{"id":114,"date":"2017-11-06T14:07:14","date_gmt":"2017-11-06T14:07:14","guid":{"rendered":"http:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=114"},"modified":"2017-11-06T14:07:14","modified_gmt":"2017-11-06T14:07:14","slug":"leia-o-capitulo-1-de-os-reis-taumaturgos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2017\/11\/06\/leia-o-capitulo-1-de-os-reis-taumaturgos\/","title":{"rendered":"Leia o Cap\u00edtulo 1 de &#8220;Os reis Taumaturgos&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\">O Livro &#8220;Os Reis Taumaturgos&#8221;, do historiador franc\u00eas Marc Bloch, s\u00f3 estar\u00e1 dispon\u00edvel a partir de Abril de 2018. Abaixo, o primeiro cap\u00edtulo.<\/p>\n<hr \/>\n<h1 align=\"center\">Livro Primeiro: As Origens<\/h1>\n<h1>Cap\u00edtulo I. Os in\u00edcios do toque das escr\u00f3fulas<\/h1>\n<h2>\u00a7 1. As escr\u00f3fulas<\/h2>\n<p>Por <i>\u00e9crouelles<\/i>, ou mais frequentemente <i>scrofule<\/i>, que \u00e9 apenas uma forma culta da primeira (ambas as palavras, tanto a popular quanto a erudita, derivadas do latim <i>scrofula<\/i>), os m\u00e9dicos na atualidade designam a adenite tuberculosa, ou seja, as inflama\u00e7\u00f5es dos linfonodos causadas pelos bacilos da tuberculose. \u00c9 evidente que, antes do nascimento da bacteriologia, a especializa\u00e7\u00e3o desses nomes, que remontam \u00e0 medicina antiga, n\u00e3o era poss\u00edvel. As diferentes afec\u00e7\u00f5es ganglionares n\u00e3o podiam ser claramente diferenciadas; ou, pelo menos, os esfor\u00e7os de classifica\u00e7\u00e3o \u2013 de antem\u00e3o destinados ao fracasso \u2013 que poderiam ser buscados por uma ci\u00eancia ainda incerta, n\u00e3o deixaram qualquer vest\u00edgio na linguagem m\u00e9dica atual; essas afec\u00e7\u00f5es eram todas comumente denominadas de <i>\u00e9crouelles,<\/i> em franc\u00eas, e de <i>scrofula<\/i> ou <i>strumae<\/i> em latim, sendo essas duas \u00faltimas palavras acabando por se tornar, ordinariamente, sin\u00f4nimos. \u00c9 justo acrescentar que o maior n\u00famero das muitas das inflama\u00e7\u00f5es ganglionares tem origem tuberculosa; a maioria dos casos descritos como escrofulosos pelos m\u00e9dicos da Idade M\u00e9dia, por exemplo, tamb\u00e9m o seria por nossos m\u00e9dicos. Mas a linguagem popular era mais imprecisa do que o vocabul\u00e1rio t\u00e9cnico; os n\u00f3dulos linf\u00e1ticos mais facilmente atacados pela tuberculose s\u00e3o aqueles do pesco\u00e7o, e quando a doen\u00e7a se desenvolve sem cuidados e ocorrem supura\u00e7\u00f5es, a face aparenta ser atingida: da\u00ed surge uma confus\u00e3o, comum em muitos textos, entre as escr\u00f3fulas e v\u00e1rias afec\u00e7\u00f5es da face ou mesmo dos olhos<a title=\"\" href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. A adenite tuberculosa ainda hoje \u00e9 muito comum; como n\u00e3o seria antigamente, em condi\u00e7\u00f5es de higiene muito piores do que as nossas? Adicionem-se, ainda, outras adenites, e todo esse amplo grupo de doen\u00e7as de todos os tipos que o erro comum confunde: teremos uma ideia dos estragos que, na antiga Europa, poderiam provocar as doen\u00e7as denominadas de \u201c\u00e9crouelles\u201d. Na verdade, o testemunho de alguns m\u00e9dicos da Idade M\u00e9dia ou dos tempos modernos afirma que, em certas regi\u00f5es, eram verdadeiramente end\u00eamicas<a title=\"\" href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. O mal \u00e9 raramente fatal; mas, especialmente quando cuidados adequados est\u00e3o ausentes, \u00e9 inconveniente e pode desfigurar; as frequentes supura\u00e7\u00f5es tinham algo de repugnante; o horror que inspiravam era expresso ingenuamente em mais de uma narrativa antiga: o rosto se encontrava \u201ccorrompido\u201d; as feridas espalhavam \u201cum odor f\u00e9tido&#8230;\u201d. Incont\u00e1veis pacientes, ardentemente esperando a cura, prontos para acorrer aos rem\u00e9dios conhecidos por todos: eis o pano de fundo da imagem que deve se apresentar aos olhos do historiador do milagre real.<\/p>\n<p>J\u00e1 mencionei o que foi esse milagre. Na Fran\u00e7a antiga, a escr\u00f3fula era comumente chamada de <i>mal le roi<\/i>; na Inglaterra, conhecida como <i>King\u2019s Evil<\/i>. Os reis da Fran\u00e7a e da Inglaterra, pelo simples toque de suas m\u00e3os, realizado de acordo com ritos tradicionais, pretendiam curar o escrofuloso. Quando esse poder milagroso come\u00e7ou a ser exercido? Como foram levados a reivindic\u00e1-lo? Como suas popula\u00e7\u00f5es foram levadas a reconhec\u00ea-lo? Problemas delicados, que vou buscar resolver. O conjunto de nosso estudo ser\u00e1 fundado em testemunhas confi\u00e1veis; mas aqui, neste primeiro livro dedicado \u00e0s origens, tocaremos um passado mais obscuro; devemos nos resignar, de antem\u00e3o, a apresentar sen\u00e3o grandes hip\u00f3teses; s\u00e3o permitidas ao historiador, desde que n\u00e3o as apresente como certezas. Antes de tudo, procuraremos reunir os mais antigos textos que abordavam, como ent\u00e3o se dizia, os \u201cpr\u00edncipes m\u00e9dicos\u201d. Come\u00e7aremos com a Fran\u00e7a.