{"id":1158,"date":"2025-01-30T23:42:36","date_gmt":"2025-01-30T23:42:36","guid":{"rendered":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=1158"},"modified":"2025-01-30T23:42:36","modified_gmt":"2025-01-30T23:42:36","slug":"a-epoca-de-constantino-o-grande-de-jacob-burckhardt","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2025\/01\/30\/a-epoca-de-constantino-o-grande-de-jacob-burckhardt\/","title":{"rendered":"&#8220;A \u00c9poca de Constantino o Grande&#8221; de Jacob Burckhardt"},"content":{"rendered":"\n<p>A seguir voc\u00ea ir\u00e1 ler um cap\u00edtulo da obra &#8220;A \u00c9poca de Constantino, o Grande&#8221;, de Jacob Burckhardt. Caso deseje saber mais sobre a obra, inclusive como adquiri-la, <a href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/a-epoca-de-constantino\/\">clique aqui<\/a>, ou na imagem da capa abaixo.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/a-epoca-de-constantino\/\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"231\" height=\"328\" src=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/capinha_burckhardt-paganismo.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1155\" srcset=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/capinha_burckhardt-paganismo.jpg 231w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/capinha_burckhardt-paganismo-211x300.jpg 211w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/capinha_burckhardt-paganismo-106x150.jpg 106w\" sizes=\"(max-width: 231px) 100vw, 231px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\"> <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><a>5. O paganismo e sua mistura de deuses<\/a><\/h1>\n\n\n\n<p>A \u00faltima \u00e9poca de Diocleciano e Maximiano ganhou m\u00e1 fama devido \u00e0s torturas e ao derramamento de sangue da grande persegui\u00e7\u00e3o contra os crist\u00e3os. Foi in\u00fatil tentar determinar a amplitude e o n\u00famero de v\u00edtimas dessa persegui\u00e7\u00e3o, sequer de forma aproximada, pois falta a base de todo poss\u00edvel c\u00e1lculo, ou seja, um dado seguro sobre o n\u00famero de crist\u00e3os existentes na \u00e9poca no Imp\u00e9rio Romano. Segundo Staudlin, representariam a metade da popula\u00e7\u00e3o; segundo Matter, um quinto; segundo Gibbon, uma vig\u00e9sima parte, nada mais; segundo La Bastie, um doze avos, o que talvez se aproxime mais da verdade. Mas, com mais exatid\u00e3o, seria necess\u00e1rio supor, para o Ocidente, um quinze avos, e, para o Oriente, a d\u00e9cima parte<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas deixemos de lado, por um momento, a quest\u00e3o do n\u00famero e consideremos a situa\u00e7\u00e3o interna dos dois grandes organismos em luta, cristianismo e paganismo.<\/p>\n\n\n\n<p>O cristianismo respondia na Terra a uma grande necessidade hist\u00f3rica, como fim do mundo antigo, como ruptura com ele e, ao mesmo tempo, salva\u00e7\u00e3o parcial e transmiss\u00e3o aos novos povos que, em sua condi\u00e7\u00e3o de pag\u00e3os, ao se confrontarem com um Imp\u00e9rio puramente pag\u00e3o, talvez o tivessem barbarizado completamente e destru\u00eddo. Mas chegara o momento em que o homem precisava se colocar em uma rela\u00e7\u00e3o completamente nova com as coisas naturais e sobrenaturais, e em que o amor a Deus e ao pr\u00f3ximo e o desapego pelo terreno deveriam ocupar o lugar da velha concep\u00e7\u00e3o do divino e do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas s\u00e9culos haviam dado uma forma s\u00f3lida \u00e0 vida e \u00e0 doutrina dos crist\u00e3os; a amea\u00e7a constante e as frequentes persegui\u00e7\u00f5es haviam evitado a decad\u00eancia prematura da comunidade e a capacitaram para superar as mais perigosas cis\u00f5es. Ela havia afastado de si vitoriosamente tanto os fan\u00e1ticos ascetas, montanistas e outros, como os fantasiosos e especuladores que queriam transmutar o cristianismo dentro dos moldes dos filosofemas plat\u00f4nicos e orientais (os gn\u00f3sticos); mal havia come\u00e7ado a luta contra a tentativa mais recente e poderosa dessa classe, o manique\u00edsmo; os arautos do arianismo \u2013 disputa sobre a segunda pessoa da divindade \u2013 pareciam j\u00e1 silenciados; finalmente, as numerosas discrep\u00e2ncias que existiam nessa \u00e9poca da <em>ecclesia<\/em> pressa em torno de diversos pontos da disciplina eclesi\u00e1stica n\u00e3o eram ainda t\u00e3o perigosas como se tornariam mais tarde, nos s\u00e9culos da igreja triunfante, que nessas quest\u00f5es encontrou ocasi\u00e3o para dissens\u00f5es definitivas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda havia muitas coisas que encontravam livre espa\u00e7o dentro do cristianismo e que mais tarde n\u00e3o poderiam mais ser conciliadas com ele. Nos s\u00e9culos IV e V, j\u00e1 se admiravam de como foi poss\u00edvel tolerar na igreja a especula\u00e7\u00e3o e a interpreta\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica do cristianismo de um Or\u00edgenes; mas tamb\u00e9m em outras figuras que, nos tempos da igreja militante, eram consideradas como Pais, mais tarde se reconheceriam personalidades meio her\u00e9ticas. Os catec\u00famenos chegavam \u00e0 igreja de lados muito diferentes, com uma educa\u00e7\u00e3o muito diversa e por motivos tamb\u00e9m muito distintos para que fosse poss\u00edvel uma igualdade completa da doutrina e da vida. Os tipos ideais, cheios de uma profundidade espiritual e de uma entrega completa, representavam, com certeza, a pequena minoria, como em todas as coisas humanas; a grande massa se sentia atra\u00edda pelo perd\u00e3o dos pecados, que figurava em primeiro plano, pela imortalidade prometida, pelo mist\u00e9rio que cercava os sacramentos e que, para muitos, n\u00e3o era mais que um paralelo dos mist\u00e9rios pag\u00e3os. Os escravos se sentiam atra\u00eddos pela liberdade e pelo amor fraternal dos crist\u00e3os, muitos indesej\u00e1veis pelas consider\u00e1veis esmolas que aflu\u00edam para Roma a partir das diversas comunidades, em uma propor\u00e7\u00e3o verdadeiramente universal<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>O grande n\u00famero de heroicos mart\u00edrios que, de tempos em tempos, restabeleciam a tens\u00e3o nas comunidades degeneradas e voltavam a plantar o desprezo pela morte, demonstra menos a perfei\u00e7\u00e3o interna da igreja do que a vit\u00f3ria futura prometida a uma causa que \u00e9 defendida com tanto sacrif\u00edcio. A cren\u00e7a firme em uma entrada imediata no reino dos c\u00e9us animava, sem d\u00favida, muitos homens, interiormente confusos e at\u00e9 ca\u00eddos, a entregar suas vidas, cujo pre\u00e7o, por sua vez, era naquela \u00e9poca de sofrimento e de despotismo menor do que nos s\u00e9culos do mundo germano-rom\u00e2nico. \u00c0s vezes, reinava uma verdadeira epidemia de sacrif\u00edcio; os crist\u00e3os buscavam a morte e precisavam ser advertidos pelos seus mestres para que poupassem suas vidas. Logo, os m\u00e1rtires se tornaram os ideais luminosos da vida; surge um verdadeiro culto em torno de suas sepulturas e sua intercess\u00e3o junto a Deus representava uma das maiores esperan\u00e7as dos crist\u00e3os. Sua superioridade em rela\u00e7\u00e3o aos outros santos \u00e9 algo \u00f3bvio; entre todas as religi\u00f5es, nenhuma enalteceu tanto seus m\u00e1rtires como o cristianismo e, dessa forma, gravou tanto na mem\u00f3ria o recorde de sua expans\u00e3o. Onde quer que os m\u00e1rtires tivessem padecido, havia um lugar sacrossanto, e as persegui\u00e7\u00f5es de imperadores anteriores, at\u00e9 as de D\u00e9cio, j\u00e1 haviam semeado em toda parte locais desse tipo. Com essa longa persist\u00eancia do culto aos m\u00e1rtires, a persegui\u00e7\u00e3o de Diocleciano oferecia, desde o primeiro momento, os mais graves inconvenientes pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p>A constitui\u00e7\u00e3o da igreja j\u00e1 mostra, nesta \u00e9poca, os come\u00e7os de uma hierarquia. Certamente, as comunidades podiam escolher seus sacerdotes ou, ao menos, confirm\u00e1-los, mas foram se separando, cada vez mais, em qualidade de clero, dos leigos; surgiram diferen\u00e7as de posi\u00e7\u00e3o entre os bispos, conforme a categoria de suas cidades e, sobretudo, a proced\u00eancia apost\u00f3lica de algumas igrejas. Os s\u00ednodos, que se reuniram por diversas causas, costumavam agrupar os bispos como uma classe superior. Mas tamb\u00e9m entre eles manifestou-se, no s\u00e9culo III, uma s\u00e9ria degenera\u00e7\u00e3o; encontramos v\u00e1rios entregues \u00e0 pompa mundana, como funcion\u00e1rios romanos, como comerciantes e at\u00e9 como usur\u00e1rios; com raz\u00e3o se pensa que o escandaloso exemplo de Paulo de Sam\u00f3sata n\u00e3o foi um caso isolado<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Claro que, junto \u00e0 seculariza\u00e7\u00e3o, temos tamb\u00e9m a oposi\u00e7\u00e3o mais rude: o retiro do mundo, do estado e da sociedade para a solid\u00e3o, para a vida erem\u00edtica, cujo origem ainda nos ocupar\u00e1, juntamente com outros dos pontos mencionados.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma bibliografia muito ampla, que abrange v\u00e1rias das obras hist\u00f3ricas modernas mais destacadas, exp\u00f5e tudo o que foi dito em detalhes, de acordo com o ponto de vista adotado pelo autor e reclamado pelo leitor. N\u00e3o nos tomar\u00e3o a mal se nosso ponto de vista n\u00e3o for o da edifica\u00e7\u00e3o, que, por exemplo, n\u00e3o est\u00e1 de modo algum deslocado no caso de um Neander.<\/p>\n\n\n\n<p>Tentemos imaginar, por um momento, a verdadeira for\u00e7a das igrejas crist\u00e3s no in\u00edcio da \u00faltima persegui\u00e7\u00e3o e veremos que isso n\u00e3o se devia nem ao n\u00famero de seus membros, nem a uma moralidade m\u00e9dia elevada entre eles, nem a uma disposi\u00e7\u00e3o interior especialmente \u00edntegra, mas \u00e0 firme cren\u00e7a na beat\u00edfica imortalidade, da qual talvez estivesse impregnado todo bom crist\u00e3o<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. J\u00e1 veremos como todo o esfor\u00e7o do paganismo tardio buscava o mesmo fim, mas sempre por caminhos mais obscuros e labir\u00ednticos e sem aquela convic\u00e7\u00e3o vitoriosa; a longo prazo, n\u00e3o poderia resistir \u00e0 competi\u00e7\u00e3o do cristianismo, pois este havia simplificado enormemente todo o problema. Em segundo lugar, \u00e0 necessidade pol\u00edtica do mundo antigo, que estava t\u00e3o desorientado em todas as quest\u00f5es de estado desde a domina\u00e7\u00e3o violenta de Roma, se oferecia um novo estado, uma nova democracia, at\u00e9 uma nova sociedade civil, caso tivesse conseguido se manter pura. Muita ambi\u00e7\u00e3o antiga, que n\u00e3o encontrava ocupa\u00e7\u00e3o no estado, que se sentia amea\u00e7ada e obrigada ao sil\u00eancio, penetrou nas comunidades dos fi\u00e9is, e at\u00e9 nas sedes episcopais, para se impor de algum modo; por outro lado, as comunidades ofereciam aos melhores e mais humildes um asilo sagrado que os protegiam da invas\u00e3o do tr\u00e1fego romano, que mostrava sinais de podrid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante dessas poderosas vantagens, encontramos a gentilidade<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a> em processo de plena dissolu\u00e7\u00e3o, numa situa\u00e7\u00e3o que, mesmo sem a presen\u00e7a do cristianismo, n\u00e3o teria perdurado muito. Suponhamos, por exemplo, que Maom\u00e9 tivesse conseguido fabricar seu islamismo fan\u00e1tico sem qualquer influ\u00eancia do lado crist\u00e3o, e certamente o paganismo do Mediterr\u00e2neo teria sucumbido \u00e0 sua primeira investida, como o paganismo do Oriente Pr\u00f3ximo sucumbiu. Ele estava mortalmente enfraquecido por um processo de dissolu\u00e7\u00e3o interna e pela presen\u00e7a de novos ingredientes estranhos.<\/p>\n\n\n\n<p>A religi\u00e3o oficial do Imp\u00e9rio, da qual devemos partir, era o polite\u00edsmo greco-romano, tal como se havia constitu\u00eddo pela afinidade primitiva e a subsequente fus\u00e3o desses dois cultos. A partir de divindades naturais e de deuses protetores de todas as rela\u00e7\u00f5es imagin\u00e1veis da vida, formou-se um c\u00edrculo admir\u00e1vel de figuras sobre-humanas, no qual o homem antigo reconhecia por toda parte sua pr\u00f3pria imagem. A rela\u00e7\u00e3o da moral com essa religi\u00e3o era livre, confiada ao sentimento de cada um; os deuses deveriam premiar o bem e punir o mal, mas eram imaginados muito mais como doadores e protetores da exist\u00eancia e da fortuna do que como pot\u00eancias morais superiores. O que os diversos mist\u00e9rios dos gregos acrescentavam \u00e0 f\u00e9 popular n\u00e3o era uma religi\u00e3o mais pura, e muito menos uma s\u00e1bia ilumina\u00e7\u00e3o dos iniciados, mas apenas um rito secreto de adora\u00e7\u00e3o que tornava o iniciado aceit\u00e1vel aos deuses. Mas, ao menos, produziam um efeito ben\u00e9fico com a condi\u00e7\u00e3o que costumavam impor de costumes puros, assim como com o est\u00edmulo do sentimento nacional que neles se produzia com uma for\u00e7a somente compar\u00e1vel \u00e0 dos agones solenes.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante dessa religi\u00e3o, a filosofia, assim que se elevou acima das quest\u00f5es cosmol\u00f3gicas, sustentou com maior ou menor clareza a unidade do ser divino. Com isso, abriu-se o caminho para a religiosidade suprema, para os ideais morais mais belos, mas tamb\u00e9m para o pante\u00edsmo e at\u00e9 para o ate\u00edsmo, que podiam pretender a mesma liberdade frente \u00e0 f\u00e9 popular. Quem n\u00e3o negava os deuses os declarava, de forma pante\u00edsta, como for\u00e7as fundamentais do universo ou os relegava, como os epicuristas, a uma ociosa vizinhan\u00e7a do mundo. Tamb\u00e9m a genu\u00edna ilustra\u00e7\u00e3o se misturava no assunto; Ev\u00eamero e seus adeptos h\u00e1 muito haviam transformado os deuses em antigos estadistas, chefes militares, etc., e haviam explicado racionalmente os milagres pelo engano e pela incompreens\u00e3o; um falso caminho que tamb\u00e9m mais tarde os Padres da igreja e os apologistas seguiram ao condenar o paganismo. Todo esse estado de fermenta\u00e7\u00e3o foi acolhido pelos romanos junto com a cultura grega, e ocupar-se dessas quest\u00f5es foi, entre os cultos, algo tanto de convencimento quanto de moda. Nas classes altas da sociedade tamb\u00e9m se desenvolveu a incredulidade, junto a todo tipo de supersti\u00e7\u00f5es, embora os verdadeiros ateus fossem poucos. Mas essa situa\u00e7\u00e3o mudou visivelmente no s\u00e9culo III sob a a\u00e7\u00e3o dos grandes perigos do Imp\u00e9rio e come\u00e7ou a prevalecer uma certa f\u00e9 que beneficiou mais os cultos estrangeiros do que a velha religi\u00e3o nacional. Por outro lado, em Roma o velho culto estava t\u00e3o estreitamente fundido com a vida estatal e a supersti\u00e7\u00e3o correspondente, fundada t\u00e3o vigorosamente<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[6]<\/a>, que tanto o incr\u00e9dulo quanto o crente de outra religi\u00e3o tinham que ser oficialmente piedosos \u00e0 romana quando se tratava do fogo sagrado das vestais, das garantias misteriosas do dom\u00ednio e dos ausp\u00edcios oficiais, pois a eternidade de Roma dependia dessas entidades sagradas. Os pr\u00f3prios imperadores, n\u00e3o s\u00f3 eram pont\u00edfices m\u00e1ximos, com certas obriga\u00e7\u00f5es rituais, mas tamb\u00e9m seu t\u00edtulo de Augusto indica uma consagra\u00e7\u00e3o, uma legitimidade e uma inviolabilidade sagradas, e n\u00e3o se trata de pura adula\u00e7\u00e3o quando a \u00faltima supersti\u00e7\u00e3o lhes atribui a categoria de dem\u00f4nios<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\">[7]<\/a>, depois que o cristianismo p\u00f4s fim aos seus tr\u00eas s\u00e9culos de apoteoses habituais, aos seus templos, altares e sacerd\u00f3cios.