{"id":1216,"date":"2025-06-04T20:46:30","date_gmt":"2025-06-04T20:46:30","guid":{"rendered":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=1216"},"modified":"2025-06-04T20:46:30","modified_gmt":"2025-06-04T20:46:30","slug":"hegel-e-o-idealismo-de-wilhelm-dilthey","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2025\/06\/04\/hegel-e-o-idealismo-de-wilhelm-dilthey\/","title":{"rendered":"Hegel e o Idealismo de Wilhelm Dilthey"},"content":{"rendered":"\n<p>Voc\u00ea ir\u00e1 ler, a seguir, um trecho de &#8220;Hegel e o Idealismo&#8221; de Wilhelm Dilthey. 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Anos escolares<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>Hegel nasceu em Stuttgart, em 27 de agosto de 1770. Seu pai era funcion\u00e1rio do ducado, e a fam\u00edlia era de antigo esp\u00edrito protestante, com toda a sua grave simplicidade. E, se \u00e9 verdade que mais tarde os ideais de Weimar e de Jena modificaram suas ideias sobre a vida, no que diz respeito \u00e0 sua vida pessoal continuaram influenciando decisivamente as velhas formas de honradez s\u00f3lida que marcaram sua inf\u00e2ncia; se seu pensamento mergulhou profundamente na problem\u00e1tica do mundo moral, sua vida pessoal, no entanto, permaneceu incontaminada por qualquer d\u00favida quanto aos costumes protestantes e \u00e0s regras de vida da casa paterna. O esp\u00edrito su\u00e1bio enraizou-se em seu ser e manifestou-se com mais for\u00e7a do que nos outros dois grandes contempor\u00e2neos wurtemberguenses: Schiller e Schelling. Nada havia nele daquele temperamento inquieto que se alimenta da consci\u00eancia orgulhosa de uma individualidade importante. Seu esp\u00edrito ing\u00eanuo, objetivo, resistia ao sentimento aristocr\u00e1tico do que \u00e9 peculiar, tal como se manifesta em temperamentos n\u00f3rdicos como Jacobi, Humboldt e Schleiermacher. Frio e alheio, como um mero espectador, diante das tr\u00e1gicas e rom\u00e2nticas experi\u00eancias do destino vividas por seus companheiros \u2013 H\u00f6lderlin em Frankfurt, Schelling em Jena, Creuzer em Heidelberg \u2013, vai se desenvolvendo lentamente, em um trabalho calmo, e \u00e0s vezes \u00e9 acometido daquela sensa\u00e7\u00e3o de desamparo que decorre da aliena\u00e7\u00e3o da pessoa nas coisas. Sua natureza simples, inconsciente de si mesma, sem pretens\u00f5es, sem fachada, conquistava-lhe amigos por toda parte, amigos que o estimavam sem se sentirem incomodados pela dist\u00e2ncia em que estavam em rela\u00e7\u00e3o ao g\u00eanio. Ao seu forte senso de realidade correspondia aquele dom de se adaptar \u00e0s circunst\u00e2ncias estreitas que o cercavam, aceitando-as sem ambi\u00e7\u00e3o desmedida. A mais s\u00f3lida sensatez regulava sua vida, e um humor amistoso iluminava suas limita\u00e7\u00f5es. Sua p\u00e1tria, sua fam\u00edlia e seu temperamento haviam-no equipado de forma feliz.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi um aluno exemplar no gin\u00e1sio de Stuttgart. Mas, desde cedo, era impelido pela curiosidade filos\u00f3fica. Tudo nele e ao seu redor era regulado. Conserva-se um di\u00e1rio dessa \u00e9poca em que registra com certa dose de pedantismo seus estudos, suas f\u00e9rias, os diversos acontecimentos. E nos m\u00e9todos do estudante j\u00e1 se percebe a t\u00e9cnica bem elaborada do erudito; preparava seus resumos em folhas separadas, de modo que pudessem ser utilizados a qualquer momento; desde ent\u00e3o adquire o h\u00e1bito de tomar notas cuidadosas do que lia, para aproveitar os estudos com uma fidelidade objetiva. Esse exerc\u00edcio, praticado at\u00e9 a velhice, desenvolveu sua grande capacidade de dominar grandes massas de material e de encontrar a express\u00e3o mais concisa para a natureza dos acontecimentos hist\u00f3ricos.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu per\u00edodo escolar coincide com o desenvolvimento da literatura alem\u00e3, desde <em>Emilia Galotti<\/em> at\u00e9 <em>Ifig\u00eania<\/em> e <em>Dom<\/em> <em>Carlos<\/em>. No entanto, n\u00e3o h\u00e1 vest\u00edgios disso al\u00e9m de seu conhecimento de <em>O Messias<\/em>, de Fiesko e, sobretudo, de Natan.<\/p>\n\n\n\n<p>A literatura que lhe \u00e9 familiar comp\u00f5e-se de obras do Iluminismo, de Garve e Sulzer at\u00e9 Nicolai e os jornais da \u00e9poca. Seu autor de cabeceira \u00e9 Lessing. Seguindo o gosto psicol\u00f3gico do Iluminismo, registra experi\u00eancias de todo tipo, e seu interesse l\u00f3gico manifesta-se numa cole\u00e7\u00e3o de defini\u00e7\u00f5es. Desde o in\u00edcio predominava nele o pensamento objetivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa \u00e9poca em que o sentimento da vida e a poesia sentimental constitu\u00edam a for\u00e7a em ascens\u00e3o, seu interesse orienta-se exclusivamente pelas coisas e dirige-se, com uma energia livre e radical, \u00e0 realidade, sem qualquer reflex\u00e3o sobre si mesmo. E aquilo que ele busca assimilar em primeiro lugar s\u00e3o a Antiguidade e a Hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>A literatura grega havia conquistado uma posi\u00e7\u00e3o importante nos estudos do gin\u00e1sio gra\u00e7as a Gesner e Heyne, e Winckelmann, Lessing e Herder haviam aberto caminho para sua compreens\u00e3o. Hegel dedicou aten\u00e7\u00e3o aos tr\u00e1gicos, traduziu S\u00f3focles e, desde ent\u00e3o, o acompanhou certa predile\u00e7\u00e3o por <em>Ant\u00edgona<\/em>. Como na maioria dos gin\u00e1sios da \u00e9poca, tamb\u00e9m no de Stuttgart o estudo dos gregos se entrela\u00e7ava com uma forte dose do esp\u00edrito iluminista, que ressoava em Hegel.<\/p>\n\n\n\n<p>O sacrif\u00edcio a Escul\u00e1pio ordenado por S\u00f3crates ao morrer \u2013 um profundo jogo ir\u00f4nico com a ideia de salva\u00e7\u00e3o da longa enfermidade que \u00e9 a vida \u2013 \u00e9 entendido pelo disc\u00edpulo ilustrado como uma adapta\u00e7\u00e3o do s\u00e1bio aos conceitos religiosos do povo, e a mitologia dos gregos \u00e9 explicada pelo fato de que, naquele tempo, os \u201chomens n\u00e3o possu\u00edam ilumina\u00e7\u00e3o\u201d. Esse pragmatismo um tanto presun\u00e7oso permeia todos os escritos dos \u00faltimos anos de gin\u00e1sio.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os problemas da Ilustra\u00e7\u00e3o, o que mais o atrai \u00e9 o da compreens\u00e3o filos\u00f3fica da hist\u00f3ria, e j\u00e1 nesse per\u00edodo ele adota os m\u00e9todos da historiografia universal e filos\u00f3fica do s\u00e9culo XVIII. Num ensaio sobre a religi\u00e3o dos gregos e romanos, parte de uma teoria geral sobre a origem das religi\u00f5es e, ao modo iluminista, deriva as formas mais antigas da ignor\u00e2ncia das leis da natureza, da estrutura desp\u00f3tica da sociedade e do desejo de poder dos sacerdotes. O avan\u00e7o rumo \u00e0 Ilustra\u00e7\u00e3o se d\u00e1 por meio de homens de raz\u00e3o mais serena, que transmitem conceitos mais adequados. Suas observa\u00e7\u00f5es sobre algumas diferen\u00e7as entre poetas cl\u00e1ssicos e modernos anunciam a superioridade dos gregos, e, ao considerar os motivos disso, leva principalmente em conta a rela\u00e7\u00e3o entre a arte e toda a vida da na\u00e7\u00e3o. O p\u00fablico dos \u00e9picos gregos era o povo, que reagia com um sentimento comum \u00e0quilo que a arte apresentava; \u201cnosso maior poeta \u00e9pico\u201d (Klopstock), apesar da s\u00e1bia escolha do tema, \u201cs\u00f3 podia despertar interesse na parte instru\u00edda do povo alem\u00e3o e interessada pelas ideias crist\u00e3s\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, Hegel compreende desde o in\u00edcio a religi\u00e3o e a arte em conex\u00e3o com a vida das na\u00e7\u00f5es. Nesse ponto, segue o esp\u00edrito da Ilustra\u00e7\u00e3o; mas manteve essa perspectiva mesmo quando os grandes poetas alem\u00e3es passaram a separar a vida superior de seus fundamentos nacionais. A essa ideia corresponde a surpreendente maturidade de seu pensamento pol\u00edtico, tal como se manifesta num di\u00e1logo dos tri\u00fanviros romanos, que, ali\u00e1s, revela influ\u00eancia shakespeariana.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m prevalece o empenho pedag\u00f3gico da Ilustra\u00e7\u00e3o, seu esfor\u00e7o em fundamentar a doutrina da educa\u00e7\u00e3o no estudo do ser humano e de seu desenvolvimento. Todo o seu pensamento \u00e9 dominado pelo esp\u00edrito pragm\u00e1tico, pol\u00edtico e pr\u00e1tico da Ilustra\u00e7\u00e3o; havia, sem d\u00favida, um tra\u00e7o fundamental em Hegel que se ajustava muito bem a essa dire\u00e7\u00e3o \u2013 e que ele sempre manteve.<\/p>\n\n\n\n<p>A voca\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica manifesta-se no jovem em seu desejo universal de saber, tal como revelam seus resumos e seu di\u00e1rio; seu interesse abrange, como o do jovem Leibniz, todos os campos do saber humano, e mostra-se met\u00f3dico e coerente ao tentar compreender a Antiguidade, a hist\u00f3ria e as conex\u00f5es espirituais que h\u00e1 nelas. Percebe-se claramente como, com base no trabalho hist\u00f3rico da Ilustra\u00e7\u00e3o, surge essa orienta\u00e7\u00e3o para a penetra\u00e7\u00e3o e a \u201cinterioriza\u00e7\u00e3o\u201d da hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cH\u00e1 tempos venho meditando sobre a hist\u00f3ria pragm\u00e1tica. Hoje j\u00e1 tenho uma ideia sobre ela, embora bastante obscura e unilateral.\u201d Para al\u00e9m dos simples fatos, ele busca alcan\u00e7ar os tra\u00e7os dos homens ilustres, os costumes, a religi\u00e3o, todo o car\u00e1ter de uma na\u00e7\u00e3o. Estuda a influ\u00eancia dos acontecimentos sobre a constitui\u00e7\u00e3o e a singularidade dos Estados, as causas de sua ascens\u00e3o e de sua queda. \u00c9 a Hist\u00f3ria de Voltaire e de Montesquieu. E sua finalidade pr\u00e1tica \u2013 provocar uma cultura das na\u00e7\u00f5es fundada na Ilustra\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 tamb\u00e9m o sentimento original dessas mentes pol\u00edticas. Com a hist\u00f3ria das religi\u00f5es, devemos aprender a submeter a exame todas as opini\u00f5es herdadas e transmitidas de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, inclusive aquelas em que nos parece imposs\u00edvel haver d\u00favida. Nesse esp\u00edrito t\u00e3o objetivo arde, ao mesmo tempo, o anseio pela liberta\u00e7\u00e3o do ser humano de toda a opress\u00e3o imposta por cren\u00e7as e formas de vida tradicionais.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><a>\u00c9poca universit\u00e1ria<\/a><\/h3>\n\n\n\n<p>1. No outono de 1788 come\u00e7am os estudos universit\u00e1rios em Tubinga, que duram cinco anos, at\u00e9 o outono de 1793.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora \u00e9 acolhido pelo antigo claustro agostiniano ao p\u00e9 do Burgberg, a \u201cfunda\u00e7\u00e3o\u201d por onde passou toda uma s\u00e9rie de esp\u00edritos livres e ousados: junto a Hegel, H\u00f6lderlin e Schelling, mais tarde Baur, Strauss, Vischer, Zeller, Schwegler. Reina ali uma alian\u00e7a \u00fanica entre regra exterior e liberdade interior. O sil\u00eancio conventual no magn\u00edfico vale do Neckar, as velhas regras do Instituto, os estudos gerais, especialmente a filosofia, tudo favorece o desenvolvimento do esp\u00edrito cient\u00edfico independente dos alunos. Assim tamb\u00e9m influenciou Hegel, e nesse estabelecimento se acentua o tra\u00e7o fundamental de seu car\u00e1ter: a entrega de toda a sua intimidade \u00e0s grandes realidades da ci\u00eancia, da Igreja e do Estado. O reverso, por\u00e9m, era que essa forma\u00e7\u00e3o um tanto mon\u00e1stica sufocava todos os germes que sua personalidade austera poderia oferecer para a express\u00e3o exterior e o desenvolvimento pessoal.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma vida interior que, desde a cela de estudo, persegue com afinco a natureza do mundo, mas que deve prescindir do dom\u00ednio das formas exteriores da exist\u00eancia; uma necessidade muito forte, autenticamente su\u00e1bia, de independ\u00eancia \u2013 que chega aos extremos da obstina\u00e7\u00e3o \u2013 sobre a qual, no entanto, pesa o fardo da ordena\u00e7\u00e3o pedante e do atraso pol\u00edtico-eclesi\u00e1stico. Essas s\u00e3o as circunst\u00e2ncias d\u00edspares em que transcorrem seus anos acad\u00eamicos. A juventude afirma suavemente seus direitos. No \u00e1lbum de seu amigo mais querido, Fink, escreveu versos sobre a amizade, sobre beijos ardentes, e mais tarde, no verso da folha: \u201cBelo foi o \u00faltimo ver\u00e3o, mais belo o de agora! Seu lema era: vinho, deste amor. 7 de outubro de 91.\u201d Mas, em outro \u00e1lbum, v\u00ea-se desenhada por seu amigo Fallot a figura de Hegel com a cabe\u00e7a baixa, um par de muletas e, ao p\u00e9, as palavras: \u201cDeus socorra o pobre velho\u201d; seus colegas o chamavam de \u201co velho\u201d. Era desses homens que nunca foram jovens e em quem, mesmo na velhice, arde um fogo oculto.