{"id":1036,"date":"2024-10-02T18:59:59","date_gmt":"2024-10-02T18:59:59","guid":{"rendered":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=1036"},"modified":"2024-10-02T18:59:59","modified_gmt":"2024-10-02T18:59:59","slug":"peregrinacoes-de-uma-paria-de-flora-tristan","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2024\/10\/02\/peregrinacoes-de-uma-paria-de-flora-tristan\/","title":{"rendered":"Peregrina\u00e7\u00f5es de uma P\u00e1ria, de Flora Trist\u00e1n"},"content":{"rendered":"\n<p>Abaixo voc\u00ea ir\u00e1 ler as primeiras p\u00e1ginas de &#8220;Peregrina\u00e7\u00f5es de uma P\u00e1ria&#8221;, de Flora Trist\u00e1n. Caso voc\u00ea queira saber mais sobre a obra, e como adquiri-la, <a href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/peregrinacoes-de-uma-paria\/\">clique aqui<\/a> ou na capa do livro logo abaixo.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/peregrinacoes-de-uma-paria\/\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"231\" height=\"328\" src=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/capinha_flora.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1032\" srcset=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/capinha_flora.jpg 231w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/capinha_flora-211x300.jpg 211w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/capinha_flora-106x150.jpg 106w\" sizes=\"(max-width: 231px) 100vw, 231px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\"> <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><a>Pref\u00e1cio<\/a><\/h1>\n\n\n\n<p><em>Pois, em verdade vos digo, se tiv\u00e9sseis f\u00e9 do tamanho de um gr\u00e3o de mostarda, dir\u00edeis a esta montanha: \u201cMove-te daqui para l\u00e1\u201d, e ela se moveria, e nada vos seria imposs\u00edvel.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>O Cristo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>S\u00e3o Mateus, xvii, 20.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Deus n\u00e3o fez nada em v\u00e3o; at\u00e9 os perversos entram na ordem de sua provid\u00eancia: tudo est\u00e1 coordenado e tudo progride em dire\u00e7\u00e3o a um objetivo. Os homens s\u00e3o necess\u00e1rios \u00e0 terra que habitam, vivem da sua vida e, como parte dessa agrega\u00e7\u00e3o, cada um tem uma miss\u00e3o para a qual a Provid\u00eancia os chamou. Sentimos arrependimentos in\u00fateis, somos assediados por desejos impotentes por termos desconhecido essa miss\u00e3o, e nossa vida \u00e9 atormentada at\u00e9 que finalmente sejamos reconduzidos a ela. Da mesma forma, na ordem f\u00edsica, as doen\u00e7as prov\u00eam da falsa aprecia\u00e7\u00e3o das necessidades do organismo na satisfa\u00e7\u00e3o de suas exig\u00eancias. Descobriremos, portanto, as regras a seguir para alcan\u00e7ar neste mundo a maior soma de felicidade pelo estudo do nosso ser moral e f\u00edsico, da nossa alma e da organiza\u00e7\u00e3o do corpo ao qual ela foi chamada a comandar. Os ensinamentos n\u00e3o nos faltam para ambos os estudos: a dor, essa rude mestra, os prodigaliza continuamente; mas ao homem foi dado progredir apenas lentamente. No entanto, se compar\u00e1ssemos os males que assolam as tribos selvagens com aqueles que ainda existem entre os povos mais avan\u00e7ados em civiliza\u00e7\u00e3o, as satisfa\u00e7\u00f5es das primeiras com as dos segundos, ficar\u00edamos surpresos com a imensa dist\u00e2ncia que separa essas duas fases extremas de agrega\u00e7\u00f5es humanas. Mas n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio, para constatar o progresso, comparar dois estados de sociabilidade t\u00e3o distantes um do outro. O progresso gradual de s\u00e9culo em s\u00e9culo \u00e9 f\u00e1cil de verificar pelos documentos hist\u00f3ricos que nos representam o estado social dos povos em tempos anteriores. Para neg\u00e1-lo, \u00e9 preciso n\u00e3o querer ver, e o ateu, para ser consistente consigo mesmo, \u00e9 o \u00fanico interessado em faz\u00ea-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos n\u00f3s contribu\u00edmos, mesmo sem saber, para o desenvolvimento progressivo de nossa esp\u00e9cie: mas, em cada s\u00e9culo, em cada fase de sociabilidade, vemos homens que se destacam da multid\u00e3o e marcham como pioneiros \u00e0 frente de seus contempor\u00e2neos; agentes especiais da Provid\u00eancia, eles tra\u00e7am o caminho no qual, depois deles, a humanidade se engaja. Esses homens s\u00e3o mais ou menos numerosos, exercem sobre seus contempor\u00e2neos uma influ\u00eancia mais ou menos significativa, em raz\u00e3o do grau de civiliza\u00e7\u00e3o ao qual a sociedade chegou. O ponto mais alto de civiliza\u00e7\u00e3o ser\u00e1 aquele em que cada um ter\u00e1 consci\u00eancia de suas faculdades intelectuais e as desenvolver\u00e1 conscientemente no interesse de seus semelhantes, que ele n\u00e3o ver\u00e1 diferentes de si mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a aprecia\u00e7\u00e3o de n\u00f3s mesmos \u00e9 o pr\u00e9-requisito necess\u00e1rio para o desenvolvimento de nossas faculdades intelectuais; se o progresso individual \u00e9 proporcional ao desenvolvimento e \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o que essas mesmas faculdades recebem, \u00e9 incontest\u00e1vel que as obras mais \u00fateis aos homens s\u00e3o aquelas que os ajudam no estudo de si mesmos, mostrando o indiv\u00edduo nas diversas posi\u00e7\u00f5es da exist\u00eancia social. Os fatos por si s\u00f3 n\u00e3o s\u00e3o suficientes para fazer conhecer o homem. Se o grau de seu avan\u00e7o intelectual n\u00e3o nos \u00e9 representado; se as paix\u00f5es que o motivaram n\u00e3o nos s\u00e3o mostradas, os fatos nos chegam apenas como enigmas dos quais a filosofia tenta, com mais ou menos sucesso, encontrar a solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A maioria dos autores de mem\u00f3rias contendo revela\u00e7\u00f5es n\u00e3o quis que elas fossem publicadas sen\u00e3o quando a sepultura os tivesse colocado a salvo da responsabilidade de seus atos e palavras, seja por serem retidos pela susceptibilidade do amor-pr\u00f3prio ao falarem de si mesmos, seja pelo medo de fazerem inimigos ao falarem de outros; seja pelo receio de recrimina\u00e7\u00f5es ou desmentidos. Agindo assim, enfraqueceram seus testemunhos, aos quais s\u00f3 se d\u00e1 cr\u00e9dito quando os autores da \u00e9poca os confirmam. Tamb\u00e9m n\u00e3o se pode supor que o aperfei\u00e7oamento tenha sido o objetivo dominante de seus pensamentos. V\u00ea-se que eles queriam ser falados, fornecendo alimento \u00e0 curiosidade, aparecer aos olhos da posteridade de maneira diferente do que eram aos olhos de seus contempor\u00e2neos, e que escreveram com um objetivo pessoal. Depoimentos recebidos por uma gera\u00e7\u00e3o que n\u00e3o mais se interessa por eles podem bem oferecer a pintura dos costumes de seus antepassados, mas dificilmente ter\u00e3o grande influ\u00eancia sobre os seus pr\u00f3prios costumes. De fato, em geral, \u00e9 a opini\u00e3o de nossos contempor\u00e2neos que nos serve de freio, e n\u00e3o a que a posteridade poder\u00e1 ter de n\u00f3s; somente as almas de elite ambicionam seus sufr\u00e1gios; as massas s\u00e3o indiferentes a isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje em dia, os corifeus fazem com que suas revela\u00e7\u00f5es testament\u00e1rias sejam publicadas imediatamente ap\u00f3s sua morte. \u00c9 ent\u00e3o que desejam que sua sombra arranque bravamente a m\u00e1scara daqueles que os precederam na sepultura e de alguns de seus sobreviventes que a velhice j\u00e1 tirou de cena. Assim fizeram Rousseau, Fouch\u00e9, Gr\u00e9goire, Lafayette, etc.; assim far\u00e3o Talleyrand, Chateaubriand, B\u00e9ranger, etc. A publica\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias, feita ao mesmo tempo que a nota necrol\u00f3gica ou o elogio f\u00fanebre, oferece sem d\u00favida mais interesse do que se, como as do duque de Saint-Simon, s\u00f3 aparecessem um s\u00e9culo ap\u00f3s a morte dos autores; mas sua a\u00e7\u00e3o repressiva \u00e9 quase nula: s\u00e3o ramos de uma \u00e1rvore abatida, os frutos n\u00e3o sucedem ao perfume de suas flores, o solo n\u00e3o os far\u00e1 mais reverdecer.<\/p>\n\n\n\n<p>O interesse que se prende aos grandes eventos geralmente leva os escritores a representar os homens no meio desses grandes eventos, e os faz negligenciar em nos mostrar como s\u00e3o em seu ambiente interno. Os autores de mem\u00f3rias nem sempre est\u00e3o isentos desse defeito, embora, muito mais do que os historiadores propriamente ditos, eles nos fa\u00e7am conhecer as pessoas de quem falam e os costumes de seu tempo. Mas a maioria desses escritores escolheu os grandes da ordem social como tema de seus escritos, e raramente nos descreveram os homens das diversas profiss\u00f5es que comp\u00f5em as sociedades humanas. O duque de Saint-Simon nos mostra bem os cortes\u00e3os e suas intrigas; mas ele nem sequer pensa nos costumes do burgu\u00eas de Paris ou de qualquer outra parte da Fran\u00e7a. O car\u00e1ter moral de um homem do povo n\u00e3o apresentava, aos olhos de um grande senhor da \u00e9poca, nenhum interesse. No entanto, o valor de um indiv\u00edduo n\u00e3o est\u00e1 na import\u00e2ncia das fun\u00e7\u00f5es que ele exerce, na posi\u00e7\u00e3o que ocupa, nas riquezas que possui. Seu valor, aos olhos de Deus, \u00e9 proporcional ao seu grau de utilidade em suas rela\u00e7\u00f5es com toda a esp\u00e9cie humana, e \u00e9 por essa medida que a moral dever\u00e1 julgar o elogio ou a cr\u00edtica daqui em diante. No tempo do duque de Saint-Simon, ainda se estava muito longe de conhecer essa medida das a\u00e7\u00f5es humanas. \u00c9 o homem que lutou contra a adversidade, que, na desgra\u00e7a, enfrentou o poder de posi\u00e7\u00e3o ou riqueza, cujas mem\u00f3rias, se uma cren\u00e7a religiosa o colocasse acima de qualquer temor, fariam conhecer os homens tal como s\u00e3o, e os apreciariam segundo seu valor real. Aquele que v\u00ea em todo ser humano um semelhante, que sofre com suas dores e se alegra com suas alegrias, esse deve escrever mem\u00f3rias, quando esteve em posi\u00e7\u00e3o de fazer observa\u00e7\u00f5es, e essas mem\u00f3rias far\u00e3o conhecer os homens sem distin\u00e7\u00e3o de classe, como a \u00e9poca e o pa\u00eds os apresentam.