{"id":1225,"date":"2025-06-28T17:33:28","date_gmt":"2025-06-28T17:33:28","guid":{"rendered":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=1225"},"modified":"2025-06-28T17:33:28","modified_gmt":"2025-06-28T17:33:28","slug":"cultura-primitiva-de-edward-b-tylor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2025\/06\/28\/cultura-primitiva-de-edward-b-tylor\/","title":{"rendered":"Cultura Primitiva de Edward B. Tylor"},"content":{"rendered":"\n<p>Voc\u00ea ir\u00e1 ler, a seguir, um trecho de &#8220;Cultura Primitiva&#8221;, de Edward B. Tylor. Caso tenha interesse em adquiria a obra completa, ou conhecer mais detalhes da edi\u00e7\u00e3o, <a href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/cultura-primitiva\/\">clique aqui<\/a>, ou na capa abaixo.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/cultura-primitiva\/\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"231\" height=\"328\" src=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/capinha_tylor.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1223\" srcset=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/capinha_tylor.jpg 231w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/capinha_tylor-211x300.jpg 211w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/capinha_tylor-106x150.jpg 106w\" sizes=\"(max-width: 231px) 100vw, 231px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\"> <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><a>I. A ci\u00eancia da cultura<\/a><\/h1>\n\n\n\n<p>Cultura ou Civiliza\u00e7\u00e3o, tomada em seu amplo sentido etnogr\u00e1fico, \u00e9 esse todo complexo que inclui conhecimento, cren\u00e7a, arte, moral, direito, costume e quaisquer outras capacidades e h\u00e1bitos adquiridos pelo homem enquanto membro da sociedade. A condi\u00e7\u00e3o da cultura entre as diversas sociedades humanas, na medida em que pode ser investigada segundo princ\u00edpios gerais, constitui um tema adequado para o estudo das leis do pensamento e da a\u00e7\u00e3o humanos. Por um lado, a uniformidade que em grande parte permeia a civiliza\u00e7\u00e3o pode ser atribu\u00edda, em grande medida, \u00e0 a\u00e7\u00e3o uniforme de causas uniformes; por outro lado, seus diversos n\u00edveis podem ser considerados est\u00e1gios de desenvolvimento ou evolu\u00e7\u00e3o, cada um resultante de uma hist\u00f3ria anterior e prestes a desempenhar seu papel pr\u00f3prio na forma\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria futura. \u00c0 investiga\u00e7\u00e3o desses dois grandes princ\u00edpios em diversos campos da etnografia \u2013 com especial aten\u00e7\u00e3o \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o das tribos inferiores em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o das na\u00e7\u00f5es superiores \u2013 se dedicam os presentes volumes.<\/p>\n\n\n\n<p>Nossos estudiosos modernos das ci\u00eancias da natureza inorg\u00e2nica s\u00e3o os primeiros a reconhecer, tanto dentro quanto fora de seus campos espec\u00edficos de trabalho, a unidade da natureza, a fixidez de suas leis, a sequ\u00eancia definida de causa e efeito pela qual cada fato depende do que o precedeu e atua sobre o que vir\u00e1 depois. Eles aderem firmemente \u00e0 doutrina pitag\u00f3rica da ordem que permeia o <em>Cosmos<\/em> universal. Afirmam, com Arist\u00f3teles, que a natureza n\u00e3o \u00e9 cheia de epis\u00f3dios incoerentes, como uma trag\u00e9dia mal escrita. Concordam com Leibniz em seu chamado \u201cmeu axioma, de que a natureza nunca age aos saltos (<em>la nature n\u2019agit jamais par saut<\/em>)\u201d, bem como em seu \u201cgrande princ\u00edpio, geralmente pouco empregado, de que nada acontece sem raz\u00e3o suficiente\u201d. E tamb\u00e9m, ao estudar a estrutura e os h\u00e1bitos de plantas e animais, ou ao investigar as fun\u00e7\u00f5es inferiores mesmo do homem, essas ideias fundamentais n\u00e3o deixam de ser reconhecidas. Mas, quando se trata dos processos superiores do sentimento e da a\u00e7\u00e3o humanos \u2013 do pensamento e da linguagem, do conhecimento e da arte \u2013, nota-se uma mudan\u00e7a no tom dominante da opini\u00e3o. O mundo em geral est\u00e1 longe de aceitar o estudo da vida humana como um ramo das ci\u00eancias naturais, e de levar a cabo, em sentido amplo, o mandamento do poeta de \u201cexplicar o moral como se explica o natural\u201d. A muitas mentes cultas, parece presun\u00e7osa e repulsiva a ideia de que a hist\u00f3ria da humanidade faz parte integrante da hist\u00f3ria da natureza; de que nossos pensamentos, vontades e a\u00e7\u00f5es se ajustam a leis t\u00e3o definidas quanto aquelas que regem o movimento das ondas, a combina\u00e7\u00e3o de \u00e1cidos e bases, e o crescimento das plantas e dos animais.<\/p>\n\n\n\n<p>As principais raz\u00f5es desse estado do ju\u00edzo popular n\u00e3o s\u00e3o dif\u00edceis de identificar. Muitos aceitariam de bom grado uma ci\u00eancia da hist\u00f3ria, se esta lhes fosse apresentada com princ\u00edpios e evid\u00eancias suficientemente definidos; mas, com raz\u00e3o, rejeitam os sistemas que lhes s\u00e3o oferecidos, por estes ficarem muito aqu\u00e9m de um padr\u00e3o cient\u00edfico. Diante de uma resist\u00eancia desse tipo, o verdadeiro conhecimento sempre acaba, mais cedo ou mais tarde, abrindo caminho; e o h\u00e1bito de se opor \u00e0 novidade presta, ali\u00e1s, um excelente servi\u00e7o contra as invas\u00f5es do dogmatismo especulativo \u2013 a ponto de podermos at\u00e9 desejar, por vezes, que fosse mais forte do que \u00e9. Mas outros obst\u00e1culos \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o das leis da natureza humana surgem de considera\u00e7\u00f5es de ordem metaf\u00edsica e teol\u00f3gica. A no\u00e7\u00e3o popular do livre-arb\u00edtrio humano envolve n\u00e3o apenas a liberdade de agir em conformidade com um motivo, mas tamb\u00e9m um poder de romper com a continuidade e agir sem causa \u2013 uma combina\u00e7\u00e3o que pode ser ilustrada, de forma aproximada, pela compara\u00e7\u00e3o com uma balan\u00e7a que \u00e0s vezes age como se espera, mas que tamb\u00e9m possuiria a faculdade de se mover sozinha, sem ou contra os pesos. Essa concep\u00e7\u00e3o de uma a\u00e7\u00e3o an\u00f4mala da vontade \u2013 que, nem \u00e9 preciso dizer, \u00e9 incompat\u00edvel com o racioc\u00ednio cient\u00edfico \u2013 subsiste como opini\u00e3o manifesta ou latente na mente das pessoas, afetando fortemente suas vis\u00f5es te\u00f3ricas da hist\u00f3ria, ainda que, geralmente, n\u00e3o seja trazida \u00e0 tona de maneira proeminente em argumenta\u00e7\u00f5es sistem\u00e1ticas. De fato, a defini\u00e7\u00e3o da vontade humana como estritamente conforme ao motivo \u00e9 a \u00fanica base cient\u00edfica poss\u00edvel em tais investiga\u00e7\u00f5es. Felizmente, n\u00e3o \u00e9 preciso somar mais um \u00e0 lista de disserta\u00e7\u00f5es sobre interven\u00e7\u00e3o sobrenatural e causalidade natural, sobre liberdade, predestina\u00e7\u00e3o e responsabilidade. Podemos apressar-nos a sair das regi\u00f5es da filosofia transcendental e da teologia, para iniciar uma jornada mais promissora sobre um terreno mais pratic\u00e1vel. Ningu\u00e9m negar\u00e1 que, como cada um sabe por evid\u00eancia de sua pr\u00f3pria consci\u00eancia, uma causa definida e natural determina, em grande medida, a a\u00e7\u00e3o humana. Ent\u00e3o, deixando de lado as considera\u00e7\u00f5es sobre interfer\u00eancia extranatural e espontaneidade sem causa, tomemos essa exist\u00eancia admitida de causa e efeito naturais como nosso ponto de apoio, e caminhemos com ela tanto quanto ela nos sustentar. \u00c9 sobre essa mesma base que a ci\u00eancia f\u00edsica persegue, com \u00eaxito sempre crescente, sua busca pelas leis da natureza. Nem essa limita\u00e7\u00e3o precisa restringir o estudo cient\u00edfico da vida humana, cujas verdadeiras dificuldades s\u00e3o de ordem pr\u00e1tica: a enorme complexidade das evid\u00eancias e a imperfei\u00e7\u00e3o dos m\u00e9todos de observa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, parece que essa vis\u00e3o da vontade e da conduta humanas como sujeitas a uma lei definida \u00e9 de fato reconhecida e aplicada pelas mesmas pessoas que a contestam quando ela \u00e9 formulada abstratamente como princ\u00edpio geral, e que ent\u00e3o se queixam de que tal concep\u00e7\u00e3o aniquila o livre-arb\u00edtrio do homem, destr\u00f3i seu senso de responsabilidade pessoal e o rebaixa a uma m\u00e1quina sem alma. Quem diz tais coisas, no entanto, passa boa parte da pr\u00f3pria vida estudando os motivos que levam \u00e0 a\u00e7\u00e3o humana, buscando atingir seus desejos por meio deles, elaborando teorias mentais sobre o car\u00e1ter das pessoas, calculando quais devem ser os efeitos de novas combina\u00e7\u00f5es \u2013 e dando ao seu racioc\u00ednio o tra\u00e7o distintivo da verdadeira investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, ao tomar como certo que, se seu c\u00e1lculo se mostrar errado, \u00e9 porque ou sua evid\u00eancia era falsa ou incompleta, ou seu ju\u00edzo sobre ela foi falho. Tal pessoa resumir\u00e1 a experi\u00eancia de anos vividos em rela\u00e7\u00f5es complexas com a sociedade declarando sua convic\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 uma raz\u00e3o para tudo na vida, e que, quando os acontecimentos parecem inexplic\u00e1veis, a regra \u00e9 esperar e observar com a esperan\u00e7a de que a chave do problema venha um dia a ser encontrada. A observa\u00e7\u00e3o desse homem pode ter sido t\u00e3o limitada quanto suas infer\u00eancias s\u00e3o toscas e preconceituosas, mas, ainda assim, ele tem sido um fil\u00f3sofo indutivo \u201cpor mais de quarenta anos sem saber\u201d<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Ele reconheceu na pr\u00e1tica a exist\u00eancia de leis definidas do pensamento e da a\u00e7\u00e3o humanos, e simplesmente deixou de lado, em seus pr\u00f3prios estudos sobre a vida, toda a constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de uma vontade sem motivos e de uma espontaneidade sem causa. Parte-se aqui do princ\u00edpio de que essa constru\u00e7\u00e3o deve ser igualmente exclu\u00edda dos estudos mais amplos, e de que a verdadeira filosofia da hist\u00f3ria consiste em ampliar e aperfei\u00e7oar os m\u00e9todos das pessoas comuns, que formam seus ju\u00edzos com base nos fatos e os corrigem \u00e0 medida que surgem novos fatos. Seja essa doutrina totalmente ou apenas parcialmente verdadeira, ela adota a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o sob a qual buscamos novo conhecimento nas li\u00e7\u00f5es da experi\u00eancia e, em suma, toda a trajet\u00f3ria de nossa vida racional se fundamenta nela.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cUm acontecimento \u00e9 sempre filho de outro, e n\u00e3o devemos nunca esquecer sua origem\u201d \u2013 foi o que disse um chefe bechuana a Casalis, o mission\u00e1rio africano. Assim tamb\u00e9m, em todos os tempos, os historiadores \u2013 na medida em que procuraram ser mais que simples cronistas \u2013 fizeram o poss\u00edvel para mostrar n\u00e3o apenas a sucess\u00e3o, mas tamb\u00e9m a conex\u00e3o entre os acontecimentos que registraram. Al\u00e9m disso, esfor\u00e7aram-se por extrair princ\u00edpios gerais da a\u00e7\u00e3o humana e, por meio deles, explicar eventos particulares, afirmando expressamente ou pressupondo tacitamente a exist\u00eancia de uma filosofia da hist\u00f3ria. Se algu\u00e9m negar a possibilidade de se estabelecerem leis hist\u00f3ricas, est\u00e1 pronta a resposta com que Boswell, em tal caso, confrontou Johnson: \u201cEnt\u00e3o, senhor, o senhor reduziria toda a hist\u00f3ria a nada mais do que um almanaque.