<\/p>\n\n\n\n<p>2. Qu\u00e3o diferente dos anos em Stuttgart \u00e9 a atmosfera espiritual que envolve Hegel como estudante de teologia em Tubinga! O estudioso dos gregos se v\u00ea rodeado por conceitos teol\u00f3gicos. \u00c9 verdade que a educa\u00e7\u00e3o pela raz\u00e3o, pr\u00f3pria da \u00e9poca, penetra tamb\u00e9m na \u201cfunda\u00e7\u00e3o\u201d e exerce influ\u00eancia sobre seus fil\u00f3sofos e te\u00f3logos, mas, nessa antiga sede da rigorosa f\u00e9 luterana, busca-se um compromisso entre essa f\u00e9 e os direitos da raz\u00e3o. Esse compromisso \u00e9 representado pelo \u201csobrenaturalismo\u201d de um Baumgarten e de um Tieftrunk, em Halle, e de um Storr e seus disc\u00edpulos, em Tubinga. Sua base est\u00e1 na convic\u00e7\u00e3o acerca da personalidade do divino, da liberdade, do valor e da imortalidade da alma humana, tal como se encontra no fundo do cristianismo b\u00edblico. Mas esses sobrenaturalistas se deparavam com a nova situa\u00e7\u00e3o e precisavam reconhecer que a atua\u00e7\u00e3o da divindade est\u00e1 vinculada a leis eternas e firmes da ordem natural. Como poderiam agora fundamentar que, num recanto deste universo, se fizessem necess\u00e1rias interven\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias a essas leis? Como seria poss\u00edvel que, em Deus \u2013 cujo ser infinito e imut\u00e1vel se manifesta nas leis da natureza \u2013, surgisse a obscura inquieta\u00e7\u00e3o da vontade de condenar e, depois, sua transforma\u00e7\u00e3o em \u00e2nimo salvador? Tudo estava contra: a investiga\u00e7\u00e3o da natureza, a consci\u00eancia moral mais avan\u00e7ada, a cr\u00edtica das fontes. O que, nas Escrituras Sagradas, era express\u00e3o natural de uma concep\u00e7\u00e3o do mundo que n\u00e3o impunha limites \u00e0 for\u00e7a divina e inundava a Terra com poderes sobrenaturais, agora precisava ser defendido por meio de conceitos cient\u00edficos em plena era iluminista. Era necess\u00e1rio defender as profecias, as revela\u00e7\u00f5es, os milagres, a condena\u00e7\u00e3o e a reden\u00e7\u00e3o. Para salvar o essencial, sacrificava-se o que n\u00e3o era necess\u00e1rio na estrutura do dogma, e a velha cren\u00e7a da humanidade transformava-se em um sistema de conceitos esvaziados. Por isso, \u00e0s juventudes sinceras daquela \u00e9poca, figuras como N\u00f6sselt, Knap, Storr e Tieftrunk tinham de parecer antiquadas e insossas.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre esses sobrenaturalistas, Storr \u00e9 uma das mentes mais sutis, reconhecido chefe da faculdade de teologia. Provavelmente Hegel assistiu com ele aos cursos de teologia entre 1790 e 1793. Storr partia da veracidade de Jesus e da credibilidade de seus disc\u00edpulos. Assim, para ele, resulta o reconhecimento do que o Novo Testamento transmite sobre a vida, a doutrina e a obra de Cristo, que interpreta em seguida no sentido do dogma luterano e apresenta como uma conex\u00e3o conceitual bastante rigorosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda hoje, Ritschl v\u00ea em seus m\u00e9todos uma \u201cprova apreci\u00e1vel dos m\u00e9todos b\u00edblico-teol\u00f3gicos\u201d; na realidade, trata-se da se\u00e7\u00e3o artesanal do maior mist\u00e9rio sentimental da humanidade. A dogm\u00e1tica luterana repousa na liga\u00e7\u00e3o entre o Antigo Testamento e o Evangelho de Cristo por meio dos conceitos de condena\u00e7\u00e3o, sacrif\u00edcio e reden\u00e7\u00e3o. Quando Storr analisa o decreto condenat\u00f3rio e a justifica\u00e7\u00e3o pela paix\u00e3o e morte de Cristo, e toda a sua obedi\u00eancia, em \u00e1speros conceitos jur\u00eddicos, oriundos do campo da submiss\u00e3o pol\u00edtica e do direito penal, ele n\u00e3o faz sen\u00e3o rebaixar e destruir o mist\u00e9rio do cristianismo \u2013 acolhido pelo sentimento \u2013 e, ao mesmo tempo, tamb\u00e9m rebaixar a raz\u00e3o, por meio desse uso abusivo. E esse m\u00e9todo n\u00e3o foi melhorado pelo fato de Storr ter adotado, a servi\u00e7o de sua apolog\u00e9tica, o ponto de vista cr\u00edtico de Kant. Ele o realizou numa obra que segue quase literalmente a filosofia da religi\u00e3o de Kant. Tamb\u00e9m Tieftrunk utilizou a filosofia cr\u00edtica de maneira artificialmente antip\u00e1tica em defesa de sua doutrina da justifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Os jovens sentiam com desgosto a press\u00e3o que o sobrenaturalismo exercia sobre os estudos em Tubinga. Diante de todos esses sofistas, faziam valer as verdadeiras consequ\u00eancias kantianas: a soberania moral da pessoa. Mas Hegel se distingue de seus colegas porque, ao longo de v\u00e1rios anos, concentra toda a for\u00e7a de seu pensamento no tema da religiosidade crist\u00e3. O caminho desse esp\u00edrito objetivo consiste em que ele vive e medita sobre o mundo hel\u00eanico desde os primeiros anos escolares, e sobre o cristianismo durante o per\u00edodo universit\u00e1rio, como as duas maiores for\u00e7as hist\u00f3ricas do passado. Essa circunst\u00e2ncia \u00e9 o que o conduzir\u00e1 \u00e0 sua vis\u00e3o hist\u00f3rica do mundo. Nesse sentido, os anos passados na escola de Storr t\u00eam grande valor. Hegel assimilou os conceitos sutis nos quais, na doutrina paulino-luterana de Storr, se combinavam violentamente o sistema conceitual judaico da justa condena\u00e7\u00e3o e a reden\u00e7\u00e3o crist\u00e3. S\u00f3 dessa forma p\u00f4de, mais tarde, alcan\u00e7ar uma consci\u00eancia profunda tanto da religiosidade judaica quanto da crist\u00e3. Por meio de um trabalho cont\u00ednuo, chegaria a captar o que havia de vivo nesses conceitos de um acontecimento supramundano em Deus. A lei, e a san\u00e7\u00e3o por ela imposta, representam, por si, uma concep\u00e7\u00e3o religiosa da vida de tipo inferior.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois o castigo nem chega a expiar o crime diante da lei, nem leva \u00e0 sua supera\u00e7\u00e3o: provoca apenas o sentimento de impot\u00eancia diante de um senhor. O perd\u00e3o dos pecados pertence a uma esfera que est\u00e1 al\u00e9m da moral judaica: \u00e9 o \u201cdestino reconciliado pelo amor\u201d. Com essa profundidade, Hegel se confronta com a ortodoxia luterana de Tubinga durante seus estudos em Berna e Frankfurt. Por isso, a introdu\u00e7\u00e3o nesse mundo \u00e1spero de conceitos teol\u00f3gicos, proporcionada por Storr, representa um momento importante em sua evolu\u00e7\u00e3o rumo a uma nova consci\u00eancia hist\u00f3rica. J\u00e1 em Tubinga, Hegel d\u00e1 os primeiros passos: rejeita a realidade ultramundana desse drama de condena\u00e7\u00e3o e reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>3. Nesse trabalho teol\u00f3gico solit\u00e1rio, entram novas ideias. N\u00e3o procedem das salas de aula da universidade: os acontecimentos universais tamb\u00e9m penetram, de forma irrefre\u00e1vel, no sil\u00eancio conventual da funda\u00e7\u00e3o e despertam, nos disc\u00edpulos mais dotados, um movimento interior que os une e provoca neles um entusiasmo comum pelo novo dia do esp\u00edrito que desponta.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas jovens, dotados de formas diferentes, mas com genialidade equivalente, encontram-se por volta de 1793 no claustro agostiniano. H\u00f6lderlin ingressa na funda\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo que Hegel. Os primeiros amigos do jovem poeta tamb\u00e9m eram poetas, e n\u00e3o se sabe se ele teve contato com Hegel antes do outono de 1790. Foi ent\u00e3o que se tornaram colegas de quarto e, pouco a pouco, surgiu entre eles uma amizade baseada no amor compartilhado pelos gregos e nas mesmas cren\u00e7as filos\u00f3ficas. Um destino feliz aproxima, assim, a nova poesia da vida pessoal de Hegel por meio de uma de suas figuras mais nobres. O primeiro sonho de amor e felicidade dessa grande alma pura havia fracassado, triunfara o desejo de desenvolver livremente suas for\u00e7as, e, nessa \u00e9poca decisiva em que lutava com toda a energia pela expans\u00e3o de seu esp\u00edrito, os estudos filos\u00f3ficos come\u00e7am a exercer ascend\u00eancia sobre ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Acompanhados de outros amigos, H\u00f6lderlin e Hegel leem Plat\u00e3o, Kant e as cartas de Jacobi sobre Spinoza, cuja segunda edi\u00e7\u00e3o havia sa\u00eddo em 1789. Esse livro continha a confiss\u00e3o de Lessing sobre o \u201cum e tudo\u201d, a antiga f\u00f3rmula grega da presen\u00e7a da divindade no universo; H\u00f6lderlin a transcreve, em fevereiro de 1791, no \u00e1lbum de Hegel.<\/p>\n\n\n\n<p>No outono de 1790, Schelling ingressa na escola. Ainda n\u00e3o havia completado 16 anos. Seu g\u00eanio residia em uma for\u00e7a combinat\u00f3ria extraordinariamente potente. Com facilidade, abrangia grandes massas de conhecimento e descobria nelas um ponto de uni\u00e3o que operava de modo surpreendente e esclarecedor. N\u00e3o era de sua natureza o exame anal\u00edtico cuidadoso, a determina\u00e7\u00e3o conceitual rigorosa, as generaliza\u00e7\u00f5es de valor duradouro, mas ele se impunha pelo poder de sua intui\u00e7\u00e3o genial. Desde cedo teve consci\u00eancia de sua for\u00e7a. O g\u00eanio precoce do estudante de teologia dedicou-se aos estudos orientais sob a dire\u00e7\u00e3o do semitista Schnurrer. N\u00e3o foram, portanto, seus estudos, mas o interesse comum pela Revolu\u00e7\u00e3o que o colocou em contato com os outros dois colegas. \u00c0 medida que se voltava cada vez mais para a filosofia, surgiu entre ele e Hegel aquela amizade juvenil que representa, para ambos, uma parte de seu destino.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00f6lderlin n\u00e3o conseguiu estabelecer com Schelling \u2013 orgulhoso e seguro de sua vit\u00f3ria \u2013 uma rela\u00e7\u00e3o de amizade t\u00e3o \u00edntima quanto a de Hegel.<\/p>\n\n\n\n<p>Justamente nesses anos, entre 1788 e 1793, ocorrem os dois grandes acontecimentos universais que levam a \u00e9poca do Iluminismo a seu cumprimento e, ao mesmo tempo, abrem as portas de uma nova era. Em Kant, verifica-se a transforma\u00e7\u00e3o do pensamento alem\u00e3o, e a Revolu\u00e7\u00e3o destr\u00f3i, na Fran\u00e7a, o antigo Estado e empreende a funda\u00e7\u00e3o de uma nova ordem social. Os jovens entregam-se com entusiasmo a essas duas potentes manifesta\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo que se encerra. Abandonam seus mestres, com sua ins\u00edpida mistura de uma f\u00e9 moderadamente iluminada e uma submiss\u00e3o pol\u00edtica ao governo arbitr\u00e1rio do duque.<\/p>\n\n\n\n<p>O que mais chama a aten\u00e7\u00e3o deles em Kant \u00e9, sobretudo, a posi\u00e7\u00e3o soberana da raz\u00e3o frente \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es sens\u00edveis, \u00e0 autoridade e \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o. A doutrina da faculdade da raz\u00e3o de dar a si mesma a lei \u2013 essa ideia kantiana que encerra o processo do Iluminismo \u2013 foi o que os libertou do dogma, como demonstram as cartas trocadas pelos jovens quando Hegel partiu de Tubinga. Schelling escrevia, ent\u00e3o, sobre as tentativas dos te\u00f3logos de Tubinga de \u201cextrair de Kant um caldo substancioso para a valetudin\u00e1ria teologia\u201d: \u201cN\u00f3s dois queremos impedir que aquilo de grande que produziu nossa \u00e9poca tropece na levedura p\u00fatrida dos tempos antigos; temos que conserv\u00e1-lo puro entre n\u00f3s, tal como saiu de seu autor.\u201d E Hegel, em sua resposta, refere-se \u00e0s raz\u00f5es de pol\u00edtica eclesi\u00e1stica que explicariam essa corrup\u00e7\u00e3o da filosofia kantiana na universidade: \u201cN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel abalar a ortodoxia enquanto sua profiss\u00e3o, ligada a proveitos materiais, estiver entrela\u00e7ada com todo o Estado.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o podemos verificar a profundidade com que Hegel compreendia ent\u00e3o o sistema filos\u00f3fico de Kant. Em Berna, ele retoma seus estudos e se desprende da primeira mistura de seus pensamentos com os do Iluminismo.<\/p>\n\n\n\n<p>O outro grande acontecimento que arrebatou os jovens de Tubinga foi a Revolu\u00e7\u00e3o. A inoc\u00eancia pol\u00edtica dos alem\u00e3es os tornava espectadores entusi\u00e1sticos dessa terr\u00edvel trag\u00e9dia. Os estudantes fundaram um clube pol\u00edtico, do qual tamb\u00e9m fizeram parte Schelling, Hegel e H\u00f6lderlin. Quando o duque soube dos discursos revolucion\u00e1rios, dos c\u00e2nticos de liberdade e da entoa\u00e7\u00e3o da Marselhesa por seus estudantes de teologia, apresentou-se rapidamente no refeit\u00f3rio e lhes dirigiu um discurso disciplinador. Parece que Schelling, quando lhe perguntaram se se arrependia do ocorrido, respondeu: \u201cExcel\u00eancia, todos pecamos muitas vezes.\u201d Em seus hinos \u00e0 liberdade, H\u00f6lderlin canta o grande dia da colheita, quando a liga dos her\u00f3is alcan\u00e7ar\u00e1 a vit\u00f3ria para os companheiros, os tronos dos tiranos estar\u00e3o vazios e seus lacaios morder\u00e3o o p\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegou uma nova hora da cria\u00e7\u00e3o: o novo s\u00e9culo ser\u00e1 o da liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p>E o pr\u00f3prio Hegel \u00e9 lembrado por seus colegas daquela \u00e9poca como um dos mais entusi\u00e1sticos paladinos da liberdade e da igualdade. A raz\u00e3o soberana e progressiva, que constitui a alma da filosofia kantiana, parecia estar atuando na Revolu\u00e7\u00e3o e, enfim, alcan\u00e7ando sua soberania. Que acontecimento, que experi\u00eancia \u00edntima para uma mente destinada a compreender a hist\u00f3ria como o desenvolvimento do g\u00eanero humano rumo \u00e0 liberdade! As esperan\u00e7as de futuro ganham, em Hegel e seus amigos, sua concretiza\u00e7\u00e3o ideal na vida grega, tal como era venerada pela \u00e9poca. Sua transposi\u00e7\u00e3o para o campo moral, atrav\u00e9s da ret\u00f3rica socr\u00e1tica, j\u00e1 n\u00e3o operava mais.