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas tamb\u00e9m n\u00e3o se pode duvidar de que, nos \u00faltimos tempos do paganismo, em muitos indiv\u00edduos, essa aut\u00eantica religi\u00e3o greco-romana n\u00e3o havia sido substitu\u00edda por divindades estrangeiras, n\u00e3o havia sido substitu\u00edda pela magia e pelos encantamentos, nem dissolvida pela abstra\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica. Isso \u00e9 algo imposs\u00edvel de demonstrar diretamente, pois a adora\u00e7\u00e3o aos deuses antigos n\u00e3o exclu\u00eda a adora\u00e7\u00e3o aos novos, e porque, na confus\u00e3o de deuses de que falaremos mais tarde, podia-se adorar sob o nome de um deus antigo um deus novo e vice-versa. Mas mal podemos rejeitar tal presun\u00e7\u00e3o quando, em uma ou outra ocasi\u00e3o, vemos que irrompe com for\u00e7a poderosa a velha rela\u00e7\u00e3o ing\u00eanua do homem antigo saud\u00e1vel com os deuses e com o destino. \u201cA ti venero\u201d, exclama Avieno<a href=\"#_ftn8\" id=\"_ftnref8\">[8]<\/a>, dirigindo-se \u00e0 Fortuna etrusca, Norcia, \u201ceu, nascido dos buls\u00ednios, que habitam em Roma, duas vezes honrado com o proconsulado, consagrado \u00e0 poesia, sem culpa e sem d\u00edvidas, feliz com minha mulher Pl\u00e1cida, com meus numerosos e vigorosos filhos. O resto pode se cumprir conforme a lei do Destino.\u201d Em outros, a velha religi\u00e3o com sua concep\u00e7\u00e3o do mundo se afirmava de maneira muito expressa junto aos novos ingredientes. Isso pode ter ocorrido com a f\u00e9 de Diocleciano, pois ao menos sabemos que ele permaneceu fiel ao ar\u00faspice etrusco, \u00e0 qual n\u00e3o se opunha o campo na corte, como depois, nos tempos de Juliano, os neoplat\u00f4nicos conjuradores de dem\u00f4nios<a href=\"#_ftn9\" id=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. Seu deus protetor continuou sendo J\u00fapiter e o or\u00e1culo ao qual ele consulta em uma quest\u00e3o important\u00edssima \u00e9 o Apolo Mil\u00e9sio. Sua moral e sua religiosidade, tal como se revela, por exemplo, nas leis, se assemelham mais \u00e0 moral e \u00e0 religiosidade de Decio<a href=\"#_ftn10\" id=\"_ftnref10\">[10]<\/a>; quanto ao culto ao \u201cbom imperador\u201d <a href=\"#_ftn11\" id=\"_ftnref11\">[11]<\/a>, no caso de Marco Aur\u00e9lio, venerado como dem\u00f4nio, assemelha-se a Alexandre Severo. Mas tamb\u00e9m devemos supor que muitos elementos e consequ\u00eancias da velha religi\u00e3o j\u00e1 haviam desaparecido h\u00e1 muito tempo e estavam esquecidos. Assim aconteceu, talvez, com toda aquela massa de pequenas divindades protetoras de coisas triviais, pois, por mais que escandalizem os autores crist\u00e3os<a href=\"#_ftn12\" id=\"_ftnref12\">[12]<\/a> como algo persistente, na maior parte pertence ao dom\u00ednio das antiguidades<a href=\"#_ftn13\" id=\"_ftnref13\">[13]<\/a>. De fato, j\u00e1 n\u00e3o se pensava, a prop\u00f3sito do fogo dom\u00e9stico, no deus Laterano, nos unguentos em Unxia, nos cintos em Cinxia, nos parreiraos em Puta, nos cereais em Nodutis, na cria\u00e7\u00e3o de abelhas em Mellonia, no limiar da casa em Limentino, etc.; porque uma ideia distinta, mais geral, do mundo dos g\u00eanios e dos dem\u00f4nios havia se apoderado h\u00e1 muito tempo dos esp\u00edritos. Muitas dessas coisas n\u00e3o passaram de ser cren\u00e7as romanas puramente locais. A Gr\u00e9cia conservou por completo, na \u00e9poca imperial, sua predile\u00e7\u00e3o pelos cultos locais e pelos mist\u00e9rios locais. Paus\u00e2nias, que descreve a H\u00e9lade no s\u00e9culo XI, nos oferece numerosos testemunhos do culto particular de deuses e her\u00f3is de cada cidade e de cada comarca, junto com os sacerdotes mais diversos dedicados ao seu servi\u00e7o; o fato de n\u00e3o ter falado dos mist\u00e9rios explica-se porque o sil\u00eancio representava para ele um dever sagrado, cuja transgress\u00e3o, no entanto, teria sido apreciada pela posteridade.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como o estado romano precisava de certos sacra para sua perpetua\u00e7\u00e3o, de sorte que, por exemplo, as vestais velaram o fogo sagrado at\u00e9 bem entrado o per\u00edodo crist\u00e3o, tamb\u00e9m a vida privada estava impregnada, desde o ber\u00e7o at\u00e9 a sepultura, de pr\u00e1ticas religiosas. Na casa, os sacrif\u00edcios e os banquetes seguiam juntos; nas ruas da cidade, encontrava-se com aquelas prociss\u00f5es e manifesta\u00e7\u00f5es, em parte belas e dignas, em parte bacantes e relaxadas, que preenchiam o calend\u00e1rio grego e romano, e no campo tamb\u00e9m n\u00e3o faltavam os sacrif\u00edcios nas capelas, grutas, encruzilhadas e velhos \u00e1rvores poderosas. O ne\u00f3fito Arn\u00f3bio nos conta como, sendo pag\u00e3o, sentia devo\u00e7\u00e3o ao passar diante de \u00e1rvores enfeitadas ou rochas com vest\u00edgios do \u00f3leo derramado<a href=\"#_ftn14\" id=\"_ftnref14\">[14]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 dif\u00edcil destacar o conte\u00fado \u00e9tico-religioso desse culto de apar\u00eancias t\u00e3o exteriores, muitas vezes t\u00e3o fr\u00edvolas, e muitos tender\u00e3o a neg\u00e1-lo. No entanto, n\u00e3o se promove a mesma quest\u00e3o, depois de um mil\u00eanio e meio, nas celebra\u00e7\u00f5es dos cat\u00f3licos meridionais? Uma m\u00fasica completamente sensual, interrompida pelo disparo de salva de fogos, cerca e acompanha a cust\u00f3dia; um mercado animado, comidas copiosas, algazarra geral e, ao entardecer, os inevit\u00e1veis fogos de artif\u00edcio constituem a segunda parte da festa. N\u00e3o podemos fazer nada contra quem se enfurece com essas manifesta\u00e7\u00f5es externas, mas n\u00e3o devemos esquecer que elas n\u00e3o constituem toda a religi\u00e3o e que os sentimentos supremos s\u00e3o frequentemente acolhidos de maneira diferente em cada povo. Se retirarmos do mundo antigo o sentimento crist\u00e3o de pecado e humildade, sentimentos dos quais esse mundo n\u00e3o era capaz<a href=\"#_ftn15\" id=\"_ftnref15\">[15]<\/a>, talvez possamos apreciar melhor o culto pag\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O detalhe da mitologia, que nunca foi coisa de f\u00e9, havia sido completamente abandonado antes mesmo de Luciano adotar sua atitude ir\u00f4nica. Os apologistas crist\u00e3os, que v\u00e3o selecionando tudo o que \u00e9 vergonhoso nos mitos mais diversos e, devido \u00e0 sua incompreens\u00e3o e \u00e0 mistura de elementos t\u00e3o d\u00edspares, projetam sobre a velha f\u00e9 a aura do rid\u00edculo, n\u00e3o s\u00e3o, neste ponto, muito honrados; tinham que saber muito bem que as lamenta\u00e7\u00f5es desse tipo, que recolhiam dos antigos poetas e mit\u00f3grafos, s\u00f3 em muito pequena parte convieram ao seu s\u00e9culo; com o mesmo direito, por exemplo, seria poss\u00edvel responsabilizar o protestantismo pelas indec\u00eancias de algumas lendas. A consci\u00eancia religiosa das massas j\u00e1 n\u00e3o tinha muito a ver com o mito e se contentava com a exist\u00eancia das diversas divindades como senhoras e protetoras da natureza e da vida humana. Ainda trataremos do grau em que a filosofia da \u00e9poca dissolveu os mitos. Mas os pag\u00e3os forneciam as melhores armas para a pol\u00eamica crist\u00e3 com sua representa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica de alguns mitos, que frequentemente eram os mais impactantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois havia um dom\u00ednio que pertencia \u00e0 mitologia e onde ela reinou at\u00e9 os \u00faltimos tempos: o da arte e da poesia. Homero, F\u00eddias e os tr\u00e1gicos ajudaram a criar os deuses e os her\u00f3is, e na pedra, nas cores, nas m\u00e1scaras, na letra e na m\u00fasica, perdurava o que j\u00e1 havia desaparecido da f\u00e9. Percebia-se uma vida cada vez mais fantasmal. Ainda nos ocuparemos do destino das artes pl\u00e1sticas e das causas de sua decad\u00eancia; mas j\u00e1 podemos indicar que, longe de refor\u00e7ar a velha mitologia, elas se colocaram a servi\u00e7o da filosofia mitificadora e at\u00e9 dos cultos estrangeiros. O drama, em sua maior parte, se n\u00e3o completamente, havia sido deslocado pelo mimo e pela pantomima, com m\u00fasica e dan\u00e7a<a href=\"#_ftn16\" id=\"_ftnref16\">[16]<\/a>, com o que toda rela\u00e7\u00e3o religiosa, que em outros tempos poderia transformar o antigo drama \u00e1tico em um ato de culto, foi se dissipando. A descri\u00e7\u00e3o do magn\u00edfico bal\u00e9 cor\u00edntio de Paris no monte Ida, no livro d\u00e9cimo de Apuleio, revela como, na \u00e9poca dos Antoninos, o teatro, mesmo na Gr\u00e9cia, n\u00e3o passava de um prazer para os olhos. Neste caso, podemos imaginar que se faz alus\u00e3o a uma obra art\u00edstica belamente estilizada, enquanto nas regi\u00f5es latinas do Imp\u00e9rio e, sobretudo, nas romanizadas parcialmente pelas col\u00f4nias militares, as representa\u00e7\u00f5es provavelmente desembocaram na maior grosseria, se \u00e9 que os teatros se ocuparam, em geral, de alguma representa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica e n\u00e3o se contentaram com lutas de gladiadores, de feras e coisas semelhantes. Apareceu em primeiro plano o aspecto escabroso da mitologia<a href=\"#_ftn17\" id=\"_ftnref17\">[17]<\/a>; foram exibidos, com grande algazarra, todos os adult\u00e9rios de J\u00fapiter, tamb\u00e9m quando, para esses fins, ele se metamorfoseia em animal, e todos os esc\u00e2ndalos de V\u00eanus; at\u00e9 nos mimos correntes se intercalavam figuras divinas, seguramente do mesmo g\u00eanero. Um p\u00fablico aristof\u00e2nico poderia suportar esse espet\u00e1culo sem prejudicar sua cren\u00e7a nos deuses, mas, em uma \u00e9poca doente, isso representava o golpe final para a velha religi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Passando dessa esfera, onde reinam o mestre de m\u00fasica e o cen\u00f3grafo, para a poesia art\u00edstica, na medida em que podemos segui-la no pouco que nos resta dos fins do s\u00e9culo III, veremos que \u00e0s vezes ela mostra grande talento no tratamento de assuntos mitol\u00f3gicos, que encontrar\u00e3o seu representante mais brilhante, cem anos depois, em Claudiano; mas j\u00e1 n\u00e3o encontramos vest\u00edgios de uma convic\u00e7\u00e3o \u00edntima. Assim, por exemplo, o poema de um certo Reposiano<a href=\"#_ftn18\" id=\"_ftnref18\">[18]<\/a>, que parece ter florescido por volta do ano 300, descreve o encontro de Marte e V\u00eanus com a mesma inten\u00e7\u00e3o que devemos supor que imperava nas pantomimas: bonitas imagens sensuais, para as quais n\u00e3o importa uma vulgaridade a mais ou a menos. V\u00eanus, que espera o deus da guerra, se entret\u00e9m dan\u00e7ando, e o poeta descreve suas atitudes com um sentido muito refinado da coqueteria de sua \u00e9poca; quando Marte aparece, invoca para que desnudem Cupido, as Gra\u00e7as e as mo\u00e7as de Biblos. Mas que Marte! T\u00e3o completamente cansado quanto divertida est\u00e1 a deusa. Ele se deixa cair com o peso do chumbo sobre a cama de rosas e, na descri\u00e7\u00e3o do seu sonho, o leitor n\u00e3o pode reprimir a gargalhada. Quando, por exemplo, Rubens se ocupa \u00e0 sua maneira do mito antigo, podemos nos agradar da impress\u00e3o de uma energia poderosa, embora equivocada; mas agora nos encontramos no \u00faltimo degrau da rebaixamento da velha lenda divina, sem outra compensa\u00e7\u00e3o que os bonitos versos. Um sat\u00edrico crist\u00e3o n\u00e3o poderia ter come\u00e7ado de maneira mais apropriada, e estar\u00edamos dispostos a uma explica\u00e7\u00e3o desse tipo se, entretanto, n\u00e3o aparecesse a linda figura de Cupido, que inspeciona com curiosidade as armas de Marte, esfrega-as com flores e se esconde atr\u00e1s do escudo quando entra Vulcano com sua pata manca. Mas tamb\u00e9m havia poetas que j\u00e1 n\u00e3o podiam mais suportar a mitologia como caminho excessivamente batido. \u201cQuem n\u00e3o cantou j\u00e1, exclama Nemesiano, o lamento da desesperada Niobe e de S\u00eamele e&#8230;!\u201d (seguem trinta hex\u00e2metros de t\u00edtulos de mitos). Tudo isso ocupou uma por\u00e7\u00e3o de grandes poetas e toda a lenda do velho mundo j\u00e1 est\u00e1 desgastada<a href=\"#_ftn19\" id=\"_ftnref19\">[19]<\/a>. O poeta se dirige, portanto, para as florestas e os verdes prados, mas n\u00e3o para criar uma poesia buc\u00f3lica, e sim para voltar ao seu pr\u00f3prio tema, a cria\u00e7\u00e3o dos c\u00e3es de ca\u00e7a. Depois, quando termina com isso, pensa tamb\u00e9m nos feitos de seus Mecenas, os C\u00e9sares Carino e Numeriano. Um sentimento semelhante havia buscado h\u00e1 tempo a poesia did\u00e1tica romana aquela sua posi\u00e7\u00e3o vantajosa frente \u00e0 poesia \u00e9pica; mas ainda n\u00e3o havia sido expressa essa prefer\u00eancia com palavras t\u00e3o secas<a href=\"#_ftn20\" id=\"_ftnref20\">[20]<\/a>. Podemos nos referir a um am\u00e1vel poema de conte\u00fado mitol\u00f3gico, o Baco de Calp\u00farnio S\u00edculo (\u00e9gloga III), porque depende, de forma surpreendente, de obras de arte pl\u00e1stica; nos lembra as descri\u00e7\u00f5es de pinturas de Fil\u00f3strato, ao qual supera, com muito, em estilo. N\u00e3o falta o velho Sileno, que embala em seus bra\u00e7os o pequeno Baco, o faz rir, o diverte tocando castanholas e se deixa esticar alegremente pelas orelhas, pelo queixo e segurando os pelos do peito; depois, a crian\u00e7a aprende com o s\u00e1tiro a primeira li\u00e7\u00e3o vin\u00e1cea, at\u00e9 que se embriaga, se empapa de mosto e come\u00e7a a raptar Ninfas. Esta bacanal na qual o deus tamb\u00e9m d\u00e1 de beber de sua ta\u00e7a \u00e0 pantera, \u00e9 uma das \u00faltimas obras antigas de viva beleza<a href=\"#_ftn21\" id=\"_ftnref21\">[21]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de tudo isso, devemos reconhecer que a mitologia representava mais uma carga do que um refor\u00e7o para a religi\u00e3o cl\u00e1ssica em decad\u00eancia. J\u00e1 nos ocuparemos depois da interpreta\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica com a qual se tentava conservar e justificar os mitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas essa religi\u00e3o cl\u00e1ssica estava adulterada e quebrantada de outra maneira, a saber, pela sua mistura com os cultos das prov\u00edncias submetidas e do estrangeiro. Estamos na \u00e9poca da \u201cteocracia\u201d completa (mistura de deuses).<\/p>\n\n\n\n<p>Ela n\u00e3o ocorreu pela mistura de ra\u00e7as no Imp\u00e9rio<a href=\"#_ftn22\" id=\"_ftnref22\">[22]<\/a> ou por pura arbitrariedade e moda, mas em virtude do primitivo af\u00e3 das religi\u00f5es polite\u00edstas em se aproximarem umas das outras, em buscar os parecidos e transform\u00e1-los em identidades. Em todas as \u00e9pocas surgiu, a partir de paralelos desse tipo, a ideia arrebatadora de uma religi\u00e3o primitiva comum, que cada um imagina \u00e0 sua maneira, o polite\u00edsta de forma diferente do monote\u00edsta<a href=\"#_ftn23\" id=\"_ftnref23\">[23]<\/a>. Assim, em parte inconscientemente, em parte com consci\u00eancia filos\u00f3fica, os crentes em divindades semelhantes se buscavam e se encontravam diante dos mesmos altares. Reconhecia-se com prazer a Afrodite grega na Astarte da \u00c1sia Menor, na Athyr dos eg\u00edpcios, na Deusa Celeste de Cartago, e o mesmo ocorreu com toda uma s\u00e9rie de divindades. Isso \u00e9 tamb\u00e9m o que devemos ter mais em conta na \u00faltima \u00e9poca romana; a mistura de deuses \u00e9, ao mesmo tempo, uma fus\u00e3o; as divindades estrangeiras n\u00e3o s\u00f3 se estendem junto \u00e0s ind\u00edgenas, mas as v\u00e3o substituindo conforme sua afinidade interna.