{"id":1067,"date":"2024-10-09T23:51:27","date_gmt":"2024-10-09T23:51:27","guid":{"rendered":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=1067"},"modified":"2024-10-09T23:51:27","modified_gmt":"2024-10-09T23:51:27","slug":"para-alem-do-marxismo-de-henri-de-man","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2024\/10\/09\/para-alem-do-marxismo-de-henri-de-man\/","title":{"rendered":"Para Al\u00e9m do Marxismo, de Henri de Man"},"content":{"rendered":"\n<p>Voc\u00ea ir\u00e1 ler, a seguir, um trecho da obra &#8220;Para Al\u00e9m do Marxismo&#8221;, de Henri de Man. Caso deseje saber mais sobre o livro, ou queira adquiri-lo, <a href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/para-alem-do-marxismo\/\">clique aqui<\/a>, ou na imagem da capa abaixo.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/para-alem-do-marxismo\/\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"231\" height=\"328\" src=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/capinha_de-man.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1064\" srcset=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/capinha_de-man.jpg 231w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/capinha_de-man-211x300.jpg 211w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/capinha_de-man-106x150.jpg 106w\" sizes=\"(max-width: 231px) 100vw, 231px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\"> <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><a>I. A teoria dos motivos, o principal problema do socialismo<\/a><\/h1>\n\n\n\n<p><em>\u201cA tarefa do materialismo hist\u00f3rico \u2013 como Marx o entendia \u2013 era precisamente explicar como os homens podem transformar as circunst\u00e2ncias das quais eles pr\u00f3prios s\u00e3o os produtos.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>G. Plekhanoff<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 surpreendente que o socialismo passe por uma crise intelectual. Ap\u00f3s a Primeira Guerra Mundial, ocorreram perturba\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas t\u00e3o profundas que todos os partidos e movimentos de ideias tiveram que passar por uma transforma\u00e7\u00e3o intelectual para se adaptar \u00e0 nova situa\u00e7\u00e3o. Tais transforma\u00e7\u00f5es nunca ocorrem sem fric\u00e7\u00f5es internas, muitas vezes dolorosas. Sempre implicam uma crise doutrin\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, o socialismo marxista p\u00f3s-guerra apresenta sintomas de crise que n\u00e3o podem ser explicados apenas pelas dificuldades passageiras de adapta\u00e7\u00e3o a novas circunst\u00e2ncias. Aqui, a evolu\u00e7\u00e3o dos \u00faltimos dez anos apenas levou ao \u00e1pice uma crise que j\u00e1 se anunciava h\u00e1 muito tempo. Isso se manifestou por meio de um crescente desacordo entre a teoria marxista e a pr\u00e1tica dos partidos oper\u00e1rios que se baseavam nessa teoria. Esse desacordo se tornou mais claro na Alemanha durante o per\u00edodo que vai da aboli\u00e7\u00e3o das leis de exce\u00e7\u00e3o contra os socialistas (1890) ao in\u00edcio da Primeira Guerra Mundial. J\u00e1 naquela \u00e9poca, o marxismo sofria uma crise, cujo revisionismo era o sintoma doutrin\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 caracter\u00edstico observar que sintomas semelhantes surgem no movimento socialista de todos os pa\u00edses com uma import\u00e2ncia proporcional \u00e0 influ\u00eancia das ideias marxistas. O que varia de um pa\u00eds para outro \u00e9 apenas a intensidade com que se sente um problema que, fundamentalmente, \u00e9 o mesmo em todos os lugares.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, parece que o marxismo perdeu, fora da R\u00fassia, grande parte de sua vitalidade intelectual. A atividade liter\u00e1ria de seus te\u00f3ricos diminuiu ao mesmo tempo que o interesse de seus leitores. Pode-se observar em todo lugar uma curiosidade intelectual crescente, que se volta mais do que nunca para os grandes problemas da interpreta\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica do mundo e da hist\u00f3ria; no entanto, esse interesse crescente pelas ideias fundamentais, que revitaliza as preocupa\u00e7\u00f5es metaf\u00edsicas e religiosas, beneficia cada vez menos a literatura marxista, precisamente porque n\u00e3o satisfaz essa curiosidade. Qualquer livreiro ou bibliotec\u00e1rio pode confirmar isso com estat\u00edsticas. Enquanto em todo lugar se busca abrir novas janelas, o marxismo tenta, ao contr\u00e1rio, fechar as suas. Sob sua forma comunista, seu recuo para si mesmo \u00e9 ao mesmo tempo um retrocesso: quase n\u00e3o h\u00e1 teses marxistas que a exegese comunista n\u00e3o tenha reduzido ao n\u00edvel primitivo de um simbolismo grosseiro para uso dos agitadores. Mas mesmo os socialistas que repugnam esse marxismo \u201cvulgar\u201d sentem-se impelidos, pela necessidade de sua resist\u00eancia, a um isolamento dogm\u00e1tico crescente. Para contestar ao comunismo o monop\u00f3lio da ortodoxia marxista, pelo qual ele tenta aumentar seu prest\u00edgio junto \u00e0s massas, os marxistas socialistas, que op\u00f5em seu marxismo \u201cpuro\u201d ao marxismo \u201cvulgar\u201d dos comunistas, devem acentuar o m\u00e1ximo poss\u00edvel sua pr\u00f3pria ortodoxia. Por esse motivo, eles se proclamam os verdadeiros deposit\u00e1rios do pensamento de Marx em sua forma mais puramente cient\u00edfica. For\u00e7ados ao mesmo tempo a manter seu prest\u00edgio cient\u00edfico e a servir \u00e0 pol\u00edtica dos partidos socialistas, eles se veem lidando diariamente com fatos completamente diferentes daqueles sobre os quais Marx havia originalmente constru\u00eddo sua doutrina. Sua integridade cient\u00edfica n\u00e3o lhes permite ignorar esses fatos, mas eles obedecem a essa obriga\u00e7\u00e3o a contragosto. Eles naturalmente se preocupam mais com a doutrina antiga do que com os fatos novos. Eles constantemente se encontram na defensiva: a teoria sofre com a pr\u00e1tica em vez de a vivificar. A falta de concord\u00e2ncia entre teoria e pr\u00e1tica, argumento favorito da cr\u00edtica comunista contra os partidos oper\u00e1rios da Europa, torna-se ainda mais evidente.