<\/p>\n\n\n\n<p>A natureza do mundo grego surge agora como \u201cserena grandeza\u201d, como \u201chumanidade universal\u201d. A \u201cGr\u00e9cia dos deuses\u201d de Schiller exerce uma influ\u00eancia indescrit\u00edvel. Para H\u00f6lderlin e Hegel, Plat\u00e3o \u00e9 o verdadeiro int\u00e9rprete do passado hel\u00eanico. A nostalgia por esse passado consome a alma de H\u00f6lderlin. Na intui\u00e7\u00e3o que tem dele, mistura-se a intimidade crist\u00e3, da mesma forma que na Ifig\u00eania de Goethe. Ele havia sido influenciado pela teologia de Tubinga por mais tempo do que Hegel e Schelling; cr\u00ea, com Jacobi, que o pensamento conduz inexoravelmente ao ate\u00edsmo de Spinoza, e apenas na vida prodigiosa de Cristo, historicamente testemunhada, encontra abrigo. Kant, Schiller e o conv\u00edvio com seus amigos fil\u00f3sofos o emanciparam da influ\u00eancia dessa teologia apolog\u00e9tica. Desde ent\u00e3o, ele se mant\u00e9m no valor puramente humano do cristianismo, no que este se aparenta ao helenismo. Em ambos, venera seu ideal pessoal: a beleza da exist\u00eancia pr\u00f3pria e a eleva\u00e7\u00e3o do g\u00eanero humano, a serenidade recolhida e o anseio por uma vida mais rica em perigos e hero\u00edsmos, por uma arte que transfigure o mundo em beleza e santifique a paix\u00e3o, por uma comunidade livre pela qual valha a pena viver e morrer.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma ilus\u00e3o muito difundida naquela \u00e9poca era a sua: acreditar que aquilo que esperava do futuro j\u00e1 havia se realizado uma vez na Gr\u00e9cia. A mesma vis\u00e3o do mundo grego forma-se tamb\u00e9m em seus amigos fil\u00f3sofos, mas Hegel, mais realista que H\u00f6lderlin, preserva a ideia iluminista segundo a qual a liberdade pol\u00edtica dos Estados gregos foi o fundamento da humanidade superior que neles se desenvolveu.<\/p>\n\n\n\n<p>4. Assim viviam os amigos, com a consci\u00eancia do progresso do g\u00eanero humano, e todo o enriquecimento trazido pelo criticismo filos\u00f3fico e pela Revolu\u00e7\u00e3o Francesa des\u00e1gua agora no trabalho teol\u00f3gico de Hegel. Para ele, a f\u00e9 moral kantiana na raz\u00e3o representa, de modo definitivo, o fundamento cient\u00edfico da moral e da religi\u00e3o. Seu esp\u00edrito pr\u00e1tico coloca a seguinte quest\u00e3o: como \u00e9 poss\u00edvel transformar a religiosidade crist\u00e3 vigente em uma \u201creligi\u00e3o popular\u201d que encarne uma cultura moral e religiosa progressiva? Conservou-se toda uma s\u00e9rie de fragmentos que tentam resolver essa quest\u00e3o \u2013 em parte manuscritos, em parte transmitidos por Rosenkranz. Alguns desses fragmentos pertencem sem d\u00favida a essa \u00e9poca; outros s\u00e3o mais tardios. Como as corre\u00e7\u00f5es que apresentam indicam que Hegel pretendia utiliz\u00e1-los como material para uma exposi\u00e7\u00e3o mais madura, trataremos deles com mais detalhe quando for o momento.<\/p>\n\n\n\n<p>Assinalemos apenas o nexo das ideias que ele j\u00e1 delineava em Tubinga. Ele v\u00ea uma media\u00e7\u00e3o poss\u00edvel entre a f\u00e9 eclesi\u00e1stica e a religi\u00e3o da raz\u00e3o em uma religi\u00e3o popular que alie as convic\u00e7\u00f5es religiosas do povo a todos os impulsos vigorosos da a\u00e7\u00e3o voltada ao enobrecimento do esp\u00edrito. A oposi\u00e7\u00e3o r\u00edgida entre a f\u00e9 da Igreja e a f\u00e9 da raz\u00e3o, tal como era apresentada pelo Iluminismo, ficava superada nesse conceito hist\u00f3rico-pol\u00edtico. No caminho percorrido pela humanidade desde a cren\u00e7a em fetiches at\u00e9 a religi\u00e3o moral da raz\u00e3o, essa religi\u00e3o popular representa a etapa final que prepara a f\u00e9 racional, j\u00e1 que as massas s\u00f3 muito lentamente \u2013 ou talvez nunca \u2013 poder\u00e3o se elevar at\u00e9 os sublimes princ\u00edpios morais de Kant. Nessa concep\u00e7\u00e3o, manifesta-se o pensamento historicista do jovem fil\u00f3sofo, orientado pela ideia de continuidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O centro de tal religi\u00e3o popular, para ele, \u00e9 o amor.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois se essa religi\u00e3o popular pretende mobilizar as boas inclina\u00e7\u00f5es dos homens, seu sentimento moral, como for\u00e7as \u00e9ticas operantes de forma geral, essas for\u00e7as encontram seu centro no amor, que \u00e9 o princ\u00edpio fundamental do car\u00e1ter emp\u00edrico.<\/p>\n\n\n\n<p>Hegel destaca com profundidade como o amor tem algo de an\u00e1logo \u00e0 raz\u00e3o e constitui a passagem desta para um princ\u00edpio moral. Assim como a raz\u00e3o, \u201cenquanto princ\u00edpio de leis universalmente v\u00e1lidas, se reconhece em todo ser racional\u201d, o amor tamb\u00e9m vive nos outros, age neles, encontra-se neles. De modo semelhante, Schiller, em sua Raps\u00f3dia, havia colocado o amor no centro do mundo moral, sendo seguido nisso por H\u00f6lderlin. E tamb\u00e9m Lessing reconhecera no amor o princ\u00edpio da religi\u00e3o de Cristo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, se queremos que o amor produza uma moral que permeie o povo, devemos recorrer \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, ao exemplo e \u00e0s institui\u00e7\u00f5es de governo \u2013 e assim ele dever\u00e1 tornar-se a alma do Estado. Hegel manteve sempre esse conceito da religi\u00e3o como alma do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela deve ser a for\u00e7a realizadora da moral no conjunto pol\u00edtico e restaurar, por vias modernas, a \u00e9tica civil dos gregos. Por isso, essa religi\u00e3o popular preencher\u00e1 a imagina\u00e7\u00e3o com grandes imagens puras e se ver\u00e1 satisfeita dessa forma; os sentimentos sublimes expulsar\u00e3o dos cora\u00e7\u00f5es aqueles afetos de falsa humildade pelos quais a moral eclesi\u00e1stica exerce seu efeito corruptor. A religi\u00e3o popular insuflar\u00e1 \u00e0 alma o entusiasmo indispens\u00e1vel \u00e0 virtude grande e sublime.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa conex\u00e3o, j\u00e1 se apresenta nele a vis\u00e3o do todo hist\u00f3rico que vai da religi\u00e3o de Cristo, passando pela Igreja corrompida, que abrange tanto a f\u00e9 protestante quanto a cat\u00f3lica, at\u00e9 o novo evangelho que se aproxima. O ideal sublime pregado por Cristo era capaz de formar alguns homens, mas n\u00e3o podia ser suficiente para sua realiza\u00e7\u00e3o em uma comunidade; em seu lugar surge a falsa humildade, a f\u00e9 fetichista que busca satisfazer a Deus por meio das obras exteriores, os espantalhos da Igreja, suas medidas violentas no interior e no exterior. Somente quando a religi\u00e3o privada de Cristo se transformar em uma religi\u00e3o popular, poder\u00e1 encarnar uma moral saud\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta \u00e9poca do desenvolvimento de Hegel vai at\u00e9 sua \u00faltima resid\u00eancia em Berna, at\u00e9 os primeiros meses de 1795, quando come\u00e7a a mergulhar novamente em Kant, sob o ponto de vista de Fichte e das duas primeiras obras de Schelling. \u00c9 natural que as \u00e9pocas do desenvolvimento interior dos fil\u00f3sofos n\u00e3o coincidam com as mudan\u00e7as ocasionais de suas resid\u00eancias. O leitor deve ter isso em mente ao longo deste relato. Pois, se passarmos constantemente do desenvolvimento interior para o exterior, isso n\u00e3o significa que os per\u00edodos de ambos coincidam completamente.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><a>Preceptor em Berna<\/a><\/h3>\n\n\n\n<p>Professor particular! Esta era a mis\u00e9ria necess\u00e1ria dos futuros eclesi\u00e1sticos e mestres. O poeta Lenz descreveu de forma pl\u00e1stica os perigos e dores dessa alta servid\u00e3o; a alma delicada de H\u00f6lderlin foi perturbada por essa prova. A jovem gera\u00e7\u00e3o da \u00e9poca sentia isso com mais pesar justamente porque recebeu as impress\u00f5es da Revolu\u00e7\u00e3o. Hegel trabalhou como professor dom\u00e9stico durante sete anos, tr\u00eas em Berna e quatro em Frankfurt, at\u00e9 que a morte de seu pai lhe trouxe a liberdade na forma de uma pequena heran\u00e7a. N\u00e3o conheceu, ao contr\u00e1rio de Schleiermacher e Herbart, o aspecto agrad\u00e1vel e educativo que poderia ser dado nessas circunst\u00e2ncias.<\/p>\n\n\n\n<p>No outono de 1793, terminou sua \u00e9poca de estudante e passou no exame para se tornar candidato \u00e0 teologia. Aceitou uma posi\u00e7\u00e3o na fam\u00edlia Steiger, que pertencente \u00e0 aristocracia de Berna. Com um esp\u00edrito equilibrado e, ao que parece, sem qualquer envolvimento afetivo com a vida da antiga e orgulhosa fam\u00edlia que utilizava seus servi\u00e7os, estudou nesse ambiente o lado hip\u00f3crita da oligarquia declinante de Berna. Eram os \u00faltimos anos antes da queda dessas linhagens nobres, que tamb\u00e9m sucumbiram \u00e0s ideias revolucion\u00e1rias. Seu interesse ia desde as intrigas eleitorais e nepotismos dessa oligarquia at\u00e9 o regime fiscal do cant\u00e3o. Redigiu ent\u00e3o uma exposi\u00e7\u00e3o detalhada do regime fiscal de Berna e escreveu um trabalho sobre as mudan\u00e7as no sistema militar na transi\u00e7\u00e3o da forma mon\u00e1rquica para a forma republicana, e entre suas leituras estavam Tuc\u00eddides, as grandes cabe\u00e7as pol\u00edticas da Ilustra\u00e7\u00e3o, Montesquieu, Hume e Gibbon, e as obras hist\u00f3ricas de Schiller.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><a>Rela\u00e7\u00e3o com o movimento filos\u00f3fico<\/a><\/h3>\n\n\n\n<p>Seu trabalho mais intenso prossegue na dire\u00e7\u00e3o dos estudos teol\u00f3gicos de seus anos em Tubinga. O grande tema que n\u00e3o o abandona \u00e9 a vida e a doutrina de Jesus e a transforma\u00e7\u00e3o de sua religi\u00e3o em um dogma positivo.<\/p>\n\n\n\n<p>A obra de Kant sobre a religi\u00e3o, de 1793, nos oferece a express\u00e3o mais cabal e madura da compreens\u00e3o do cristianismo pela Ilustra\u00e7\u00e3o. Em 1794, Hegel se dedica novamente a Kant. Ainda n\u00e3o conhece Reinhold e os \u201cnovos esfor\u00e7os para penetrar no fundo profundo\u201d. Seu olhar se dirige exclusivamente \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o da nova filosofia ao mundo moral. Sente curiosidade apenas pelo trabalho de seu amigo Schelling sobre a \u201cpossibilidade de uma forma da filosofia\u201d, e ficou bastante impressionado com sua leitura, como nos prova uma carta de 16 de abril de 1795. Desde esse momento, se inicia nele uma revolu\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica. Recentemente, havia lido as cartas de Schiller \u201csobre a educa\u00e7\u00e3o est\u00e9tica\u201d e as admirava como uma obra-prima. Mantinha correspond\u00eancia com H\u00f6lderlin, e o entusiasmo deste pelos grandes planos de Fichte lhe foi transmitido. Estava, portanto, preparado para acolher a nova orienta\u00e7\u00e3o da filosofia devida a Fichte, filosofia que conheceu agora pelo trabalho de seu amigo.<\/p>\n\n\n\n<p>O trabalho de Schelling sobre a \u201cpossibilidade de uma forma da filosofia\u201d apoia-se diretamente no outro trabalho de Fichte sobre o conceito da teoria da ci\u00eancia, de 1794; este apareceu no mesmo ano. Partindo da conex\u00e3o do conhecimento humano, reivindica que a ci\u00eancia esteja sob a forma da unidade; nesse caso, seu princ\u00edpio ser\u00e1 a condi\u00e7\u00e3o tanto de seu conte\u00fado quanto de sua forma e ele mesmo, absolutamente, segundo o conte\u00fado e segundo a forma; e a partir desse ponto, desenvolve a pequena obra, a doutrina de Fichte sobre o eu, que se \u201ccoloca\u201d a si mesmo, o n\u00e3o-eu e a media\u00e7\u00e3o entre os dois.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma carta a Hegel, de 4 de fevereiro de 1795, Schelling lhe explica o n\u00facleo metaf\u00edsico do tratado e o incentiva a realizar seu plano de fixar os limites das consequ\u00eancias que a lei moral pode tirar sobre a ordem do mundo suprassens\u00edvel. Ele mesmo havia pensado uma vez, para zombar de Storr e seus seguidores, em derivar por esse m\u00e9todo toda a dogm\u00e1tica cat\u00f3lica medieval. E, diante da pergunta de Hegel se n\u00e3o acreditava que a prova moral bastava para fundamentar um ser individual, pessoal, ele responde lembrando ao \u201cleitor familiarizado com Lessing\u201d uma famosa senten\u00e7a deste que se encontra em Jacobi: \u201cJ\u00e1 n\u00e3o nos servem os conceitos ortodoxos sobre Deus. Vamos al\u00e9m do ser pessoal\u201d. Exp\u00f5e o espinocismo que ele deriva do eu absoluto de Fichte, e Hegel, em sua resposta a Schelling de 16 de abril de 1795, encontra esclarecidas, por meio desse rep\u00fadio ao m\u00e9todo de Kant para fundar um mundo suprassens\u00edvel, todas as suas presun\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Todas essas sugest\u00f5es acendem nele a consci\u00eancia da soberania do esp\u00edrito. \u201cDissipa-se o halo em torno das cabe\u00e7as dos opressores e deuses da terra.