<\/p>\n\n\n\n<p>Acaso se tratasse apenas de relatar fatos, os olhos seriam suficientes para v\u00ea-los; mas, para apreciar a intelig\u00eancia e as paix\u00f5es do homem, a instru\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 suficiente, \u00e9 preciso tamb\u00e9m ter sofrido e muito; pois s\u00f3 a desgra\u00e7a pode nos ensinar a conhecer exatamente o que valemos e o que valem os outros. Al\u00e9m disso, \u00e9 preciso ter visto muito, para que, despojados de todo preconceito, consideremos a humanidade de um ponto de vista diferente do nosso pr\u00f3prio. Finalmente, \u00e9 necess\u00e1rio ter no cora\u00e7\u00e3o a f\u00e9 do m\u00e1rtir. Se a express\u00e3o do pensamento \u00e9 contida por considera\u00e7\u00e3o \u00e0 opini\u00e3o dos outros; se a voz da consci\u00eancia \u00e9 sufocada pelo medo de fazer inimigos ou por outras considera\u00e7\u00f5es individuais, falhamos em nossa miss\u00e3o, renegamos Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez seja poss\u00edvel questionar se as a\u00e7\u00f5es dos homens, no momento em que s\u00e3o cometidas, s\u00e3o sempre \u00fateis de serem publicadas. Sim, responderei eu, todas aquelas que prejudicam, todas aquelas que prov\u00eam do abuso de uma superioridade qualquer, seja de for\u00e7a ou de autoridade, seja de intelig\u00eancia ou de posi\u00e7\u00e3o, que fere os outros na independ\u00eancia que Deus concedeu sem distin\u00e7\u00e3o a todas as criaturas, fortes ou fracas. Mas se a escravid\u00e3o existe na sociedade, se h\u00e1 hilotas em seu seio, se as leis n\u00e3o s\u00e3o iguais para todos, se preconceitos religiosos ou outros reconhecem uma classe de p\u00e1rias, oh! ent\u00e3o, o mesmo devotamento que nos leva a apontar o opressor ao desprezo deve nos fazer lan\u00e7ar um v\u00e9u sobre a conduta do oprimido que busca escapar ao jugo. Existe uma a\u00e7\u00e3o mais odiosa do que a daqueles homens que, nas florestas da Am\u00e9rica, v\u00e3o \u00e0 ca\u00e7a dos negros fugitivos para traz\u00ea-los de volta ao chicote do mestre? H\u00e1 quem possa afirmar que a servid\u00e3o \u00e9 abolida na Europa civilizada. N\u00e3o se realiza mais, \u00e9 verdade, o mercado de escravos em pra\u00e7a p\u00fablica; mas nos pa\u00edses mais avan\u00e7ados, n\u00e3o h\u00e1 um em que numerosas classes de indiv\u00edduos n\u00e3o sofram uma opress\u00e3o legal. Os camponeses na R\u00fassia, os judeus em Roma, os marinheiros na Inglaterra, as mulheres em toda parte; sim, em toda parte onde a cessa\u00e7\u00e3o do consentimento m\u00fatuo, necess\u00e1rio para a forma\u00e7\u00e3o do casamento, n\u00e3o \u00e9 suficiente para romp\u00ea-lo, a mulher est\u00e1 em servid\u00e3o. O div\u00f3rcio obtido pela vontade expressa de uma das partes pode, sozinho, libert\u00e1-la completamente, coloc\u00e1-la no mesmo n\u00edvel do homem, pelo menos no que diz respeito aos direitos civis. Portanto, enquanto o sexo fraco, submetido ao mais forte, se encontrar constrangido nas afei\u00e7\u00f5es menos control\u00e1veis de nossa natureza, enquanto n\u00e3o houver reciprocidade entre os dois sexos, publicar os amores das mulheres \u00e9 exp\u00f4-las \u00e0 opress\u00e3o. Da parte de um homem, \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o covarde, pois, nesse aspecto, ele goza de toda sua independ\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Observou-se que o grau de civiliza\u00e7\u00e3o alcan\u00e7ado pelas diversas sociedades humanas sempre foi proporcional ao grau de independ\u00eancia desfrutado pelas mulheres. Certos escritores, no caminho do progresso, convencidos do papel civilizador da mulher e vendo-a constantemente regida por c\u00f3digos excepcionais, tentaram revelar ao mundo os efeitos desse estado de coisas. Com esse prop\u00f3sito, nos \u00faltimos dez anos, fizeram v\u00e1rios apelos \u00e0s mulheres para que publicassem suas dores e necessidades, os males resultantes de sua sujei\u00e7\u00e3o, e o que deveria ser esperado da igualdade entre os sexos. At\u00e9 onde sei, nenhuma delas respondeu a esses apelos. Os preconceitos que reinam no meio da sociedade parecem ter congelado sua coragem; enquanto os tribunais ressoam com os pedidos das mulheres, seja por pens\u00f5es aliment\u00edcias de seus maridos, seja por separa\u00e7\u00e3o, nenhuma ousa levantar a voz contra uma ordem social que, deixando-as sem profiss\u00e3o, as mant\u00e9m na depend\u00eancia, ao mesmo tempo que prende seus grilh\u00f5es pela indissolubilidade do casamento. Engano-me: uma escritora que se destacou desde o in\u00edcio pela eleva\u00e7\u00e3o do pensamento, dignidade e pureza do estilo, ao usar a forma do romance para destacar a infelicidade da posi\u00e7\u00e3o que nossas leis reservam \u00e0 mulher, foi t\u00e3o veraz em sua representa\u00e7\u00e3o que seus pr\u00f3prios infort\u00fanios foram percebidos pelo leitor. Mas essa escritora, sendo mulher, n\u00e3o satisfeita com o v\u00e9u sob o qual se escondeu em seus escritos, os assinou com um nome masculino. Que repercuss\u00f5es podem ter queixas envoltas em fic\u00e7\u00e3o? Que influ\u00eancia poderiam exercer quando os fatos que as motivam s\u00e3o desprovidos de realidade? As fic\u00e7\u00f5es agradam, ocupam a mente por um momento, mas nunca s\u00e3o os motivos das a\u00e7\u00f5es humanas. A imagina\u00e7\u00e3o est\u00e1 entorpecida, decepcionada consigo mesma, e s\u00f3 com verdades palp\u00e1veis, fatos irrefut\u00e1veis, podemos esperar influenciar a opini\u00e3o. Que as mulheres cujas vidas foram atormentadas por grandes infort\u00fanios expressem suas dores; que exponham os males que sofreram devido \u00e0 posi\u00e7\u00e3o que as leis lhes reservaram e aos preconceitos que as acorrentam; mas sobretudo que nomeiem&#8230; Quem melhor do que elas estaria em posi\u00e7\u00e3o de revelar injusti\u00e7as que se escondem nas sombras, ignoradas pelo p\u00fablico? Finalmente, que todo indiv\u00edduo que tenha visto e sofrido, que tenha lutado com pessoas e coisas, considere um dever relatar completamente os eventos em que foi ator ou testemunha, e mencione aqueles dos quais tem que reclamar ou elogiar; pois, repito, a reforma n\u00e3o pode ocorrer, e s\u00f3 haver\u00e1 probidade e franqueza nas rela\u00e7\u00f5es sociais por meio de revela\u00e7\u00f5es semelhantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo de minha narrativa, falo frequentemente de mim mesma. Eu me retrato em minhas dores, pensamentos e afei\u00e7\u00f5es: tudo resulta da organiza\u00e7\u00e3o que Deus me deu, da educa\u00e7\u00e3o que recebi e da posi\u00e7\u00e3o que as leis e preconceitos me impuseram. Nada \u00e9 completamente semelhante, e sem d\u00favida existem diferen\u00e7as entre todas as criaturas da mesma esp\u00e9cie, do mesmo sexo; mas tamb\u00e9m h\u00e1 semelhan\u00e7as f\u00edsicas e morais sobre as quais os costumes e as leis agem da mesma forma, produzindo efeitos an\u00e1logos. Muitas mulheres vivem separadas de fato de seus maridos nos pa\u00edses onde o catolicismo romano proibiu o div\u00f3rcio<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Portanto, n\u00e3o \u00e9 sobre mim pessoalmente que eu quis chamar a aten\u00e7\u00e3o, mas sim sobre todas as mulheres que est\u00e3o na mesma situa\u00e7\u00e3o, e cujo n\u00famero aumenta diariamente. Elas enfrentam tribula\u00e7\u00f5es, sofrimentos de natureza semelhante aos meus, est\u00e3o preocupadas com a mesma ordem de ideias e experimentam as mesmas afei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Os requisitos da vida afetam igualmente ambos os sexos; por\u00e9m, ambos n\u00e3o s\u00e3o afetados pelo amor no mesmo grau. Na inf\u00e2ncia das sociedades, o cuidado com sua defesa absorve a aten\u00e7\u00e3o do homem; em uma \u00e9poca mais avan\u00e7ada da civiliza\u00e7\u00e3o, cuidar de sua fortuna: em todas as fases sociais, o amor \u00e9 para a mulher a paix\u00e3o central de todos os seus pensamentos e o motivo de todos os seus atos. N\u00e3o se surpreenda, portanto, com o lugar que lhe dou neste livro. Falo dele segundo minhas pr\u00f3prias impress\u00f5es e do que observei. Em outra obra, explorando mais profundamente a quest\u00e3o, apresentarei o quadro dos males que resultam de sua escravid\u00e3o e da influ\u00eancia que ela adquiriria por sua liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Todo escritor deve ser verdadeiro: se ele n\u00e3o se sente corajoso o suficiente para s\u00ea-lo, deve renunciar ao sacerd\u00f3cio que assume de instruir seus semelhantes. A utilidade de seus escritos resultar\u00e1 das verdades que eles cont\u00eam, e, deixando para a medita\u00e7\u00e3o da filosofia a descoberta das verdades gerais, aqui s\u00f3 pretendo falar do verdadeiro no relato das a\u00e7\u00f5es humanas. Essa verdade est\u00e1 ao alcance de todos, e se o conhecimento das a\u00e7\u00f5es dos homens de diferentes graus de desenvolvimento intelectual, e nas incont\u00e1veis circunst\u00e2ncias da vida que os chamam a agir, \u00e9 indispens\u00e1vel para o conhecimento do cora\u00e7\u00e3o humano e para o estudo de si mesmo, a publicidade dada \u00e0s a\u00e7\u00f5es dos homens vivos \u00e9 o melhor freio que se pode impor \u00e0 perversidade e a mais bela recompensa a oferecer \u00e0 virtude.