<\/p>\n\n\n\n<p>Como uma causa secund\u00e1ria da teocracia, costuma-se admitir o reconhecimento, por assim dizer pol\u00edtico, que os gregos e os romanos, e o polite\u00edsta em geral, prestam aos deuses de outras na\u00e7\u00f5es. Para ele s\u00e3o deuses, embora n\u00e3o sejam os seus. Nenhum sistema dogm\u00e1tico rigoroso protege as fronteiras da f\u00e9 nacional; e, embora as supersti\u00e7\u00f5es p\u00e1trias se mantenham com rigor frente \u00e0s estrangeiras, sente-se mais inclina\u00e7\u00e3o do que \u00f3dio. Algumas transmiss\u00f5es solenes de divindades de pa\u00eds para pa\u00eds at\u00e9 chegam a ser recomendadas pelos or\u00e1culos e outras premoni\u00e7\u00f5es sobrenaturais; assim ocorreu com a Ser\u00e1pis de Sinope, quando foi transferida para Alexandria nos tempos de Ptolomeu I<a href=\"#_ftn24\" id=\"_ftnref24\">[24]<\/a>, e assim tamb\u00e9m com a Grande M\u00e3e Pesin\u00fantica, quando foi transferida para Roma durante a segunda guerra p\u00fanica. Entre os romanos, havia se tornado um princ\u00edpio quase consciente, semipol\u00edtico, semirreligioso, o de n\u00e3o agravar os deuses das diversas na\u00e7\u00f5es submetidas, mas, ao contr\u00e1rio, mostrar-lhes mais venera\u00e7\u00e3o e at\u00e9 acolh\u00ea-los entre os pr\u00f3prios deuses. A conduta das prov\u00edncias, nesse particular, foi muito diversa; as da \u00c1sia Menor, por exemplo, se adaptavam muito bem a essa pr\u00e1tica romana; o eg\u00edpcio, por outro lado, manteve-se reservado e traduziu para seu pr\u00f3prio rito e para suas pr\u00f3prias formas de arte o que acolheu dos Ptolomeus e dos romanos, enquanto, por sua parte, o romano lhe mostrou a defer\u00eancia de adorar os deuses eg\u00edpcios em uma figura tamb\u00e9m eg\u00edpcia, ao menos aproximadamente. Por fim, o judeu n\u00e3o quis ter nada a ver com a religi\u00e3o romana, enquanto os romanos de bom tom observavam seu s\u00e1bado e os imperadores costumavam orar no templo de Moriah. Estabeleceu-se, como veremos em seguida, uma mistura de deuses, algumas vezes mais ativa e outras mais passiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma terceira causa do predom\u00ednio que vai adquirindo o culto estrangeiro reside no medo e na ang\u00fastia que se apoderam dos pag\u00e3os que se tornaram incr\u00e9dulos de seus deuses. J\u00e1 n\u00e3o se diz, com o belo sentido dos s\u00e9culos anteriores, \u201cdeuses por toda parte\u201d, mas o reflexivo busca a cada dia novos s\u00edmbolos, o insensato a cada dia novos fetiches, tanto melhor acolhidos quanto mais seu origem parecia distante e misteriosa. A confus\u00e3o multiplicava-se ainda por uma raz\u00e3o particular. O polite\u00edsmo dos velhos povos civilizados persiste, ao mesmo tempo, com todas as suas etapas de desenvolvimento<a href=\"#_ftn25\" id=\"_ftnref25\">[25]<\/a>: como fetichismo ora diante dos aer\u00f3litos e dos amuletos, como sabe\u00edsmo ora aos astros e aos elementos, como antropomorfismo aos deuses da natureza, em parte, aos protetores da vida, por outra, enquanto a gente culta j\u00e1 se despira h\u00e1 muito dessas envolturas e oscila entre o pante\u00edsmo e o monote\u00edsmo. E todas essas etapas das diversas paganidades se convergem no paganismo greco-romano como este reverte nelas. Temos not\u00edcia de resultados surpreendentes, n\u00e3o raras vezes do g\u00eanero mais triste. Nero havia sido educado na religi\u00e3o romana; logo a desprezou e se apegou \u00e0 deusa s\u00edria; tamb\u00e9m a abandonou e tratou sua imagem com esc\u00e1rnio, e j\u00e1 n\u00e3o acreditava mais do que em um amuleto que lhe foi dado por um homem do povo e ao qual sacrificava tr\u00eas vezes ao dia<a href=\"#_ftn26\" id=\"_ftnref26\">[26]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Este exemplo, que pode representar a muitos, nos abre uma vis\u00e3o do culto dos deuses em geral. N\u00e3o se aproximavam deles como dos velhos deuses ol\u00edmpicos; arrancados de seu contorno nacional, sem conex\u00e3o com a vida romana, com o regime estatal e com o clima, n\u00e3o podiam aparecer aos romanos sen\u00e3o como pot\u00eancias inquietantes, demon\u00edacas, \u00e0s quais n\u00e3o se podia aproximar sen\u00e3o por via de mist\u00e9rio e de pr\u00e1ticas m\u00e1gicas, e talvez tamb\u00e9m com grande disp\u00eandio. N\u00e3o sem raz\u00e3o Luciano, em seu J\u00fapiter como tr\u00e1gico (cap. 8), ao hierarquizar os deuses, concede os primeiros lugares aos estrangeiros, focando-se no material de suas imagens; a supersti\u00e7\u00e3o mais medrosa se apoiava de prefer\u00eancia nos metais mais preciosos. \u201cOs deuses gregos, como v\u00eas, s\u00e3o graciosos, belos de apar\u00eancia e fabricados artisticamente, mas n\u00e3o passam de pedra e, no m\u00e1ximo, de marfim e um pouco dourados; por outro lado, Bendis, An\u00fabis, \u00c1tis, Mitra e Men s\u00e3o de ouro maci\u00e7o, pesados e muito caros.\u201d Mas esse tipo de culto tamb\u00e9m desmoralizava a rela\u00e7\u00e3o com os velhos deuses nacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Examinemos, em primeiro lugar, a mistura ativa de deuses (vista do ponto de vista romano), na qual os romanos mais doavam do que recebiam.<\/p>\n\n\n\n<p>Resulta \u00f3bvio que esta situa\u00e7\u00e3o se deu principalmente entre aqueles povos que Roma havia acolhido em um estado semib\u00e1rbaro e entre os quais, junto \u00e0 sua religi\u00e3o, podia o romano impor sua cultura superior, por exemplo, entre os gauleses, os hisp\u00e2nicos e os brit\u00e2nicos. Infelizmente, s\u00f3 conhecemos relativamente o estado religioso das G\u00e1lias, mas quase nada mais que atrav\u00e9s de inscri\u00e7\u00f5es votivas<a href=\"#_ftn27\" id=\"_ftnref27\">[27]<\/a> e de est\u00e1tuas.<\/p>\n\n\n\n<p>Os romanos \u00faltimos, em sua supersti\u00e7\u00e3o verdadeiramente universal, praticaram nas G\u00e1lias, da mesma forma que em outros lugares, o culto local enquanto este se mantivesse vivo; n\u00e3o s\u00f3 interrogavam os druidas sobre o futuro, como indicamos antes, mas tamb\u00e9m participaram nas consagra\u00e7\u00f5es. Assim, o imperador Pesc\u00eanio N\u00edger celebrou nas G\u00e1lias um mist\u00e9rio ao qual somente podiam ser convidados os castos<a href=\"#_ftn28\" id=\"_ftnref28\">[28]<\/a>. Mas nenhum deus gaul\u00eas foi levado \u00e0 It\u00e1lia<a href=\"#_ftn29\" id=\"_ftnref29\">[29]<\/a>, \u00e0 \u00c1frica ou \u00e0 Gr\u00e9cia. (Pois se, por exemplo, encontramos o deus solar celta, Beleno, em Aquileia, outras divindades celtas em Salzburgo e Est\u00edria, a Apolo Grano em Lauingen de Su\u00e1bia, etc., n\u00e3o se trata de transmiss\u00f5es da \u00e9poca da teocracia, mas sim de que a primitiva popula\u00e7\u00e3o celta dessas comarcas presta um \u00faltimo testemunho de sua exist\u00eancia antes que os germ\u00e2nicos, eslavos e \u00e1varos ultrapassassem os Alpes.) Nas mesmas G\u00e1lias, esfor\u00e7aram-se para cobrir a religi\u00e3o popular com uma vestimenta romana. N\u00e3o s\u00f3 os deuses adotam nomes romanos, mas tamb\u00e9m a forma art\u00edstica do antropomorfismo cl\u00e1ssico. Taran deve ser chamado J\u00fapiter e ser modelado como tal, Teutates como Merc\u00fario, Heso ou Camulo como Marte. Outras divindades conservam, ao menos, seus velhos nomes, exclusivamente ou junto com os romanos: Beleno ou Apolo Beleno; com frequ\u00eancia tamb\u00e9m Apolo Grano, Marte Camulo, Minerva Belisana, etc. Al\u00e9m disso, aos deuses romanizados juntam-se apelativos especiais, \u00e0s vezes de origem local, outras vezes explic\u00e1veis somente por presun\u00e7\u00e3o ou de nenhuma maneira: Diana Abnoba (designa\u00e7\u00e3o da Floresta Negra); Diana Ardorinna (talvez as Ardenas); Marte Vincio (Vence, no sul da Fran\u00e7a); H\u00e9racles Magusano e Saxano (especialmente nos Pa\u00edses Baixos); Marte Lacabo (em N\u00eemes); Apolo Toutiorix (de Wiesbaden); ou emparelha-se ao deus romanizado uma divindade n\u00e3o romanizada, talvez afim, assim, a Apolo o Veringodumno (em Amiens), a Sirona (em Bord\u00e9us e no sul da Alemanha), que deve ser considerada como uma Diana ou Minerva (como ocorre com Belisana).<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a romaniza\u00e7\u00e3o vai mais longe; toda uma s\u00e9rie de divindades conserva seus nomes celtas, mas precedidos de Deus, Sanctus e at\u00e9 de Augustus, que neste caso n\u00e3o guarda nenhuma rela\u00e7\u00e3o com o t\u00edtulo imperial. De repente, inclina-se a considerar todos esses deuses como deuses locais, e muitos o s\u00e3o, sem d\u00favida, como o Vosego de Bergzabern, o Nemauso de Nimes, a Aventia de Aventicum, o Vesoncio de Besan\u00e7on, o Luxovio de Luxeuil, a Celeia de Cilly; mas outros n\u00e3o levam nenhuma indica\u00e7\u00e3o semelhante, por exemplo, o Abellio de Convennes, a Acionna de Orleans, o Agho de Bagneres, o Bemilucio de Paris, a Hariasa de Col\u00f4nia, o Intarabo de Tr\u00e9veris; e alguns nos s\u00e3o apresentados em localidades muito distantes, como Taranuco em Heilbronn e na Dalm\u00e1cia, a deusa marinha Nehalennia na Fran\u00e7a e nos Pa\u00edses Baixos. Com que gosto se romanizam as divindades quando isso \u00e9 poss\u00edvel, nos mostram essas designa\u00e7\u00f5es latino-gen\u00e9ricas das numerosas divindades coletivas: Madres, Matronas, Campestres (esp\u00edritos do campo), Silvanos (esp\u00edritos da floresta), Bivias, Trivias, Cuadrivias (deuses dos cruzamentos), Proxumes e Vicanes (g\u00eanios da vizinhan\u00e7a), etc. As Sulevias e Comedovas, que pertencem ao mesmo g\u00eanero, devem ter resistido \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o. O g\u00eanio da localidade, o g\u00eanio da comarca, n\u00e3o representam, rigorosamente, mais que modos romanos de adora\u00e7\u00e3o e s\u00f3 presumivelmente c\u00e9lticos. Mas o deus mais poderoso, at\u00e9 muito adentrado o s\u00e9culo IV, segue sendo Teutates-Merc\u00fario, que ainda prestou a maior resist\u00eancia a S\u00e3o Martinho de Tours, enquanto J\u00fapiter se apresenta ao santo como <em>brutus atque heves<\/em>, como tonto e est\u00fapido<a href=\"#_ftn30\" id=\"_ftnref30\">[30]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>A repercuss\u00e3o dessas religi\u00f5es ocidentais sobre Roma foi, como dissemos, muito escassa ou talvez nula.<\/p>\n\n\n\n<p>Algo muito diferente ocorreu com os antigos povos civilizados do Oriente, persas, eg\u00edpcios, \u00c1sia Menor e semitas. Aos \u00faltimos, serviu muito a expans\u00e3o geogr\u00e1fica de seus estabelecimentos; porque o romano come\u00e7ou a conhecer seus cultos na S\u00edria; h\u00e1 muitos s\u00e9culos, os fen\u00edcios e os cartagineses haviam estendido por todo o Mediterr\u00e2neo e at\u00e9 al\u00e9m das colunas de H\u00e9racles a religi\u00e3o semita; com a incorpora\u00e7\u00e3o gradual da Espanha, \u00c1frica e as Ilhas, Roma acolheu toda uma massa de dom\u00ednios p\u00fanicos e de culto p\u00fanico. Tinha-se odiado Cartago, mas n\u00e3o seus deuses. Pelo contr\u00e1rio, o dualismo persa, precisamente em sua ulterior restaura\u00e7\u00e3o ortodoxa devida aos Sass\u00e2nidas, resistiu a toda mistura e composi\u00e7\u00e3o com o c\u00edrculo de divindades greco-romanas, assim como o monote\u00edsmo judeu; mas contou com uma metamorfose do parsismo mais antigo, degenerado, e desta Roma tomou o culto de Mitra.<\/p>\n\n\n\n<p>O Oriente pr\u00f3ximo, desde o Eufrates at\u00e9 o Mediterr\u00e2neo, o arquip\u00e9lago e o Ponto, com os quais se costuma come\u00e7ar, n\u00e3o s\u00e3o de modo algum da mesma estirpe, mas suas religi\u00f5es est\u00e3o desde os tempos mais primitivos t\u00e3o entrela\u00e7adas que devemos consider\u00e1-las nesta \u00e9poca tardia como uma s\u00f3; a averigua\u00e7\u00e3o das origens n\u00e3o corresponde a este lugar e, al\u00e9m disso, nos levaria demasiado longe. J\u00e1 muito antes das vit\u00f3rias romanas sobre Ant\u00edoco o Grande, havia ocorrido outra mistura de deuses, a do culto da \u00c1sia Menor com o culto hel\u00eanico, que ocorre depois que a \u00c1sia Menor se heleniza e se incrementa na \u00e9poca dos sucessores de Alexandre; a essa mistura acompanhou-se a da educa\u00e7\u00e3o e da l\u00edngua de gregos e orientais. As magn\u00edficas cidades gregas, que brotam em quantidade incr\u00edvel nas terras dos Di\u00e1docos, conservam, com sua l\u00edngua, seu regime pol\u00edtico e seus costumes hel\u00eanicos, as divindades gregas; mas no campo, a certa dist\u00e2ncia do mar, conserva-se com maior ou menor tenacidade a l\u00edngua vern\u00e1cula, e quando ocorre o cansa\u00e7o interno dos elementos civilizadores gregos, ela ganha novas for\u00e7as. Na Palestina, claro que sob a prote\u00e7\u00e3o de uma religi\u00e3o e um estilo de vida altamente exclusivistas, mant\u00e9m-se o aramaico apesar dos mais terr\u00edveis avatares hist\u00f3ricos; na S\u00edria, no que tange \u00e0 efetividade popular e n\u00e3o mais \u00e0 eleg\u00e2ncia cl\u00e1ssica, recorre-se \u00e0 l\u00edngua do pa\u00eds, como acontece no s\u00e9culo I com o gn\u00f3stico Bardesane, no IV com S\u00e3o Efr\u00e9m e como mostra suficientemente a tradu\u00e7\u00e3o da B\u00edblia para o sir\u00edaco. N\u00e3o conhecemos muitos detalhes de como as coisas ocorreram na \u00c1sia Menor no que diz respeito \u00e0 linguagem<a href=\"#_ftn31\" id=\"_ftnref31\">[31]<\/a>. Mas com a l\u00edngua popular conservaram-se tamb\u00e9m os deuses populares.<\/p>\n\n\n\n<p>A base dessas religi\u00f5es<a href=\"#_ftn32\" id=\"_ftnref32\">[32]<\/a> \u00e9, em conjunto, o culto dos astros, mas adulterado at\u00e9 o incompreens\u00edvel por uma idolatria que se deve em parte a ingredientes estranhos e, em parte, corresponde a um necess\u00e1rio desenvolvimento interior. Sacrif\u00edcios muito circunstanciados procuravam aplacar os deuses imolando-lhes principalmente vidas animais, compreendendo tamb\u00e9m, de forma regular ou extraordin\u00e1ria, sacrif\u00edcios humanos. Estes \u00faltimos se mantiveram com extraordin\u00e1ria tenacidade nas regi\u00f5es de cultura fen\u00edcia e sobreviveram muito tempo \u00e0 queda e \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o de Cartago, de tal modo que o pr\u00f3prio Tib\u00e9rio teve que intervir apelando aos castigos mais severos<a href=\"#_ftn33\" id=\"_ftnref33\">[33]<\/a>. A suprema dupla divina, Baal e Astarte (o sol e a lua, a estrela matutina e a vespertina), persistia na \u00e9poca romana em numerosos templos sob os nomes e personifica\u00e7\u00f5es mais diversos, como Senhor e Senhora de toda a vida. Conhecemos, pelo Antigo Testamento, Baal-Sebub, Baal-Peor, Baal-Berith, etc., cujos nomes j\u00e1 teriam sido esquecidos h\u00e1 muito. Parece que em Palmira Baal se desdobrou em duas divindades, para o sol e para a lua, como Aglibo e Malachbel, que aparecem representados<a href=\"#_ftn34\" id=\"_ftnref34\">[34]<\/a> em um relevo muito posterior no museu capitolino com o nome greco-romano do doador: Lucio Aur\u00e9lio Heliodoro, filho de Ant\u00edoco Adriano. No grandioso templo de Emesa guardava-se a \u201cpedra negra\u201d, um aer\u00f3lito que passava por imagem do deus solar Heliog\u00e1balo<a href=\"#_ftn35\" id=\"_ftnref35\">[35]<\/a> e que foi venerado como tal em grande extens\u00e3o. Seu sacerdote passeava com uma longa t\u00fanica de p\u00farpura bordada de ouro e uma diadema de pedras preciosas. No templo de Hier\u00e1polis temos, junto \u00e0 famosa deusa s\u00edria (da qual se falar\u00e1 mais tarde), a est\u00e1tua de ouro de Baal, representado, como Zeus, sobre um carro puxado por bois. Em Heli\u00f3polis (Baalbek) venerava-se Baal em uma personifica\u00e7\u00e3o semirromana muito tardia. Sua est\u00e1tua de ouro n\u00e3o s\u00f3 carregava o chicote do deus solar romano, mas tamb\u00e9m o raio de J\u00fapiter. Antonino Pio havia edificado o novo templo sobre os alicerces colossais de um templo antigo, e esse novo templo ainda justifica com suas ru\u00ednas o t\u00edtulo que ent\u00e3o lhe foi atribu\u00eddo de \u201cmaravilha do mundo\u201d <a href=\"#_ftn36\" id=\"_ftnref36\">[36]<\/a>. O nome de Zeus, ao qual Antonino dedicou o santu\u00e1rio, n\u00e3o deve nos enganar, segundo o que j\u00e1 dissemos, pois o antigo nome local remete a Baal e o grego a H\u00e9lio. Este templo, assim como o de Emesa, era muito famoso pelo seu or\u00e1culo, que podia ser consultado tamb\u00e9m por carta, circunst\u00e2ncia que n\u00e3o \u00e9 rara nos or\u00e1culos asi\u00e1ticos. Podemos passar por alto alguns vest\u00edgios mais duvidosos e menos importantes do culto de Baal no tempo dos imperadores; basta-nos saber que esse culto, mais ou menos transformado, ainda representava uma das devo\u00e7\u00f5es principais do Oriente pr\u00f3ximo, que a ele estavam dedicados alguns dos templos mais importantes e, provavelmente, muitos outros dos quais n\u00e3o temos not\u00edcia. Talvez o deus Carmelo, que possu\u00eda altar sobre a montanha de mesmo nome e pronunciava or\u00e1culos, fosse tamb\u00e9m uma transforma\u00e7\u00e3o de Baal<a href=\"#_ftn37\" id=\"_ftnref37\">[37]<\/a>. Nas