{"id":1172,"date":"2025-03-03T23:22:08","date_gmt":"2025-03-03T23:22:08","guid":{"rendered":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=1172"},"modified":"2025-03-03T23:22:08","modified_gmt":"2025-03-03T23:22:08","slug":"introducao-as-ciencias-do-espirito-de-wilhelm-dilthey","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2025\/03\/03\/introducao-as-ciencias-do-espirito-de-wilhelm-dilthey\/","title":{"rendered":"Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0s Ci\u00eancias do Esp\u00edrito, de Wilhelm Dilthey"},"content":{"rendered":"\n<p>Voc\u00ea ir\u00e1 ler, a seguir, um trecho da obra &#8220;Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0s Ci\u00eancias do Esp\u00edrito&#8221; de Wilhelm Dilthey. Caso deseje saber mais sobre a obra, bem como adquiri-la, <a href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/introducao-as-ciencias-do-espirito\/\">clique aqui<\/a> ou na capa do livro abaixo.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/introducao-as-ciencias-do-espirito\/\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"231\" height=\"328\" src=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/capinha_ciencias-do-espirito.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1168\" srcset=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/capinha_ciencias-do-espirito.jpg 231w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/capinha_ciencias-do-espirito-211x300.jpg 211w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/capinha_ciencias-do-espirito-106x150.jpg 106w\" sizes=\"(max-width: 231px) 100vw, 231px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\"> <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><a>Apresenta\u00e7\u00e3o da obra e da cole\u00e7\u00e3o<\/a><\/h1>\n\n\n\n<p><strong>Por Eugenio Imaz<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">*<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Neste primeiro volume das <strong>obras<\/strong> de Wilhelm Dilthey, posso finalmente dizer que apresento \u201cuma obra\u201d do autor e que n\u00e3o tive que realizar nenhum trabalho de sele\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o, exceto pela travessura de fazer o autor falar por meio de um sonho. De fato, trata-se de uma obra espl\u00eandida, que nos revela a firmeza desse homem para conduzir, com energia e eleg\u00e2ncia, as mais turbulentas quadrigas. No inverno de 1895-1896, Dilthey pensava em organizar os materiais acumulados desde a publica\u00e7\u00e3o do primeiro volume da Introdu\u00e7\u00e3o (1883) e concluir sua obra definitiva com a publica\u00e7\u00e3o do terceiro livro, de car\u00e1ter hist\u00f3rico, e do quarto, gnosiol\u00f3gico e sistem\u00e1tico. N\u00e3o abandonou, nem p\u00f4de abandonar essa ideia at\u00e9 pouco antes de sua morte, pois foi no ver\u00e3o de 1911 que redigiu o pr\u00f3logo destinado a introduzir todos os materiais acumulados para a parte sistem\u00e1tica, dos quais se desprendia, reunindo-os sob um t\u00edtulo comum: <em>O mundo espiritual. Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 filosofia da vida<\/em>. Depois de uma segunda tentativa fracassada em 1907, ele considerou que suas ideias haviam atingido um n\u00edvel superior com <em>A estrutura\u00e7\u00e3o do mundo hist\u00f3rico pelas ci\u00eancias do esp\u00edrito<\/em> (1910).<\/p>\n\n\n\n<p>Que me seja permitido repetir sobre Dilthey o que j\u00e1 se disse certa vez, um pouco timidamente, sobre Kant: que Dilthey morreu, aos 78 anos, prematuramente. Dissemos que, no ver\u00e3o de 1911, ele redigiu o pr\u00f3logo. Mas a hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples. Primeiro, ele o escreveu, sem conclu\u00ed-lo. Depois, o ditou, sem conclu\u00ed-lo. Ainda acrescentou corre\u00e7\u00f5es de pr\u00f3prio punho ao texto ditado, que permaneceu inacabado. Mas isso n\u00e3o \u00e9 tudo, pois sabemos por sua pr\u00f3pria declara\u00e7\u00e3o que \u201cas melhores ideias lhe ocorriam no momento de corrigir as provas\u201d. A morte reteve, de maneira impertinente, seu \u00faltimo toque. Com essa pequena anedota, o leitor pode \u201creviver\u201d, de certo modo, o que foi a vida intelectual desse colosso: uma prolongada e jubilosa tortura do arquiteto monstruoso que, tendo tra\u00e7ado firmemente os luminosos planos de sua obra, dedicava-se a aperfei\u00e7oar os materiais, desloc\u00e1-los, substitu\u00ed-los por outros melhores que a vida lhe trazia, at\u00e9 partir para o outro mundo com a ideia perfeita de sua catedral, deixando o cuidado de seus complicados arquitraves, de seus vitrais luminosos, de suas fin\u00edssimas esculturas e de suas bem fundamentadas e alt\u00edssimas naves \u00e0 piedade filial de seus disc\u00edpulos. Como nos comove quando, em algum de seus escritos, ele levanta ligeiramente esse terr\u00edvel fardo de seu destino como um exemplo preciso para esclarecer ao leitor a ideia da viv\u00eancia! Tamb\u00e9m em Kant encontramos, em seus \u00faltimos anos, secos coment\u00e1rios comoventes sobre o secular <em>ars longa, vita brevis<\/em>, com o desejo de ilustrar o sentido redentor da hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>A obra de Dilthey \u00e9 fragment\u00e1ria, claro est\u00e1. Mas quantos fil\u00f3sofos escaparam desse destino? Muitos tiveram uma vida longa, mas a arte foi ainda mais longa para eles. Os exemplos sobram. No entanto, seria um erro concluir que, por isso, sua obra seja contradit\u00f3ria, desconexa, cheia de lacunas. Ao comentar um escrito p\u00f3stumo de Kant, <em>Sistema da filosofia em sua totalidade<\/em>, Kuno Fischer afirma:<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 l\u00edcito duvidar do valor dessa obra, de seus novos pensamentos, da ordem e do m\u00e9todo nela existentes, mesmo sem t\u00ea-la lido, ao considerar o estado de fraqueza em que se encontrava seu autor e ao pensar nas conclus\u00f5es a que sua filosofia poderia t\u00ea-lo levado. N\u00e3o se pode compreender que novos pensamentos poderiam surgir dentro de uma filosofia como a sua.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m podemos dizer \u2013 com as devidas reservas em ambos os casos \u2013 sobre Dilthey: n\u00e3o se pode compreender que novos pensamentos poderiam surgir dentro de uma filosofia como a sua e, no entanto, afirmamos que morreu prematuramente. Basta comparar seu ensaio <em>Sobre o estudo da hist\u00f3ria das ci\u00eancias do homem, da sociedade e da hist\u00f3ria<\/em> (1875) com o primeiro livro da <em>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0s Ci\u00eancias do Esp\u00edrito<\/em> (1883) para medir exatamente a dist\u00e2ncia que vai de um ensaio experimental a uma obra definitiva; ou confrontar o estilo conciso e preciso, o espl\u00eandido desenvolvimento de sua exposi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica no segundo livro, com o ritmo lento de muitos de seus ensaios hist\u00f3ricos (como os publicados sob os t\u00edtulos <em>O Homem e o Mundo nos S\u00e9culos XVI e XVII<\/em> e <em>Hegel e o Idealismo<\/em>) para imaginarmos o livro magistral que poderia ter sido a continua\u00e7\u00e3o da <em>Introdu\u00e7\u00e3o<\/em>. Mas nem tudo \u00e9 perda, pois tamb\u00e9m \u00e9 verdade que muitos conceitos do primeiro livro dessa <em>Introdu\u00e7\u00e3o<\/em> se esclarecem nas p\u00e1ginas mais livres e reflexivas do ensaio, al\u00e9m do interesse \u201chist\u00f3rico-evolutivo\u201d, t\u00e3o caracter\u00edstico de Dilthey, que elas oferecem.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem d\u00favida, a anedota do pr\u00f3logo nos adverte que o caso de Wilhelm Dilthey \u00e9 muito particular, mas n\u00e3o no sentido de comprometer a unidade e a completude de seu pensamento, nem sequer naquele mais piedoso que seu disc\u00edpulo Misch destaca: a \u00e1spera e constantemente indom\u00e1vel dificuldade de plasmar a intui\u00e7\u00e3o na raz\u00e3o. Ao lermos, por exemplo, seus ensaios sobre a \u201cfundamenta\u00e7\u00e3o das ci\u00eancias do esp\u00edrito\u201d, ficamos impressionados com a pot\u00eancia intelectual desse homem para capturar, com as sutis redes da raz\u00e3o, fen\u00f4menos t\u00e3o escorregadios quanto a viv\u00eancia e a estrutura ps\u00edquica. As linhas fundamentais de seu pensamento s\u00e3o constru\u00eddas com a mesma maestria arquitet\u00f4nica, mas o car\u00e1ter concreto e infinito de sua filosofia \u2013 elevar \u00e0 consci\u00eancia a pr\u00f3pria vida \u2013 faz dele a figura atormentada que Vasari intu\u00eda no retrato de Michelangelo. Seu profundo temperamento po\u00e9tico o leva a retocar incessantemente a forma pl\u00e1stica de suas constru\u00e7\u00f5es intelectuais e a buscar constantemente, na vida e na hist\u00f3ria, novos materiais de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso vem a prop\u00f3sito porque, com a publica\u00e7\u00e3o atual de sua <em>Introdu\u00e7\u00e3o<\/em>, acreditamos ter chegado o momento de oferecer aos leitores de Dilthey o plano que nos orienta na edi\u00e7\u00e3o de suas obras. Embora tenham sido acompanhados de explica\u00e7\u00f5es correspondentes, para o leitor eles poderiam ter parecido um pouco como ca\u00eddos do c\u00e9u. Mas n\u00e3o se assustem nem os cron\u00f3logos nem os historicistas ing\u00eanuos.<\/p>\n\n\n\n<p>Dispusemos \u201cnossa cole\u00e7\u00e3o\u201d de forma bastante clara e, acreditamos, pouco arbitr\u00e1ria. Os volumes da cole\u00e7\u00e3o que ora publicamos est\u00e3o distribu\u00eddos da seguinte forma:<\/p>\n\n\n\n<p>I. Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0s Ci\u00eancias do Esp\u00edrito<\/p>\n\n\n\n<p>II. Homem e mundo nos s\u00e9culos XVI e XVII<\/p>\n\n\n\n<p>III. Hegel e Idealismo<\/p>\n\n\n\n<p>IV. Psicologia e Teoria do Conhecimento<\/p>\n\n\n\n<p>V. O Mundo Hist\u00f3rico<\/p>\n\n\n\n<p>VI. Teoria da Concep\u00e7\u00e3o de Mundo<\/p>\n\n\n\n<p>VI. Hist\u00f3ria da Filosofia<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">*<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A apresenta\u00e7\u00e3o de Dilthey que elaboramos como introdu\u00e7\u00e3o a esta cole\u00e7\u00e3o revela com clareza a inten\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica fundamental de Dilthey: encarar integralmente o enigma da vida e realizar seu sonho por meio da fundamenta\u00e7\u00e3o das ci\u00eancias do esp\u00edrito. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel falar da filosofia de Dilthey sem essa conex\u00e3o, nem compreender sua Ess\u00eancia da Filosofia (1907) fora desse contexto. Adiaremos, no entanto, o desenvolvimento detalhado do esquema.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso tamb\u00e9m significa que n\u00e3o concordamos com o esquema de Heidegger (Ser e Tempo), nem com o de Ortega (Dilthey e a Ideia de Vida), embora este n\u00e3o seja o momento de debat\u00ea-los.<\/p>\n\n\n\n<p>Queremos, contudo, chamar aten\u00e7\u00e3o para o fato de que a afirma\u00e7\u00e3o de Heidegger de que sua obra est\u00e1 a servi\u00e7o da de Dilthey nos parece um tanto ir\u00f4nica, sen\u00e3o involuntariamente sarc\u00e1stica. O que Heidegger fez, com pleno direito, foi colocar a obra de Dilthey a servi\u00e7o da sua pr\u00f3pria \u2013 assim como fez com Bergson e Husserl. No entanto, e \u00e9 isso que nos leva a essa digress\u00e3o, esses tr\u00eas grandes mestres tiveram um prop\u00f3sito oposto ao de Heidegger, pois a raiz vital \u2013 que n\u00e3o se pode separar nem do solo nem do ambiente \u2013 de suas filosofias \u00e9 outra. Cada um, a partir de sua pr\u00f3pria posi\u00e7\u00e3o, tentou enfrentar o relativismo que dominava a consci\u00eancia intelectual do s\u00e9culo XIX devido ao positivismo, ao psicologismo e ao historicismo. E todos o fizeram pelo m\u00e9todo cl\u00e1ssico dos fil\u00f3sofos: aumentando a dose. Assim, Husserl foi ainda mais positivista (fenomenologia), Bergson mais psicologista (psicologia profunda), e Dilthey levou o historicismo \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias, isto \u00e9, \u00e0 autognose.<\/p>\n\n\n\n<p>Com \u00eaxito ou sem ele, esse \u00e9 o seu prop\u00f3sito. No caso de Husserl, n\u00e3o creio que seja necess\u00e1rio insistir. No de Bergson\u2026 leiam, por exemplo, <em>Les grandes amiti\u00e9s<\/em>, de Ra\u00efsa Maritain. No de Dilthey\u2026 leiam seu sonho, a \u00fanica manifesta\u00e7\u00e3o de sua vida que, por sua natureza, escapa \u00e0 reitera\u00e7\u00e3o corretiva e que, no entanto, tamb\u00e9m foi retocada!<\/p>\n\n\n\n<p>Em outras circunst\u00e2ncias de tempo e lugar, Dilthey representa algo semelhante ao que Bergson foi na Fran\u00e7a: uma poss\u00edvel fuga do relativismo. P\u00e9guy falava com desprezo dos cientistas e \u201chistoricistas\u201d da Sorbonne e recomendava que se escutasse Bergson. Os \u201chistoricistas\u201d a que se refere P\u00e9guy s\u00e3o os historiadores mergulhados na oficina dos fatos hist\u00f3ricos, sem qualquer apreens\u00e3o ou preocupa\u00e7\u00e3o com o \u201csentido\u201d ou algo semelhante. Contra esses historicistas tamb\u00e9m se dirige o historicismo de Dilthey. N\u00e3o se trata de uma contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Valendo-se da fenomenologia e de seu m\u00e9todo como um bisturi \u2013 ou melhor, como uma broca \u2013, Heidegger n\u00e3o faz mais do que perfurar, perfurar tudo o que encontra pela frente, incluindo o mundo hist\u00f3rico erguido por Dilthey, para terminar com o vazio puro, com a exist\u00eancia sustentada sobre o nada, e come\u00e7ar a fabricar sua filosofia existencial, como o sargento fabricava canh\u00f5es: pega-se um vazio e depois o reveste. O <em>In-der-Welt-sein<\/em> heideggeriano j\u00e1 est\u00e1 perfeitamente prefigurado por Dilthey em <em>A Origem de Nossa Cren\u00e7a na Realidade do Mundo Exterior<\/em> (1890), mas, enquanto Dilthey constr\u00f3i o sentido imanente do mundo, Heidegger constr\u00f3i a imanente falta de sentido do nosso estar-no-mundo. Sua filosofia clama por uma complementa\u00e7\u00e3o transcendente, seja por meio de uma teologia, seja \u00e0 for\u00e7a, com uma camisa de for\u00e7a pol\u00edtica. J\u00e1 a raz\u00e3o de ser de Dilthey reside precisamente em sua antipatia pelo transcendentalismo teol\u00f3gico (<em>Jenseitigkeit<\/em>) e em seu apego ao aqu\u00e9m: \u00e0s grandes objetividades da hist\u00f3ria. Sua cr\u00edtica a Hegel \u00e9 que este, envolvido pela pol\u00edtica universit\u00e1ria, acabou participando de uma campanha contra a liberdade de pensamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Se j\u00e1 se fez a psican\u00e1lise da psican\u00e1lise de Freud, tamb\u00e9m seria interessante e poss\u00edvel realizar uma an\u00e1lise existencial da an\u00e1lise existencial de Heidegger. Ver\u00edamos, ent\u00e3o, de maneira escandalosa, como ele distorce os fatos em favor de sua pr\u00f3pria causa e \u201cdestr\u00f3i\u201d a hist\u00f3ria da ontologia at\u00e9 encontrar sua pr\u00f3pria possibilidade existencial de <em>Wiederholung<\/em>, de repeti\u00e7\u00e3o \u2013 um destino no qual possa encaixar o seu, esse destino pessoal\u00edssimo de um estoico do nada consumido pela morte. Dizem que ele traduz os textos gregos \u201ctraindo-os\u201d para n\u00e3o trair a si mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso \u00e9 decisivo: os \u201cpreconceitos\u201d filos\u00f3ficos de Dilthey servem-lhe para realizar uma obra historiogr\u00e1fica incompar\u00e1vel, permitindo-lhe intuir e vivenciar intensamente todas as formas de cria\u00e7\u00e3o espiritual que o mundo hist\u00f3rico nos oferece. J\u00e1 os \u201cpreconceitos\u201d de Heidegger servem-lhe para levar a cabo uma redu\u00e7\u00e3o destrutiva, digna de um mestre em demoli\u00e7\u00f5es. A primeira demoli\u00e7\u00e3o que realiza com Dilthey \u00e9 declarar que seu empenho gnosiol\u00f3gico \u2013 que o ocupou por toda a vida \u2013 n\u00e3o tem import\u00e2ncia maior. Daqui decorre tamb\u00e9m o diferente valor educativo de uma e outra obra.<\/p>\n\n\n\n<p>Quaisquer que sejam as fragilidades filos\u00f3ficas da obra de Dilthey, sua inten\u00e7\u00e3o universalista e seu vasto humanismo a tornam proveitosa e fecunda. Insistimos deliberadamente na import\u00e2ncia de sua contribui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, pois n\u00e3o queremos, de forma alguma, que proliferem por toda parte pequenos fil\u00f3sofos diltheyanos. Dilthey representa o maior esfor\u00e7o j\u00e1 feito pelo psicologismo para salvar a hist\u00f3ria, conferindo-lhe um sentido. O psicologismo \u2013 os dados da consci\u00eancia \u2013 \u00e9, queiramos ou n\u00e3o, a grande caracter\u00edstica da \u00e9poca filos\u00f3fica imediatamente anterior \u00e0 nossa (Bergson, James, Dilthey, Husserl). E talvez uma boa ducha seja necess\u00e1ria para nos livrarmos dele, caso isso nos convenha. Afinal, n\u00e3o h\u00e1 outra maneira de reduzir os complexos sen\u00e3o encarando-os de frente.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro livro da <em>Introdu\u00e7\u00e3o<\/em> representa, como Max Weber declara em suas <em>Gesammelte Aufs\u00e4tze zur Wissenschaftslehre<\/em>, o primeiro estudo s\u00e9rio e abrangente a abordar o problema metodol\u00f3gico das chamadas ci\u00eancias do esp\u00edrito \u2013 em nossa tradi\u00e7\u00e3o, \u201cci\u00eancias morais e pol\u00edticas\u201d \u2013 , denomina\u00e7\u00e3o que Dilthey adotou inicialmente, seguindo tamb\u00e9m a tradi\u00e7\u00e3o francesa. Trata-se de um documento excepcional, pois dele se origina todo um movimento no estudo das ci\u00eancias sociais, que se contrap\u00f5e \u00e0quele que, paralelamente e com igual genialidade, representa Max Weber. S\u00e3o duas obras tit\u00e2nicas que estabelecem com impon\u00eancia as duas vertentes. Apenas chamamos a aten\u00e7\u00e3o para isso porque ainda estamos sob o impacto desse di\u00e1logo de altura, em que os solil\u00f3quios desses dois gigantes se entrela\u00e7am. \u00c9 preciso recorrer a essas duas fontes para compreender a grande pol\u00eamica do mundo cient\u00edfico atual: a constru\u00e7\u00e3o das ci\u00eancias sociais. Como o espet\u00e1culo do hero\u00edsmo, essa pol\u00eamica tamb\u00e9m eleva o esp\u00edrito e inspira respeito pelo ser humano.<\/p>\n\n\n\n<p>No ep\u00edlogo de Hegel e o Idealismo, em que fizemos tantas recomenda\u00e7\u00f5es impertinentes, nos escapou a mais impertinente de todas.<\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><a>Livro Primeiro<\/a><\/h1>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><a>Introdu\u00e7\u00e3o: vislumbre sobre a conex\u00e3o das ci\u00eancias particulares do esp\u00edrito que evidencia a necessidade de uma ci\u00eancia fundamentadora<\/a><\/h1>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 certo que, at\u00e9 agora, a realidade tem se revelado \u00e0 ci\u00eancia investigadora, fiel \u00e0s suas leis, com uma grandeza e abund\u00e2ncia tais que nem os esfor\u00e7os mais extremados da fantasia m\u00edtica nem os da especula\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica poderiam jamais sonhar.