{"id":1202,"date":"2025-04-08T17:32:47","date_gmt":"2025-04-08T17:32:47","guid":{"rendered":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=1202"},"modified":"2025-04-08T17:32:47","modified_gmt":"2025-04-08T17:32:47","slug":"homem-e-mundo-nos-seculos-xvi-e-xvii-de-wilhelm-dilthey","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2025\/04\/08\/homem-e-mundo-nos-seculos-xvi-e-xvii-de-wilhelm-dilthey\/","title":{"rendered":"Homem e Mundo nos S\u00e9culos XVI e XVII de Wilhelm Dilthey"},"content":{"rendered":"\n<p>Voc\u00ea ir\u00e1 ler, a seguir, um trecho da obra &#8220;Homem e Mundo nos S\u00e9culos XVI e XVII&#8221; de Wilhelm Dilthey. Caso deseje saber mais sobre a obra,<a href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/homem-e-mundo-nos-seculos-xvi-e-xvii\/\"> clique aqui<\/a>, ou na imagem da capa que aparece abaixo.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/homem-e-mundo-nos-seculos-xvi-e-xvii\/\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"231\" height=\"328\" src=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/capinha_dilthey_ii.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1199\" srcset=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/capinha_dilthey_ii.jpg 231w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/capinha_dilthey_ii-211x300.jpg 211w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/capinha_dilthey_ii-106x150.jpg 106w\" sizes=\"(max-width: 231px) 100vw, 231px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\"> <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><a>Giordano Bruno<\/a><\/h1>\n\n\n\n<p>Giordano Bruno \u00e9 o primeiro elo dessa cadeia de pensadores pante\u00edstas que chega at\u00e9 nossos dias atrav\u00e9s de Spinoza e Shaftesbury, de Robinet, Diderot, Deschamps e Buffon; de Hemsterhuys, Herder, Goethe e Schelling. Por isso, sua posi\u00e7\u00e3o nesse desenvolvimento e sua rela\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica com o monismo pante\u00edsta de Spinoza e com a monadologia de Leibniz constituem um problema hist\u00f3rico de grande relev\u00e2ncia. Mas, no sentido do nosso trabalho, que busca marcar o nascimento da filosofia moderna, sua figura adquire uma significa\u00e7\u00e3o ainda maior. Baseando-se na descoberta de Cop\u00e9rnico, exp\u00f5e pela primeira vez, de um ponto de vista elevado, a contradi\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia cient\u00edfica com os dogmas de todas as confiss\u00f5es crist\u00e3s e oferece \u00e0s ideias e aos ideais de vida modernos a primeira express\u00e3o filos\u00f3fica universal em um sistema baseado na autonomia do pensamento. Seus conceitos explicativos sobre a natureza ainda pertencem ao passado, mas o sopro que os anima j\u00e1 \u00e9 moderno: anuncia-se como em uma alvorada, na qual as sombras da noite ainda se misturam com as luzes do sol nascente.<\/p>\n\n\n\n<p>Vamos, de antem\u00e3o, dividir o problema hist\u00f3rico que Giordano Bruno apresenta. Ele \u00e9 o primeiro fil\u00f3sofo monista das na\u00e7\u00f5es modernas; para ele, a anima\u00e7\u00e3o divina n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o o outro aspecto insepar\u00e1vel da mat\u00e9ria: ambos constituem juntos um \u00fanico mundo infinito, cuja conex\u00e3o \u00e9 Deus. O n\u00facleo desse monismo reside em uma nova vis\u00e3o astron\u00f4mica e em sua valoriza\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica no sentido de uma magnifica\u00e7\u00e3o est\u00e9tica do mundo, em harmonia com a consci\u00eancia do Renascimento italiano. A meta pr\u00e1tica \u00e9 a doutrina da paix\u00e3o heroica, com a qual o esp\u00edrito renascentista se eleva \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de f\u00f3rmula moral, em oposi\u00e7\u00e3o ao cristianismo. Nas ideias fundamentais de Bruno, respira o esp\u00edrito do Renascimento. Ao mesmo tempo, sob o aspecto formal, ele \u00e9 o primeiro que, dentro dos povos modernos da Europa, redescobre a forma art\u00edstica da filosofia, depois do prolongado dom\u00ednio da arquitet\u00f4nica escol\u00e1stica e do subsequente entorpecimento m\u00edstico e humanista do estilo filos\u00f3fico. Deve haver um ponto de unidade que torne completamente intelig\u00edveis tanto o conte\u00fado quanto a forma do fil\u00f3sofo-poeta. Sua figura coloca o mesmo problema que Plat\u00e3o. Mas um rico material nos permite resolver essa quest\u00e3o no caso de Bruno, enquanto no de Plat\u00e3o parece que jamais conseguiremos romper com certa n\u00e9voa de generalidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Giordano Bruno \u00e9 o fil\u00f3sofo do Renascimento italiano. Seu senso art\u00edstico da vida e seus ideais vitais se elevam com ele a uma vis\u00e3o c\u00f3smica e a uma f\u00f3rmula moral. Esse esp\u00edrito do Renascimento atinge alturas decisivas e a cria\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica porque, em Bruno, ele se alia \u00e0 consci\u00eancia cient\u00edfica do alcance material e met\u00f3dico da descoberta de Cop\u00e9rnico. Assim, toda a metaf\u00edsica europeia, em sua maior parte j\u00e1 reduzida a uma massa inerte, ganha vida em uma doutrina de um universo uno, infinito e divino. A capacidade est\u00e9tica do Renascimento, apesar de sua decad\u00eancia no artificial e no sobrecarregado, nos oferece, em Bruno, o primeiro artista-fil\u00f3sofo do mundo moderno.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>I.