<\/p>\n\n\n\n<p>Seria estranho ignorar a grande utilidade moral da publicidade ao querer restringi-la \u00e0s a\u00e7\u00f5es dos funcion\u00e1rios do Estado. As maneiras exercem uma influ\u00eancia constante sobre a organiza\u00e7\u00e3o social, sendo claro que o objetivo do que \u00e9 tornado p\u00fablico seria perdido se as a\u00e7\u00f5es privadas fossem isentas dela. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma que possa ser \u00fatil para escapar dela; nenhuma \u00e9 indiferente; todas aceleram ou retardam o movimento progressivo da sociedade. Se refletirmos sobre o grande n\u00famero de injusti\u00e7as que ocorrem todos os dias e que as leis n\u00e3o conseguem alcan\u00e7ar, iremos nos convencer da melhoria imensa nos costumes que resultaria da publicidade dada \u00e0s a\u00e7\u00f5es privadas. N\u00e3o haveria mais hipocrisia poss\u00edvel, e a deslealdade, a perf\u00eddia, a trai\u00e7\u00e3o n\u00e3o usurpariam constantemente, por meio de apar\u00eancias enganosas, a recompensa da virtude: haveria verdade nos costumes, e a franqueza se tornaria habilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas onde encontraremos indiv\u00edduos de f\u00e9 e intelig\u00eancia cuja dedica\u00e7\u00e3o intr\u00e9pida consente em enfrentar as recrimina\u00e7\u00f5es, \u00f3dios e vingan\u00e7as, em expor \u00e0 luz do dia tanto as injusti\u00e7as ocultas quanto os nomes de seus autores? Para publicar a\u00e7\u00f5es nas quais n\u00e3o se tenha interesse individual e cometidas por pessoas vivas, habitantes do mesmo pa\u00eds, da mesma cidade, haver\u00e1 pessoas que, renunciando a todo interesse mundano, abracem a vida de m\u00e1rtir? Eles ser\u00e3o encontrados cada vez mais, responderei com a f\u00e9 que tenho no cora\u00e7\u00e3o. A religi\u00e3o do progresso ter\u00e1 seus m\u00e1rtires, como todas as outras tiveram os seus, e os homens n\u00e3o faltar\u00e3o \u00e0 obra de Deus. Sim, repito, tenho consci\u00eancia de que haver\u00e1 seres suficientemente religiosos para compreender o pensamento que me guia, e tenho consci\u00eancia tamb\u00e9m de que meu exemplo ter\u00e1 imitadores. O reino de Deus est\u00e1 pr\u00f3ximo: estamos entrando em uma era de verdade; nada que obstrua o progresso pode subsistir; e os costumes e a moral p\u00fablica se adaptar\u00e3o a isso. A opini\u00e3o, essa rainha do mundo, produziu melhorias imensas: com os meios de esclarecimento que aumentam a cada dia, ela produzir\u00e1 ainda maiores; depois de renovar a organiza\u00e7\u00e3o social, ela renovar\u00e1 o estado moral dos povos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao entrar na nova jornada que acabo de tra\u00e7ar, estou cumprindo a miss\u00e3o que me foi confiada, obedecendo \u00e0 minha consci\u00eancia. Podem surgir \u00f3dios contra mim, mas sendo uma pessoa de f\u00e9 acima de tudo, nenhuma considera\u00e7\u00e3o poder\u00e1 me impedir de dizer a verdade sobre pessoas e coisas. Vou relatar dois anos da minha vida: terei a coragem de contar tudo o que sofri. Vou mencionar os indiv\u00edduos pertencentes a diversas classes sociais com os quais as circunst\u00e2ncias me colocaram em contato: todos ainda est\u00e3o vivos; vou faz\u00ea-los conhecidos por suas a\u00e7\u00f5es e palavras.<\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><a>Pre\u00e2mbulo<\/a><\/h1>\n\n\n\n<p>Antes de come\u00e7ar a narrativa da minha viagem, devo informar ao leitor sobre a situa\u00e7\u00e3o em que me encontrava quando a empreendi e os motivos que me levaram a ela, colocando-o no meu ponto de vista para que ele possa compartilhar dos meus pensamentos e impress\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Minha m\u00e3e \u00e9 francesa: durante a emigra\u00e7\u00e3o, ela se casou na Espanha com um peruano; devido a obst\u00e1culos, eles se casaram clandestinamente, e a cerim\u00f4nia foi realizada por um padre franc\u00eas emigrado na casa onde minha m\u00e3e residia. Eu tinha quatro anos quando perdi meu pai em Paris. Ele morreu repentinamente, sem regularizar seu casamento e sem providenciar disposi\u00e7\u00f5es testament\u00e1rias. Minha m\u00e3e tinha poucos recursos para viver e nos sustentar, meu jovem irm\u00e3o e eu; ela se retirou para o campo, onde vivi at\u00e9 os quinze anos. Ap\u00f3s a morte de meu irm\u00e3o, retornamos a Paris, onde minha m\u00e3e me obrigou a casar com um homem que eu n\u00e3o podia amar nem respeitar<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. A essa uni\u00e3o devo todos os meus infort\u00fanios; no entanto, como minha m\u00e3e sempre demonstrou profundo pesar por isso, eu a perdoei e evitarei falar dela ao longo desta narrativa. Eu tinha vinte anos quando me separei desse homem; j\u00e1 se passaram seis anos desde ent\u00e3o, em 1833, desde que ocorreu essa separa\u00e7\u00e3o, e apenas quatro anos desde que comecei a me corresponder com minha fam\u00edlia no Peru.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante esses seis anos de isolamento, aprendi tudo o que uma mulher separada de seu marido \u00e9 condenada a sofrer em meio a uma sociedade que, pela mais absurda das contradi\u00e7\u00f5es, manteve velhos preconceitos contra mulheres nessa situa\u00e7\u00e3o, mesmo depois de abolir o div\u00f3rcio e tornar quase imposs\u00edvel a separa\u00e7\u00e3o legal. A incompatibilidade e muitos outros motivos s\u00e9rios n\u00e3o reconhecidos pela lei tornam a separa\u00e7\u00e3o dos c\u00f4njuges necess\u00e1ria; no entanto, a perversidade, n\u00e3o admitindo que uma mulher possa ter motivos que justifiquem sua decis\u00e3o, a persegue com infames cal\u00fanias. Exceto por um pequeno n\u00famero de amigos, ningu\u00e9m acredita nela, e, exclu\u00edda e difamada pela mal\u00edcia, ela se torna, nesta sociedade que se vangloria de sua civiliza\u00e7\u00e3o, uma infeliz p\u00e1ria, considerada favorecida apenas quando n\u00e3o \u00e9 insultada.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao me separar de meu marido, abandonei seu sobrenome e retomei o nome de meu pai. Bem recebida em todos os lugares como vi\u00fava ou solteira, eu sempre era rejeitada quando a verdade sobre minha situa\u00e7\u00e3o era descoberta. Jovem, bonita e aparentemente desfrutando de algum grau de independ\u00eancia, essas eram raz\u00f5es suficientes para despertar fofocas maldosas e me excluir de uma sociedade que sofre sob o peso das correntes que ela mesma criou, n\u00e3o perdoando nenhum de seus membros por tentar se libertar delas.<\/p>\n\n\n\n<p>A presen\u00e7a dos meus filhos me impedia de me fazer passar por solteira, e quase sempre me apresentei como vi\u00fava; no entanto, vivendo na mesma cidade que meu marido e minhas antigas rela\u00e7\u00f5es, era muito dif\u00edcil sustentar um papel do qual uma s\u00e9rie de circunst\u00e2ncias poderia me desviar. Esse papel frequentemente me colocava em situa\u00e7\u00f5es constrangedoras, lan\u00e7ava um v\u00e9u de ambiguidade sobre minha pessoa e constantemente me trazia os maiores desagrados. Minha vida era um tormento constante. Sens\u00edvel e excessivamente orgulhosa, eu continuamente me sentia ferida em meus sentimentos, ofendida e irritada na dignidade do meu ser. Se n\u00e3o fosse pelo amor que eu tinha pelos meus filhos, especialmente por minha filha, cujo futuro como mulher excitava t\u00e3o intensamente minha preocupa\u00e7\u00e3o que eu permanecia ao seu lado para proteg\u00ea-la e ajud\u00e1-la; sem esse dever sagrado que profundamente penetrava meu cora\u00e7\u00e3o, que Deus me perdoe! e que aqueles que governam nosso pa\u00eds tremam! eu teria me matado&#8230; Vejo, ao fazer essa confiss\u00e3o, o sorriso indiferente do ego\u00edsmo que, em sua ignor\u00e2ncia, n\u00e3o percebe a correla\u00e7\u00e3o existente entre todos os indiv\u00edduos de uma mesma comunidade; como se a sa\u00fade do corpo social, do qual v\u00e1rios membros s\u00e3o levados ao suic\u00eddio pelo desespero, n\u00e3o oferecesse nenhum motivo de apreens\u00e3o. Escrevi, em 1829, para minha fam\u00edlia no Peru, com a inten\u00e7\u00e3o meio formada de ir me refugiar com eles, e a resposta que recebi teria me incentivado a realizar imediatamente esse projeto, se n\u00e3o tivesse sido impedida pela reflex\u00e3o desanimadora de que eles tamb\u00e9m poderiam rejeitar uma escrava fugitiva, porque, por mais desprez\u00edvel que fosse o ser sob cujo jugo ela vivia, seu dever era morrer na dor, em vez de quebrar correntes impostas pela lei.<\/p>\n\n\n\n<p>As persegui\u00e7\u00f5es do Senhor Chazal<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a> me for\u00e7aram a fugir de Paris v\u00e1rias vezes: quando meu filho completou oito anos, ele insistiu em t\u00ea-lo e ofereceu-me paz sob essa condi\u00e7\u00e3o. Cansada de uma luta t\u00e3o prolongada e incapaz de suport\u00e1-la mais, concordei em entreg\u00e1-lo chorando pelo futuro daquela crian\u00e7a; mas apenas alguns meses se passaram desde esse arranjo quando esse homem come\u00e7ou novamente a me atormentar e tamb\u00e9m quis levar minha filha, porque percebeu que eu estava feliz em t\u00ea-la ao meu lado. Nessa circunst\u00e2ncia, fui novamente obrigada a deixar Paris: foi a sexta vez que, para escapar de persegui\u00e7\u00f5es incessantes, deixei a \u00fanica cidade no mundo que eu j\u00e1 amara. Por mais de seis meses, escondida sob um nome falso, vaguei com minha pobre filhinha. Naquela \u00e9poca, a duquesa de Berry estava viajando pela Vendeia: tr\u00eas vezes fui parada; meus olhos e meus longos cabelos negros, que n\u00e3o poderiam ter sido descritos como os dela, serviram como meu passaporte e me salvaram de qualquer engano. A dor, combinada com fadigas, esgotou minhas for\u00e7as; ao chegar a Angoul\u00eame, ca\u00ed perigosamente doente.