no lo crede.\u201d<a href=\"#_ftn48\" id=\"_ftnref48\">[48]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Quando o Rei voltou \u00e0 casa, ele observou essas linhas rec\u00e9m-escritas e perguntou ao cavalheiro o seu significado, que respondeu:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSe o segredo do Rei est\u00e1 oculto para o s\u00fadito, n\u00e3o \u00e9 apropriado que o segredo do s\u00fadito seja revelado ao Rei. Contentai-vos em saber que aqueles que carregam chifres nem sempre t\u00eam seus chap\u00e9us levantados da cabe\u00e7a. Alguns chifres s\u00e3o t\u00e3o suaves que nunca desencaixam um chap\u00e9u, e s\u00e3o especialmente leves para aquele que pensa que n\u00e3o os tem.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O Rei percebeu por essas palavras que o cavalheiro sabia algo sobre seu pr\u00f3prio comportamento, mas nunca teve suspeita do amor entre ele e a Rainha; pois quanto mais satisfeita a Rainha estava com a vida que seu marido levava, mais ela fingia estar angustiada com isso. E assim, de ambos os lados, viveram esse amor at\u00e9 que, finalmente, a velhice os alcan\u00e7ou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAqui, senhoras, est\u00e1 uma hist\u00f3ria pela qual podeis ser guiadas, pois, como confesso de bom grado, ela vos mostra que, quando vosso marido vos d\u00e1 chifres de veado, podeis dar-lhe chifres de cervo em troca.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTenho certeza, Saffredent,\u201d come\u00e7ou Ennasuite rindo, \u201cque se ainda am\u00e1sseis com a ard\u00eancia que costum\u00e1veis, submeter\u00edeis a chifres t\u00e3o grandes quanto carvalhos se apenas pud\u00e9sseis retribu\u00ed-los como desej\u00e1sseis. No entanto, agora que vosso cabelo est\u00e1 ficando grisalho, \u00e9 hora de deixar vossos desejos em paz.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cBela dama,\u201d disse Saffredent, \u201cembora eu esteja privado de esperan\u00e7a pela mulher que amo, e de ardor pela velhice, n\u00e3o est\u00e1 em meu poder enfraquecer minha inclina\u00e7\u00e3o. J\u00e1 que me censurastes por um desejo t\u00e3o honroso, dou-vos meu voto para contar a quarta hist\u00f3ria, para que possamos ver se podeis apresentar algum exemplo para refutar-me.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Durante essa conversa, uma das damas come\u00e7ou a rir muito, sabendo que a que tomou as palavras de Saffredent para si n\u00e3o era t\u00e3o amada por ele a ponto de ele sofrer chifres, vergonha ou injusti\u00e7a por causa dela. Quando Saffredent percebeu que a dama que riu o entendia, ficou bem satisfeito e silenciou-se, para que Ennasuite pudesse come\u00e7ar; e assim ela fez, como segue:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPara que Saffredent e o resto da companhia saibam que nem todas as damas s\u00e3o como a Rainha de que ele falou, e que nem todos os homens temer\u00e1rios e aventureiros alcan\u00e7am seus objetivos, contarei uma hist\u00f3ria na qual vos revelarei a opini\u00e3o de uma dama que considerava a frustra\u00e7\u00e3o no amor mais dif\u00edcil de suportar do que a pr\u00f3pria morte. No entanto, n\u00e3o darei nomes, porque os eventos s\u00e3o t\u00e3o recentes na mente das pessoas que temeria ofender alguns que est\u00e3o pr\u00f3ximos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> H\u00e1 nada menos que vinte e seis fontes em Cauterets, sendo as \u00e1guas de car\u00e1ter sulfuroso ou salino. Os banhos de lama mencionados por Margarida eram tomados antigamente na fonte de <em>Cesar Vieux<\/em>, a meio caminho do Monte Peyraute, e assim chamados devido a uma tradi\u00e7\u00e3o de que J\u00falio C\u00e9sar se banhava ali. \u00c9 pelo menos certo que esses banhos eram conhecidos pelos romanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Cauterets \u00e9 frequentemente mencionado pelos autores antigos, e Rabelais se refere a ele nesta passagem: \u201cA urina de Pantagruel era t\u00e3o quente que, desde aquela \u00e9poca, n\u00e3o esfriou mais, e h\u00e1 um pouco dela na Fran\u00e7a, em diversos lugares, em Coderetz, Limous, Dast, Ballerue, Bourbonne e outros\u201d (Livro ii. cap. xxxiii.).