<\/p>\n\n\n\n<p>Helmholtz<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>I. Prop\u00f3sito desta introdu\u00e7\u00e3o \u00e0s Ci\u00eancias do Esp\u00edrito<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>A partir das famosas obras de Bacon, os escritos que se ocupam dos fundamentos e m\u00e9todos das ci\u00eancias da natureza e que, dessa forma, introduzem o estudo delas, foram em sua maioria redigidos pelos pr\u00f3prios pesquisadores, e os mais conhecidos entre todos s\u00e3o os trabalhos de sir John Herschel. Uma necessidade semelhante se fez sentir entre os que se ocupavam de hist\u00f3ria, pol\u00edtica, jurisprud\u00eancia, economia pol\u00edtica, teologia, literatura, arte. Parece que as necessidades dos que se dedicam a essas ci\u00eancias s\u00e3o diferentes das necessidades pr\u00e1ticas da sociedade, sendo seu objetivo outro que a forma\u00e7\u00e3o profissional, que serve \u00e0 sociedade para que esta dote seus \u00f3rg\u00e3os diretores de conhecimentos adequados \u00e0s suas tarefas. No entanto, tal forma\u00e7\u00e3o profissional poder\u00e1 capacitar os indiv\u00edduos para desempenhos destacados apenas na medida em que ultrapasse os limites da forma\u00e7\u00e3o estritamente t\u00e9cnica. A sociedade pode ser comparada a uma grande m\u00e1quina em movimento, mantida nela pelos servi\u00e7os de numerosas pessoas: quem estiver dotado apenas da t\u00e9cnica de sua profiss\u00e3o se encontrar\u00e1, por melhor que a possua, na situa\u00e7\u00e3o de um trabalhador que, durante toda sua vida, se ocupa em um \u00fanico ponto dessa grande m\u00e1quina, desconhecendo as for\u00e7as que a colocam em movimento e sem ter ideia das outras partes do engenho e de sua coopera\u00e7\u00e3o no objetivo total. Ser\u00e1 um instrumento \u00fatil para a sociedade, mas n\u00e3o um \u00f3rg\u00e3o que a molde conscientemente. Tomara que esta introdu\u00e7\u00e3o facilite a pol\u00edticos e juristas, te\u00f3logos e pedagogos, a tarefa de conhecer a rela\u00e7\u00e3o entre os princ\u00edpios e regras que os inspiram com a realidade mais ampla da sociedade humana, \u00e0 qual, no fim das contas, est\u00e1 dedicado o trabalho de sua vida, a partir do ponto particular em que atuam.<\/p>\n\n\n\n<p>Pela pr\u00f3pria natureza do objeto, os conhecimentos necess\u00e1rios para resolver a tarefa proposta devem alcan\u00e7ar essas verdades que precisam ser colocadas na base tanto do conhecimento da natureza quanto do mundo hist\u00f3rico-social. Esta tarefa, que se funda nas necessidades da vida pr\u00e1tica, encontra, ao ser considerada dessa forma, um problema que afeta a situa\u00e7\u00e3o da teoria pura.<\/p>\n\n\n\n<p>As ci\u00eancias que t\u00eam como objeto a realidade hist\u00f3rico-social buscam com mais rigor do que antes sua conex\u00e3o m\u00fatua e seu fundamento. Impulsionam nessa dire\u00e7\u00e3o, juntamente com as causas que obedecem ao estado de cada ci\u00eancia positiva particular, poderosas for\u00e7as provenientes das convuls\u00f5es experimentadas pela sociedade desde a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. O conhecimento das for\u00e7as que regem a sociedade, das causas que produziram suas convuls\u00f5es, de seus recursos para um progresso saud\u00e1vel, tudo isso se tornou uma quest\u00e3o vital para nossa civiliza\u00e7\u00e3o. Por isso cresce a import\u00e2ncia das ci\u00eancias sociais frente \u00e0s ci\u00eancias da natureza; com as grandes dimens\u00f5es de nossa vida moderna, verifica-se uma mudan\u00e7a no interesse cient\u00edfico, semelhante \u00e0 que ocorreu nas pequenas cidades gregas nos s\u00e9culos V e IV antes de Cristo, quando as mudan\u00e7as operadas nessa sociedade de estados trouxeram as teorias negativas do direito natural dos sofistas e, diante delas, os trabalhos da escola socr\u00e1tica sobre o estado.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>II. As Ci\u00eancias do Esp\u00edrito constituem um todo aut\u00f4nomo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s ci\u00eancias da natureza<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>O conjunto das ci\u00eancias que t\u00eam como objeto a realidade hist\u00f3rico-social \u00e9 abrangido nesta obra sob o t\u00edtulo de \u201cci\u00eancias do esp\u00edrito\u201d. Somente ao longo da obra poder\u00e1 ser explicado e fundamentado o conceito dessas ci\u00eancias, com o qual constituem um todo, e a delimita\u00e7\u00e3o deste frente \u00e0s ci\u00eancias da natureza; assim, por ora, nos limitaremos a fixar o sentido em que vamos empregar essa express\u00e3o e a nos referir provisoriamente ao complexo de fatos em que se apoia a delimita\u00e7\u00e3o de tal todo unit\u00e1rio das ci\u00eancias do esp\u00edrito frente \u00e0s ci\u00eancias da natureza.<\/p>\n\n\n\n<p>O uso comum entende por ci\u00eancia um conjunto de proposi\u00e7\u00f5es cujos elementos s\u00e3o conceitos, completamente determinados, constantes e de validade universal em todo o contexto mental, cujos enlaces est\u00e3o fundamentados, e em que, finalmente, as partes se encontram entrela\u00e7adas em um todo para fins de comunica\u00e7\u00e3o, seja porque, com esse todo, se pensa por inteiro uma parte integrante da realidade ou se regula uma \u00e1rea da atividade humana. Designamos, portanto, com a express\u00e3o ci\u00eancia, todo complexo de fatos espirituais em que se d\u00e3o as caracter\u00edsticas mencionadas e que, por geral, costuma receber tal nome: assim, fixamos o \u00e2mbito da nossa tarefa de maneira provis\u00f3ria. Esses fatos espirituais que se desenvolveram no homem historicamente e aos quais o uso comum da linguagem se refere como ci\u00eancias do homem, da hist\u00f3ria, da sociedade, constituem a realidade que tratamos, n\u00e3o de dominar, mas de compreender previamente. O m\u00e9todo emp\u00edrico exige que a quest\u00e3o do valor dos diversos procedimentos que o pensamento utiliza para resolver suas tarefas seja decidida hist\u00f3rica e criticamente dentro do corpo dessas mesmas ci\u00eancias, e que se esclare\u00e7a, por meio da considera\u00e7\u00e3o desse grande processo cujo sujeito \u00e9 a humanidade, a natureza do saber e do conhecer neste dom\u00ednio. Tal m\u00e9todo est\u00e1 em oposi\u00e7\u00e3o com outro que recentemente tem sido praticado com excessiva frequ\u00eancia pelos chamados positivistas, e que consiste em deduzir o conceito de ci\u00eancia da determina\u00e7\u00e3o conceitual do saber obtida no trabalho das ci\u00eancias da natureza, resolvendo depois, com esse padr\u00e3o, quais atividades intelectuais merecer\u00e3o o nome e o status de ci\u00eancia. Assim, alguns, partindo de um conceito arbitr\u00e1rio do saber, negaram o status de ci\u00eancia, com ineg\u00e1vel miopia, \u00e0 historiografia praticada pelos maiores mestres; outros, acreditaram ser pertinente transformar em um conhecimento acerca da realidade aquelas ci\u00eancias que t\u00eam como fundamento imperativos e n\u00e3o ju\u00edzos sobre a realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O complexo de fatos espirituais que se enquadra nesse conceito de ci\u00eancia costuma ser dividido em dois membros, dos quais um leva o nome de \u201cci\u00eancias da natureza\u201d; para o outro membro, o que \u00e9 bastante surpreendente, n\u00e3o existe uma designa\u00e7\u00e3o comum reconhecida. Adoto a terminologia daqueles pensadores que denominam essa outra metade do <em>globus intellectualis<\/em> de \u201cci\u00eancias do esp\u00edrito\u201d. Por um lado, essa designa\u00e7\u00e3o se tornou bastante geral e compreens\u00edvel, gra\u00e7as tamb\u00e9m, em grande parte, \u00e0 popularidade da <em>L\u00f3gica<\/em> de John Stuart Mill. Por outro lado, parece ser a express\u00e3o menos inadequada, se comparada com as op\u00e7\u00f5es que temos para escolher. Ela expressa de maneira muito imperfeita o objeto deste estudo. Pois nele n\u00e3o se encontram separados os fatos da vida espiritual da unidade psicof\u00edsica de vida que \u00e9 a natureza humana. Uma teoria que pretende descobrir e analisar os fatos hist\u00f3rico-sociais n\u00e3o pode prescindir dessa totalidade da natureza humana e se limitar ao espiritual. Mas a express\u00e3o participa desse defeito como todas as que foram utilizadas; ci\u00eancia da sociedade (sociologia), ci\u00eancias morais, hist\u00f3ricas, da cultura: todas essas denomina\u00e7\u00f5es padecem do mesmo defeito, o de serem demasiado estreitas em rela\u00e7\u00e3o ao objeto que tentam apontar. E o nome escolhido por n\u00f3s tem, ao menos, a vantagem de desenhar adequadamente o c\u00edrculo de fatos centrais a partir do qual se verificou na realidade a vis\u00e3o da unidade dessas ci\u00eancias, fixou-se seu \u00e2mbito e demarcou-se, embora de maneira imperfeita, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s ci\u00eancias da natureza.<\/p>\n\n\n\n<p>A raz\u00e3o pela qual nasceu o costume de separar, em unidade, essas ci\u00eancias das ci\u00eancias da natureza encontra suas ra\u00edzes nas profundezas e na totalidade da autoconsci\u00eancia humana. Sem estar ainda alertado pelas investiga\u00e7\u00f5es sobre a origem do espiritual, o homem encontra nesta autoconsci\u00eancia uma soberania da vontade, uma responsabilidade das a\u00e7\u00f5es, uma capacidade de submeter tudo ao pensamento e de resistir a tudo dentro do castelo da pessoa, com o que se diferencia de toda a natureza. De fato, encontra-se dentro dela, para usar uma express\u00e3o de Spinoza, como um <em>imperium in imperio<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em>. E como para ele existe apenas o que \u00e9 feito de sua consci\u00eancia, na independ\u00eancia desse mundo espiritual, que age nele autonomamente, encontra-se todo valor, todo fim da vida, e na cria\u00e7\u00e3o de fatos espirituais, toda a meta de suas a\u00e7\u00f5es. Assim, separa do reino da natureza um reino da hist\u00f3ria no qual, em meio \u00e0 trama de uma necessidade objetiva, que \u00e9 o que constitui a natureza, brilha a liberdade por in\u00fameros pontos; separa os fatos da vontade que, em contraposi\u00e7\u00e3o ao curso mec\u00e2nico das mudan\u00e7as naturais, que j\u00e1 cont\u00e9m em princ\u00edpio tudo o que acontece, produzem na verdade, com seu desperd\u00edcio de for\u00e7a e seu sacrif\u00edcio, cuja import\u00e2ncia o indiv\u00edduo percebe de forma efetiva em sua pr\u00f3pria experi\u00eancia, algo realmente novo e originam um desenvolvimento na pessoa e na humanidade: acima da vazia e est\u00e9ril repeti\u00e7\u00e3o na consci\u00eancia do curso natural, cuja ideia, convertida no ideal do progresso hist\u00f3rico, parece encontrar sua del\u00edcia nos fetichistas do progresso intelectual.