<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>Giordano Bruno nasceu no ano de 1548, em Nola, uma cidade provinciana, provavelmente de origem grega, situada na vertente noroeste do Ves\u00favio, repleta do encanto da exuber\u00e2ncia tropical. Tasso disse certa vez: \u201cA terra produz em toda parte os habitantes que lhe s\u00e3o semelhantes\u201d (<em>La terra simili a s\u00e8 gli abitator\u2019 produce<\/em>). Bruno \u00e9 filho desse peda\u00e7o de terra entre o Ves\u00favio e o Mediterr\u00e2neo. Fogoso como o Ves\u00favio e a brisa do mar, verdadeira for\u00e7a da natureza em sintonia com a vegeta\u00e7\u00e3o luxuriante, rico em contrastes caprichosos como a pr\u00f3pria terra que o viu nascer. No poema latino <em>De<\/em> <em>immenso<\/em> (III, I), ele nos relata como, quando menino, o Ves\u00favio lhe aparecia, em contraste com os arredores de Nola, cobertos de castanheiros, loureiros e murtas, como uma massa seca e est\u00e9ril; mas, ao se aproximar, deparou-se com a plenitude do tr\u00f3pico: ent\u00e3o percebeu que a natureza \u00e9 bela em toda parte.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro esplendor do Renascimento italiano coincide com os anos de sua inf\u00e2ncia e primeira juventude. Miguel \u00c2ngelo e Ticiano ainda viviam. Mas a Companhia de Jesus, sob a dire\u00e7\u00e3o de seu segundo geral, Lainez, j\u00e1 tinha plena consci\u00eancia de sua miss\u00e3o hist\u00f3rica, e o Conc\u00edlio de Trento reunia todas as for\u00e7as internas do catolicismo. Na plenitude serena da vida, Bruno poderia ter-se tornado um grande poeta, como seu contempor\u00e2neo mais velho, Tasso, ou o mais jovem, Ariosto, pois era dotado de uma imagina\u00e7\u00e3o poderosa. Mas, assim como em Leonardo e Galileu, essa imagina\u00e7\u00e3o vinha acompanhada de uma extraordin\u00e1ria capacidade de combina\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e de uma intelig\u00eancia fina e penetrante. O destino de sua vida foi selado quando, ap\u00f3s a instru\u00e7\u00e3o escol\u00e1stico-humanista comum \u00e0 \u00e9poca, ingressou, aos quatorze ou quinze anos de idade (1562 ou 1563), na Ordem dos Dominicanos. Residiu no convento de S\u00e3o Domingos, em N\u00e1poles, onde outrora vivera e ensinara Tom\u00e1s de Aquino; recebeu as ordens sacerdotais em 1572, percorreu diversas localidades vizinhas cumprindo seus deveres eclesi\u00e1sticos e permaneceu na Ordem at\u00e9 1576, ou seja, por longos quinze anos, at\u00e9 completar vinte e oito. Durante esse per\u00edodo, p\u00f4de preparar sua extraordin\u00e1ria cultura filos\u00f3fica e seus s\u00f3lidos conhecimentos astron\u00f4micos, que lhe permitiram, uma vez fora do claustro, ensinar filosofia e astronomia. Foi tamb\u00e9m nessa \u00e9poca que ensaiou seus primeiros passos na poesia tr\u00e1gica e c\u00f4mica. Talvez ainda no convento, escreveu o primeiro esbo\u00e7o da com\u00e9dia O Calend\u00e1rio, cujo acerbo cinismo tem o sabor do claustro, e uma alegoria perdida, <em>L\u2019arca de No\u00e8<\/em>, que trata, em tom burlesco, da disputa pelo prest\u00edgio entre os animais e da dignidade do asno, dentro da tradi\u00e7\u00e3o do tema. As grandes disputas eclesi\u00e1sticas tamb\u00e9m devem ter impactado o jovem genial, pois, ainda novi\u00e7o, retirou de sua cela as imagens sagradas, conservando apenas o crucifixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Recomendou a um companheiro que lesse as vidas dos Santos Padres em vez dos Sete Gozos de Maria. Aos dezoito anos, j\u00e1 duvidava da Trindade, da divindade de Cristo e da transubstancia\u00e7\u00e3o. A nova restaura\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica levava essas heresias mais a s\u00e9rio do que nos tempos \u00e1ureos de Le\u00e3o X. Assim, Giordano Bruno abandonou o claustro: tinha vinte e oito anos, e sua \u00e9poca de aprendizado terminara. \u00c9 in\u00fatil buscar no mon\u00f3tono e cauteloso relato que fez de sua vida ao tribunal da Inquisi\u00e7\u00e3o de Veneza qualquer vest\u00edgio dos sentimentos que poderiam ter inspirado a alma desse jovem genial, a quem chegavam, atrav\u00e9s dos muros do convento, o alvoro\u00e7o da cidade mais ruidosa do mundo e todo o encanto do golfo de N\u00e1poles. Com certeza, come\u00e7ou como um devoto de Arist\u00f3teles. Os dominicanos juravam por Arist\u00f3teles e por seu continuador, S\u00e3o Tom\u00e1s, que havia sido o fil\u00f3sofo do convento. O profundo conhecimento de Arist\u00f3teles que Bruno manifesta mais tarde, a presen\u00e7a constante desse pensador em seu esp\u00edrito, qualquer que seja a quest\u00e3o em debate, indicam com grande probabilidade que Arist\u00f3teles exerceu um dom\u00ednio duradouro sobre seu pensamento. Em rela\u00e7\u00e3o a muitas opini\u00f5es astron\u00f4micas de Arist\u00f3teles, ele nos diz em diversas ocasi\u00f5es que, na juventude, foi seu partid\u00e1rio. Mas o fato \u00e9 que, por mais longa que tenha sido a influ\u00eancia da escola tradicional, ele acabou por romp\u00ea-la. Relata que, por muito tempo, foi um defensor do naturalismo. Essa fase tamb\u00e9m deve ser situada em seus anos de aprendizado. Ele menciona a teoria segundo a qual as formas s\u00e3o estados contingentes da mat\u00e9ria, enquanto esta constitui a subst\u00e2ncia das coisas, a natureza divina. Cita Dem\u00f3crito e os epicuristas como seus representantes, depois os estoicos e Avicebr\u00e3o. \u201cPor muito tempo fui muito afei\u00e7oado a essa teoria, porque seus fundamentos correspondem mais \u00e0 realidade do que os de Arist\u00f3teles.\u201d<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a> Se perguntarmos quais obras podem ter influenciado essa mudan\u00e7a, \u00e9 preciso pensar em Lucr\u00e9cio e em certas imita\u00e7\u00f5es suas, muito lidas, como o poema de Capicius De natura rerum, e tamb\u00e9m em seu conterr\u00e2neo Tel\u00e9sio. Ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o de sua obra <em>De natura rerum<\/em>, em 1565, Tel\u00e9sio atendeu aos desejos de seus admiradores e passou a viver em N\u00e1poles, onde ministrava confer\u00eancias muito apreciadas e admiradas. Sob seus ausp\u00edcios, nasceu a Academia que buscava derrubar Arist\u00f3teles e fundar o conhecimento da natureza. Bruno ainda reconhece o valor dessa filosofia e, especialmente, de Tel\u00e9sio, em 1584, ao expor suas ideias maduras<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Mas seu profundo esp\u00edrito art\u00edstico necessitava de um complemento ideal a esse ponto de vista. No relat\u00f3rio citado, ele prossegue: \u201cNo entanto, ap\u00f3s considerar com maior maturidade e levar em conta mais fatos, achei necess\u00e1rio admitir na natureza dois tipos de subst\u00e2ncias: a forma e a mat\u00e9ria.\u201d<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a> Com essas palavras, ele quer designar o complemento platonizante do naturalismo, que desenvolve com maior detalhe em sua obra sobre a causa e o uno; apontam, portanto, a transi\u00e7\u00e3o para seu ponto de vista definitivo. Por diversas raz\u00f5es, parece-nos mais natural supor que j\u00e1 tenha encontrado esse ponto de vista definitivo, pelo menos em semente, antes de abandonar o claustro, ainda que isso n\u00e3o possa ser comprovado.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o se pode afirmar em que momento desse desenvolvimento conheceu o sistema copernicano. Mas \u00e9 certo que essa mudan\u00e7a em suas opini\u00f5es sobre a natureza deve ter ocorrido cedo, ainda em seus anos de aprendizado. Foi partid\u00e1rio da astronomia de Arist\u00f3teles, mas, na juventude, tomou conhecimento da verdade do sistema copernicano. \u201cNobre Cop\u00e9rnico, cujas obras monumentais comoveram meu esp\u00edrito em tenra idade.\u201d<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a> E tamb\u00e9m \u00e9 certo que Cop\u00e9rnico produziu nele uma revolu\u00e7\u00e3o espiritual, da qual emergiu a ideia fundamental de seu sistema, que foi se desenvolvendo pouco a pouco em todas as suas consequ\u00eancias. No seguinte soneto, ele expressa o estado de esp\u00edrito com que, ao abandonar o claustro e a estreiteza da imagem eclesi\u00e1stico-ptolomaica do mundo, ingressa na vida, levando na alma uma nova vis\u00e3o do universo:<\/p>\n\n\n\n<p>Escapado da escura e estreita pris\u00e3o,<\/p>\n\n\n\n<p>longo tempo prisioneiro do erro,<\/p>\n\n\n\n<p>abandono as correntes que me atavam<\/p>\n\n\n\n<p>para conquistar a doce liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Respiro a vida nova, plena.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquele que matou P\u00edton, valoroso,<\/p>\n\n\n\n<p>e com seu sangue tingiu de p\u00farpura o mar,<\/p>\n\n\n\n<p>tamb\u00e9m me abriu os caminhos.<\/p>\n\n\n\n<p>A ti consagro meu cora\u00e7\u00e3o, \u00f3 ser sublime!<\/p>\n\n\n\n<p>Tu restabeleces a alma enferma.<\/p>\n\n\n\n<p>A ti escuto, \u00f3 voz augusta,<\/p>\n\n\n\n<p>que a tempo me adverte do abismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Gra\u00e7as a ti, luz divina,<\/p>\n\n\n\n<p>\u00f3 tu, meu sol!<\/p>\n\n\n\n<p>que me conduziste \u00e0 morada da felicidade.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>II<\/a>.<\/h2>\n\n\n\n<p>Que contraste entre as duas vidas! Quando Lutero abandonou o convento e pendurou os h\u00e1bitos, enraizou-se em sua pr\u00f3pria terra e operou com o novo esp\u00edrito entre seu pr\u00f3prio povo. Giordano Bruno, durante os dezesseis anos compreendidos entre 1576, ano de sua fuga, e 23 de maio de 1592, quando caiu prisioneiro nas m\u00e3os da Inquisi\u00e7\u00e3o de Veneza, viveu exilado na Su\u00ed\u00e7a, Fran\u00e7a, Inglaterra e Alemanha, sem criar ra\u00edzes em lugar algum, nem mesmo onde a sorte parecia sorrir-lhe, sem jamais esquecer sua p\u00e1tria, \u201cessa mestra e semi-imperatriz de todas as ra\u00e7as de homens, senhora, nutriz e m\u00e3e de todas as virtudes, ci\u00eancias, humanidades e costumes refinados\u201d.<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a> At\u00e9 que a saudade de sua terra o lan\u00e7ou nas redes da morte. Todo o seu ser foi moldado para a It\u00e1lia do Renascimento, cuja luz radiante se havia apagado diante da restaura\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica. Sentia-se como um estrangeiro em todas as terras b\u00e1rbaras do norte. A guerra, o \u00f3dio religioso e o refinamento escol\u00e1stico das universidades o cercavam por todos os lados como uma n\u00e9voa n\u00f3rdica. \u00c9 certo que o latim continuava sendo, nas universidades, o elo de uni\u00e3o entre pessoas de todas as na\u00e7\u00f5es, permitindo-lhes uma amplitude europeia na vida. As liberdades do regime universit\u00e1rio da \u00e9poca possibilitavam aos professores uma vida de peregrina\u00e7\u00e3o pela Europa. Isso n\u00e3o era algo raro. Paracelso defende essa peregrina\u00e7\u00e3o, dizendo que \u201cningu\u00e9m se torna mestre em sua pr\u00f3pria casa, pois ainda h\u00e1 um preceptor junto ao lar\u201d, \u201cos que ficam ao calor do lar comem perdizes, os que estudam as artes comem sopas de leite\u201d. E, nessa \u00e9poca em que o Renascimento italiano se espalhava por toda parte, nenhum estrangeiro gozava de tanta simpatia, at\u00e9 mesmo na pr\u00f3pria Inglaterra, quanto um italiano culto e impregnado do esp\u00edrito renascentista.