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Os bascos d\u00e3o o nome de Gave aos cursos de \u00e1gua que se tornam torrentes em determinadas esta\u00e7\u00f5es. O Gave de Bearn, assim chamado porque passa pelo territ\u00f3rio da antiga cidade de Bearn, nasce nos Pirineus e passa por Pau at\u00e9 Sorde, onde se junta ao Adour, que des\u00e1gua no mar em Bayonne. Atualmente, \u00e9 conhecido como o Gave de Pau.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> A Abadia de Nossa Senhora de Serrance, mais corretamente conhecida como Sarrances, localizada no vale de Aspe, era habitada por monges da Ordem de Pr\u00e9montr\u00e9, sob a prote\u00e7\u00e3o de Santa Maria. Ap\u00f3s uma apari\u00e7\u00e3o da Virgem nas proximidades, peregrina\u00e7\u00f5es a Sarrances foram realizadas nas festas de sua natividade (8 de setembro) e de sua assun\u00e7\u00e3o (15 de agosto). Em 1385, Gaston de Foix, que muito contribuiu para a riqueza da abadia, construiu uma resid\u00eancia nas proximidades, seguida pelo exemplo de outras fam\u00edlias nobres, como os Gramonts e os Miollens. As peregrina\u00e7\u00f5es ganharam grande notoriedade no s\u00e9culo XV, especialmente quando Lu\u00eds XI visitou Sarrances acompanhado de seu m\u00e9dico Coictier. No entanto, em 1569, a abadia foi saqueada e incendiada pelos huguenotes, juntamente com a resid\u00eancia real e outras moradias. Os monges que conseguiram escapar das chamas foram mortos \u00e0 espada.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> A Abadia de Saint-Savin de Tarbes, localizada entre Argel\u00e8z e Pierrefitte, no antigo condado de Lavedan, foi fundada por Carlos Magno. Conta-se que o Paladino Roland matou os gigantes Alabaster e Passamont em agradecimento pela hospitalidade dos monges. A abadia recebeu o nome de uma crian\u00e7a, filho de um conde de Barcelona, que viveu como eremita e realizou milagres na regi\u00e3o. Por volta de 1100, o papa, apoiando o povo do vale de Aspe em uma disputa contra o abade de Saint-Savin, emitiu uma bula que proibia as mulheres de Lavedan de conceber por sete anos, e o mesmo se aplicava aos animais e \u00e1rvores. Ap\u00f3s seis anos, o abade se comprometeu a pagar um tributo anual a Aspe, o qual foi pago at\u00e9 a Revolu\u00e7\u00e3o de 1789. A abadia tinha o direito \u00e0 esp\u00e1dua direita de cada veado, javali e camur\u00e7a-dos-Pirineus morto no vale, al\u00e9m de receber trutas, queijos e flores, sendo estas entregues ao abade, que beijava a mais bela donzela de Argel\u00e8z. Entre os privil\u00e9gios dos monges estava o de ter suas camas arrumadas pelas jovens da vizinhan\u00e7a em dias festivos. No s\u00e9culo X, Raymond de Bigorre doou o vale de Cauterets \u00e0 abadia, com a condi\u00e7\u00e3o de que uma igreja fosse constru\u00edda e casas fossem mantidas para o uso das termas. Em 1290, Eduardo III da Inglaterra confirmou a posse de Cauterets aos monges. Em 1316, quando os habitantes da vila quiseram mudar sua situa\u00e7\u00e3o, o abade consentiu, mas uma mulher vetou a decis\u00e3o (todas as mulheres tinham direito a voto), frustrando o plano. A abadia obtinha uma renda significativa de Cauterets, alugando banhos e casas aos visitantes, conforme comprovam os contratos de 1617 e 1697 nos arquivos de Pau. Na \u00e9poca da rainha Margarida, a abadia era muito rica; o abade mencionado, segundo Le Roux de Lincy, era provavelmente Raymond de Fontaine, que governou de 1534 a 1540, sob a autoridade dos abades