investidas desse culto para o sul, temos Marnas, o deus de Gaza, se realmente se tratar de uma forma do grande deus. Foi ele quem chegou a desesperar<a href=\"#_ftn38\" id=\"_ftnref38\">[38]<\/a> os mission\u00e1rios e eremitas crist\u00e3os daquela regi\u00e3o durante todo o s\u00e9culo IV e quem transformou a regi\u00e3o de Gaza em um reduto quase indestrut\u00edvel do paganismo. Encontraremos com ele como inimigo pessoal de S\u00e3o Hil\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse velho deus semita penetrou certamente de mais de uma forma na religi\u00e3o romana. Romanos que viviam ou haviam vivido no Oriente o venerariam como Zeus, como J\u00fapiter, mas a adora\u00e7\u00e3o do deus solar, que tanto prevalecer\u00e1 posteriormente, teve que se repartir essencialmente entre Baal e Mitra, enquanto pouco se pensava no velho Sol-H\u00e9lio. Heliog\u00e1balo conheceu, por alguns anos, um lugar solene no pante\u00e3o dos deuses romanos, gra\u00e7as ao insensato adolescente que tomou o nome do deus ao subir ao trono do mundo, e cujo sacerdote havia sido e continuava sendo. Quando esse Antonino Basiano levou a Roma (entre 218 e 222) a \u201cpedra negra\u201d de Emesa, pode-se dizer que a teocracia estava se aproximando de seu auge. O novo deus recebeu um grande templo e sacrif\u00edcios colossais e logo at\u00e9 uma esposa. O imperador fez trazer a imagem e os tesouros da Deusa Celeste do templo de Cartago e a casou com Heliog\u00e1balo, o que nada lhe autorizava mitologicamente. Roma e a It\u00e1lia tiveram que celebrar esses casamentos com grande j\u00fabilo. Tamb\u00e9m levou ao templo do novo deus, o Pal\u00e1dio, o fogo de Vesta e outros sacra romanos. Ap\u00f3s o assassinato do sacerdote imperial, a pedra deveria ser devolvida \u00e0 S\u00edria, provavelmente devido aos terr\u00edveis recorda\u00e7\u00f5es vinculadas a ela<a href=\"#_ftn39\" id=\"_ftnref39\">[39]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas de forma muito mais poderosa do que o culto a Baal, est\u00e1 representado no Imp\u00e9rio romano o culto da grande deusa dos muitos nomes. Em rela\u00e7\u00e3o ao deus solar, ela \u00e9 a Lua, mas em um sentido mais amplo, \u00e9 a M\u00e3e de toda a vida, a Natureza; desde tempos remotos, o Oriente pr\u00f3ximo a celebrou com orgias selvagens, como correspondia a uma divindade desprovida de todos os atributos morais; gritos de j\u00fabilo e lamenta\u00e7\u00f5es, dan\u00e7as fren\u00e9ticas e f\u00fanebres sons de flauta, prostitui\u00e7\u00e3o das mulheres e mutila\u00e7\u00e3o dos homens sempre acompanharam esse culto da vida natural sensual; um mito n\u00e3o muito amplo, mas muito diversificado conforme os pa\u00edses e os tempos, se entrela\u00e7ou a essas festas e, ainda muito tarde, deu motivo para que os romanos realizassem mist\u00e9rios surpreendentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Deixamos de lado, por ora, a \u00cdsis eg\u00edpcia, que n\u00e3o \u00e9 mais do que uma forma secund\u00e1ria dessa Grande Deusa, e seguimos os vest\u00edgios dela em figuras que ainda podem ser identificadas no s\u00e9culo III.<\/p>\n\n\n\n<p>O Antigo Testamento a conhecia e a condenava como Astharote, e ainda havia em Fen\u00edcia templos dedicados a Astarte. Luciano conhecia um em Sidon. Fala sobre ele, de passagem, em seu famoso livro sobre a deusa s\u00edria, que nos interessa primordialmente como fonte de fatos, mas n\u00e3o menos porque revela claramente a atitude de um s\u00edrio fr\u00edvolo, helenizado, em rela\u00e7\u00e3o ao culto de sua p\u00e1tria. Nunca se levou a zombaria a tais extremos como neste caso, em que nos apresenta e imita ingenuamente o estilo e o dialeto j\u00f4nico do vener\u00e1vel Her\u00f3doto para nos impressionar com toda a gloriosa apar\u00eancia rid\u00edcula daquela idolatria. E tamb\u00e9m nos informa sobre as imagens que cercavam e dominavam a juventude do sat\u00edrico, at\u00e9 que ele rompesse com todos os cultos e religi\u00f5es. Um ateniense n\u00e3o teria sido capaz de escrever esse livro.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde a Fen\u00edcia, esse mesmo culto se espalhou, sob o nome de Deusa Celeste, al\u00e9m do mar Mediterr\u00e2neo, e se misturou com o culto cl\u00e1ssico; os gregos a reconheciam como Afrodite Urania, os romanos como V\u00eanus Celeste, e esses nomes tamb\u00e9m prosperaram mais tarde nos pr\u00f3prios pa\u00edses semitas. N\u00e3o se pensava em Afrodite como deusa do amor e da sensualidade, mas como Genitora<a href=\"#_ftn40\" id=\"_ftnref40\">[40]<\/a>. A ilha de Chipre, onde conflu\u00edam a cultura grega e a sem\u00edtica, estava dedicada preferencialmente a essa deusa, e Pafos e Amatunte, literalmente a seu culto. Tamb\u00e9m a ilha de Citerea e o santu\u00e1rio da montanha \u00c9rix, em Sic\u00edlia, estavam dedicados a Urania; em Cartago foi a divindade principal em sua transforma\u00e7\u00e3o posterior, e talvez no mesmo nome da cidade de Gades, Gadeira (C\u00e1diz), se aponte a localidade de um antigo templo de Urania. Esses templos estavam instalados de forma muito diferente dos templos gregos; em um alto nicho<a href=\"#_ftn41\" id=\"_ftnref41\">[41]<\/a> descoberto e a c\u00e9u aberto, estava colocado o \u00eddolo, muitas vezes n\u00e3o era outra coisa sen\u00e3o uma pedra de forma c\u00f4nica; celas, armaz\u00e9ns e p\u00e1tios, onde bandos de pombas voavam, cercavam o santu\u00e1rio; tamb\u00e9m encontramos colunas solit\u00e1rias que nos fazem lembrar os pilares de Jachin e Boaz diante do templo de Jerusal\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma transforma\u00e7\u00e3o do nome Astarte \u00e9 a de Atargatis, a deusa com figura humana da metade superior do corpo e figura de peixe na metade inferior. Ela tamb\u00e9m tinha, sem d\u00favida, um templo que foi famoso, em Ascalom, nas proximidades do antigo deus pisciforme filisteu Dagom e em algum outro lugar. Com uma forma posterior, helenizada, reinava no famoso templo de Hier\u00e1polis, no norte da S\u00edria, templo que Luciano descreve e parece ter se mantido intacto at\u00e9 o s\u00e9culo IV. Atr\u00e1s, em um espa\u00e7o elevado<a href=\"#_ftn42\" id=\"_ftnref42\">[42]<\/a>, que s\u00f3 os sacerdotes podiam pisar, via-se, junto ao Baal-Zeus j\u00e1 citado, a est\u00e1tua de ouro da deusa sobre um carro puxado por le\u00f5es<a href=\"#_ftn43\" id=\"_ftnref43\">[43]<\/a>. Seus atributos haviam sido recolhidos das deusas gregas mais diversas; nas m\u00e3os, o cetro e o uso, na cintura, o cintur\u00e3o de Urania, na cabe\u00e7a raios e uma coroa mural; junto a uma pedra que, durante a noite, iluminava todo o espa\u00e7o do templo<a href=\"#_ftn44\" id=\"_ftnref44\">[44]<\/a>. Al\u00e9m disso, estavam alojadas no templo outras divindades gregas ou helenizadas; assim, um Apolo barbudo e vestido, que se movia quando se solicitava dele um or\u00e1culo; os sacerdotes, nesse caso, o carregavam em andas pelo caminho que ele lhes guiava; para frente significava \u201csim\u201d, para tr\u00e1s significava \u201cn\u00e3o\u201d \u00e0s perguntas feitas; parece que suavam copiosamente nessa tarefa. Tamb\u00e9m havia dentro um Atlas, um Hermes, uma Il\u00edtia e, fora, junto ao grande altar que costumava estar diante do p\u00f3rtico, costumava-se ver toda uma s\u00e9rie de est\u00e1tuas de bronze, reis e sacerdotes desde os tempos mais antigos at\u00e9 a \u00e9poca dos Sel\u00eaucidas, e tamb\u00e9m nas proximidades toda uma s\u00e9rie de figuras da lenda hom\u00e9rica. Mas o mais admir\u00e1vel n\u00e3o eram as est\u00e1tuas, mas o culto em si, do qual podemos ter uma ideia completa de seu car\u00e1ter b\u00e1rbaro e multitudin\u00e1rio nesta ocasi\u00e3o. No grande p\u00e1tio do templo passeavam livremente touros e cavalos sagrados, le\u00f5es e ursos domesticados; havia um estanque cheio de peixes sagrados e, em seu centro, um altar, para o qual se dirigiam diariamente os devotos em cumprimento de suas promessas, nadando at\u00e9 coro\u00e1-lo. Ao redor do templo vivia toda uma multid\u00e3o de flautistas, sacerdotes eunucos (<em>galli<\/em>) e mulheres em frenesi que passavam o tempo com pomposas e alvoro\u00e7adas prociss\u00f5es, com sacrif\u00edcios e com todo tipo de excessos. As festas da primavera, \u00e0s quais concorria uma enorme peregrina\u00e7\u00e3o de toda a S\u00edria, pareciam estar consagradas completamente \u00e0 loucura. Nessa ocasi\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 se incendiava meio bosque com ofertas de toda classe (animais, vestu\u00e1rios, objetos de valor), como tamb\u00e9m parece que se recrutavam os <em>galli<\/em><a href=\"#_ftn45\" id=\"_ftnref45\">[45]<\/a>, enquanto o tumulto fren\u00e9tico fazia presa em muitos desgra\u00e7ados que se consagravam \u00e0 deusa emasculando-se. Esse templo era um dos mais venerados do Oriente Pr\u00f3ximo e seu tesouro havia sido contribu\u00eddo por Capad\u00f3cia, Ass\u00edria, Cil\u00edcia e Fen\u00edcia. Situado em um planalto e assentado sobre terra\u00e7os murados com poderosos propileus, dominava toda a cidade com suas vistosas colunas j\u00f4nicas. E, coisa surpreendente, no \u00e2mbito deste templo, onde ocorriam coisas t\u00e3o extravagantes, encontramos tamb\u00e9m o modelo dos futuros santos estilitas; dos propileus emergiam dois enormes s\u00edmbolos de pedra<a href=\"#_ftn46\" id=\"_ftnref46\">[46]<\/a> (representa\u00e7\u00f5es pl\u00e1sticas da for\u00e7a gen\u00e9sica) parecidos com os que se viam nas regi\u00f5es da \u00c1sia Menor, onde se praticava um culto semelhante, e sobre eles subia todos os anos um homem para orar durante sete dias seguidos, com suas noites; quem desejasse seu patroc\u00ednio, depositava uma d\u00e1diva adequada ao p\u00e9 da coluna. Poderia haver um procedimento melhor de purifica\u00e7\u00e3o desses monumentos de um culto abomin\u00e1vel do que aquele que ocorreu nos dias crist\u00e3os, quando um santo penitente se empoleirava neles para servir a Deus, \u00e0 sua maneira, n\u00e3o durante semanas, mas durante anos? <a href=\"#_ftn47\" id=\"_ftnref47\">[47]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Um culto especialmente abomin\u00e1vel dessa deusa, que voltava a ser designada como Afrodite, encontramos no solit\u00e1rio templo de Afaca no L\u00edbano. A prostitui\u00e7\u00e3o e a obscenidade dos mutilados abandonavam todo e qualquer freio; no entanto, ano ap\u00f3s ano, chegavam os devotos e lan\u00e7avam os objetos mais valiosos \u00e0 lagoa das proximidades e se sentavam a esperar o milagre, isto \u00e9, a bola de fogo que aparecia no cume da montanha e descia at\u00e9 a \u00e1gua. Acreditava-se que era a mesma Urania<a href=\"#_ftn48\" id=\"_ftnref48\">[48]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Junto a esta M\u00e3e da vida, t\u00e3o multiforme, se apresenta, tamb\u00e9m nas formas mais diferentes, uma personifica\u00e7\u00e3o do que \u00e9 produzido por ela, do que floresce na primavera e morre no inverno. Ora se trata de seu filho, de sua filha, ora de seu esposo e, mais do que tudo, de seu amante. Ao j\u00fabilo selvagem da festa primaveril segue mais tarde o luto e o lamento pelo perdido, e ao mesmo tempo se celebra a dor da Grande Deusa. Assim como no Egito se faz luto por \u00cdsis e pelo assassinado Os\u00edris, em Fen\u00edcia o luto \u00e9 pela Afrodite Celeste devido a Ad\u00f4nis, o Senhor, que na ilha de Chipre ser\u00e1 completamente popular e tamb\u00e9m penetrar\u00e1 muito no culto grego, a tal ponto que em Roma ser\u00e1 recebido como um deus grego. Mas foi em Alexandria onde esse culto foi celebrado com maior pompa e onde sobreviveu por um s\u00e9culo ap\u00f3s a introdu\u00e7\u00e3o do cristianismo, embora dificilmente na forma espl\u00eandida que nos descreve Te\u00f3crito, sob os primeiros Ptolomeus, em suas Adoniadas (\u00eddilio xv). A festa terminava com uma prociss\u00e3o de mulheres que bordeava a costa e imergia no mar a imagem de Ad\u00f4nis. Tamb\u00e9m em Antioquia, as celebra\u00e7\u00f5es de Ad\u00f4nis foram uma das festas pag\u00e3s mais persistentes<a href=\"#_ftn49\" id=\"_ftnref49\">[49]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Se esse deus podia passar por um greco-romano gra\u00e7as \u00e0 sua posi\u00e7\u00e3o excepcional no c\u00edrculo cl\u00e1ssico dos deuses, n\u00e3o ocorria o mesmo com outra figura sua, pr\u00f3pria especialmente da \u00c1sia Menor. Em Fr\u00edgia e pa\u00edses vizinhos, conhecemos a Grande Deusa como Cibele, como Magna Mater, como Acd\u00e9stis, como Dindimene, como Berecintia, como Pesinuntis, etc., e, junto a ela, seu amante \u00c1tis ou Attis<a href=\"#_ftn50\" id=\"_ftnref50\">[50]<\/a>, e lamenta-se sua mutila\u00e7\u00e3o e sua morte. O velho templo de Pesinunte, com seus sacerdotes pr\u00edncipes e seus grandes rendimentos, havia enviado h\u00e1 muito tempo seu \u00eddolo e seu culto para Roma e, ainda antes<a href=\"#_ftn51\" id=\"_ftnref51\">[51]<\/a>, tamb\u00e9m os gregos haviam adotado a deusa sob diferentes nomes, de tal forma que j\u00e1 se estava acostumado \u00e0 sua imagem com a coroa mural e o carro puxado por le\u00f5es, e em Roma acolheu-se os sacerdotes emasculados fr\u00edgios. Mas, num princ\u00edpio, teve-se cuidado para que esse enxame de eunucos, flautistas, trompetistas, cimbalistas, etc., n\u00e3o se aumentasse com a popula\u00e7\u00e3o de Roma; e se no futuro n\u00e3o lhes foi permitido, como antes, a mendic\u00e2ncia, isso tamb\u00e9m pode ter servido para manter esse culto afastado da aut\u00eantica vida romana. Havia sido acolhido por recomenda\u00e7\u00e3o dos livros sibilinos e do or\u00e1culo de Delfos; nem a Roma republicana nem, por muito tempo, a imperial estiveram dispostas a espalh\u00e1-lo livremente pelas prov\u00edncias. Juvenal encontra em uma estalagem de m\u00e1 fama esses eunucos, bem b\u00eabados e confundidos com marinheiros, ladr\u00f5es, escravos fugitivos e assassinos; junto a eles est\u00e1 o tamboril. Mas \u00e0 sombra da mendic\u00e2ncia, os sacerdotes da Grande M\u00e3e, da M\u00e3e dos deuses, se infiltram com seus chap\u00e9us fr\u00edgios nas casas dos ricos e exploram a supersti\u00e7\u00e3o das mulheres que, em troca de presentes de ovos e roupas usadas, recebem conselhos contra a febre outonal<a href=\"#_ftn52\" id=\"_ftnref52\">[52]<\/a>. N\u00e3o havia mais que um passo desde essa presen\u00e7a dos <em>galli<\/em> no <em>boudoir<\/em> das damas distintas at\u00e9 sua acolhida na vida familiar e no trato pessoal. As supersti\u00e7\u00f5es se espalhavam com tanta maior rapidez quanto mais extravagantes eram. Logo encontramos inscri\u00e7\u00f5es de sacerdotes da Grande M\u00e3e, arquigalli e arquisacerdotisas de nome romano; os santu\u00e1rios de seu culto come\u00e7aram a se espalhar por toda a It\u00e1lia e pelas G\u00e1lias. Formam-se sacerd\u00f3cios ambulantes que, como um res\u00edduo da sociedade, viajam em enxames de lugar em lugar e, em nome da pequena imagem que carregam sobre um burro, praticam a mendic\u00e2ncia mais desavergonhada. Vestidos de forma feminina e empoados, cantam e dan\u00e7am acompanhados do tamboril e da flauta, se disciplinam e se ferem<a href=\"#_ftn53\" id=\"_ftnref53\">[53]<\/a> para assegurar a impunidade de seus roubos e excessos sem nome. Assim s\u00e3o descritos esses sacerdotes mendicantes nos tempos dos Antoninos por Luciano e Apuleio. Pelo menos em Roma, esse culto da Grande Deusa deve ter oferecido mais tarde um aspecto mais honor\u00e1vel, com a castra\u00e7\u00e3o interrompida, j\u00e1 que n\u00e3o poder\u00edamos explicar de outra maneira a participa\u00e7\u00e3o de muitas pessoas distinguidas que se confessa publicamente nos monumentos. Mais tarde, falaremos sobre os mist\u00e9rios propriamente ditos que, pelo menos a partir do s\u00e9culo III, se uniram a essa deusa.