<\/p>\n\n\n\n<p>Giordano Bruno teve um acesso particular \u00e0s universidades como representante da arte luliana. Seus versos, sua imensa mem\u00f3ria, seu saber e seu engenho cintilante, todo o seu ser, impregnado do senso de beleza do Renascimento, abriram-lhe as portas da sociedade cortes\u00e3 mais distinta. Mas sua natureza vulc\u00e2nica, seus contrastes tempestuosos, suas explos\u00f5es de soberba, de \u00f3dio fradesco e c\u00ednico contra os literatos contraditores, e sua teatralidade burlesca napolitana provocaram conflitos e cat\u00e1strofes por toda parte. A real superioridade de seu ponto de vista filos\u00f3fico em rela\u00e7\u00e3o aos homens de sua \u00e9poca o mantinha em solid\u00e3o no meio do alvoro\u00e7o das disputas filos\u00f3ficas, que ainda estavam na moda, no turbilh\u00e3o de Paris, Oxford, Wittenberg e Helmstaedt.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cIgnom\u00ednias, cal\u00fanias, maldade alheia e temor pr\u00f3prio, bem justificado, te lan\u00e7ar\u00e3o para fora de tua p\u00e1tria, te afastar\u00e3o de teus amigos e te exilar\u00e3o em terras pouco hospitaleiras.\u201d Assim ele fala consigo mesmo, e seu \u00fanico consolo \u00e9 a resigna\u00e7\u00e3o. \u201cFaze, \u00f3 \u00e2nimo meu, que isso se transforme em<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[6]<\/a> um ex\u00edlio glorioso para mim e que esta p\u00e1tria melhor me traga tranquilidade.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O que o afastou da p\u00e1tria, a princ\u00edpio, foi menos o perigo do momento do que a mesquinhez e a monotonia da vida de um monge fora de claustros que se sustentava com aulas particulares e como revisor. Assim viveu em G\u00eanova, Turim, Veneza e P\u00e1dua.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao cruzar a fronteira francesa, vestia um h\u00e1bito dominicano de fino tecido branco, que havia mandado fazer em B\u00e9rgamo, trazendo consigo o escapul\u00e1rio que levara ao fugir de Roma. Contava com os conventos de sua ordem.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu destino imediato era Lyon. Mas o frio acolhimento dispensado ao falso monge durante a viagem o levou a tomar outra decis\u00e3o. A cidade do grande Calvino era o ref\u00fagio de todos os cat\u00f3licos expatriados do mundo romano. Ao empreender sua viagem nessa dire\u00e7\u00e3o, rompe, por assim dizer, de uma vez por todas com o mundo anterior.<\/p>\n\n\n\n<p>Ali encontrou uma col\u00f4nia italiana. Seu chefe, o napolitano marqu\u00eas de Vico, tornou-se grande amigo seu. Deixando de lado a cogula, equiparam-no com chap\u00e9u e adaga. Tudo isso sob a suposi\u00e7\u00e3o de que ele se converteria \u00e0 f\u00e9 protestante. Tamb\u00e9m ali experimentou o terr\u00edvel destino da hipocrisia e da duplicidade que pesava sobre o pensador monista nesse mundo de dissens\u00f5es religiosas \u2013 um destino que tanto o havia feito sofrer no convento e que amea\u00e7ava o elemento de grandeza moral que fazia parte de sua natureza complexa.<\/p>\n\n\n\n<p>Afirmou diante da Inquisi\u00e7\u00e3o n\u00e3o ter aderido ao calvinismo. Isso pode ser verdade em algum sentido equ\u00edvoco.<\/p>\n\n\n\n<p>Em todo caso, encontramos seu nome nas listas da congrega\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica italiana. Somente como membro desta p\u00f4de Bruno tornar-se integrante da Academia de Genebra. Al\u00e9m disso, temos refer\u00eancia expl\u00edcita de que, devido a seus erros doutrin\u00e1rios e \u00e0s suas zombarias contra os pastores, foi exclu\u00eddo da comunh\u00e3o, e que essa exclus\u00e3o lhe foi concedida a seu pr\u00f3prio pedido.<\/p>\n\n\n\n<p>Toda essa nova duplicidade tamb\u00e9m foi in\u00fatil. Apenas do in\u00edcio do ano at\u00e9 o outono de 1578 conseguiu suportar a atmosfera calvinista. Pobreza, disputas eclesi\u00e1sticas, censuras, hipocrisia, uma atmosfera moral um tanto carcer\u00e1ria: mis\u00e9ria e nada al\u00e9m de mis\u00e9ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o que para o homem Giordano Bruno de Nola se apresentava nesses termos, para o g\u00eanio filos\u00f3fico que superaria tudo o que a Europa de ent\u00e3o oferecia em termos de ideias sobre a vida, mostrava-se de modo completamente diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa Europa, tal como era ent\u00e3o, foi seu mestre. Recebeu ensinamentos nas capitais da cultura religiosa e moral da Europa, em suas principais seitas e em suas na\u00e7\u00f5es mais ilustres. Genebra era precisamente uma capital desse n\u00edvel, e o calvinismo, uma dessas seitas. A ideia da incapacidade das fac\u00e7\u00f5es crist\u00e3s para moldar nobremente a vida e a sociedade despertou em Bruno por meio de experi\u00eancias extremamente intensas. Essa ideia j\u00e1 estava contida no esp\u00edrito do Renascimento, mas \u00e9 nesses anos de peregrina\u00e7\u00e3o \u2013 na \u00e9poca da restaura\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica e da f\u00e9 dogm\u00e1tica protestante, no claustro de N\u00e1poles, nas salas universit\u00e1rias de Paris, na sociedade cortes\u00e3 de Londres, na Genebra de Calvino e na Wittenberg luterana \u2013 que ela se aprofunda e se fortalece. O puro ideal filos\u00f3fico da vida nutriu-se do conte\u00fado vivo do mundo europeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentia uma forte simpatia pelo elemento heroico do protestantismo, que fazia guerra contra \u201co c\u00e3o infernal de tr\u00eas cabe\u00e7as adornado com a tr\u00edplice tiara\u201d. Diante do \u201cquim\u00e9rico culto cat\u00f3lico\u201d, respeitava as formas mais puras do culto protestante. Mas lhe repugnava o abuso do aparato