comendadores Anthoine de Rochefort e Nicolas Dangu, bispo de S\u00e9es. Alguns comentaristas do <em>Heptamer\u00e3o<\/em> acreditam que este \u00faltimo foi o \u201cDagoucin\u201d, contador de v\u00e1rias hist\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> Em duas c\u00f3pias manuscritas do <em>Heptamer\u00e3o<\/em> na <em>Biblioth\u00e8que Nationale<\/em>, Paris, numeradas respectivamente em 1520 e 1524, ap\u00f3s as palavras \u201cn\u00e3o com os homens\u201d, segue-se \u201cnos homens h\u00e1 alguma miseric\u00f3rdia, mas nos animais nenhuma\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[6]<\/a> Peyrechitte \u00e9 evidentemente uma refer\u00eancia a Pierrefitte, um vilarejo na margem esquerda do Gave, entre Argel\u00e8z e Cauterets.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\">[7]<\/a> Essa igreja ainda existe, com um estilo predominantemente rom\u00e2nico e quase sem ornamenta\u00e7\u00e3o. No entanto, h\u00e1 algumas pinturas antigas que retratam os milagres de Saint-Savin, e o t\u00famulo do santo, preservado at\u00e9 hoje, teria aproximadamente mil e duzentos anos. O vilarejo se organiza em torno da igreja, formando uma rua larga cercada por casas do s\u00e9culo XV, que Margarida e seus amigos provavelmente contemplaram durante sua visita.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\" id=\"_ftn8\">[8]<\/a> De acordo com o manuscrito 1520 (<em>Bib. Nat.<\/em>, Paris), o abade tamb\u00e9m forneceu a eles os melhores cavalos de Lavedan e boas capas de Bearn. Os cavalos de Lavedan eram famosos por sua velocidade e esp\u00edrito, e a capa de Bearn era uma vestimenta com capuz.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref9\" id=\"_ftn9\">[9]<\/a> Os reis de Navarra foram por dois s\u00e9culos senhores de Bearn, mas Bearn ainda mantinha seus antigos costumes e tinha seu governo especial. O senhor de Bearn a que nos referimos aqui era Henry d\u2019Albret, o segundo marido de Margarida.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref10\" id=\"_ftn10\">[10]<\/a> Margaret lia parte das Escrituras todos os dias, afirmando que a leitura preservava a pessoa \u201cde todos os tipos de males e tenta\u00e7\u00f5es diab\u00f3licas\u201d (<em>Histoire de Foix, Btarn, et Navarre<\/em>, de P. Olhagaray, Paris, 1609. p. 502).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref11\" id=\"_ftn11\">[11]<\/a> Margarida faz refer\u00eancia \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o francesa do Decamer\u00e3o, realizada por seu secret\u00e1rio Anthoine le Ma\u00e7on e publicada pela primeira vez em Paris em 1545. De Lincy e Montaiglon acreditam, portanto, que o pr\u00f3logo do <em>Heptamer\u00e3o<\/em> foi escrito ap\u00f3s essa data. No entanto, Dillaye afirma que a tradu\u00e7\u00e3o de Le Ma\u00e7on j\u00e1 circulava na Corte em manuscrito muito antes de ser impressa. Essa alega\u00e7\u00e3o \u00e9, em parte, confirmada pela dedicat\u00f3ria de Le Ma\u00e7on a Margarida, cujas passagens mais relevantes est\u00e3o inclu\u00eddas no <em>Ap\u00eandice ao Pr\u00f3logo<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref12\" id=\"_ftn12\">[12]<\/a> O Delfim mencionado \u00e9 o segundo filho de Francisco I, que mais tarde se tornaria Henrique II. Ele assumiu o t\u00edtulo de Delfim ap\u00f3s a morte de seu irm\u00e3o mais velho em 10 de agosto de 1536. A Delfina \u00e9 Catarina de M\u00e9dici, esposa de Henrique, com quem se casou em 1533. J\u00e1 Madame Margarida, segundo Montaiglon, seria a pr\u00f3pria rainha de Navarra, frequentemente chamada assim na corte de seu irm\u00e3o. No entanto, Dillaye discorda, argumentando que a rainha n\u00e3o elogiaria a si mesma de forma t\u00e3o expl\u00edcita e que, na verdade, ela se referia \u00e0 sua sobrinha, Margarida de Berry, nascida em 1523 e casada com o duque de Saboia.