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, em todos os pa\u00edses do mundo, os sindicatos, as cooperativas e os partidos oper\u00e1rios est\u00e3o cada vez mais sendo levados, pelas circunst\u00e2ncias, a uma pol\u00edtica de compromisso, modera\u00e7\u00e3o cautelosa e coaliz\u00e3o defensiva com seus antigos advers\u00e1rios. \u00c9 sempre poss\u00edvel, por meio de distin\u00e7\u00f5es casu\u00edsticas entre o fim e os meios, construir uma ponte l\u00f3gica entre a doutrina tradicional e a t\u00e1tica atual. Mas essa ponte l\u00f3gica n\u00e3o \u00e9 uma ponte psicol\u00f3gica. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil justificar logicamente uma pol\u00edtica de coaliz\u00e3o de classe por meio de uma doutrina de luta de classes; mas pode haver contradi\u00e7\u00e3o nos motivos emocionais, mesmo quando n\u00e3o h\u00e1 contradi\u00e7\u00e3o nos motivos intelectuais. Os motivos das massas s\u00e3o essencialmente emocionais. \u00c9 dif\u00edcil fazer com que essas massas compreendam e aprovem que o mesmo objetivo possa justificar, a poucos anos de dist\u00e2ncia, meios completamente diferentes. Ao fazer isso, corre-se o risco de minar sua confian\u00e7a nos l\u00edderes, que \u00e9 o cimento moral de toda vontade pol\u00edtica coletiva. Os l\u00edderes tentam, portanto, afirmar o m\u00e1ximo poss\u00edvel a continuidade de seus motivos, proclamando sua fidelidade \u00e0s doutrinas marxistas do passado. Mas isso \u00e9 mais um ato simb\u00f3lico do que pr\u00e1tico. O marxismo n\u00e3o inspira mais as a\u00e7\u00f5es propriamente pol\u00edticas, porque estas s\u00e3o dominadas por circunst\u00e2ncias muito diferentes das que deram origem \u00e0 doutrina. Seu papel se resume a fornecer o arsenal de f\u00f3rmulas de propaganda, especialmente aquelas destinadas a manter o entusiasmo dos partid\u00e1rios alimentados nas tradi\u00e7\u00f5es antigas, e a rebater a argumenta\u00e7\u00e3o comunista sobre a trai\u00e7\u00e3o aos princ\u00edpios.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses princ\u00edpios s\u00e3o reduzidos, portanto, a uma fun\u00e7\u00e3o de conservadorismo passivo muito diferente de sua fun\u00e7\u00e3o anterior, e a doutrina tende a desempenhar um papel bastante semelhante ao dos ritos religiosos em uma igreja que se tornou uma pot\u00eancia temporal. De motor da a\u00e7\u00e3o, ela se tornou um meio auxiliar de propaganda. Quanto mais \u201cpura\u201d ela for, melhor poder\u00e1 galvanizar a energia dos militantes inspirados pelo idealismo revolucion\u00e1rio de antes. Mas para permanecer \u201cpura\u201d, ela deve se isolar cada vez mais do dom\u00ednio atual da pol\u00edtica pr\u00e1tica e das tend\u00eancias atuais dos grandes fluxos intelectuais. Portanto, ela se volta cada vez mais para a cr\u00edtica dos textos, as disputas de interpreta\u00e7\u00e3o e a discuss\u00e3o de princ\u00edpios abstratos. Sempre que \u00e9 obrigada a enfrentar um fato pr\u00e1tico, ela se torna casu\u00edstica, tentando sempre justificar o fato pelo sistema, nunca vivificar o sistema pelo fato.<\/p>\n\n\n\n<p>Da\u00ed surge a impress\u00e3o geral de uma falta de vigor e frescor intelectuais, indicadores n\u00e3o tanto de uma crise de crescimento quanto de debilidade senil. Percebe-se facilmente uma certa falta de coer\u00eancia e um certo enfraquecimento da autoconfian\u00e7a assim que os guardi\u00f5es de uma doutrina se preocupam mais em provar que ela ainda est\u00e1 viva do que em conquistar o mundo para ela. A essa impress\u00e3o se acrescenta a de uma certa falta de sinceridade. Claro, isso n\u00e3o significa que se deva duvidar nem um pouco da sinceridade subjetiva dos te\u00f3ricos. Significa apenas que se percebe que est\u00e3o preocupados em justificar muitos atos da pr\u00e1tica que, em seu \u00edntimo, teriam desejado diferentes. Tudo isso resulta em uma certa diminui\u00e7\u00e3o da qualidade moral, um fen\u00f4meno pelo qual a juventude, especialmente, deixa-se impressionar muito facilmente e de maneira desfavor\u00e1vel. Ela se mostra \u00edntegra e \u00e0s vezes at\u00e9 intolerante, como se sabe, em sua demanda por uma concep\u00e7\u00e3o de vida que seja ao mesmo tempo uma filosofia e uma regra de conduta. Os jovens, assim como os intelectuais, veem na pol\u00edtica apenas a realiza\u00e7\u00e3o de uma ideia, baseada tanto na moralidade quanto na raz\u00e3o. Eles sentem mais do que nunca, depois de terem visto sua confian\u00e7a em tantos ideais abalada pelas experi\u00eancias da guerra, a necessidade de uma f\u00e9 cuja sinceridade possa ser comprovada pela realiza\u00e7\u00e3o na vida pr\u00e1tica individual. Esta \u00e9 a causa profunda da crescente avers\u00e3o da juventude e dos intelectuais ao marxismo: ele lhes parece ao mesmo tempo muito r\u00edgido como modo de pensamento e muito complacente como regra de conduta. Eles sentem instintivamente, na medida em que conhecem a doutrina, que, embora utiliz\u00e1vel talvez como teoria econ\u00f4mica, ela n\u00e3o lhes oferece resposta alguma \u00e0s quest\u00f5es que mais os preocupam. De fato, essas quest\u00f5es n\u00e3o dizem mais respeito apenas \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre diferentes sistemas econ\u00f4micos, mas \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre o homem, por um lado, e os sistemas econ\u00f4micos, por outro. A juventude quer menos uma nova teoria econ\u00f4mica ou um novo m\u00e9todo de interpreta\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria do que uma nova concep\u00e7\u00e3o de vida, at\u00e9 mesmo uma nova religi\u00e3o. Como o marxismo n\u00e3o lhes oferece isso, eles se afastam dele. Portanto, a cr\u00edtica ao marxismo hoje incide sobre problemas muito diferentes e muito mais fundamentais do que a cr\u00edtica de Bernstein no final do s\u00e9culo passado.