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00e9poca metaf\u00edsica, para a qual essa diferen\u00e7a nas raz\u00f5es explicativas se apresentou logo como uma diferen\u00e7a substancial na articula\u00e7\u00e3o objetiva da conex\u00e3o c\u00f3smica, lutou inutilmente para obter e fundamentar f\u00f3rmulas que servissem de base objetiva a essa diferen\u00e7a entre os fatos da vida espiritual e os do curso natural. Entre todas as mudan\u00e7as experimentadas pela metaf\u00edsica dos antigos no pensamento medieval, nenhuma teve consequ\u00eancias maiores do que o fato de que, devido \u00e0 conex\u00e3o com os movimentos religiosos e teol\u00f3gicos, que dominavam tudo, e que sustentavam esse pensamento, foi colocada no centro do sistema a fixa\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a entre o mundo dos esp\u00edritos e o mundo dos corpos, e depois a rela\u00e7\u00e3o desses dois mundos com a divindade. A obra metaf\u00edsica capital da Idade M\u00e9dia, a <em>Summa de veritate catholicae fidei<\/em> de Tom\u00e1s de Aquino, tra\u00e7a a partir do segundo livro uma articula\u00e7\u00e3o do mundo criado em que se distingue a ess\u00eancia (<em>essentia<\/em>, <em>quidditas<\/em>) do ser (<em>esse<\/em>), enquanto que em Deus ambos s\u00e3o a mesma coisa<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[2]<\/a>; na hierarquia dos seres criados, aponta como um membro supremo necess\u00e1rio as subst\u00e2ncias espirituais, que n\u00e3o se comp\u00f5em de mat\u00e9ria e forma, mas que s\u00e3o <em>per se<\/em> incorp\u00f3reas: os anjos; separa delas as subst\u00e2ncias intelectuais ou formas que subsistem incorp\u00f3reas, mas que, para completar sua esp\u00e9cie (ou seja, a esp\u00e9cie humana), necessitam do corpo, e desenvolve nesse ponto uma metaf\u00edsica do esp\u00edrito humano em luta com os fil\u00f3sofos \u00e1rabes, metaf\u00edsica cujas influ\u00eancias podem ser seguidas at\u00e9 os \u00faltimos autores metaf\u00edsicos de nossos dias<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[3]<\/a>; separa desse mundo de subst\u00e2ncias imperec\u00edveis aquela parte da cria\u00e7\u00e3o que encontra sua ess\u00eancia na uni\u00e3o de mat\u00e9ria e forma. Quando passou a dominar a concep\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica da conex\u00e3o natural e a filosofia corpuscular, essa metaf\u00edsica do esp\u00edrito (psicologia racional) foi posta em rela\u00e7\u00e3o com ela por outros metaf\u00edsicos destacados. Mas fracassou toda tentativa de levantar uma concep\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel das rela\u00e7\u00f5es entre o esp\u00edrito e o corpo com a base daquela teoria das subst\u00e2ncias e com os recursos oferecidos pela nova concep\u00e7\u00e3o da natureza. Quando Descartes desenvolve, com base nas propriedades claras e distintas dos corpos, sua ideia da natureza como um gigantesco mecanismo e considera como constante a quantidade de movimento contida nesse todo, tem-se que, com o pressuposto de que uma \u00fanica alma geraria de fora movimento nesse sistema material, penetrava irremediavelmente a contradi\u00e7\u00e3o. E a impossibilidade de representar uma a\u00e7\u00e3o de subst\u00e2ncias sem espa\u00e7o dentro do sistema extenso n\u00e3o foi diminu\u00edda pelo fato de fixar o lugar espacial da intera\u00e7\u00e3o em um ponto, como se isso pudesse fazer desaparecer a dificuldade. A explica\u00e7\u00e3o aventurada de que a divindade mantinha o jogo das intera\u00e7\u00f5es por meio de interven\u00e7\u00f5es constantemente repetidas e a outra ideia de que Deus, como o mais excelente dos artistas, havia sincronizado de tal maneira os dois rel\u00f3gios, o sistema material e o mundo espiritual, que parecia que um acontecimento natural produzia uma sensa\u00e7\u00e3o e um ato de vontade mudava o mundo exterior, demonstraram de forma patente a incompatibilidade da nova metaf\u00edsica da natureza com a metaf\u00edsica tradicional das subst\u00e2ncias espirituais. Esse problema operou como um est\u00edmulo constante para a liquida\u00e7\u00e3o do ponto de vista metaf\u00edsico. Essa liquida\u00e7\u00e3o ser\u00e1 completamente realizada com o conhecimento ulterior de que a viv\u00eancia da autoconsci\u00eancia constitui o ponto de partida do conceito de subst\u00e2ncia, que esse conceito nasceu da adapta\u00e7\u00e3o dessa viv\u00eancia \u00e0s experi\u00eancias externas levadas a cabo pelo conhecimento progressivo segundo o princ\u00edpio da raz\u00e3o suficiente e que, portanto, essa teoria das subst\u00e2ncias espirituais n\u00e3o significa outra coisa sen\u00e3o um retrocesso do conceito, originado nessa metamorfose, \u00e0 viv\u00eancia mesma de onde ele havia tirado sua origem.<\/p>\n\n\n\n<p>Em lugar da oposi\u00e7\u00e3o de subst\u00e2ncias materiais e espirituais, surgiu a oposi\u00e7\u00e3o entre o mundo exterior, o mundo do dado na percep\u00e7\u00e3o externa pelos sentidos (sensa\u00e7\u00e3o) e o mundo interior que nos \u00e9 oferecido primariamente pela capta\u00e7\u00e3o interna dos acontecimentos e atividades ps\u00edquicas (reflex\u00e3o). Dessa forma, o problema assume uma forma mais modesta, mas que comporta a possibilidade de ser tratado empiricamente. E, diante dos novos e melhores m\u00e9todos, tamb\u00e9m se tornam v\u00e1lidas as mesmas viv\u00eancias que, na teoria das subst\u00e2ncias da psicologia racional, haviam encontrado uma express\u00e3o cientificamente insustent\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a constitui\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma das ci\u00eancias do esp\u00edrito, basta, por enquanto, que, a partir deste ponto de vista cr\u00edtico, se separe desses fen\u00f4menos que se constituem com o material do dado nos sentidos, e apenas com esse material, por meio de liga\u00e7\u00f5es mentais, outro c\u00edrculo de fatos que nos s\u00e3o dados primariamente na experi\u00eancia interna, portanto, sem a coopera\u00e7\u00e3o dos sentidos, e que depois, sobre o material primariamente dado da experi\u00eancia interna, se \u201cconfiguram\u201d, por sugest\u00e3o dos fen\u00f4menos naturais exteriores e para subordin\u00e1-los a eles por meio de um m\u00e9todo que, tal como opera, equivale ao racioc\u00ednio por analogia. Assim surge um campo peculiar de experi\u00eancias que tem sua origem pr\u00f3pria e seu material na viv\u00eancia interna e que, portanto, \u00e9 objeto de uma ci\u00eancia emp\u00edrica especial. E enquanto n\u00e3o se possa afirmar que se pode deduzir e explicar melhor o conjunto de paix\u00f5es, figuras po\u00e9ticas, medita\u00e7\u00f5es que n\u00f3s designamos como a vida de Goethe, por meio da estrutura de seu c\u00e9rebro e das qualidades de seu corpo, n\u00e3o se poder\u00e1 negar a posi\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma de tal ci\u00eancia. Como o que nos \u00e9 dado o \u00e9 por meio dessa experi\u00eancia interna, e o que tem valor para n\u00f3s ou o que \u00e9 um fim se nos apresenta como tal na viv\u00eancia de nosso sentimento e de nossa vontade, resulta que nesta ci\u00eancia se encontram os princ\u00edpios de nosso conhecimento que determinam at\u00e9 que ponto a natureza pode existir para n\u00f3s, os princ\u00edpios de nossa a\u00e7\u00e3o que explicam a exist\u00eancia de fins, meios, valores nos quais se fundamenta todo trato pr\u00e1tico com a natureza.<\/p>\n\n\n\n<p>A funda\u00e7\u00e3o profunda da posi\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma das ci\u00eancias do esp\u00edrito frente \u00e0s ci\u00eancias da natureza, posi\u00e7\u00e3o que constitui o centro da constru\u00e7\u00e3o das ci\u00eancias do esp\u00edrito que esta obra oferece, se d\u00e1 nela passo a passo \u00e0 medida que se verifica a an\u00e1lise da viv\u00eancia total do mundo espiritual em seu car\u00e1ter incompar\u00e1vel com toda a experi\u00eancia sens\u00edvel sobre a natureza. N\u00e3o fa\u00e7o mais do que esclarecer um pouco o problema ao me referir ao duplo sentido no qual se pode afirmar a incompatibilidade de ambos os grupos de fatos: e, a esse respeito, o conceito dos limites do conhecimento natural adquire tamb\u00e9m um significado duplo.