<\/p>\n\n\n\n<p>A grande festa do m\u00eas de abril costumava escandalizar especialmente os escritores crist\u00e3os<a href=\"#_ftn54\" id=\"_ftnref54\">[54]<\/a>, devido \u00e0s suas pr\u00e1ticas simb\u00f3licas, que j\u00e1 n\u00e3o eram compreendidas. Come\u00e7ava com uma vig\u00edlia noturna; derrubava-se um pinheiro na floresta \u2013 a \u00e1rvore sob cuja sombra Atys havia sido mutilado \u2013 e era levado em prociss\u00e3o ao templo da deusa que, em Roma, se encontrava no monte Palatino. Mais tarde, menciona-se com frequ\u00eancia nas inscri\u00e7\u00f5es uma dignidade especial, a dos portadores da \u00e1rvore (<em>dendroforos<\/em>); os <em>galli<\/em> apareciam nessa ocasi\u00e3o com seus cabelos soltos e se golpeavam o peito como presas de uma dor fren\u00e9tica. No segundo dia, procurava-se o perdido Atys com som de trombetas; o terceiro dia \u00e9 chamado de \u201cdia de sangue\u201d porque os <em>galli<\/em>, em honra da mem\u00f3ria de Atys, se feriam \u00e0 sombra do pinheiro adornado com coroas de violetas e uma imagem do infeliz adolescente. Esses tr\u00eas dias s\u00e3o de luto t\u00e9trico e selvagem, como uma esp\u00e9cie de quaresma. No quarto dia, nas chamadas hil\u00e1rias, a alegria se desata e nela participa toda Roma, provavelmente porque se fundiu com essas celebra\u00e7\u00f5es alguma velha festa primaveril; a festa de agora simbolizava a acolhida de Atys entre os imortais. No quinto dia havia uma pausa; no sexto, a imagem da deusa \u2013 uma cabe\u00e7a de pedra negra incrustada em uma figura de prata \u2013 era imersa, junto com os utens\u00edlios sagrados, na \u00e1gua (em Roma, no riacho Almo), lavada ali e retornada ao templo em uma prociss\u00e3o desenfreada de descal\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o Ocidente n\u00e3o podia penetrar muito no sentido mitol\u00f3gico primitivo dessa celebra\u00e7\u00e3o, isso mesmo favorecia a a\u00e7\u00e3o conjunta do h\u00e1bito e da ocasi\u00e3o de relaxamento. A partir da\u00ed, a cerim\u00f4nia foi uma daquelas das quais os pag\u00e3os n\u00e3o queriam abrir m\u00e3o facilmente e, apesar de ser um m\u00eas diferente, a \u00e1rvore colocada diante das igrejas, que na It\u00e1lia \u00e9 conhecida com o nome de <em>Piantar il Maggio<\/em>, pode ser um \u00faltimo eco da festa da Grande M\u00e3e. Outra consequ\u00eancia desse culto podemos presumir em parte na ado\u00e7\u00e3o do s\u00e9quito de eunucos pelos romanos e romanas elegantes. No s\u00e9culo IV, essa servid\u00e3o de eunucos era algo \u00f3bvio at\u00e9 em fam\u00edlias crist\u00e3s piedosas<a href=\"#_ftn55\" id=\"_ftnref55\">[55]<\/a>, mas sem d\u00favida essa moda oriental n\u00e3o teria se imposto se j\u00e1 n\u00e3o estivesse acostumado com o s\u00e9quito da deusa pesin\u00fantica e o aspecto nada agrad\u00e1vel daqueles homens mutilados.<\/p>\n\n\n\n<p>Aludimos brevemente a outra forma da Grande Deusa: a Anaitis (Enyo) do leste da \u00c1sia Menor, com um culto n\u00e3o menos relaxado. A ela pertenciam o poderoso dom\u00ednio sacerdotal de Comana na Capad\u00f3cia, com seus numerosos hier\u00f3dulos de ambos os sexos. Acreditava-se reconhec\u00ea-la<a href=\"#_ftn56\" id=\"_ftnref56\">[56]<\/a> na velha deusa romana da guerra, Bellona, cujos sacerdotes se feriam nos bra\u00e7os com f\u00faria selvagem todos os anos. Mais tarde, no s\u00e9culo III, houve sob esse nome mist\u00e9rios nos quais o sangue dos sacerdotes de Bellona era recolhido em um escudo e distribu\u00eddo entre os iniciados<a href=\"#_ftn57\" id=\"_ftnref57\">[57]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o devemos ignorar, ao lado dessas duas grandes, uma terceira divindade sem\u00edtica, embora sua inclus\u00e3o na religi\u00e3o greco-romana n\u00e3o perten\u00e7a \u00e0 \u00e9poca imperial, mas seja antiqu\u00edssima: trata-se do Melkarte dos fen\u00edcios, de quem o H\u00e9racles grego \u00e9 apenas um aspecto. Seu culto, embora agora sob um nome romano, espalhou-se por todas as col\u00f4nias fen\u00edcias e cartaginesas, e um dos templos mais famosos era o de Gades (C\u00e1diz). Na It\u00e1lia e na Gr\u00e9cia, podiam contentar-se com a vers\u00e3o cl\u00e1ssica do filho de Zeus e Alquimena, mas a mistura posterior de deuses acolheu em seu grande pante\u00e3o, de forma expressa, o chamado H\u00e9racles T\u00edrio. H\u00e1 uma inscri\u00e7\u00e3o dedicada a ele na Baixa It\u00e1lia, do tempo de Galieno, mais ou menos como na \u00e9poca moderna se repetem em muitos altares os nomes e as c\u00f3pias de imagens milagrosas muito diversas.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de tudo o que foi relatado, n\u00e3o estamos em condi\u00e7\u00f5es de esbo\u00e7ar um quadro verdadeiramente vivo do estado religioso da \u00c1sia Menor e da S\u00edria na \u00e9poca imperial tardia. A mistura era, em cada caso, muito diferente, dependendo de como a vida grega tivesse se imposto ou sido refreada. Ainda causam uma impress\u00e3o confusa aqueles magn\u00edficos templos de estilo greco-romano<a href=\"#_ftn58\" id=\"_ftnref58\">[58]<\/a> constru\u00eddos para qualquer \u00eddolo asi\u00e1tico informe, fazendo com que o mais nobre e belo se colocasse a servi\u00e7o do mais odioso, talvez porque os senhores de um templo dispusessem de bastantes dom\u00ednios, dinheiro e esmolas para erguer um edif\u00edcio suntuoso de primeira ordem.<\/p>\n\n\n\n<p>A supersti\u00e7\u00e3o crescente empurrava cada vez mais os gregos e romanos da \u00c1sia Menor para esses altares de deuses orientais e at\u00e9 de divindades de cria\u00e7\u00e3o recente; bastava que o int\u00e9rprete ou sacerdote dessas divindades tivesse suficiente aud\u00e1cia. Luciano nos apresenta o farsante Alexandre, que, com sua pequena divindade serpentina, conseguiu enganar, no s\u00e9culo I, os simples paflag\u00f4nios de Abonoteicos, inicialmente, mas logo toda a \u00c1sia Menor e at\u00e9 os mais destacados funcion\u00e1rios romanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente, nos faltam informa\u00e7\u00f5es suficientes sobre a persist\u00eancia daqueles senhorios de templos que Estrab\u00e3o conheceu em tempos de Augusto, em n\u00famero consider\u00e1vel<a href=\"#_ftn59\" id=\"_ftnref59\">[59]<\/a>. Mesmo no caso de Palmira, n\u00e3o \u00e9 clara a rela\u00e7\u00e3o entre a aristocracia b\u00e9lica e mercantil da cidade com o grande templo solar e seus tesouros. Quantas ru\u00ednas mudas esconde o Oriente Pr\u00f3ximo da \u00e9poca romana! Come\u00e7ando pela magn\u00edfica Petra, na Ar\u00e1bia, e pela cidade das colunas, Gerasa, ao leste do Jord\u00e3o, localidades das quais mal se conhecia o nome por meio dos autores da \u00e9poca imperial, e cuja magnific\u00eancia os viajantes puderam descrever com assombro.<\/p>\n\n\n\n<p>Na recep\u00e7\u00e3o das divindades do Oriente Pr\u00f3ximo, tratava-se, simplesmente, de uma nova supersti\u00e7\u00e3o e de uma amplia\u00e7\u00e3o do culto divino; mas com esse culto n\u00e3o chegou a Roma nenhum novo elemento civilizador. Os deuses eg\u00edpcios entram na grande mistura de forma mais imponente. Acompanhava-os a velha venera\u00e7\u00e3o dos gregos pela sabedoria sacerdotal eg\u00edpcia, na qual acreditavam que culminava a teologia, a astronomia, a observa\u00e7\u00e3o da natureza, a medicina e a adivinha\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se tratava de mutilados entregues ao paroxismo, mas de uma casta sacerdotal que, em um tempo, dominou os fara\u00f3s e seu povo, deixando os mais grandiosos monumentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Parece que essa casta j\u00e1 se encontrava muito decadente no tempo dos Ptolomeus, e os bens dos templos contribu\u00edram sem resist\u00eancia para suportar os encargos do Estado. O velho preconceito sobre sua sabedoria rec\u00f4ndita desapareceu desde que, nas dunas do delta, se ergueu a cidade de Alexandre, onde s\u00e1bios gregos e eg\u00edpcios, formados \u00e0 maneira grega, estabeleceram os maiores centros, ent\u00e3o modernos, para a compila\u00e7\u00e3o, a pesquisa e o saber cr\u00edtico. O rei maced\u00f4nico, seus funcion\u00e1rios e soldados j\u00e1 n\u00e3o eram guiados pelo templo, e j\u00e1 n\u00e3o valia a pena conservar o antigo e grandioso sistema de sabedoria sacerdotal.<\/p>\n\n\n\n<p>Estrab\u00e3o nos conta, por ocasi\u00e3o de sua visita a Heli\u00f3polis, no Baixo Egito<a href=\"#_ftn60\" id=\"_ftnref60\">[60]<\/a>: \u201cVimos tamb\u00e9m grandes casas, habitadas por sacerdotes, que em outros tempos eram fil\u00f3sofos e astr\u00f4nomos; mas a corpora\u00e7\u00e3o e a tradi\u00e7\u00e3o desapareceram, pelo menos n\u00e3o vimos nenhum presidente desse g\u00eanero, apenas sacrificadores e guardi\u00f5es que explicavam aos estrangeiros as maravilhas do templo.\u201d Mostrava-se, entre outras coisas, o lugar onde Plat\u00e3o viveu durante treze anos sem conseguir extrair dos sacerdotes o essencial de seus arcanos; mas quem agora pretendesse dar import\u00e2ncia a essas coisas provocaria a zombaria das pessoas cultas. Contudo, o Egito recupera, pelo vi\u00e9s da supersti\u00e7\u00e3o, a influ\u00eancia que havia perdido pelo lado do saber.<\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, a antiga religi\u00e3o se mant\u00e9m muito firmemente no campo. Talvez isso se deva \u00e0 obstina\u00e7\u00e3o cong\u00eanita dos eg\u00edpcios, que n\u00e3o tinham melhor maneira de proteger sua nacionalidade contra a domina\u00e7\u00e3o estrangeira, e em parte tamb\u00e9m \u00e0 persist\u00eancia do organismo tradicional. Nenhum povo do mundo antigo havia feito depender sua vida inteira t\u00e3o completamente de suas doutrinas e prescri\u00e7\u00f5es sagradas como o eg\u00edpcio. As melhores for\u00e7as da na\u00e7\u00e3o foram aplicadas, ao longo de milhares de anos, a engrandecer, por meio de s\u00edmbolos, a rela\u00e7\u00e3o com o sobrenatural; a constru\u00e7\u00e3o de templos, as festas, os sacrif\u00edcios e os sepultamentos ocupam um lugar ao lado do qual a vida civil, a agricultura e o com\u00e9rcio s\u00f3 podiam se afirmar de forma secund\u00e1ria. Uma situa\u00e7\u00e3o como essa, que n\u00e3o havia sido desarraigada ou substitu\u00edda por algo essencialmente novo, precisava persistir com a maior for\u00e7a. A maioria dos templos se conservava intacta; na \u00e9poca romana ainda estava vivo o terr\u00edvel relato da destrui\u00e7\u00e3o realizada por Cambises e pelos persas. Os sacerdotes, que tinham seus pal\u00e1cios junto aos templos, e dentro deles, sem d\u00favida fizeram tudo o que podiam para manter o esplendor dos or\u00e1culos e sacrif\u00edcios e para celebrar com todo esplendor as prociss\u00f5es atrav\u00e9s dos amplos p\u00e1tios e avenidas, entre as fileiras de esfinges. Supondo que a hierarquia tenha se mantido nas mesmas propor\u00e7\u00f5es observadas na \u00e9poca dos Ptolomeus<a href=\"#_ftn61\" id=\"_ftnref61\">[61]<\/a>, estar\u00edamos, simplesmente, diante de um verdadeiro ex\u00e9rcito de pessoas sagradas.<\/p>\n\n\n\n<p>Certamente, a for\u00e7a dessa poderosa estrutura havia se enfraquecido; os Ptolomeus identificaram o sumo sacerdote de sua pr\u00f3pria pessoa divinizada com o sumo sacerdote de todo o Egito e estabeleceram sua sede em Alexandria. Tamb\u00e9m os romanos souberam como proceder, j\u00e1 que, pelo menos no tempo de Adriano, o posto de sumo sacerdote de Alexandria e do Egito foi ocupado por um romano, L. J. Vestino, que era ao mesmo tempo diretor do Museu de Alexandria<a href=\"#_ftn62\" id=\"_ftnref62\">[62]<\/a>. Mas, sem d\u00favida, a maioria dos sacerdotes era composta de eg\u00edpcios. Entre eles, encontravam-se:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; O profeta, que emitia or\u00e1culos ou realizava certos sacrif\u00edcios especiais.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Os hier\u00f3stolos, que cuidavam do vestu\u00e1rio das imagens sagradas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Os pter\u00f3foros, que usavam asas na cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Os hierogramateus, que antes administravam toda a sabedoria sagrada, mas que agora haviam descido ao n\u00edvel de int\u00e9rpretes de sonhos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Os hor\u00f3scopos ou astr\u00f3logos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Os past\u00f3foros, que levavam nas prociss\u00f5es as arcas com as imagens dos deuses.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Os cantores.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Os cuidadores dos animais destinados ao sacrif\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Os seladores das v\u00edtimas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Os guardi\u00f5es dos animais sagrados.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; As diferentes categorias de embalsamadores e vigilantes de t\u00famulos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Finalmente, numerosos escravos dos templos, dos quais alguns viviam como monges em clausura volunt\u00e1ria, enquanto outros mendigavam pelas ruas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao redor do templo de Ser\u00e1pis, ou seja, nas proximidades de M\u00eanfis, desde o s\u00e9culo I a.C., existiam as celas daqueles reclusos que buscavam purificar-se por meio de um confinamento vital\u00edcio pr\u00f3ximo ao deus. Pelo que se observa, eles s\u00e3o o modelo ineg\u00e1vel dos reclusos crist\u00e3os; recebiam comida por uma pequena janela e morriam nesses buracos<a href=\"#_ftn63\" id=\"_ftnref63\">[63]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Conservados completa ou parcialmente, todos esses grupos tinham apenas um objetivo: manter vivas as supersti\u00e7\u00f5es eg\u00edpcias e causar a maior impress\u00e3o poss\u00edvel aos romanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de um grande n\u00famero de deuses de car\u00e1ter mais ou menos local, as divindades eg\u00edpcias gerais \u2013 \u00cdsis, Os\u00edris, An\u00fabis \u2013 possu\u00edam templos por toda parte. Em Alexandria e outras cidades, acrescentava-se Ser\u00e1pis, origin\u00e1rio de S\u00edpone, como deus dos mortos, provavelmente relacionado a Os\u00edris. Seu templo era considerado uma das maravilhas da arquitetura antiga e estava cercado por constru\u00e7\u00f5es que, ap\u00f3s a destrui\u00e7\u00e3o do Museion nos tempos de Aureliano, abrigaram os institutos cient\u00edficos mais importantes, incluindo uma grande biblioteca.<\/p>\n\n\n\n<p>Vale a pena ouvir as declara\u00e7\u00f5es de Rufino<a href=\"#_ftn64\" id=\"_ftnref64\">[64]<\/a>, embora carregadas de um tom fabuloso e confuso, sobre essas constru\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias, pois nelas podemos perceber melhor que nunca como o helenismo soube acomodar-se \u00e0 mentalidade nacional nesta terra de todas as supersti\u00e7\u00f5es. O Serapeion, que se erguia sobre uma plataforma com mais de cem degraus, parece ter sido uma constru\u00e7\u00e3o gigantesca, abobadada, cercada em seus quatro lados por c\u00e2maras, escadarias e passagens secretas. No topo, havia quartos para os sacerdotes e celas para os penitentes. Um p\u00f3rtico qu\u00e1druplo corria ao redor do edif\u00edcio principal ou, talvez, em torno de um p\u00e1tio.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se economizou nos materiais mais nobres, incluindo ouro e marfim. No grande espa\u00e7o central estava localizada a imagem do deus, t\u00e3o colossal que seus bra\u00e7os estendidos tocavam as paredes laterais<a href=\"#_ftn65\" id=\"_ftnref65\">[65]<\/a>. Ao estilo das est\u00e1tuas criselefantinas, foi fabricada revestindo um n\u00facleo de madeira, provavelmente sagrada, com diferentes metais. As paredes eram cobertas de metal, e a fantasia alexandrina imaginava a exist\u00eancia de um segundo revestimento de prata e um terceiro de folhas de ouro. Todo esse grande espa\u00e7o estava na penumbra e, certamente, contava com ilumina\u00e7\u00e3o artificial. Somente no dia da festa em que a imagem do deus solar era levada para visitar Ser\u00e1pis, por um breve momento, abria-se uma pequena abertura para o leste, permitindo que os raios quentes do sol incidissem sobre os l\u00e1bios da est\u00e1tua. Esse evento era chamado de \u201co beijo do Sol\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 descri\u00e7\u00f5es mais detalhadas sobre outros artif\u00edcios \u00f3pticos e mec\u00e2nicos para os quais o templo provavelmente estava estruturado como um teatro. Talvez sejam meras fantasias, como a hist\u00f3ria do \u00edm\u00e3 no teto que supostamente sustentava no ar, oscilando, a imagem do Sol feita de uma fina l\u00e2mina de estanho, algo que tamb\u00e9m ser\u00e1 contado mais tarde sobre o t\u00famulo de Maom\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>O templo era famoso, como todos os templos de Ser\u00e1pis, pela chamada \u201cincuba\u00e7\u00e3o\u201d; os doentes dormiam l\u00e1 ou enviavam outras pessoas para dormir, a fim de que, no sonho<a href=\"#_ftn66\" id=\"_ftnref66\">[66]<\/a> inspirado pela divindade, pudessem descobrir a cura apropriada. Esse m\u00e9todo tamb\u00e9m era utilizado pelos gregos em seu templo de Ascl\u00e9pio, o que levou \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o quase completa dos dois deuses.