<\/p>\n\n\n\n<p>O que impede o marxismo atual de ser a doutrina viva de um movimento vivo n\u00e3o \u00e9 o car\u00e1ter problem\u00e1tico de algumas de suas teses doutrin\u00e1rias, como o empobrecimento do proletariado, a concentra\u00e7\u00e3o das empresas, o agravamento da luta de classes etc. Mesmo que Bernstein estivesse completamente errado em sua cr\u00edtica a essas doutrinas, ainda restaria resolver uma quest\u00e3o preliminar muito mais importante: Ser\u00e1 que essas teses, se assumidas como corretas, trazem alguma justifica\u00e7\u00e3o para os objetivos socialistas dos quais Marx se inspirou?<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, era absolutamente indiferente ao sucesso te\u00f3rico do revisionismo se Bernstein ou Kautsky estavam certos sobre a tese marxista da concentra\u00e7\u00e3o das empresas. A quest\u00e3o decisiva n\u00e3o \u00e9 se essa concentra\u00e7\u00e3o ocorre da maneira descrita por Marx, mas, primeiro, se ela direciona as vontades sociais na dire\u00e7\u00e3o da cat\u00e1strofe social que ele havia previsto; em segundo lugar, e principalmente, se o desaparecimento da classe m\u00e9dia industrial prova de alguma forma que o socialismo \u00e9 necess\u00e1rio ou desej\u00e1vel. Ou ainda: De que adianta provar que as crises econ\u00f4micas se desenrolaram de forma diferente daquela profetizada por Marx? A quest\u00e3o importante \u00e9 saber se Marx n\u00e3o errou ao identificar a no\u00e7\u00e3o de cat\u00e1strofe econ\u00f4mica com a no\u00e7\u00e3o de revolu\u00e7\u00e3o social. O que o empobrecimento progressivo do proletariado provaria, se n\u00e3o se admitisse a hip\u00f3tese de que a vontade socialista das massas depende do grau de sua mis\u00e9ria? E o que o agravamento da luta de classes provaria, se n\u00e3o se acreditasse que a luta de interesses deve conduzir ao socialismo?<\/p>\n\n\n\n<p>Os pontos vulner\u00e1veis do marxismo que essas perguntas revelam dependem menos da exatid\u00e3o de suas conclus\u00f5es econ\u00f4micas e sociais do que da maneira como ele pretende transformar seu m\u00e9todo de conhecimento em um m\u00e9todo de a\u00e7\u00e3o. O plano da cr\u00edtica \u00e9 deslocado do dom\u00ednio das conclus\u00f5es para o da metodologia. E a metodologia, como veremos ao examinar o significado hist\u00f3rico do marxismo, est\u00e1 diretamente ligada \u00e0s suposi\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas que dominaram todo o pensamento ocidental por volta de meados do s\u00e9culo XIX. Essas suposi\u00e7\u00f5es s\u00e3o t\u00e3o contestadas hoje quanto eram amplamente aceitas h\u00e1 cem anos. Todo esfor\u00e7o cient\u00edfico em nossa \u00e9poca tenta se libertar dessa mentalidade, que pode ser provisoriamente caracterizada pelas express\u00f5es: determinismo, mecanicismo, historicismo, racionalismo e hedonismo econ\u00f4mico.<\/p>\n\n\n\n<p>O marxismo deduz o objetivo do socialismo de leis de evolu\u00e7\u00e3o social \u00e0s quais ele atribui o car\u00e1ter inevit\u00e1vel de leis naturais; nisso, \u00e9 determinista. Acredita que essas leis se realizam de forma dial\u00e9tica, isto \u00e9, correspondendo a uma esp\u00e9cie de causalidade pela qual, \u00e0 semelhan\u00e7a de certos efeitos mec\u00e2nicos, uma for\u00e7a muda sua dire\u00e7\u00e3o sem modificar sua natureza ou intensidade e, assim, resulta em um efeito oposto ao de sua dire\u00e7\u00e3o inicial; nesse sentido, o marxismo procede de uma no\u00e7\u00e3o mecanicista de causalidade. Fundamenta seu conhecimento das leis de evolu\u00e7\u00e3o social na hist\u00f3ria passada, considerando os objetivos da vontade humana como o resultado de certos estados de meio. Portanto, reduz o homem a um objeto de seu ambiente social e faz com que seus objetivos derivem de \u201ccircunst\u00e2ncias\u201d anteriores \u00e0 sua vontade; nesse sentido, sua maneira de pensar est\u00e1 ligada ao que Nietzsche chamou de historicismo do s\u00e9culo XIX. No entanto, de acordo com Marx, a evolu\u00e7\u00e3o social assim determinada n\u00e3o se realiza por si s\u00f3. Ela exige dos homens atos de vontade que derivam de seu conhecimento das circunst\u00e2ncias determinantes e que, na luta do proletariado, tamb\u00e9m deveriam derivar do conhecimento das leis de evolu\u00e7\u00e3o formuladas por Marx. Essa cren\u00e7a do marxismo no conhecimento como causa da vontade social testemunha seu racionalismo. Al\u00e9m disso, o conhecimento do qual ele deriva a atividade social das massas \u00e9 de uma esp\u00e9cie particular: \u00e9 o conhecimento dos interesses econ\u00f4micos decorrentes da situa\u00e7\u00e3o dos produtores em rela\u00e7\u00e3o aos meios de produ\u00e7\u00e3o, e mais especificamente do antagonismo de interesses entre compradores e vendedores da \u201cfor\u00e7a de trabalho\u201d. Partindo da\u00ed, as \u201ccondi\u00e7\u00f5es\u201d que determinam em \u00faltima an\u00e1lise as a\u00e7\u00f5es humanas s\u00e3o, portanto, \u201ccondi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o\u201d, cuja evolu\u00e7\u00e3o, por sua vez, \u00e9 determinada pelo progresso da t\u00e9cnica de produ\u00e7\u00e3o. Nessa cren\u00e7a nas causas econ\u00f4micas do devir social manifesta-se o hedonismo econ\u00f4mico do marxismo.