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos mais destacados investigadores da natureza tentou fixar esses limites em um ensaio muito discutido, e recentemente explicou com maior detalhe os limites de sua ci\u00eancia<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[4]<\/a>. Imaginemos que reduzimos todas as mudan\u00e7as do mundo corp\u00f3reo a movimentos de \u00e1tomos, originados por suas for\u00e7as centrais constantes, ent\u00e3o conhecer\u00edamos cient\u00edfica e naturalmente o cosmos. Como afirma Laplace,<\/p>\n\n\n\n<p>Um esp\u00edrito que conhecesse todas as for\u00e7as que, em um determinado momento, atuam na natureza e a situa\u00e7\u00e3o rec\u00edproca dos seres que a comp\u00f5em, e tivesse a capacidade suficiente para submeter esses dados \u00e0 an\u00e1lise, compreenderia na mesma f\u00f3rmula os movimentos dos corpos celestes maiores e dos \u00e1tomos mais leves<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\">[5]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Como a intelig\u00eancia humana encontra na ci\u00eancia astron\u00f4mica uma reprodu\u00e7\u00e3o em pequena escala de tal esp\u00edrito, esse conhecimento de um sistema material imaginado por Laplace \u00e9 caracterizado por Du Bois-Reymond como sistema astron\u00f4mico. Com essa ideia, podemos chegar a uma concep\u00e7\u00e3o bem clara dos limites nos quais se encontra aprisionada a tend\u00eancia do esp\u00edrito cient\u00edfico natural.<\/p>\n\n\n\n<p>Permita-me introduzir uma distin\u00e7\u00e3o no que se refere ao conceito de limites do conhecimento natural nesta considera\u00e7\u00e3o. Como a realidade, como correlato da experi\u00eancia, nos \u00e9 dada na coopera\u00e7\u00e3o do sistema de nossos sentidos com a experi\u00eancia interna, a diferente proced\u00eancia de suas partes integrantes condiciona uma incomparabilidade dentro dos elementos de nosso c\u00e1lculo cient\u00edfico. Exclui a dedu\u00e7\u00e3o de fatos de determinada proced\u00eancia daqueles de outra. Assim, apenas por meio da factualidade da sensa\u00e7\u00e3o t\u00e1til, na qual experimentamos resist\u00eancia, chegamos, a partir das propriedades do espa\u00e7o, \u00e0 representa\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria; cada um dos sentidos est\u00e1 encerrado em um c\u00edrculo de qualidades que lhe s\u00e3o pr\u00f3prias; e temos que partir da sensa\u00e7\u00e3o para nos darmos conta dos estados internos a fim de termos uma situa\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia em um momento determinado. Portanto, n\u00e3o nos resta sen\u00e3o aceitar os dados com a incomparabilidade com a qual nos s\u00e3o apresentados devido \u00e0 sua proced\u00eancia diferente; sua factualidade \u00e9 para n\u00f3s insond\u00e1vel; todo o nosso conhecimento est\u00e1 limitado ao estabelecimento de uniformidades na sucess\u00e3o e na coexist\u00eancia, de acordo com as quais se mant\u00eam em rela\u00e7\u00e3o segundo nossa experi\u00eancia. Estas s\u00e3o limita\u00e7\u00f5es que residem nas condi\u00e7\u00f5es de nossa pr\u00f3pria experi\u00eancia, e se apresentam em todos os pontos da ci\u00eancia natural. N\u00e3o se trata de limites externos com os quais trope\u00e7a o conhecimento natural, mas de condi\u00e7\u00f5es imanentes da pr\u00f3pria experi\u00eancia. A exist\u00eancia desses limites imanentes do conhecimento n\u00e3o constitui obst\u00e1culo algum para a fun\u00e7\u00e3o do conhecer. Se entendemos por conceitua\u00e7\u00e3o a transpar\u00eancia plena na apreens\u00e3o de uma conex\u00e3o, estamos diante dos limites da conceitua\u00e7\u00e3o. E se o c\u00e1lculo da ci\u00eancia, pelo qual se reduzem as mudan\u00e7as da realidade aos movimentos dos \u00e1tomos, subordina qualidades ou fen\u00f4menos de consci\u00eancia, o fato da inderivabilidade n\u00e3o constitui obst\u00e1culo algum para suas opera\u00e7\u00f5es, se essas qualidades ou fen\u00f4menos lhe forem submetidos; \u00e9 t\u00e3o imposs\u00edvel para ele partir da pura determina\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica ou da quantidade de movimento para um colorido ou um som, quanto para um fato de consci\u00eancia; a luz azul resulta t\u00e3o pouco explicada por seu correspondente n\u00famero de vibra\u00e7\u00f5es quanto o ju\u00edzo negativo por um fato no c\u00e9rebro. A f\u00edsica abandona \u00e0 filosofia a explica\u00e7\u00e3o da qualidade sens\u00edvel \u201cazul\u201d; esta, que n\u00e3o disp\u00f5e no movimento das part\u00edculas materiais de meio algum para conjurar o azul, abandona o assunto \u00e0 psicologia, e a\u00ed o assunto fica. Mas em si mesma, a hip\u00f3tese segundo a qual as qualidades surgem no processo da sensa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9, em primeiro lugar, mais do que um recurso para o c\u00e1lculo que faz radicar as mudan\u00e7as da realidade, tal como me s\u00e3o dadas na experi\u00eancia, em uma determinada classe de mudan\u00e7as dentro do que constitui um conte\u00fado parcial de minha experi\u00eancia, para coloc\u00e1-las no mesmo plano a fim de conhecimento. Se fosse poss\u00edvel substituir com certos fatos definidos que ocupam na trama da considera\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica natural um lugar firme, fatos de consci\u00eancia constantes e definidos, para depois poder determinar, de acordo com o sistema de uniformidades em que se encontram os primeiros, e em completo acordo com a experi\u00eancia, a presen\u00e7a dos fen\u00f4menos de consci\u00eancia, nesse caso, esses fatos de consci\u00eancia estariam coordenados na conex\u00e3o do conhecimento natural assim como qualquer som ou cor.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, neste ponto precisamente, faz-se valer o car\u00e1ter incomensur\u00e1vel dos fen\u00f4menos materiais e espirituais em um sentido muito diferente e fixam-se ao conhecimento natural limites de uma natureza bem distinta. A impossibilidade de derivar fatos espirituais da ordem mec\u00e2nica da natureza, impossibilidade que se baseia na diversidade de sua proced\u00eancia, n\u00e3o impede a acomoda\u00e7\u00e3o dos primeiros no sistema dos \u00faltimos. S\u00f3 quando as rela\u00e7\u00f5es entre os fatos do mundo espiritual se mostram incompar\u00e1veis com as uniformidades do curso natural de uma forma tal que fique exclu\u00edda a subordina\u00e7\u00e3o dos fatos espirituais \u00e0queles estabelecidos pelo conhecimento mec\u00e2nico natural, somente ent\u00e3o teremos assinalado, n\u00e3o os limites imanentes do conhecimento emp\u00edrico, mas os limites em que termina o conhecimento natural e come\u00e7a uma ci\u00eancia aut\u00f4noma do esp\u00edrito que se estrutura em torno de seu pr\u00f3prio centro. O problema fundamental reside, portanto, em estabelecer um determinado tipo de incomparabilidade entre as rela\u00e7\u00f5es dos fatos espirituais e as uniformidades dos fen\u00f4menos materiais, que exclua a acomoda\u00e7\u00e3o dos primeiros, sua considera\u00e7\u00e3o como propriedades ou aspectos da mat\u00e9ria e que, por conseguinte, deva ser algo muito diferente da diferen\u00e7a que existe entre os diversos grupos de leis da mat\u00e9ria, tal como os representam a matem\u00e1tica, a f\u00edsica, a qu\u00edmica e a fisiologia, com uma rela\u00e7\u00e3o de subordina\u00e7\u00e3o que se desenvolve cada vez com maior consequ\u00eancia. Uma exclus\u00e3o dos fatos do esp\u00edrito do plexo da mat\u00e9ria, suas propriedades e leis, sempre levantar\u00e1 uma obje\u00e7\u00e3o que se opor\u00e1 \u00e0s tentativas de subordinar as rela\u00e7\u00f5es que se d\u00e3o entre os fatos de um campo \u00e0s rela\u00e7\u00f5es dos fatos do outro. E esta \u00e9, de fato, a opini\u00e3o que se imp\u00f5e quando se demonstra a incomparabilidade da vida espiritual \u2013 que os fatos da autoconsci\u00eancia e da unidade da consci\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o a ela, da liberdade e os da vida moral que lhe est\u00e3o vinculados \u2013 com a articula\u00e7\u00e3o e divisibilidade espacial da mat\u00e9ria, assim como com a necessidade mec\u00e2nica que governa o comportamento de cada uma de suas partes. T\u00e3o antigos quanto a medita\u00e7\u00e3o rigorosa sobre a rela\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito com a natureza s\u00e3o as tentativas de formula\u00e7\u00e3o deste tipo de incomensurabilidade do espiritual com todo o ordenamento natural, com base na unidade da espontaneidade da vontade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao introduzir na exposi\u00e7\u00e3o de Du Bois-Reymond essa diferen\u00e7a entre os limites imanentes da experi\u00eancia e os limites da subordina\u00e7\u00e3o dos fatos \u00e0 conex\u00e3o do conhecimento natural, os conceitos de limita\u00e7\u00e3o e inexplicabilidade recebem um sentido exatamente defin\u00edvel e se dissipam as dificuldades que t\u00eam se manifestado na pol\u00eamica provocada pela sua obra sobre os limites do conhecimento natural. A exist\u00eancia de limites imanentes da experi\u00eancia de modo algum resolve a quest\u00e3o sobre a subordina\u00e7\u00e3o dos fatos espirituais \u00e0 conex\u00e3o do conhecimento da mat\u00e9ria. Caso se tente, como H\u00e4ckel e outros investigadores tentaram, estabelecer essa subordina\u00e7\u00e3o dos fatos espirituais dentro da conex\u00e3o natural, por meio da hip\u00f3tese de uma vida ps\u00edquica nos elementos que comp\u00f5em o organismo, n\u00e3o haver\u00e1 entre essas tentativas e o conhecimento dos limites imanentes de toda experi\u00eancia qualquer rela\u00e7\u00e3o de exclus\u00e3o; sobre isso decide, unicamente, o segundo tipo de investiga\u00e7\u00e3o dos limites do conhecimento natural. Por essa raz\u00e3o, Du Bois-Reymond passou a essa segunda indaga\u00e7\u00e3o, e se utilizou em sua demonstra\u00e7\u00e3o tanto do argumento da unidade da consci\u00eancia quanto do da espontaneidade da vontade. Sua demonstra\u00e7\u00e3o de que os fen\u00f4menos espirituais n\u00e3o podem ser compreendidos por suas condi\u00e7\u00f5es materiais<a href=\"#_ftn8\" id=\"_ftnref8\">[6]<\/a> se desenvolve da seguinte maneira: Apesar do conhecimento completo de todas as partes do sistema material, de sua posi\u00e7\u00e3o respectiva e de seu movimento, resulta absolutamente incompreens\u00edvel como n\u00e3o seria indiferente