<\/p>\n\n\n\n<p>Deus fez com que eu encontrasse nesta cidade um anjo de virtude que me deu a oportunidade de realizar o projeto que, por dois anos, eu vinha meditando e que era impedido de realizar por causa do meu afeto por minha filha. Tinham me indicado a pens\u00e3o da senhorita de Bourzac como a melhor para colocar minha crian\u00e7a. \u00c0 primeira vista, essa excelente pessoa leu na tristeza do meu olhar a intensidade das minhas dores. Ela pegou minha filha sem fazer perguntas e disse-me: \u201cVoc\u00ea pode partir sem nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o: durante sua aus\u00eancia, eu serei sua m\u00e3e, e se o infort\u00fanio quisesse que ela nunca mais a visse, ela ficaria conosco\u201d. Quando tive a certeza de que seria substitu\u00edda ao lado da minha filha, resolvi ir para o Peru buscar ref\u00fagio junto \u00e0 minha fam\u00edlia paterna, na esperan\u00e7a de encontrar l\u00e1 uma posi\u00e7\u00e3o que me permitisse reintegrar-me na sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>No final de janeiro de 1833, fui a Bordeaux e me apresentei na casa do Sr. de Goyeneche, com quem estava em correspond\u00eancia. O Sr. de Goyeneche (Mariano) \u00e9 primo de meu pai; ambos nascidos em Arequipa, uma amizade de inf\u00e2ncia os uniu de maneira \u00edntima. Ao me ver, o Sr. de Goyeneche ficou impressionado com a extrema semelhan\u00e7a dos meus tra\u00e7os com os de meu pai; eles lhe lembravam seu antigo amigo, e essa lembran\u00e7a se ligava \u00e0 sua juventude, sua fam\u00edlia e, finalmente, sua terra natal, que ele constantemente lamentava. Ele imediatamente transferiu para mim parte do afeto que tinha por seu primo, e esse idoso, de maneiras nobres, me recebeu com defer\u00eancia que mostrava o quanto me distinguia; ele me apresentou a toda sua sociedade como sua sobrinha e me encheu de demonstra\u00e7\u00f5es de bondade. Recebi tamb\u00e9m uma excelente recep\u00e7\u00e3o do Sr. Bertera (Philippe), jovem espanhol que morava com o Sr. de Goyeneche e cuidava dos neg\u00f3cios de meu tio Pio de Trist\u00e1n. Anunciei a esses senhores minha decis\u00e3o de partir para o Peru. Fiquei dois meses e meio em Bordeaux, fazendo minhas refei\u00e7\u00f5es na casa do meu parente e hospedando-me ao lado, na casa de uma senhora que alugava um apartamento mobiliado para mim. Enfrentei atrasos antes de poder partir, e uma s\u00e9rie de circunst\u00e2ncias fortuitas ainda complicou minha situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1829, em Paris, em uma pens\u00e3o onde estava hospedada ao chegar de uma viagem, conheci um capit\u00e3o de navio que acabara de vir de Lima. Surpreso com a semelhan\u00e7a do meu nome com o da fam\u00edlia Trist\u00e1n, que ele conhecia no Peru, esse capit\u00e3o perguntou se \u00e9ramos parentes. Respondi que n\u00e3o, como costumava fazer. Havia dez anos que eu renegara essa fam\u00edlia por motivos que, mais tarde, revelarei, e foi por acaso desse encontro que comecei a corresponder com meus parentes no Peru, a fazer minha viagem e tudo o que se seguiu. Ap\u00f3s uma longa conversa com o Sr. Chabri\u00e9 (esse era o nome do capit\u00e3o), escrevi uma carta ao meu tio Pio, uma carta que est\u00e1 l\u00e1 para atestar a nobreza dos meus sentimentos e a honestidade do meu car\u00e1ter, mas que me prejudicou ao revelar a irregularidade do casamento de meu pai. No hotel, eu era considerada vi\u00fava e tinha minha filha comigo; foi nessa posi\u00e7\u00e3o que o capit\u00e3o Chabri\u00e9 me conheceu; ele partiu, e pouco depois eu tamb\u00e9m deixei aquela casa, nunca mais tendo ouvido falar dele desde ent\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em fevereiro de 1833, em Bordeaux, havia apenas tr\u00eas navios partindo para Valpara\u00edso: o Charles-Adolphe, cujo camarote n\u00e3o me agradava; o Fl\u00e9t\u00e8s, do qual tive que desistir porque o capit\u00e3o n\u00e3o aceitou uma ordem de pagamento de meu tio para minha passagem; e o Mexicano, um belo novo brigue que todos elogiavam. Eu me apresentei como solteira ao Sr. de Goyeneche e toda a sua sociedade; portanto, pode-se imaginar o efeito surpreendente que o nome do capit\u00e3o do Mexicano teve sobre mim, quando meu parente me disse que ele se chamava Chabri\u00e9; era o mesmo capit\u00e3o que eu tinha encontrado em 1829 em Paris, na pens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Fiz o que pude para evitar partir no Mexicano; mas, temendo que meu comportamento fosse considerado extraordin\u00e1rio na casa do meu parente, onde o Sr. Chabri\u00e9 era fortemente recomendado pelo capit\u00e3o Roux, h\u00e1 muito tempo em rela\u00e7\u00e3o comercial com minha fam\u00edlia, n\u00e3o ousei recusar a visita ao navio.<\/p>\n\n\n\n<p>Passei dois dias e duas noites em uma perplexidade da qual n\u00e3o sabia como sair. Tinha visto o Sr. Chabri\u00e9 apenas duas ou tr\u00eas vezes, jantando com ele na mesa do hotel; ele falava apenas do Peru, e enquanto o ouvia, s\u00f3 pensava na fam\u00edlia cujo abandono me causara tantas dores, sem me preocupar com o homem que, sem saber, discutia meus interesses mais queridos. Eu o tinha completamente esquecido e agora fazia esfor\u00e7os penosos para lembrar que tipo de homem eu teria que enfrentar. Estava atormentada por vivas inquieta\u00e7\u00f5es: temia perder minha viagem se a adiasse, e tudo o que ouvia sobre capit\u00e3es de navio n\u00e3o me tranquilizava quanto \u00e0 confian\u00e7a que deveria depositar no capit\u00e3o do Mexicano. N\u00e3o podia mais resistir aos apelos do meu parente, impelido pelo Sr. Chabri\u00e9 para saber minha decis\u00e3o, para poder dispor, se eu n\u00e3o partisse em seu navio, da cabine que ele me destinara. Quando me encontrava em situa\u00e7\u00f5es constrangedoras, nunca pedi conselho a ningu\u00e9m al\u00e9m do meu cora\u00e7\u00e3o. Mandei chamar o Sr. Chabri\u00e9, que, assim que entrou, me reconheceu e ficou surpreso. Eu estava emocionada: assim que ficamos sozinhos, estendi-lhe a m\u00e3o: \u201cSenhor\u201d, disse-lhe, \u201cn\u00e3o o conhe\u00e7o, no entanto, vou confiar-lhe um segredo muito importante para mim e pedir-lhe um servi\u00e7o not\u00e1vel\u201d. \u201cQualquer que seja a natureza deste segredo\u201d, respondeu ele, \u201cdou-lhe minha palavra, senhorita, de que sua confian\u00e7a n\u00e3o ser\u00e1 tra\u00edda; quanto ao servi\u00e7o que voc\u00ea espera de mim, prometo realiz\u00e1-lo, a menos que seja totalmente imposs\u00edvel\u201d. \u201cOh! obrigada, obrigada\u201d, disse-lhe, apertando-lhe fortemente a m\u00e3o, \u201cDeus lhe recompensar\u00e1 pelo bem que me faz. A express\u00e3o e o tom sinceros do Sr. Chabri\u00e9 me convenceram de imediato de que eu poderia confiar nele. \u201cO que pe\u00e7o\u201d, continuei, \u201c\u00e9 simplesmente que esque\u00e7a que me conheceu em Paris como senhora e com minha filha; explicarei a raz\u00e3o a bordo. Em duas horas irei visitar seu navio; escolherei minha cabine, Sr. Bertera acertar\u00e1 o pre\u00e7o com voc\u00ea, e at\u00e9 a partida, n\u00e3o mencione que me conheceu antes de hoje&#8230;\u201d Sr. Chabri\u00e9 me entendeu e apertou minha m\u00e3o com calor; j\u00e1 \u00e9ramos amigos. \u201cCoragem!\u201d, disse-me ele, \u201cvou apressar nossa partida. Compreendo, na sua situa\u00e7\u00e3o, tudo o que voc\u00ea deve estar sofrendo&#8230;\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Posso dizer que esta primeira visita do Sr. Chabri\u00e9 \u00e9 uma das lembran\u00e7as mais felizes que guardo no cora\u00e7\u00e3o. Durante os dois meses e meio que passei em Bordeaux, fui profundamente afetada por preocupa\u00e7\u00f5es alarmantes. Tinha vivido nesta cidade em duas ocasi\u00f5es diferentes com minha filha, antes de eu sequer pensar na minha fam\u00edlia do Peru, e havia conhecido muitas pessoas aqui, de modo que, toda vez que sa\u00eda, sentia-me exposta a encontrar um desses velhos conhecidos vindo perguntar not\u00edcias de minha filha, a mim, a senhorita Flora Trist\u00e1n. Estava em constante ansiedade; ent\u00e3o, com que impaci\u00eancia aguardava o dia em que dever\u00edamos zarpar.