<\/p>\n\n\n\n<p>A teoria dos motivos que serve de base a tudo isso \u2013 o conhecimento dos interesses econ\u00f4micos como fundamento da atividade social \u2013 \u00e9 o meio que permitiu a realiza\u00e7\u00e3o mais importante e original do marxismo: a uni\u00e3o em um \u00fanico sistema doutrin\u00e1rio da luta de classes oper\u00e1ria e do socialismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de Marx, o socialismo ut\u00f3pico havia motivado seus ideais objetivos apenas apresentando-os como moralmente superiores \u00e0 realidade social do presente. Marx quis escapar do elemento de incerteza que essa vis\u00e3o de futuro apresenta. Para isso, ele queria provar que leis econ\u00f4micas tornavam o socialismo inevit\u00e1vel: a luta da classe trabalhadora por seus interesses, conforme decorrem da organiza\u00e7\u00e3o capitalista da produ\u00e7\u00e3o, s\u00f3 pode, segundo ele, levar ao socialismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, \u00e9 precisamente essa identidade entre luta de classes e socialismo, essa inevitabilidade da passagem da luta de interesses para a liberta\u00e7\u00e3o da humanidade, que \u00e9 questionada pela experi\u00eancia do movimento oper\u00e1rio desde Marx. Sem d\u00favida, a consci\u00eancia de classe dos trabalhadores, baseada no conhecimento de seus interesses, tornou-se cada vez mais generalizada e a luta de classe econ\u00f4mica e pol\u00edtica assumiu um car\u00e1ter cada vez mais agudo, mas o objetivo de uma sociedade livre de qualquer antagonismo de classe nos parece mais distante hoje do que antes. Muitos fen\u00f4menos nos fazem duvidar da inevitabilidade da transi\u00e7\u00e3o para uma nova ordem social como mero resultado da luta de interesses; mencionarei, por enquanto, apenas a absor\u00e7\u00e3o gradual da classe trabalhadora pelo meio cultural burgu\u00eas, a cont\u00ednua rejei\u00e7\u00e3o do m\u00f3bil revolucion\u00e1rio pelo m\u00f3bil reformista, o aperto progressivo dos la\u00e7os que unem a classe trabalhadora \u00e0s institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas da comunidade, a diferencia\u00e7\u00e3o nacional crescente do movimento socialista, a forma\u00e7\u00e3o de uma burocracia dirigente nas organiza\u00e7\u00f5es trabalhistas etc. Os problemas que da\u00ed decorrem e que s\u00e3o levados ao primeiro plano de toda discuss\u00e3o sobre o valor atual do marxismo levam diretamente a este problema fundamental: a teoria dos movimentos que faz com que a a\u00e7\u00e3o social das massas derive do conhecimento de seus interesses ainda \u00e9 sustent\u00e1vel?<\/p>\n\n\n\n<p>Para resolver essa quest\u00e3o, o caminho mais simples ser\u00e1, antes de qualquer discuss\u00e3o metodol\u00f3gica sobre a doutrina marxista, examinar os fatos que podem nos esclarecer sobre a verdadeira rela\u00e7\u00e3o entre a luta de interesses prolet\u00e1rios e o objetivo final socialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Vemos assim, desde o in\u00edcio, que a sequ\u00eancia hist\u00f3rica de eventos contradiz o esquema racionalista, que faz com que o objetivo final derive da consci\u00eancia de interesses. As doutrinas socialistas n\u00e3o s\u00e3o o produto do despertar da classe trabalhadora para a consci\u00eancia de sua situa\u00e7\u00e3o de classe. S\u00e3o, pelo contr\u00e1rio, uma condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via para esse despertar. O socialismo existia antes do movimento oper\u00e1rio, at\u00e9 antes da classe trabalhadora.<\/p>\n\n\n\n<p>As doutrinas socialistas \u2013 incluindo a de Marx e Engels \u2013 surgiram de fontes completamente diferentes do interesse de classe do proletariado. Elas s\u00e3o o produto n\u00e3o da ang\u00fastia intelectual dos prolet\u00e1rios, mas da abund\u00e2ncia de cultura de intelectuais de origem burguesa ou aristocr\u00e1tica. Elas se espalharam de cima para baixo, e n\u00e3o de baixo para cima. Dificilmente se encontra um \u00fanico prolet\u00e1rio entre os grandes pensadores e sonhadores que foram os pioneiros do ideal socialista. \u00c9 verdade que nomes de prolet\u00e1rios aparecem mais tarde, quando as doutrinas j\u00e1 se incorporaram aos programas dos movimentos de massas. Mas ent\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o se trata mais de formular as doutrinas, mas apenas de desenvolv\u00ea-las, aplic\u00e1-las e divulg\u00e1-las. Mesmo entre aqueles que se dedicam a essa tarefa, os trabalhadores ou ex-trabalhadores s\u00e3o minoria em rela\u00e7\u00e3o aos intelectuais burgueses no que diz respeito ao trabalho te\u00f3rico propriamente dito.<\/p>\n\n\n\n<p>O fato \u00e9 incontest\u00e1vel: embora o socialismo tenha se tornado, ao longo do tempo, o objetivo e o programa do movimento oper\u00e1rio, por sua origem hist\u00f3rica ele \u00e9 menos uma doutrina do proletariado do que uma doutrina para o proletariado. Se adot\u00e1ssemos a terminologia err\u00f4nea do marxismo, que associa cada \u201cideologia\u201d social a uma classe social espec\u00edfica, dever\u00edamos dizer que o socialismo como doutrina (incluindo o marxismo) tem origem burguesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Na realidade, a rela\u00e7\u00e3o entre a forma\u00e7\u00e3o das doutrinas socialistas e a afilia\u00e7\u00e3o social de seus criadores \u00e0s camadas intelectuais dirigentes decorre de motivos psicol\u00f3gicos que nada t\u00eam a ver com os interesses de classe. A natureza e a diversidade das doutrinas s\u00f3 podem ser compreendidas por meio de uma psican\u00e1lise dos movimentos intelectuais que fundamentam as concep\u00e7\u00f5es de cada pensador socialista, na medida em que ele possua uma originalidade criativa genu\u00edna. Naturalmente, essa psican\u00e1lise biogr\u00e1fica deve levar em conta muitas circunst\u00e2ncias sociais e econ\u00f4micas. Al\u00e9m do pano de fundo social geral do qual o pensador emerge, deve examinar as circunst\u00e2ncias materiais de sua exist\u00eancia individual, uma exist\u00eancia \u201cburguesa\u201d tanto no caso do acad\u00eamico Marx quanto no do industrial Owen ou do aristocrata Saint-Simon. Por outro lado, assim que abandonamos o terreno da biografia individual para tentar uma psican\u00e1lise ou uma sociologia do pensamento socialista em geral, descobrimos que as doutrinas socialistas n\u00e3o s\u00e3o o resultado de uma adapta\u00e7\u00e3o do proletariado \u00e0 sua situa\u00e7\u00e3o de classe, mas surgem do recusa de alguns intelectuais burgueses ou aristocr\u00e1ticos em se adaptar ao seu meio. Descobrimos ent\u00e3o que o pensamento socialista criativo tem sua origem em uma rea\u00e7\u00e3o emocional, ou