\u201d Que, ainda assim, os trabalhos de tantos pensadores eminentes tenham levado a hist\u00f3ria apenas ao limiar da ci\u00eancia n\u00e3o deve causar espanto a quem considere a desconcertante complexidade dos problemas enfrentados pelo historiador geral. As evid\u00eancias das quais ele deve extrair suas conclus\u00f5es s\u00e3o ao mesmo tempo t\u00e3o numerosas e t\u00e3o duvidosas, que \u00e9 quase imposs\u00edvel obter uma vis\u00e3o plena e clara de sua rela\u00e7\u00e3o com uma quest\u00e3o espec\u00edfica \u2013 e, por isso, a tenta\u00e7\u00e3o de distorc\u00ea-las para apoiar alguma teoria apressada sobre o curso dos acontecimentos torna-se quase irresist\u00edvel. A filosofia da hist\u00f3ria, tomada em sentido amplo \u2013 aquela que explica o passado e prev\u00ea os fen\u00f4menos futuros da vida humana no mundo com base em leis gerais \u2013 \u00e9, de fato, um tema com o qual, no estado atual do conhecimento, at\u00e9 mesmo o g\u00eanio apoiado por ampla pesquisa parece ter dificuldade em lidar. No entanto, h\u00e1 setores dela que, embora dif\u00edceis, parecem relativamente acess\u00edveis. Se restringirmos o campo de investiga\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria como um todo \u00e0quele ramo que aqui se denomina Cultura \u2013 isto \u00e9, a hist\u00f3ria n\u00e3o de tribos ou na\u00e7\u00f5es, mas da condi\u00e7\u00e3o do saber, da religi\u00e3o, da arte, dos costumes e afins entre essas popula\u00e7\u00f5es \u2013, a tarefa da investiga\u00e7\u00e3o revela-se bem mais limitada. Continuamos a enfrentar o mesmo tipo de dificuldade que acompanha o argumento mais amplo, mas em grau muito menor. A evid\u00eancia j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o desordenadamente heterog\u00eanea, podendo ser classificada e comparada de forma mais simples; e a possibilidade de eliminar elementos alheios ao tema e tratar cada quest\u00e3o com seu respectivo conjunto de fatos torna o racioc\u00ednio rigoroso, em geral, mais vi\u00e1vel do que na hist\u00f3ria geral. Isso pode ser percebido por meio de um breve exame preliminar da seguinte quest\u00e3o: como os fen\u00f4menos da Cultura podem ser classificados e organizados, etapa por etapa, numa ordem prov\u00e1vel de evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Observado de forma ampla, o car\u00e1ter e os h\u00e1bitos da humanidade revelam de imediato uma semelhan\u00e7a e uma coer\u00eancia de fen\u00f4menos tais que levaram o prov\u00e9rbio italiano a afirmar que \u201ctodo o mundo \u00e9 um s\u00f3 pa\u00eds\u201d \u2013 <em>tutto il mondo \u00e8 paese<\/em>. A essa semelhan\u00e7a e coer\u00eancia se pode, sem d\u00favida, atribuir, de um lado, a semelhan\u00e7a geral da natureza humana e, de outro, a semelhan\u00e7a geral nas circunst\u00e2ncias da vida; e tais caracter\u00edsticas podem ser estudadas com especial pertin\u00eancia ao se comparar povos situados em graus semelhantes de civiliza\u00e7\u00e3o. Pouca aten\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria, nessas compara\u00e7\u00f5es, \u00e0 data hist\u00f3rica ou \u00e0 posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica; o antigo habitante dos lagos su\u00ed\u00e7os pode ser comparado ao asteca medieval, e o <em>oj\u00edbua<\/em> da Am\u00e9rica do Norte ao zulu da \u00c1frica do Sul. Como disse com desd\u00e9m o Dr. Johnson, ap\u00f3s ler sobre patag\u00f4nios e ilh\u00e9us do Pac\u00edfico Sul nas <em>Viagens<\/em> de Hawkesworth: \u201cum grupo de selvagens \u00e9 igual a outro.\u201d Qualquer museu etnol\u00f3gico pode mostrar qu\u00e3o verdadeira \u00e9 essa generaliza\u00e7\u00e3o. Examine-se, por exemplo, os instrumentos de corte e perfura\u00e7\u00e3o em tal cole\u00e7\u00e3o: o invent\u00e1rio inclui machado, enx\u00f3, form\u00e3o, faca, serra, raspador, sovela, agulha, ponta de lan\u00e7a e de flecha \u2013 e a maioria, ou todos eles, pertencem, com varia\u00e7\u00f5es apenas de detalhe, \u00e0s mais diversas ra\u00e7as. O mesmo se observa com as ocupa\u00e7\u00f5es dos povos selvagens: cortar madeira, pescar com rede ou linha, ca\u00e7ar com arco ou lan\u00e7a, fazer fogo, cozinhar, torcer cordas ou tran\u00e7ar cestos \u2013 tudo isso se repete com espantosa uniformidade nas prateleiras dos museus que ilustram a vida dos povos inferiores, de Kamchatka \u00e0 Terra do Fogo, e do Daom\u00e9 ao Hava\u00ed. Mesmo quando se comparam hordas b\u00e1rbaras com na\u00e7\u00f5es civilizadas, surge inevitavelmente a considera\u00e7\u00e3o de at\u00e9 que ponto item ap\u00f3s item da vida dos povos inferiores passa a integrar atividades an\u00e1logas nos povos mais avan\u00e7ados, em formas n\u00e3o t\u00e3o alteradas a ponto de se tornarem irreconhec\u00edveis \u2013 e por vezes quase inalteradas. Observe-se o campon\u00eas europeu moderno usando seu machado e sua enxada; veja-se sua comida fervendo ou assando sobre o fogo de lenha; repare-se no lugar exato que a cerveja ocupa em seu c\u00e1lculo de felicidade; ou\u00e7a-se seu relato sobre o fantasma que assombra a casa mais pr\u00f3xima, ou sobre a sobrinha do fazendeiro que foi enfeiti\u00e7ada no ventre, at\u00e9 cair em convuls\u00f5es e morrer. Se selecionarmos, assim, aspectos que mudaram pouco ao longo dos s\u00e9culos, poderemos compor um quadro em que mal se note a diferen\u00e7a entre um lavrador ingl\u00eas e um negro da \u00c1frica Central. Estas p\u00e1ginas estar\u00e3o t\u00e3o repletas de evid\u00eancias dessa correspond\u00eancia entre os seres humanos, que n\u00e3o h\u00e1 necessidade de deter-se agora em seus detalhes; pode-se, antes, utiliz\u00e1-la desde j\u00e1 para resolver um problema que complicaria o argumento \u2013 a saber, a quest\u00e3o da ra\u00e7a. Para o prop\u00f3sito presente, parece tanto poss\u00edvel quanto desej\u00e1vel eliminar considera\u00e7\u00f5es sobre variedades heredit\u00e1rias ou ra\u00e7as humanas, e tratar a humanidade como homog\u00eanea por natureza, embora situada em diferentes graus de civiliza\u00e7\u00e3o. Os detalhes da investiga\u00e7\u00e3o mostrar\u00e3o, creio eu, que \u00e9 poss\u00edvel comparar est\u00e1gios de cultura sem levar em conta at\u00e9 que ponto tribos que usam o mesmo instrumento, seguem o mesmo costume ou acreditam no mesmo mito diferem quanto \u00e0 configura\u00e7\u00e3o f\u00edsica ou \u00e0 cor da pele e dos cabelos.<\/p>\n\n\n\n<p>Um primeiro passo no estudo da civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 dissec\u00e1-la em seus detalhes e classificar esses detalhes em seus grupos apropriados. Assim, ao examinar armas, estas devem ser classificadas em categorias como lan\u00e7a, clava, funda, arco e flecha, e assim por diante; entre as artes t\u00eaxteis, devem-se incluir tran\u00e7ado de esteiras, malhagem de redes e diversos graus de fabrica\u00e7\u00e3o e tecelagem de fios; os mitos se dividem sob rubricas como mitos do nascer e do p\u00f4r do sol, mitos sobre eclipses, mitos sobre terremotos, mitos locais que explicam os nomes de lugares por meio de narrativas fantasiosas, mitos ep\u00f4nimos que explicam a origem de uma tribo transformando seu nome no de um ancestral imagin\u00e1rio; entre os ritos e cerim\u00f4nias encontram-se pr\u00e1ticas como os v\u00e1rios tipos de sacrif\u00edcio aos fantasmas dos mortos e a outros seres espirituais, o ato de voltar-se para o leste durante o culto, a purifica\u00e7\u00e3o de impurezas cerimoniais ou morais por meio da \u00e1gua ou do fogo. Estes s\u00e3o apenas alguns exemplos variados dentre uma lista de centenas, e a tarefa do etn\u00f3grafo \u00e9 classificar tais detalhes visando compreender sua distribui\u00e7\u00e3o na geografia e na hist\u00f3ria, bem como as rela\u00e7\u00f5es que existem entre eles.<\/p>\n\n\n\n<p>O que \u00e9 essa tarefa pode ser ilustrado quase perfeitamente ao se comparar esses detalhes da cultura com as esp\u00e9cies de plantas e animais estudadas pelo naturalista. Para o etn\u00f3grafo, o arco e flecha \u00e9 uma esp\u00e9cie, o costume de achatar os cr\u00e2nios das crian\u00e7as \u00e9 uma esp\u00e9cie, o h\u00e1bito de contar por dezenas \u00e9 uma esp\u00e9cie. A distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica dessas coisas, e sua transmiss\u00e3o de uma regi\u00e3o a outra, devem ser estudadas assim como o naturalista estuda a geografia de suas esp\u00e9cies bot\u00e2nicas e zool\u00f3gicas. Assim como certas plantas e animais s\u00e3o peculiares a determinadas regi\u00f5es, o mesmo se d\u00e1 com instrumentos como o bumerangue australiano, a vareta com ranhura polin\u00e9sia para fazer fogo, o min\u00fasculo arco e flecha usado como lanceta ou seringa por tribos da regi\u00e3o do istmo do Panam\u00e1 \u2013 e de maneira semelhante com muitas artes, mitos ou costumes que se encontram isoladamente num campo particular. Assim como o cat\u00e1logo de todas as esp\u00e9cies de plantas e animais de uma regi\u00e3o representa sua flora e fauna, a lista de todos os elementos da vida geral de um povo representa o conjunto que chamamos sua cultura. E assim como regi\u00f5es distantes frequentemente produzem vegetais e animais an\u00e1logos, embora n\u00e3o id\u00eanticos, o mesmo se observa nos detalhes da civiliza\u00e7\u00e3o de seus habitantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Qu\u00e3o v\u00e1lida \u00e9 essa analogia de trabalho entre a difus\u00e3o das plantas e dos animais e a difus\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o torna-se especialmente claro quando notamos at\u00e9 que ponto as mesmas causas produziram ambos simultaneamente. Em regi\u00e3o ap\u00f3s regi\u00e3o, as mesmas causas que introduziram as plantas cultivadas e os animais domesticados da civiliza\u00e7\u00e3o trouxeram com elas uma arte e um saber correspondentes. O curso de eventos que levou cavalos e trigo \u00e0s Am\u00e9ricas tamb\u00e9m levou o uso do mosquete e do machado de ferro, enquanto, em troca, o mundo inteiro recebeu n\u00e3o apenas milho, batatas e perus, mas tamb\u00e9m o h\u00e1bito de fumar tabaco e a rede de dormir dos marinheiros.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 algo digno de considera\u00e7\u00e3o o fato de que os relatos de fen\u00f4menos culturais semelhantes, recorrentes em diferentes partes do mundo, oferecem, incidentalmente, uma prova de sua pr\u00f3pria autenticidade. H\u00e1 alguns anos, uma pergunta que evidencia esse ponto me foi feita por um grande historiador: \u201cComo se pode tratar como evid\u00eancia uma afirma\u00e7\u00e3o sobre costumes, mitos, cren\u00e7as etc. de uma tribo selvagem, quando ela depende do testemunho de um viajante ou mission\u00e1rio, que pode ser um observador superficial, mais ou menos ignorante da l\u00edngua nativa, um narrador descuidado de hist\u00f3rias mal verificadas, um homem preconceituoso ou at\u00e9 deliberadamente enganoso?\u201d Essa \u00e9, de fato, uma pergunta que todo etn\u00f3grafo deveria manter clara e constantemente presente em sua mente. \u00c9 evidente que ele deve usar seu melhor julgamento quanto \u00e0 confiabilidade de todos os autores que cita e, se poss\u00edvel, obter v\u00e1rios relatos para confirmar cada ponto em cada localidade. Mas \u00e9 al\u00e9m dessas medidas de precau\u00e7\u00e3o que entra o teste da recorr\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Se dois visitantes independentes de pa\u00edses diferentes \u2013 digamos, um mu\u00e7ulmano medieval na Tart\u00e1ria e um ingl\u00eas moderno no Daom\u00e9, ou um mission\u00e1rio jesu\u00edta no Brasil e um metodista nas Ilhas Fiji \u2013 concordam ao descrever alguma arte, rito ou mito an\u00e1logo entre os povos que visitaram, torna-se dif\u00edcil ou imposs\u00edvel atribuir tal correspond\u00eancia ao acaso ou \u00e0 fraude deliberada. Um relato feito por um fora-da-lei na Austr\u00e1lia pode talvez ser contestado como erro ou inven\u00e7\u00e3o, mas ser\u00e1 que um pastor metodista na Guin\u00e9 teria conspirado com ele para enganar o p\u00fablico contando a mesma hist\u00f3ria l\u00e1? A possibilidade de mistifica\u00e7\u00e3o intencional ou n\u00e3o intencional costuma ser descartada quando ocorre o seguinte: uma afirma\u00e7\u00e3o semelhante \u00e9 feita em duas terras distantes, por duas testemunhas, das quais A viveu um s\u00e9culo antes de B, e B aparentemente jamais ouviu falar de A. Qu\u00e3o distantes s\u00e3o os pa\u00edses, qu\u00e3o afastadas as datas, qu\u00e3o diferentes as cren\u00e7as e os caracteres dos observadores, no cat\u00e1logo dos fatos da civiliza\u00e7\u00e3o, dispensa maiores provas a quem quer que lance um simples olhar para as notas de rodap\u00e9 da presente obra. E quanto mais estranha for a afirma\u00e7\u00e3o, tanto menos prov\u00e1vel ser\u00e1 que v\u00e1rias pessoas, em v\u00e1rios lugares, a tenham feito de forma equivocada.