<\/p>\n<h2>\u00a72. Os in\u00edcios do rito franc\u00eas<\/h2>\n<p>O primeiro documento no qual, inequivocamente, o \u201ctoque\u201d franc\u00eas \u00e9 mencionado, chegou at\u00e9 n\u00f3s por conta de uma controv\u00e9rsia bastante singular<a title=\"\" href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. No in\u00edcio do s\u00e9culo XII, o mosteiro de Saint-Medard de Soissons afirmava possuir uma rel\u00edquia, a mais importante de todas: um dente do Salvador, um dente de leite, dizia-se<a title=\"\" href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Para melhor difundir a gl\u00f3ria de seu tesouro, os monges compuseram um panfleto, que j\u00e1 n\u00e3o possu\u00edmos, mas que, gra\u00e7as a tantos outros exemplos, podemos imaginar a natureza: uma cole\u00e7\u00e3o de milagres, um folheto para uso de peregrinos, sem d\u00favida uma produ\u00e7\u00e3o bastante grosseira<a title=\"\" href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. E n\u00e3o muito longe de Soissons vivia um dos melhores escritores da \u00e9poca, Guibert, abade de Nogent-sous-Coucy. A natureza o dotou de um esp\u00edrito justo e refinado; pode-se presumir, assim, que alguma querela obscura, hoje j\u00e1 esquecida, em uma dessas amargas rivalidades da Igreja cuja hist\u00f3ria daquele per\u00edodo est\u00e1 repleta, tenha-o animado contra seus \u201cvizinhos\u201d de Soissons<a title=\"\" href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>, e o tornado ainda mais exigente em seu amor pela verdade. Ele n\u00e3o acreditava na autenticidade do dente ilustre; quando surgiu o panfleto em quest\u00e3o, ele tomou a sua pena para advertir aos fi\u00e9is que estavam sendo enganados pelos \u201cfals\u00e1rios\u201d<a title=\"\" href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> de Saint-Medard. Assim nasceu este curioso tratado sobre as <i>Rel\u00edquias dos Santos<\/i>, que a Idade M\u00e9dia parece ter aprovado medianamente (s\u00f3 nos resta um manuscrito, talvez produzido sob os olhos do pr\u00f3prio Guibert)<a title=\"\" href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>, mas que hoje nos permite revelar, dentre muitas confus\u00f5es, as provas de um sentido cr\u00edtico assaz refinado, algo raro para o s\u00e9culo XII. \u00c9 um trabalho razoavelmente descompromissado, que cont\u00e9m, al\u00e9m de anedotas divertidas, uma s\u00e9rie de considera\u00e7\u00f5es um tanto d\u00edspares a respeito de rel\u00edquias, vis\u00f5es e manifesta\u00e7\u00f5es milagrosas em geral<a title=\"\" href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. Vamos abrir o primeiro livro. Guibert, em perfeita conformidade com a mais ortodoxa doutrina, desenvolve a ideia de que os milagres n\u00e3o s\u00e3o, em si mesmos, sinais de santidade. T\u00eam Deus como \u00fanico autor; e a Sabedoria divina escolhe instrumentos, \u201ccanais\u201d, homens que sejam convenientes a seus projetos, mesmo que \u00edmpios. A seguir toma emprestado alguns exemplos da B\u00edblia, e mesmo de historiadores antigos, que para um estudioso da \u00e9poca seriam objeto de uma f\u00e9 quase t\u00e3o cega como o pr\u00f3prio Livro Sagrado: a profecia de Bala\u00e3o, a de Caif\u00e1s, Vespasiano curando um coxo, o mar de Panf\u00edlia se abrindo diante de Alexandre o Grande e, finalmente, os sinais que tantas vezes anunciaram nascimento ou morte de pr\u00edncipes<a title=\"\" href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>. Eis o que Guibert acrescenta:<\/p>\n<p>O que eu digo? N\u00e3o vimos nosso Senhor, o Rei Lu\u00eds, usando um prod\u00edgio costumeiro? Eu vi, com meus pr\u00f3prios olhos, pessoas doentes que sofrem de escr\u00f3fulas no pesco\u00e7o, ou em outras partes do corpo, acorrendo em multid\u00f5es para serem tocadas por ele, \u2013 um toque ao qual ele acrescentava um sinal da cruz. Eu estava l\u00e1, muito perto dele, e eu mesmo o defendi contra aqueles que o importunavam. O rei, no entanto, mostrava para eles sua generosidade inata e, chamando Ele com sua serena m\u00e3o, humildemente fazia o sinal da cruz sobre eles. Seu pai, Filipe, tamb\u00e9m utilizou com ardor esse mesmo poder milagroso e glorioso; n\u00e3o sei por quais erros que cometeu, acabou por perd\u00ea-lo<a title=\"\" href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>.<\/p>\n<p>Tais s\u00e3o as poucas linhas constantemente citadas desde o s\u00e9culo XVII pelos historiadores das \u201c\u00e9crouelles\u201d. Os dois pr\u00edncipes mencionados s\u00e3o, evidentemente, por um lado, Lu\u00eds VI e, por outro, Filipe I e seu pai. O que se pode concluir?<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, que Lu\u00eds VI (cujo reinado se estende de 1108 a 1137) deveria possuir o poder de curar os escrofulosos; e os doentes acorriam at\u00e9 ele em multid\u00f5es, e o rei, persuadido, sem d\u00favida, da for\u00e7a milagrosa que o c\u00e9u lhe dera, rendia-se \u00e0s suas ora\u00e7\u00f5es. E n\u00e3o era algo feito ao acaso, consequ\u00eancia de um momento de entusiasmo popular excepcional; j\u00e1 estamos na presen\u00e7a de uma pr\u00e1tica \u201ccostumeira\u201d, um rito regular com as roupagens que ter\u00e1 durante todo o curso da monarquia francesa: o rei toca os doentes e faz o sinal da cruz sobre eles; esses dois gestos sucessivos permanecer\u00e3o tradicionais. Guibert \u00e9 uma testemunha ocular, que n\u00e3o pode ser contestada; ele conheceu Lu\u00eds VI em Laon, e talvez em diferentes circunst\u00e2ncias, e sua dignidade como abade lhe valia um lugar pr\u00f3ximo a seu soberano<a title=\"\" href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>.<\/p>\n<p>H\u00e1 mais. Este maravilhoso poder n\u00e3o era considerado algo pessoal do rei Lu\u00eds. Foi lembrado que seu pai e antecessor Filipe I, cujo longo reinado (1060-1108) nos leva quase a meados do s\u00e9culo XII, exerceu o poder antes dele; foi dito que o perdera como resultado de \u201cN\u00e3o sei quais erros\u201d, como afirma Guibert de maneira discreta, fortemente ligado \u00e0 fam\u00edlia capet\u00edngia e preparado para esconder seus erros. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que se refere \u00e0 dupla uni\u00e3o ad\u00faltera de Filipe com Bertranda de Monforte. Excomungado como resultado desse crime, o rei, acreditava-se, teria sido atingido, por conta da ira divina, por v\u00e1rias doen\u00e7as \u201cignominiosas\u201d<a title=\"\" href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>; n\u00e3o seria surpreendente que tivesse perdido seu poder de cura. Esta lenda eclesi\u00e1stica tem pouca import\u00e2ncia aqui. Mas deve-se lembrar que Filipe I foi o primeiro soberano franc\u00eas sobre quem podemos afirmar com certeza que tocou os escrofulosos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m deve ser destacado que este texto, t\u00e3o precioso, permanecia em seu tempo como absolutamente \u00fanico. Se, no decorrer do curso das eras, buscarmos as curas efetuadas pelos reis da Fran\u00e7a, deveremos, para encontrar um novo texto, alcan\u00e7ar o reinado de S\u00e3o Lu\u00eds (1226-1270), sobre quem, ali\u00e1s, as informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o abundantes<a title=\"\" href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>. Se os monges de Saint-M\u00e9dard n\u00e3o tivessem reivindicado a posse de um dente de Cristo, se Guibert n\u00e3o tivesse tomado a atitude de critic\u00e1-los, ou se seu tratado, como tantos outros do mesmo tipo, estivesse perdido, ser\u00edamos sem d\u00favida tentados a identificar S\u00e3o Lu\u00eds como o primeiro monarca a realizar a cura. Na verdade, n\u00e3o h\u00e1 motivos para acreditar que, entre 1137 e 1226, tivesse ocorrido interrup\u00e7\u00e3o na realiza\u00e7\u00e3o dos milagres. Os textos relativos a S\u00e3o Lu\u00eds apresentam claramente seu poder como sendo tradicional e heredit\u00e1rio. Simplesmente, o sil\u00eancio cont\u00ednuo, por quase um s\u00e9culo, dos documentos, precisa ser explicado. Faremos isso posteriormente. Por enquanto, ocupados em determinar o in\u00edcio do rito, conservemos apenas a recente observa\u00e7\u00e3o enquanto um convite \u00e0 prud\u00eancia: uma feliz coincid\u00eancia preservou as poucas frases nas quais um escritor do s\u00e9culo XII lembrava, de forma passageira, que seu rei curava escrofulosos; outros acidentes, menos favor\u00e1veis, podem ter roubado de n\u00f3s vest\u00edgios an\u00e1logos a respeito de soberanos mais antigos; ao afirmar, sem qualquer outra base, que Filipe I foi o primeiro a \u201ctocar as escr\u00f3fulas\u201d, arriscar\u00edamos cometer um erro semelhante ao que ter\u00edamos ca\u00eddo se, caso o \u00fanico manuscrito do <i>Tratado de Rel\u00edquias<\/i> tivesse desaparecido, cheg\u00e1ssemos \u00e0 conclus\u00e3o de que a aus\u00eancia de qualquer men\u00e7\u00e3o anterior a S\u00e3o Lu\u00eds implicaria ser este rei o iniciador do rito.<\/p>\n<p>Podemos esperar encontrar ind\u00edcios para antes de Filipe I?<\/p>\n<p>A d\u00favida sobre se os reis das duas primeiras linhagens j\u00e1 possu\u00edam a virtude medicinal reivindicada pelos capet\u00edngios n\u00e3o \u00e9 nova. J\u00e1 foi considerada muitas vezes pelos estudiosos dos s\u00e9culos XVI e XVII. Controv\u00e9rsias que ecoaram \u00e0 mesa real. Em certo dia da P\u00e1scoa, em Fontainebleau, Henrique IV, depois de ter tocado as escr\u00f3fulas, satisfez-se em animar o jantar com o espet\u00e1culo de uma justa semelhante; posicionaram-se doutos combatentes: Andr\u00e9 Du Laurens, seu primeiro m\u00e9dico, Pierre Mathieu, seu historiador, e o capel\u00e3o Guillaume Du Peyrat; o historiador e o m\u00e9dico sustentaram que o poder de que seu mestre havia dado novas provas remontava a Cl\u00f3vis; o capel\u00e3o negou que Merov\u00edngios ou Carol\u00edngios j\u00e1 o possu\u00edssem<a title=\"\" href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>. Entremos nessa disputa e busquemos formar uma opini\u00e3o. O problema, bastante complexo, pode ser dividido em v\u00e1rias quest\u00f5es mais simples, que devem ser examinadas sucessivamente.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, pode-se encontrar textos nos quais algum rei, pertencente \u00e0s duas primeiras dinastias, que tenha se aventurado a curar os escrofulosos? Nesse ponto, n\u00e3o teremos dificuldade em concordar com a posi\u00e7\u00e3o negativa, muitas vezes expressada com grande veem\u00eancia por Du Peyrat, por Scipio Dupleix, por todos os bons esp\u00edritos eruditos do s\u00e9culo XVII. Nenhum texto desta natureza foi produzido. Vamos seguir adiante. A alta idade m\u00e9dia \u00e9 conhecida por suas fontes escassas e, portanto, f\u00e1ceis de serem exploradas; durante v\u00e1rios s\u00e9culos, os estudiosos de todas as na\u00e7\u00f5es as desprezaram conscientemente; se um texto como acabei de utilizar nunca foi destacado, pode-se concluir, sem receio de errar, que n\u00e3o existe. Mais tarde, teremos ocasi\u00e3o de ver como nasceu, no s\u00e9culo XVI, o relato de como Clovis curou seu escudeiro Lanicet; esta tradi\u00e7\u00e3o ent\u00e3o nos parecer\u00e1 desprovida de qualquer fundamento; irm\u00e3 mais nova das lendas da Santa Ampola ou da origem celestial da flor-de-lis deve, como seria necess\u00e1rio ter sido feito h\u00e1 muito tempo, ser mantida esquecida nas antigas lojas de acess\u00f3rios hist\u00f3ricos fora de moda.