filol\u00f3gico nas sinopses, chaves b\u00edblicas e coment\u00e1rios dessa ortodoxia b\u00edblica. Combateu apaixonadamente a doutrina da servid\u00e3o da vontade, da predestina\u00e7\u00e3o e da inefic\u00e1cia das obras, prevendo que essa nova dogm\u00e1tica resultaria em um enorme aumento da coer\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica e das disputas dogm\u00e1ticas. \u00c0 medida que o calvinismo acolhia literalmente cada s\u00edlaba do Antigo Testamento na B\u00edblia harmonizada, maior era o afastamento dessa f\u00e9 literal em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 astronomia copernicana e a todo progresso do conhecimento natural que superasse a concep\u00e7\u00e3o estreita do Antigo Testamento. O fil\u00f3sofo italiano odiava com igual intensidade o Antigo Testamento, o povo que o havia produzido e os calvinistas que a ele se apegavam. Confronta-se radicalmente com o calvinismo em sua obra sobre a besta triunfante. \u00c0 sombra das antigas m\u00e1scaras divinas, submete toda a hist\u00f3ria evang\u00e9lica a uma cr\u00edtica burlesca, como se fosse um \u201ccerto mist\u00e9rio tr\u00e1gico da S\u00edria\u201d. Toda a dogm\u00e1tica do cristianismo \u00e9 considerada antropoc\u00eantrica e, especialmente, judaica, sendo compreendida como uma oposi\u00e7\u00e3o aparente entre o al\u00e9m e o terreno que, ao sensibilizar tamb\u00e9m o al\u00e9m, subordina-se ao ponto de vista da apar\u00eancia sens\u00edvel e da imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante disso, imp\u00f5e-se a consci\u00eancia filos\u00f3fica, que dissipa essa apar\u00eancia. Na mesma obra, descreve com extraordin\u00e1ria acrim\u00f4nia os defeitos espec\u00edficos das confiss\u00f5es protestantes. Elas matam o sentimento heroico da vida, que impulsiona o homem a viver pelo bem comum, com uma louv\u00e1vel alegria pela gl\u00f3ria. Consideram esse anseio pecaminoso e v\u00e3o. O homem deve se gloriar de \u201cn\u00e3o sei que trag\u00e9dia cabal\u00edstica\u201d. \u201c\u00c9 indignante, profano e ris\u00edvel acreditar que os deuses precisam da gratid\u00e3o, do temor, do respeito, do amor e da venera\u00e7\u00e3o dos homens por qualquer raz\u00e3o que n\u00e3o seja o pr\u00f3prio homem.\u201d A doutrina da justifica\u00e7\u00e3o pela f\u00e9 corrompe, sob o pretexto de reformar a religi\u00e3o deformada, o \u00fanico aspecto ainda bom que restava nela. Com a sauda\u00e7\u00e3o \u201ca paz seja convosco\u201d, seus pregadores n\u00e3o fazem mais do que espalhar a guerra, de modo que cada um desses pedantes enfatuados acredita ter dentro do peito um catecismo particular. Para conquistar as coisas invis\u00edveis, que n\u00e3o compreendem, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio, segundo eles, mais do que uma elei\u00e7\u00e3o imut\u00e1vel pela gra\u00e7a, que depende exclusivamente das paix\u00f5es da divindade. Os homens n\u00e3o se salvam por suas a\u00e7\u00f5es, mas por sua conformidade com o catecismo<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>III<\/a>.<\/h2>\n\n\n\n<p>De 1578 a 1583, Bruno percorreu a Fran\u00e7a cat\u00f3lica. Durante dois anos tranquilos, foi professor ordin\u00e1rio de filosofia em Toulouse, onde leu especialmente Arist\u00f3teles. Como doutor e professor ordin\u00e1rio de filosofia, tinha autoriza\u00e7\u00e3o para participar da vida acad\u00eamica da Universidade de Paris e logo se apresentou nesse centro de ensino filos\u00f3fico. Na capital da filosofia cat\u00f3lica, encontrou um terreno neutro com a arte luliana. Chamou aten\u00e7\u00e3o ao utilizar essa arte a servi\u00e7o da mnemot\u00e9cnica e da ret\u00f3rica, e assim p\u00f4de estabelecer rela\u00e7\u00f5es condizentes com seus talentos, que lhe abriram a vis\u00e3o para o grande mundo. Henrique III ouviu falar das proezas mnem\u00f4nicas do italiano, conversou com ele e interessou-se por sua ci\u00eancia mnemot\u00e9cnica. Bruno lhe dedicou seu denso tratado \u201cSobre as Sombras das Ideias\u201d. Foi nomeado professor extraordin\u00e1rio com sal\u00e1rio. Teve tempo para se dedicar a uma intensa atividade liter\u00e1ria. Em 1582, foram impressos quatro de seus trabalhos. Seja pelas resist\u00eancias que encontrou, seja pela inquieta\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u2013 que tamb\u00e9m levou outros homens not\u00e1veis da \u00e9poca a mudarem de sede com mais frequ\u00eancia do que o necess\u00e1rio \u2013 , o fato \u00e9 que, no final de 1583, deixou Paris e seguiu para Londres, munido de recomenda\u00e7\u00f5es do rei Henrique para seu embaixador.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses cinco anos no mundo cat\u00f3lico franc\u00eas, no centro de toda a filosofia cat\u00f3lica, foram de import\u00e2ncia extraordin\u00e1ria para a filosofia definitiva de Bruno. Ao abandonar o claustro, j\u00e1 nada tinha a ver com a vida mon\u00e1stica e o catolicismo vulgar. O protestantismo, ap\u00f3s a experi\u00eancia em Genebra, estava perdido para sempre. Percebeu os v\u00ednculos do catolicismo, em todas as manifesta\u00e7\u00f5es de sua vida, com Arist\u00f3teles, que ainda dominava as c\u00e1tedras filos\u00f3ficas da \u00e9poca e havia se instalado at\u00e9 mesmo nas c\u00e1tedras protestantes. Arist\u00f3teles, Ptolomeu e o dogma eclesi\u00e1stico \u2013 tudo em um s\u00f3: eis a besta catedr\u00e1tica de tr\u00eas cabe\u00e7as que o amea\u00e7ava e perseguia por onde quer que fosse. Em Toulouse, em Paris, em Oxford. Agora, declarava guerra contra ela. Foi o primeiro entre os grandes fil\u00f3sofos que buscaram uma exist\u00eancia fora dessa atmosfera