<\/p>\n\n\n\n<p>Sendo assim, parece razo\u00e1vel julgar que as afirma\u00e7\u00f5es s\u00e3o em sua maioria verdadeiras, e que sua coincid\u00eancia estreita e regular se deve ao surgimento de fatos semelhantes em v\u00e1rias regi\u00f5es culturais. Ora, os fatos mais importantes da etnografia s\u00e3o atestados desse modo. A experi\u00eancia leva o estudioso, com o tempo, a esperar e a encontrar que os fen\u00f4menos da cultura, como resultantes de causas semelhantes e de ampla atua\u00e7\u00e3o, devam surgir repetidamente no mundo. Ele at\u00e9 desconfia de afirma\u00e7\u00f5es isoladas, para as quais n\u00e3o conhece paralelo em nenhum outro lugar, e aguarda que sua autenticidade seja confirmada por relatos correspondentes vindos do outro lado do mundo, ou do outro extremo da hist\u00f3ria. T\u00e3o eficaz \u00e9 esse meio de autentica\u00e7\u00e3o que o etn\u00f3grafo, em sua biblioteca, pode \u00e0s vezes se dar ao luxo de decidir, n\u00e3o apenas se determinado explorador \u00e9 um observador sagaz e honesto, mas tamb\u00e9m se o que ele relata est\u00e1 de acordo com as leis gerais da civiliza\u00e7\u00e3o. <em>Non quis, sed quid<\/em> \u2013 \u201cn\u00e3o quem, mas o qu\u00ea\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Passemos da distribui\u00e7\u00e3o da cultura entre diferentes pa\u00edses \u00e0 sua difus\u00e3o dentro desses pa\u00edses. A qualidade da esp\u00e9cie humana que mais contribui para tornar poss\u00edvel o estudo sistem\u00e1tico da civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 aquele not\u00e1vel consenso t\u00e1cito ou acordo que leva popula\u00e7\u00f5es inteiras a se unirem no uso de uma mesma l\u00edngua, a seguirem a mesma religi\u00e3o e leis costumeiras, a se estabelecerem num mesmo n\u00edvel geral de arte e conhecimento. \u00c9 esse estado de coisas que torna poss\u00edvel, at\u00e9 certo ponto, ignorar fatos excepcionais e descrever na\u00e7\u00f5es com base numa esp\u00e9cie de m\u00e9dia geral. \u00c9 esse estado de coisas que torna poss\u00edvel, at\u00e9 certo ponto, representar imensas massas de detalhes por meio de alguns fatos t\u00edpicos, sendo que, uma vez estabelecidos esses fatos, novos casos registrados por novos observadores simplesmente se encaixam em seus devidos lugares, comprovando a solidez da classifica\u00e7\u00e3o. Verifica-se tamanha regularidade na composi\u00e7\u00e3o das sociedades humanas que podemos deixar de lado as diferen\u00e7as individuais e, assim, generalizar as artes e opini\u00f5es de na\u00e7\u00f5es inteiras, do mesmo modo que, ao olhar de cima um ex\u00e9rcito do alto de uma colina, esquecemos o soldado individual \u2013 que, de fato, mal conseguimos distinguir no conjunto \u2013 enquanto vemos cada regimento como um corpo organizado, que se espalha ou se concentra, avan\u00e7a ou recua.<\/p>\n\n\n\n<p>Em alguns ramos do estudo das leis sociais, j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel recorrer \u00e0 ajuda da estat\u00edstica e separar a\u00e7\u00f5es espec\u00edficas de grandes comunidades humanas mistas por meio dos registros dos arrecadadores de impostos ou das tabelas das companhias de seguros. Entre os argumentos modernos sobre as leis da a\u00e7\u00e3o humana, poucos tiveram efeito mais profundo do que as generaliza\u00e7\u00f5es de M. Quetelet, sobre a regularidade n\u00e3o apenas de quest\u00f5es como a estatura m\u00e9dia e as taxas anuais de natalidade e mortalidade, mas tamb\u00e9m da recorr\u00eancia, ano ap\u00f3s ano, de produtos obscuros e aparentemente incalcul\u00e1veis da vida nacional, como os n\u00fameros de assassinatos e suic\u00eddios, e at\u00e9 mesmo a propor\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios instrumentos utilizados nos crimes. Outros casos not\u00e1veis s\u00e3o a regularidade anual de pessoas mortas acidentalmente nas ruas de Londres e de cartas sem destinat\u00e1rio deixadas nas caixas de correio.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, ao examinarmos a cultura das ra\u00e7as inferiores, longe de termos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o os dados aritm\u00e9ticos bem medidos da estat\u00edstica moderna, talvez tenhamos que julgar a condi\u00e7\u00e3o das tribos a partir dos relatos imperfeitos fornecidos por viajantes ou mission\u00e1rios, ou at\u00e9 raciocinar com base em vest\u00edgios de ra\u00e7as pr\u00e9-hist\u00f3ricas cujos nomes e l\u00ednguas nos s\u00e3o completamente desconhecidos. \u00c0 primeira vista, esses materiais podem parecer lamentavelmente vagos e pouco promissores para uma investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Mas, na verdade, n\u00e3o s\u00e3o nem vagos nem pouco promissores \u2013 eles fornecem evid\u00eancias boas e precisas, dentro dos limites do que permitem. S\u00e3o dados que, pela maneira clara com que cada um indica a condi\u00e7\u00e3o da tribo a que pertence, podem realmente ser comparados com os registros estat\u00edsticos. O fato \u00e9 que uma ponta de flecha de pedra, um porrete entalhado, um \u00eddolo, um t\u00famulo em que escravos e bens foram enterrados para uso dos mortos, um relato dos ritos de um feiticeiro para fazer chover, uma tabela de numerais, a conjuga\u00e7\u00e3o de um verbo \u2013 s\u00e3o elementos que expressam o estado de um povo quanto a um ponto espec\u00edfico de sua cultura, t\u00e3o verdadeiramente quanto os n\u00fameros tabulados de mortes por envenenamento ou de caixas de ch\u00e1 importadas expressam, de outro modo, outros resultados parciais da vida geral de uma comunidade inteira.<\/p>\n\n\n\n<p>Que uma na\u00e7\u00e3o inteira possua um vestu\u00e1rio especial, ferramentas e armas espec\u00edficas, leis particulares de casamento e propriedade, doutrinas morais e religiosas pr\u00f3prias \u2013 isso \u00e9 um fato not\u00e1vel, que notamos t\u00e3o pouco justamente porque vivemos no meio dele durante toda a vida. \u00c9 com essas qualidades gerais dos corpos organizados de seres humanos que a etnografia tem de lidar de modo especial. No entanto, ao generalizar sobre a cultura de uma tribo ou na\u00e7\u00e3o, deixando de lado as peculiaridades dos indiv\u00edduos que a comp\u00f5em como irrelevantes para o resultado principal, \u00e9 preciso ter cuidado para n\u00e3o esquecer o que constitui esse resultado principal. H\u00e1 pessoas t\u00e3o focadas na vida individual que n\u00e3o conseguem formar uma no\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o de uma comunidade como um todo \u2013 um observador assim, incapaz de ter uma vis\u00e3o ampla da sociedade, \u00e9 bem descrito pelo ditado segundo o qual ele \u201cn\u00e3o consegue ver a floresta por causa das \u00e1rvores\u201d. Mas, por outro lado, o fil\u00f3sofo pode estar t\u00e3o atento \u00e0s suas leis gerais da sociedade que negligencia os indiv\u00edduos que a comp\u00f5em \u2013 e dele se pode dizer que \u201cn\u00e3o v\u00ea as \u00e1rvores por causa da floresta\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabemos como as artes, os costumes e as ideias s\u00e3o formados entre n\u00f3s pela a\u00e7\u00e3o combinada de muitos indiv\u00edduos, cujas motiva\u00e7\u00f5es e efeitos muitas vezes conseguimos distinguir com clareza. A hist\u00f3ria de uma inven\u00e7\u00e3o, de uma opini\u00e3o ou de uma cerim\u00f4nia \u00e9 uma hist\u00f3ria de sugest\u00f5es e modifica\u00e7\u00f5es, de incentivos e resist\u00eancias, de ganhos pessoais e preconceitos de grupo \u2013 e os indiv\u00edduos envolvidos agem segundo suas pr\u00f3prias motiva\u00e7\u00f5es, determinadas por seu car\u00e1ter e suas circunst\u00e2ncias. Assim, \u00e0s vezes observamos indiv\u00edduos agindo em fun\u00e7\u00e3o de seus pr\u00f3prios objetivos, sem pensar muito em seus efeitos sobre a sociedade como um todo; e outras vezes precisamos estudar movimentos da vida nacional como um todo, em que os indiv\u00edduos que neles colaboram est\u00e3o completamente fora do nosso campo de observa\u00e7\u00e3o. Mas, como a a\u00e7\u00e3o social coletiva \u00e9 apenas o resultado de muitas a\u00e7\u00f5es individuais, \u00e9 evidente que esses dois m\u00e9todos de investiga\u00e7\u00e3o, se bem aplicados, devem ser absolutamente coerentes entre si.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao estudar tanto a recorr\u00eancia de certos h\u00e1bitos ou ideias em diversos territ\u00f3rios quanto sua predomin\u00e2ncia dentro de cada territ\u00f3rio, nos deparamos continuamente com provas reiteradas de uma causalidade regular que produz os fen\u00f4menos da vida humana e de leis de manuten\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o segundo as quais esses fen\u00f4menos se estabilizam em condi\u00e7\u00f5es sociais padr\u00e3o, em est\u00e1gios definidos da cultura. Mas, ainda que reconhe\u00e7amos plenamente a import\u00e2ncia das evid\u00eancias relativas a essas condi\u00e7\u00f5es padr\u00e3o da sociedade, tenhamos cuidado com uma armadilha que pode surpreender o estudante desatento. \u00c9 claro que as opini\u00f5es e h\u00e1bitos comuns a grandes massas humanas s\u00e3o, em grande medida, fruto de um julgamento s\u00f3lido e de sabedoria pr\u00e1tica. Mas, em grande medida, n\u00e3o o s\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O fato de que muitas sociedades numerosas tenham acreditado na influ\u00eancia do mau-olhado e na exist\u00eancia de um firmamento, tenham sacrificado escravos e bens aos fantasmas dos mortos, tenham transmitido tradi\u00e7\u00f5es de gigantes matando monstros e de homens se transformando em feras \u2013 tudo isso \u00e9 motivo para se admitir que tais ideias foram realmente produzidas na mente humana por causas eficazes, mas n\u00e3o \u00e9 motivo para se acreditar que os ritos em quest\u00e3o sejam ben\u00e9ficos, que as cren\u00e7as sejam sensatas, nem que a hist\u00f3ria seja aut\u00eantica. Isso pode parecer \u00e0 primeira vista um tru\u00edsmo, mas, na verdade, \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o de uma fal\u00e1cia que afeta profundamente as mentes de todos, exceto de uma pequena minoria cr\u00edtica da humanidade. De modo geral, aquilo que todo mundo diz deve ser verdade; aquilo que todo mundo faz deve ser certo \u2013 <em>\u201cQuod ubique, quod semper, quod ab omnibus creditum est, hoc est vere proprieque Catholicum\u201d<\/em> \u2013 e assim por diante. Existem diversos assuntos \u2013 especialmente na hist\u00f3ria, no direito, na filosofia e na teologia \u2013 em que nem mesmo as pessoas instru\u00eddas com quem convivemos conseguem facilmente perceber que a raz\u00e3o pela qual os homens sustentam uma opini\u00e3o ou praticam um costume est\u00e1 longe de ser, por si s\u00f3, uma raz\u00e3o pela qual deveriam faz\u00ea-lo. Como cole\u00e7\u00f5es de evid\u00eancias etnogr\u00e1ficas que trazem de maneira t\u00e3o proeminente \u00e0 tona o consenso de imensas multid\u00f5es de homens sobre certas tradi\u00e7\u00f5es, cren\u00e7as e usos, s\u00e3o particularmente suscet\u00edveis a serem usadas de forma inadequada na defesa direta dessas institui\u00e7\u00f5es em si mesmas, at\u00e9 mesmo antigas na\u00e7\u00f5es b\u00e1rbaras s\u00e3o consultadas para manter suas opini\u00f5es contra o que chamam de ideias modernas. Como j\u00e1 me aconteceu mais de uma vez encontrar minhas cole\u00e7\u00f5es de tradi\u00e7\u00f5es e cren\u00e7as usadas assim para provar sua pr\u00f3pria verdade objetiva, sem o devido exame dos fundamentos sobre os quais foram realmente recebidas, aproveito esta oportunidade para observar que a mesma linha de argumento serviria igualmente bem para demonstrar, pelo forte e amplo consentimento das na\u00e7\u00f5es, que a Terra \u00e9 plana, e que a visita de um dem\u00f4nio \u00e9 um pesadelo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tendo sido mostrado que os detalhes da cultura podem ser classificados em um grande n\u00famero de grupos etnogr\u00e1ficos de artes, cren\u00e7as, costumes e outros, a pr\u00f3xima considera\u00e7\u00e3o \u00e9 at\u00e9 que ponto os fatos organizados nesses grupos s\u00e3o produzidos por evolu\u00e7\u00e3o uns a partir dos outros. Nem \u00e9 preciso apontar que os grupos em quest\u00e3o, embora mantidos juntos por um car\u00e1ter comum, est\u00e3o longe de serem definidos com precis\u00e3o. Para retomar a ilustra\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria natural, pode-se dizer que s\u00e3o esp\u00e9cies que tendem a se ramificar amplamente em variedades. E quando chega a quest\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es que alguns desses grupos t\u00eam com outros, \u00e9 evidente que o estudioso dos h\u00e1bitos humanos tem uma grande vantagem sobre o estudioso das esp\u00e9cies de plantas e animais. Entre os naturalistas, ainda \u00e9 uma quest\u00e3o em aberto se a teoria do desenvolvimento de uma esp\u00e9cie para outra \u00e9 o registro de transi\u00e7\u00f5es que realmente ocorreram, ou apenas um esquema ideal \u00fatil na classifica\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies cuja origem foi realmente independente. Mas entre os etn\u00f3grafos n\u00e3o h\u00e1 essa d\u00favida quanto \u00e0 possibilidade de esp\u00e9cies de instrumentos, h\u00e1bitos ou cren\u00e7as se desenvolverem umas a partir das outras, pois o desenvolvimento na cultura \u00e9 reconhecido pelo nosso conhecimento mais familiar.