melhor, em uma quantidade quase infinita de rea\u00e7\u00f5es emocionais diferentes que t\u00eam origem intelectual, \u00e9tica e est\u00e9tica. Pois as ideias s\u00e3o obra de personalidades e n\u00e3o resultado de um paralelogramo de for\u00e7as sociais como se manifestam nos movimentos de massas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 verdade que essas for\u00e7as sociais utilizam as ideias nascidas do c\u00e9rebro dos te\u00f3ricos. Quanto mais fielmente esses c\u00e9rebros representarem os fatos da realidade social, mais um pensador ter\u00e1 intui\u00e7\u00e3o exata dos desejos das massas, mais facilmente essas massas assimilar\u00e3o as doutrinas que encarnam seus desejos. O pensamento de um \u00fanico indiv\u00edduo se torna ent\u00e3o o s\u00edmbolo da vontade e dos sentimentos de milh\u00f5es de seres. No entanto, os dois elementos que comp\u00f5em essa combina\u00e7\u00e3o de vontade emocional e representa\u00e7\u00e3o intelectual t\u00eam origens t\u00e3o diferentes quanto a farinha e o fermento que comp\u00f5em o p\u00e3o. O processo de fermenta\u00e7\u00e3o que constitui o movimento oper\u00e1rio socialista s\u00f3 \u00e9 compreens\u00edvel para aquele que v\u00ea nas massas oper\u00e1rias a massa e nas ideias de intelectuais n\u00e3o prolet\u00e1rios o fermento que a faz crescer.<\/p>\n\n\n\n<p>O marxismo sempre fechou os olhos para a variedade e complexidade dos m\u00f3veis socialistas. Sem isso, n\u00e3o poderia continuar a acreditar que a maneira de pensar \u00e9 determinada pelo interesse de classe. A pr\u00f3pria origem do marxismo prova que a situa\u00e7\u00e3o de classe dos trabalhadores (algo completamente diferente de seus interesses de classe) simplesmente os predisponha a usar certas ideias como s\u00edmbolos de certos fluxos de vontade comum. O marxismo trata os pioneiros burgueses e aristocr\u00e1ticos do ideal socialista como exce\u00e7\u00f5es que confirmam a regra da origem prolet\u00e1ria da doutrina, enquanto os fatos provam claramente que essas exce\u00e7\u00f5es \u201cburguesas\u201d s\u00e3o a regra. Para melhor manter essa ilus\u00e3o, ele de alguma forma faz o socialismo come\u00e7ar com Marx e descarta uma galeria de ancestrais cujas apar\u00eancias denunciariam uma origem nada prolet\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, n\u00e3o devemos deixar que a constata\u00e7\u00e3o desse erro nos leve ao extremo oposto e nos leve a subestimar os movimentos do movimento oper\u00e1rio que se expressam por fen\u00f4menos voluntaristas da psicologia das massas. A rea\u00e7\u00e3o afetiva da classe trabalhadora em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s suas condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia, que a torna receptiva \u00e0s ideias formuladas por intelectuais, constitui um fen\u00f4meno desse tipo.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui tamb\u00e9m, o marxismo nos fornece apenas uma explica\u00e7\u00e3o insuficiente. Seu ponto de partida \u00e9 um obst\u00e1culo. Para ele, a luta de classes \u2013 a luta pela mais-valia que leva \u00e0 luta pela socializa\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 a emana\u00e7\u00e3o imediata e inevit\u00e1vel de um modo de produ\u00e7\u00e3o, de uma categoria econ\u00f4mica. Essa luta \u00e9, de certa forma, um fim em si mesma; em vez de derivar de motivos vari\u00e1veis que tendem a objetivos vari\u00e1veis, ela tende a um objetivo imanente de revolu\u00e7\u00e3o social, assim que as massas trabalhadoras se conscientizam da oposi\u00e7\u00e3o de seus interesses aos das classes propriet\u00e1rias. Para o marxismo, no come\u00e7o era o conhecimento; a vontade de classe brota da consci\u00eancia de classe. Isso \u00e9 uma esp\u00e9cie de revela\u00e7\u00e3o m\u00edstica: uma necessidade revolucion\u00e1ria existe, preexiste, por assim dizer, no ambiente do pensamento eterno, na forma de uma doutrina cientificamente comprovada e derivada das leis de evolu\u00e7\u00e3o da economia capitalista; \u00e9 suficiente que os trabalhadores, os \u201cparturientes\u201d da revolu\u00e7\u00e3o, tomem consci\u00eancia da verdade dessa doutrina, ou seja, fa\u00e7am um ato de conhecimento, para agir e realizar o parto. Eles s\u00e3o os instrumentos de uma dial\u00e9tica que j\u00e1 existe como lei em um reino supra terreno, antes de descer \u00e0 terra para se transformar em conhecimento nos c\u00e9rebros dos seres encarregados de sua execu\u00e7\u00e3o. Esse erro racionalista n\u00e3o caracteriza apenas o marxismo \u201cvulgar\u201d dos comunistas; o pr\u00f3prio Kautsky, em sua \u00c9tica, faz a indigna\u00e7\u00e3o moral dos trabalhadores, no in\u00edcio de sua luta contra o capitalismo, derivar da consci\u00eancia de seus interesses de classe. Como se os trabalhadores come\u00e7assem formando a no\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de seus interesses de classe e s\u00f3 se tornassem acess\u00edveis ao sentimento de justi\u00e7a social ap\u00f3s esse ato de conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 de surpreender, nessas condi\u00e7\u00f5es, que o marxismo tenha se mostrado incapaz de resolver o problema: Como ocorre o processo psicol\u00f3gico que, na classe trabalhadora, faz certas concep\u00e7\u00f5es de classe derivarem de certas condi\u00e7\u00f5es de vida? A supersti\u00e7\u00e3o racionalista, que coloca o conhecimento antes do sentimento, pode dispensar uma explica\u00e7\u00e3o desse tipo; para ela, o problema j\u00e1 est\u00e1 resolvido. Na verdade, \u00e9 preciso coloc\u00e1-lo da seguinte forma: Como as condi\u00e7\u00f5es de vida do trabalhador reagem em seu estado afetivo e influenciam a dire\u00e7\u00e3o de sua vontade social? Somente ap\u00f3s estudarmos em toda a sua extens\u00e3o a rea\u00e7\u00e3o emocional do trabalhador \u00e0s influ\u00eancias de seu meio social \u00e9 que podemos entender como as no\u00e7\u00f5es intelectuais do socialismo doutrin\u00e1rio interv\u00eam nessa