teologizante das c\u00e1tedras. Teve de conquistar essa posi\u00e7\u00e3o por meio de uma guerra encarni\u00e7ada e, externamente, desditosa. Escrever contra a escola aristot\u00e9lica equivalia, ent\u00e3o, a agir. Assim como Bruno, muitos daqueles que atacaram essa tradi\u00e7\u00e3o acad\u00eamica a haviam conhecido nos claustros e ensinado Arist\u00f3teles em suas aulas de teologia. A luta empreendida por Bruno se desdobra em todas as suas obras. Como um cavaleiro errante, combateu nas mais diversas universidades europeias. Como Tel\u00e9sio e Campanella, atacou especialmente a filosofia natural de Arist\u00f3teles. Compreendeu que o mundo dual de Arist\u00f3teles \u2013 celeste e sublunar \u2013 , em uni\u00e3o com o geocentrismo, constitu\u00eda o fundamento cient\u00edfico de todo o edif\u00edcio dogm\u00e1tico. Odiava em Arist\u00f3teles o carrasco de todas as demais filosofias divinas: como Bacon, dizia que Arist\u00f3teles havia assassinado seu irm\u00e3o para reinar com maior seguran\u00e7a, \u00e0 maneira dos sult\u00f5es de Constantinopla. Mas o inimigo de Arist\u00f3teles estava longe de buscar aliados entre os humanistas da \u00e9poca. Em suas com\u00e9dias juvenis, seu ideal c\u00f4mico era o pedante, e este se caracteriza, nos grandes di\u00e1logos, pelos tra\u00e7os dos her\u00f3is falastr\u00f5es e gramaticais daqueles dias. Pelo contr\u00e1rio, adere \u00e0 vibrante educa\u00e7\u00e3o renascentista que brilha na sociedade distinta e na corte. Virtuoso da conversa\u00e7\u00e3o, transbordante de alegria, humor e capricho, brincando como um mestre com seu saber, conseguiu conquistar em Paris o favor do rei renascentista e, bem-quisto nos c\u00edrculos mais ilustres, destacou-se na corte da Inglaterra.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>IV.<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>A estada de Bruno na Inglaterra, de 1583 a 1585, representa o \u00e1pice de sua vida. Antes em Paris e agora em Londres, encontra algo da felicidade que buscava em sua peregrina\u00e7\u00e3o: fama, o favor dos reis e dos grandes, a simpatia das damas. O Renascimento italiano constitui o elemento social e espiritual cujo fino aroma impregnava a vida cortes\u00e3 e po\u00e9tica daqueles dias. Podemos imaginar o encanto exercido pela conversa\u00e7\u00e3o de Giordano Bruno ao constatar que ele se abriu caminho, sobrepondo-se aos s\u00e1bios mais respeitados, at\u00e9 a corte e a sociedade mais elegante. Henrique III o recomendou a seu embaixador Castelnau e, ap\u00f3s alguns cursos em Oxford \u2013 onde defendeu brilhantemente o sistema copernicano \u2013 , passou a viver na casa do embaixador franc\u00eas como seu cavalheiro. Tornou-se amigo \u00edntimo de Philip Sidney. Sobrinho de Leicester e favorito da rainha, Sidney era o modelo das mais refinadas maneiras cortes\u00e3s, da bravura cavalheiresca e da poesia elegante. Nele se encarnava, de forma brilhante, a fus\u00e3o do poderoso e exc\u00eantrico esp\u00edrito ingl\u00eas com o Renascimento italiano. Era um plat\u00f4nico. Quando, em sua coroa de sonetos, nos conta como a virtude assumiu a forma de Stella, \u201cdescobrindo aquele c\u00e9u que as almas heroicas veem em virtude de seu sentimento interior\u201d, essa transi\u00e7\u00e3o da paix\u00e3o amorosa pessoal para o ideal e o m\u00edstico nos remete \u00e0 coroa de sonetos de Giordano Bruno, escrita na \u00e9poca de sua amizade com Sidney. A afinidade entre a coroa de sonetos de Bruno, a de Sidney e a de Shakespeare \u2013 vivendo os tr\u00eas na mesma corte e na mesma \u00e9poca \u2013 representa um dos problemas mais interessantes da hist\u00f3ria da literatura. Duas de suas mais belas obras art\u00edstico-filos\u00f3ficas foram dedicadas a Philip Sidney. Giordano conheceu os ingleses mais not\u00e1veis de seu tempo. A rainha Isabel o ouvia com agrado, e Giordano retribuiu sua aten\u00e7\u00e3o com louvores impregnados de todo o rebuscamento cortes\u00e3o. Na refinada sociedade de Castelnau, sua alma adquire as propor\u00e7\u00f5es que lhe s\u00e3o naturais. \u00c9 ali que, pela primeira vez, sente-se verdadeiramente ele mesmo. Assim, nessa \u00e9poca venturosa que durou menos de dois anos, surgem, uma ap\u00f3s a outra, em l\u00edngua italiana, as seis obras filos\u00f3fico-art\u00edsticas que o converteram no maior escritor-fil\u00f3sofo de seu s\u00e9culo. Costuma-se notar que um estado de \u00e2nimo feliz em determinada fase da vida confere \u00e0s obras de um escritor uma for\u00e7a e uma harmonia que ele jamais voltar\u00e1 a alcan\u00e7ar. Assim aconteceu com Bruno na Inglaterra de Isabel e de Shakespeare. A isso se acrescenta um crescimento substancial de sua grande alma nesse ambiente grandioso. Em nenhuma outra parte que n\u00e3o fosse a p\u00e1tria de Shakespeare e de Carlyle ele poderia ter escrito a magn\u00edfica obra Dos Furores Heroicos. Nesse pa\u00eds, em contato \u00edntimo com Sidney, na presen\u00e7a desse mundo heroico que tamb\u00e9m compunha o horizonte de Shakespeare, o entusiasmo \u00e0 maneira de Plotino intensifica-se em um sentimento vital heroico; seu esp\u00edrito filos\u00f3fico-po\u00e9tico liberta-se de todas as amarras da tradi\u00e7\u00e3o escolar e abandona-se, pela primeira vez, em sua l\u00edngua materna, \u00e0s inspira\u00e7\u00f5es de seu g\u00eanio, em combina\u00e7\u00f5es cient\u00edficas profundas, em uma pol\u00eamica vigorosa e em uma ironia desenfreada. No reinado da grande Isabel, surgem, ao lado dos maiores dramas de todos os tempos, as obras art\u00edstico-filos\u00f3ficas mais perfeitas do s\u00e9culo. Ambas as cria\u00e7\u00f5es nos oferecem a mesma riqueza exuberante, a mesma mistura de melancolia e humor, segundo o <em>motto<\/em> de sua com\u00e9dia: <em>in tristitia hilaris, in hilaritate tristis<\/em>, e o mesmo estilo exc\u00eantrico e sobrecarregado do s\u00e9culo que chegava ao fim. As obras italianas desses anos londrinos, escritas, por assim dizer, ao voo, com a seguran\u00e7a do g\u00eanio, marcam a maturidade da juventude. \u00c0 obra italiana n\u00e3o impressa <em>Purgatorio del\u2019Inferno<\/em> seguiram-se: <em>Cena de le Ceneri<\/em> (1584), <em>Della causa, principio ed uno<\/em> (1584), <em>Del\u2019infinito, universo e mondi<\/em> (1584<em>), Spaccio della bestia trionfante<\/em> (1584), <em>Cabala del cavallo pegaseo<\/em> (1585), <em>Degli eroici furori<\/em> (1585).