<\/p>\n<p>\u00c9 conveniente postular o problema de forma mais abrangente. Nem os Merov\u00edngios nem os Carol\u00edngios, segundo testemunham os textos, possu\u00edam esta forma especial do poder de cura aplicada a uma doen\u00e7a definida: a escr\u00f3fula. Mas eles n\u00e3o teriam capazes de curar qualquer outra doen\u00e7a particular, ou mesmo todas as doen\u00e7as em geral? Consultemos Greg\u00f3rio de Tours. Pode-se ler a seguinte passagem, no livro IX, a respeito do rei Gontr\u00e3o, filho de Clot\u00e1rio I:<\/p>\n<p>Contava-se comumente, entre os fi\u00e9is, que uma mulher, cujo filho, que sofria de febre e prostrado na cama com dores, atravessou a multid\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o ao rei e, aproximando-se dele por detr\u00e1s, arrancou sem que ele percebesse algumas franjas de seu manto real; colocou-as em \u00e1gua e deu a \u00e1gua para seu filho beber; imediatamente a febre baixou; o paciente se curou. Eu n\u00e3o coloquei, de minha parte, o assunto em debate. Na verdade, eu mesmo muitas vezes vi dem\u00f4nios habitando corpos possu\u00eddos chamando pelo nome do rei e, ao perceberem a virtude que dele emanava, admitirem seus crimes<a title=\"\" href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a>.<\/p>\n<p>Assim, Gontr\u00e3o tinha, al\u00e9m de s\u00faditos e admiradores \u2013 Greg\u00f3rio de Tours, como sabemos, entre estes \u00faltimos \u2013, a reputa\u00e7\u00e3o de ser um curandeiro. Uma for\u00e7a milagrosa se ligava \u00e0s roupas que havia tocado. Sua mera presen\u00e7a, ou mesmo \u2013 o texto n\u00e3o \u00e9 muito claro \u2013, ainda mais simplesmente, a invoca\u00e7\u00e3o de seu nome, libertava os possessos. A quest\u00e3o toda se resume em saber se ele compartilhava essa capacidade maravilhosa com os da sua linhagem, ou se a mantinha, por outro lado, apenas individualmente. Sua mem\u00f3ria n\u00e3o parece ter sido objeto de culto oficialmente reconhecido, embora no s\u00e9culo XIV o hagi\u00f3grafo italiano Pierre de Natalibus tenha acreditado ser seu dever dedicar a ele um lugar em seu <i>Catalogus Sanctorum<a title=\"\" href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\"><b>[17]<\/b><\/a><\/i>. Mas n\u00e3o se pode duvidar que muitos de seus contempor\u00e2neos, o Bispo de Tours, em primeiro lugar, consideravam-no um santo; n\u00e3o que fosse particularmente puro ou gentil; mas era t\u00e3o piedoso! \u201cTeria sido, n\u00e3o um rei, mas um bispo\u201d, escreveu Greg\u00f3rio algumas linhas antes da passagem que citei acima. Al\u00e9m disso, o mesmo Greg\u00f3rio nos fornece muitos detalhes sobre antepassados, tios e irm\u00e3os de Gontr\u00e3o; Fortunato cantou louvores a in\u00fameros reis Merov\u00edngios; em nenhum lugar encontramos que qualquer desses pr\u00edncipes \u2013 sendo elogiados como mais ou menos piedosos, generosos ou corajosos \u2013, tenha curado algu\u00e9m. A mesma constata\u00e7\u00e3o se faz em rela\u00e7\u00e3o aos Carol\u00edngios. O renascimento Carol\u00edngio nos deixou uma literatura relativamente rica que inclui, em particular, tratados semipol\u00edticos, semimorais sobre a realeza, al\u00e9m de biografias ou cole\u00e7\u00f5es de anedotas a respeito de certos soberanos; seria imposs\u00edvel encontrar qualquer alus\u00e3o ao poder de cura. Se, por conta de uma \u00fanica passagem de Greg\u00f3rio de Tours, decid\u00edssemos que os primeiros Merov\u00edngios possu\u00edam virtudes medicinais, dever\u00edamos supor, ao mesmo tempo, que tal virtude teria sofrido um eclipse com os Carol\u00edngios. N\u00e3o h\u00e1 qualquer possibilidade, portanto, de estabelecer uma continuidade entre Gontr\u00e3o e Filipe I, entre o rei do s\u00e9culo VI e do s\u00e9culo XII. \u00c9 mais simples admitir que esses milagres foram atribu\u00eddos a Gontr\u00e3o pela opini\u00e3o comum, n\u00e3o enquanto um atributo real, mas porque parecia fluir necessariamente do car\u00e1ter de santidade com o qual os fi\u00e9is o identificavam: pois aos olhos de seus contempor\u00e2neos, o que seria um santo sen\u00e3o, acima de tudo, um taumaturgo benevolente? Consequentemente, e como veremos mais tarde, Gontr\u00e3o parece ter sido mais facilmente um santo do que um rei: ele pertencia a uma dinastia que os Francos haviam h\u00e1 muito considerada sagrada. Mas se, pelo menos em parte, sua santidade e, consequentemente, seus poderes milagrosos fossem devidos a sua origem real, este dom se constitu\u00eda, no entanto, em uma gra\u00e7a pessoal que seus antepassados \u200b\u200be seus sucessores n\u00e3o possu\u00edam. A s\u00e9rie ininterrupta de reis m\u00e9dicos, que a Fran\u00e7a medieval conheceu, n\u00e3o se iniciou com o soberano piedoso, querido pelo cora\u00e7\u00e3o de Greg\u00f3rio de Tours.<\/p>\n<p>Devo me interromper por aqui. Sem d\u00favida, os textos Merov\u00edngios ou Carol\u00edngios, pelo menos como chegaram at\u00e9 n\u00f3s, n\u00e3o nos apresentam, em nenhum lugar, um rei que curasse a escr\u00f3fula e, com exce\u00e7\u00e3o da passagem de Greg\u00f3rio de Tours que acabamos de estudar, que nos fale de curas reais, de qualquer tipo que se possa imaginar; isso \u00e9 incontest\u00e1vel; mas essas fontes, como j\u00e1 observei, s\u00e3o muito pobres; de seu sil\u00eancio, devemos derivar qualquer coisa al\u00e9m de um erro fundado na ignor\u00e2ncia? N\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel que, sem termos conhecimento, os soberanos das duas primeiras linhagens tocassem os doentes? Certamente, em todas as ordens da ci\u00eancia, as provas negativas s\u00e3o perigosas; na cr\u00edtica hist\u00f3rica, mais particularmente, o argumento <i>ex silentio<\/i> est\u00e1 sempre repleto de perigos. No entanto, n\u00e3o nos deixemos