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, por toda a cidade, as paredes e portas eram decoradas com um s\u00edmbolo do grande deus, e nas ruas via-se uma infinidade de templos, capelas e est\u00e1tuas de todas as outras divindades<a href=\"#_ftn67\" id=\"_ftnref67\">[67]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Acreditava-se que os artif\u00edcios teatrais existiam tamb\u00e9m em outros templos. Por exemplo, no templo de um deus identificado na fonte romana como Saturno<a href=\"#_ftn68\" id=\"_ftnref68\">[68]<\/a>, sua imagem colossal e oca estava apoiada na parede, permitindo que um sacerdote entrasse e falasse atrav\u00e9s de sua boca aberta. A ilumina\u00e7\u00e3o do templo podia ser apagada instantaneamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas dessas pr\u00e1ticas n\u00e3o eram fraudes intencionais, mas artif\u00edcios conhecidos e aceitos por todos, para enaltecer as grandes festas simb\u00f3licas, abundantes no Egito desde tempos remotos. Se, em tais ocasi\u00f5es, o fanatismo levava algu\u00e9m a acreditar em milagres, os sacerdotes n\u00e3o o desenganariam.<\/p>\n\n\n\n<p>Veremos que esses sacerdotes dominavam a teurgia e a conjura\u00e7\u00e3o de esp\u00edritos, mas eles mesmos eram v\u00edtimas da supersti\u00e7\u00e3o ou, pelo menos, n\u00e3o estavam completamente alheios, como meros enganadores. Isso porque a supersti\u00e7\u00e3o havia se tornado parte essencial do ar que se respirava.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo em tempos tardios, a fam\u00edlia eg\u00edpcia de deuses continuava a incorporar novas figuras, como Ser\u00e1pis e o horr\u00edvel Canopo, venerado na cidade do delta com o mesmo nome, representado como um vaso com cabe\u00e7a e membros humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>No tempo de Estrab\u00e3o, Canopo, com suas pousadas, era o destino favorito dos alexandrinos para f\u00e9rias. O canal do Nilo, utilizado para navegar, permanecia animado dia e noite com barcos repletos de homens e mulheres dan\u00e7ando ao som de flautas e entregando-se a todos os excessos<a href=\"#_ftn69\" id=\"_ftnref69\">[69]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquela \u00e9poca, ainda existia um templo de Ser\u00e1pis, o edif\u00edcio mais importante da cidade, onde tamb\u00e9m se praticava a cura pelo sono. Mais tarde, o santu\u00e1rio de Canopo assumiria o primeiro lugar e, no s\u00e9culo IV, tornar-se-ia uma escola de destaque para todo tipo de feiti\u00e7arias<a href=\"#_ftn70\" id=\"_ftnref70\">[70]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Na quarta se\u00e7\u00e3o, j\u00e1 tratamos da persist\u00eancia e rivalidade entre os diversos cultos zool\u00e1tricos<a href=\"#_ftn71\" id=\"_ftnref71\">[71]<\/a>. Cada nomo ou distrito venerava seu animal particular: a ovelha, o lobo, o fais\u00e3o, a \u00e1guia, o le\u00e3o, o bode, entre outros. Dois famosos animais gozavam de um culto geral: M\u00eanfis, que ainda nos tempos de Estrab\u00e3o era mantido em uma capela no templo de Heli\u00f3polis, e Apis, em quem sobrevivia a alma de Os\u00edris, na cidade de M\u00eanfis. Nem sempre havia um touro negro com uma pinta branca na testa e uma mancha em forma de lua em um dos lados; certa vez, no s\u00e9culo IV, foi necess\u00e1rio procur\u00e1-lo por muito tempo<a href=\"#_ftn72\" id=\"_ftnref72\">[72]<\/a>. Quando finalmente foi encontrado, ele foi levado at\u00e9 M\u00eanfis em uma prociss\u00e3o solene com a vaca que o havia parido, e l\u00e1 foi recebido por dez sacerdotes, que o conduziram ao templo que serviria como seu est\u00e1bulo. Aqui, e no p\u00e1tio adjacente, os visitantes observavam o touro, interpretando press\u00e1gios em cada um de seus movimentos. Em certa ocasi\u00e3o, ele recusou comida oferecida por Germ\u00e2nico, o que, segundo as pessoas, n\u00e3o prenunciava nada de bom.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Arsino\u00e9, ainda havia sacerdotes que conseguiam domesticar ou pelo menos alimentar o crocodilo divino venerado ali. Entre os numerosos seres naturais que recebiam adora\u00e7\u00e3o divina, n\u00e3o poderia faltar o mais poderoso de todos, ao qual o Egito devia sua exist\u00eancia: o Nilo, que tinha seu pr\u00f3prio col\u00e9gio sacerdotal de eunucos. Estes dedicavam ao rio oferendas e sacrif\u00edcios para que ele se comportasse bem com o pa\u00eds. Constantino, que, segundo Eus\u00e9bio<a href=\"#_ftn73\" id=\"_ftnref73\">[73]<\/a>, suprimiu o col\u00e9gio, provavelmente ficou apenas na tentativa, pois ele continuou existindo muito tempo depois. O que Constantino pode ter feito foi transferir o medidor do Nilo do Serapeum para uma igreja crist\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Plutarco nos descreve<a href=\"#_ftn74\" id=\"_ftnref74\">[74]<\/a> os sacerdotes de \u00cdsis, que existiram at\u00e9 a \u00e9poca de Trajano, com certo excesso de rever\u00eancia e interpreta seus usos e cerim\u00f4nias de forma bastante pl\u00e1stica. Seus distintivos inclu\u00edam vestes de linho branco e a cabe\u00e7a raspada. Eles viviam com certa abstin\u00eancia, evitavam certos alimentos para n\u00e3o engordar e por diversos outros motivos simb\u00f3licos, al\u00e9m de evitarem o mar e o sal. No entanto, seu culto, apesar do luto que eternamente se repete, \u00e9 desprovido de dignidade: no lugar disso, encontramos lamenta\u00e7\u00f5es selvagens e comportamentos b\u00e1quicos. Em alguns locais, um asno era jogado de um penhasco; em outros, um touro dourado, coberto por um manto negro, era exibido. Um aparato para produzir ru\u00eddos, o sistro, parecia destinado a intimidar o mau T\u00edfon (o princ\u00edpio destrutivo).<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos elementos desse culto parecem levar o selo de inven\u00e7\u00f5es tardias ou de pura explora\u00e7\u00e3o. A imagem de \u00cdsis era vestida com cores diversas, ora escuras, ora claras, para personificar o dia, a noite, o fogo, a \u00e1gua, a vida e a morte. Os incensos variavam conforme as horas do dia: pela manh\u00e3, resina, para dissipar os vapores noturnos; ao meio-dia, mirra; \u00e0 noite, um produto chamado <em>kyphi<\/em>, composto por dezesseis ingredientes durante uma ora\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, que tamb\u00e9m podia ser consumido em forma l\u00edquida. Esse espec\u00edfico tinha componentes que poderiam ser interpretados simbolicamente, mas cujo efeito provavelmente era narc\u00f3tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Plutarco, que trata do tema com seriedade, d\u00e1 a entender que entre os eg\u00edpcios j\u00e1 havia pessoas para as quais a supersti\u00e7\u00e3o, especialmente o culto aos animais, era excessiva. \u201cEnquanto os fracos e simpl\u00f3rios caem em uma supersti\u00e7\u00e3o total\u201d, diz ele, \u201cos homens mais ousados e obstinados acabam adotando ideias ate\u00edstas e b\u00e1rbaras.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Agora ser\u00e1 necess\u00e1rio examinar quanto dessa religi\u00e3o e com que sentido foi apropriado pela Roma florescente e, mais tarde, decadente.<\/p>\n\n\n\n<p>Prescindindo da recep\u00e7\u00e3o puramente art\u00edstica, pela qual foram levadas a Roma, nos tempos de Adriano, uma s\u00e9rie de figuras e formas decorativas eg\u00edpcias, quase nada al\u00e9m do c\u00edrculo de \u00cdsis foi acolhido durante s\u00e9culos na religi\u00e3o grega e na romana.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00cdsis, a terra e o aben\u00e7oado Egito em si, e Os\u00edris, a corrente fertilizadora do Nilo, j\u00e1 haviam sido considerados pelos eg\u00edpcios como s\u00edmbolos gerais de toda a vida, estando assim preparados para sua introdu\u00e7\u00e3o no culto de outros povos. Uma interpreta\u00e7\u00e3o acess\u00f3ria, que talvez tenha vindo a esse par do lado sem\u00edtico, a de Lua e Sol, j\u00e1 havia perdido import\u00e2ncia nos tempos de Her\u00f3doto. Os gregos, por assim dizer, concordaram em reconhecer em \u00cdsis a Dem\u00e9ter e em Os\u00edris o Dioniso, sem renunciar totalmente \u00e0 qualidade de \u00cdsis como deusa lunar; e ela passa a participar dos assuntos dos mais diversos seres divinos<a href=\"#_ftn75\" id=\"_ftnref75\">[75]<\/a>, como deusa do mundo subterr\u00e2neo, dos sonhos, do parto e at\u00e9 como senhora do mar. Quando, ap\u00f3s a conquista de Alexandre, o Egito entra no grande horizonte da vida greco-oriental, o culto de \u00cdsis se estende ainda mais por todo o mundo hel\u00eanico<a href=\"#_ftn76\" id=\"_ftnref76\">[76]<\/a>, at\u00e9 finalmente chegar a Roma, onde aparece a partir de Sila, n\u00e3o sem uma grande resist\u00eancia p\u00fablica nos primeiros cem anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os romanos, \u00cdsis \u00e0s vezes \u00e9 apresentada acompanhada de seu esposo Os\u00edris, mas com muito mais frequ\u00eancia por Ser\u00e1pis, o Os\u00edris do mundo subterr\u00e2neo; outras vezes, por An\u00fabis, o de cabe\u00e7a de c\u00e3o (um bastardo de Os\u00edris que foi identificado com Hermes como mensageiro entre os deuses e o mundo subterr\u00e2neo); e, por fim, por H\u00f3rus, em grego Harp\u00f3crates, que foi dado \u00e0 luz por \u00cdsis ap\u00f3s a morte de Os\u00edris. O significado mitol\u00f3gico primitivo desses seres, ainda que indiscut\u00edvel, n\u00e3o seria suficiente para entender o sentido que os romanos atribu\u00edam a tudo isso. Ser\u00e1pis assume, al\u00e9m de seu papel como deus da sa\u00fade, o de um deus solar<a href=\"#_ftn77\" id=\"_ftnref77\">[77]<\/a>, como ocorreu com uma s\u00e9rie de outros deuses estrangeiros e at\u00e9 aut\u00f3ctones que acabaram tendo essa associa\u00e7\u00e3o. No entanto, ele n\u00e3o perde seu dom\u00ednio sobre as almas na vida e na morte. De forma semelhante, \u00cdsis e outras divindades transformam-se em deidades de salva\u00e7\u00e3o ou simplesmente de sa\u00fade, sem, no entanto, perderem sua conex\u00e3o com o mundo subterr\u00e2neo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta etapa, \u00e9 dif\u00edcil distinguir \u00cdsis da deusa subterr\u00e2nea de tr\u00eas figuras, H\u00e9cate, que reina no c\u00e9u como Lua, na terra como Diana e no inferno como Proserpina. Entre os poetas eleg\u00edacos, ela \u00e9, por outro lado, a tem\u00edvel e frequentemente apaziguada senhora dos neg\u00f3cios amorosos. Quanto mais aspectos da vida ela abarcava, mais dif\u00edcil era reduzir sua natureza, tal como concebida pelos romanos nos \u00faltimos tempos, a uma defini\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s as mais variadas metamorfoses, \u00cdsis \u00e9 encontrada at\u00e9 como Fortuna ou Tique<a href=\"#_ftn78\" id=\"_ftnref78\">[78]<\/a>, sem mencionar a interpreta\u00e7\u00e3o puramente filos\u00f3fica que acabou por v\u00ea-la como a grande divindade universal. H\u00e1 muito tempo a figura da deusa havia sido romanizada e abandonado os conhecidos atributos capilares eg\u00edpcios; o traje da sacerdotisa parece ter substitu\u00eddo o da velha deusa: um manto com franjas, atado \u00e0 altura do peito sobre a t\u00fanica, e na m\u00e3o o sistro. Esses s\u00e3o os distintivos encontrados em pinturas e est\u00e1tuas.<\/p>\n\n\n\n<p>As armas romanas levaram o culto de \u00cdsis at\u00e9 as fronteiras do Imp\u00e9rio: aos Pa\u00edses Baixos, Su\u00ed\u00e7a e, ao sul, Alemanha. O culto penetrou na vida privada antes e de forma mais profunda do que o culto da Grande Deusa sem\u00edtica. Gozou do favor imperial a partir de Vespasiano, que prestou culto expl\u00edcito em Alexandria a Ser\u00e1pis; seu filho Domiciano construiu em Roma um Isium e Serapeum, sendo que, at\u00e9 ent\u00e3o, as duas divindades se contentavam com modestos templos dentro das muralhas. Mais tarde, houve em Roma v\u00e1rios santu\u00e1rios importantes dedicados \u00e0 deusa. No templo de \u00cdsis encontrado em Pompeia, que j\u00e1 havia sido restaurado dezesseis anos antes da cat\u00e1strofe, existe uma escada secreta e um rebaixamento atr\u00e1s do pedestal que sustentava a imagem, o que, junto com uma pequena constru\u00e7\u00e3o acess\u00f3ria com subsolo, nos permite algumas conjecturas; por\u00e9m, nem o espa\u00e7o nem as constru\u00e7\u00f5es s\u00e3o apropriados para grandes e deslumbrantes encena\u00e7\u00f5es, o que n\u00e3o impediu que a imagina\u00e7\u00e3o de arque\u00f3logos e poetas criasse grandes interpreta\u00e7\u00f5es sobre essas edifica\u00e7\u00f5es pouco significativas.<\/p>\n\n\n\n<p>Os sacerdotes de \u00cdsis, que, nas grandes cidades, formavam numerosos col\u00e9gios (como past\u00f3foros, entre outros), gozavam ainda no s\u00e9culo I de m\u00e1 reputa\u00e7\u00e3o, entre outras coisas, como intermedi\u00e1rios em quest\u00f5es amorosas, que, como vimos, tamb\u00e9m eram colocadas sob a prote\u00e7\u00e3o de \u00cdsis e de seu templo. Juvenal<a href=\"#_ftn79\" id=\"_ftnref79\">[79]<\/a> trata com o maior desprezo o branco e rapado enxame que, com lamenta\u00e7\u00f5es sacerdotais, penetra na c\u00e2mara da distinta romana que os eunucos da Grande Deusa s\u00edria haviam acabado de abandonar. Estes \u00faltimos limitavam-se a mendigar, enquanto os sacerdotes de \u00cdsis, vestidos como An\u00fabis, chegavam a amea\u00e7ar e impor penit\u00eancias por certos pecados agrad\u00e1veis; e, mesmo que ordenassem um banho no Tibre no meio do inverno, encontravam obedi\u00eancia, porque a dama tinha f\u00e9 cega e dizia ter ouvido em sonhos a voz de \u00cdsis.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir do s\u00e9culo I, o culto de \u00cdsis, junto com o da Magna Mater, assume um tom mais digno e, provavelmente, maior solenidade, devido \u00e0 participa\u00e7\u00e3o do imperador e das classes altas<a href=\"#_ftn80\" id=\"_ftnref80\">[80]<\/a>. A diferen\u00e7a em compara\u00e7\u00e3o com as pr\u00e1ticas anteriores foi t\u00e3o grande que quase se poderia pensar que foram C\u00f4modo ou Caracala quem introduziram esse culto em Roma. Nas grandes prociss\u00f5es, fazem-se pausas, ou seja, esta\u00e7\u00f5es com instala\u00e7\u00f5es suntuosas. C\u00f4modo mandou representar em mosaico uma dessas prociss\u00f5es nos p\u00f3rticos de alguns jardins. Ele mesmo, que se havia tornado sacerdote, costumava carregar a imagem de An\u00fabis para golpear com ela a cabe\u00e7a dos sacerdotes imediatos de \u00cdsis.<\/p>\n\n\n\n<p>A descri\u00e7\u00e3o mais detalhada de uma prociss\u00e3o de \u00cdsis, que pode servir como modelo para essas celebra\u00e7\u00f5es na \u00e9poca, nos \u00e9 oferecida por Apuleio no \u00faltimo livro de suas Metamorfoses. A cena ocorre na relaxada Corinto. O cortejo come\u00e7a com ares de carnaval, com m\u00e1scaras coloridas de soldados, ca\u00e7adores, gladiadores, mulheres de vida alegre magnificamente penteadas, magistrados, fil\u00f3sofos (com capa, bast\u00e3o, sand\u00e1lias e barbas de bode), passarinheiros e pescadores; segue, carregado em andas, um urso adestrado vestido de velha; depois, um macaco disfar\u00e7ado de Ganimedes, com um gorro e roupa cor de laranja, carregando um c\u00e1lice de ouro; em seguida, um asno alado imitando P\u00e9gaso e, ao lado dele, um homenzinho aleijado como Belerofonte.