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu estava ansiosa para sair da casa do Sr. de Goyeneche; no entanto, l\u00e1 fui tratada com a maior distin\u00e7\u00e3o, e especialmente com demonstra\u00e7\u00f5es de afeto que teriam me deixado muito feliz se estivesse em uma posi\u00e7\u00e3o verdadeira. Mas eu tinha muito orgulho para me deleitar com cortesias destinadas a um t\u00edtulo que n\u00e3o era o meu, e meu cora\u00e7\u00e3o, saturado de longos sofrimentos, n\u00e3o podia ser seduzido pelos encantos do mundo e seu luxo. Aquela sociedade, organizada para a dor, onde o amor \u00e9 um instrumento de tortura, n\u00e3o tinha atrativos para mim; seus prazeres n\u00e3o me iludiam, eu via a vacuidade deles e a realidade da felicidade que haviam sacrificado. Minha exist\u00eancia estava quebrada, e eu aspirava apenas a uma vida tranquila. O descanso era o sonho constante da minha imagina\u00e7\u00e3o, o objeto de todos os meus desejos. Eu s\u00f3 me resolvia a contragosto a fazer minha viagem ao Peru: sentia, como por instinto, que isso atrairia novas desventuras sobre minha cabe\u00e7a. Deixar meu pa\u00eds, que eu amava com predile\u00e7\u00e3o; deixar minha filha, que s\u00f3 tinha a mim para apoio; expor minha vida, que me era pesada porque eu sofria, porque s\u00f3 podia desfrut\u00e1-la furtivamente, mas que teria parecido bela e radiante se eu fosse livre; enfim, fazer todos esses sacrif\u00edcios, enfrentar todos esses perigos, porque eu estava ligada a um ser vil que me reclamava como sua escrava! Oh! Essas reflex\u00f5es faziam meu cora\u00e7\u00e3o se encher de indigna\u00e7\u00e3o; eu amaldi\u00e7oava essa organiza\u00e7\u00e3o social que, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 Provid\u00eancia, substitui a corrente do for\u00e7ado pelo v\u00ednculo do amor e divide a sociedade em servos e senhores. A esses movimentos de desespero sucedia o sentimento da minha fraqueza; l\u00e1grimas corriam dos meus olhos: eu ca\u00eda de joelhos e implorava fervorosamente a Deus que me ajudasse a suportar a opress\u00e3o. Era durante o sil\u00eancio da noite que, assediada por essas reflex\u00f5es, o irritante quadro dos meus infort\u00fanios passados se desenrolava em minha mente: o sono fugia de mim, ou, por breves momentos apenas, aliviava minhas penas. Eu me exauria em projetos v\u00e3os; tentava penetrar o car\u00e1ter do meu parente, o Sr. de Goyeneche: ele \u00e9 religioso, dizia a mim mesma, n\u00e3o falha um \u00fanico dia em ir \u00e0 missa; \u00e9 pontual no cumprimento de todos os deveres que a religi\u00e3o imp\u00f5e; Deus, a quem ele constantemente invoca em suas conversas, deve estar em seus pensamentos; ele \u00e9 rico, e meu parente t\u00e3o pr\u00f3ximo poderia se recusar a nos acolher, a mim e a minha filha, sob sua prote\u00e7\u00e3o? Oh n\u00e3o, pensava eu, ele n\u00e3o poderia me rejeitar; ele n\u00e3o tem filhos; eu sou aquela que Deus lhe envia. Hoje, esta manh\u00e3 mesmo, vou confiar a ele todas as minhas tristezas, contar-lhe o mart\u00edrio da minha vida e suplicar-lhe que nos guarde em sua casa, minha pobre filha e eu: seria, ai de mim, um fardo que estar\u00edamos impondo a ele, velho solteir\u00e3o, sem fam\u00edlia, abundante em tudo, habitando sozinho uma casa imensa (o Hotel Schicler), onde sua sombra se perde e onde nossas vozes amigas ecoariam incessantemente em tons de gratid\u00e3o? Mais, de manh\u00e3, quando chegava \u00e0 casa do velho, o cora\u00e7\u00e3o palpitando de emo\u00e7\u00e3o, logo nas primeiras palavras que ele me dirigia, eu era golpeada pela express\u00e3o seca e ego\u00edsta do velho solteir\u00e3o, do homem rico e avarento que s\u00f3 pensa em si mesmo, tornando-se o centro de todas as coisas, acumulando sempre para um futuro que jamais alcan\u00e7ar\u00e1: essa express\u00e3o de frieza me gelava. Eu ficava em sil\u00eancio, recomendava minha filha a Deus e desejava ardentemente estar longe no mar. Assim, nunca fiz essa tentativa, e \u00e9 certo, apesar da devo\u00e7\u00e3o de meu parente, que teria sido sem sucesso: tive a prova disso desde meu retorno. O catolicismo de Roma nos deixa com todos os nossos inclina\u00e7\u00f5es e intensifica o ego\u00edsmo: ele nos separa do mundo, mas \u00e9 para concentrar todas as nossas afei\u00e7\u00f5es na Igreja: declaramos amar a Deus, e \u00e9 atrav\u00e9s da observ\u00e2ncia das pr\u00e1ticas religiosas impostas pela Igreja que acreditamos demonstrar nosso amor por Ele; longe de nos sentirmos obrigados a socorrer nossos pais, parentes, amigos, ou qualquer pr\u00f3ximo, quase sempre encontramos raz\u00f5es religiosas na conduta daqueles que pedem ajuda, para neg\u00e1-la; \u00e9 atrav\u00e9s de doa\u00e7\u00f5es para a Igreja, e ao confiar-lhe algumas esmolas, que nos imaginamos, de maneira bastante generalizada, satisfazer \u00e0 caridade pregada por Jesus Cristo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sr. Bertera, embora espanhol e bom cat\u00f3lico, chegara jovem demais \u00e0 Fran\u00e7a, onde fora criado sob os mesmos preconceitos religiosos que o Sr. de Goyeneche. No entanto, n\u00e3o lhe confiei meu segredo, tinha por ele uma amizade desinteressada e n\u00e3o quis envolv\u00ea-lo na mentira que contava \u00e0 minha fam\u00edlia. Desde que o conhecia, esse jovem n\u00e3o cessara de me dar provas de afeto. Acreditava na sinceridade do seu amor por mim e gostava de lhe mostrar minha gratid\u00e3o. O prazer que tinha em faz\u00ea-lo amenizou as muitas tribula\u00e7\u00f5es que enfrentei durante minha estadia em Bordeaux. At\u00e9 ent\u00e3o, a maioria das pessoas com quem circunst\u00e2ncias me puseram em contato s\u00f3 me causou mal, enquanto o Sr. Bertera sentia satisfa\u00e7\u00e3o em ser-me \u00fatil: confidenciava-me seus dolorosos arrependimentos e aborrecimentos. Vira morrer de uma mesma doen\u00e7a toda a sua fam\u00edlia, \u00e0 qual era ternamente ligado: ficara sozinho, vivendo no isolamento, no meio do mundo e de seu frio ego\u00edsmo. A dor se compadece da dor, por mais diversas que sejam suas causas. Desde a primeira conversa, estabeleceu-se entre nossas almas uma intimidade melanc\u00f3lica que, piedosa em suas aspira\u00e7\u00f5es, n\u00e3o tocava a terra por nenhum ponto. Amava esse jovem pela simpatia terna e afetuosa que os seres sens\u00edveis, na desventura, sentem uns pelos outros. Sua companhia era para minha alma um doce perfume: ao seu lado, respirava mais livremente, e o horr\u00edvel pesadelo que continuamente me oprimia pesava menos sobre meu peito. Gostava de sair com ele e, quase todas as noites, \u00edamos fazer longos passeios enquanto meu velho parente dormia a sesta. Por sua vez, o Sr. Bertera procurava ansiosamente todas as oportunidades para me agradar; seu afeto por mim se mostrava nas pequenas coisas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca na minha vida hesitei em sacrificar um momento de prazer pessoal pelo maior prazer de contribuir para a felicidade ou para poupar sofrimento \u00e0queles que realmente amava. A sinceridade do afeto que o Sr. Bertera me dedicava me dava a convic\u00e7\u00e3o de que ele teria sentido minha dor se eu lhe confiasse o segredo da minha cruel situa\u00e7\u00e3o, e a impossibilidade de mud\u00e1-la teria aumentado ainda mais seu pesar. Al\u00e9m disso, a falsa posi\u00e7\u00e3o em que o engano imposto pelos preconceitos da sociedade me colocava era demasiadamente dolorosa para permitir que um homem que eu amava e a quem devia tanto sofresse qualquer parte das consequ\u00eancias desse engano. Guardei meu segredo; tive a coragem de calar quando sabia que encontraria no cora\u00e7\u00e3o desse jovem uma profunda simpatia por meus infort\u00fanios. Fiz esse sacrif\u00edcio pela amizade que lhe havia jurado, e apenas de Deus espero a recompensa.<\/p>\n\n\n\n<p>Parti, confiando minha filha \u00e0 senhorita de Bourzac e ao \u00fanico amigo que tinha; ambos prometeram am\u00e1-la como se fosse sua pr\u00f3pria filha, e levei comigo a doce e pura satisfa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o deixar nenhum triste lembran\u00e7a ap\u00f3s mim.<\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><a>I. O Mexicano<\/a><\/h1>\n\n\n\n<p>O dia 7 de abril de 1833, anivers\u00e1rio do meu nascimento, foi o dia da nossa partida. Sentia uma agita\u00e7\u00e3o t\u00e3o intensa \u00e0 medida que o momento se aproximava que, nas \u00faltimas tr\u00eas noites, n\u00e3o consegui dormir por uma hora sequer. Meu corpo estava exausto: mesmo assim, levantei-me ao amanhecer para ter tempo de finalizar todos os preparativos. Essa ocupa\u00e7\u00e3o acalmou a febril emo\u00e7\u00e3o que minha mente causava. \u00c0s sete horas, o Sr. Bertera veio me buscar de fiacre; n\u00f3s nos dirigimos, com o restante de meus pertences, para o vapor. Quantas reflex\u00f5es n\u00e3o me agitaram durante o curto trajeto de casa at\u00e9 o porto? O crescente barulho das ruas anunciava o retorno \u00e0 vida ativa; eu mantinha a cabe\u00e7a fora da janela, \u00e1vida por ver mais uma vez essa bela cidade onde, tempos atr\u00e1s, passei dias t\u00e3o tranquilos. O sopro morno da brisa tocava meu rosto; eu sentia um excesso de vida, enquanto a dor, o desespero estavam na minha alma: parecia um paciente levado \u00e0 morte; eu invejava o destino daquelas mulheres que vinham do campo vender seu leite na cidade, daqueles trabalhadores que se dirigiam ao trabalho: testemunha do meu pr\u00f3prio cortejo f\u00fanebre, talvez visse pela \u00faltima vez essa popula\u00e7\u00e3o laboriosa. Passamos pelo jardim p\u00fablico; despedi-me de suas belas \u00e1rvores. Com que sentimento de pesar eu recordava minhas caminhadas sob sua sombra. N\u00e3o ousava olhar para o Sr. Bertera, temendo que ele lesse nos meus olhos a atroz dor que me consumia. Chegando ao vapor, a vis\u00e3o de todas aquelas pessoas reunidas, algumas para se despedir de seus amigos, outras alegremente indo para as \u00e1reas circundantes, aumentou minha emo\u00e7\u00e3o. O momento fatal tinha chegado: meu cora\u00e7\u00e3o batia t\u00e3o forte que duvidei por um momento se conseguiria me manter firme. S\u00f3 Deus pode avaliar a for\u00e7a que precisei invocar para resistir ao impetuoso desejo de dizer ao Sr. Bertera: \u201cPelo amor de Deus, salve-me! Oh, por piedade, leve-me daqui!\u201d Dezenas de vezes, durante aquele momento de espera, fiz men\u00e7\u00e3o de tomar a m\u00e3o do Sr. Bertera e fazer-lhe esse apelo; mas a presen\u00e7a de toda aquela gente me lembrava como um espectro horr\u00edvel a sociedade que me havia rejeitado. Com essa lembran\u00e7a, minha l\u00edngua ficou presa, um suor frio cobriu meu corpo, e, usando as poucas for\u00e7as que me restavam, implorei a Deus fervorosamente pela morte, pela morte, como \u00fanico rem\u00e9dio para meus males.