<\/p>\n\n\n\n<p>A inven\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica fornece exemplos adequados do tipo de desenvolvimento que afeta a civiliza\u00e7\u00e3o em geral. Na hist\u00f3ria das armas de fogo, o pesado \u201cwheel-lock\u201d (gatilho de roda), no qual uma roda de a\u00e7o dentada girava por meio de uma mola contra um peda\u00e7o de pirita at\u00e9 que uma fa\u00edsca acendesse o pavio, levou \u00e0 inven\u00e7\u00e3o do mais eficiente \u201cflint-lock\u201d (gatilho de pederneira), dos quais alguns ainda pendem nas cozinhas de nossas casas de fazenda para que os meninos atirem em pequenos p\u00e1ssaros no Natal; o \u201cflint-lock\u201d, com o tempo, passou por modifica\u00e7\u00f5es at\u00e9 virar o \u201cpercussion-lock\u201d (gatilho de percuss\u00e3o), que est\u00e1 justamente mudando seu antigo mecanismo para ser adaptado do carregamento pela boca para o carregamento por culatra. O astrol\u00e1bio medieval evoluiu para o quadrante, agora descartado pelo navegador, que usa o sextante, mais delicado, e assim acontece ao longo da hist\u00f3ria de uma arte e instrumento ap\u00f3s o outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses exemplos de progress\u00e3o s\u00e3o conhecidos por n\u00f3s como hist\u00f3ria direta, mas essa no\u00e7\u00e3o de desenvolvimento est\u00e1 t\u00e3o firmemente arraigada em nossas mentes que, por meio dela, reconstru\u00edmos a hist\u00f3ria perdida sem hesitar, confiando no conhecimento geral dos princ\u00edpios do pensamento e da a\u00e7\u00e3o humana como guia para colocar os fatos na ordem correta. Quer a cr\u00f4nica fale ou permane\u00e7a silenciosa sobre o assunto, ningu\u00e9m, ao comparar um arco longo e uma besta, duvidaria que a besta foi um desenvolvimento surgido a partir do instrumento mais simples. Assim, entre os fusos para iniciar fogo por fric\u00e7\u00e3o, parece claro, \u00e0 primeira vista, que o fuso acionado por uma corda ou arco \u00e9 uma melhoria posterior ao instrumento primitivo e mais rudimentar girado entre as m\u00e3os. Essa classe instrutiva de esp\u00e9cimes que os antiqu\u00e1rios \u00e0s vezes descobrem, os machados de bronze modelados no tipo pesado do machado de pedra, dificilmente se explicam, exceto como primeiros passos na transi\u00e7\u00e3o da Idade da Pedra para a Idade do Bronze, a ser seguida logo pela pr\u00f3xima etapa do progresso, na qual se descobre que o novo material se adapta a um modelo mais manej\u00e1vel e menos desperdi\u00e7ador. E assim, nos outros ramos de nossa hist\u00f3ria, surgir\u00e3o repetidamente s\u00e9ries de fatos que podem ser consistentemente organizados como tendo seguido um ao outro numa ordem particular de desenvolvimento, mas que dificilmente suportariam ser invertidos e feitos para seguir na ordem reversa. Tais, por exemplo, s\u00e3o os fatos que aqui apresentei em um cap\u00edtulo sobre a Arte de Contar, que tendem a provar que, ao menos nesse ponto da cultura, as tribos selvagens alcan\u00e7aram sua posi\u00e7\u00e3o por aprendizado e n\u00e3o por desaprendizado, por eleva\u00e7\u00e3o a partir de um estado inferior, e n\u00e3o por degrada\u00e7\u00e3o a partir de um estado superior.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre as evid\u00eancias que nos ajudam a tra\u00e7ar o curso que a civiliza\u00e7\u00e3o do mundo realmente seguiu, est\u00e1 aquela grande classe de fatos que achei conveniente denominar sobreviv\u00eancias. S\u00e3o processos, costumes, opini\u00f5es, e assim por diante, que foram mantidos por for\u00e7a do h\u00e1bito em um novo estado da sociedade, diferente daquele em que tiveram seu lar original, e assim permanecem como provas e exemplos de uma condi\u00e7\u00e3o cultural mais antiga da qual uma condi\u00e7\u00e3o mais nova evoluiu. Por exemplo, conhe\u00e7o uma velha senhora de Somersetshire cujo tear manual data da \u00e9poca anterior \u00e0 introdu\u00e7\u00e3o do navete voadora, aparelho moderno que ela nunca aprendeu a usar, e j\u00e1 a vi lan\u00e7ar sua navete de uma m\u00e3o para outra \u00e0 moda cl\u00e1ssica; essa velha senhora n\u00e3o est\u00e1 um s\u00e9culo atrasada para sua \u00e9poca, mas \u00e9 um caso de sobreviv\u00eancia. Tais exemplos frequentemente nos levam de volta aos h\u00e1bitos de centenas e at\u00e9 milhares de anos atr\u00e1s. A prova da Chave e da B\u00edblia, ainda em uso, \u00e9 uma sobreviv\u00eancia; a fogueira do solst\u00edcio de ver\u00e3o \u00e9 uma sobreviv\u00eancia; o jantar dos camponeses bret\u00f5es no Dia de Finados para os esp\u00edritos dos mortos \u00e9 uma sobreviv\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A simples manuten\u00e7\u00e3o de antigos h\u00e1bitos \u00e9 apenas uma parte da transi\u00e7\u00e3o dos tempos antigos para os novos e em mudan\u00e7a. Os assuntos s\u00e9rios da sociedade antiga podem ser vistos afundar-se na divers\u00e3o das gera\u00e7\u00f5es posteriores, e suas cren\u00e7as s\u00e9rias persistirem no folclore infantil, enquanto h\u00e1bitos superados da vida do velho mundo podem ser modificados em formas do novo mundo ainda poderosas para o bem e para o mal. \u00c0s vezes, pensamentos e pr\u00e1ticas antigas irrompem novamente, para o espanto de um mundo que as considerava h\u00e1 muito mortas ou moribundas; aqui a sobreviv\u00eancia passa para o renascimento, como aconteceu recentemente de maneira t\u00e3o not\u00e1vel na hist\u00f3ria do espiritismo moderno, um assunto cheio de ensinamentos do ponto de vista do etn\u00f3grafo.<\/p>\n\n\n\n<p>O estudo dos princ\u00edpios da sobreviv\u00eancia tem, de fato, uma import\u00e2ncia pr\u00e1tica n\u00e3o pequena, pois a maior parte do que chamamos supersti\u00e7\u00e3o est\u00e1 inclu\u00edda dentro das sobreviv\u00eancias, e por esse caminho se abre para o ataque de seu inimigo mais mortal, uma explica\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel. Insignificantes, al\u00e9m disso, como s\u00e3o muitas das fatos de sobreviv\u00eancia em si mesmos, seu estudo \u00e9 t\u00e3o eficaz para tra\u00e7ar o curso do desenvolvimento hist\u00f3rico atrav\u00e9s do qual s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel entender seu significado, que isso se torna um ponto vital da pesquisa etnogr\u00e1fica obter a compreens\u00e3o mais clara poss\u00edvel de sua natureza. Essa import\u00e2ncia justifica o detalhe aqui dedicado ao exame da sobreviv\u00eancia, com base em evid\u00eancias de jogos, ditados populares, costumes, supersti\u00e7\u00f5es e afins, que podem bem servir para revelar a maneira de sua opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Progresso, degrada\u00e7\u00e3o, sobreviv\u00eancia, renascimento, modifica\u00e7\u00e3o, s\u00e3o todos modos da conex\u00e3o que une a complexa rede da civiliza\u00e7\u00e3o. Basta um olhar aos detalhes triviais da nossa pr\u00f3pria vida di\u00e1ria para nos fazer pensar at\u00e9 que ponto somos realmente seus criadores, e at\u00e9 que ponto somos apenas transmissores e modificadores dos resultados de eras passadas. Olhando ao redor dos c\u00f4modos onde vivemos, podemos tentar aqui avaliar o quanto aquele que conhece apenas seu pr\u00f3prio tempo pode ser capaz de compreender corretamente at\u00e9 mesmo isso. Aqui est\u00e1 a madressilva da Ass\u00edria, ali a flor-de-lis de Anjou, uma cornija com uma borda grega corre ao redor do teto, o estilo de Lu\u00eds XIV, e seu ancestral, o Renascimento, compartilham o espelho entre si. Transformados, deslocados ou mutilados, tais elementos de arte ainda carregam claramente estampada sua hist\u00f3ria; e se a hist\u00f3ria mais remota \u00e9 menos f\u00e1cil de ler, n\u00e3o devemos dizer que, porque n\u00e3o a discernimos claramente, ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 hist\u00f3ria ali.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso acontece at\u00e9 mesmo com a moda das roupas que os homens usam. As pequenas caudas rid\u00edculas do casaco do postilh\u00e3o alem\u00e3o mostram por si mesmas como vieram a diminuir at\u00e9 tais absurdos rudimentos; mas as golas do cl\u00e9rigo ingl\u00eas j\u00e1 n\u00e3o transmitem t\u00e3o claramente sua hist\u00f3ria ao olhar, e parecem inexplic\u00e1veis at\u00e9 que se tenha visto as etapas intermedi\u00e1rias pelas quais desceram das golas largas e mais \u00fateis, como as que Milton usa em seu retrato, e que deram nome \u00e0 caixa de golas onde costumavam ser guardadas. De fato, os livros de trajes, mostrando como uma pe\u00e7a de roupa cresceu ou encolheu por etapas graduais e passou a outra, ilustram com muita for\u00e7a e clareza a natureza da mudan\u00e7a e crescimento, renascimento e decad\u00eancia, que ocorrem ano ap\u00f3s ano em assuntos mais importantes da vida. Nos livros, novamente, vemos cada escritor n\u00e3o por si e para si, mas ocupando seu lugar pr\u00f3prio na hist\u00f3ria; olhamos atrav\u00e9s de cada fil\u00f3sofo, matem\u00e1tico, qu\u00edmico, poeta, para o fundo de sua educa\u00e7\u00e3o \u2013 atrav\u00e9s de Leibniz para Descartes, atrav\u00e9s de Dalton para Priestley, atrav\u00e9s de Milton para Homero. O estudo da l\u00edngua talvez tenha feito mais do que qualquer outro para remover da nossa vis\u00e3o do pensamento e da a\u00e7\u00e3o humana as ideias de acaso e inven\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria, e em substitu\u00ed-las por uma teoria do desenvolvimento pela coopera\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos, atrav\u00e9s de processos sempre razo\u00e1veis e intelig\u00edveis quando os fatos s\u00e3o plenamente conhecidos. Embora a ci\u00eancia da cultura ainda seja rudimentar, os ind\u00edcios est\u00e3o ficando muito fortes de que mesmo o que parecem seus fen\u00f4menos mais espont\u00e2neos e sem motivo ser\u00e3o, contudo, mostrados como pertencentes ao \u00e2mbito de causa e efeito distintos, t\u00e3o certamente quanto os fatos da mec\u00e2nica. O que seria popularmente considerado mais indefinido e incontrol\u00e1vel do que os produtos da imagina\u00e7\u00e3o em mitos e f\u00e1bulas? No entanto, qualquer investiga\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica da mitologia, com base em uma ampla cole\u00e7\u00e3o de evid\u00eancias, mostrar\u00e1 claramente nessas cria\u00e7\u00f5es da fantasia tanto um desenvolvimento etapa por etapa, quanto a produ\u00e7\u00e3o de uniformidade de resultado a partir da uniformidade da causa. Aqui, como em outros lugares, a espontaneidade sem causa \u00e9 vista recuar cada vez mais para abrigo dentro dos obscuros dom\u00ednios da ignor\u00e2ncia; como o acaso, que ainda mant\u00e9m seu lugar entre os vulgares como uma causa real de eventos de outra forma inexplic\u00e1veis, enquanto para os homens instru\u00eddos h\u00e1 muito tempo significa conscientemente nada mais do que essa pr\u00f3pria ignor\u00e2ncia. \u00c9 apenas quando os homens falham em ver a linha de conex\u00e3o nos eventos que eles tendem a recorrer \u00e0s no\u00e7\u00f5es de impulsos arbitr\u00e1rios, caprichos sem causa, acaso, absurdo e irresponsabilidade indefinida. Se jogos infantis, costumes sem prop\u00f3sito, supersti\u00e7\u00f5es absurdas, s\u00e3o classificados como espont\u00e2neos porque ningu\u00e9m pode dizer exatamente como surgiram, essa afirma\u00e7\u00e3o pode nos lembrar o efeito semelhante que os h\u00e1bitos exc\u00eantricos da planta do arroz selvagem tiveram sobre a filosofia de uma tribo de \u00edndios americanos, que de outra forma tendia a ver na harmonia da natureza os efeitos de uma vontade pessoal controladora. O Grande Esp\u00edrito, diziam esses te\u00f3logos Sioux, fez todas as coisas, exceto o arroz selvagem; mas o arroz selvagem veio por acaso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO homem,\u201d disse Wilhelm von Humboldt, \u201csempre conecta ao que est\u00e1 \u00e0 m\u00e3o (<em>der Mensch kn\u00fcpft immer an Vorhandenes an<\/em>).