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas agora come\u00e7a a verdadeira pompa: mulheres coroadas e vestidas de branco, que ajudam na toilette de \u00cdsis, espalham flores e perfumes e gesticulam com espelhos e pentes; segue uma multid\u00e3o de ambos os sexos, com tochas e velas em honra \u00e0s divindades astrais; citaristas, flautistas e um coro branco; os flautistas de Ser\u00e1pis, que entoam uma melodia ritual, e os arautos que abrem caminho. Chegam ent\u00e3o os iniciados de todas as classes e idades, com vestimentas brancas de linho, as mulheres com os cabelos untados e com v\u00e9us transparentes, os homens rapados; os sistros, que agitam ruidosamente, s\u00e3o de prata e de ouro, conforme as possibilidades de cada um. Agora \u00e9 quando aparecem os sacerdotes com os s\u00edmbolos misteriosos da deusa: l\u00e2mpadas, pequenos altares, palmeiras, bast\u00e3o serpentiforme, m\u00e3o aberta e diversos vasos de forma peculiar; outros carregam as imagens dos deuses: a de An\u00fabis com sua cabe\u00e7a de c\u00e3o meio negra, meio dourada, uma vaca sobre suas quatro patas, uma cesta m\u00edstica; por fim, o sumo sacerdote leva a urna de ouro com al\u00e7as em forma de serpentes que representa a deusa, apertada contra o peito. Neste ordem, a prociss\u00e3o segue da cidade de Corinto at\u00e9 o mar. A \u201cbarca de \u00cdsis\u201d, pintada com hier\u00f3glifos, \u00e9 lan\u00e7ada \u00e0s \u00e1guas em frente ao santu\u00e1rio instalado na praia, com muitas cerim\u00f4nias e depois de ter sido saturada de perfumes e oferendas; a inscri\u00e7\u00e3o que leva nas velas, \u201cboa navega\u00e7\u00e3o no novo ano\u201d, e o dado que conhecemos por outras fontes sobre o <em>navigium Isidis<\/em>, que os romanos costumavam celebrar no dia 5 de mar\u00e7o, indicam que a festa celebrava a abertura do mar, fechado durante todo o inverno<a href=\"#_ftn81\" id=\"_ftnref81\">[81]<\/a>. Pois precisamente nessa condi\u00e7\u00e3o tardia, n\u00e3o eg\u00edpcia, de senhora do mar, \u00cdsis \u00e9 venerada no Mediterr\u00e2neo, e os cor\u00edntios, com seus dois golfos visitados, deviam sentir especial apre\u00e7o por ela.<\/p>\n\n\n\n<p>A prociss\u00e3o retorna ao templo e, diante da porta, um sacerdote pronuncia, de um p\u00falpito, uma sauda\u00e7\u00e3o ou b\u00ean\u00e7\u00e3o ao imperador, ao senado, aos cavaleiros, ao povo romano, \u00e0 navega\u00e7\u00e3o e a todo o Imp\u00e9rio; encerra com a f\u00f3rmula \u03bb\u03b1\u03bf\u1f32\u03c2 \u1f02\u03c6\u03b5\u03c3\u03b9\u03c2, que equivale ao <em>ite missa est<\/em> do culto crist\u00e3o. Em toda essa festa, distinguem-se a multid\u00e3o alegre e piedosa e os iniciados nos mist\u00e9rios, dos quais trataremos na se\u00e7\u00e3o seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p>Pode ser verdade o que, nesta e em outras ocasi\u00f5es semelhantes, nos relatam sobre inscri\u00e7\u00f5es sagradas, em parte de tipo hierogl\u00edfico, em parte de outro tipo misterioso qualquer; mas o sacerdote de \u00cdsis \u2013 seja romano, grego ou gaul\u00eas \u2013 que guardava essas inscri\u00e7\u00f5es e talvez pudesse copi\u00e1-las e l\u00ea-las, com certeza n\u00e3o entendia uma palavra delas. Muito longe de transportar de um Egito sacerdotal, cujo ponto forte j\u00e1 n\u00e3o era a doutrina, qualquer ci\u00eancia profunda, Roma acolheu, sem grande fidelidade teol\u00f3gica, os referidos deuses, atribuindo-lhes um significado arbitrariamente alterado. J\u00e1 observamos isso no caso de \u00cdsis; outro exemplo muito instrutivo \u00e9 fornecido por Harp\u00f3crates, cujo gesto (com o dedo na dire\u00e7\u00e3o da boca) significava \u201co amamentado por \u00cdsis\u201d; na excelente est\u00e1tua capitolina da \u00e9poca de Adriano, encontramos, em vez do \u00eddolo eg\u00edpcio, um amorzinho impondo sil\u00eancio ao levar o dedo aos l\u00e1bios, na qualidade de Deus <em>silentii<\/em>. Por outro lado, An\u00fabis, embora identificado com Hermes, manteve sua cabe\u00e7a de c\u00e3o, que produz uma impress\u00e3o bastante dissonante colocada sobre um corpo humano com vestimenta romana.<\/p>\n\n\n\n<p>Encontramos um conjunto de s\u00edmbolos desse c\u00edrculo nas m\u00e3os de bronze conhecidas como ex-votos das parturientes \u00e0 sua patrona \u00cdsis<a href=\"#_ftn82\" id=\"_ftnref82\">[82]<\/a>. Os dedos, em atitude de juramento, e a palma e o dorso da m\u00e3o est\u00e3o recobertos de atributos, instrumentos do culto e pequenos bustos de \u00cdsis, Ser\u00e1pis, Os\u00edris e An\u00fabis, mas estes \u00faltimos aparecem como Dioniso e Hermes. N\u00e3o cabe aqui a enumera\u00e7\u00e3o desses s\u00edmbolos; eles obedeciam, talvez, a outros tantos pedidos suscitados por necessidades espec\u00edficas.<\/p>\n\n\n\n<p>Com as divindades estrangeiras citadas at\u00e9 agora, n\u00e3o esgotamos, nem de longe, o tema da mistura de cultos; grande parte do material pertinente ser\u00e1 tratada de forma mais oportuna na se\u00e7\u00e3o seguinte. At\u00e9 agora, tratamos dos sacra peregrina reconhecidos oficialmente e difundidos por toda parte; cada devoto tinha liberdade para acumular, conforme desejasse, as imagens e os s\u00edmbolos de todos os pa\u00edses e religi\u00f5es. Qu\u00e3o distinta e, ao mesmo tempo, qu\u00e3o caracter\u00edstica, nesse sentido, era a subjetividade daqueles dois primos t\u00e3o diferentes, Heliog\u00e1balo e Alexandre Severo! O primeiro traz para sua casa \u00eddolos semitas, o Pal\u00e1dio de Roma e a pedra de Orestes, preservada no templo de Diana em Laodiceia, para agrupar tudo de forma mec\u00e2nica; e assim como celebra o casamento da pedra negra de Emesa com a est\u00e1tua da Ur\u00e2nia de Cartago, o sacerdote imperial casa-se com a vestal m\u00e1xima. Parece, inclusive, que manifestou a inten\u00e7\u00e3o de transformar seu santu\u00e1rio central em ponto de converg\u00eancia do culto dos samaritanos, dos judeus e dos crist\u00e3os. Todos os deuses deveriam ser servos de seu grande deus, e todos os mist\u00e9rios deveriam se concentrar em seu sacerd\u00f3cio.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, Alexandre Severo celebra os fundadores de todas as religi\u00f5es como ideais da humanidade e re\u00fane suas imagens em sua capela dom\u00e9stica; nela encontram-se Abra\u00e3o e Cristo ao lado de Orfeu, como suposto fundador dos mist\u00e9rios gregos, e Apol\u00f4nio de Tiana, como fil\u00f3sofo taumaturgo; tamb\u00e9m os melhores entre os imperadores<a href=\"#_ftn83\" id=\"_ftnref83\">[83]<\/a> estavam representados ali, com est\u00e1tuas colossais dedicadas a eles no f\u00f3rum de Nerva. Uma segunda capela continha as est\u00e1tuas de Virg\u00edlio, C\u00edcero, Aquiles e outros grandes homens; o nobre e desventurado pr\u00edncipe faz tudo o que pode para organizar um novo Olimpo. Mas o que ocorre no pal\u00e1cio imperial de Roma certamente se repetiu, de forma diversificada, em menor escala. Muitos dos mais nobres teriam acolhido de bom grado os aspectos do cristianismo que lhes eram mais compreens\u00edveis; contudo, com maior anseio ainda, a supersti\u00e7\u00e3o geral teria dirigido seu olhar para os mist\u00e9rios crist\u00e3os, sentindo-se especialmente atra\u00edda pelo fato de que seus adeptos demonstravam uma atitude t\u00e3o admir\u00e1vel na vida e na morte.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 dif\u00edcil imaginar de forma v\u00edvida esse sentimento \u2013 mistura de repugn\u00e2ncia e desejo \u2013 de alguns pag\u00e3os, e temos poucas informa\u00e7\u00f5es diretas a respeito, salvo se considerarmos como tal a hist\u00f3ria do mago samaritano Sim\u00e3o<a href=\"#_ftn84\" id=\"_ftnref84\">[84]<\/a>. Posteriormente, trataremos da aproxima\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica entre as duas religi\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Se, portanto, havia desaparecido completamente a repugn\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o aos deuses estrangeiros e se, nos cultos orientais, sentia-se, acima de tudo, o poderoso atrativo do mist\u00e9rio, n\u00e3o era f\u00e1cil prever o ponto em que essa apropria\u00e7\u00e3o do estrangeiro haveria de parar<a href=\"#_ftn85\" id=\"_ftnref85\">[85]<\/a>. Com a filosofia neoplat\u00f4nica e o manique\u00edsmo, penetram no mundo romano n\u00e3o apenas princ\u00edpios religiosos persas, mas tamb\u00e9m indianos; era certo que se acolheria tudo o que, de alguma forma, apresentasse um aspecto misterioso e oferecesse algum tra\u00e7o de afinidade com o pante\u00e3o romano.<\/p>\n\n\n\n<p>Conservamos, precisamente dessa \u00e9poca tardia, numerosas inscri\u00e7\u00f5es dedicadas a \u201ctodos os deuses e deusas\u201d, a \u201ctodos os celestes\u201d, \u00e0 \u201cassembleia dos deuses\u201d, etc. Sem d\u00favida, nessas ocasi\u00f5es pensava-se tamb\u00e9m nos deuses estrangeiros, e n\u00e3o se desejava ofender nenhum deles. Com frequ\u00eancia, os atributos de toda uma s\u00e9rie de divindades ind\u00edgenas e estrangeiras tamb\u00e9m foram transferidos para uma \u00fanica figura, designada como Deus Pantheus, ou \u201cDeus Todo-divino\u201d. Assim, temos Silvanus Pantheus e Liber Pantheus; nas est\u00e1tuas de Fortuna, al\u00e9m da roda e do corno da abund\u00e2ncia que lhe s\u00e3o pr\u00f3prios, vemos a coura\u00e7a de Minerva, o l\u00f3tus de \u00cdsis, o feixe de raios de J\u00fapiter, a pele de cervo de Baco, o galo de Escul\u00e1pio, etc. Talvez isso represente uma express\u00e3o resumida de todo o enxame de deuses, devendo-se, portanto, distingui-la do monote\u00edsmo filos\u00f3fico, que reconhecia uma identidade real de todos os deuses em um ser supremo.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma conhecida declara\u00e7\u00e3o do fil\u00f3sofo Tem\u00edstio<a href=\"#_ftn86\" id=\"_ftnref86\">[86]<\/a>, de \u00e9poca bastante tardia, segundo a qual o imperador Valente perseguiu com severidade, como ariano que era, os crist\u00e3os ortodoxos. \u201cAs diverg\u00eancias de f\u00e9 entre os crist\u00e3os n\u00e3o devem nos surpreender \u2013 afirma o fil\u00f3sofo \u2013 ; t\u00eam pouca import\u00e2ncia diante da massa e da confus\u00e3o das diversas cren\u00e7as pag\u00e3s. Pois nelas encontramos mais de trezentas seitas, j\u00e1 que a divindade deseja ser glorificada de diferentes maneiras, e cada uma delas desfruta de tanto maior considera\u00e7\u00e3o quanto menor \u00e9 o n\u00famero dos que participam de seu conhecimento\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O n\u00famero apresentado pode ser um pouco exagerado e, por outro lado, essas seitas pag\u00e3s tampouco se excluem mutuamente, como ocorre com as crist\u00e3s, de modo que era poss\u00edvel pertencer a v\u00e1rias delas. De qualquer forma, trezentas formas diferentes de adorar os deuses, mesmo que n\u00e3o sejam contradit\u00f3rias, testemunham uma dissolu\u00e7\u00e3o do paganismo que n\u00e3o pode ser explicada apenas pela mera aceita\u00e7\u00e3o de divindades estrangeiras.<\/p>\n\n\n\n<p>Veremos como uma variedade infinita teve que surgir na religi\u00e3o pag\u00e3 decadente, n\u00e3o apenas devido \u00e0 diversidade de cultos, mas principalmente em virtude dos pr\u00f3prios princ\u00edpios internos do culto, ao mesmo tempo em que se manifestavam grandes tend\u00eancias simplificadoras.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Chastel, Hist. de la destruction du Paganisme dans l\u2019emp. d\u2019Orient, p. 36.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Eus\u00e9bio, Hist. eccl. IV, 23, V1, 43, VII, 5.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> Schlosser, Universelle historische Uebersicht der alten Welt, III, 2, p. 119.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> Lact\u00e2ncio, Divin. Inst. III, 12, termina suas investiga\u00e7\u00f5es sobre o bem supremo com as palavras: \u201cld vero nihil aliud potest esse quam immortalitas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> Da bibliografia pertinente, deve-se citar, em primeiro lugar, Tzschirner, Der Fall des Heidenthumes (ed. por Niedner, incompleto); Beugnot, Hist. de la destruction du Paganisme en occident, 2 vol.; Eckermann, Lehrbuch der Religionsgeschichte und Mythologie, Vol. II, pp. 205 ss. E, por \u00faltimo, a grande exposi\u00e7\u00e3o do estado religioso no primeiro e segundo s\u00e9culos que encontramos na obra de Friedlaender, Sittengeschichte Roms, Vol. III, pp. 423 ss.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[6]<\/a> Cf. Gerlach e Bachofen, Geschichte der Roemer, Vol. I, se\u00e7\u00e3o 2, pp. 211 ss. \u2013 Uma estranha consulta aos livros sibilinos na Epitome de Aurel. Vict., com ocasi\u00e3o de Cl\u00e1udio G\u00f3tico.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\">[7]<\/a> Firmicus Maternus, Libri Mathesos I, c. 38. \u2013 As curas milagrosas que lhe s\u00e3o pedidas em Alexandria por Vespasiano. T\u00e1cito, Hist. I, 81.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\" id=\"_ftn8\">[8]<\/a> Em Wernsdorf, Poetae latt. min. V, par. II.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref9\" id=\"_ftn9\">[9]<\/a> De mort. pers. 10, 11. Sua preocupa\u00e7\u00e3o com os raios ominosos, Const. III, orat. ad sanctor. coet. C. 25.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref10\" id=\"_ftn10\">[10]<\/a> Uma inscri\u00e7\u00e3o de Diocleciano consagrada a Mitra \u00e9 mencionada em Orelli II. 1051, outra dirigida ao Sol e outra mais a Belano s\u00e3o citadas por Bertoli, Le antichit\u00e1 d\u2019Aquileja II. 71 e 643. \u2013 Os templos que mandou edificar em Antioquia est\u00e3o consagrados aos deuses cl\u00e1ssicos, a Zeus Ol\u00edmpico, a N\u00eamesis, a Apolo e a H\u00e9cate; cf. Malalas XII. Sobre a religi\u00e3o de Galieno, que em momentos de grande perigo para o Imp\u00e9rio invoca todos os antigos deuses como \u201cconservadores\u201d no verso das moedas, cf. Creuzer, Zur r\u00f6m. Gesch. und Altkunde. O fato de ele tamb\u00e9m adorar os antigos deuses eg\u00edpcios e orientais, vis\u00edveis nas moedas das cidades de Alexandria e \u00c1sia com seu retrato e o de Salonina, n\u00e3o parece t\u00e3o seguro como o sup\u00f5e este excelente tratado.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref11\" id=\"_ftn11\">[11]<\/a> Hist. Aug. Marco Aur\u00e9lio, c. 19. \u2013 Vemos por um calend\u00e1rio dos \u00faltimos tempos do s\u00e9culo IV (Kollar, Analecta Vindobon. I) que, naquela \u00e9poca, ainda se celebrava o dia do nascimento (natales, o que tamb\u00e9m pode significar o dia de sua entrada no governo) dos seguintes imperadores: Augusto, Vespasiano, Tito, Nerva, Trajano, Adriano, Marco Aur\u00e9lio, Pertinaz (Sept\u00edmio?) Severo, Alexandre Severo, Gordiano, Cl\u00e1udio G\u00f3tico, Aureliano, Probo e, naturalmente, Constantino e sua linhagem. \u2013 Certamente, o culto de \u00c1ntino ainda durou at\u00e9 o s\u00e9culo IV.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref12\" id=\"_ftn12\">[12]<\/a> Arn\u00f3bio, Adversus Gentes I. 1 e IV, no come\u00e7o. \u2013 Lact\u00e2ncio, Inst. divin. I. 20.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref13\" id=\"_ftn13\">[13]<\/a> N\u00e3o s\u00e3o mencionados nem nas inscri\u00e7\u00f5es nem nos monumentos.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref14\" id=\"_ftn14\">[14]<\/a> Cf. Apuleio, De magia oratio, p. 62, ed. Bipont. Vol. I, para ver como lapis unctus, ramus coronatus era o m\u00ednimo para um propriet\u00e1rio rural demonstrar sua devo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref15\" id=\"_ftn15\">[15]<\/a> A humildade de estoicos como Epicteto n\u00e3o faz sen\u00e3o demonstrar a regra por exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref16\" id=\"_ftn16\">[16]<\/a> Provavelmente tamb\u00e9m com can\u00e7\u00f5es. \u2013 Luciano, De saltatione, passim. \u2013 Meyer, Anthologia lat. ep. 954.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref17\" id=\"_ftn17\">[17]<\/a> Cf. entre outros, Arn\u00f3bio, Adv. Gentes IV, p. 151 e VII, p. 238. \u2013 Firmicus, De errore, p. 10.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref18\" id=\"_ftn18\">[18]<\/a> Em Wernsdorf, Poetae latt. III. IV, par. I.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref19\" id=\"_ftn19\">[19]<\/a> Nem\u00e9sio, Cynegeticon. Vs. 47. Omnis et antiqui vulgata est fabula secli. Do ano 283.