<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>V.<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>Ao deixar Londres, despede-se de sua felicidade. Acompanha o embaixador a Paris. As coisas s\u00e3o diferentes de antes, pois agora ele \u00e9 o corifeu de uma nova concep\u00e7\u00e3o do mundo, que exp\u00f4s em suas obras. Com a ajuda de seu disc\u00edpulo Jean Hennequin, empreende disputas p\u00fablicas (P\u00e1scoa de 1586) para defender sua filosofia monista contra a Igreja e contra o geocentrismo de Arist\u00f3teles e Ptolomeu, sustentando o movimento da Terra e a infinitude do mundo. Era a luta entre a concep\u00e7\u00e3o de mundo que reinava havia dois mil\u00eanios e a nova era \u2013 uma luta que j\u00e1 iniciara nas disputas de Oxford, mas que agora, na capital da especula\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, se intensificou ainda mais. Logo teve de abandonar Paris.<\/p>\n\n\n\n<p>Sup\u00f4s que na Alemanha protestante encontraria um ref\u00fagio pac\u00edfico para continuar trabalhando em prol de sua filosofia e, ap\u00f3s algumas tentativas em diferentes localidades, p\u00f4de desenvolver, durante dois anos, na cidade de Wittenberg \u2013 a cidade de Lutero e Mel\u00e2ncton \u2013 , uma atividade relativamente tranquila em favor da filosofia de uma nova \u00e9poca. As coisas foram muito diferentes do que em Londres. Escreveu apenas em latim, certamente porque o \u00eaxito de suas \u00faltimas obras fora limitado pelo uso da l\u00edngua italiana. Isso pode ser inferido do fato de ele ter empreendido a reelabora\u00e7\u00e3o, em latim, das mais importantes dessas obras. Alberto Magno, Nicolau de Cusa \u2013 que, se n\u00e3o tivesse sido sacerdote, teria superado Pit\u00e1goras \u2013 , Cop\u00e9rnico \u2013 que em dois cap\u00edtulos ensina mais do que Arist\u00f3teles e todos os peripat\u00e9ticos em todas as suas obras \u2013 , Paracelso \u2013 o segundo depois de Hip\u00f3crates \u2013 , esses profundos pensadores alem\u00e3es s\u00e3o seus guias nesta \u00faltima etapa do desenvolvimento de seu pensamento, rumo a um severo reino do abstrato que ele apenas vislumbra \u00e0 dist\u00e2ncia. Com esse prop\u00f3sito, busca os fundamentos do conhecimento matem\u00e1tico da natureza; em suas duas \u00faltimas obras, emprega o m\u00e9todo construtivo: \u201c\u00c9 preciso colocar a considera\u00e7\u00e3o do m\u00ednimo diante da ci\u00eancia f\u00edsica, matem\u00e1tica e metaf\u00edsica\u201d<a href=\"#_ftn8\" id=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. Mas suas rela\u00e7\u00f5es com o esp\u00edrito alem\u00e3o v\u00e3o al\u00e9m. Na cidade de Lutero, ele toma consci\u00eancia da import\u00e2ncia do esp\u00edrito alem\u00e3o. A express\u00e3o desse estado de \u00e2nimo encontra-se em seu discurso de despedida \u00e0 Atenas alem\u00e3, em 8 de mar\u00e7o de 1588. Esse discurso \u00e9 um documento surpreendente sobre a liberdade que ainda reinava em Wittenberg. \u201cCheguei a v\u00f3s como estrangeiro, exilado e em busca de ref\u00fagio, joguete nas m\u00e3os do destino, sem qualquer posi\u00e7\u00e3o, pobre, sem prote\u00e7\u00e3o, carregado com o \u00f3dio da multid\u00e3o e, portanto, desprez\u00edvel para as pessoas v\u00e3s e comuns.\u201d As autoridades universit\u00e1rias garantiram-lhe a liberdade da investiga\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, e ele lhes agradece pelo tratamento recebido e por n\u00e3o terem dado ouvidos a seus inimigos.<a href=\"#_ftn9\" id=\"_ftnref9\">[9]<\/a> Mas manifesta a impress\u00e3o que a Alemanha do s\u00e9culo da Reforma lhe causa em palavras not\u00e1veis: \u201cFazei, \u00f3 J\u00fapiter, que conhe\u00e7am suas pr\u00f3prias for\u00e7as e se dediquem a coisas maiores, pois ent\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o ser\u00e3o homens, mas deuses.\u201d Na sede de Lutero, ele sente sua grandeza heroica: \u201cQuando o representante do pr\u00edncipe das trevas infestava o mundo com o culto supersticioso e a rude ignor\u00e2ncia, e ningu\u00e9m ousava enfrentar a besta voraz, que outra parte da Europa e do mundo poderia ter produzido semelhante Alcides?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTu viste, \u00f3 Lutero, a luz, percebeste o esp\u00edrito divino e, sem armas, enfrentaste os terr\u00edveis inimigos do rei e os venceste com a palavra.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 motivo para interpretar retoricamente essa frase sobre a grandeza heroica de Lutero. Quando Bruno escreveu essas palavras, estava prestes a deixar Wittenberg. O ato libertador de Lutero o coloca, aos seus olhos, acima de toda a massa protestante, que lhe parecia t\u00e3o pouco respeit\u00e1vel. Ao reconhec\u00ea-lo assim, ele n\u00e3o expressa nenhuma ades\u00e3o \u00e0 f\u00e9 protestante, que ent\u00e3o, como sempre, rejeitava.