engar por essa terr\u00edvel aus\u00eancia. Quanto ao pr\u00f3prio problema que nos interessa aqui, Du Peyrat escreve, muito oportunamente:<\/p>\n<p>Algu\u00e9m poder\u00e1 me dizer, talvez, que discutir <i>ab autoritate negativa<\/i> n\u00e3o permite qualquer conclus\u00e3o, mas farei a mesma observa\u00e7\u00e3o que fez Coeffeteau a Plessis Mornay, de que esta \u00e9 uma impertinente l\u00f3gica na Hist\u00f3ria; que, ao contr\u00e1rio, argumenta-se afirmativamente: para todos aqueles Autores, S\u00e3o Remy, Greg\u00f3rio de Tours, Incmaro e outros que o seguiram sob a segunda linhagem, todos eram obrigados, enquanto fi\u00e9is historiadores, a colocar por escrito uma coisa assim memor\u00e1vel, se fosse praticada em seu tempo&#8230; e, portanto, n\u00e3o tendo sido escrito sobre este milagre, pode-se afirmar que era desconhecido em seu s\u00e9culo<a title=\"\" href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a>.<\/p>\n<p>Em outras palavras, toda quest\u00e3o se resume em saber se os documentos contempor\u00e2neos das dinastias merov\u00edngias e carol\u00edngias s\u00e3o de tal natureza que a pr\u00e1tica das curas reais, caso tivessem existido, n\u00e3o teria sido jamais mencionada neles. Isto \u00e9 algo que parece pouco prov\u00e1vel, especialmente no que diz respeito ao s\u00e9culo VI, por um lado \u2013 os dias de Fortunato e Greg\u00f3rio de Tours \u2013 e, mais ainda, no belo per\u00edodo da dinastia seguinte. Se Carlos Magno ou Lu\u00eds o Pio tocassem os doentes, n\u00e3o se deve crer que o monge de St. Gall ou o Astr\u00f4nomo teriam mencionado tal caracter\u00edstica maravilhosa? Que nenhum desses escritores, pr\u00f3ximos \u00e0 corte real, que formam a brilhante pl\u00eaiade do \u201crenascimento carol\u00edngio\u201d, teriam deixado escapar, mesmo que rapidamente, a mais fugaz alus\u00e3o a este grande fato? Sem d\u00favida, como lembrei acima, de Lu\u00eds VI a S\u00e3o Lu\u00eds os documentos s\u00e3o igualmente silenciosos, mas agora devo interpretar esse sil\u00eancio que, al\u00e9m disso, durou apenas tr\u00eas reinados: mostrarei como tal sil\u00eancio tem origem em um movimento do pensamento pol\u00edtico, resultado da reforma gregoriana, cujas ideias fundamentais s\u00e3o t\u00e3o diferentes quanto poss\u00edvel daquelas que animavam os autores de quem acabei de falar. O incomparavelmente mais longo sil\u00eancio das literaturas merov\u00edngias e carol\u00edngias seria propriamente inexplic\u00e1vel \u2013 se n\u00e3o fosse explicado simplesmente pela pr\u00f3pria aus\u00eancia do rito cujos tra\u00e7os buscamos em v\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para acreditar que os descendentes de Clovis ou de Pepino tivessem em algum momento, enquanto reis, pretendido curar qualquer pessoa.<\/p>\n<p>Passemos agora aos primeiros capet\u00edngios. A vida do segundo pr\u00edncipe desta linhagem, Roberto o Pio, foi escrita, como se sabe, por um de seus protegidos, o monge Helgaud. Trata-se de um paneg\u00edrico. Roberto aparece ali adornado com todas as virtudes, especialmente aquelas que agradariam os monges. Em particular, Helgaud elogia sua bondade para com os leprosos; e acrescenta:<\/p>\n<p>A virtude divina concedeu a este homem perfeito uma grande gra\u00e7a: aquela de curar os corpos; com sua t\u00e3o piedosa m\u00e3o, toca as feridas dos doentes e marca-os com o sinal da santa cruz, libertando-os da dor e da doen\u00e7a<a title=\"\" href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a>.<\/p>\n<p>Grandes debates foram travados a respeito deste curto trecho. Eruditos qualificados se recusaram a ver nestas linhas o primeiro testemunho do poder de cura dos reis franceses. Examinemos seus motivos.<\/p>\n<p>O que afirma, exatamente, a Vida do Rei Roberto? Que este pr\u00edncipe curou doentes; mas, seria devido a uma gra\u00e7a especial ou em virtude de uma voca\u00e7\u00e3o heredit\u00e1ria que teria sido comum a toda sua linhagem? O texto n\u00e3o especifica. Pode ser leg\u00edtimo perguntar se Helgaud, tomado de admira\u00e7\u00e3o pelo rei, cujas grandes realiza\u00e7\u00f5es descreveu e talvez desejoso em preparar sua futura canoniza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tenha considerado o poder maravilhoso que emprestou a seu her\u00f3i enquanto manifesta\u00e7\u00e3o de uma santidade estritamente individual. Lembremo-nos da passagem de Greg\u00f3rio de Tours citada anteriormente; conclu\u00edmos que o rei Gontr\u00e3o fora pessoalmente considerado um santo, mas n\u00e3o que os Merov\u00edngios fossem considerados uma linhagem de taumaturgos; n\u00e3o podemos considerar que o testemunho de Helgaud possui significado semelhante? No entanto, em uma an\u00e1lise mais detida, tal analogia parece ser superficial. O texto de Greg\u00f3rio de Tours surge absolutamente isolado, no sil\u00eancio universal e prolongado de todos os documentos; para estabelecer um elo de filia\u00e7\u00e3o entre as virtudes medicinais do filho de Clot\u00e1rio e o aut\u00eantico in\u00edcio do toque dos escrofulosos sob Filipe I, seria necess\u00e1rio um salto de cinco s\u00e9culos, atravessando tr\u00eas dinastias; dever\u00edamos supor que uma loucura teria tomado os autores que n\u00e3o possu\u00edam qualquer motivo para ficar em sil\u00eancio. Aqui n\u00e3o h\u00e1 tais dificuldades. Entre Roberto II e Filipe I, seu neto, h\u00e1 apenas um curto intervalo: 29 anos; uma \u00fanica gera\u00e7\u00e3o; um \u00fanico reinado, aquele de Henrique I, que \u00e9 precisamente o mais desconhecido de todos aqueles