<\/p>\n\n\n\n<p>O sinal de partida foi dado: as pessoas que vieram para se despedir de seus amigos se retiraram. O vapor se moveu e se afastou: eu fiquei sozinha na cabine onde estava alojada; todos os passageiros estavam no conv\u00e9s, fazendo os \u00faltimos acenos de adeus aos seus conhecidos. De repente, a indigna\u00e7\u00e3o devolveu-me as for\u00e7as, e, lan\u00e7ando-me para uma das janelas, exclamei com a voz sufocada:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cInsensatos! Eu os lamento e n\u00e3o os odeio; seus desprezos me magoam, mas n\u00e3o perturbam minha consci\u00eancia. As mesmas leis e preconceitos dos quais sou v\u00edtima enchem igualmente suas vidas de amargura; n\u00e3o tendo a coragem de se libertar de seu jugo, tornam-se seus servis instrumentos. Ah! Se tratarem assim aqueles que, pela eleva\u00e7\u00e3o de suas almas, pela generosidade de seus cora\u00e7\u00f5es, se dedicariam \u00e0 sua causa, eu lhes advirto, permanecer\u00e3o por muito tempo em seu ciclo de infort\u00fanio.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Esse impulso me devolveu toda a minha coragem; eu me senti mais calma; Deus, sem que eu percebesse, tinha vindo habitar em mim. Os senhores do Mexicano voltaram para o quarto; apenas o Sr. Chabri\u00e9 parecia emocionado; grossas l\u00e1grimas rolavam de seus olhos. Atra\u00ed-o para perto de mim com um olhar simp\u00e1tico, e ele me disse: \u201c\u00c9 preciso coragem para se afastar de seu pa\u00eds e deixar seus amigos; mas espero, senhorita, que os veremos novamente&#8230;\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Chegando a Pouillac, eu aparentava resigna\u00e7\u00e3o. Passei a noite escrevendo minhas \u00faltimas cartas e, no dia seguinte, por volta das onze horas, subi a bordo do Mexicano.<\/p>\n\n\n\n<p>O Mexicano era um brigue novo de cerca de 200 toneladas; pela sua constru\u00e7\u00e3o, esperava-se que fosse um bom veleiro. Os aposentos eram bastante confort\u00e1veis, mas muito apertados. A cabine media de dezesseis a dezessete p\u00e9s de comprimento por doze p\u00e9s de largura: continha cinco cabines, sendo quatro muito pequenas, e uma quinta, maior, destinada ao capit\u00e3o, localizada na extremidade. A cabine do segundo estava fora da cabine principal, \u00e0 entrada. O tombadilho, repleto de gaiolas de galinhas, cestos e provis\u00f5es de todo tipo, oferecia apenas um espa\u00e7o muito pequeno onde se podia ficar. Este navio pertencia em copropriedade ao Sr. Chabri\u00e9, que o comandava, ao segundo, o Sr. Briet, e ao Sr. David. A carga, quase inteiramente, tamb\u00e9m pertencia a esses tr\u00eas senhores. A tripula\u00e7\u00e3o era composta por quinze homens: oito marinheiros, um carpinteiro, um cozinheiro, um grumete, um contramestre, o tenente, o segundo e o capit\u00e3o. Todos esses homens eram jovens, vigorosos e muito competentes; exceto o grumete, cuja pregui\u00e7a e falta de higiene causavam constante irrita\u00e7\u00e3o a bordo. O navio estava bem abastecido, e nosso cozinheiro era excelente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9ramos apenas cinco passageiros: um velho espanhol, ex-militar, que lutou na guerra de 1808<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a> e, nos \u00faltimos dez anos, estabeleceu-se em Lima. Esse nobre senhor queria revisitar sua p\u00e1tria antes de morrer e estava retornando ao Peru. Ele levava consigo seu sobrinho, um jovem de quinze anos, not\u00e1vel por sua intelig\u00eancia. O tio se chamava dom Jos\u00e9 e o sobrinho Ces\u00e1rio. O terceiro passageiro, peruano, nascido na cidade do Sol (Cuzco), foi enviado a Paris aos dezesseis anos para completar sua educa\u00e7\u00e3o; agora tinha vinte e quatro anos. Seu primo, um jovem biscainho de dezessete anos, o acompanhava. O peruano se chamava Firmin Miota, e seu primo simplesmente dom Fernando, pois nenhum dos dois \u00faltimos passageiros era conhecido pelo sobrenome. Dos quatro estrangeiros, apenas o Sr. Miota falava franc\u00eas. Eu era a quinta pessoa passageira a bordo do Mexicano.<\/p>\n\n\n\n<p>O capit\u00e3o, Sr. Chabri\u00e9 (Zacharie), tinha trinta e seis anos e nasceu em Lorient. Seu pai, oficial da marinha real, o encaminhou para seguir a mesma carreira e lhe proporcionou uma educa\u00e7\u00e3o adequada. Ap\u00f3s os eventos de 1815<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, o Sr. Chabri\u00e9 abandonou a marinha estatal para arriscar-se na incerta marinha comercial. Desconhe\u00e7o os motivos que o levaram a essa decis\u00e3o naquela ocasi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O Sr. Chabri\u00e9 est\u00e1 completamente fora do padr\u00e3o dos capit\u00e3es da marinha mercante, bravos marinheiros que geralmente come\u00e7aram como simples marinheiros e avan\u00e7aram devido \u00e0 sua intelig\u00eancia e bom comportamento. O Sr. Chabri\u00e9 tem muito esp\u00edrito natural, r\u00e9plicas sempre prontas, tiradas surpreendentes de engenhosidade e originalidade: sua brusquid\u00e3o surge tanto de sua franqueza quanto dos h\u00e1bitos de sua profiss\u00e3o; mas o que mais se destaca nele \u00e9 a extrema bondade de seu cora\u00e7\u00e3o e a exalta\u00e7\u00e3o de sua imagina\u00e7\u00e3o. Quanto ao seu car\u00e1ter, \u00e9 verdadeiramente o mais terr\u00edvel que j\u00e1 encontrei: sua sensibilidade, irritada pelas coisas mais pequenas, \u00e9 intoler\u00e1vel; rude e col\u00e9rico, seria em v\u00e3o buscar, durante seus acessos de mau humor, vest\u00edgios da bondade de seu cora\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o poupa nada, fere seus amigos com a mais amarga ironia, deleita-se em tortur\u00e1-los sem piedade alguma, e parece encontrar prazer no mal que lhes causa, tudo isso com uma const\u00e2ncia que mais de uma vez me pareceu intermin\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 primeira vista, o Sr. Chabri\u00e9 parece muito comum; mas ao conversar com ele por alguns momentos, rapidamente se reconhece o homem cuja educa\u00e7\u00e3o foi cuidadosa. Ele \u00e9 de estatura m\u00e9dia e deve ter sido bem proporcionado antes de ganhar peso. Sua cabe\u00e7a, quase completamente sem cabelos, apresenta no topo uma superf\u00edcie cuja brancura contrasta de maneira bastante bizarra com o vermelho escuro que colore todo o seu rosto. Seus pequenos olhos azuis, afetados pelo mar, t\u00eam uma express\u00e3o indefin\u00edvel de mal\u00edcia, insol\u00eancia e ternura. Seu nariz \u00e9 um pouco torto, e seus l\u00e1bios grossos, t\u00e3o horr\u00edveis quando est\u00e1 com raiva, t\u00e3o graciosos quando ri com aquele riso ing\u00eanuo das crian\u00e7as, d\u00e3o a esse conjunto uma express\u00e3o simult\u00e2nea de franqueza, bondade e aud\u00e1cia. O que \u00e9 admir\u00e1vel nele s\u00e3o seus dentes; eles formam, segundo sua pr\u00f3pria express\u00e3o, uma mand\u00edbula-modelo. Como tudo nesse homem contrasta de maneira mais estranha, sua voz afeta a audi\u00e7\u00e3o de duas maneiras bastante opostas: ao falar, acredito que n\u00e3o seja poss\u00edvel ouvir uma voz mais rouca, mais \u00e1spera, mais discordante; mas quando essa mesma voz canta um trecho de Rossini, uma das pe\u00e7as de Nourrit, um tirol\u00eas ou uma bela can\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica, oh! ent\u00e3o, voc\u00ea se sente transportado aos c\u00e9us. Sua voz, pura e fresca, seu tom de alma e harmonia ressoam profundamente em seu cora\u00e7\u00e3o: voc\u00ea sente arrepios e experimenta uma doce emo\u00e7\u00e3o. O capit\u00e3o Chabri\u00e9 perdeu sua voca\u00e7\u00e3o, como tantos outros, em nossa sociedade invertida; ele estava destinado a cantar no \u00d3pera; sua admir\u00e1vel voz de tenor teria encantado tr\u00eas mil espectadores e, durante seis horas seguidas, os teria mantido em um estado de doce beatitude, assim como faz nosso famoso Nourrit. Para completar o retrato, acrescentarei que o capit\u00e3o Chabri\u00e9 \u00e9 muito exigente com sua apar\u00eancia, sendo at\u00e9 mesmo coquete. Extremamente friorento desde que sentiu os primeiros sintomas de dor reum\u00e1tica na perna, ele cuida meticulosamente de sua sa\u00fade, cobrindo-se com todo tipo de vestu\u00e1rio para se proteger do frio ou da umidade, empilhando-os de maneira grotesca.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo, o Sr. Briet (Louis), tamb\u00e9m nascido em Lorient, da mesma idade que o Sr. Chabri\u00e9, fazia parte da guarda do imperador em 1815: a queda da \u00e1guia tirou-lhe seu belo cavalo e seu uniforme brilhante, deixando o futuro marechal da Fran\u00e7a inconsol\u00e1vel. Desiludido em suas esperan\u00e7as de gl\u00f3ria, ele foi tentar a sorte nas col\u00f4nias espanholas. O Sr. Briet tinha se tornado marinheiro, tornou-se capit\u00e3o e navegava por conta pr\u00f3pria ou para um armador. Seu car\u00e1ter era mais militar do que mar\u00edtimo; ele tinha ordem em todas as coisas, o que os marinheiros n\u00e3o t\u00eam; era muito asseado e habilidoso em tudo o que fazia, al\u00e9m de possuir grande sobriedade. Falava pouco, trabalhava muito e sempre comandava com aquele tom frio e seco de um oficial que se dirige a batalh\u00f5es ou esquadr\u00f5es, sem parecer sentir a ansiedade dos marinheiros pela r\u00e1pida execu\u00e7\u00e3o das manobras que ordena. Sua educa\u00e7\u00e3o tinha sido negligenciada, mas seu bom senso natural compensava t\u00e3o bem que era dif\u00edcil perceber antes de estud\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>O Sr. Briet era um homem muito bonito, alto, bem proporcionado, com belos tra\u00e7os e uma fisionomia distinta. N\u00e3o era de seu car\u00e1ter ser atencioso ou galante com as damas, mas a bordo ele tinha aten\u00e7\u00f5es sempre muito polidas e perfeitamente adequadas para todos.