\u201d A filosofia do eu absoluto, como desenvolvimento \u00faltimo do sistema kantiano, tal como tentam obt\u00ea-la Fichte e Schelling, vai provocar na Alemanha uma revolu\u00e7\u00e3o espiritual. Os princ\u00edpios est\u00e3o presentes, e \u00e9 necess\u00e1rio apenas elabor\u00e1-los de maneira geral e aplic\u00e1-los ao saber atual. O descenso da for\u00e7a peculiar do homem para o n\u00edvel do bom lhe pareceu a Hegel a doutrina comum da religi\u00e3o e da pol\u00edtica, que jogavam sob o mesmo manto. Rousseau, Schiller e Fichte lhe inspiram a vontade de trabalhar por uma nova ordem da sociedade que se baseie na consci\u00eancia da dignidade, da bondade e da for\u00e7a criadora da humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, ele se encontra fortalecido com as novas opini\u00f5es no caminho iniciado em Tubinga e continua tamb\u00e9m os trabalhos de ent\u00e3o para se livrar do jugo da religi\u00e3o positiva. A transforma\u00e7\u00e3o de sua concep\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica do mundo fica em segundo plano, desconhecida para ele mesmo em seus contornos e alcance. Tamb\u00e9m nesses dias em Berna domina o sentimento de liberta\u00e7\u00e3o religiosa da humanidade por meio do conhecimento da religiosidade crist\u00e3 e de sua hist\u00f3ria. Diante dos epis\u00f3dios da vida de Hippel, a quem queria, e que parecem expressar poeticamente as ideias e sentimentos de Kant, exclama: \u201cCaminha em dire\u00e7\u00e3o ao sol, amigo, para que a sa\u00fade da humanidade amadure\u00e7a logo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>II. Tr\u00eas obras sobre a religi\u00e3o crist\u00e3<\/a><\/h2>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><a>1. A vida de Jesus<\/a><\/h3>\n\n\n\n<p>Sua primeira obra, uma vida de Jesus, deveria estar a servi\u00e7o desse empenho pr\u00e1tico voltado no sentido da ilustra\u00e7\u00e3o religiosa. O rascunho foi escrito entre 9 de maio e 24 de julho de 1795. Nasce, portanto, quando o sistema de Kant come\u00e7a a adotar em seu esp\u00edrito uma nova forma. A fermenta\u00e7\u00e3o na cabe\u00e7a do jovem estudante estava alimentada por influ\u00eancias de diversas origens. Os cl\u00e1ssicos, a obra da Ilustra\u00e7\u00e3o, Lessing, a Raps\u00f3dia de Schiller, finalmente Kant, convergiam nesse momento nele. Mas, assim como a filosofia transcendental operava nele na nova forma que lhe deram Fichte e Schelling em 1795, tamb\u00e9m a ideia de um sistema racional de validade universal deveria excluir todas as determina\u00e7\u00f5es emp\u00edricas, como o amor e a simpatia, na moral. E, ao se debru\u00e7ar sobre a obra de expor a religi\u00e3o de Cristo como a f\u00e9 moral da raz\u00e3o, teve que se ater ao te\u00edsmo kantiano em uma obra que deveria atuar entre os cultos em favor daquela ideia, apesar de j\u00e1 vacilar dentro de si mesmo, pois, nessa \u00e9poca, escreveu a Schelling que considerava a ideia de Deus como o eu absoluto, tal como seu amigo lhe expusera, uma propriedade exclusiva de uma filosofia esot\u00e9rica. Ambas as quest\u00f5es devem ser levadas em conta se se quiser compreender a posi\u00e7\u00e3o original das manifesta\u00e7\u00f5es de Hegel nessa \u00e9poca em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s suas ideias de Tubinga, por um lado, e ao conte\u00fado de suas cartas a Schelling, por outro.<\/p>\n\n\n\n<p>1. A tarefa que Hegel se prop\u00f5e em sua Vida de Jesus j\u00e1 lhe \u00e9 indicada por Kant. Na obra de Kant sobre a filosofia da religi\u00e3o, encontra-se uma se\u00e7\u00e3o: \u201cA f\u00e9 eclesi\u00e1stica tem como seu int\u00e9rprete m\u00e1ximo a pura f\u00e9 religiosa.\u201d Ele recomenda uma interpreta\u00e7\u00e3o dos Livros Sagrados no sentido de uma religi\u00e3o pura da raz\u00e3o, apelando para a transforma\u00e7\u00e3o estoica da f\u00e9 nos deuses e para a que Filon realiza com o Antigo Testamento, justificando seu m\u00e9todo dizendo que a finalidade de se ocupar desses livros consiste em \u201cfazer homens melhores\u201d. \u201cComo o aprimoramento moral dos homens constitui o fim pr\u00f3prio de toda religi\u00e3o racional, este ser\u00e1 tamb\u00e9m o princ\u00edpio supremo de toda interpreta\u00e7\u00e3o das Escrituras.\u201d Nessas frases de Kant, encontramos as diretrizes para a exposi\u00e7\u00e3o de Hegel. A Vida de Jesus tem um fim pr\u00e1tico e serve \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de sua religi\u00e3o popular. A doutrina de Cristo \u00e9 transformada na f\u00e9 moral de Kant, e o exemplo de Cristo deve comunicar calor e for\u00e7a a essa f\u00e9 racional.<\/p>\n\n\n\n<p>O relato come\u00e7a com a a\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Batista. Em seguida, passa para Jesus. Ele contribuiu mais do que Jo\u00e3o para o aprimoramento das m\u00e1ximas corrompidas dos homens e para o conhecimento da verdadeira moralidade e da depurada adora\u00e7\u00e3o a Deus. Seus pais s\u00e3o Maria e Jos\u00e9; nesse ponto, o autor nos apresenta a camada mais profunda da tradi\u00e7\u00e3o e n\u00e3o toca em descri\u00e7\u00f5es posteriores. Tamb\u00e9m desconsidera as lendas que cercam o nascimento de Jesus. O batismo de Cristo no Jord\u00e3o se torna um testemunho de suas grandes disposi\u00e7\u00f5es. O mais estranho de todo o relato \u00e9 a breve not\u00edcia sobre as tenta\u00e7\u00f5es; ressoam nelas as vozes do Fausto goethiano. \u201cNo meio de sua medita\u00e7\u00e3o, em sua solid\u00e3o, surge a ideia de que talvez valha a pena tentar chegar o mais longe poss\u00edvel por meio do estudo da natureza e talvez da uni\u00e3o com esp\u00edritos superiores, para transformar mat\u00e9rias comuns em mat\u00e9rias preciosas, \u00fateis para o homem, ou tornar-se independente da natureza.\u201d Assim Hegel interpreta as incita\u00e7\u00f5es de Satan\u00e1s. Mas Jesus prefere permanecer dentro dos limites do poder do homem sobre a natureza. Outra vez lhe passa pela imagina\u00e7\u00e3o o que os homens consideram grande, dominar sobre milh\u00f5es, fazer com que o mundo se ocupe deles, mas tamb\u00e9m rejeitou essa tenta\u00e7\u00e3o para seguir com pureza de cora\u00e7\u00e3o a lei eterna da moral. Seguem-se os ensinamentos de Jesus. A luta entre a f\u00e9 eclesi\u00e1stica, o culto cerimonial dos fariseus e a religi\u00e3o racional de Cristo, eis o conflito tr\u00e1gico dessa vida, um conflito humano, ainda n\u00e3o resolvido nos tempos de Hegel e que ele tamb\u00e9m abordava. \u201cSe v\u00f3s considerais os estatutos eclesi\u00e1sticos e os mandamentos positivos como a lei suprema que foi dada ao homem, ent\u00e3o desconheceis a dignidade do homem e sua capacidade de tirar de si mesmo o conceito da divindade e o conhecimento de sua vontade.\u201d Com essa f\u00f3rmula kantiana, Hegel expressa o ensino de Cristo. Na par\u00e1bola do homem rico, faz com que Abra\u00e3o diga: \u201cAo homem foi dada a lei, sua raz\u00e3o; nem do c\u00e9u nem da terra pode vir-lhe outro ensinamento.\u201d E define o Esp\u00edrito Santo como a \u201cmoral desenvolvida\u201d dos disc\u00edpulos de Cristo. Neles se encontrar\u00e1, ap\u00f3s sua partida, seus ap\u00f3stolos. Os milagres s\u00e3o simplesmente suprimidos. Assim, para Hegel, a \u00faltima visita a Jerusal\u00e9m e a morte de Jesus representam o ato final de um drama que se desenvolve entre a f\u00e9 eclesi\u00e1stica estabelecida e a religi\u00e3o da raz\u00e3o. Compar\u00e1vel \u00e0 trag\u00e9dia Ant\u00edgona com seu conflito entre os direitos eternos da natureza, que Ant\u00edgona encarna, e as leis positivas. Ele tamb\u00e9m pensa sobre a morte de Cristo na morte de S\u00f3crates no F\u00e9don. A exposi\u00e7\u00e3o termina com a morte de Jesus e seu sepultamento.<\/p>\n\n\n\n<p>2. Esta Vida de Jesus de Hegel \u00e9 afim, por seu ponto de vista singular, \u00e0 Vida de Jesus do te\u00f3logo Paulus, que apareceu em 1828 como um resultado dos estudos cr\u00edticos iniciados no s\u00e9culo XIX. S\u00f3 que Paulus associou essa interpreta\u00e7\u00e3o pela f\u00e9 moral \u00e0 de uma f\u00e9 erudita, procedimento que Kant recomendou em outro lugar, juntamente com a simples interpreta\u00e7\u00e3o moral. Hegel, em poucos anos, haveria de percorrer, em seu desenvolvimento solit\u00e1rio, o caminho trilhado pela teologia, desde a interpreta\u00e7\u00e3o moral do racionalista Paulus at\u00e9 a explica\u00e7\u00e3o m\u00edtica de Strauss.<\/p>\n\n\n\n<p>O contraste entre o solit\u00e1rio do Mar da Galileia, que ouve vozes interiores e experimenta, na pureza de seu cora\u00e7\u00e3o, a for\u00e7a da vis\u00e3o divina, e a submiss\u00e3o farisaica \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o divina, como uma autoridade exterior e hist\u00f3rica, representa, sem d\u00favida, um aspecto importante na atitude vital de Jesus. O disc\u00edpulo da cr\u00edtica religiosa kantiana destacou com justeza esse antagonismo que as fontes assinalam, mas n\u00e3o levou em conta os outros pontos em que Jesus se op\u00f4s \u00e0 religiosidade judaica da \u00e9poca. Durante sua estadia em Tubinga, Hegel reconheceu a import\u00e2ncia do amor no desenvolvimento moral, embora j\u00e1 nesses primeiros esbo\u00e7os se encontre submetido ao imperativo categ\u00f3rico do dever. Mas na Vida de Jesus, isso se expressa de forma muito mais \u00e1spera, no sentido kantiano, acima de qualquer motiva\u00e7\u00e3o pat\u00e9tica da moral. \u201cSe amais os que vos amam, que m\u00e9rito tem isso? Este \u00e9 o sentimento natural, que at\u00e9 os maus n\u00e3o desconhecem. Mas nada fizestes ainda no sentido do dever.\u201d Como se explica esse desenvolvimento mais rigoroso do car\u00e1ter racional da moralidade? Provavelmente, deve-se \u00e0 influ\u00eancia exercida sobre Hegel pelo desenvolvimento da jovem escola kantiana em Fichte e pelos primeiros escritos de Schelling. Aqui se deu uma elabora\u00e7\u00e3o consequente da doutrina de Kant sobre a conex\u00e3o<em> a priori <\/em>no esp\u00edrito humano.<\/p>\n\n\n\n<p>Sob sua influ\u00eancia, sempre se destaca a faculdade aut\u00f4noma da raz\u00e3o humana para se dar a si mesma sua lei; por isso, a moral \u00e9 para ele, no sentido mais pr\u00f3prio de Kant, supraemp\u00edrica, fundada no ser universal da raz\u00e3o; e agora coloca esse ponto de vista e sua profunda e amarga oposi\u00e7\u00e3o pessoal contra a religi\u00e3o estatut\u00e1ria, contra seus dogmas e ritos, na \u00e9poca do cristianismo primitivo. Ele entende assim por sua pr\u00f3pria atitude vital, por essa grande luta entre a autoridade exterior e a autonomia, em meio \u00e0 qual se encontra. De maneira resoluta e definitiva, como seu car\u00e1ter lhe indica, ele evitou nos Evangelhos tudo o que anuncia o amor como o princ\u00edpio verdadeiro da moralidade interna de Jesus. Em nenhuma parte desta Vida de Jesus ressoa o pleno acorde do amor que ouvimos no Testamento de Jo\u00e3o, de Lessing, ou na Raps\u00f3dia, de Schiller. Quando Jesus pede uma vez a Deus que o amor pelo bem una os disc\u00edpulos entre si, com Deus e com ele, quando sente o esp\u00edrito de amor como a for\u00e7a que opera nele e nos disc\u00edpulos, Hegel simplesmente ignora. Este \u00e9 o primeiro caso em que Hegel aplica seu segredo para compreender mais profundamente o passado, partindo do que ainda o rodeia como vida hist\u00f3rica presente. Esse procedimento constituir\u00e1 uma parte importante de seu m\u00e9todo hist\u00f3rico. E, neste primeiro caso, ele se serve do modelo da profunda interpreta\u00e7\u00e3o que Kant fez do cristianismo em sua obra sobre a religi\u00e3o. Aqui, tamb\u00e9m, o desenvolvimento do novo m\u00e9todo hist\u00f3rico tem suas ra\u00edzes no Iluminismo e em seu filho mais ilustre.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><a>2. O esbo\u00e7o sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a religi\u00e3o da raz\u00e3o e a religi\u00e3o positiva<\/a><\/h3>\n\n\n\n<p>1. Esta exposi\u00e7\u00e3o da vida e da doutrina de Jesus \u00e9 mais bem compreendida se for colocada em rela\u00e7\u00e3o a outro manuscrito sobre a rela\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o da raz\u00e3o com a religi\u00e3o positiva. Em sua maior parte, foi escrito antes de 2 de novembro de 1795; o restante \u00e9 datado de 29 de abril de 1796. Portanto, este escrito est\u00e1 muito pr\u00f3ximo no tempo da Vida de Jesus. Nesse ensaio, ele mostrava a raz\u00e3o pr\u00e1tica como a religi\u00e3o de Jesus, e agora Hegel levanta a quest\u00e3o: o que poderia ter motivado, na doutrina e na vida de Jesus, que sua religi\u00e3o se transformasse em uma f\u00e9 positiva? Uma religi\u00e3o moral da raz\u00e3o \u00e9 composta por verdades eternas. Agora, qual elemento dela tornou poss\u00edvel sua transforma\u00e7\u00e3o em uma religi\u00e3o hist\u00f3rica, portanto, autorit\u00e1ria? Estamos na esfera de influ\u00eancia de Lessing e Kant. Lessing distingue entre a religi\u00e3o eterna e a hist\u00f3rica. A religi\u00e3o natural abrange as determina\u00e7\u00f5es universais das coisas divinas e da vida humana perfeita; mas assim como do direito natural surgiu um direito positivo, tamb\u00e9m da religi\u00e3o racional deveria surgir uma religi\u00e3o positiva que encontra sua consagra\u00e7\u00e3o no prest\u00edgio de seu fundador. O princ\u00edpio fundamental de Lessing diz: as verdades eternas n\u00e3o podem ser testemunhadas pelas tradi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas. Esta tamb\u00e9m \u00e9 a ideia de Kant, s\u00f3 que ele funda a f\u00e9 nas coisas divinas sobre nossa lei moral. A f\u00e9 religiosa pura reconhece a vontade divina na lei moral que fala em n\u00f3s, mas da imperfei\u00e7\u00e3o da natureza humana nasce a cren\u00e7a em estatutos particulares da vida religiosa corroborados com autoridade exterior pela revela\u00e7\u00e3o e pelos milagres. E tamb\u00e9m Kant resolve, como Lessing, que a f\u00e9 religiosa pura n\u00e3o pode ser fundada nas tradi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas indemonstr\u00e1veis. O sentimento de Hegel est\u00e1 de acordo com essa grande tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAs verdades eternas, se devem ser necess\u00e1rias e universalmente v\u00e1lidas, t\u00eam que se fundar por sua natureza unicamente na ess\u00eancia da raz\u00e3o e n\u00e3o nas manifesta\u00e7\u00f5es do mundo sens\u00edvel exterior, que s\u00e3o acidentais para ela.