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref13\" id=\"_ftn13\">[13]<\/a> O parto mencionado \u00e9 o de Catarina de M\u00e9dici, que, ap\u00f3s permanecer sem filhos durante dez anos de casamento, deu \u00e0 luz um filho, posteriormente Francisco II, em janeiro de 1543. A paz anteriormente mencionada parece ter sido aquela assinada em Crespy em setembro de 1544. No entanto, tanto Montaiglon quanto Dillaye opinam que uma ou duas palavras est\u00e3o faltando no manuscrito e que Margarida pretendia sugerir o rompimento da paz em 1543, quando Henrique VIII se aliou ao imperador Carlos V contra Francisco I.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref14\" id=\"_ftn14\">[14]<\/a> Essa passagem indica claramente que a rainha pretendia escrever um Decamer\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref15\" id=\"_ftn15\">[15]<\/a> Alus\u00e3o \u00e0s imagens, medalhas e braceletes sacros que as pessoas traziam consigo das peregrina\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref16\" id=\"_ftn16\">[16]<\/a> Naquela \u00e9poca, dez horas era o hor\u00e1rio do almo\u00e7o da Corte. Cinquenta anos antes, as pessoas costumavam almo\u00e7ar \u00e0s oito da manh\u00e3. Lu\u00eds XII, entretanto, mudou o hor\u00e1rio de suas refei\u00e7\u00f5es para agradar sua esposa, Maria da Inglaterra, acostumada a jantar ao meio-dia.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref17\" id=\"_ftn17\">[17]<\/a> Os t\u00edtulos n\u00e3o existem na edi\u00e7\u00e3o original do <em>Heptamer\u00e3o<\/em>. Foram dados para esta edi\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref18\" id=\"_ftn18\">[18]<\/a> Os incidentes dessa hist\u00f3ria s\u00e3o hist\u00f3ricos e ocorreram em Alen\u00e7on e Paris entre 1520 e 1525.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref19\" id=\"_ftn19\">[19]<\/a> O duque Charles aqui mencionado \u00e9 o primeiro marido de Margarida.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref20\" id=\"_ftn20\">[20]<\/a> S\u00e9es, ou S\u00e9ez, localizada no Orne, pr\u00f3xima a Alen\u00e7on e famosa por sua catedral g\u00f3tica, \u00e9 um dos bispados mais antigos da Normandia. H\u00e1 quem diga que Ricardo Cora\u00e7\u00e3o de Le\u00e3o fez penit\u00eancia nesse lugar e obteve absolvi\u00e7\u00e3o por sua conduta em rela\u00e7\u00e3o ao pai, Henrique II. Na \u00e9poca em quest\u00e3o, o bispo de S\u00e9es era Jaime de Silly. Seu pai, tamb\u00e9m chamado Jaime de Silly, era senhor de Lonray, Vaux-Pacey e outros locais, al\u00e9m de ser favorito e camareiro do rei Lu\u00eds XII. Em 1501, ele tornou-se mestre da artilharia da Fran\u00e7a. O segundo Jaime de Silly, nascido em Caen, foi ordenado bispo de S\u00e9es em 26 de fevereiro de 1511; al\u00e9m disso, ele tamb\u00e9m foi abade de St. Vigor e de St. Pierre-sur-Dives, onde restaurou e embelezou a igreja abacial. Em 1519, consagrou um convento para mulheres de origem nobre, fundado por Margarida e seu primeiro marido em Essey, a cerca de trinta quil\u00f4metros de Alen\u00e7on, cujas ru\u00ednas ainda s\u00e3o vis\u00edveis. Um ano depois, Francis Rometens dedicou a ele uma edi\u00e7\u00e3o das cartas de Pico della Mirandola. Jaime de Silly faleceu em 24 de abril de 1539, em Fleury-sur-Aiidell\u00e9, a aproximadamente vinte e cinco quil\u00f4metros de Rouen, sendo enterrado em sua igreja episcopal. Seu sucessor na S\u00e9 de S\u00e9es foi Nicolas Danguye, ou Dangu (um filho natural do Cardeal Duprat), com quem Frank tenta identificar Dagoucin, um dos narradores do <em>Heptamer\u00e3o<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref21\" id=\"_ftn21\">[21]<\/a> Essa era, obviamente, a pr\u00f3pria Margarida.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref22\" id=\"_ftn22\">[22]<\/a> Gilles du Mesnil, tenente-general do bailio presidencial e bailiado de Alen\u00e7on.