rea\u00e7\u00e3o e a infinita variedade de influ\u00eancias rec\u00edprocas que resultam dela. Essa divis\u00e3o em uma an\u00e1lise prim\u00e1ria do dom\u00ednio do sentimento e secund\u00e1ria do dom\u00ednio das ideias n\u00e3o responde apenas a uma necessidade psicol\u00f3gica, mas tamb\u00e9m a uma realidade hist\u00f3rica, pois o sentimento de classe, um estado emocional, precedeu a consci\u00eancia de classe, um estado de conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, toda sociologia do movimento oper\u00e1rio deve partir de um exame do estado afetivo do trabalhador isolado considerado como tipo, conforme resulta das influ\u00eancias normais de seu ambiente de vida e de trabalho. Esse exame ser\u00e1 ainda mais instrutivo se inicialmente limitado a um tipo espec\u00edfico, o do trabalhador da m\u00e9dia e grande ind\u00fastria. O movimento oper\u00e1rio inclui, \u00e9 verdade, muitas outras categorias (mulheres de trabalhadores, trabalhadores agr\u00edcolas, empregados e funcion\u00e1rios, trabalhadores dom\u00e9sticos, artes\u00e3os, trabalhadores de pequenas empresas etc.), cujas condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia e caracter\u00edsticas psicol\u00f3gicas diferem em muitos aspectos daquele trabalhador industrial t\u00edpico. No entanto, este \u00faltimo representa n\u00e3o apenas a categoria mais numerosa, mas tamb\u00e9m aquela que mais marca os tra\u00e7os comuns de toda a classe. Ele \u00e9 de certa forma o diapas\u00e3o social. Portanto, \u00e9 o tipo que melhor se adapta a uma caracteriza\u00e7\u00e3o geral.<\/p>\n\n\n\n<p>O estado afetivo que predisp\u00f5e a classe trabalhadora a acreditar no socialismo \u00e9, assim como qualquer atitude de massas, conceb\u00edvel como o produto de dois fatores: por um lado, o ambiente, ou seja, a totalidade das impress\u00f5es que constituem a experi\u00eancia social dos seres humanos, e, por outro lado, a disposi\u00e7\u00e3o intelectual e moral dos seres humanos que reagem a essas impress\u00f5es. Ao contr\u00e1rio do que pensa o marxismo, essa disposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o resulta do ambiente atual e, ao contr\u00e1rio do que acredita a filosofia natural, tamb\u00e9m n\u00e3o corresponde a uma natureza humana eternamente imut\u00e1vel. Ele inclui um elemento instintivo que pode ser considerado inerente \u00e0 natureza humana, mas cujas formas de express\u00e3o podem ser modificadas pelo h\u00e1bito sob a influ\u00eancia de mudan\u00e7as duradouras no ambiente hist\u00f3rico. Assim, o capitalismo n\u00e3o cria uma \u201cdisposi\u00e7\u00e3o capitalista\u201d, ou seja, n\u00e3o molda os seres humanos por mera adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s exig\u00eancias psicol\u00f3gicas do sistema; se fosse assim, n\u00e3o haveria socialistas. Pelo contr\u00e1rio, o capitalismo se depara com homens com habilidades j\u00e1 formadas, resultantes de suas disposi\u00e7\u00f5es inatas e de sua rea\u00e7\u00e3o habitual a estados sociais anteriores.<\/p>\n\n\n\n<p>O trabalhador que \u201creage\u201d ao ambiente social do capitalismo industrial de hoje \u00e9 o produto de um longo passado pr\u00e9-capitalista. Os h\u00e1bitos da vida social secular cavaram sulcos profundos em sua disposi\u00e7\u00e3o instintiva e emocional, e esses sulcos indicam a dire\u00e7\u00e3o dos julgamentos de valor e das vontades pelos quais ele reage \u00e0s circunst\u00e2ncias de sua vida presente. Esta s\u00f3 consegue influenciar essa dire\u00e7\u00e3o na medida em que cria novos h\u00e1bitos de aprecia\u00e7\u00e3o emocional e novas dire\u00e7\u00f5es habituais da vontade.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, o movimento oper\u00e1rio socialista n\u00e3o \u00e9 propriamente um produto do capitalismo. Deve-se v\u00ea-lo mais como o produto de uma rea\u00e7\u00e3o que coloca em contato um estado social novo \u2013 o capitalismo \u2013 de um lado, e, de outro, uma disposi\u00e7\u00e3o humana que poder\u00edamos chamar de pr\u00e9-capitalista. Essa disposi\u00e7\u00e3o \u00e9 caracterizada por uma certa fixa\u00e7\u00e3o do sentido dos valores jur\u00eddicos e morais, fixa\u00e7\u00e3o que s\u00f3 pode ser compreendida quando relacionada \u00e0 experi\u00eancia social do regime feudal e do artesanato, \u00e0 moral crist\u00e3 e aos princ\u00edpios jur\u00eddicos da democracia.<\/p>\n\n\n\n<p>Para compreender adequadamente a realidade dessas influ\u00eancias, \u00e9 preciso voltar ao in\u00edcio do movimento oper\u00e1rio. Percebe-se ent\u00e3o que as primeiras lutas da classe trabalhadora tinham um car\u00e1ter puramente defensivo e, de certa forma, conservador. Na \u00e9poca em que o trabalho nas f\u00e1bricas e o trabalho domiciliar come\u00e7aram a se estabelecer, os trabalhadores sentiram que sua situa\u00e7\u00e3o havia piorado. O publicista radical ingl\u00eas Cobett, um dos primeiros l\u00edderes oper\u00e1rios cujas obras liter\u00e1rias ainda restam, definiu assim o objetivo de sua vida em seu Political Register, em 1807: \u201cDesejo ver os pobres da Inglaterra trazidos de volta ao estado em que estavam na \u00e9poca da minha inf\u00e2ncia.