\u201d A esta convic\u00e7\u00e3o ele permaneceu fiel, no fundo, ao longo de sua vida.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA verdadeira f\u00e9 n\u00e3o tem um conte\u00fado finito, contingente.\u201d \u201cO espiritual n\u00e3o pode ser legitimado exteriormente.\u201d Isso est\u00e1 em concord\u00e2ncia com essas manifesta\u00e7\u00f5es posteriores, o fato de que ele jamais reconheceu aos milagres valor que corroborava as eternas verdades religiosas. \u201c\u00c9 totalmente indiferente que nas bodas de Can\u00e1 os convidados tenham recebido mais ou menos vinho, e tamb\u00e9m \u00e9 absolutamente acidental se algu\u00e9m curou sua m\u00e3o seca; porque h\u00e1 milh\u00f5es de homens aleijados que vivem sem que ningu\u00e9m os cure.\u201d \u201cA confirma\u00e7\u00e3o pelos milagres \u00e9 uma esfera que n\u00e3o nos diz respeito.\u201d E se em seu escrito juvenil a revela\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 para ele uma comunica\u00e7\u00e3o de fora ou de cima, mas o discurso da raz\u00e3o na lei moral, em suas li\u00e7\u00f5es berlinesas ele ainda nos dir\u00e1 que o discurso de Deus na revela\u00e7\u00e3o n\u00e3o ocorre como algo sobre-humano, que se produziria de forma de uma revela\u00e7\u00e3o exterior, mas sim que se d\u00e1 em um homem, como algo humano.<\/p>\n\n\n\n<p>O que Lessing e Kant derrubaram n\u00e3o foi restaurado por Hegel.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, a quest\u00e3o sobre o nascimento da religi\u00e3o positiva se torna, para ele, o problema hist\u00f3rico de saber onde na religi\u00e3o de Jesus se encontrava o embri\u00e3o que explicaria sua transforma\u00e7\u00e3o em um sistema positivo, eclesi\u00e1stico, autorit\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>2. Em uma introdu\u00e7\u00e3o, Hegel se recusa a preceder a resposta a esta pergunta de qualquer profiss\u00e3o de f\u00e9 e n\u00e3o exige mais pressuposto do que aquele que afirma que o fim e a ess\u00eancia da verdadeira religi\u00e3o residem na moral e que todas as outras determina\u00e7\u00f5es contidas nela devem ser avaliadas por essa finalidade. Come\u00e7a com uma caracteriza\u00e7\u00e3o do juda\u00edsmo declinante como base para compreender a a\u00e7\u00e3o de Cristo, que tentou \u201celevar a religi\u00e3o e a virtude ao plano da moralidade\u201d. Mais uma vez, Hegel nos apresenta a vida de Jesus com tra\u00e7os s\u00f3brios. No entanto, na pessoa e na doutrina de Jesus, deve-se esconder o embri\u00e3o que explique o nascimento, primeiro, de uma seita e, depois, de uma f\u00e9 positiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, ser\u00e1 necess\u00e1rio aprofundar-se na forma original da religi\u00e3o de Jesus e no esp\u00edrito da \u00e9poca para encontrar a base que se busca. O embri\u00e3o da f\u00e9 crist\u00e3 positiva encontra-se na mesma religi\u00e3o de Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p>A funda\u00e7\u00e3o da f\u00e9 sobre a consci\u00eancia moral n\u00e3o foi levada a cabo por ele de forma consequente. \u201cEra um judeu: o princ\u00edpio de sua f\u00e9 e de seu evangelho era a vontade revelada de Deus, tal como lhe havia sido transmitida pelas tradi\u00e7\u00f5es dos judeus, mas ao mesmo tempo carregava o sentimento vivo de seu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o sobre o dever e o bem. No cumprimento dessa lei moral encontra a principal condi\u00e7\u00e3o para agradar a Deus.\u201d Esta semente de corrup\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o de Jesus foi preparada pelo esp\u00edrito do povo judeu; os judeus acreditavam que haviam recebido de Deus suas leis tanto pol\u00edticas quanto religiosas e estavam orgulhosos disso; se Jesus queria agir sobre eles, tinha tamb\u00e9m que apelar a uma confirma\u00e7\u00e3o divina. Por isso, todo o Novo Testamento est\u00e1 permeado pela afirma\u00e7\u00e3o de que a doutrina de Jesus \u00e9 a vontade de Deus, a vontade de seu Pai, e que segue a Jesus quem cr\u00ea no Pai. Neste ponto, Hegel n\u00e3o decide se Jesus teve consci\u00eancia de sua uni\u00e3o com Deus ou se considerou a lei moral em seu peito como a revela\u00e7\u00e3o imediata da divindade. Em todo caso, sua concep\u00e7\u00e3o se encontra dentro da hip\u00f3tese racionalista da influ\u00eancia do meio em Jesus e de sua adapta\u00e7\u00e3o ao mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia do Messias favoreceu a f\u00e9 na pessoa. Jesus encontrou audi\u00eancia porque foi considerado o Messias. N\u00e3o contradisse diretamente uma suposi\u00e7\u00e3o que tanto favoreceu sua aceita\u00e7\u00e3o pelos judeus, apenas tentou redirecionar as expectativas de seus disc\u00edpulos no Messias para o aspecto moral e colocar a \u00e9poca de sua vinda al\u00e9m de sua morte.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 f\u00e9 no Messias, soma-se o outro fator da peculiaridade da personalidade de Jesus. Sua paix\u00e3o e morte ficaram profundamente gravadas na imagina\u00e7\u00e3o de seus disc\u00edpulos; sua vida foi t\u00e3o importante para eles quanto sua doutrina; ele pr\u00f3prio, para se defender, viu-se obrigado a falar sobre sua pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p>E os milagres que lhe foram atribu\u00eddos tamb\u00e9m atuaram no mesmo sentido de exalta\u00e7\u00e3o da pessoa de Jesus. \u201cSeja qual for a posi\u00e7\u00e3o adotada, deve-se reconhecer que esses feitos de Jesus foram milagres para seus disc\u00edpulos e amigos.\u201d \u201cO caminho desde a hist\u00f3ria dos milagres at\u00e9 a f\u00e9 em uma pessoa, e desta, se as coisas v\u00e3o bem, at\u00e9 a moralidade\u201d foi \u201ca estrada imposta pelos s\u00edmbolos\u201d. Como se verdades eternas pudessem ser demonstradas eventualmente por manifesta\u00e7\u00f5es contingentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro motivo que levou da religi\u00e3o de Jesus \u00e0 f\u00e9 positiva, \u00e0 autoridade, ao culto eclesi\u00e1stico e \u00e0s cerim\u00f4nias, encontramos na disposi\u00e7\u00e3o de seus disc\u00edpulos.<\/p>\n\n\n\n<p>Homens de horizontes limitados encontram em Jesus uma amplia\u00e7\u00e3o de sua vis\u00e3o, mas n\u00e3o foram capazes de superar todas as ideias e preconceitos judeus. N\u00e3o haviam conquistado por si mesmos a verdade e a liberdade; sua convic\u00e7\u00e3o baseava-se na ades\u00e3o \u00e0 pessoa de Jesus, e suas capacidades, assim como seus desejos, est\u00e3o limitados a uma tradi\u00e7\u00e3o fiel. Hegel tem constantemente em mente o paralelo entre S\u00f3crates e Jesus, e assim tamb\u00e9m compara os disc\u00edpulos de S\u00f3crates com os de Jesus. Nos primeiros, Atenas desenvolveu a liberdade, e a educa\u00e7\u00e3o cidad\u00e3, o esp\u00edrito de independ\u00eancia; amavam seu mestre em raz\u00e3o da verdade, e n\u00e3o a verdade em raz\u00e3o de seu apego a S\u00f3crates. A atitude completamente oposta dos disc\u00edpulos de Jesus d\u00e1 origem \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o externa e, com ela, \u00e0 posi\u00e7\u00e3o excepcional dos disc\u00edpulos e de seus sucessores. Assim, com a morte de Jesus, constitui-se uma seita com doutrinas e costumes especiais, e \u00e0 medida que se expande, vai se tornando um Estado. S\u00e3o not\u00e1veis duas observa\u00e7\u00f5es de Hegel. A prop\u00f3sito do n\u00famero doze dos Ap\u00f3stolos, como algo positivo, ele diz: \u201cem uma religi\u00e3o da virtude, os n\u00fameros nada t\u00eam a dizer\u201d. E rejeita de tal forma a tradicional vincula\u00e7\u00e3o dos disc\u00edpulos \u00e0 f\u00e9 e ao batismo ap\u00f3s a ressurrei\u00e7\u00e3o que se pode duvidar se ele considerou como hist\u00f3rico esse importante epis\u00f3dio.<\/p>\n\n\n\n<p>A marcha para a religi\u00e3o positiva foi promovida pela expans\u00e3o da comunidade. A comunidade de bens foi poss\u00edvel em uma pequena seita, enquanto depois surgiram as contribui\u00e7\u00f5es aos sacerdotes e aos mosteiros; \u201ca igualdade dos irm\u00e3os diante de Deus foi considerada como uma igualdade no c\u00e9u, para o c\u00e9u, e sensatamente se acrescenta hoje que \u00e9 assim diante dos olhos do c\u00e9u, e j\u00e1 na vida terrena n\u00e3o se toma mais conta disso\u201d. Da \u00faltima ceia, celebra\u00e7\u00e3o de amigos, fez-se um dever religioso e uma a\u00e7\u00e3o misteriosa. Surgiu o desejo de expans\u00e3o, o proselitismo e a intoler\u00e2ncia, porque a religi\u00e3o positiva n\u00e3o pode fundar seus princ\u00edpios, como a virtude, na necessidade interna. E como n\u00e3o pode sufocar o sentimento de impot\u00eancia e de imposi\u00e7\u00e3o, surgem o \u00f3dio e a inveja das seitas. Esse quadro da religi\u00e3o positiva eclesi\u00e1stica faz Hegel recordar a conversa do frade com Nathan, e exclama entusiasmado: \u201cBenditos sois, porque a pureza do cora\u00e7\u00e3o foi o essencial da f\u00e9!\u201d Mas o desenvolvimento continua e a comunidade de f\u00e9 se transforma em uma sociedade organizada, em um Estado contratual. Assim, surge o contrassenso de que o indiv\u00edduo se submete \u00e0 vontade geral, n\u00e3o quando se trata da pessoa e da propriedade, mas da f\u00e9. E quando, finalmente, da constitui\u00e7\u00e3o livre surge uma oligarquia sacerdotal, liquida-se o \u00faltimo vest\u00edgio de vontade e opini\u00e3o pr\u00f3prias, e com o dever de obedi\u00eancia compromete-se a considerar como verdadeiro o que o regente manda. A Igreja se torna o Estado e cria um direito eclesi\u00e1stico. O pr\u00f3prio Estado renuncia a um direito ap\u00f3s o outro, especialmente ao da educa\u00e7\u00e3o. Assim, \u201cfaz trai\u00e7\u00e3o aos direitos dos filhos ao livre desenvolvimento de suas faculdades\u201d. A raz\u00e3o \u00e9 sufocada e a fantasia se enche de imagens assustadoras. Destr\u00f3i-se a liberdade do desenvolvimento das almas infantis; \u201cporque s\u00f3 na juventude \u00e9 poss\u00edvel imprimir a f\u00e9 nos \u00e2mbitos da alma, inundando os canais dos conceitos e capacidades do homem, do esfor\u00e7o e da vontade humanos\u201d. Por isso, o patriarca em Nathan se indigna tanto quando descobre que Recha recebe uma educa\u00e7\u00e3o irreligiosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma Igreja semelhante, a moral tem que degenerar porque a religi\u00e3o n\u00e3o se funda sobre fatos do nosso esp\u00edrito que possam se desenvolver em nossa consci\u00eancia. Come\u00e7a-se com um conhecimento hist\u00f3rico e constr\u00f3i-se sobre ele um sistema de princ\u00edpios e sentimentos cujo crit\u00e9rio \u00e9 ser grato a Deus. Quem n\u00e3o \u00e9 educado nesse sistema \u201cse encontra aqui em um mundo encantado\u201d; n\u00e3o est\u00e1 em igualdade alguma com esses crist\u00e3os e, antes, encontrar\u00e1 a natureza nos contos de fadas do Oriente e em nossos livros de cavalaria, e uma f\u00edsica e uma psicologia baseadas neles estariam mais pr\u00f3ximas da natureza do que uma moral extra\u00edda desses crist\u00e3os degenerados. Nesse ponto, Hegel destaca que essa moral antinatural do ascetismo e da pr\u00f3pria fraude est\u00e1 sendo destru\u00edda em seu tempo pelo desenvolvimento do sentido moral e do conhecimento da natureza da alma, tal como propagado, entre outros, pelas novelas de Marivaux. \u201cO poder insuborn\u00e1vel do eu\u201d, que sente sua liberdade, manifesta-se nas seitas; mas tamb\u00e9m nelas, a convic\u00e7\u00e3o logo se transforma em lei e formalismo; logo se tornam igrejas; novas seitas nascem nelas \u201ce assim continuar\u00e1 enquanto o Estado n\u00e3o reconhecer a extens\u00e3o de seus direitos\u201d; porque na f\u00e9 positiva e no sistema de uma Igreja sempre haver\u00e1 a falha fundamental de desconhecer o direito da raz\u00e3o e converter o desprezo pelo homem na base de uma f\u00e9 autorit\u00e1ria. E daqui nasce constantemente uma moral eclesi\u00e1stica que sobrecarrega o homem como uma lei exterior.