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref23\" id=\"_ftn23\">[23]<\/a> Argentan, no Orne, a pouco mais de quarenta quil\u00f4metros de Alen\u00e7on, tinha sido um viscondado distinto, mas nesse per\u00edodo pertencia ao ducado de Alen\u00e7on.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref24\" id=\"_ftn24\">[24]<\/a> O nome de <em>jacobinos<\/em> havia sido dado aos monges da Ordem Dominicana, alguns dos quais tinham um mosteiro nos sub\u00farbios de Argentan.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref25\" id=\"_ftn25\">[25]<\/a> Naquela \u00e9poca, era comum que as pessoas buscassem abrigo em igrejas, mosteiros e conventos, embora houvesse pouco respeito pelos refugiados. Muitas vezes, seus esconderijos eram cercados, o que os deixava sem comida e os for\u00e7ava a se render. Ap\u00f3s um decreto de 1515 que restringiu consideravelmente esse direito, Francisco I aboliu o direito de ref\u00fagio em 1539.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref26\" id=\"_ftn26\">[26]<\/a> As prostitutas eram proibidas de testemunhar nos tribunais franceses nessa \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref27\" id=\"_ftn27\">[27]<\/a> Henrique VIII.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref28\" id=\"_ftn28\">[28]<\/a> Francisco I.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref29\" id=\"_ftn29\">[29]<\/a> As cartas de remiss\u00e3o que foram concedidas a St. Aignan nessa ocasi\u00e3o podem ser encontradas no Ap\u00eandice do Conto I. Deve-se notar que Margarida, em seu conto, d\u00e1 v\u00e1rios detalhes que St. Aignan n\u00e3o deixou de ocultar para obter seu perd\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref30\" id=\"_ftn30\">[30]<\/a> Trata-se da pr\u00e1tica supersticiosa conhecida como <em>envo\u00fbtement<\/em>, que, segundo L\u00e9on de Laborde, era amplamente reconhecida na Fran\u00e7a em 1316 e continuou at\u00e9 o s\u00e9culo XVI. Em 1330, o c\u00e9lebre Robert d\u2019Artois, ao se refugiar em Brabant, dedicou-se a espetar imagens de cera que representavam o rei Filipe VI, seu cunhado, e a rainha, sua irm\u00e3 (<em>M\u00e9moires de l\u2019Acad\u00e9mie des Inscriptions<\/em>, vol. xv, p. 426). Durante a Liga Cat\u00f3lica, ao final do s\u00e9culo XVI, os opositores de Henrique III e do rei de Navarra ressuscitaram essa pr\u00e1tica. Al\u00e9m disso, conforme um documento dos Manuscritos Harley (18.452, <em>Bib. Nat.<\/em> Paris), Cosmo Ruggieri, o astr\u00f3logo florentino e conselheiro \u00edntimo de Catarina de M\u00e9dici, foi acusado em 1574 de ter criado uma figura de cera com a inten\u00e7\u00e3o de lan\u00e7ar um feiti\u00e7o sobre Carlos IX.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref31\" id=\"_ftn31\">[31]<\/a> Jo\u00e3o Brinon, conselheiro do rei, presidente do Parlamento de Rouen, chanceler de Alen\u00e7on e Berry, al\u00e9m de senhor de Villaines (perto de Dreux), Remy e Athueuil (pr\u00f3ximo a Montfort-l\u2019Amaury), pertencia a uma antiga fam\u00edlia de funcion\u00e1rios judiciais. Ele era muito apreciado por Margarida, a quem se dirigiu em v\u00e1rias cartas, e esteve presente na assinatura do contrato de casamento dela com Henrique II de Navarra (<em>Lettres de Marguerite<\/em>, de G\u00e9nin, p. 444). Casou-se com Pernelle Perdrier, que lhe trouxe o senhorio de M\u00e9dan, perto de Poissy, al\u00e9m de outros feudos significativos, que ela presenteou ao rei ap\u00f3s sua morte. Seus m\u00e9ritos foram exaltados pelo poeta Le Chandelier, e Floquet, em sua Hist\u00f3ria do Parlamento da Normandia, afirma que Brinon prestou servi\u00e7os valiosos \u00e0 Fran\u00e7a como negociador na It\u00e1lia em 1521 e na Inglaterra em 1524. O <em>Journal d\u2019un Bourgeois de Paris<\/em> menciona que ele faleceu em Paris em 1528, aos quarenta e quatro anos, e foi sepultado na Igreja de Saint-S\u00e9verin. Segundo a <em>Biblioth\u00e8que Fran\u00e7oise de La Croix du Maine<\/em>, Brinon foi autor de um poema intitulado <em>Les Amours de Sydire<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref32\" id=\"_ftn32\">[32]<\/a> Lu\u00edsa de Savoy.