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao deixar Wittenberg, busca assegurar uma posi\u00e7\u00e3o na corte do imperador Rodolfo II, em Praga. Conquista o favor da corte em Helmstedt, mas \u00e9 excomungado pelo superintendente. A partir de 1590, passa a publicar novas obras em Frankfurt. Essa \u00e9 a segunda fase produtiva de sua vida, a da maturidade varonil, mas marcada por estranhas especula\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas sob a influ\u00eancia da ci\u00eancia alem\u00e3. As tr\u00eas principais obras desse per\u00edodo s\u00e3o representadas pela reelabora\u00e7\u00e3o de seu di\u00e1logo italiano no poema Sobre o imensur\u00e1vel e o incont\u00e1vel, ou O universo e o mundo, escrito, \u00e0 maneira de seu Lucr\u00e9cio, em hex\u00e2metros latinos, seguidos, segundo o costume italiano, de glosas em prosa. A obra foi iniciada em Helmstedt, e ele seguiu para Frankfurt a fim de imprimi-la ali. A segunda obra, Sobre o m\u00ednimo triplo, tamb\u00e9m foi impressa durante sua estadia em Frankfurt. A terceira obra, Sobre a unidade, o n\u00famero e a figura, encontrava-se em impress\u00e3o quando ele abandonou repentinamente Frankfurt, em fevereiro de 1591, para ir ao encontro de seu destino.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>VI.<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>O processo de Bruno foi recentemente esclarecido com os autos venezianos e romanos da Inquisi\u00e7\u00e3o. V\u00ea-se a import\u00e2ncia que a c\u00faria deu ao caso, as figuras relevantes que nele participaram, como se passou da den\u00fancia do jovem nobre veneziano, que o atraiu para a armadilha inquisitorial, para suas obras e como, pela correspond\u00eancia entre elas e a den\u00fancia, esta foi considerada, em ess\u00eancia, veross\u00edmil. Mocenigo o ouviu dizer que n\u00e3o gostava de nenhuma religi\u00e3o, que queria fundar uma nova seita com o nome de \u201cnova filosofia\u201d, e isso coincide com uma comunica\u00e7\u00e3o do prior do convento dos carmelitas de Frankfurt: \u201cSe quisesse, poderia fazer com que todo o mundo tivesse uma s\u00f3 religi\u00e3o\u201d. Ambas as informa\u00e7\u00f5es concordam, em termos gerais, pois, segundo elas, todas as religi\u00f5es particulares deveriam ser substitu\u00eddas pela f\u00e9 racional, de modo que esta permanecesse como religi\u00e3o universal. Vemos tamb\u00e9m como Bruno utilizou, por sua vez, essa c\u00f4moda contabilidade em dupla entrada, que distingue verdades filos\u00f3ficas e teol\u00f3gicas, para se amparar, contra sua convic\u00e7\u00e3o, nesse equ\u00edvoco. Mas o ensinamento decisivo desses autos \u00e9 que, em Roma, o processo foi deliberadamente prolongado por seis anos para que ele se retratasse de sua filosofia, e n\u00e3o houve for\u00e7a capaz de mov\u00ea-lo a isso. Isso determinou seu destino. Se em Roma correu a anedota de que ele teria dito que morria voluntariamente como m\u00e1rtir da verdade, essa afirma\u00e7\u00e3o estava em conformidade com o cerne da quest\u00e3o. Na manh\u00e3 de 17 de fevereiro de 1600, foi queimado diante do antigo teatro de Pompeu. Quando lhe apresentaram, j\u00e1 agonizante e sem exalar nenhum gemido, um crucifixo, ele virou a cabe\u00e7a com desprezo.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Della causa, dialogo terzo, ed. Wagner, p. 250.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Ibid.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> No mesmo lugar.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> De immenso, I, III c. 9; Fiorentino, I, 1, 380, I.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> Della causa, dialogo primo, ed. Wagner, 222.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[6]<\/a> Spaccio della bestia trionfante, substituindo Perseu.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\">[7]<\/a> Bestia trionfante, primeiro di\u00e1logo e in\u00edcio do segundo. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel dar em poucas palavras uma ideia do \u00f3dio de Bruno pelo calvinismo.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\" id=\"_ftn8\">[8]<\/a> De tripl. min., Gfr\u00f6r., p. 20.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref9\" id=\"_ftn9\">[9]<\/a> Jord. Bruno, Opera latina rec. Fiorentino, I, 1, pp. 22, 23.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea ir\u00e1 ler, a seguir, um trecho da obra &#8220;Homem e Mundo nos S\u00e9culos XVI e XVII&#8221; de Wilhelm Dilthey. Caso deseje saber mais sobre a obra, clique aqui, ou na imagem da capa que aparece abaixo. Giordano Bruno Giordano Bruno \u00e9 o primeiro elo dessa cadeia de pensadores pante\u00edstas\u2026<\/p>\n<p class=\"continue-reading-button\"> <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2025\/04\/08\/homem-e-mundo-nos-seculos-xvi-e-xvii-de-wilhelm-dilthey\/\">Leia mais<i class=\"crycon-right-dir\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1199,"comment_status":"closed","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[53,5],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1202"}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1202"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1202\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1203,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1202\/revisions\/1203"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1199"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1202"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1202"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1202"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}