daquela \u00e9poca; conhecemos pouco desse pr\u00edncipe; ele poderia muito bem ter tocado os doentes sem que vest\u00edgios desse gesto tenham chegado at\u00e9 n\u00f3s; e temos mesmo o direito de nos surpreender com nossa pr\u00f3pria ignor\u00e2ncia. Admitamos por um instante que foi Roberto II quem iniciou o ilustre rito cuja hist\u00f3ria estamos tentando escrever, e vejamos a que conclus\u00f5es podemos chegar. Seus fi\u00e9is acreditavam que ele fosse capaz de curar; \u00e9 o que parece ter ocorrido, segundo se depreende das afirma\u00e7\u00f5es de seu bi\u00f3grafo. Pode ser que tenham considerado uma gra\u00e7a pessoal de seu senhor. Mas, posteriormente, seus descendentes e sucessores, por sua vez, reivindicaram o privil\u00e9gio paternal como se fora sua pr\u00f3pria heran\u00e7a. \u00c9 poss\u00edvel que Helgaud, de quem n\u00e3o se sabe se sobreviveu por muito tempo a seu her\u00f3i, tenha ignorado tal pretens\u00e3o, ou tenha preferido, por qualquer que fosse a raz\u00e3o, silenci\u00e1-la. N\u00f3s n\u00e3o podemos nos permitir tal d\u00favida, uma vez que sabemos, por um texto irrefut\u00e1vel, que o pr\u00f3prio neto de Roberto, alguns anos depois, exerceu o mesmo poder. Nada mais natural imaginar, entre duas gera\u00e7\u00f5es t\u00e3o pr\u00f3ximas, a continuidade de uma mesma tradi\u00e7\u00e3o milagrosa, ou melhor, do mesmo rito: o toque, seguido pelo sinal da cruz, quer fosse por Roberto ou por Lu\u00eds VI (a este respeito, os textos nada falam sobre Filipe I), os gestos de cura s\u00e3o bastante semelhantes. Helgaud n\u00e3o parece ter visto um legado ancestral na \u201cgrande gra\u00e7a\u201d que Deus, segundo ele, havia concedido a seu rei. Pode-se inferir, com boa possibilidade de acerto, que Roberto II foi o primeiro dos reis taumaturgos, o elo original da cadeia gloriosa, mas n\u00e3o \u2013 algo que seria contradit\u00f3rio com os fatos \u2013 que nenhum rei, posteriormente, teria realizado curas.<\/p>\n<p>Outra dificuldade: Filipe I tocou os escrofulosos; e na frase de Helgaud n\u00e3o h\u00e1 qualquer men\u00e7\u00e3o \u00e0 escr\u00f3fula. A frase aparece em um contexto que trata da a\u00e7\u00e3o do rei em rela\u00e7\u00e3o aos leprosos; mas os leprosos n\u00e3o parecem ser visados \u200b\u200bpor ele de maneira especial; n\u00e3o parece ser esta ou aquela afec\u00e7\u00e3o, lepra ou escr\u00f3fula, todas as diferentes doen\u00e7as que Roberto, de acordo com seus admiradores, sabia curar. \u201c\u00c9 digno de nota\u201d, escreve M. Delaborde, \u201cque as escr\u00f3fulas n\u00e3o apare\u00e7am mencionadas na passagem desta biografia, na qual acredit\u00e1vamos ver um primeiro exemplo do dom especial de nossos reis, mas sim o poder geral de curar doen\u00e7as, comum a todos os santos\u201d<a title=\"\" href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a>. Certo. Mas \u00e9 correto afirmar que tal dom, que se reconhecia o rei possuir, tenha sido, desde o in\u00edcio, percebido como sendo t\u00e3o \u201cespec\u00edfico\u201d? Estamos t\u00e3o habituados a perceber a virtude milagrosa dos pr\u00edncipes franceses como tendo por objeto exclusivo as escr\u00f3fulas, que n\u00e3o mais nos espantamos com o fato deste poder ter assumido essa forma estritamente limitada. Afirmar que sempre tenha sido, desde seus in\u00edcios, restrito desta maneira \u00e9, por\u00e9m, afirmar um postulado injustific\u00e1vel. Fa\u00e7amos uma compara\u00e7\u00e3o. A maior parte dos santos verdadeiramente populares possui, tamb\u00e9m, dons espec\u00edficos: um cuida dos olhos de algu\u00e9m, outro das dores do est\u00f4mago e assim por diante. Al\u00e9m disso, e at\u00e9 onde \u00e9 poss\u00edvel analisar, tais especializa\u00e7\u00f5es raramente est\u00e3o em suas origens; a melhor prova \u00e9 a de que, por vezes, elas variam. Todo santo se torna um m\u00e9dico para o povo; pouco a pouco, como consequ\u00eancia de associa\u00e7\u00f5es de ideias, muitas vezes obscuras, \u00e0s vezes por conta de simples semelhan\u00e7as entre palavras, seus fi\u00e9is passam a atribuir a este santo o dom de aliviar, preferencialmente, esta ou aquela doen\u00e7a; o tempo faz, ent\u00e3o, seu trabalho; ao final de certo n\u00famero de anos, a cren\u00e7a neste poder particularmente espec\u00edfico acaba por se tornar, no pobre mundo dos sofredores, um verdadeiro artigo de f\u00e9. Mais tarde encontraremos um dos grandes santos peregrinos, S. Marcoul de Corbeny; como os reis da Fran\u00e7a, ele curava escr\u00f3fulas; adquiriu tal especialidade muito posteriormente; por longos s\u00e9culos fora apenas um santo como os outros, invocado indiferentemente para todo tipo de doen\u00e7as. Sua hist\u00f3ria, que conhecemos bem, parece verdadeiramente repetir, com algumas centenas de anos de dist\u00e2ncia, aquela dos reis da Fran\u00e7a, que nos aparece de forma menos n\u00edtida: como o santo de Corbeny, provavelmente os reis come\u00e7aram curando muitas doen\u00e7as para se especializarem apenas posteriormente. As representa\u00e7\u00f5es coletivas das quais emergiu a ideia do poder medicinal dos reis s\u00e3o suficientemente sutis para que sejam acompanhadas em todos os seus detalhes; por\u00e9m, n\u00e3o s\u00e3o inintelig\u00edveis; eu me esfor\u00e7arei para restitu\u00ed-las; est\u00e3o conectadas a todo um ciclo de cren\u00e7as sobre a sacralidade da realeza que apenas come\u00e7amos a penetrar; o que teria que ser considerado inconceb\u00edvel \u00e9 que os franceses tenham cismado que seus soberanos eram capazes de curar n\u00e3o todos os doentes em geral, mas apenas e t\u00e3o somente os escrofulosos.