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas \u00e9 violar o direito da raz\u00e3o que o homem se submeta a uma lei estranha. \u201cTodo o poder da Igreja \u00e9 contra o direito; nenhum homem pode renunciar ao direito de se dar a si mesmo sua lei, de exigir contas de si mesmo, porque com essa aliena\u00e7\u00e3o ele deixa de ser homem.\u201d Passar\u00e3o s\u00e9culos at\u00e9 que o esp\u00edrito europeu reconhe\u00e7a isso. A aliena\u00e7\u00e3o do homem a um poder estranho nasceu de uma fantasia febril, selvagem, dos tempos b\u00e1rbaros ou das \u00faltimas classes do povo<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><a>3. A religi\u00e3o do povo<\/a><\/h3>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas foram os problemas que Hegel viu comprometidos em Tubinga e que tratar\u00e1 um ap\u00f3s o outro a partir de seu novo ponto de vista: vida e doutrina de Jesus, como representa\u00e7\u00e3o da luta entre a f\u00e9 moral e a legalidade judaica; falso desenvolvimento dessa f\u00e9 no sentido da religi\u00e3o positiva, do poder eclesi\u00e1stico e do culto cerimonial; finalmente, com base no conhecimento filos\u00f3fico, da f\u00e9 moral, a tarefa de criar uma religi\u00e3o do povo com os meios do cristianismo. Esse \u00faltimo e mais dif\u00edcil de seus problemas \u00e9 o tema de algumas anota\u00e7\u00f5es que, pelo menos em parte, oferecem uma conex\u00e3o vis\u00edvel; e as indica\u00e7\u00f5es do caderno nos fazem entender que deveriam ser acrescentadas ao escrito sobre a religi\u00e3o positiva. E aqui tamb\u00e9m encontrariam seu lugar trabalhos de anos anteriores. Hegel n\u00e3o completou seu plano, mas os fragmentos nos indicam o qu\u00e3o vasto ele era. Como veremos, ele tentou preparar sua doutrina sobre a religi\u00e3o popular por meio de uma exposi\u00e7\u00e3o do processo em que desmoronou o mundo imaginativo da aut\u00eantica religi\u00e3o popular.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma mudan\u00e7a quase impercept\u00edvel no tom de sua voz diferencia essas folhas das anteriores. Hegel continua firme no terreno de Kant e de sua f\u00e9 moral.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a obra de Kant sobre religi\u00e3o n\u00e3o representa apenas a culmina\u00e7\u00e3o do racionalismo de Lessing e Semler, pois tamb\u00e9m oferece um aspecto voltado para o futuro. A conex\u00e3o dos dogmas do cristianismo \u00e9 concebida como a representa\u00e7\u00e3o vis\u00edvel do processo interior em que nossa natureza sens\u00edvel luta com nossa faculdade moral. Aqui nos \u00e9 apresentada a rela\u00e7\u00e3o da f\u00e9 positiva com a racional, mas, ao mesmo tempo, a conex\u00e3o interna que existe entre a vida religiosa e sua proje\u00e7\u00e3o m\u00edtica por meio da fantasia.<\/p>\n\n\n\n<p>Pouco a pouco, Hegel come\u00e7a a ver com crescente clareza essa rela\u00e7\u00e3o interna. Quando a tiver compreendido em toda a sua significa\u00e7\u00e3o, ele ter\u00e1 que repensar o que escreveu sobre a rela\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o racional com a positividade. Ele est\u00e1 no in\u00edcio desse caminho. E neste momento se nota a influ\u00eancia de Herder. Ele o cita, ressoam nele quase at\u00e9 suas palavras, como antes as de Lessing.<\/p>\n\n\n\n<p>1. Que belamente descreve Hegel, no estilo de Herder, o esp\u00edrito infantil dos povos e as formas de religiosidade nessa etapa! Mais tempo do que o regime pol\u00edtico patriarcal durou a etapa religiosa que lhe corresponde.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNa religi\u00e3o, esse sentido infantil v\u00ea Deus como um senhor poderoso, com suas paix\u00f5es, com seus caprichos, nem sempre em bons termos com a justi\u00e7a, e a quem se pode amolecer com elogios.\u201d A fantasia o faz sentir mais pr\u00f3ximo aqui ou ali; encontra-se nos homens bons, vener\u00e1veis, assim como nas manifesta\u00e7\u00f5es poderosas da natureza. Esse sentido infantil originou as institui\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas religiosas. \u00c9 poss\u00edvel que a raz\u00e3o as considere ris\u00edveis ou desprez\u00edveis, mas para a fantasia que habita esse sentido, pareciam sublimes e comoventes. Hegel descreve depois como o \u201cesp\u00edrito que originalmente habitava nessas institui\u00e7\u00f5es\u201d \u2013 uma express\u00e3o de Herder \u2013 se desvanece; como se separam os estamentos, como a comunidade que se apresentava un\u00e2nime diante dos altares de seus deuses se transforma em uma multid\u00e3o de onde seus l\u00edderes extraem sentimentos sagrados. Com um profundo sentimento hist\u00f3rico, compreende neste ponto a rara mistura entre o engano sacerdotal e a necessidade de dar satisfa\u00e7\u00e3o aos sentidos e \u00e0 fantasia, mesmo na etapa da raz\u00e3o progressiva, e de alegrar o dever por meio da beleza. E seu princ\u00edpio cardinal \u00e9 que a religi\u00e3o popular se mant\u00e9m viva enquanto as imagens nascidas das profundezas da fantasia popular mantiverem sua rela\u00e7\u00e3o com o \u00e2nimo; em vez de \u201cvazar a cada sete dias nos ouvidos frases e met\u00e1foras que h\u00e1 alguns milhares de anos eram compreens\u00edveis e pertinentes na S\u00edria.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em outras anota\u00e7\u00f5es, descreve-se com mais detalhes a destrui\u00e7\u00e3o da fantasia religiosa produzida nos povos modernos pela importa\u00e7\u00e3o do mundo de imagens do cristianismo, mundo oriental e estranho, e pela expuls\u00e3o de nossos her\u00f3is e deuses aut\u00f3ctones. Nunca os alem\u00e3es foram uma na\u00e7\u00e3o; nem mesmo o acontecimento da Reforma, ainda vivo no povo, produziu qualquer festa religiosa de for\u00e7a popular. Os alem\u00e3es n\u00e3o t\u00eam nenhum fundador do Estado nacional que pudesse ser celebrado com festas p\u00fablicas. Nenhum mundo religioso ou pol\u00edtico da fantasia cresceu em solo alem\u00e3o. \u201cO cristianismo despovoou o Walhalla, extirpou a fantasia do povo como supersti\u00e7\u00e3o e trouxe uma f\u00e9 cujo clima, cultura e legisla\u00e7\u00e3o nos s\u00e3o estranhos e cuja hist\u00f3ria nenhuma rela\u00e7\u00e3o tem conosco.\u201d Somente entre o povo mais simples, um resto de fantasia aut\u00eantica ainda se disfar\u00e7a de supersti\u00e7\u00e3o. Os escritores e artistas alem\u00e3es trabalham com mat\u00e9rias que s\u00e3o estranhas ao povo, enquanto na Inglaterra Shakespeare ao menos colocou diante de seu povo as figuras de seu passado. O material crist\u00e3o nos \u00e9 desconfort\u00e1vel pelo corte catequ\u00e9tico e pela rigidez que lhe \u00e9 inerente. Hegel segue as pegadas de Herder. E, em sintonia com o esp\u00edrito dos fragmentos de Herder, nos mostra como a renova\u00e7\u00e3o da mitologia e da epopeia dos gregos e germ\u00e2nicos n\u00e3o poderia ganhar consist\u00eancia alguma.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre as influ\u00eancias que prejudicaram a fantasia germ\u00e2nica, destaca-se, com mais acrim\u00f4nia do que Herder, a do Antigo Testamento e da hist\u00f3ria judaica. Poderiam ser trocadas as palavras de Klopstock e dizer: \u201cSer\u00e1 que Jud\u00e1 \u00e9 a p\u00e1tria dos teut\u00f5es?\u201d Essa hist\u00f3ria judaica nunca pode ser uma atualidade viva para nossa fantasia religiosa; n\u00e3o se adere, como a religi\u00e3o grega, a lugares vis\u00edveis, sagrados; \u201co que em nossos Livros Sagrados \u00e9 hist\u00f3ria \u00e9 t\u00e3o estranho aos nossos costumes, \u00e0 nossa complex\u00e3o, \u00e0 nossa cultura, \u00e0s nossas for\u00e7as corporais e ps\u00edquicas, que mal existe um ponto onde coincidamos, fora de alguns extremos de mera natureza humana em geral.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Lo moral tenemos que mecharlo nosotros. La edificaci\u00f3n que con ella se enlaza reclama sobre todo un celo mal entendido por la gloria de Dios, un engreimiento piadoso y unas ansias de dormir en la entrega a Dios.<\/p>\n\n\n\n<p>En esta conexi\u00f3n plantea la cuesti\u00f3n: \u00bfC\u00f3mo se explica esa \u201csorprendente revoluci\u00f3n\u201d en la que el cristianismo consigui\u00f3 la victoria sobre la religi\u00f3n de los pueblos antiguos? Este problema no hab\u00eda sido resuelto por la historiograf\u00eda racionalista y aqu\u00ed brota una de las fuentes vivas de la intuici\u00f3n hist\u00f3rica de Hegel, que luego concurren en la ancha corriente de su fenomenolog\u00eda y de su filosof\u00eda del esp\u00edritu. La madura belleza de este fragmento nos har\u00eda sospechar, a pesar de la paginaci\u00f3n del manuscrito, en una fecha posterior si no fuera porque su tono y estilo, lo mismo que otros apuntes que forman parte de este fragmento y que pertenecen, sin duda, a esta \u00e9poca, nos indican lo contrario.<\/p>\n\n\n\n<p>En el famoso cap\u00edtulo XV de su Historia de la decadencia del Imperio romano, Gibbon ha intentado resolver esta cuesti\u00f3n pragm\u00e1ticamente enumerando las diversas fuerzas psicol\u00f3gicas que actuaron entonces. Hegel trata de comprender el cambio que tuvo lugar en el estado espiritual de la \u00e9poca y que hizo posible la expansi\u00f3n del cristianismo. \u00c9ste es el m\u00e9todo propio de \u00e9l, que desenvuelve el de la historia pragm\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Sempre abrange o conjunto da cultura e passa, na explica\u00e7\u00e3o das circunst\u00e2ncias da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica externa aos estados espirituais internos. Da trama da vida antiga foi-se desprendendo, at\u00e9 desaparecer, a f\u00e9 nos deuses, que estava t\u00e3o enraizada; isso significa que essa trama perdeu sua firmeza: o deslocamento da f\u00e9 greco-romana nos deuses pelo cristianismo deve ter sido condicionado por uma \u201crevolu\u00e7\u00e3o silenciosa, secreta, no esp\u00edrito da \u00e9poca\u201d, \u201ct\u00e3o dif\u00edcil de expressar em palavras quanto de compreender com elas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>E agora vem a explica\u00e7\u00e3o. Onde estavam as causas dessa revolu\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito antigo? \u201cA religi\u00e3o grega e romana eram religi\u00f5es de povos livres e, com a perda da liberdade, tinha que evaporar-se tamb\u00e9m o sentido e a for\u00e7a das mesmas.\u201d \u201cPara que servem as redes aos pescadores se o curso do rio secou?\u201d O homem antigo livre obedecia a leis que ele mesmo se dava. A ideia de sua p\u00e1tria, de seu Estado, era o mais alto pelo qual ele se esfor\u00e7ava. \u201cDiante dessa ideia, desaparecia sua individualidade, n\u00e3o lhe ocorria mendigar para si mesma a perdura\u00e7\u00e3o ou a vida eterna.\u201d \u201cCat\u00e3o se interessou pelo F\u00e9don de Plat\u00e3o quando foi destru\u00eddo o que para ele era a ordem suprema das coisas, seu mundo, sua rep\u00fablica; ent\u00e3o se refugiou em uma ordem ainda mais alta.\u201d A seus deuses da natureza, que dominavam pelo seu poder, o grego n\u00e3o podia opor-lhes, quando entrava em colis\u00e3o com eles, mais do que a si mesmo, \u00e0 sua liberdade; n\u00e3o conhecia nenhum mandamento divino e, se chama divina sua lei moral, ela o rege invis\u00edvel, do mesmo modo que Ant\u00edgona age conforme a vontade dos deuses. Neste trecho, encontramos o olhar penetrante de Hegel sobre a \u00e9poca cl\u00e1ssica do homem grego. Como livre que vive entre livres, nenhum homem grego reconhecia a ningu\u00e9m o direito de melhor\u00e1-lo ou mud\u00e1-lo; n\u00e3o existia nenhum padr\u00e3o positivo para sua moral. Reconhecia-se o direito de cada um a ter sua pr\u00f3pria vontade, fosse boa ou m\u00e1. Os bons reconheciam o dever de ser bons, mas tamb\u00e9m honravam a liberdade dos outros de n\u00e3o quererem ser bons. N\u00e3o existia nenhuma moralidade abstrata: nem aut\u00f4noma nem autorit\u00e1ria. Encontramos, pela primeira vez, a distin\u00e7\u00e3o entre a moral<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, que se realiza no Estado, e a moralidade abstrata, como o n\u00edvel mais baixo daquela.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa atitude do homem antigo se quebra quando guerras afortunadas, as riquezas e o bem-estar d\u00e3o origem a uma aristocracia a quem o povo, primeiro voluntariamente e depois por viol\u00eancia, entrega o governo. Com isso, \u201cdesaparece da alma dos cidad\u00e3os a ideia do Estado como um produto de sua atividade\u201d e, ao mesmo tempo, a capacidade do indiv\u00edduo de se sacrificar pela p\u00e1tria, capacidade que Montesquieu, com o nome de virtude, transforma no princ\u00edpio da Rep\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>O caminho estava livre para o desenvolvimento do cristianismo. O indiv\u00edduo havia se tornado o centro de si mesmo. Os direitos do cidad\u00e3o se limitaram \u00e0 seguran\u00e7a da propriedade. Para esses homens, nos quais a vida se reduziu aos seus fins privados, a morte deveria ser algo espantoso.<\/p>\n\n\n\n<p>Para os republicanos, o Estado havia constitu\u00eddo sua alma e esta era imortal, mas, uma vez que se rompeu essa rela\u00e7\u00e3o com a eternidade, j\u00e1 n\u00e3o encontraram ref\u00fagio em seus deuses; estes eram seres singulares, incompletos, que n\u00e3o podiam satisfazer as exig\u00eancias de uma ideia e com os quais, no entanto, o homem antigo havia se dado por satisfeito porque carregava o eterno, o aut\u00f4nomo, em seu pr\u00f3prio peito. E este \u00e9 o pressuposto da dial\u00e9tica interna da religiosidade que Hegel desenvolve agora: \u201cA raz\u00e3o n\u00e3o podia ceder at\u00e9 encontrar em algum lugar o absoluto, o aut\u00f4nomo, o magn\u00edfico.