\u201d A no\u00e7\u00e3o da continuidade da civiliza\u00e7\u00e3o contida nesse princ\u00edpio n\u00e3o \u00e9 um mero princ\u00edpio filos\u00f3fico est\u00e9ril, mas se torna imediatamente pr\u00e1tica ao considerarmos que aqueles que desejam entender suas pr\u00f3prias vidas devem conhecer as etapas pelas quais suas opini\u00f5es e h\u00e1bitos se tornaram o que s\u00e3o. Auguste Comte dificilmente exagerou a necessidade desse estudo do desenvolvimento quando declarou no in\u00edcio de sua Filosofia Positiva que \u201cnenhum conceito pode ser entendido sen\u00e3o por meio de sua hist\u00f3ria,\u201d e sua frase pode ser estendida para a cultura em geral. Esperar encarar a vida moderna e compreend\u00ea-la apenas pela inspe\u00e7\u00e3o direta \u00e9 uma filosofia cuja fragilidade pode ser facilmente testada. Imagine algu\u00e9m explicando o ditado trivial \u201cum passarinho me contou\u201d sem conhecer a antiga cren\u00e7a na linguagem dos p\u00e1ssaros e das feras, \u00e0 qual o Dr. Dasent, na introdu\u00e7\u00e3o dos Contos N\u00f3rdicos, atribui t\u00e3o razoavelmente sua origem.<\/p>\n\n\n\n<p>Tentativas de explicar pela luz da raz\u00e3o coisas que precisam da luz da hist\u00f3ria para mostrar seu significado podem ser exemplificadas nos Coment\u00e1rios de Blackstone. Para Blackstone, o direito do campon\u00eas de soltar seu animal para pastar na terra comum encontra sua origem e explica\u00e7\u00e3o no sistema feudal. \u201cPois, quando os senhores dos feudos concediam parcelas de terra a arrendat\u00e1rios, por servi\u00e7os feitos ou a serem feitos, esses arrendat\u00e1rios n\u00e3o podiam arar ou adubar a terra sem animais; esses animais n\u00e3o podiam ser sustentados sem pasto; e o pasto s\u00f3 podia ser obtido nas terras incultas do senhor e nos terrenos em pousio dos pr\u00f3prios arrendat\u00e1rios e de outros arrendat\u00e1rios. A lei, portanto, anexou esse direito comum, como inseparavelmente ligado \u00e0 concess\u00e3o das terras; e essa foi a origem do \u2018common appendant\u2019,\u201d etc.<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Agora, embora n\u00e3o haja nada de irracional nessa explica\u00e7\u00e3o, ela n\u00e3o concorda de forma alguma com a lei fundi\u00e1ria teut\u00f4nica que prevaleceu na Inglaterra muito antes da Conquista Normanda, e cujos vest\u00edgios nunca desapareceram completamente. Na antiga comunidade rural, mesmo a terra ar\u00e1vel, situada nos grandes campos comuns que ainda podem ser identificados em nosso pa\u00eds, ainda n\u00e3o havia passado para propriedade separada, enquanto o pasto nas terras em pousio e nos restos das colheitas e nas terras incultas pertencia em comum aos moradores da aldeia. Desde aqueles dias, a mudan\u00e7a da propriedade comunal para a individual transformou em grande parte esse sistema do velho mundo, mas o direito que o campon\u00eas desfruta de pastar seu gado na terra comum ainda permanece, n\u00e3o como uma concess\u00e3o aos arrendat\u00e1rios feudais, mas como posse dos moradores comuns antes mesmo de o senhor reivindicar a propriedade das terras incultas. \u00c9 sempre perigoso desvincular um costume de seu v\u00ednculo com eventos passados, tratando-o como um fato isolado a ser simplesmente resolvido por alguma explica\u00e7\u00e3o plaus\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>No desenvolvimento da grande tarefa da etnografia racional, a investiga\u00e7\u00e3o das causas que produziram os fen\u00f4menos da cultura e das leis \u00e0s quais eles est\u00e3o subordinados, \u00e9 desej\u00e1vel elaborar, da forma mais sistem\u00e1tica poss\u00edvel, um esquema da evolu\u00e7\u00e3o dessa cultura em suas diversas linhas. No cap\u00edtulo seguinte, sobre o Desenvolvimento da Cultura, tenta-se esbo\u00e7ar um curso te\u00f3rico da civiliza\u00e7\u00e3o entre os seres humanos, tal como parece, em geral, mais compat\u00edvel com as evid\u00eancias. Comparando os v\u00e1rios est\u00e1gios da civiliza\u00e7\u00e3o entre as ra\u00e7as conhecidas pela hist\u00f3ria, com o aux\u00edlio de infer\u00eancias arqueol\u00f3gicas a partir dos vest\u00edgios de tribos pr\u00e9-hist\u00f3ricas, parece poss\u00edvel julgar, de maneira aproximada, uma condi\u00e7\u00e3o geral inicial do homem, que do nosso ponto de vista deve ser considerada uma condi\u00e7\u00e3o primitiva, qualquer que tenha sido, na realidade, um estado ainda mais antigo que a tenha precedido. Essa condi\u00e7\u00e3o primitiva hipot\u00e9tica corresponde, em grande medida, \u00e0 das tribos selvagens modernas que, apesar de sua diferen\u00e7a e dist\u00e2ncia, t\u00eam em comum certos elementos de civiliza\u00e7\u00e3o, que parecem ser vest\u00edgios de um estado antigo da ra\u00e7a humana como um todo. Se essa hip\u00f3tese for verdadeira, ent\u00e3o, n\u00e3o obstante a cont\u00ednua interfer\u00eancia da degenera\u00e7\u00e3o, a principal tend\u00eancia da cultura desde os tempos primordiais at\u00e9 os modernos tem sido da selvageria em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre o problema dessa rela\u00e7\u00e3o entre a vida selvagem e a civilizada, quase todos os milhares de fatos discutidos nos cap\u00edtulos seguintes t\u00eam rela\u00e7\u00e3o direta. A Sobreviv\u00eancia na Cultura, colocando ao longo do avan\u00e7o da civiliza\u00e7\u00e3o marcos repletos de significado para aqueles que podem decifrar seus sinais, ainda hoje levanta entre n\u00f3s monumentos primordiais do pensamento e da vida b\u00e1rbaros. Sua investiga\u00e7\u00e3o refor\u00e7a fortemente a ideia de que o europeu pode encontrar entre os esquim\u00f3s da Groenl\u00e2ndia ou os maoris muitos tra\u00e7os \u00fateis para reconstruir o retrato de seus pr\u00f3prios ancestrais primitivos.<\/p>\n\n\n\n<p>Segue-se o problema da Origem da Linguagem. Embora muitas partes desse problema ainda permane\u00e7am obscuras, suas posi\u00e7\u00f5es mais claras est\u00e3o abertas \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o sobre se a fala teve origem entre os homens em estado selvagem, e o resultado da pesquisa \u00e9 que, de acordo com todas as evid\u00eancias conhecidas, isso pode ter acontecido. A partir do exame da Arte de Contar, surge uma consequ\u00eancia muito mais definida. Pode-se afirmar com confian\u00e7a que n\u00e3o apenas essa importante arte \u00e9 encontrada em estado rudimentar entre tribos selvagens, mas que evid\u00eancias satisfat\u00f3rias provam que a numera\u00e7\u00e3o foi desenvolvida por inven\u00e7\u00e3o racional, desde esse est\u00e1gio baixo at\u00e9 o ponto em que n\u00f3s mesmos a possu\u00edmos.<\/p>\n\n\n\n<p>O exame da Mitologia contido no primeiro volume \u00e9, em sua maior parte, realizado a partir de um ponto de vista especial, sobre evid\u00eancias coletadas para um prop\u00f3sito espec\u00edfico: tra\u00e7ar a rela\u00e7\u00e3o entre os mitos das tribos selvagens e seus equivalentes entre na\u00e7\u00f5es mais civilizadas. O resultado dessa investiga\u00e7\u00e3o comprova amplamente que o mais antigo criador de mitos surgiu e floresceu entre hordas selvagens, dando in\u00edcio a uma arte que seus sucessores mais cultos continuariam, at\u00e9 que seus resultados se fossilizassem em supersti\u00e7\u00e3o, fossem confundidos com hist\u00f3ria, moldados e vestidos em poesia, ou descartados como tolice absurda.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez em nenhum outro campo sejam mais necess\u00e1rias vis\u00f5es amplas do desenvolvimento hist\u00f3rico do que no estudo da religi\u00e3o. Apesar de tudo o que j\u00e1 foi escrito para familiarizar o mundo com as teologias inferiores, as ideias populares sobre o lugar delas na hist\u00f3ria e sua rela\u00e7\u00e3o com as cren\u00e7as das na\u00e7\u00f5es superiores ainda s\u00e3o do tipo medieval. \u00c9 impressionante contrastar alguns jornais mission\u00e1rios com os Ensaios de Max M\u00fcller, e notar o \u00f3dio e rid\u00edculo desprezo que o zelo estreito e hostil despeja sobre o bramanismo, o budismo, o zoroastrismo, em compara\u00e7\u00e3o com a simpatia cat\u00f3lica com que o conhecimento profundo e amplo pode contemplar aquelas fases antigas e nobres da consci\u00eancia religiosa humana; nem, pelo fato de que as religi\u00f5es das tribos selvagens podem ser rudimentares e primitivas em compara\u00e7\u00e3o com os grandes sistemas asi\u00e1ticos, elas ficam abaixo do interesse e at\u00e9 do respeito. A quest\u00e3o realmente reside entre compreend\u00ea-las ou mal compreend\u00ea-las. Poucos, entre aqueles que dedicarem a mente a dominar os princ\u00edpios gerais da religi\u00e3o selvagem, voltar\u00e3o a consider\u00e1-la rid\u00edcula ou seu conhecimento sup\u00e9rfluo para o restante da humanidade. Longe de suas cren\u00e7as e pr\u00e1ticas serem um amontoado de tolices diversas, elas s\u00e3o consistentes e l\u00f3gicas em um grau t\u00e3o elevado que, assim que mesmo grosseiramente classificadas, come\u00e7am a revelar os princ\u00edpios de sua forma\u00e7\u00e3o e desenvolvimento; e esses princ\u00edpios mostram-se essencialmente racionais, ainda que operem em uma condi\u00e7\u00e3o mental de ignor\u00e2ncia intensa e inveterada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 com a sensa\u00e7\u00e3o de estar realizando uma investiga\u00e7\u00e3o que se relaciona muito diretamente com a teologia atual que me propus a examinar sistematicamente, entre as ra\u00e7as inferiores, o desenvolvimento do animismo; isto \u00e9, a doutrina das almas e outros seres espirituais em geral. Mais da metade desta obra \u00e9 ocupada por uma vasta massa de evid\u00eancias de todas as regi\u00f5es do mundo, mostrando a natureza e o significado desse grande elemento da Filosofia da Religi\u00e3o, e tra\u00e7ando sua transmiss\u00e3o, expans\u00e3o, restri\u00e7\u00e3o e modifica\u00e7\u00e3o ao longo da hist\u00f3ria at\u00e9 o nosso pensamento moderno. Tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o de pouca import\u00e2ncia pr\u00e1tica as quest\u00f5es que surgem numa tentativa similar de tra\u00e7ar o desenvolvimento de certos Ritos e Cerim\u00f4nias proeminentes \u2013 costumes t\u00e3o ricos em ensinamentos sobre os poderes mais \u00edntimos da religi\u00e3o, dos quais s\u00e3o express\u00e3o externa e resultado pr\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessas investiga\u00e7\u00f5es, por\u00e9m, feitas mais do ponto de vista etnogr\u00e1fico do que teol\u00f3gico, pareceu pouco necess\u00e1rio entrar em argumentos controversos diretos, os quais me empenhei em evitar tanto quanto poss\u00edvel. A conex\u00e3o que atravessa a religi\u00e3o, desde suas formas mais rudimentares at\u00e9 o est\u00e1gio de um cristianismo esclarecido, pode ser convenientemente tratada com pouca necessidade de recorrer \u00e0 teologia dogm\u00e1tica. Os ritos de sacrif\u00edcio e purifica\u00e7\u00e3o podem ser estudados em suas fases de desenvolvimento sem entrar em quest\u00f5es sobre sua autoridade e valor, assim como o exame das fases sucessivas da cren\u00e7a mundial na vida futura n\u00e3o exige discuss\u00e3o dos argumentos apresentados a favor ou contra a doutrina em si. Os resultados etnogr\u00e1ficos podem ent\u00e3o ser deixados como materiais para te\u00f3logos profissionais, e talvez n\u00e3o demore at\u00e9 que evid\u00eancias t\u00e3o carregadas de significado ocupem seu lugar leg\u00edtimo.