<\/p>\n\n\n\n<p>O Sr. David (Alfred), nascido em Paris, tinha trinta e quatro anos. Ele era o tipo de parisiense que havia viajado pelo mundo. Saindo aos quatorze anos do Col\u00e9gio Bonaparte, seus pais o fizeram embarcar em um navio indo para a \u00cdndia, para que ele aprendesse um pouco na escola da vida. Chegando a Calcut\u00e1, o capit\u00e3o o deixou em terra, j\u00e1 tendo o suficiente do incorrig\u00edvel. O menino impudente, com uma cabe\u00e7a ruim, mas um cora\u00e7\u00e3o cheio de coragem, tomou a firme resolu\u00e7\u00e3o de ganhar a vida e o fez. Foi marinheiro, professor de l\u00ednguas, comerciante assistente, entre outros, permanecendo assim por cinco anos na \u00cdndia. De volta \u00e0 Fran\u00e7a, tentou se estabelecer l\u00e1; por\u00e9m, depois de ser empurrado por essas belas promessas das quais Paris nunca est\u00e1 sem, decidiu tentar novamente a sorte na carreira industrial e partiu para o Peru. Em Lima, conheceu o Sr. Chabri\u00e9, fez amizade com ele, e ambos retornaram juntos \u00e0 Fran\u00e7a em 1832; o Sr. David estava ausente h\u00e1 oito anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Sr. David fez a pr\u00f3pria educa\u00e7\u00e3o e, sem aprofundar-se em nada, adquiriu uma grande variedade de conhecimentos. Ativo, empreendedor, infatig\u00e1vel, \u00e9 \u00e1vido por prazeres, inacess\u00edvel \u00e0 tristeza, insens\u00edvel \u00e0 dor, e possui ao mais alto grau aquele esp\u00edrito de denegrir que o autor de C\u00e2ndido colocou em voga no final do s\u00e9culo passado. Ele sempre v\u00ea a humanidade pelo lado ruim; teimoso em sua opini\u00e3o, nunca est\u00e1 de acordo com os outros, critica tudo, debate sobre tudo; sofista por natureza, lan\u00e7a-se audaciosamente em uma discuss\u00e3o que est\u00e1 incapaz de sustentar, tanto seu esp\u00edrito leve repugna pensamentos profundos, tanto \u00e9 incapaz de uma aten\u00e7\u00e3o sustentada, e quando fica enredado no meio de seus argumentos, interv\u00e9m com uma piada burlesca que, ao provocar risadas de sua audi\u00eancia, faz com que o objetivo principal da discuss\u00e3o seja esquecido. Por mais superficialmente que conhe\u00e7a o assunto sobre o qual se baseia a conversa, Sr. David fala com uma confian\u00e7a que desconcertaria at\u00e9 o pr\u00f3prio inventor desse assunto. Em uma idade muito tenra, deixado sem ajuda a enfrentar a mis\u00e9ria, foi na boa escola que ele conheceu o cora\u00e7\u00e3o humano; recebido por decep\u00e7\u00f5es precoces, a vida para ele foi sem ilus\u00f5es. O Sr. David odeia a humanidade e considera os homens como feras, sempre prontas a se degolarem mutuamente: mais de uma vez, tendo sentido seus golpes, est\u00e1 constantemente ocupado em se proteger contra seus ataques. O infeliz nunca amou ningu\u00e9m, nem mesmo uma mulher. Nenhum ser jamais compadeceu-se de suas dores, e seu cora\u00e7\u00e3o endureceu. A \u00fanica satisfa\u00e7\u00e3o que concebe \u00e9 entregar-se a todos os seus impulsos. As doces emo\u00e7\u00f5es da alma foram sufocadas nele antes mesmo de se desenvolverem; as sensa\u00e7\u00f5es corporais dominam, e a alma est\u00e1 como que aniquilada. Ele ama apaixonadamente uma boa refei\u00e7\u00e3o, encontra del\u00edcias em fumar um charuto, e alegrava-se pensando nas belas mo\u00e7as de qualquer cor que iria encontrar no primeiro porto onde o acaso nos fizesse atracar. Esses eram os \u00fanicos amores que ele compreendia.<\/p>\n\n\n\n<p>Sr. David \u00e9 um homem muito bonito, de estatura esbelta, sa\u00fade robusta, embora magro. A regularidade e a delicadeza de seus tra\u00e7os, a palidez de seu rosto, suas costeletas negras e seus cabelos brilhantes como azeviche, o brilho de seus olhos e o sorriso sempre presente em seus l\u00e1bios formam um conjunto agrad\u00e1vel de contrastes e harmonias que lhe d\u00e3o uma express\u00e3o de alegria e felicidade que est\u00e1 longe de sentir. O Sr. David \u00e9 o que o mundo chama de um homem am\u00e1vel, fala muito, mas com gra\u00e7a e alegria, e tem na conversa o tipo de amabilidade que as damas apreciam. Al\u00e9m disso, \u00e9 um d\u00e2ndi que atravessa o cabo Horn de meias de seda, faz a barba todos os dias, perfuma os cabelos, recita versos, fala ingl\u00eas, italiano e espanhol, e nunca se deixa cair, mesmo nas mais fortes tempestades. Esses eram os personagens que se encontravam reunidos no Mexicano.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim que chegamos a bordo, cada um de n\u00f3s se ocupou em se acomodar em seu pequeno espa\u00e7o da melhor maneira poss\u00edvel. O Sr. David me ajudou a fazer todos os meus arranjos, indicando, com a experi\u00eancia que tinha de viagens mar\u00edtimas, o que eu precisava fazer para evitar o m\u00e1ximo de desconfortos poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Senti-me acometida pelo mal do mar uma hora ap\u00f3s entrar nesta casa flutuante. Esse mal tem sido descrito tantas vezes pelas numerosas v\u00edtimas que foram torturadas por ele, que evitarei cansar meu leitor com uma nova descri\u00e7\u00e3o. Direi apenas que o mal do mar \u00e9 um sofrimento que n\u00e3o se parece em nada com nossas doen\u00e7as habituais: \u00e9 uma agonia permanente, uma suspens\u00e3o da vida; tem o horr\u00edvel poder de tirar dos infelizes que o sofrem o uso de suas faculdades intelectuais, bem como o uso de seus sentidos. As pessoas de constitui\u00e7\u00e3o nervosa sofrem os efeitos cru\u00e9is desse mal com mais intensidade que as outras. Quanto a mim, senti-o com tal const\u00e2ncia que n\u00e3o passou um s\u00f3 dia, durante os cento e trinta e tr\u00eas do viagem, sem que eu tivesse v\u00f4mitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nosso navio estava ancorado na foz do rio: o tempo n\u00e3o parecia favorecer nossa sa\u00edda do perigoso Golfo da Biscaia; no entanto, o capit\u00e3o, por volta das tr\u00eas horas, mandou levantar \u00e2ncora. A pesada m\u00e1quina, leve como uma pluma no meio das ondas, come\u00e7ou a avan\u00e7ar atrav\u00e9s da imensid\u00e3o que o c\u00e9u abrange, e, d\u00f3cil ao g\u00eanio do homem, seguia na dire\u00e7\u00e3o que ele lhe dava.<\/p>\n\n\n\n<p>Mal est\u00e1vamos no golfo, o assobio agudo dos ventos e o tumulto das ondas anunciaram a tempestade. Logo ap\u00f3s, ela se declarou com toda a sua viol\u00eancia por meio de rugidos assustadores. Esse espet\u00e1culo, ao qual assistia sem ver, era novo para mim; teria encontrado prazer em contempl\u00e1-lo se me restasse algum vest\u00edgio de for\u00e7a; o mal do mar absorvia ent\u00e3o todas as minhas faculdades: eu s\u00f3 tinha a consci\u00eancia da minha exist\u00eancia pelos calafrios que percorriam meu corpo e que eu acreditava serem os precursores da minha morte. Tivemos uma noite horr\u00edvel. O capit\u00e3o teve a sorte de conseguir retornar ao rio. Uma onda levou nossos carneiros, outra nossos cestos de legumes, e nosso pobre pequeno navio, na v\u00e9spera t\u00e3o charmoso, t\u00e3o bem arrumado, j\u00e1 estava todo mutilado. O capit\u00e3o, embora exausto de cansa\u00e7o, desceu em terra para comprar outros carneiros e substituir os legumes que o mar nos havia levado. Durante sua aus\u00eancia, o carpinteiro reparou os estragos causados pela tempestade, e os marinheiros restabeleceram a ordem, t\u00e3o necess\u00e1ria a bordo dos navios.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa primeira tentativa n\u00e3o nos tornou mais s\u00e1bios, e nos expusemos novamente a perigos certos, dos quais quase fomos v\u00edtimas, por um falso ponto de honra que muitas vezes leva os marinheiros a desafiar perigos in\u00fateis e faz com que comprometam a vida das pessoas e a seguran\u00e7a dos navios a eles confiados. No dia seguinte, 10 de abril, o mar continuando t\u00e3o agitado, esses senhores, que eram muito prudentes, julgaram com raz\u00e3o que dev\u00edamos manter o piloto at\u00e9 que o tempo estivesse suficientemente seguro para que pud\u00e9ssemos dispens\u00e1-lo sem perigo; mas perto de n\u00f3s estavam ancorados dois outros navios, que partiram de Bord\u00e9us no mesmo dia e com o mesmo destino, o Charles-Adolphe e o Fl\u00e9t\u00e8s. Este \u00faltimo, por bravata sem d\u00favida, dispensou seu piloto e seguiu viagem; o outro n\u00e3o quis ficar para tr\u00e1s e fez o mesmo. Esses senhores do Mexicano come\u00e7aram por criticar a imprud\u00eancia dos outros dois navios; mas, embora fossem pouco suscet\u00edveis de se deixar influenciar pelo exemplo alheio, o medo de serem considerados medrosos fez com que abandonassem sua primeira decis\u00e3o. Por volta das quatro da tarde, dispensaram o piloto, e nos encontramos no meio das ondas iradas; como altas montanhas, elas se erguiam ao redor do nosso navio; \u00e9ramos apenas um ponto no abismo, e o encontro de duas ondas nos teria sepultado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ficamos tr\u00eas dias sem conseguir sair do golfo, continuamente a\u00e7oitados pela tempestade e na posi\u00e7\u00e3o mais cr\u00edtica. Todos os nossos homens, doentes ou exaustos de cansa\u00e7o, estavam incapacitados de realizar seus servi\u00e7os. Durante esses tr\u00eas longos dias de agonia, nosso valente capit\u00e3o n\u00e3o deixou o conv\u00e9s de seu navio: ele me disse depois que, v\u00e1rias vezes, viu nosso fr\u00e1gil brigue prestes a se chocar contra as rochas ou ser engolido pelas ondas. Gra\u00e7as a Deus, sa\u00edmos dessa situa\u00e7\u00e3o com sucesso; mas n\u00e3o deveriam esses perigos fazer os marinheiros refletirem, j\u00e1 que todos os dias cometem imprud\u00eancias semelhantes?<\/p>\n\n\n\n<p>No dia 13, entre duas e tr\u00eas horas da tarde, nosso capit\u00e3o, exausto de cansa\u00e7o e encharcado como se tivesse ca\u00eddo no mar, desceu para a cabine, onde n\u00e3o entrava havia tr\u00eas dias. Vendo todas as cabines fechadas e n\u00e3o ouvindo o menor sopro humano, ele gritou com sua voz rouca e forte:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Hol\u00e1! Ei! Passageiros! Est\u00e1 todo mundo morto aqui?