\u201d \u00c9 importante observar que, durante esse per\u00edodo, a maioria dos trabalhadores industriais n\u00e3o havia sofrido uma diminui\u00e7\u00e3o em sua renda. A nova classe de assalariados recrutava-se apenas em pequena parte entre artes\u00e3os e camponeses independentes. Em sua imensa maioria, eram pessoas j\u00e1 despossu\u00eddas, muitas vezes empobrecidas h\u00e1 gera\u00e7\u00f5es. A origem do proletariado industrial s\u00f3 pode ser compreendida \u00e0 luz das leis sobre vagabundagem e mendic\u00e2ncia, que caracterizam o in\u00edcio do capitalismo industrial; na Inglaterra, as <em>workhouses<\/em>, onde os desprovidos eram internados \u00e0 for\u00e7a, forneciam trabalhadores aos industriais que deles precisavam, e a Fran\u00e7a parecia ter meio milh\u00e3o de vagabundos antes de 1789. Os filhos de camponeses que tamb\u00e9m passaram a trabalhar nas f\u00e1bricas geralmente eram atra\u00eddos pela perspectiva de ganhos mais altos do que os de seus pais ligados \u00e0 terra. A \u00fanica categoria cuja renda foi diminu\u00edda pela transi\u00e7\u00e3o para a f\u00e1brica era composta pelos antigos artes\u00e3os das aldeias transformados em trabalhadores domiciliares; e \u00e9 precisamente essa categoria que se mostrou menos combativa nas primeiras lutas de classe, por exemplo, na Inglaterra, durante a primeira metade do s\u00e9culo XIX. O que, por outro lado, levava os novos trabalhadores de f\u00e1brica \u00e0 luta defensiva era menos uma diminui\u00e7\u00e3o de renda do que uma diminui\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia social, da alegria no trabalho e da seguran\u00e7a; era uma tens\u00e3o crescente entre necessidades rapidamente crescentes e um sal\u00e1rio que aumentava mais lentamente; era, enfim, a sensa\u00e7\u00e3o de uma contradi\u00e7\u00e3o entre as bases morais e jur\u00eddicas do novo sistema de trabalho e as tradi\u00e7\u00f5es do antigo. Esse processo perdura at\u00e9 os dias de hoje e continua a criar na classe trabalhadora um ressentimento social caracterizado pelos sentimentos de explora\u00e7\u00e3o, opress\u00e3o, injusti\u00e7a social, solidariedade oper\u00e1ria e f\u00e9 religiosa em um futuro melhor.<\/p>\n\n\n\n<p>O ressentimento contra a burguesia que da\u00ed resulta menos a reprova por sua riqueza do que por seu poder. O sentimento de justi\u00e7a se revolta contra as consequ\u00eancias de um excesso de poder social que n\u00e3o corresponde mais \u00e0 antiga responsabilidade das classes dirigentes para com a coletividade. Essa rebeli\u00e3o instintiva procede menos do instinto de aquisi\u00e7\u00e3o do que do sentimento de justi\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem d\u00favida, os ricos nunca foram amados. O ideal igualit\u00e1rio do cristianismo e o desprezo feudal pelo dinheiro contribu\u00edram para a forma\u00e7\u00e3o de um preconceito que encontra express\u00e3o em toda a literatura popular da Idade M\u00e9dia. No entanto, o capitalismo industrial n\u00e3o se limitou a criar novos ricos; agora trata-se de um tipo de riqueza que tem um significado social inteiramente novo. O capitalista industrial n\u00e3o \u00e9 apenas um rico que gasta muito dinheiro; como detentor dos meios essenciais de produ\u00e7\u00e3o, ele possui um formid\u00e1vel poder social que o torna senhor do destino de seus trabalhadores. Antigamente, a autoridade do senhor feudal e do mestre artes\u00e3o era compensada por uma responsabilidade correspondente; os privilegiados tinham consci\u00eancia de sua responsabilidade para com os desfavorecidos e todo o sistema social baseava-se no exerc\u00edcio do dever de caridade. Esse sistema foi substitu\u00eddo por outro, no qual a manuten\u00e7\u00e3o de uma massa de prolet\u00e1rios despossu\u00eddos e de um ex\u00e9rcito de desempregados era ditada pelo interesse dos dirigentes. Essa situa\u00e7\u00e3o estava em contradi\u00e7\u00e3o com o fundamento moral da produ\u00e7\u00e3o camponesa e artesanal, que pressupunha que todo homem disposto a trabalhar possu\u00edsse os meios de trabalho necess\u00e1rios e a possibilidade de um bem-estar assegurado. Durante s\u00e9culos, todas as leis, regulamentos corporativos, mandamentos da Igreja e costumes populares foram inspirados pela no\u00e7\u00e3o de uma exist\u00eancia garantida para quem trabalhasse. O que contribuiu ainda mais para despertar o sentimento de equidade social contra o novo privil\u00e9gio dos industriais foi o abuso de seu poder sob o disfarce de institui\u00e7\u00f5es de caridade. As institui\u00e7\u00f5es e tradi\u00e7\u00f5es da benefic\u00eancia p\u00fablica foram usadas para justificar leis draconianas sobre a vagabundagem, fornecedoras de m\u00e3o de obra barata. Nas novas aglomera\u00e7\u00f5es industriais, os patr\u00f5es geralmente eram propriet\u00e1rios de moradias e lojas e as usavam para aumentar seus lucros e poder. Dentro de suas empresas, exerciam um poder quase absoluto e mantinham apenas o princ\u00edpio autorit\u00e1rio da tradi\u00e7\u00e3o feudal vantajoso para os poderosos.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, logo se perceberam as consequ\u00eancias jur\u00eddicas do excesso de poder pol\u00edtico que a nova classe capitalista havia obtido atrav\u00e9s de um direito de voto limitado. Esse poder serviu para romper as restri\u00e7\u00f5es que o antigo direito colocava sobre a livre disposi\u00e7\u00e3o da propriedade. Pela sele\u00e7\u00e3o social dos ju\u00edzes, a nova classe dirigente se subordinou tamb\u00e9m aos tribunais que deveriam aplicar esse direito. Os ex\u00e9rcitos e outros meios coercitivos do Estado, que antes serviam apenas aos interesses din\u00e1sticos dos monarcas, foram transformados em apoios do novo regime de classe. O poder do dinheiro transformou a Igreja, anteriormente guardi\u00e3 dos interesses coletivos, em uma hierarquia de mercen\u00e1rios espirituais encarregados de pregar a submiss\u00e3o aos pobres. Por fim, o desenvolvimento da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica e da imprensa di\u00e1ria forneceu aos novos l\u00edderes meios formid\u00e1veis de domina\u00e7\u00e3o moral.