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref33\" id=\"_ftn33\">[33]<\/a> Jo\u00e3o de la Barre, um favorito de Francisco I. O \u201cProvost de Paris\u201d refere-se ao oficial respons\u00e1vel pela administra\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a e pela seguran\u00e7a p\u00fablica na cidade de Paris durante o Antigo Regime franc\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref34\" id=\"_ftn34\">[34]<\/a> Esse trecho \u00e9 explicado por Henri Bouch\u00e9, que, em sua <em>Histoire Chronologique de Provence<\/em> (vol. ii, p. 554), afirma que, ap\u00f3s a viagem de cativeiro de Francisco I na Espanha, foi considerado conveniente para a Fran\u00e7a ter v\u00e1rias gal\u00e9s no Mediterr\u00e2neo. Assim, \u201cforam dadas ordens para a constru\u00e7\u00e3o de treze em Marselha \u2013 quatro para o Bar\u00e3o de Saint-Blancart, tantas para Andrea Doria, etc.\u201d O Bar\u00e3o de Saint-Blancart mencionado aqui era Bernard d\u2019Ormezan, Almirante dos mares do Levante, Conservador dos portos e da torre de Aigues-Mortes, al\u00e9m de General das gal\u00e9s do Rei. Em 1523, ele derrotou as for\u00e7as navais do Imperador Carlos V e, em 1525, conduziu Margarida at\u00e9 a Espanha.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref35\" id=\"_ftn35\">[35]<\/a> Os incidentes desta hist\u00f3ria provavelmente ocorreram em Amboise, ap\u00f3s o m\u00eas de agosto de 1530, quando Margarida deu \u00e0 luz seu filho Jo\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref36\" id=\"_ftn36\">[36]<\/a> Amboise se localiza na margem esquerda do Loire, e \u00e0 \u00e9poca n\u00e3o havia constru\u00e7\u00f5es na margem oposta. No entanto, a ponte sobre o rio cruza a ilha de S\u00e3o Jo\u00e3o, coberta por casas, e \u00e9 aqui que a esposa do carreteiro provavelmente residia.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref37\" id=\"_ftn37\">[37]<\/a> A Igreja de S\u00e3o Florentim mencionada n\u00e3o deve ser confundida com a de mesmo nome pr\u00f3xima a uma das entradas de Amboise. Erguida no s\u00e9culo X por Foulques Nera de Anjou, era uma igreja frequentada pelos habitantes da cidade, embora estivesse situada dentro dos limites do castelo. Por essa raz\u00e3o, a rainha Margarida a chama de \u201cigreja do castelo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref38\" id=\"_ftn38\">[38]<\/a> Brant\u00f4me, em seu relato sobre Maria, Rainha da Esc\u00f3cia, menciona esse conto. Ap\u00f3s descrever que o chefe ficou sozinho com o cad\u00e1ver decapitado da rainha, ele acrescenta: \u201cEle ent\u00e3o tirou os sapatos dela e a manipulou como quis. Suspeita-se que ele a tenha tratado da mesma forma que aquele infeliz tropeiro, nas <em>Cem Hist\u00f3rias da Rainha de Navarra<\/em>, tratou a pobre mulher que matou. Tenta\u00e7\u00f5es mais estranhas do que essa ocorrem aos homens. Depois que ele (o carrasco) fez o que quis, o corpo (da rainha) foi levado para um quarto ao lado do de seus servos.\u201d (<em>OEuvres de Brant\u00f4me<\/em>, de Lalanne, vol. vii, p. 438).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref39\" id=\"_ftn39\">[39]<\/a> \u00c0 \u00e9poca, as pessoas comuns eram enterradas em mortalhas, n\u00e3o em caix\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref40\" id=\"_ftn40\">[40]<\/a> O trecho n\u00e3o apresenta as palavras exatas da B\u00edblia, mas uma combina\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias passagens do Livro do Apocalipse.