<\/p>\n<p>Vamos supor, ao contr\u00e1rio, que as coisas tenham se passado como no caso de S. Marcoul. Os primeiros capet\u00edngios, a partir de Roberto o Pio, por exemplo, \u201ctocavam\u201d e \u201cmarcavam com o sinal da cruz\u201d, todas as pessoas pobres, v\u00edtimas de v\u00e1rias doen\u00e7as, que, atra\u00eddas pela reputa\u00e7\u00e3o taumat\u00fargica, acorriam a eles; essa multid\u00e3o certamente inclu\u00eda homens escrofulosos; pois a escr\u00f3fula era, na Europa daquele tempo, uma afec\u00e7\u00e3o extremamente frequente e temida. Mas se trata basicamente de uma afec\u00e7\u00e3o benigna, de apar\u00eancia mais desagrad\u00e1vel do que verdadeiramente perigosa e, acima de tudo, facilmente suscet\u00edvel a remiss\u00f5es, ao menos aparentes ou tempor\u00e1rias<a title=\"\" href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\">[21]<\/a>. Entre os homens escrofulosos tocados pela m\u00e3o sagrada do rei, alguns se recuperar\u00e3o, e muitos outros parecer\u00e3o curados. Efeito da natureza, dir\u00edamos n\u00f3s; efeito da virtude real, dizia-se no s\u00e9culo XI. Que alguns casos semelhantes viessem realmente a ocorrer, qualquer que fosse a raz\u00e3o, em condi\u00e7\u00f5es particularmente prop\u00edcias para estimular a imagina\u00e7\u00e3o \u2013 o que acabou por fazer com que os doentes, dessa forma aliviados, se destacassem em rela\u00e7\u00e3o a outros que, sofrendo de diferentes males, n\u00e3o tenham se beneficiado pelo toque \u2013, acabou por ser suficiente para fazer com que as mentes passassem a identificar, no pr\u00edncipe capet\u00edngio, um especialista nas escr\u00f3fulas. Sem d\u00favida, na reconstitui\u00e7\u00e3o de tal encadeamento de ideias participam necessariamente um grande n\u00famero de hip\u00f3teses. O <i>processo<\/i> pelo qual um curandeiro geral se torna especializado sempre ser\u00e1 dif\u00edcil de ser apreendido em detalhes, pois se trata do resultado de uma multid\u00e3o de pequenos fatos, de natureza diversa, que atuam de maneira cumulativa; cada fato tomado isoladamente \u00e9 insignificante para que os documentos os mencionem; isto \u00e9 o que os historiadores chamam de \u201cacaso\u201d; mas a possibilidade da ocorr\u00eancia de tal <i>processo<\/i> \u00e9 abundantemente demonstrada pela hist\u00f3ria do culto aos santos. Aqui, encontramos um suporte s\u00f3lido a nossas indu\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que n\u00e3o dispomos de um texto. N\u00e3o h\u00e1 motivo para rejeitar o testemunho fornecido por Helgaud; nada, na evolu\u00e7\u00e3o que pudemos restaurar, vai de encontro \u00e0 verossimilhan\u00e7a. O fato, ent\u00e3o, permanece.<\/p>\n<p>Devemos permanecer em terreno seguro, concluindo o seguinte: Roberto o Pio, o segundo dos Capet\u00edngios, passou a ser visto, por seus fi\u00e9is, como algu\u00e9m que possu\u00eda o dom de curar os doentes; seus sucessores herdaram tal poder; mas, transmitida de gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o, essa virtude din\u00e1stica se modificou, ou melhor, tornou-se gradualmente mais espec\u00edfica; concebeu-se a ideia de que o toque real do soberano n\u00e3o curava todas as doen\u00e7as indiscriminadamente, mas apenas uma delas, que ali\u00e1s era muito comum; j\u00e1 no reinado de Filipe I, o pr\u00f3prio neto de Roberto, essa transforma\u00e7\u00e3o estava conclu\u00edda.<\/p>\n<p>Conseguimos assim determinar, com certa probabilidade, os in\u00edcios, na Fran\u00e7a, do toque da escr\u00f3fula. Resta pesquisar, no verdadeiro sentido da palavra, suas origens, isto \u00e9, entender como se passou a ver os reis enquanto m\u00e9dicos prodigiosos. Mas esta pesquisa n\u00e3o pode, por enquanto, ser realizada de maneira frut\u00edfera. O milagre real, de fato, \u00e9 tanto ingl\u00eas quanto franc\u00eas; em um estudo explicativo de suas origens, ambos os pa\u00edses n\u00e3o podem ser considerados separadamente. N\u00e3o podemos estabelecer se o rito da cura surgiu primeiramente na Fran\u00e7a se n\u00e3o tivermos fixado o momento em que este surgiu Inglaterra; sem este cuidado indispens\u00e1vel, como podemos saber se os reis da Fran\u00e7a simplesmente n\u00e3o imitaram seus rivais de al\u00e9m do Canal da Mancha? Como analisar a concep\u00e7\u00e3o de realeza, que o rito n\u00e3o fazia mais que traduzir? As mesmas ideias coletivas est\u00e3o, em sua origem, em ambas as na\u00e7\u00f5es vizinhas. Acima de tudo, agora se faz necess\u00e1rio realizar, para a Inglaterra, a mesma discuss\u00e3o cr\u00edtica \u00e0 qual acabamos de submeter os textos franceses.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Ainda hoje os tratados de medicina alertam os praticantes sobre a confus\u00e3o entre escr\u00f3fulas e afec\u00e7\u00f5es do rosto: cf. de Gennes em Brouaudel, Gilbert e Girode, <i>Trait\u00e9 de M\u00e9decine et de Th\u00e9rapeutique<\/i>, III, p. 596 e ss. Confus\u00e3o com doen\u00e7as dos olhos ver, por exemplo, Browne, <i>Adenochairedologia<\/i>, p. 140 e ss.; 149; 168. Cf. Crawfurd, <i>King\u2019s Evil<\/i>, p. 99.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Para a It\u00e1lia (regi\u00e3o de Luca), ver o testemunho de Arnaud de Villeneuve citado por H. Fimke, <i>Aus den Tagen Bonifaz VIII (Vorreformationsgeschichtliche Forschungen 2)<\/i>, M\u00fcnster 1902, p. 105, n. 2; para a Espanha, ver a seguir.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Que se apresenta ap\u00f3s <i>De Pignoribus Sanctorum<\/i> de Guibert de Nogent, cuja edi\u00e7\u00e3o mais acess\u00edvel \u00e9 Migne, <i>P. L.