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando \u00e0 analogia com a hist\u00f3ria natural, pode chegar o momento em que ser\u00e1 considerado t\u00e3o irrazo\u00e1vel para um estudioso cient\u00edfico da teologia n\u00e3o possuir conhecimento competente dos princ\u00edpios das religi\u00f5es das ra\u00e7as inferiores quanto para um fisiologista desprezar, com o desprezo dos s\u00e9culos passados, evid\u00eancias derivadas das formas inferiores de vida, considerando a estrutura de meras criaturas invertebradas como assunto indigno de seu estudo filos\u00f3fico.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o apenas como uma quest\u00e3o de pesquisa curiosa, mas como um importante guia pr\u00e1tico para a compreens\u00e3o do presente e a forma\u00e7\u00e3o do futuro, a investiga\u00e7\u00e3o sobre a origem e o desenvolvimento inicial da civiliza\u00e7\u00e3o deve ser conduzida com zelo. Toda via poss\u00edvel de conhecimento deve ser explorada, toda porta deve ser testada para ver se est\u00e1 aberta. Nenhum tipo de evid\u00eancia precisa ser deixado de lado por causa de sua dist\u00e2ncia ou complexidade, por sua min\u00facia ou trivialidade. A tend\u00eancia da investiga\u00e7\u00e3o moderna \u00e9 cada vez mais a conclus\u00e3o de que, se a lei existe em algum lugar, ela est\u00e1 em toda parte. Desistir do que uma coleta e estudo conscienciosos de fatos podem levar, e declarar qualquer problema insol\u00favel por ser dif\u00edcil e distante, \u00e9 claramente estar do lado errado na ci\u00eancia; e aquele que escolhe uma tarefa sem esperan\u00e7a pode se empenhar em descobrir os limites da descoberta.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembra-se de Comte come\u00e7ando seu relato sobre astronomia com uma observa\u00e7\u00e3o sobre a limita\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria do nosso conhecimento das estrelas: concebemos, ele nos diz, a possibilidade de determinar sua forma, dist\u00e2ncia, tamanho e movimento, enquanto nunca ser\u00edamos capazes, por qualquer m\u00e9todo, de estudar sua composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica, sua estrutura mineral\u00f3gica, etc. Se o fil\u00f3sofo tivesse vivido para ver a aplica\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise espectral a esse mesmo problema, sua proclama\u00e7\u00e3o da doutrina desanimadora da ignor\u00e2ncia necess\u00e1ria talvez tivesse sido retratada em favor de uma vis\u00e3o mais esperan\u00e7osa. E parece que a filosofia da vida humana remota \u00e9 um pouco como o estudo da natureza dos corpos celestes. Os processos a serem compreendidos nos est\u00e1gios iniciais de nossa evolu\u00e7\u00e3o mental est\u00e3o distantes de n\u00f3s no tempo assim como as estrelas est\u00e3o distantes de n\u00f3s no espa\u00e7o, mas as leis do universo n\u00e3o se limitam \u00e0 observa\u00e7\u00e3o direta de nossos sentidos. H\u00e1 vasto material a ser utilizado em nossa investiga\u00e7\u00e3o; muitos pesquisadores est\u00e3o agora ocupados em dar forma a esse material, embora pouco tenha sido feito em propor\u00e7\u00e3o ao que ainda resta fazer; e j\u00e1 parece n\u00e3o ser exagero dizer que os contornos vagos de uma filosofia da hist\u00f3ria primitiva come\u00e7am a surgir em nossa vis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><a>II. O desenvolvimento da cultura<\/a><\/h1>\n\n\n\n<p>Ao assumir o problema do desenvolvimento da cultura como um ramo da pesquisa etnol\u00f3gica, um primeiro procedimento \u00e9 obter um meio de mensura\u00e7\u00e3o. Buscando algo como uma linha definitiva ao longo da qual possamos calcular o progresso e o retrocesso na civiliza\u00e7\u00e3o, aparentemente podemos encontr\u00e1-la na classifica\u00e7\u00e3o de tribos e na\u00e7\u00f5es reais, passadas e presentes. Com a civiliza\u00e7\u00e3o realmente existente entre os homens em diferentes graus, somos capazes de estim\u00e1-la e compar\u00e1-la por exemplos concretos. O mundo educado da Europa e Am\u00e9rica praticamente estabelece um padr\u00e3o simplesmente colocando suas pr\u00f3prias na\u00e7\u00f5es em uma extremidade da s\u00e9rie social e as tribos selvagens na outra, organizando o restante da humanidade entre esses limites conforme correspondam mais de perto \u00e0 vida selvagem ou \u00e0 vida culta. Os principais crit\u00e9rios de classifica\u00e7\u00e3o s\u00e3o a aus\u00eancia ou presen\u00e7a, desenvolvimento alto ou baixo, das artes industriais, especialmente o trabalho com metal, fabrica\u00e7\u00e3o de instrumentos e vasos, agricultura, arquitetura, etc., a extens\u00e3o do conhecimento cient\u00edfico, a defini\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios morais, a condi\u00e7\u00e3o da cren\u00e7a e cerim\u00f4nia religiosa, o grau de organiza\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica, e assim por diante. Assim, com base definitiva em fatos comparados, os etn\u00f3grafos s\u00e3o capazes de estabelecer pelo menos uma escala aproximada de civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Poucos contestariam que as seguintes ra\u00e7as est\u00e3o corretamente ordenadas na sequ\u00eancia cultural: australiana, taitiana, asteca, chinesa, italiana. Ao tratar o desenvolvimento da civiliza\u00e7\u00e3o nessa base etnogr\u00e1fica simples, muitas dificuldades podem ser evitadas, as quais t\u00eam embara\u00e7ado sua discuss\u00e3o. Isso pode ser visto com um olhar \u00e0 rela\u00e7\u00e3o que os princ\u00edpios te\u00f3ricos da civiliza\u00e7\u00e3o mant\u00eam com as transi\u00e7\u00f5es que se observam, como fato, entre os extremos da vida selvagem e culta.<\/p>\n\n\n\n<p>De um ponto de vista ideal, a civiliza\u00e7\u00e3o pode ser vista como a melhoria geral da humanidade pela organiza\u00e7\u00e3o superior do indiv\u00edduo e da sociedade, com o fim de promover ao mesmo tempo a bondade, o poder e a felicidade do homem. Essa civiliza\u00e7\u00e3o te\u00f3rica corresponde em grande medida \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o real, como tra\u00e7ada pela compara\u00e7\u00e3o entre selvageria e barb\u00e1rie, e barb\u00e1rie e vida moderna educada. Na medida em que levamos em conta apenas a cultura material e intelectual, isso \u00e9 especialmente verdadeiro. O conhecimento das leis f\u00edsicas do mundo, e o poder correspondente de adaptar a natureza aos pr\u00f3prios fins do homem, est\u00e3o, no geral, no n\u00edvel mais baixo entre os selvagens, m\u00e9dio entre os b\u00e1rbaros e mais alto entre as na\u00e7\u00f5es modernas educadas. Assim, a transi\u00e7\u00e3o do estado selvagem para o nosso seria, na pr\u00e1tica, esse pr\u00f3prio progresso da arte e do conhecimento, que \u00e9 um dos principais elementos no desenvolvimento da cultura.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas mesmo aqueles estudiosos que defendem com mais for\u00e7a que o curso geral da civiliza\u00e7\u00e3o, medido na escala das ra\u00e7as desde os selvagens at\u00e9 n\u00f3s mesmos, \u00e9 um progresso em benef\u00edcio da humanidade, devem admitir muitas e variadas exce\u00e7\u00f5es. A cultura industrial e intelectual de modo algum avan\u00e7a uniformemente em todos os seus ramos, e, de fato, a excel\u00eancia em v\u00e1rios de seus detalhes \u00e9 frequentemente alcan\u00e7ada em condi\u00e7\u00f5es que retardam a cultura como um todo. \u00c9 verdade que essas exce\u00e7\u00f5es raramente suplantam a regra geral; e o ingl\u00eas, admitindo que n\u00e3o sobe em \u00e1rvores como o australiano selvagem, nem ca\u00e7a como o selvagem da floresta brasileira, nem compete com o antigo etrusco e o moderno chin\u00eas na delicadeza do trabalho em ourivesaria e entalhe em marfim, nem alcan\u00e7a o n\u00edvel cl\u00e1ssico grego de orat\u00f3ria e escultura, ainda assim pode reivindicar para si uma condi\u00e7\u00e3o geral acima de qualquer uma dessas ra\u00e7as. Mas, de fato, devem ser levados em conta desenvolvimentos da ci\u00eancia e da arte que tendem diretamente contra a cultura. Ter aprendido a aplicar veneno secretamente e com efic\u00e1cia, ter elevado uma literatura corrupta a uma perfei\u00e7\u00e3o pestilenta, ter organizado um esquema bem-sucedido para impedir a livre investiga\u00e7\u00e3o e proibir a livre express\u00e3o, s\u00e3o obras de conhecimento e habilidade cujo progresso em dire\u00e7\u00e3o ao seu objetivo dificilmente contribuiu para o bem geral. Assim, mesmo ao comparar a cultura mental e art\u00edstica entre v\u00e1rios povos, o equil\u00edbrio entre o bem e o mal n\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil de estabelecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Se n\u00e3o apenas o conhecimento e a arte, mas ao mesmo tempo a excel\u00eancia moral e pol\u00edtica forem levados em considera\u00e7\u00e3o, torna-se ainda mais dif\u00edcil estabelecer numa escala ideal o avan\u00e7o ou decl\u00ednio de est\u00e1gio em est\u00e1gio da cultura. De fato, uma medida combinada da condi\u00e7\u00e3o humana, intelectual e moral, \u00e9 um instrumento que nenhum estudioso at\u00e9 agora aprendeu a manejar adequadamente. Mesmo admitindo que a vida intelectual, moral e pol\u00edtica possa, numa vis\u00e3o ampla, ser vista como progresso conjunto, \u00e9 \u00f3bvio que elas est\u00e3o longe de avan\u00e7ar em passos iguais. Pode-se considerar como regra do dever humano no mundo que ele deva esfor\u00e7ar-se para conhecer o melhor que puder descobrir, e para agir da melhor forma que souber. Mas a separa\u00e7\u00e3o desses dois grandes princ\u00edpios, essa cis\u00e3o entre intelig\u00eancia e virtude que explica grande parte das a\u00e7\u00f5es erradas da humanidade, \u00e9 continuamente observada nos grandes movimentos da civiliza\u00e7\u00e3o. Como um exemplo not\u00f3rio do que toda a hist\u00f3ria prova, se estudarmos as primeiras eras do Cristianismo, poderemos ver homens com mentes permeadas pela nova religi\u00e3o do dever, da santidade e do amor, mas ao mesmo tempo efetivamente regredindo na vida intelectual, assim abra\u00e7ando vigorosamente uma metade da civiliza\u00e7\u00e3o e desprezando a outra.<\/p>\n\n\n\n<p>Seja nas esferas mais elevadas ou nas mais baixas da vida humana, pode-se ver que o avan\u00e7o da cultura raramente resulta de imediato em bem puro. Coragem, honestidade, generosidade s\u00e3o virtudes que podem sofrer, ao menos por um tempo, com o desenvolvimento do senso de valor da vida e da propriedade. O selvagem que adota algo da civiliza\u00e7\u00e3o estrangeira muitas vezes perde suas virtudes mais rudes sem ganhar um equivalente. O invasor branco ou colonizador, embora represente, no geral, um padr\u00e3o moral mais elevado que o selvagem que melhora ou destr\u00f3i, frequentemente representa muito mal seu padr\u00e3o e, no melhor dos casos, dificilmente pode reivindicar substituir uma vida mais forte, nobre e pura em todos os aspectos daquela que ele suprime. O movimento para frente desde a barb\u00e1rie abandonou mais de uma qualidade do car\u00e1ter b\u00e1rbaro que os homens modernos cultos olham com pesar e at\u00e9 tentar\u00e3o recuperar por meio de tentativas f\u00fateis de deter o curso da hist\u00f3ria e restaurar o passado em meio ao presente.