<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m respondeu \u00e0 sua gentil pergunta. Ent\u00e3o, o Sr. Chabri\u00e9 entreabriu a porta da minha cabine e me disse com um tom de solicitude que nunca esquecerei:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Senhorita Flora, voc\u00ea esteve muito doente, disse-me David: pobre mo\u00e7a! Eu realmente sinto muito por voc\u00ea; pois, eu tamb\u00e9m, antigamente, sofri muito com o mal do mar; mas, acalme-se, finalmente sa\u00edmos da boca do abismo, acabamos de entrar em mar aberto; n\u00e3o sente os suaves balan\u00e7os que sucedem as horr\u00edveis convuls\u00f5es que experiment\u00e1vamos at\u00e9 h\u00e1 pouco? O tempo est\u00e1 magn\u00edfico; se voc\u00ea tivesse for\u00e7as para se levantar e subir ao conv\u00e9s, isso lhe revigoraria; l\u00e1 em cima sopra uma brisa pura e fresca que \u00e9 muito agrad\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Agradeci-lhe com o olhar, estando fraca demais para sequer tentar falar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Pobre mo\u00e7a! \u2013 continuou ele com express\u00e3o de uma bondade compassiva \u2013 esse tempo vai permitir que voc\u00ea durma. E eu tamb\u00e9m vou dormir, pois estou precisando muito.<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, todos n\u00f3s dormimos por vinte e quatro horas seguidas. Fui acordada pelo Sr. David, que abria todas as cabines com grande barulho, porque queria saber, segundo ele, se todos os passageiros estavam definitivamente mortos. N\u00e3o est\u00e1vamos mortos; mas, meu Deus! em que estado est\u00e1vamos! O Sr. Chabri\u00e9, superior demais, como homem, para tentar obter um t\u00edtulo de comando do navio confiado a seus cuidados, falava com toda a tripula\u00e7\u00e3o e com os passageiros mais como amigo do que como mestre ap\u00f3s Deus. Na tempestade, ele era o primeiro marinheiro do navio, e habitualmente um homem cuja bondade se interessava pelo bem-estar de todas as pessoas a bordo: convidou-nos amigavelmente a nos levantar, trocar de roupa, subir para tomar ar e, sobretudo, comer um pouco de sopa quente. Quanto a mim, consenti, com a condi\u00e7\u00e3o de que me dispensassem de comer qualquer coisa. Esses senhores tiveram a gentileza de me preparar uma cama na popa. Tive que reunir toda a minha coragem para me levantar e me vestir, e, sem a ajuda desses senhores, teria sido imposs\u00edvel para mim subir ao conv\u00e9s.<\/p>\n\n\n\n<p>Os primeiros quinze dias da minha estadia a bordo foram para mim um longo entorpecimento, durante o qual tive, apenas por intervalos muito curtos, a consci\u00eancia de meu ser. Desde o nascer do sol at\u00e9 \u00e0s seis da tarde, eu estava t\u00e3o sofrida que era imposs\u00edvel juntar duas ideias. Estava indiferente a tudo; desejava apenas que uma morte r\u00e1pida pusesse fim aos meus males; mas uma voz interior me dizia que eu n\u00e3o morreria.<\/p>\n\n\n\n<p>Perto das Ilhas Can\u00e1rias, esses senhores perceberam que o navio estava fazendo \u00e1gua e decidiram parar no primeiro porto para calafetar o casco.<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1vamos no mar h\u00e1 apenas vinte e cinco dias; esse tempo me parecia t\u00e3o longo, a vida a bordo era t\u00e3o pesada para mim que, quando me anunciaram a proximidade da terra, a alegria e o contentamento que senti dissiparam imediatamente meu mal: recuperei a sa\u00fade. \u00c9 preciso ter estado no mar para conhecer a intensidade da emo\u00e7\u00e3o contida nessa palavra: terra! terra! N\u00e3o, o \u00e1rabe no deserto n\u00e3o sente uma alegria mais intensa ao ver a fonte onde saciar\u00e1 sua sede ardente; o prisioneiro que, ap\u00f3s longa deten\u00e7\u00e3o, recupera sua liberdade, sente menos j\u00fabilo. Terra! terra! Essa palavra, depois de longos meses passados entre o c\u00e9u e o abismo, encerra tudo para o navegador: \u00e9 a vida inteira em suas alegrias, \u00e9 a p\u00e1tria; pois, nesse momento, os preconceitos nacionais se calam, e ele s\u00f3 sente o v\u00ednculo que o une \u00e0 humanidade; s\u00e3o as alegrias sociais, as sombras suaves e os prados floridos, o amor e a liberdade; enfim, essa palavra terra faz renascer nele o sentimento de seguran\u00e7a que, ap\u00f3s grandes perigos, confere um encanto m\u00e1gico \u00e0 exist\u00eancia. A todas essas alegrias se une, para muitos, a impress\u00e3o do prazer que sentir\u00e3o ao rever seus amigos ou se reunir com sua fam\u00edlia, abra\u00e7ar m\u00e3e, esposa e filhos. \u00d3 terra! frequentemente amaldi\u00e7oada por aqueles que te pisam, parecerias um \u00c9den se tivessem habitado por alguns meses o seio dos mares, onde n\u00e3o se veem sombras frescas, nem prados floridos; onde n\u00e3o se encontram parentes, nem amigos pelo caminho.<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1vamos todos no conv\u00e9s, \u00e1vidos para descobrir essa terra que, naquele instante, cada um de n\u00f3s embelezava com os sonhos de sua imagina\u00e7\u00e3o: nossos cora\u00e7\u00f5es batiam enquanto dobr\u00e1vamos o cabo que terminava a l\u00edngua de terra que forma a ba\u00eda da Praia. O que \u00edamos ver? Foi nesse ancoradouro que me esperava a primeira decep\u00e7\u00e3o da minha viagem. Eu n\u00e3o era muito forte em geografia e, nunca tendo lido a descri\u00e7\u00e3o da Praia, improvisei uma na minha cabe\u00e7a. Pensava que uma ilha chamada Cabo Verde deveria necessariamente oferecer aos navegadores uma paisagem verdejante; pois, se n\u00e3o fosse assim, a que causa se deveria atribuir a origem de seu nome? N\u00e3o me ocorria, ent\u00e3o, que os nomes frequentemente t\u00eam origem em circunst\u00e2ncias bizarras que, na maioria das vezes, n\u00e3o t\u00eam a menor rela\u00e7\u00e3o com as coisas que esses nomes designam. O que se chama, no cabo Horn, a Terra do Fogo se parece com a Terra do Gelo; mas quem a descobriu achou que a viu em chamas por n\u00e3o sei qual ilus\u00e3o de \u00f3tica, e a nomeou tal como se apresentava a seus olhos. Assim, Valpara\u00edso (vale do Para\u00edso) recebeu esse nome divino dos primeiros marinheiros espanh\u00f3is que chegaram \u00e0 sua ba\u00eda; eles teriam, ap\u00f3s uma travessia t\u00e3o longa e penosa, nomeado igualmente para\u00edso a costa mais \u00e1rida, o pa\u00eds mais horr\u00edvel, desde que correspondesse \u00e0 palavra terra. Oh! a terra \u00e9, de fato, o para\u00edso do homem; mas cabe a ele plantar a videira e a oliveira, e arrancar os espinhos e os cardos.<\/p>\n\n\n\n<p>O aspecto dessa terra toda negra, completamente \u00e1rida, tem algo de t\u00e3o mon\u00f3tono que se sente uma tristeza dolorosa. Toda a ba\u00eda \u00e9 cercada por rochas mais ou menos altas, contra as quais as ondas se quebram ruidosamente. No meio da ba\u00eda avan\u00e7a, de maneira bastante majestosa, uma alta massa de rochas arredondada em forma de ferradura; \u00e9 na plataforma que a coroa que est\u00e1 constru\u00edda a cidade de Praia.<\/p>\n\n\n\n<p>De longe, esta cidade tem uma apar\u00eancia impressionante. Na parte arredondada do formato de ferradura, est\u00e1 estabelecida uma bateria equipada com vinte e duas pe\u00e7as de canh\u00e3o de grosso calibre; militares razoavelmente bem equipados fazem a guarda. \u00c0 esquerda, h\u00e1 uma bonita igreja, recentemente constru\u00edda; \u00e0 direita, a casa do c\u00f4nsul americano, encimada por um pequeno belvedere que serve de observat\u00f3rio para avistar os navios no mar. Aqui e ali, avistam-se algumas touceiras de bananeiras, grupos de sic\u00f4moros e outras \u00e1rvores de folhas largas.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> As estat\u00edsticas estimam que, na Fran\u00e7a, trezentas mil mulheres est\u00e3o separadas de seus maridos.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Andr\u00e9 Chazal, jovem gravador em talhe-doce e irm\u00e3o de A. Chazal, professor no Jardin des Plantes.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> Andr\u00e9 Chazal, ex-marido de Flora (N.T.)<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> Guerra Peninsular, com a invas\u00e3o da Espanha e Portugal pela Fran\u00e7a (N.T.).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> Queda de Napole\u00e3o Bonaparte e ao fim das Guerras Napole\u00f4nicas (N.T.).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Abaixo voc\u00ea ir\u00e1 ler as primeiras p\u00e1ginas de &#8220;Peregrina\u00e7\u00f5es de uma P\u00e1ria&#8221;, de Flora Trist\u00e1n. Caso voc\u00ea queira saber mais sobre a obra, e como adquiri-la, clique aqui ou na capa do livro logo abaixo. Pref\u00e1cio Pois, em verdade vos digo, se tiv\u00e9sseis f\u00e9 do tamanho de um gr\u00e3o de\u2026<\/p>\n<p class=\"continue-reading-button\"> <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2024\/10\/02\/peregrinacoes-de-uma-paria-de-flora-tristan\/\">Leia mais<i class=\"crycon-right-dir\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1032,"comment_status":"closed","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5,47],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1036"}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1036"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1036\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1037,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1036\/revisions\/1037"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1032"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1036"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1036"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1036"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}