para uma cole\u00e7\u00e3o de \u00e1tomos de carbono, hidrog\u00eanio, nitrog\u00eanio e oxig\u00eanio sua posi\u00e7\u00e3o e seus movimentos. Esta inexplicabilidade do espiritual subsiste, mesmo se equiparmos esses elementos, ao estilo das m\u00f4nadas, com uma consci\u00eancia, e tamb\u00e9m, partindo dessa hip\u00f3tese, n\u00e3o se pode explicar a consci\u00eancia unit\u00e1ria do indiv\u00edduo<a href=\"#_ftn9\" id=\"_ftnref9\">[7]<\/a>. J\u00e1 a proposi\u00e7\u00e3o que pretende demonstrar encerra na express\u00e3o \u201cn\u00e3o se pode compreender\u201d um duplo sentido, o que resulta na consequ\u00eancia de que, na demonstra\u00e7\u00e3o, apare\u00e7am dois argumentos de alcance muito diverso. Afirma, por um lado, que a tentativa de derivar fatos espirituais com base nas mudan\u00e7as materiais (que atualmente \u00e9 desprezada como materialismo bruto e s\u00f3 \u00e9 apresentada com o suposto de propriedades ps\u00edquicas nos elementos) n\u00e3o anula os limites imanentes de toda experi\u00eancia: o que \u00e9 verdade, mas n\u00e3o decide nada contra a subordina\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito ao conhecimento natural. Afirma tamb\u00e9m que essa tentativa tem que fracassar diante da contradi\u00e7\u00e3o que se apresenta entre nossa no\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria e a propriedade de unidade que caracteriza nossa consci\u00eancia. Em sua pol\u00eamica posterior com H\u00e4ckel, acrescenta a esse argumento outro, segundo o qual, com tal suposi\u00e7\u00e3o, se apresenta outra contradi\u00e7\u00e3o entre a forma como um elemento material est\u00e1 condicionado mecanicamente dentro da teia natural e a viv\u00eancia da espontaneidade da vontade; uma \u201cvontade\u201d que (nos elementos materiais) \u201cdeve querer, queira ou n\u00e3o queira, e, precisamente, em propor\u00e7\u00e3o direta do produto das massas e indireta do quadrado das dist\u00e2ncias\u201d, \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o <em>in adjeto<a href=\"#_ftn10\" id=\"_ftnref10\"><strong>[8]<\/strong><\/a><\/em>.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>III. A rela\u00e7\u00e3o entre este conjunto com as Ci\u00eancias da Natureza<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>No entanto, as ci\u00eancias do esp\u00edrito abrangem amplamente fatos naturais e t\u00eam como base o conhecimento natural.<\/p>\n\n\n\n<p>Se imaginarmos seres puramente espirituais em um reino pessoal constitu\u00eddo unicamente por eles, ent\u00e3o sua apari\u00e7\u00e3o, sua conserva\u00e7\u00e3o e desenvolvimento, bem como seu desaparecimento (qualquer que fosse a ideia que tiv\u00e9ssemos sobre o fundo de onde emergiam e para onde retornavam), estariam vinculados a condi\u00e7\u00f5es de natureza espiritual; seu bem-estar se fundamentaria em sua rela\u00e7\u00e3o com o mundo espiritual; suas intera\u00e7\u00f5es m\u00fatuas, suas a\u00e7\u00f5es se realizariam por meios puramente espirituais, e as repercuss\u00f5es duradouras de seus atos tamb\u00e9m seriam de ordem puramente espiritual, de modo que at\u00e9 mesmo seu desaparecimento do reino das pessoas teria, no espiritual, seu fundamento. O sistema desses indiv\u00edduos seria conhecido por ci\u00eancias puramente do esp\u00edrito.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, na realidade, um indiv\u00edduo nasce, se conserva e se desenvolve com base nas fun\u00e7\u00f5es do organismo animal e em suas rela\u00e7\u00f5es com o curso natural que o rodeia; seu sentimento vital, pelo menos em parte, baseia-se nessas fun\u00e7\u00f5es; suas impress\u00f5es s\u00e3o condicionadas pelos \u00f3rg\u00e3os dos sentidos e suas afec\u00e7\u00f5es pelo mundo exterior; a riqueza e a mobilidade de suas ideias, assim como a for\u00e7a e a dire\u00e7\u00e3o de seus atos volitivos, mostram-se m\u00faltiplas vezes dependentes das varia\u00e7\u00f5es em seu sistema nervoso. Seu impulso volunt\u00e1rio contrai as fibras musculares, de modo que sua a\u00e7\u00e3o externa se encontra ligada a mudan\u00e7as nas rela\u00e7\u00f5es de posi\u00e7\u00e3o das part\u00edculas materiais do organismo; os resultados duradouros de seus atos volunt\u00e1rios ocorrem apenas na forma de transforma\u00e7\u00f5es do mundo material. Assim, resulta que a vida espiritual de um homem n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o uma parte da unidade psicof\u00edsica da vida, uma parte que abstra\u00edmos; \u00e9 nessa unidade psicof\u00edsica que a exist\u00eancia e a vida de um homem nos s\u00e3o apresentadas. O sistema dessas unidades de vida constitui a realidade que \u00e9 objeto das ci\u00eancias hist\u00f3rico-sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>E, de fato, o homem, como unidade de vida, se apresenta para n\u00f3s, em virtude da dupla perspectiva de nossa considera\u00e7\u00e3o (seja qual for a realidade metaf\u00edsica), como uma trama de fatos espirituais, na medida em que alcan\u00e7a nossa percep\u00e7\u00e3o interna, e como um todo corporal, na medida em que alcan\u00e7a nossa capta\u00e7\u00e3o sens\u00edvel. A percep\u00e7\u00e3o interna e a capta\u00e7\u00e3o externa nunca ocorrem no mesmo ato e, por essa raz\u00e3o, jamais o fato da vida espiritual nos \u00e9 dado simultaneamente ao de nosso corpo. Disso resultam necessariamente dois pontos de vista distintos, que n\u00e3o podem ser mutuamente anulados na considera\u00e7\u00e3o cient\u00edfica que pretende abarcar os fatos espirituais e o mundo corporal em sua conex\u00e3o, da qual a unidade psicof\u00edsica da vida \u00e9 express\u00e3o. Se parto da experi\u00eancia interna, descubro que todo o mundo exterior se me d\u00e1 na consci\u00eancia, que as leis desse mundo natural est\u00e3o sob as condi\u00e7\u00f5es da minha consci\u00eancia e, portanto, dependem dela. Esse \u00e9 o ponto de vista que caracteriza a filosofia alem\u00e3 entre os s\u00e9culos XVIII e XIX como uma filosofia transcendental. Se, ao contr\u00e1rio, tomo a conex\u00e3o natural tal como se me apresenta na realidade, na minha capta\u00e7\u00e3o natural, e percebo que, tanto na sucess\u00e3o temporal desse mundo exterior quanto em sua distribui\u00e7\u00e3o espacial, est\u00e3o inseridos os fatos ps\u00edquicos, constato que da interven\u00e7\u00e3o realizada pela pr\u00f3pria natureza ou pelo experimento \u2013 que consiste em mudan\u00e7as materiais \u2013 dependem mudan\u00e7as espirituais, que ocorrem quando as primeiras penetram no sistema nervoso; e a observa\u00e7\u00e3o do desenvolvimento da vida e dos estados patol\u00f3gicos amplia essas experi\u00eancias at\u00e9 compor o vasto quadro da condicionalidade do espiritual pelo corporal. Assim se estabelece a concep\u00e7\u00e3o do investigador da natureza, que avan\u00e7a de fora para dentro, penetrando dos fen\u00f4menos materiais aos fen\u00f4menos espirituais. Assim, o antagonismo entre o fil\u00f3sofo e o investigador da natureza encontra-se condicionado pela oposi\u00e7\u00e3o de seus pontos de partida.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltemos ao nosso ponto de partida no modo de considera\u00e7\u00e3o pr\u00f3prio da ci\u00eancia natural. Na medida em que esse modo de considera\u00e7\u00e3o permanece consciente de seus limites, seus resultados s\u00e3o incontest\u00e1veis. Apenas sob o ponto de vista da experi\u00eancia interna eles recebem uma determina\u00e7\u00e3o mais precisa de seu valor cognoscitivo. A ci\u00eancia natural analisa a conex\u00e3o causal do curso natural. Quando essa an\u00e1lise atinge o ponto em que um fato material ou uma transforma\u00e7\u00e3o material se encontra regularmente vinculado a um fato ps\u00edquico ou a uma mudan\u00e7a ps\u00edquica, sem que seja poss\u00edvel encontrar entre eles um elo intermedi\u00e1rio, pode-se constatar essa rela\u00e7\u00e3o regular, mas n\u00e3o se pode aplicar a ela a rela\u00e7\u00e3o de causa e efeito. Observamos que regularidades de um c\u00edrculo de vida est\u00e3o regularmente associadas \u00e0s regularidades de outro c\u00edrculo, e o conceito matem\u00e1tico de fun\u00e7\u00e3o expressa tais rela\u00e7\u00f5es. A concep\u00e7\u00e3o segundo a qual o desenvolvimento das mudan\u00e7as espirituais, juntamente com as corporais, poderia ser comparado ao funcionamento de dois rel\u00f3gios is\u00f3cronos concilia-se t\u00e3o bem com a experi\u00eancia quanto uma concep\u00e7\u00e3o que supusesse como explica\u00e7\u00e3o apenas um \u00fanico rel\u00f3gio e considerasse ambos os campos da experi\u00eancia como manifesta\u00e7\u00f5es diferentes de um mesmo fundo. A depend\u00eancia do espiritual em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 conex\u00e3o natural consiste, portanto, naquela rela\u00e7\u00e3o que, em conformidade com o nexo natural geral, condiciona causalmente os fatos e mudan\u00e7as materiais que, para n\u00f3s, est\u00e3o regularmente associados a fatos e mudan\u00e7as espirituais, sem que conhe\u00e7amos qualquer elo intermedi\u00e1rio. Assim, o conhecimento natural percebe a atua\u00e7\u00e3o da cadeia de causas at\u00e9 as unidades psicof\u00edsicas: nelas surge uma mudan\u00e7a em que a rela\u00e7\u00e3o entre o material e o ps\u00edquico escapa \u00e0 considera\u00e7\u00e3o causal, e essa mudan\u00e7a provoca, em contrapartida, outra mudan\u00e7a no mundo material. \u00c9 nessa conex\u00e3o que o experimento dos fisiologistas revela a significa\u00e7\u00e3o da estrutura do sistema nervoso. Os confusos fen\u00f4menos da vida se articulam em uma representa\u00e7\u00e3o clara das depend\u00eancias, na qual o curso natural conduz mudan\u00e7as at\u00e9 o homem, estas penetram no sistema