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses s\u00e3o os fatos que, desde o in\u00edcio do regime industrial, deram \u00e0s greves, revoltas e movimentos pol\u00edticos dos trabalhadores europeus o car\u00e1ter de uma rebeli\u00e3o moral contra um dom\u00ednio de classe considerado injusto. Se os trabalhadores fossem motivados apenas pelo instinto de aquisi\u00e7\u00e3o e lutassem apenas pela posse da mais-valia, n\u00e3o haveria luta de classe. Pode-se muito bem conceber um modo capitalista de produ\u00e7\u00e3o que corresponda inteiramente \u00e0s leis estabelecidas por Marx em sua teoria da mais-valia, sem que resulte em qualquer luta de classe. A luta dos trabalhadores por seus interesses s\u00f3 se torna luta de classe e leva \u00e0 reivindica\u00e7\u00e3o de uma ordem socialista sob certas condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, que n\u00e3o s\u00e3o inerentes ao sistema econ\u00f4mico, mas resultam da forma como ele foi estabelecido. Por si s\u00f3, um modo de produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nem moral nem imoral. A cr\u00edtica socialista ao capitalismo, apesar das apar\u00eancias, concentra-se menos na forma econ\u00f4mica da produ\u00e7\u00e3o do que em um conte\u00fado hist\u00f3rico, social e cultural espec\u00edfico. Isso pode ser comprovado por um exemplo concreto: embora os Estados Unidos da Am\u00e9rica sejam um pa\u00eds capitalista por excel\u00eancia, n\u00e3o h\u00e1 socialismo americano que possa ser considerado a express\u00e3o do descontentamento das massas trabalhadoras. Isso ocorre porque um modo de produ\u00e7\u00e3o semelhante ao da Europa se desenvolveu l\u00e1 em circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas e sociais completamente diferentes. O capitalismo americano n\u00e3o surgiu da pobreza, mas sim da coloniza\u00e7\u00e3o individual; n\u00e3o teve que se adaptar \u00e0s formas tradicionais de estratifica\u00e7\u00e3o social do feudalismo e da monarquia; pelo contr\u00e1rio, p\u00f4de se desenvolver desde o in\u00edcio em um ambiente de igualdade pol\u00edtica e moral. Portanto, os trabalhadores americanos podem travar a luta por seus interesses com base jur\u00eddica que os coloca em p\u00e9 de igualdade com os outros cidad\u00e3os. Essa luta de interesses, portanto, n\u00e3o se torna uma luta de classe.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi preciso que eu estivesse na Am\u00e9rica e em condi\u00e7\u00f5es de julgar o socialismo europeu a partir deste observat\u00f3rio distante, para perceber que na realidade ele nasceu muito menos da oposi\u00e7\u00e3o ao capitalismo como entidade econ\u00f4mica do que da luta contra certas circunst\u00e2ncias que acompanharam o surgimento do capitalismo europeu, como a pauperiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, a subordina\u00e7\u00e3o das classes sancionada pelas leis, costumes e tradi\u00e7\u00f5es, a aus\u00eancia de democracia pol\u00edtica, a militariza\u00e7\u00e3o dos Estados etc. O modo capitalista de produ\u00e7\u00e3o poderia, em um ambiente hist\u00f3rico diferente, ter levado a uma esp\u00e9cie de equil\u00edbrio social. O que o impediu na Europa foi o consider\u00e1vel avan\u00e7o da burguesia desde o in\u00edcio, do ponto de vista do equil\u00edbrio das for\u00e7as sociais. Sem isso, provavelmente, como na Am\u00e9rica, haveria trabalhadores infelizes, mas n\u00e3o proletariado, ou seja, n\u00e3o haveria uma classe permanente e heredit\u00e1ria de inferiores sociais. Se a ordem jur\u00eddica e o costume social tivessem permitido que todos os indiv\u00edduos de valor se desproletarizassem e tivessem dado aos outros a oportunidade de desfrutar de uma parte da mais-valia consider\u00e1vel o suficiente para que a parte do capitalista n\u00e3o aparecesse mais do que como um sal\u00e1rio de empres\u00e1rio, ainda haveria lutas de interesse, mas n\u00e3o haveria mais luta de classe socialista.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 especialmente no in\u00edcio da era industrial que a disposi\u00e7\u00e3o socialista da classe trabalhadora aparece claramente como o efeito do que poderia ser chamado de seu \u201cdefeito inicial\u201d devido ao excesso de poder da nova classe dirigente; mas, fundamentalmente, n\u00e3o \u00e9 diferente hoje. O sentimento de equidade se levanta contra os capitalistas, n\u00e3o tanto pelo poder de consumo que a riqueza lhes proporciona (a maioria dos grandes empres\u00e1rios est\u00e1 muito absorvida por seus interesses e trabalha muito para serem grandes consumidores), mas pelo poder que possuem como detentores dos meios de produ\u00e7\u00e3o. Esse poder parece imoral porque implica uma autoridade sem responsabilidade e, portanto, fere ao mesmo tempo o senso moral democr\u00e1tico, crist\u00e3o e feudal. O que se reprova ao capitalismo n\u00e3o \u00e9 tanto a mais-valia que ele apropria, mas o uso que faz dela para estabelecer uma predomin\u00e2ncia social que transforma os n\u00e3o-capitalistas em objetos de sua vontade. Portanto, o que leva o trabalhador \u00e0 luta de classe n\u00e3o \u00e9 tanto que ele tome consci\u00eancia de seus interesses adquiridos, mas sim o fen\u00f4meno muito mais complicado e profundamente enraizado na vida afetiva, que a psicologia moderna chama de complexo de inferioridade social.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea ir\u00e1 ler, a seguir, um trecho da obra &#8220;Para Al\u00e9m do Marxismo&#8221;, de Henri de Man. Caso deseje saber mais sobre o livro, ou queira adquiri-lo, clique aqui, ou na imagem da capa abaixo. I. A teoria dos motivos, o principal problema do socialismo \u201cA tarefa do materialismo hist\u00f3rico\u2026<\/p>\n<p class=\"continue-reading-button\"> <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2024\/10\/09\/para-alem-do-marxismo-de-henri-de-man\/\">Leia mais<i class=\"crycon-right-dir\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1064,"comment_status":"closed","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[50,5],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1067"}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1067"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1067\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1068,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1067\/revisions\/1068"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1064"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1067"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1067"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1067"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}