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref41\" id=\"_ftn41\">[41]<\/a> Trata-se de uma narrativa hist\u00f3rica que teria ocorrido em N\u00e1poles por volta de 1450.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref42\" id=\"_ftn42\">[42]<\/a> O rei mencionado nesta narrativa \u00e9 provavelmente Alfonso V, rei de Arag\u00e3o, nascido em 1385, que sucedeu seu pai, Fernando o Justo, em 1416. Ele j\u00e1 havia realizado diversas expedi\u00e7\u00f5es \u00e0 Sardenha e \u00e0 C\u00f3rsega quando, em 1421, Joana II de N\u00e1poles solicitou sua ajuda em um conflito contra Lu\u00eds de Anjou. Alfonso atendeu ao pedido e partiu para a It\u00e1lia, mas logo entrou em desaven\u00e7a com Joana, devido \u00e0 maneira como tratou seu amante, o Grande Senescal Caraccioli. Ao falecer em 1438, Joana deixou sua coroa a Renato, irm\u00e3o de Lu\u00eds de Anjou, cujas reivindica\u00e7\u00f5es Alfonso imediatamente contestou. Durante o cerco a Gaeta, ele foi derrotado e capturado, mas acabou libertado e retornou \u00e0 guerra. Em 1442, finalmente garantiu o controle de N\u00e1poles e for\u00e7ou Renato a deixar a It\u00e1lia. Desde ent\u00e3o, Alfonso nunca mais voltou \u00e0 Espanha, estabelecendo-se em seus dom\u00ednios italianos e adotando o t\u00edtulo de Rei das Duas Sic\u00edlias. Ele recebeu o ep\u00edteto de Magn\u00e2nimo por sua generosidade com alguns conspiradores, cuja lista rasgou sem ler, afirmando: \u201cMostrarei a esses nobres que me preocupo mais com suas vidas do que eles mesmos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O t\u00edtulo de O Aprendiz foi mais tarde atribu\u00eddo a ele, pois, assim como seu rival Ren\u00ea de Anjou, ele cultivava as letras e protegia muitos dos principais intelectuais da It\u00e1lia. Alfonso gostava de passear pelas ruas de N\u00e1poles sem acompanhantes, e certa vez, quando foi advertido sobre esse h\u00e1bito, respondeu: \u201cUm pai que anda entre seus filhos n\u00e3o tem motivo para temer.\u201d Embora tivesse muitas qualidades not\u00e1veis, Alfonso, como indicam Muratori e outros escritores, tamb\u00e9m possu\u00eda uma disposi\u00e7\u00e3o extremamente libertina. Sua falta de cren\u00e7a na fidelidade conjugal \u00e9 evidenciada por sua frase: \u201cPara garantir a felicidade dom\u00e9stica, o marido deve ser surdo e a esposa cega.\u201d Ele teve v\u00e1rias amantes e vivia em conflito com sua esposa. Morreu em 1458, aos setenta e quatro anos, deixando suas possess\u00f5es italianas a Fernando, Duque de Cal\u00e1bria, seu filho natural com uma espanhola chamada Margarida de Hijar. Adicionalmente, Brant\u00f4me faz uma breve alus\u00e3o a este conto do <em>Heptamer\u00e3o<\/em> em suas <em>Vies des Dames Galantes<\/em> (Disc. i.), descrevendo-a como \u201cmuito boa.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref43\" id=\"_ftn43\">[43]<\/a> Significa que ele usou sua autoridade de soberano para a realiza\u00e7\u00e3o de seus desejos amorosos.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref44\" id=\"_ftn44\">[44]<\/a> Segue-se aqui a edi\u00e7\u00e3o de 1558, pois os manuscritos s\u00e3o obscuros.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref45\" id=\"_ftn45\">[45]<\/a> Essa era Maria, filha de Henrique III de Castela, que se casou com o rei Alfonso em Val\u00eancia, no dia 29 de junho de 1415. O historiador espanhol Juan de Mariana relata que a cerim\u00f4nia foi realizada com grande pompa pelo cism\u00e1tico Papa Bento XIII. A noiva trouxe como dote 200.000 ducados e diversas posses territoriais. No entanto, o casamento foi infeliz devido \u00e0 natureza libertina de Alfonso, e h\u00e1 relatos de que a rainha estrangulou uma de suas amantes, Margarida de Hijar, em um acesso de ci\u00fame. Para evitar a interfer\u00eancia da esposa, Alfonso direcionou sua aten\u00e7\u00e3o para expedi\u00e7\u00f5es no exterior. Segundo