\u201d Acostumados a obedecer a vontades estranhas, esses homens da Antiguidade decadente estavam bem preparados para se submeter a um poder divino estrangeiro. Nessas circunst\u00e2ncias, surge o cristianismo. Ou era adequado \u00e0s necessidades da \u00e9poca \u2013 \u201cpois essa religi\u00e3o havia nascido em um povo com decad\u00eancia semelhante e com um vazio e indig\u00eancia parecidos, embora de outra natureza\u201d \u2013 ou os homens podiam formar com ela o que eles precisavam.<\/p>\n\n\n\n<p>Hegel desenvolve agora os tra\u00e7os fundamentais da nova religiosidade crist\u00e3; com um sentido hist\u00f3rico por sua grandeza que supera em muito o de Voltaire, Hume e Gibbon, mas tamb\u00e9m com uma consci\u00eancia implac\u00e1vel da relatividade de toda manifesta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, consci\u00eancia que constitui o outro aspecto dessa nova concep\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Correspondendo \u00e0 etapa de seu pensamento, separa a religi\u00e3o de Jesus de sua corrup\u00e7\u00e3o. Era o \u201caltar em que a gera\u00e7\u00e3o enfraquecida encontrou autonomia e moralidade\u201d, mas, pelas condi\u00e7\u00f5es da \u00e9poca, teve que surgir dela a religi\u00e3o positiva. Caracteriza essa religi\u00e3o com tr\u00eas tra\u00e7os fundamentais.<\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, j\u00e1 n\u00e3o se deseja a realiza\u00e7\u00e3o do ideal, mas apenas se deseja. E essa esperan\u00e7a vai sendo deslocada cada vez mais para o final dos tempos. Com uma dureza quase cruel, fala-nos da pregui\u00e7osa esperan\u00e7a messi\u00e2nica que nasceu entre os judeus na \u00e9poca de sua decad\u00eancia pol\u00edtica, que se adornou depois de toda a fantasia oriental e \u00e0 qual se prendeu esse desejo vazio.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo tra\u00e7o da religi\u00e3o crist\u00e3 positiva \u00e9 a doutrina da maldade da natureza humana \u201ctal como surge no seio dessa humanidade corrompida que tinha que se desprezar a si mesma do lado moral\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 a pr\u00f3pria possibilidade de uma for\u00e7a para crer se tornou pecado e o bem se apresentou como a obra de um ser que est\u00e1 fora de n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00faltimo tra\u00e7o consiste em que desaparece e se esquece no ideal de perfei\u00e7\u00e3o, ou seja, na representa\u00e7\u00e3o de Deus, o moral. Aplicam-se ao objeto infinito ideias do mundo sens\u00edvel, como nascer, criar, gerar, e transplantam-se conceitos num\u00e9ricos como o de trindade e conceitos reflexivos como o de diversidade. O divino fim \u00faltimo do mundo se limita \u00e0 expans\u00e3o da religi\u00e3o crist\u00e3, em \u00faltima inst\u00e2ncia, aos fins passionais dos sacerdotes. Da infelicidade dos tempos nasce a fuga para os c\u00e9us. A perda da liberdade obrigava a salvar o absoluto da vida na divindade. Assim, com a decad\u00eancia deste mundo, foi crescendo a objetiva\u00e7\u00e3o da divindade e sua representa\u00e7\u00e3o em f\u00f3rmulas. Por esse Deus se matou, roubou e enganou. E o interesse pelo Estado se limitou \u00e0 esperan\u00e7a ego\u00edsta da conserva\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia, da propriedade e do gozo. Quando os b\u00e1rbaros se aproximam, S\u00e3o Ambr\u00f3sio e o povo piedoso rezam em vez de lutar nas muralhas.<\/p>\n\n\n\n<p>Encontramos aqui os tra\u00e7os principais daquela famosa descri\u00e7\u00e3o da \u201cconsci\u00eancia desditosa\u201d que Hegel apresenta na Fenomenologia do Esp\u00edrito como uma etapa determinada do desenvolvimento humano: a aliena\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito, que faz a cess\u00e3o do que \u00e9 perene nele a uma divindade ultramundana e ret\u00e9m para si a limita\u00e7\u00e3o, a individualidade, a conting\u00eancia; a desdita dessa cis\u00e3o da consci\u00eancia, a sensibiliza\u00e7\u00e3o do al\u00e9m, ao qual submete e sacrifica asceticamente a exist\u00eancia individual inativa e sem gozos. Mas a dial\u00e9tica interna pela qual surge a consci\u00eancia desditosa se coloca aqui em conex\u00e3o hist\u00f3rica com a liquida\u00e7\u00e3o da moral antiga. Revela-se neste ponto o olhar hist\u00f3rico de Hegel. O leitor desta e de outras exposi\u00e7\u00f5es semelhantes h\u00e1 de se convencer de que, no jovem Hegel, havia disposi\u00e7\u00f5es de grande historiador, e isso antes que ele empreendesse a exposi\u00e7\u00e3o da conex\u00e3o em rela\u00e7\u00f5es conceituais.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m surpreende outra indica\u00e7\u00e3o, que nos leva \u00e0s outras etapas, tais como as desenvolver\u00e1 mais tarde a Fenomenologia do Esp\u00edrito. Nessas, a f\u00e9 em um indiv\u00edduo, que \u00e9 o que constitui o cristianismo positivo, se transforma em algo superior. O que fez Jesus significativo como pessoa manifesta-se agora \u201ccomo ideia em sua beleza\u201d. O que o homem colocou no indiv\u00edduo Jesus agora o reconhece com alegria como obra pr\u00f3pria.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, o olhar penetra no porvir. \u201cO sistema da religi\u00e3o, que sempre adotou a cor da \u00e9poca e dos regimes positivos, e cuja suprema virtude era a humanidade, receber\u00e1 agora dignidade pr\u00f3pria, verdadeira, aut\u00f4noma.\u201d E vem agora a tarefa de fundar sobre a f\u00e9 racional a nova religi\u00e3o do povo.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste lugar, vamos resumir tudo o que conservamos dos trabalhos de Hegel sobre este tema; as diversas anota\u00e7\u00f5es mostram certas diverg\u00eancias, por isso mesmo que procedem de \u00e9pocas diferentes. Alguns s\u00e3o muito imaturos e devem pertencer aos primeiros trabalhos. Nota-se sua depend\u00eancia dos escritores da Ilustra\u00e7\u00e3o, como Spalding, Mendelssohn, Lessing e da prosa brincalhona de Wieland. Ao estilo da juventude, Hegel tende \u00e0 imagem, cuja forma, at\u00e9 os \u00faltimos contornos, \u00e9 o efeito c\u00f4mico de seu forte sentido realista, sendo que mais tarde sua linguagem saber\u00e1 obter, com essas condi\u00e7\u00f5es, efeitos poderosos. Suas ideias se tornar\u00e3o mais firmes e seu estilo mais simples. Mas todos esses fragmentos est\u00e3o entrela\u00e7ados em algumas poucas ideias fundamentais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO fim supremo do homem \u00e9 a moral\u201d, e \u201centre suas disposi\u00e7\u00f5es para fomentar a moral, uma das mais excelentes \u00e9 a religiosa\u201d. Assim como a religi\u00e3o encontra seu n\u00facleo nas ideias de Deus e da imortalidade, mas estas seriam ideias mortas se n\u00e3o fossem fruto da necessidade pr\u00e1tica e n\u00e3o encontrassem seu fim na moral, assim tamb\u00e9m se trata de fortalecer o m\u00e1ximo poss\u00edvel as representa\u00e7\u00f5es religiosas e o culto, mas submetendo-os ao mesmo tempo ao fim moral e mantendo-os adequados \u00e0s necessidades do pensamento desenvolvido. Partindo dessa ideia, Hegel desenvolve suas exig\u00eancias concernentes \u00e0s representa\u00e7\u00f5es e ao culto da religi\u00e3o popular.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o deve conter o que a raz\u00e3o humana universal n\u00e3o reconhece. Toda proposi\u00e7\u00e3o que ultrapasse esses limites ser\u00e1 atacada, tarde ou cedo, por alguma raz\u00e3o. Aponta Spinoza, Shaftesbury, Rousseau e Kant como pensadores que \u201cdesenvolveram com pureza a ideia de moralidade em seu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o e viram neste cora\u00e7\u00e3o, como em um espelho, a beleza dessa ideia e foram arrebatados por ela\u201d; mas quanto mais alta sua venera\u00e7\u00e3o pela moralidade, tal como est\u00e1 contida na doutrina de Cristo, mais desnecess\u00e1rios lhes pareciam os dogmas. Quando se aponta como fim da moralidade humana o agradar a Deus, isso dever\u00e1 significar o enfrentamento com Ele como ideal de santidade.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 a pr\u00f3pria fundamenta\u00e7\u00e3o da imortalidade pela necessidade pr\u00e1tica da raz\u00e3o, que constitui uma parte essencial desta religi\u00e3o popular, dever\u00e1 ser tratada com cautela para \u201cenraiz\u00e1-la na f\u00e9 do povo\u201d. Pois a esperan\u00e7a de pr\u00eamios e castigos em outro mundo facilmente pode degenerar em imagens fant\u00e1sticas e, assim, enfraquecer os mecanismos morais.<\/p>\n\n\n\n<p>A valoriza\u00e7\u00e3o da vida de Jesus tem a maior import\u00e2ncia pr\u00e1tica. Em si mesma, o sacrif\u00edcio de sua vida por S\u00f3crates \u00e9 t\u00e3o digno de admira\u00e7\u00e3o quanto o de Cristo, \u201cmas a fantasia n\u00e3o se fixa no racioc\u00ednio da fria intelig\u00eancia\u201d; precisamente a uni\u00e3o dos tra\u00e7os humanos individuais com um ideal moral e deste ideal com o resplendor do sobrenatural \u201ccorresponde \u00e0 nossa inclina\u00e7\u00e3o pelos ideais que s\u00e3o mais do que humanos\u201d. Mas, se se concentra a imita\u00e7\u00e3o de Cristo na de seus padecimentos, surge essa virtude fict\u00edcia que nos foi inculcada. Neste ponto coincidem o tratamento de Cristo por Hegel em sua religi\u00e3o popular e por Schleiermacher em sua doutrina da f\u00e9; ambos est\u00e3o influenciados por Kant.<\/p>\n\n\n\n<p>A f\u00e9 em Cristo \u00e9 para Hegel, nesta \u00e9poca, a f\u00e9 em um ideal personificado; a educa\u00e7\u00e3o do povo na percep\u00e7\u00e3o da ideia moral est\u00e1 intimamente relacionada com essa f\u00e9. Est\u00e1, portanto, muito longe de considerar como ess\u00eancia do cristianismo a \u201cobjetiva\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 no sentido de se tornar \u201cobjeto\u201d \u2013 da manifesta\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito absoluto no esp\u00edrito humano por meio da \u201crepresenta\u00e7\u00e3o\u201d da humanidade de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se de examinar a utilidade das representa\u00e7\u00f5es crist\u00e3s para uma religi\u00e3o popular. Submete especialmente a uma cr\u00edtica rigorosa a doutrina da \u201creconcilia\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas vezes Hegel colocou em paralelo o sacrif\u00edcio alegre da vida pela p\u00e1tria na grande \u00e9poca antiga com a morte de Cristo: n\u00e3o se trata de um fato incompar\u00e1vel da hist\u00f3ria, que nos conta sobre a morte de muitos her\u00f3is. Observamos novamente a forte oposi\u00e7\u00e3o de Hegel com o mundo sentimental crist\u00e3o. Sempre que ele toma consci\u00eancia do sentido profundo de sua religi\u00e3o popular, que vai al\u00e9m do aumento da religiosidade subjetiva, tantas vezes se afasta do cristianismo e a ideia do grego se eleva diante de sua alma. A \u201ca\u00e7\u00e3o principal\u201d da religi\u00e3o do povo consiste na \u201celeva\u00e7\u00e3o e nobreza do esp\u00edrito de uma na\u00e7\u00e3o, de modo que desperte o sentimento, tantas vezes adormecido, de sua dignidade, para que o povo n\u00e3o o rejeite nem o deixe afastar de si\u201d. Para isso, \u00e9 necess\u00e1rio, em primeiro lugar, uma rela\u00e7\u00e3o natural com as for\u00e7as que se abatem sobre n\u00f3s, como a encontramos entre os gregos. Com a doutrina crist\u00e3 da Provid\u00eancia, que mede os destinos segundo o padr\u00e3o da confian\u00e7a em Deus fundamentada na f\u00e9 aut\u00eantica, o homem se encontra em uma situa\u00e7\u00e3o intoler\u00e1vel. Dentro do cristianismo devem nascer a falta de \u00e2nimo, as esperan\u00e7as frustradas, a pr\u00f3pria d\u00favida nesse ordenamento, que n\u00e3o fazem sen\u00e3o aumentar o predom\u00ednio da doutrina sobre o sentimento simples. O grego, com a \u201cconsci\u00eancia da necessidade f\u00e9rrea\u201d, aprende a suportar sem reclamar esse destino inevit\u00e1vel. \u201cA desgra\u00e7a era para ele desgra\u00e7a, a dor, dor \u2013o que aconteceu e n\u00e3o podia ser mudado, cujas inten\u00e7\u00f5es n\u00e3o se podia investigar, pois sua Tyche era cega\u2013, mas se submeteram tamb\u00e9m a essa necessidade voluntariamente, com toda a resigna\u00e7\u00e3o poss\u00edvel.\u201d Esse pensamento teve a maior import\u00e2ncia no grupo de ideias do per\u00edodo seguinte; mas, na \u00e9poca que nos ocupa, talvez seja mais importante a quest\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o da vida religiosa. Sua intimidade n\u00e3o deve se confrontar abstratamente com os costumes, as festas, a vida pol\u00edtica de uma na\u00e7\u00e3o; a vida do povo n\u00e3o deve ser dividida por essa oposi\u00e7\u00e3o entre a alegria de suas manifesta\u00e7\u00f5es seculares e a secura de uma santidade afastada da vida que impede o gozo livre da for\u00e7a consciente de si mesma; Hegel sempre tem presente a conex\u00e3o viva da intimidade religiosa com todas as manifesta\u00e7\u00f5es da vida nacional, com os ordenamentos do Estado, como acontecia na Gr\u00e9cia. Por isso, ele tamb\u00e9m pede, no que diz respeito aos usos, festas e cerim\u00f4nias, a uni\u00e3o com as ideias e sentimentos do povo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTais pr\u00e1ticas essenciais da religi\u00e3o n\u00e3o devem estar propriamente mais perto desta do que do esp\u00edrito do povo, e devem brotar dele, pois, do contr\u00e1rio, sua pr\u00e1tica ser\u00e1 fria, sem for\u00e7a, sem vida.