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref20\" id=\"_ftn20\">[20]<\/a> Cf. Juvenal, Sat. I, no in\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref21\" id=\"_ftn21\">[21]<\/a> Sobre a estranha sorte posterior da mitologia entre os poetas crist\u00e3os e sua infiltra\u00e7\u00e3o na arte crist\u00e3, veja: Piper, Mythologie und Symbolik der christlichen Kunst, vol. 1. A partir de Aus\u00f4nio, os deuses se transformam cada vez mais em meros ornamentos e frases ou em s\u00edmbolos abstratos das rela\u00e7\u00f5es da vida. Al\u00e9m de Marciano Capela, \u00e9 muito t\u00edpico dessa transforma\u00e7\u00e3o o Epithalamiun Auspicii et A\u00e9llae, de um certo Patr\u00edcio, que Wernsdorf coloca no s\u00e9culo IV (TV, 1) e Meyer (Anthol. lat.) provavelmente com mais raz\u00e3o no s\u00e9culo VI. Na \u00e9poca de Constantino, ainda n\u00e3o era poss\u00edvel lidar com o mito de forma t\u00e3o arbitr\u00e1ria e, por exemplo, apresentar Cupido como irm\u00e3 de V\u00eanus.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref22\" id=\"_ftn22\">[22]<\/a> A mudan\u00e7a das guarni\u00e7\u00f5es, o com\u00e9rcio e o tr\u00e1fico de escravos haviam levado, por exemplo, eg\u00edpcios e asi\u00e1ticos at\u00e9 as fronteiras da Germ\u00e2nia. T\u00e1cito, Annales XIV, 42, diz sobre os escravos em Roma: \u201cNa\u00e7\u00f5es em fam\u00edlias que t\u00eam ritos diversos, cultos externos ou nenhum&#8230;\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref23\" id=\"_ftn23\">[23]<\/a> Um monote\u00edsmo primitivo de todos os povos \u00e9 defendido, por exemplo, por Lact\u00e2ncio, Div. Inst. I, L.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref24\" id=\"_ftn24\">[24]<\/a> O fato de Ser\u00e1pis ter sido adorado anteriormente no Egito n\u00e3o \u00e9 levado em considera\u00e7\u00e3o aqui.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref25\" id=\"_ftn25\">[25]<\/a> Podem proceder em parte de muito antigas misturas de povos.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref26\" id=\"_ftn26\">[26]<\/a> Suet\u00f4nio, Nero, cap. 56.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref27\" id=\"_ftn27\">[27]<\/a> Encontramos uma sele\u00e7\u00e3o em Orelli, Inscr. lat. sel. I, cap. IV, par\u00e1grafo 36, 37.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref28\" id=\"_ftn28\">[28]<\/a> Hist. Aug. Pesc\u00eanio, c. 6.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref29\" id=\"_ftn29\">[29]<\/a> As inscri\u00e7\u00f5es de deuses gauleses que aparecem dispersas nas cole\u00e7\u00f5es romanas podem ter sido transferidas para Roma ou erguidas nela por gauleses que ali viviam. Cf. Orelli, I, cap. II. 1960, 1978, 2001 e 2006. O fato de que Carus, segundo Di\u00f3, LXXVIM, 15, adorasse Apolo Granno, teria causas especiais no encantamento do qual teria sido v\u00edtima por supostos celtas (na realidade, alamanos).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref30\" id=\"_ftn30\">[30]<\/a> Sulp\u00edcio Severo, Dial. II, ao final.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref31\" id=\"_ftn31\">[31]<\/a> Cf. a importante indica\u00e7\u00e3o dos Atos dos Ap\u00f3stolos, 14, vers. 5, 11 e ss., certamente sobre uma cidade muito no interior.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref32\" id=\"_ftn32\">[32]<\/a> Cf. C. Schwenck, Die Mythologie der Semiten.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref33\" id=\"_ftn33\">[33]<\/a> Tertuliano, Apologetica 9.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref34\" id=\"_ftn34\">[34]<\/a> Se n\u00e3o for o caso de, apesar da lua crescente, se tratar apenas dos sacerdotes e n\u00e3o das divindades.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref35\" id=\"_ftn35\">[35]<\/a> N\u00e3o compartilho das obje\u00e7\u00f5es de Schwenck (p. 197) contra a qualidade solar de Heliog\u00e1balo. \u2013 Heliodoro se chama ao final de sua Aethiopica um emes\u00eanio e \u03c4\u03c9\u03bd \u03ac\u03c6&#8217; \u0389\u03bb\u03b9\u03bf\u03c5 \u03b3\u03ad\u03bd\u03bf\u03c2, da estirpe dos filhos do Sol.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref36\" id=\"_ftn36\">[36]<\/a> Malalas, XII, p. 119. \u2013 Cf. Macr\u00f3bio, Sat. I, 23. O culto viria do Egito. \u2013 O maior dos templos \u00e9 considerado hoje como templo de Baal, e o menor como templo de J\u00fapiter.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref37\" id=\"_ftn37\">[37]<\/a> I Reis 18, vers. 19. T\u00e1cito, Hist. II, 78.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref38\" id=\"_ftn38\">[38]<\/a> Jer\u00f4nimo, Vita S. Hilarionis, 14, 20. Soz\u00f4mio, V, 9, 10; VII, 15.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref39\" id=\"_ftn39\">[39]<\/a> As fontes conhecidas: Herodiano, Dion\u00edsio C\u00e1ssio e a Hist. Aug.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref40\" id=\"_ftn40\">[40]<\/a> Sobre se Afrodite, em geral, e at\u00e9 mesmo pelo seu nome, era de origem semita, cf. Schwenck, ob. cit., p. 210.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref41\" id=\"_ftn41\">[41]<\/a> Um sacellum desta classe, como objeto usual em uma das pinturas pompeianas Antichita di Ercol. III, 52. O templo de Pafos \u00e9 frequentemente representado nas moedas dos imperadores romanos.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref42\" id=\"_ftn42\">[42]<\/a> No pequeno templo de Baalbek, ainda podemos encontrar tal coro ou Thalamos.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref43\" id=\"_ftn43\">[43]<\/a> Provavelmente se encontrava sentada sobre os pr\u00f3prios le\u00f5es, a express\u00e3o \u00e9 pouco clara.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref44\" id=\"_ftn44\">[44]<\/a> Com o Semeion, que estaria entre os dois deuses, Luciano continua brincando (ob. cit., cap. 33), como em muitos outros detalhes cujo sentido ir\u00f4nico \u00e9 \u00f3bvio.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref45\" id=\"_ftn45\">[45]<\/a> Ob. cit., pp. 49 e 50, onde Luciano quer conectar os dois fen\u00f4menos. A maioria dos castrados, no entanto, parecem ter sido escravos, que foram levados ao templo como presentes por seus donos. Cf. Estrab\u00e3o, XII, final.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref46\" id=\"_ftn46\">[46]<\/a> Os \u03c6\u03b1\u03bb\u03bb\u03bf\u03af \u03c4\u03c1\u03b9\u03b7\u03ba\u03bf\u03c3\u03af\u03c9\u03bd \u03bf\u03c1\u03b3\u03c5\u03b9\u03ad\u03c9\u03bd, ob. cit., p. 28, se baseiam em um exagero intencional de Luciano ou em uma falsa interpreta\u00e7\u00e3o da palavra \u03c4\u03c1\u03b9\u03ac\u03ba\u03bf\u03bd\u03c4\u03b1. Pode-se imaginar o tamanho enorme das colunas caso se admita um orif\u00edcio de 5\u00bd p\u00e9s.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref47\" id=\"_ftn47\">[47]<\/a> N\u00e3o se leva em conta que os bizantinos representaram mais tarde S\u00e3o Efr\u00e9m sobre uma verdadeira coluna ou pilar.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref48\" id=\"_ftn48\">[48]<\/a> Eus\u00e9bio, Vita Const. III, 55. Z\u00f3simo, I, 58. Soz\u00f4mio, II, 5.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref49\" id=\"_ftn49\">[49]<\/a> Amiano Marcelino, XXI, 9. A penetra\u00e7\u00e3o da adora\u00e7\u00e3o de Ad\u00f4nis no Ocidente, F\u00edrmico, De errore, etc., p. 14.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref50\" id=\"_ftn50\">[50]<\/a> Cf. Zoega, Bassirilievi, XI, com notas de Welcker. \u2013 Uma modifica\u00e7\u00e3o muito antiga da Grande M\u00e3e da vida representa, como \u00e9 sabido, a Artemisa de \u00c9feso, que tamb\u00e9m \u00e9 mencionada mais tarde, em exemplares romanos, \u201ca natureza multiforme e a m\u00e3e de todas as coisas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref51\" id=\"_ftn51\">[51]<\/a> Segundo a opini\u00e3o corrente na \u00e9poca da grande peste, no in\u00edcio da guerra do Peloponeso, 430 a.C., o Metroon de Atenas servia ao mesmo tempo como arquivo do estado.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref52\" id=\"_ftn52\">[52]<\/a> Juvenal, Sat. VI, 511; cf. com VII, 172 ss.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref53\" id=\"_ftn53\">[53]<\/a> Cf. I Reis 18, vers. 28.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref54\" id=\"_ftn54\">[54]<\/a> Especialmente Arn\u00f3bio, Adversus gentes, V. \u2013 Os passagens em Zoega, ob. cit.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref55\" id=\"_ftn55\">[55]<\/a> Jer\u00f4nimo, Vita S. Hilarionis, 14. Epist. 22, ad Eustochium, c. 16 e 32. \u2013 Domiciano proibiu rigorosamente em todo o Imp\u00e9rio qualquer tipo de castra\u00e7\u00e3o (Amiano, XVI, 4) e o prefeito da guarda de Sept\u00edmio Severo, Plautiano, s\u00f3 conseguiu adquirir um s\u00e9quito de eunucos para sua filha Plautila de forma violenta. (Dio Cassio, LXXV, 14 ss.)<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref56\" id=\"_ftn56\">[56]<\/a> Schwenck, ob. cit., pp. 271 ss.; onde, erroneamente, se desloca a festa de Bellona, que era em 3 de junho (Ov\u00eddio, Fasti, VI, 199) para o dia do sangue da Grande M\u00e3e e se identifica com ela.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref57\" id=\"_ftn57\">[57]<\/a> Na obra Metam. de Apuleio, VII, o sacerdote mendicante invoca quatro personifica\u00e7\u00f5es diferentes da Grande Deusa: Dea Syrie&#8230; et Bellona et mater Idaea, cum suo Adone Venus domina&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref58\" id=\"_ftn58\">[58]<\/a> A bela obra de Texier, Desc. de l\u2019Asie mineure, oferece, entre outras coisas, a constru\u00e7\u00e3o mais bem preservada do interior, o templo de Aizani.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref59\" id=\"_ftn59\">[59]<\/a> Estrab\u00e3o, XI, 14; XII, 2, 3, 5, 8; XIV, 2, ob. cit.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref60\" id=\"_ftn60\">[60]<\/a> Estrab\u00e3o I, XVII.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref61\" id=\"_ftn61\">[61]<\/a> Para o que segue, veja Boeckh, Corpus inscr. graec. III, fasc. 1, introdu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref62\" id=\"_ftn62\">[62]<\/a> Compare com Estrab\u00e3o, XVII, 1.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref63\" id=\"_ftn63\">[63]<\/a> Weingarten, Der Ursprung des Moenchthums, pp. 30 ss., segundo Brunet de Presle e Letronne.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref64\" id=\"_ftn64\">[64]<\/a> Hist. eccl. II, 23 ss. \u2013 Amiano, XXII, 16. \u2013 Avieno, orbis descr., Vs. 374.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref65\" id=\"_ftn65\">[65]<\/a> Ou poderia t\u00ea-los tocado; no Ser\u00e1pis estilizado como Zeus, uns bra\u00e7os estendidos teriam sido excessivamente chamativos.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref66\" id=\"_ftn66\">[66]<\/a> T\u00e1cito, Hist. IV, 81.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref67\" id=\"_ftn67\">[67]<\/a> Estrab\u00e3o, XVII, 1: a cidade est\u00e1 cheia de lugares sagrados e templos. Rufino, I c.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref68\" id=\"_ftn68\">[68]<\/a> Tamb\u00e9m Eut\u00edquio, Alexandre, p. 435, edi\u00e7\u00e3o Oxon. conhece um templo de Saturno com uma grande est\u00e1tua de bronze; no entanto, neste caso, como no de Rufino, pode-se tratar tamb\u00e9m de Ser\u00e1pis, que frequentemente \u00e9 identificado com Saturno.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref69\" id=\"_ftn69\">[69]<\/a> Ainda Amiano, XXII, 16, celebra as hospedarias alegres e o ar doce. Adriano mandou construir em sua <em>villa<\/em> de Tibur, entre outras maravilhas do mundo antigo, um Canopo em miniatura.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref70\" id=\"_ftn70\">[70]<\/a> Rufino, Hist. eccl. I, 26.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref71\" id=\"_ftn71\">[71]<\/a> As diversas explica\u00e7\u00f5es de Plutarco: De Iside et Osiride, 72.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref72\" id=\"_ftn72\">[72]<\/a> Amiano, XXII, 14, cf. Hist. Aug. Hadriano, c. 11.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref73\" id=\"_ftn73\">[73]<\/a> Vita Const. IV, 25, cf. com Lib\u00e2nio, Pro templis, p. 182.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref74\" id=\"_ftn74\">[74]<\/a> Plutarco, De \u00cdside et Osiride, passim.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref75\" id=\"_ftn75\">[75]<\/a> Cf. Pauly, Realencyclopedie der klassischen Alter Welt, artigo Isis, de Georgii.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref76\" id=\"_ftn76\">[76]<\/a> Como o culto de \u00cdsis se foi aproximando do templo de Delfos, segundo Tithorea, em Paus\u00e2nias XX, 32.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref77\" id=\"_ftn77\">[77]<\/a> Numerosas inscri\u00e7\u00f5es, entre outras em Orelli I, cap. IV, par\u00e1grafo 32.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref78\" id=\"_ftn78\">[78]<\/a> O que n\u00e3o est\u00e1 em contradi\u00e7\u00e3o de maneira alguma com a prote\u00e7\u00e3o que \u00cdsis oferece aos seus consagrados contra a Fortuna, imaginada como acaso (Apuleio, Metam. XI).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref79\" id=\"_ftn79\">[79]<\/a> Juvenal, Sat. VI, 522.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref80\" id=\"_ftn80\">[80]<\/a> Hist. Aug. Commodus 9, Pescennius 6. Caracala 9.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref81\" id=\"_ftn81\">[81]<\/a> Tamb\u00e9m o barco foi desfilado em cima de uma carreta pela cidade. O desfile deste <em>carrus navalis<\/em> (carro n\u00e1utico) \u00e9, provavelmente, a forma primitiva do moderno carnaval, que, devido ao jejum, n\u00e3o podia ser mantido na data de 5 de mar\u00e7o, e se transformou em uma festa m\u00f3vel.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref82\" id=\"_ftn82\">[82]<\/a> Veja em Montfaucon, Ant. expl., I, p. 330, edi\u00e7\u00e3o pequena, p. 78.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref83\" id=\"_ftn83\">[83]<\/a> Pode-se confrontar, em paralelo, Hist. Aug. T\u00e1cito, cap. 9. Divorum templum fieri iussit, in quo essent statuae pr\u00edncipum bonorum, etc. Especialmente as est\u00e1tuas de Marco Aur\u00e9lio ainda se encontravam, nos tempos de Diocleciano, em muitas casas sob os Dii Penates. Hist. Aug. Marco Aur\u00e9lio, cap. 16, 5.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref84\" id=\"_ftn84\">[84]<\/a> Al\u00e9m das indica\u00e7\u00f5es que nos d\u00e1 Eus\u00e9bio, Hist. eccl., I, 1. A seita de Sim\u00e3o ainda existia sob Constantino e se infiltrava \u201ccomo a peste e a lepra\u201d na pr\u00f3pria igreja.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref85\" id=\"_ftn85\">[85]<\/a> Roma como templum mundi totius, em Amiano, XVII, 4. Cf. p. 132, nota 3, segundo a qual o Egito reivindica os mesmos direitos.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref86\" id=\"_ftn86\">[86]<\/a> S\u00f3crates, Hist. eccl., IV, 32.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A seguir voc\u00ea ir\u00e1 ler um cap\u00edtulo da obra &#8220;A \u00c9poca de Constantino, o Grande&#8221;, de Jacob Burckhardt. Caso deseje saber mais sobre a obra, inclusive como adquiri-la, clique aqui, ou na imagem da capa abaixo. 5. O paganismo e sua mistura de deuses A \u00faltima \u00e9poca de Diocleciano e\u2026<\/p>\n<p class=\"continue-reading-button\"> <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2025\/01\/30\/a-epoca-de-constantino-o-grande-de-jacob-burckhardt\/\">Leia mais<i class=\"crycon-right-dir\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1155,"comment_status":"closed","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[51,5],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1158"}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1158"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1158\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1159,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1158\/revisions\/1159"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1155"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1158"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1158"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1158"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}