nervoso pelas portas dos sentidos, surgem a sensa\u00e7\u00e3o, a representa\u00e7\u00e3o, o sentimento, o desejo, que, por sua vez, reagem sobre o curso natural. A unidade de vida, que nos preenche com o sentimento direto de nossa exist\u00eancia indivisa, se resolve em um sistema de rela\u00e7\u00f5es empiricamente constat\u00e1veis entre os fatos de nossa consci\u00eancia e a estrutura e fun\u00e7\u00f5es do sistema nervoso: pois toda a\u00e7\u00e3o ps\u00edquica apenas se nos manifesta vinculada a uma mudan\u00e7a dentro de nosso corpo atrav\u00e9s do sistema nervoso, e uma mudan\u00e7a semelhante, por sua vez, apenas por interm\u00e9dio de sua a\u00e7\u00e3o sobre o sistema nervoso \u00e9 acompanhada por uma altera\u00e7\u00e3o de nossos estados ps\u00edquicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Desse exame das unidades psicof\u00edsicas de vida surge agora uma ideia mais clara de sua depend\u00eancia de toda a conex\u00e3o natural dentro da qual aparecem, atuam e desaparecem, assim como da depend\u00eancia que o estudo da realidade hist\u00f3rico-social mant\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o ao conhecimento natural. Com isso, podemos avaliar o grau de justifica\u00e7\u00e3o que pode ser atribu\u00eddo \u00e0s teorias de Comte e Herbert Spencer sobre o lugar dessas ci\u00eancias na hierarquia do conhecimento cient\u00edfico estabelecida por eles. Como esta obra pretende fundamentar a autonomia relativa das ci\u00eancias do esp\u00edrito, ser\u00e1 necess\u00e1rio desenvolver, como outro aspecto de sua posi\u00e7\u00e3o no conjunto do saber, o sistema de depend\u00eancias pelo qual elas se encontram condicionadas pelo conhecimento natural e constituem, assim, o \u00faltimo e supremo membro da estrutura que se inicia nos fundamentos matem\u00e1ticos. Os fatos do esp\u00edrito constituem o limite supremo dos fatos da natureza, e os fatos da natureza representam as condi\u00e7\u00f5es mais b\u00e1sicas da vida espiritual. Pelo fato de que o reino das pessoas \u2013 ou seja, a sociedade humana e a hist\u00f3ria \u2013 \u00e9 a mais elevada manifesta\u00e7\u00e3o entre as manifesta\u00e7\u00f5es do mundo emp\u00edrico, seu estudo necessita, em in\u00fameros aspectos, do conhecimento do sistema de pressupostos que o conjunto da natureza implica para seu desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem, de acordo com sua posi\u00e7\u00e3o na conex\u00e3o causal da natureza que acabamos de descrever, encontra-se condicionado por ela sob um duplo aspecto.<\/p>\n\n\n\n<p>A unidade psicof\u00edsica, como vimos, recebe influ\u00eancias do curso geral da natureza por meio do sistema nervoso e, por sua vez, reage sobre ele. Mas acontece que as a\u00e7\u00f5es que partem dessa unidade nos aparecem, sobretudo, como orientadas por fins. Para essa unidade psicof\u00edsica, portanto, o curso natural e sua constitui\u00e7\u00e3o podem oferecer, no que diz respeito \u00e0 forma\u00e7\u00e3o dos fins, um car\u00e1ter orientador; mas, por outro lado, ao representar um sistema de meios para a realiza\u00e7\u00e3o de seus fins, acaba tamb\u00e9m por ser condicionante. Assim, quando queremos algo, quando agimos sobre a natureza, pelo fato de n\u00e3o sermos for\u00e7as cegas, mas vontades que determinam seus fins reflexivamente, dependemos da conex\u00e3o natural. Dessa forma, as unidades psicof\u00edsicas est\u00e3o em dupla depend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao curso natural. Por um lado, este condiciona a realidade hist\u00f3rico-social \u2013 partindo da posi\u00e7\u00e3o da Terra no cosmos \u2013 como um sistema de causas, e o grande problema das rela\u00e7\u00f5es entre a conex\u00e3o natural e a liberdade dentro dessa realidade se desdobra, para o investigador emp\u00edrico, em in\u00fameras quest\u00f5es particulares que dizem respeito \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre os fatos do esp\u00edrito e as influ\u00eancias da natureza. Por outro lado, dos fins desse reino das pessoas nascem a\u00e7\u00f5es sobre a natureza, sobre a Terra, que o homem considera, nesse sentido, como sua morada, na qual se ocupa em adaptar-se; e tamb\u00e9m essas a\u00e7\u00f5es est\u00e3o vinculadas \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o da trama das leis naturais. Todos os fins situam-se para o homem exclusivamente dentro do processo espiritual, pois \u00e9 apenas nele que algo lhe \u00e9 presente; por\u00e9m, o fim busca seus meios na conex\u00e3o da natureza. Muitas vezes, a transforma\u00e7\u00e3o que o poder criador do esp\u00edrito provoca no mundo exterior \u00e9 quase impercept\u00edvel e, no entanto, \u00e9 nela que se fundamenta a \u201cmedia\u00e7\u00e3o\u201d pela qual o valor assim criado se torna presente tamb\u00e9m para outros. Os poucos f\u00f3lios \u2013 resqu\u00edcio material do profundo trabalho mental dos antigos em torno da hip\u00f3tese do movimento da Terra \u2013 que chegaram \u00e0s m\u00e3os de Cop\u00e9rnico constitu\u00edram o ponto de partida de uma revolu\u00e7\u00e3o em nossa vis\u00e3o do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse ponto, podemos perceber qu\u00e3o relativa \u00e9 a demarca\u00e7\u00e3o entre essas duas classes de ci\u00eancias. S\u00e3o est\u00e9reis as pol\u00eamicas como aquelas que ocorreram em torno da posi\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia filol\u00f3gica. Nos dois pontos de transi\u00e7\u00e3o que conduzem do estudo da natureza ao estudo do esp\u00edrito \u2013 tanto nos momentos em que a conex\u00e3o natural influencia o desenvolvimento do espiritual quanto naqueles em que a conex\u00e3o natural recebe a a\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito ou serve de passagem para a a\u00e7\u00e3o sobre outro esp\u00edrito \u2013 os conhecimentos dessas duas ordens de ci\u00eancias se misturam. Os conhecimentos das ci\u00eancias da natureza se entrela\u00e7am com os das ci\u00eancias do esp\u00edrito. E, de fato, nessa conflu\u00eancia se entretece, conforme a dupla rela\u00e7\u00e3o pela qual o curso natural condiciona a vida espiritual, o conhecimento da a\u00e7\u00e3o formadora sobre a natureza com a constata\u00e7\u00e3o da influ\u00eancia que esta exerce como material da a\u00e7\u00e3o humana. Assim, do conhecimento das leis naturais do som se deduz uma parte importante da gram\u00e1tica e da teoria musical e, por sua vez, o g\u00eanio da linguagem ou o m\u00fasico est\u00e1 vinculado a essas leis naturais, raz\u00e3o pela qual o estudo de seus produtos est\u00e1 condicionado \u00e0 compreens\u00e3o dessa depend\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste ponto, podemos perceber tamb\u00e9m que o conhecimento das condi\u00e7\u00f5es pressupostas pela natureza e estudadas pela ci\u00eancia natural constitui, em grande medida, a base para o estudo dos fatos espirituais. Assim como o desenvolvimento do indiv\u00edduo, a dispers\u00e3o da esp\u00e9cie humana sobre a Terra e a configura\u00e7\u00e3o de seus destinos na hist\u00f3ria est\u00e3o condicionados por toda a estrutura c\u00f3smica. As guerras, por exemplo, representam um elemento central em todas as narrativas hist\u00f3ricas, pois estas, em sua dimens\u00e3o pol\u00edtica, dizem respeito \u00e0 vontade dos Estados, e essa vontade se manifesta nas armas e se imp\u00f5e por meio delas. Ora, a teoria da guerra depende, antes de tudo, do conhecimento do mundo f\u00edsico, que fornece \u00e0s vontades em conflito seu substrato e seus meios. Pois a guerra, com os instrumentos da viol\u00eancia f\u00edsica, busca a finalidade de subjugar o inimigo \u00e0 nossa vontade. Isso implica que o inimigo seja conduzido ao ponto da total indefesa \u2013 o que constitui a meta te\u00f3rica do ato de viol\u00eancia caracterizado como guerra \u2013, de modo que sua situa\u00e7\u00e3o se torne mais desvantajosa do que o sacrif\u00edcio que lhe \u00e9 exigido e s\u00f3 possa ser alterada por outra ainda mais prejudicial. Nesse grande c\u00e1lculo, as condi\u00e7\u00f5es e os meios f\u00edsicos s\u00e3o os elementos mais relevantes para a ci\u00eancia, aqueles que mais a ocupam, enquanto h\u00e1 pouco a dizer sobre os fatores ps\u00edquicos.<\/p>\n\n\n\n<p>As ci\u00eancias que se dedicam ao estudo do homem, da sociedade e da hist\u00f3ria t\u00eam como base as ci\u00eancias da natureza, tanto porque as unidades psicof\u00edsicas s\u00f3 podem ser estudadas com o aux\u00edlio da biologia quanto porque o meio no qual se desenvolvem e no qual se d\u00e1 sua atividade teleol\u00f3gica \u2013 orientada em grande parte para o dom\u00ednio da natureza \u2013 \u00e9 constitu\u00eddo por esta \u00faltima. No primeiro aspecto, recorremos \u00e0s ci\u00eancias do organismo; no segundo, \u00e0s ci\u00eancias da natureza inorg\u00e2nica. E essa conex\u00e3o se expressa, por um lado, no fato de que as condi\u00e7\u00f5es naturais determinam o desenvolvimento e a distribui\u00e7\u00e3o da vida espiritual sobre a superf\u00edcie da Terra e, por outro, no fato de que a atividade teleol\u00f3gica dos homens est\u00e1 vinculada \u00e0s leis da natureza e condicionada pelo seu conhecimento e aplica\u00e7\u00e3o. Por essa raz\u00e3o, a primeira rela\u00e7\u00e3o revela apenas a depend\u00eancia do homem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza, enquanto a segunda cont\u00e9m essa depend\u00eancia apenas como o outro aspecto da hist\u00f3ria de seu crescente dom\u00ednio sobre a Terra. Essa parte da primeira rela\u00e7\u00e3o, que abrange as intera\u00e7\u00f5es do homem com a natureza circundante, foi submetida por Ritter ao m\u00e9todo comparado. Seu olhar perspicaz \u2013 exemplo not\u00e1vel disso \u00e9 sua avalia\u00e7\u00e3o comparativa dos continentes segundo a articula\u00e7\u00e3o de seus contornos \u2013 nos levaria a suspeitar que existe uma predestina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-universal inscrita nas condi\u00e7\u00f5es espaciais da superf\u00edcie terrestre. Por\u00e9m, os trabalhos posteriores n\u00e3o confirmaram essa vis\u00e3o de Ritter, concebida por ele como uma teleologia da hist\u00f3ria universal e utilizada por Buckle a servi\u00e7o do naturalismo. Em vez da ideia de uma depend\u00eancia uniforme do homem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es naturais, temos agora uma concep\u00e7\u00e3o mais cautelosa: a luta entre as for\u00e7as \u00e9tico-espirituais e as condi\u00e7\u00f5es do espa\u00e7o inerte fez com que, entre os povos hist\u00f3ricos \u2013 em contraste com os povos sem hist\u00f3ria \u2013, o grau de depend\u00eancia diminu\u00edsse constantemente. E, nesse campo, consolidou-se tamb\u00e9m uma ci\u00eancia aut\u00f4noma da realidade hist\u00f3rico-social, que recorre \u00e0s condi\u00e7\u00f5es naturais para suas explica\u00e7\u00f5es. Mas a outra rela\u00e7\u00e3o revela que, juntamente com a depend\u00eancia que implica a adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es naturais, h\u00e1 o dom\u00ednio do espa\u00e7o pelas ideias cient\u00edficas e pela t\u00e9cnica, de tal modo que, ao longo da hist\u00f3ria, a humanidade alcan\u00e7a a soberania precisamente por meio da submiss\u00e3o. <em>Natura enim non nisi parendo vincitur<a href=\"#_ftn11\" id=\"_ftnref11\"><strong>[9]<\/strong><\/a><\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema das rela\u00e7\u00f5es entre a ci\u00eancia do esp\u00edrito e o conhecimento natural s\u00f3 poder\u00e1 ser considerado resolvido quando for superada a oposi\u00e7\u00e3o entre o ponto de vista transcendental \u2013 segundo o qual a natureza est\u00e1 submetida \u00e0s condi\u00e7\u00f5es da consci\u00eancia \u2013 e o ponto de vista emp\u00edrico-objetivo \u2013 segundo o qual o desenvolvimento do esp\u00edrito est\u00e1 condicionado pela natureza como um todo \u2013, oposi\u00e7\u00e3o essa que tomamos como ponto de partida. Essa tarefa constitui apenas um aspecto do problema do conhecimento. Se isolarmos esse problema no que se refere \u00e0s ci\u00eancias do esp\u00edrito, n\u00e3o parece imposs\u00edvel encontrar uma solu\u00e7\u00e3o que conven\u00e7a a todos. Suas condi\u00e7\u00f5es deveriam ser as seguintes: demonstra\u00e7\u00e3o da realidade objetiva da experi\u00eancia interna; verifica\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de um mundo exterior; nesse mundo exterior, a presen\u00e7a de fatos espirituais e seres espirituais ocorre por meio de um processo de transfer\u00eancia de nossa interioridade. Assim como o olho ofuscado, que antes contemplou o sol, reproduz sua imagem nas mais diversas cores e nos mais variados pontos do espa\u00e7o, do mesmo modo nosso poder de apreens\u00e3o multiplica a imagem de nossa vida interior e a projeta em m\u00faltiplas varia\u00e7\u00f5es nos diversos lugares da natureza ao redor. Esse processo pode ser exposto e justificado logicamente como uma conclus\u00e3o por analogia: partindo dessa vida interior, que nos \u00e9 dada de forma original e direta apenas a n\u00f3s mesmos, chegamos, por meio da percep\u00e7\u00e3o de suas manifesta\u00e7\u00f5es exteriores, \u00e0 conclus\u00e3o de algo semelhante que corresponderia a manifesta\u00e7\u00f5es an\u00e1logas do mundo exterior. Seja qual for a natureza em si mesma, o estudo das causas do espiritual pode dar-se por satisfeito com o fato de que, em cada caso, suas manifesta\u00e7\u00f5es podem ser consideradas e empregadas como sinais do real, e as regularidades de sua coexist\u00eancia e sucess\u00e3o, como ind\u00edcios de tais regularidades no real. Mas se adentramos no mundo do esp\u00edrito e investigamos a natureza enquanto conte\u00fado do esp\u00edrito, enquanto entrela\u00e7ada com a vontade, seja como fim, seja como meio, ent\u00e3o a natureza, para o esp\u00edrito, \u00e9 aquilo que \u00e9 dentro dele, e o que ela possa ser em si mesma lhe \u00e9 totalmente indiferente. Basta que, tal como se apresenta ao esp\u00edrito, este possa contar com sua legalidade em suas a\u00e7\u00f5es e desfrutar da bela apar\u00eancia de sua exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">*<\/a> Tradutor original da obra em alem\u00e3o. Texto adaptado \u00e0s condi\u00e7\u00f5es da presente edi\u00e7\u00e3o (N.E.).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">*<\/a> Obras publicadas durante o ano de 2024 ao primeiro semestre de 2025 (N.E.).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[1]<\/a> Com muita genialidade, Pascal expressa esse sentimento vital: Pens\u00e9es, Art. 1. Toutes ces mis\u00e8res prouvent sa grandeur. Ce sont mis\u00e8res de grand seigneur, mis\u00e8res d\u2019un roi d\u00e9poss\u00e9d\u00e9. (3) Nous avons une si grande id\u00e9e de l\u2019\u00e2me de l\u2019homme, que <em>nus<\/em> ne pouvons souffrir d\u2019en \u00eatre m\u00e9pris\u00e9s, et de n\u2019\u00eatre pas dans l\u2019estime d\u2019une \u00e2me. (5) (Oeuvres, Paris, 1866, 1, 248, 249).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[2]<\/a> Summa c. gent. (cura Uccellii, Romae, 1879), I, c. 22, V. II, c. 54.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[3]<\/a> Liv. II, c. 46 e ss.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[4]<\/a> Emil DU BOIS-REYMOND, Ueber die Grenzen des Naturerkennens, 1872. V.: Die sieben Weltr\u00e4tsel, 1881.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\">[5]<\/a> LAPLACE, Essai sur les probabilit\u00e9s, Par\u00eds, 1814, p. 3.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\" id=\"_ftn8\">[6]<\/a> \u201cSobre os limites\u201d, 4\u00aa ed., p. 28.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref9\" id=\"_ftn9\">[7]<\/a> Op. cit., 29, 30, v. R\u00e4tsel, 7 (Enigmas do Universo). Essa argumenta\u00e7\u00e3o \u00e9, al\u00e9m disso, conclusiva quando se atribui, por assim dizer, validade metaf\u00edsica \u00e0 mec\u00e2nica atom\u00edstica. Com sua hist\u00f3ria, que \u00e9 mencionada por Du Bois-Reymond, pode-se tamb\u00e9m comparar a formula\u00e7\u00e3o feita pelo cl\u00e1ssico da psicologia racional, Mendelssohn. Por exemplo, Schriften (Leipzig, 1880), I, 277: 1. \u201cTudo o que \u00e9 diferente no corpo humano do bloco de m\u00e1rmore pode ser reduzido ao movimento. Agora, o movimento nada mais \u00e9 do que uma mudan\u00e7a de lugar ou situa\u00e7\u00e3o. \u00c9 \u00f3bvio que com todas as poss\u00edveis mudan\u00e7as de lugar no mundo, por mais complicadas que sejam, n\u00e3o se obt\u00e9m nenhuma percep\u00e7\u00e3o dessas mudan\u00e7as de lugar\u201d. 2. \u201cToda mat\u00e9ria \u00e9 composta de v\u00e1rias partes. Se as representa\u00e7\u00f5es singulares fossem isoladas nas partes da alma, como os objetos da natureza, ent\u00e3o o todo n\u00e3o seria encontrado em lugar algum. N\u00e3o poder\u00edamos comparar as impress\u00f5es dos v\u00e1rios sentidos, n\u00e3o poder\u00edamos comparar as representa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o poder\u00edamos perceber ou conhecer qualquer rela\u00e7\u00e3o. Fica claro, ent\u00e3o, que n\u00e3o apenas para o pensamento, mas tamb\u00e9m para a sensibilidade, muitas coisas devem se unir em uma s\u00f3. Mas como a mat\u00e9ria nunca \u00e9 um \u00fanico assunto, etc.\u201d, Kant desenvolve esse \u201ctend\u00e3o de Aquiles de todas as conclus\u00f5es dial\u00e9ticas da teoria pura da alma\u201d como o segundo paralelismo da psicologia transcendental. Com Lotze, esses \u201cfatos do conhecimento relacional\u201d, para \u201cum motivo invenc\u00edvel sobre o qual a convic\u00e7\u00e3o da autonomia de um ser da alma pode repousar\u201d, foram desenvolvidos em v\u00e1rias obras (mais recentemente, Metaf\u00edsica, 476) e formam a base dessa parte de seu sistema metaf\u00edsico.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref10\" id=\"_ftn10\">[8]<\/a> Weltr\u00e4tsel, p. 8.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref11\" id=\"_ftn11\">[9]<\/a> BACONIS, Aphorismi de interpretatione naturae et regno hominis, Aph. 3.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea ir\u00e1 ler, a seguir, um trecho da obra &#8220;Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0s Ci\u00eancias do Esp\u00edrito&#8221; de Wilhelm Dilthey. Caso deseje saber mais sobre a obra, bem como adquiri-la, clique aqui ou na capa do livro abaixo. Apresenta\u00e7\u00e3o da obra e da cole\u00e7\u00e3o Por Eugenio Imaz* Neste primeiro volume das obras de\u2026<\/p>\n<p class=\"continue-reading-button\"> <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2025\/03\/03\/introducao-as-ciencias-do-espirito-de-wilhelm-dilthey\/\">Leia mais<i class=\"crycon-right-dir\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1168,"comment_status":"closed","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[53,5],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1172"}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1172"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1172\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1173,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1172\/revisions\/1173"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1168"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1172"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1172"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1172"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}