\u201d \u201cSe as alegrias, se os gozos dos homens tiverem que se envergonhar diante da religi\u00e3o, se o que se regozija em uma festa p\u00fablica tiver que rastejar no templo, ent\u00e3o a forma da religi\u00e3o ter\u00e1 um aspecto sombrio.\u201d Nas festas religiosas, nos jogos religiosos, deve se manifestar a felicidade do povo, mais do que tudo, a unidade de todo o seu ser. A esse respeito, Hegel tem express\u00f5es pouco simp\u00e1ticas no que toca \u00e0 comunh\u00e3o, que propriamente deveria ser um gozo da comunidade e que agora s\u00f3 pode ser tomada com repulsa.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele acredita que, em sua \u00e9poca, n\u00e3o resta como \u201cmeio puro para elevar o sentimento sagrado, e que se preste a menos abusos, mais do que a m\u00fasica sagrada e o canto de todo um povo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>III. Orienta\u00e7\u00e3o ao pante\u00edsmo<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>1. Enquanto Hegel estava imerso nesses trabalhos sobre o cristianismo, o movimento filos\u00f3fico avan\u00e7ava do idealismo da liberdade de Kant e Fichte para o idealismo objetivo de Schelling, sistema que concebe o universo como a a\u00e7\u00e3o natural da for\u00e7a divina.<\/p>\n\n\n\n<p>Gra\u00e7as a Kant e ao cristianismo, Hegel se deteve por mais tempo no idealismo da liberdade do que Schelling. Quando agora, sob a influ\u00eancia de seu amigo, o novo movimento o atrai, ele penetra nele como o mais forte. Hegel havia vivido em si mesmo a Ilustra\u00e7\u00e3o para super\u00e1-la, mas tamb\u00e9m se incorporou o perene dela; e isso lhe deu \u2013como a todas aquelas mentes de sua gera\u00e7\u00e3o que afirmaram a ci\u00eancia frente ao romantismo, como Wilhelm von Humboldt, Niebuhr, Schleiermacher, Herbart e os grandes pesquisadores da natureza\u2013 seguran\u00e7a espiritual e firmeza, enquanto Schelling e Federico Schlegel se perderam na m\u00edstica.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos dias em que Hegel escrevia as \u00faltimas linhas de seu esbo\u00e7o sobre a Vida de Jesus, recebeu uma carta de Schelling; ao mesmo tempo, ele lhe enviava seu segundo trabalho filos\u00f3fico, que tratava do eu como princ\u00edpio da filosofia. A carta de Tubinga indica uma forte depress\u00e3o, aumentada pela doen\u00e7a e pela solid\u00e3o. A a\u00e7\u00e3o de Fichte havia sido interrompida, os advers\u00e1rios da nova filosofia triunfavam, Schelling, ap\u00f3s um per\u00edodo de produ\u00e7\u00e3o apaixonada, sentia cansa\u00e7o e desconfian\u00e7a nas pr\u00f3prias for\u00e7as. Por isso, ele agradecia o calor com que Hegel se mantinha ao seu lado.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois que Hegel estudou Fichte e leu o novo trabalho do amigo, manifestou (30 de agosto de 1795) seu assentimento. Pretendia escrever uma vez sobre o que quer dizer \u201caproximar-se de Deus\u201d; queria colocar esse processo interno no lugar do m\u00e9todo kantiano que conclui partindo de postulados: \u201cO que me parecia obscuro e pouco desenvolvido, sua obra me esclareceu da melhor e mais satisfat\u00f3ria forma.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Consola o amigo com palavras nobres e profundas. \u201cSilenciosamente, voc\u00ea lan\u00e7ou sua palavra ao tempo infinito; a careta zombeteira \u00e9 algo que voc\u00ea despreza, eu sei \u2013 sua obra n\u00e3o foi escrita levando em conta os que tremem com os resultados. Seu sistema abrigar\u00e1 o destino de todos os sistemas daqueles homens cujo esp\u00edrito se antecipou \u00e0 f\u00e9 e aos preconceitos de seu tempo\u201d; o que quer dizer, provocar a protesto e a refuta\u00e7\u00e3o para, meio s\u00e9culo depois, ser reconhecido pelo p\u00fablico como algo natural.<\/p>\n\n\n\n<p>A obra de Schelling cont\u00e9m a primeira exposi\u00e7\u00e3o do pante\u00edsmo tal como ele emerge do eu absoluto. Ela foi pensada como um complemento da \u00c9tica de Spinoza. N\u00e3o se deve determinar a causalidade do eu infinito como moralidade ou como sabedoria, mas, unicamente, como poder absoluto.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim \u00e9 superada a contradi\u00e7\u00e3o apresentada por Kant; pois se o mundo suprassens\u00edvel poderia ser objeto da filosofia pr\u00e1tica como algo fora do eu, ent\u00e3o deveria ser tamb\u00e9m objeto da filosofia te\u00f3rica, ou seja, deveria ser cognosc\u00edvel. Neste eu infinito n\u00e3o existe nenhuma personalidade nem nenhuma consci\u00eancia. \u201cSe a subst\u00e2ncia \u00e9 o absoluto, o incondicionado, ent\u00e3o o <em>eu<\/em> \u00e9 a \u00fanica subst\u00e2ncia.\u201d Hegel assente a essas ideias, especialmente no que diz respeito \u00e0 pol\u00eamica contra os atributos de Deus. No entanto, j\u00e1 naquela \u00e9poca ele rejeitou a aplica\u00e7\u00e3o do conceito de subst\u00e2ncia ao eu absoluto. Parece-lhe que o conceito de subst\u00e2ncia n\u00e3o pode ser aplicado ao eu absoluto, porque n\u00e3o pode ser separado do conceito dos atributos. J\u00e1 aqui encontramos o embri\u00e3o de sua constante discrep\u00e2ncia com Schelling. Modestamente, ele acrescenta: \u201cDe meus trabalhos n\u00e3o vale a pena falar.\u201d Talvez mais tarde ele envie o plano de algo que pretende fazer; trata-se de seus trabalhos sobre a religiosidade crist\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>2. Transcorre um ano entre essas manifesta\u00e7\u00f5es de Hegel, que parecem atra\u00ed-lo pela primeira vez, de longe, para o novo pante\u00edsmo, e o poema El\u00eausis dedicado a H\u00f6lderlin, de agosto de 1796, em que se expressa o sentimento pante\u00edsta com uma for\u00e7a direta admir\u00e1vel. N\u00e3o conservamos nenhuma manifesta\u00e7\u00e3o desse ano que lan\u00e7asse alguma luz sobre o desenvolvimento de sua concep\u00e7\u00e3o de mundo, pelo menos, nenhuma que pudesse ser atribu\u00edda com seguran\u00e7a a essa \u00e9poca. Apenas se pode suspeitar que sua natureza fundamental, sua entrega \u00e0 objetividade de toda a realidade, seu \u00edmpeto para abarcar tudo com toda a sua for\u00e7a, irrompe livremente uma vez que, sob a influ\u00eancia de Schelling, se rompem as barreiras que ele mesmo havia imposto ao seu esp\u00edrito ao direcionar sua vis\u00e3o por tanto tempo para os pressupostos filos\u00f3ficos do cristianismo, e irrompe com toda a sua for\u00e7a, em rela\u00e7\u00e3o a uma ocasi\u00e3o que parece tamb\u00e9m liber\u00e1-lo externamente e renovar suas energias vitais abatidas. H\u00f6lderlin lhe perguntou se queria aceitar um cargo de preceptor em Frankfurt. Nestes versos, percebe-se bem o que H\u00f6lderlin significava no estado de esp\u00edrito de seu amigo e at\u00e9 que ponto o entusiasmo de H\u00f6lderlin influenciava nele. Esses versos revelam o temperamento filos\u00f3fico que Hegel compartilha com seus dois amigos, e como se manifesta em sua fantasia. Se sua orienta\u00e7\u00e3o objetiva se dirige, por agora, aos problemas religiosos, estes tamb\u00e9m condicionam sua concep\u00e7\u00e3o pante\u00edsta fundamental. Por essa raz\u00e3o, ao conectar neste poema a intui\u00e7\u00e3o do \u201ctodo-um\u201d, como algo inating\u00edvel e inef\u00e1vel, que s\u00f3 pode ser venerado em sil\u00eancio e simbolizado com a\u00e7\u00f5es, aos mist\u00e9rios da El\u00eausis, nos quais o eterno toma forma na fantasia, marca uma virada not\u00e1vel no longo trabalho teol\u00f3gico solit\u00e1rio que temos descrito. Hegel escreveu o poema pouco antes de deixar Berna, na resid\u00eancia da fam\u00edlia entre Neuemburgo e o lago de Biele.<\/p>\n\n\n\n<p>Anoitece, o estado de esp\u00edrito \u00e9 o de Fausto ao voltar da festa de P\u00e1scoa para seu quarto de trabalho: \u201cAo meu redor, dentro de mim, sossego.\u201d Lembra o amigo da velha alian\u00e7a. \u201cViver apenas a verdade livre, nunca fazer as pazes com os princ\u00edpios que estabelecem a opini\u00e3o e o sentimento!\u201d Do c\u00e9u noturno desce o esquecimento de todos os desejos. O que meu eu nomeava, desaparece. Entrego-me ao imensur\u00e1vel. Estou nele, sou Tudo, sou somente Isso.<\/p>\n\n\n\n<p>O pensamento retorna, se estranha, treme diante do infinito e, surpreso, n\u00e3o abrange a profundidade dessa vis\u00e3o. Ent\u00e3o, lhe aparece a encarna\u00e7\u00e3o desse \u201cum e tudo\u201d nas figuras divinas da religi\u00e3o natural dos gregos. O mito e o culto dos mist\u00e9rios de El\u00eausis se apresentam \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o do pensador solit\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA fantasia aproxima do sentido o eterno, a une com a forma.\u201d Bem-vindos, esp\u00edritos sublimes, altas sombras, cujas frentes irradiam perfei\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tenho medo. Sinto, \u00e9 tamb\u00e9m minha p\u00e1tria, o brilho, a gravidade que vos cerca.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem me dera que as portas do santu\u00e1rio se abrissem! Quem me dera que os hinos soassem! Mas \u201cnem um \u00fanico som da consagra\u00e7\u00e3o ouvimos\u201d. \u201cA plenitude da alta doutrina, o sentimento inef\u00e1vel do profundo, eram t\u00e3o santos que o filho da consagra\u00e7\u00e3o n\u00e3o poderia prestar aten\u00e7\u00e3o aos sinais secos.\u201d Que contraste entre o segredo divino da natureza infinita expresso nos mist\u00e9rios e a fileira de palavras da dogm\u00e1tica crist\u00e3, que se tornou \u201cmanto de hip\u00f3critas eloquentes\u201d, \u201cvara contra o alegre rapaz\u201d. A vis\u00e3o termina com o ideal que o preenchia nesta \u00e9poca. Para os gregos, o mist\u00e9rio do infinito se apresenta na ordem moral e ideal de seu Estado, e n\u00e3o em palavras.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o vivias em suas bocas.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua vida te honrava e em seus feitos vives ainda.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m esta noite te senti, santa divindade.<\/p>\n\n\n\n<p>Tu te revelas a mim frequentemente pela vida de teus filhos.<\/p>\n\n\n\n<p>A ti te vislumbro como alma de seus feitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Tu \u00e9s o sentido elevado, a f\u00e9 fiel, a divindade que n\u00e3o oscila, embora tudo se afunde.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Neste ponto, o manuscrito \u00e9 interrompido. O prop\u00f3sito de Hegel, sem d\u00favida, era expor a seguir a transforma\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o positiva em f\u00e9 racional.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Esses dois conceitos hegelianos: Sittlichkeit e Moralit\u00e4t, t\u00eam sido traduzidos como eticidade e moralidade, respectivamente. N\u00e3o acreditamos ser necess\u00e1rio o uso do neologismo eticidade. Em primeiro lugar, moral \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o correta de Sittlichkeit, assim como moral ou imoral s\u00e3o as tradu\u00e7\u00f5es de sittlich e unsittlich; em segundo lugar, por sua refer\u00eancia a mores, aponta para o car\u00e1ter concreto, institucional ao qual Hegel se refere, enquanto a palavra, mais nebulosa, moralidade, que \u00e9 a mesma utilizada por Hegel, podemos us\u00e1-la, como ele, para designar a moral abstrata, \u201cmeramente\u201d racional.<\/p>\n\n\n\n<p>As mesmas raz\u00f5es que levaram Hegel a escolher a palavra Sittlichkeit \u2013 Sitte, costume \u2013 nos aconselham a nos apoiar em mores e n\u00e3o em ethos. Assim, coincidimos duplamente com a inten\u00e7\u00e3o de seus prop\u00f3sitos germanizantes, que o levam a reservar o voc\u00e1bulo menos genu\u00edno para designar o conceito menos substantivo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea ir\u00e1 ler, a seguir, um trecho de &#8220;Hegel e o Idealismo&#8221; de Wilhelm Dilthey. Clique na capa do livro, ou clique aqui, para saber mais sobre a obra e como adquiri-la. Primeiro desenvolvimento e estudos teol\u00f3gicos I. Anos escolares Hegel nasceu em Stuttgart, em 27 de agosto de 1770.\u2026<\/p>\n<p class=\"continue-reading-button\"> <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2025\/06\/04\/hegel-e-o-idealismo-de-wilhelm-dilthey\/\">Leia mais<i class=\"crycon-right-dir\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1211,"comment_status":"closed","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[53,5],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1216"}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1216"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1216\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1217,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1216\/revisions\/1217"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1211"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1216"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1216"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1216"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}