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim \u00e9 com as institui\u00e7\u00f5es sociais. A escravid\u00e3o reconhecida por ra\u00e7as selvagens e b\u00e1rbaras \u00e9 prefer\u00edvel em tipo \u00e0quela que existiu por s\u00e9culos nas col\u00f4nias europeias tardias. A rela\u00e7\u00e3o entre os sexos em muitas tribos selvagens \u00e9 mais saud\u00e1vel do que entre as classes mais ricas do mundo mu\u00e7ulmano. Como autoridade suprema de governo, os conselhos selvagens de chefes e anci\u00e3os se comparam favoravelmente ao despotismo desenfreado sob o qual tantas ra\u00e7as cultas t\u00eam sofrido. Os \u00edndios Creek, quando questionados sobre sua religi\u00e3o, responderam que onde n\u00e3o houvesse acordo, era melhor \u201cdeixar cada homem remar sua canoa do seu pr\u00f3prio jeito\u201d; e depois de longas eras de conflito teol\u00f3gico e persegui\u00e7\u00e3o, o mundo moderno parece estar come\u00e7ando a achar que esses selvagens n\u00e3o estavam t\u00e3o errados assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre relatos da vida selvagem, n\u00e3o \u00e9 incomum encontrar detalhes de excel\u00eancia moral e social admir\u00e1vel. Para tomar um exemplo destacado, o tenente Bruijn Kops e o senhor Wallace descreveram, entre os rudes papuas do Arquip\u00e9lago Oriental, uma habitual veracidade, retid\u00e3o e gentileza que seria dif\u00edcil igualar na vida moral geral da P\u00e9rsia ou da \u00cdndia, para n\u00e3o falar de muitos distritos europeus civilizados.<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a> Essas tribos podem ser consideradas os \u201cet\u00edopes irrepreens\u00edveis\u201d do mundo moderno, e delas pode ser aprendida uma importante li\u00e7\u00e3o. Os etn\u00f3grafos que buscam nos selvagens modernos tipos da antiga ra\u00e7a humana em geral s\u00e3o obrigados, por exemplos como esses, a considerar que a vida rude do homem primitivo, sob condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis, tenha sido, em certa medida, uma vida boa e feliz. Por outro lado, as imagens pintadas por alguns viajantes da selvageria como uma esp\u00e9cie de estado paradis\u00edaco podem ter sido tiradas de forma muito exclusiva do lado mais iluminado. Observa-se, a respeito desses mesmos papuas, que os europeus cujo contato com eles foi hostil ficam t\u00e3o impressionados com a ast\u00facia selvagem de seus ataques, quase como se fossem animais ferozes, que dificilmente acreditam que eles tenham sentimentos em comum com os homens civilizados. Nossos exploradores polares podem muito bem falar em termos gentis sobre a ind\u00fastria, a honestidade, a polidez alegre e atenciosa dos esquim\u00f3s; mas \u00e9 preciso lembrar que essas pessoas rudes est\u00e3o no seu melhor comportamento com os estrangeiros, e que seu car\u00e1ter tende a ser sujo e brutal onde n\u00e3o t\u00eam nada a esperar ou temer. Os caribes s\u00e3o descritos como uma ra\u00e7a alegre, modesta e cort\u00eas, e t\u00e3o honestos entre si que, se algo desaparecesse de uma casa, diziam naturalmente: \u201cAqui esteve um crist\u00e3o.\u201d Contudo, a ferocidade maligna com que essas pessoas estim\u00e1veis torturavam seus prisioneiros de guerra com faca, ferro em brasa e pimenta vermelha, para depois cozinh\u00e1-los e com\u00ea-los em uma orgia solene, deu raz\u00e3o justa para que o nome Carib (Canibal) se tornasse o nome gen\u00e9rico de comedor de homens nas l\u00ednguas europeias.<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a> Assim, quando lemos descri\u00e7\u00f5es da hospitalidade, da gentileza, da coragem e do profundo sentimento religioso dos \u00edndios norte-americanos, admitimos suas reivindica\u00e7\u00f5es \u00e0 nossa sincera admira\u00e7\u00e3o; mas n\u00e3o devemos esquecer que eles eram hospitaleiros literalmente at\u00e9 demais, que sua gentileza podia se transformar num lampejo de raiva em frenesi, que sua coragem estava manchada por uma maldade cruel e trai\u00e7oeira, e que sua religi\u00e3o se expressava em cren\u00e7as absurdas e cerim\u00f4nias in\u00fateis. O selvagem ideal do s\u00e9culo XVIII pode ser usado como uma repreens\u00e3o viva ao vicioso e fr\u00edvolo londrino; mas, na realidade s\u00f3bria, um londrino que tentasse levar a vida atroz que o selvagem real pode levar impunemente e at\u00e9 com respeito, seria um criminoso que s\u00f3 poderia seguir seus modelos selvagens durante os curtos intervalos fora da pris\u00e3o. Os padr\u00f5es morais dos selvagens s\u00e3o reais, mas muito mais frouxos e fr\u00e1geis do que os nossos. Creio que podemos aplicar a compara\u00e7\u00e3o frequentemente repetida dos selvagens a crian\u00e7as tanto para sua condi\u00e7\u00e3o moral quanto para a intelectual. A melhor vida social selvagem parece estar em equil\u00edbrio inst\u00e1vel, sujeita a ser facilmente perturbada por um toque de sofrimento, tenta\u00e7\u00e3o ou viol\u00eancia, e ent\u00e3o torna-se a vida selvagem pior, que conhecemos por tantos exemplos sombrios e horr\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>No geral, pode-se admitir que algumas tribos rudes levam uma vida invej\u00e1vel para algumas ra\u00e7as b\u00e1rbaras, e at\u00e9 mesmo para os exclu\u00eddos de na\u00e7\u00f5es mais elevadas. Mas que qualquer tribo selvagem conhecida n\u00e3o melhoraria com uma civiliza\u00e7\u00e3o judiciosa \u00e9 uma proposi\u00e7\u00e3o que nenhum moralista ousaria fazer; enquanto o conjunto das evid\u00eancias justifica amplamente a vis\u00e3o de que, no geral, o homem civilizado n\u00e3o \u00e9 apenas mais s\u00e1bio e capaz que o selvagem, mas tamb\u00e9m melhor e mais feliz, e que o b\u00e1rbaro est\u00e1 no meio-termo.<\/p>\n\n\n\n<p>Poderia parecer vi\u00e1vel comparar a m\u00e9dia total da civiliza\u00e7\u00e3o de dois povos, ou do mesmo povo em \u00e9pocas diferentes, calculando item por item uma esp\u00e9cie de somat\u00f3rio e fazendo um balan\u00e7o entre eles, da mesma forma que um avaliador compara o valor de dois estoques de mercadorias, por mais que possam diferir em quantidade e qualidade. Mas as poucas observa\u00e7\u00f5es feitas aqui ter\u00e3o mostrado qu\u00e3o imprecisa deve ser a elabora\u00e7\u00e3o desses c\u00e1lculos grosseiros e pr\u00e1ticos sobre a cultura. De fato, grande parte do esfor\u00e7o empregado na investiga\u00e7\u00e3o do progresso e decl\u00ednio da civiliza\u00e7\u00e3o foi mal aproveitada, em tentativas prematuras de tratar como um todo aquilo que ainda s\u00f3 \u00e9 suscet\u00edvel de estudo dividido. O presente argumento relativamente restrito sobre o desenvolvimento da cultura, ao menos, evita essa maior perplexidade. Ele toma em considera\u00e7\u00e3o principalmente o conhecimento, a arte e o costume, e de fato apenas de forma muito parcial dentro desse campo, deixando praticamente intocada a vasta gama de considera\u00e7\u00f5es f\u00edsicas, pol\u00edticas, sociais e \u00e9ticas. Seu padr\u00e3o para medir progresso e decl\u00ednio n\u00e3o \u00e9 o do bem e do mal ideais, mas o do movimento ao longo de uma linha medida, de grau a grau de selvageria, barb\u00e1rie e civiliza\u00e7\u00e3o reais. A tese que me arrisco a sustentar, dentro de limites, \u00e9 simplesmente esta: que o estado selvagem representa, em certa medida, uma condi\u00e7\u00e3o inicial da humanidade, da qual a cultura superior foi gradualmente desenvolvida ou evolu\u00edda, por processos ainda em funcionamento regulares como antigamente, cujo resultado mostra que, no geral, o progresso prevaleceu muito mais que o retrocesso.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre essa proposi\u00e7\u00e3o, a principal tend\u00eancia da sociedade humana durante seu longo per\u00edodo de exist\u00eancia tem sido passar de um estado selvagem para um estado civilizado. Agora, todos devem admitir que grande parte dessa afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 n\u00e3o apenas verdadeira, mas um tru\u00edsmo. Referida \u00e0 hist\u00f3ria direta, uma grande parte dela prova pertencer n\u00e3o ao dom\u00ednio da especula\u00e7\u00e3o, mas ao do conhecimento positivo. \u00c9 mera quest\u00e3o de cr\u00f4nica que a civiliza\u00e7\u00e3o moderna \u00e9 um desenvolvimento da civiliza\u00e7\u00e3o medieval, que, por sua vez, \u00e9 um desenvolvimento da civiliza\u00e7\u00e3o do tipo representado na Gr\u00e9cia, Ass\u00edria ou Egito. Assim, a cultura superior sendo claramente rastreada at\u00e9 o que pode ser chamado de cultura intermedi\u00e1ria, a quest\u00e3o que resta \u00e9 se essa cultura intermedi\u00e1ria pode ser rastreada at\u00e9 a cultura inferior, isto \u00e9, at\u00e9 a selvageria. Afirmar isso \u00e9 simplesmente declarar que o mesmo tipo de desenvolvimento cultural que ocorreu dentro do nosso alcance de conhecimento tamb\u00e9m ocorreu fora dele, seu curso procedendo independentemente de termos ou n\u00e3o observadores presentes. Se algu\u00e9m sustenta que o pensamento e a a\u00e7\u00e3o humanos foram desenvolvidos nos tempos primordiais segundo leis essencialmente diferentes das do mundo moderno, cabe a ele provar com evid\u00eancias v\u00e1lidas essa condi\u00e7\u00e3o an\u00f4mala, caso contr\u00e1rio, a doutrina do princ\u00edpio permanente se manter\u00e1 v\u00e1lida, assim como na astronomia ou geologia. Que a tend\u00eancia da cultura tenha sido semelhante durante toda a exist\u00eancia da sociedade humana, e que possamos julgar com justi\u00e7a pelo seu curso hist\u00f3rico conhecido qual pode ter sido seu curso pr\u00e9-hist\u00f3rico, \u00e9 uma teoria claramente merecedora de preced\u00eancia como princ\u00edpio fundamental da pesquisa etnogr\u00e1fica.<\/p>\n\n\n\n<p>Gibbon, em sua obra <em>Imp\u00e9rio Romano<\/em>, expressa em poucas e vigorosas frases sua teoria sobre o curso da cultura, como algo que vai da selvageria para cima. Julgados \u00e0 luz do conhecimento de quase um s\u00e9culo posterior, seus coment\u00e1rios, de fato, n\u00e3o podem passar sem questionamento. Especialmente, ele parece confiar com excessiva seguran\u00e7a em tradi\u00e7\u00f5es de rudeza arcaica, exagerar a precariedade da vida selvagem, subestimar a propens\u00e3o \u00e0 decad\u00eancia das artes mais rudimentares e, em sua vis\u00e3o sobre o efeito da civiliza\u00e7\u00e3o elevada sobre a inferior, dar aten\u00e7\u00e3o excessiva apenas ao lado positivo. Mas, no geral, o julgamento do grande historiador parece corresponder substancialmente ao do estudante moderno e imparcial da escola progressista, de modo que transcrevo com prazer o trecho em sua \u00edntegra, tomando-o como texto representativo da teoria do desenvolvimento da cultura: \u2013<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAs descobertas dos navegadores antigos e modernos, bem como a hist\u00f3ria dom\u00e9stica, ou tradi\u00e7\u00e3o, das na\u00e7\u00f5es mais esclarecidas, representam o selvagem humano nu tanto de mente quanto de corpo, e desprovido de leis, de artes, de ideias e quase de linguagem. A partir dessa condi\u00e7\u00e3o abjeta, talvez o estado primitivo e universal do homem, ele gradualmente se elevou at\u00e9 dominar os animais, fertilizar a terra, atravessar os oceanos e medir os c\u00e9us. Seu progresso no aprimoramento e exerc\u00edcio de suas faculdades mentais e corporais foi irregular e variado; infinitamente lento no in\u00edcio, e aumentando pouco a pouco com velocidade redobrada: s\u00e9culos de ascens\u00e3o laboriosa foram seguidos por um momento de queda r\u00e1pida; e os diversos climas do globo sentiram as vicissitudes de luz e trevas. No entanto, a experi\u00eancia de quatro mil anos deveria ampliar nossas esperan\u00e7as e diminuir nossos temores: n\u00e3o podemos determinar a que altura a esp\u00e9cie humana pode aspirar em sua marcha rumo \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o; mas pode-se presumir com seguran\u00e7a que nenhum povo, a menos que a face da natureza mude, recair\u00e1 em sua barb\u00e1rie original.<\/p>\n\n\n\n<p>Os aprimoramentos da sociedade podem ser vistos sob um triplo aspecto. 1. O poeta ou fil\u00f3sofo ilustra sua \u00e9poca e sua p\u00e1tria com os esfor\u00e7os de uma mente singular; mas esses poderes superiores de raz\u00e3o ou imagina\u00e7\u00e3o s\u00e3o produ\u00e7\u00f5es raras e espont\u00e2neas; e o g\u00eanio de Homero, C\u00edcero ou Newton despertaria menos admira\u00e7\u00e3o se pudesse ser criado pela vontade de um pr\u00edncipe ou pelas li\u00e7\u00f5es de um preceptor. 2. Os benef\u00edcios da lei e da pol\u00edtica, do com\u00e9rcio e das manufaturas, das artes e das ci\u00eancias, s\u00e3o mais s\u00f3lidos e permanentes; e muitos indiv\u00edduos podem ser qualificados, por meio da educa\u00e7\u00e3o e da disciplina, para promover, em suas respectivas fun\u00e7\u00f5es, o interesse da comunidade. Mas essa ordem geral \u00e9 fruto de habilidade e trabalho; e a engrenagem complexa pode deteriorar-se com o tempo ou ser danificada pela viol\u00eancia. 