os autores de <em>L\u2019Art de V\u00e9rifier les Dates<\/em>, a rainha Maria nunca esteve na It\u00e1lia, uma afirma\u00e7\u00e3o corroborada por Mariana, que indica que, enquanto Alfonso governava N\u00e1poles, sua esposa administrava o reino de Arag\u00e3o, envolvendo-se em guerras e assinando tr\u00e9guas e tratados de paz com Castela. Assim, no <em>Heptamer\u00e3o<\/em>, Margarida se desvia da precis\u00e3o hist\u00f3rica ao retratar a rainha como residente em N\u00e1poles ao lado do marido. Al\u00e9m disso, considerando a data do casamento de Maria, ela n\u00e3o poderia ser jovem quando Alfonso assegurou o trono napolitano. \u00c9 razo\u00e1vel supor que a rainha de Navarra alterou intencionalmente a cronologia de sua hist\u00f3ria e que os eventos mencionados realmente ocorreram na Espanha antes da partida de Alfonso para a It\u00e1lia. N\u00e3o h\u00e1 refer\u00eancia a Maria em testamento de seu marido, um documento not\u00e1vel que ainda existe. Uma carta que o Papa Calixto II escreveu a ela revela que, no final da vida, o rei desejava repudi\u00e1-la para se casar com uma amante italiana chamada Lucr\u00e9cia Al\u00e2nia. Esta \u00faltima foi a Roma para tratar da quest\u00e3o, mas o papa recusou-se a negociar com ela, escrevendo a Maria para que fosse prudente, mas afirmando que n\u00e3o dissolveria o casamento, para evitar que Deus o punisse por se envolver em um crime t\u00e3o grave. Maria faleceu alguns meses ap\u00f3s seu marido, em 1458, e foi enterrada em um convento em Val\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref46\" id=\"_ftn46\">[46]<\/a> Como a frase acima foi omitida no manuscrito. seguido nesta edi\u00e7\u00e3o, ela foi fornecida a partir do manuscrito 1520 da <em>Biblioth\u00e8que Nationale<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref47\" id=\"_ftn47\">[47]<\/a> Essa express\u00e3o faz alus\u00e3o aos mist\u00e9rios ou pe\u00e7as teatrais religiosas frequentemente apresentadas nos s\u00e9culos XV e XVI. O Mist\u00e9rio da Vingan\u00e7a, que retratava os infort\u00fanios que reca\u00edram sobre aqueles que participaram da crucifica\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo, como P\u00f4ncio Pilatos, e terminava com a captura e a destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m, vinha depois dos Mist\u00e9rios da Paix\u00e3o e da Ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref48\" id=\"_ftn48\">[48]<\/a> \u201cTodos os homens podem ver os chifres que eu tenho; Mas h\u00e1 um que os usa e n\u00e3o sabe.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea ir\u00e1 ler, a seguir, os primeiros contos da obra &#8220;Heptemer\u00e3o&#8221;, de Margaria de Navarra. Caso deseje saber mais sobre a obra, ou deseja adquiri-la, clique aqui, ou na capa do livro abaixo. Pr\u00f3logo No primeiro dia de setembro, quando os banhos nas montanhas dos Pirineus come\u00e7am a adquirir sua\u2026<\/p>\n<p class=\"continue-reading-button\"> <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2024\/09\/28\/heptamerao-de-margarida-de-navarra\/\">Leia mais<i class=\"crycon-right-dir\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1016,"comment_status":"closed","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5,46],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1019"}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1019"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1019\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1021,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1019\/revisions\/1021"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1016"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1019"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1019"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1019"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}