<\/i>, t. 156.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> <i>P. L<\/i> ., t. 156, col. 651 e ss.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Col. 664 no in\u00edcio do 1. III \u00a7 IV: \u201cin eorum libello qui super dente lioc et sanctorum loci miraculis actitat\u201d.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Col. 607 \u201cnobis contigui\u201d; col. 651 \u201cfinitimi nostri\u201d.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Col. 652 \u201cAttendite, falsarii&#8230;\u201d.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Trata-se do manuscrito em latim 2900 da Bibl. Nat., que prov\u00e9m do pr\u00f3prio monast\u00e9rio de Nogent.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Ver especialmente a interessante mem\u00f3ria de M. Abel Lefranc, <i>Le trait\u00e9 des reliques de Guibert de Nogent Etudes d\u201dhistoire du Moyen Age d\u00e9di\u00e9es \u00e0 Gabriel Monod<\/i>, 1986, p. 286. Lefranc parece exagerar um pouco o sentido cr\u00edtico de Guibert que, no entanto, \u00e9 incontest\u00e1vel. Cf. Bernard Monod, <i>Le moine Guibert et son temps<\/i>, 1905.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Col. 615 e 616. A passagem relativa \u00e0s escr\u00f3fulas est\u00e1, no entanto, estranhamente interposta em meio a exemplos antigos e a rejei\u00e7\u00e3o \u00e0s profecias de Bala\u00e3o e Caif\u00e1s. Todo o tratado \u00e9 muito mal composto. A maioria dos exemplos citados por Guilbert de Nogent eram cl\u00e1ssicos em seu tempo; veja, por exemplo, o resultado da profecia de Caif\u00e1s \u2013 dado como o tipo de simon\u00edaco \u2013 S. Pierre <i>Damien, Liber gratissimus, c. X, Monumenta Gcrmaniae, Libelli de lite<\/i>, I, p. 31.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Posteriormente, no manuscrito, ir\u00e1 afirmar \u00e0 fol. 14: \u201cQuid quod dominum nostrum Ludovicum regem consuetudinario uti videmus prodigio ? Hos plane, qui scroplias circa jugulum, aut uspiam in corpore patiuntur, ad tactum eius, superadito crucis signo, vidi catervatim, me ei coherente et etiam prohibente, concurrere. Quos tamen ille ingenita liberalitate, serena ad se manus obuncans, humillime consignabat. Cuius gloriam miraculi cum Filipepus pater ejus alacriter exerceret, nescio quibus incidentibus culpis.amisit\u201d. O texto de P. L ., t. 156, col. 616, grafias \u00e0 parte, est\u00e1 correto.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Cf. G. Bourgin, <i>Introduction<\/i> \u00e0 sua edi\u00e7\u00e3o de Guibert de Nogent, <i>Histoire de sa vie<\/i> (<i>Collect. de textes pour l\u201d\u00e9tude et l\u201dens. de l\u201dhist<\/i>), p. XIII. O Sr. G. Bourgin parece n\u00e3o ter prestado aten\u00e7\u00e3o \u00e0 passagem do <i>Tratado sobre as Rel\u00edquias<\/i> relativas \u00e0 cura da escr\u00f3fula, caso contr\u00e1rio n\u00e3o teria apresentado os encontros entre Guibert e o rei como meramente \u201cprov\u00e1veis\u201d.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Orderic Vital, 1. VIII, c. XX, ed. Lepr\u00e9vost, III, p. 390.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> Ser\u00e3o discutidos mais adiante.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> Du Peyrat, <i>Histoire ecclesiastique de la cour<\/i>, p. 817. Deve-se destacar que, na atualidade, Sir James Frazer assumiu, sem perceber os problemas hist\u00f3ricos que acarretava, a antiga teoria de Du Laurens e Pierre Mathieu: <i>Golden Bough<\/i>, I, p. 370.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> <i>Historia Francorum<\/i>, IX, c. 21: \u201cNam caelebre tunc a fidelibus ferebatur, quod mulier quaedam, cuius filius quartano tibo gravabatur et in strato anxius decubabat, accessit inter turbas populi usque ad tergum regis, abruptisque clam regalis indumenti fimbriis, in aqua posuit filioque bibendum dedit; statimque, restincta febre, sanatus est. Quod non habetur a me dubium, cum ego ipse saepius larvas inergia famulante nomen eius invocantes audieram ac criminum propriorum gesta, virtute ipsius discernente, fatere\u201d.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> <i>Biblioteheca Hagiographica Latina<\/i>, 1, p. 555.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> <i>Histoire ecclesiastique de la Cour<\/i>, p. 806.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> <i>Histor. de France<\/i>, X, p. 115 A e Migne, P. L., t. 141, col 931: \u201cTantam quippe gratiarn in medendis corporibus perfecto viro contulit divina virtus ut, sua piissima manu infirmis locus tangens vulneris et illis irnprimens ignum sanctae crucis, omnetn auferret ab eis dolorem infirmitatis\u201d. Gostaria de mencionar que a interpreta\u00e7\u00e3o desta passagem, que ser\u00e1 desenvolvida a seguir, j\u00e1 foi indicada, em suas linhas gerais, pelo Dr. Crawfurd, <i>King\u2019s Evil<\/i>, p. 12 e 13.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> <i>Du toucher des \u00e9crouelles<\/i>, p. 175, n. I.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\">[21]<\/a> Sobre este ponto, como tamb\u00e9m sobre a an\u00e1lise cr\u00edtica relativa ao milagre real, veja o Livro III.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Livro &#8220;Os Reis Taumaturgos&#8221;, do historiador franc\u00eas Marc Bloch, s\u00f3 estar\u00e1 dispon\u00edvel a partir de Abril de 2018. Abaixo, o primeiro cap\u00edtulo. Livro Primeiro: As Origens Cap\u00edtulo I. Os in\u00edcios do toque das escr\u00f3fulas \u00a7 1. 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