3. Felizmente para a humanidade, as artes mais \u00fateis ou, ao menos, mais necess\u00e1rias, podem ser realizadas sem talentos superiores ou subordina\u00e7\u00e3o nacional; sem o poder de um s\u00f3, ou a uni\u00e3o de muitos. Cada aldeia, cada fam\u00edlia, cada indiv\u00edduo, deve sempre possuir tanto a capacidade quanto a inclina\u00e7\u00e3o para perpetuar o uso do fogo e dos metais; a reprodu\u00e7\u00e3o e o manejo dos animais dom\u00e9sticos; os m\u00e9todos de ca\u00e7a e pesca; os rudimentos da navega\u00e7\u00e3o; o cultivo rudimentar do trigo ou de outro gr\u00e3o nutritivo; e a pr\u00e1tica simples dos of\u00edcios mec\u00e2nicos. O g\u00eanio particular e a ind\u00fastria p\u00fablica podem ser extirpados; mas essas plantas resistentes sobrevivem \u00e0 tempestade e lan\u00e7am ra\u00edzes eternas mesmo no solo mais desfavor\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dias espl\u00eandidos de Augusto e Trajano foram eclipsados por uma nuvem de ignor\u00e2ncia; e os b\u00e1rbaros subverteram as leis e os pal\u00e1cios de Roma. Mas a foice \u2013 inven\u00e7\u00e3o ou emblema de Saturno \u2013 continuou anualmente a ceifar as colheitas da It\u00e1lia; e os banquetes humanos dos Lestrig\u00f5es jamais foram renovados na costa da Camp\u00e2nia. Desde a primeira descoberta das artes, a guerra, o com\u00e9rcio e o zelo religioso difundiram, entre os selvagens do Velho e do Novo Mundo, esses dons inestim\u00e1veis: eles foram sucessivamente propagados; jamais poder\u00e3o ser perdidos. Podemos, portanto, aquiescer \u00e0 conclus\u00e3o alentadora de que cada \u00e9poca do mundo aumentou \u2013 e ainda aumenta \u2013 a riqueza real, a felicidade, o conhecimento e, talvez, a virtude da ra\u00e7a humana.\u201d<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Essa teoria da progress\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o pode ser contrastada com sua rival, a teoria da degenera\u00e7\u00e3o, por meio da impetuosa invectiva do conde Joseph de Maistre, escrita no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX. \u201cN\u00f3s partimos sempre\u201d, diz ele, \u201cda hip\u00f3tese banal de que o homem se elevou gradualmente da barb\u00e1rie \u00e0 ci\u00eancia e \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 o sonho predileto, \u00e9 o erro-m\u00e3e, e como diz a escola, o <em>proto-pseudes<\/em> do nosso s\u00e9culo. Mas se os fil\u00f3sofos deste s\u00e9culo infeliz, com a horr\u00edvel perversidade que lhes conhecemos, e que ainda persiste apesar dos avisos que receberam, tivessem possu\u00eddo, al\u00e9m disso, alguns desses conhecimentos que necessariamente pertenceram aos primeiros homens, &amp;c.\u201d<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A teoria da degenera\u00e7\u00e3o, que esse eloquente advers\u00e1rio das \u201cideias modernas\u201d apresenta, de fato, em sua forma extrema, recebeu o apoio de homens de grande erudi\u00e7\u00e3o e capacidade. Ela se resumiu, na pr\u00e1tica, a duas suposi\u00e7\u00f5es: primeiro, que a hist\u00f3ria da cultura come\u00e7ou com o surgimento, na Terra, de uma ra\u00e7a de homens semicivilizados; e segundo, que a partir desse est\u00e1gio, a cultura seguiu dois caminhos \u2013 regredindo para produzir os selvagens e avan\u00e7ando para produzir os homens civilizados.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia de que a condi\u00e7\u00e3o original do homem era de uma cultura mais ou menos elevada deve ter certa proemin\u00eancia devido \u00e0 forte influ\u00eancia que exerce sobre a opini\u00e3o p\u00fablica. No entanto, quanto a evid\u00eancias concretas, tal ideia n\u00e3o parece possuir qualquer base etnol\u00f3gica. Na verdade, mal consigo imaginar um argumento mais eficaz contra um estudante inteligente inclinado \u00e0 teoria da degenera\u00e7\u00e3o tradicional do que lev\u00e1-lo a examinar, de maneira cr\u00edtica e imparcial, os argumentos dos defensores de sua pr\u00f3pria posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Deve-se ter em mente, contudo, que os fundamentos sobre os quais essa teoria tem sido sustentada s\u00e3o, em geral, mais teol\u00f3gicos do que etnol\u00f3gicos. A for\u00e7a da posi\u00e7\u00e3o que ela ocupou pode ser bem exemplificada pelas teorias adotadas por dois eminentes autores franceses do s\u00e9culo XVIII, que, de maneira not\u00e1vel, combinam a cren\u00e7a na degenera\u00e7\u00e3o com argumentos a favor da progress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>De Brosses, cuja natureza intelectual se inclinava inteiramente para a teoria da progress\u00e3o, argumentava que, ao estudar o que realmente acontece no presente, \u201cpodemos tra\u00e7ar a eleva\u00e7\u00e3o dos homens a partir do estado selvagem ao qual o dil\u00favio e a dispers\u00e3o os haviam reduzido.\u201d<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\">[7]<\/a> E Goguet, ao sustentar que as artes pr\u00e9-existentes pereceram no dil\u00favio, ficou assim livre para desenvolver, com base nos princ\u00edpios mais radicais do progressismo, suas teorias sobre a inven\u00e7\u00e3o do fogo, do cozimento, da agricultura, do direito, e assim por diante, entre tribos reduzidas a um estado de selvageria inferior.<a href=\"#_ftn8\" id=\"_ftnref8\">[8]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Na atualidade, n\u00e3o \u00e9 incomum que a origem da civiliza\u00e7\u00e3o seja tratada como uma quest\u00e3o de teologia dogm\u00e1tica. Aconteceu comigo mais de uma vez de ouvir, do p\u00falpito, a afirma\u00e7\u00e3o de que as teorias dos etn\u00f3logos que consideram que o homem se elevou a partir de uma condi\u00e7\u00e3o primitiva inferior s\u00e3o fantasias ilus\u00f3rias, sendo uma verdade revelada que o homem se encontrava originalmente em condi\u00e7\u00e3o elevada. Ora, do ponto de vista da cr\u00edtica b\u00edblica, deve-se lembrar que uma grande parte dos te\u00f3logos modernos est\u00e1 longe de aceitar tal dogma. Mas, ao investigar o problema da civiliza\u00e7\u00e3o primitiva, a pretens\u00e3o de fundamentar uma opini\u00e3o cient\u00edfica numa base revelada \u00e9, em si mesma, conden\u00e1vel. Seria, a meu ver, injustific\u00e1vel que estudantes que j\u00e1 testemunharam, na Astronomia e na Geologia, os tristes resultados das tentativas de basear a ci\u00eancia na religi\u00e3o, viessem a apoiar tentativa semelhante no campo da Etnologia.<\/p>\n\n\n\n<p>Pela longa experi\u00eancia com o curso da sociedade humana, o princ\u00edpio do desenvolvimento cultural tornou-se t\u00e3o enraizado em nossa filosofia que os etn\u00f3logos, de qualquer escola que sejam, dificilmente duvidam de que, seja por progresso ou por degrada\u00e7\u00e3o, a selvageria e a civiliza\u00e7\u00e3o estejam ligadas como est\u00e1gios inferiores e superiores de uma mesma forma\u00e7\u00e3o. Como tal, ent\u00e3o, duas teorias principais procuram explicar essa rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto \u00e0 primeira hip\u00f3tese, que considera a vida selvagem como uma forma de representa\u00e7\u00e3o de um estado humano primitivo do qual, com o tempo, se desenvolveram estados superiores, deve-se observar que os defensores dessa teoria da progress\u00e3o tendem a olhar ainda mais para tr\u00e1s, em dire\u00e7\u00e3o a condi\u00e7\u00f5es originais ainda mais rudimentares da humanidade. J\u00e1 se observou com raz\u00e3o que a doutrina moderna do naturalista sobre o desenvolvimento progressivo incentivou uma linha de pensamento notavelmente condizente com a teoria epicurista da exist\u00eancia primitiva do homem na Terra \u2013 uma condi\u00e7\u00e3o pouco distinta da dos animais inferiores.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa perspectiva, a pr\u00f3pria vida selvagem seria uma condi\u00e7\u00e3o j\u00e1 bastante avan\u00e7ada. Se se considerar que o avan\u00e7o da cultura ocorre ao longo de uma linha geral \u00fanica, ent\u00e3o a selvageria existente estaria situada diretamente entre a vida animal e a vida civilizada; se, por outro lado, o avan\u00e7o ocorrer ao longo de diferentes linhas, ent\u00e3o a selvageria e a civiliza\u00e7\u00e3o podem ser consideradas pelo menos indiretamente conectadas por uma origem comum.<\/p>\n\n\n\n<p>O m\u00e9todo e as evid\u00eancias aqui empregados, contudo, n\u00e3o s\u00e3o adequados para discutir essa parte mais remota do problema da civiliza\u00e7\u00e3o. Tampouco \u00e9 necess\u00e1rio investigar como, sob essa ou qualquer outra teoria, o estado selvagem teria surgido na Terra. Basta que, de algum modo, ele de fato tenha surgido; e, na medida em que possa servir de guia para inferir uma condi\u00e7\u00e3o primitiva da humanidade em geral, o argumento assume uma forma bastante pr\u00e1tica, ao se basear mais em estados sociais reais do que em estados imagin\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda hip\u00f3tese, que considera a cultura superior como original e o estado selvagem como resultante dela por um processo de degenera\u00e7\u00e3o, corta de imediato o n\u00f3 dif\u00edcil da origem da cultura. Parte do princ\u00edpio de uma interfer\u00eancia sobrenatural, como no caso do arcebispo Whately, que simplesmente atribui \u00e0 revela\u00e7\u00e3o milagrosa aquela condi\u00e7\u00e3o acima do n\u00edvel da barb\u00e1rie que ele considera ter sido o estado original do homem.<a href=\"#_ftn9\" id=\"_ftnref9\">[9]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Pode-se observar, incidentalmente, que a doutrina da civiliza\u00e7\u00e3o original concedida ao homem por interven\u00e7\u00e3o divina n\u00e3o implica, necessariamente, que essa civiliza\u00e7\u00e3o original estivesse em um n\u00edvel elevado. Seus defensores s\u00e3o livres para escolher o ponto de partida da cultura \u2013 acima, no mesmo n\u00edvel ou abaixo da condi\u00e7\u00e3o selvagem \u2013 conforme o que lhes parecer mais razo\u00e1vel com base nas evid\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>As duas teorias que assim explicam a rela\u00e7\u00e3o entre a vida selvagem e a vida civilizada podem ser contrastadas, segundo seu car\u00e1ter principal, como teoria da progress\u00e3o e teoria da degenera\u00e7\u00e3o. No entanto, \u00e9 claro que a teoria da progress\u00e3o reconhece a degenera\u00e7\u00e3o, e a teoria da degenera\u00e7\u00e3o reconhece a progress\u00e3o, como influ\u00eancias poderosas no curso da cultura.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro dos devidos limites, os princ\u00edpios de ambas as teorias s\u00e3o compat\u00edveis com o conhecimento hist\u00f3rico, que nos mostra, por um lado, que o estado das na\u00e7\u00f5es mais avan\u00e7adas foi alcan\u00e7ado por progress\u00e3o a partir de um estado inferior, e, por outro lado, que a cultura conquistada por progresso pode ser perdida por degenera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Se nessa investiga\u00e7\u00e3o formos obrigados a terminar na escurid\u00e3o, ao menos n\u00e3o precisamos come\u00e7ar nela. A hist\u00f3ria, tomada como nosso guia na explica\u00e7\u00e3o dos diferentes est\u00e1gios da civiliza\u00e7\u00e3o, oferece uma teoria baseada na experi\u00eancia real. Trata-se de uma teoria do desenvolvimento, na qual tanto o avan\u00e7o quanto o retrocesso t\u00eam seus lugares reconhecidos. Mas, na medida em que a hist\u00f3ria for nosso crit\u00e9rio, a progress\u00e3o \u00e9 prim\u00e1ria e a degenera\u00e7\u00e3o, secund\u00e1ria; a cultura precisa ser conquistada antes que possa ser perdida. Al\u00e9m disso, ao se avaliar o equil\u00edbrio entre os efeitos do avan\u00e7o e do retrocesso na civiliza\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso ter em mente qu\u00e3o poderosamente a difus\u00e3o da cultura atua na preserva\u00e7\u00e3o dos resultados do progresso contra os ataques da degenera\u00e7\u00e3o. Um movimento progressivo na cultura se espalha e torna-se independente do destino de seus originadores. Aquilo que \u00e9 produzido em uma regi\u00e3o limitada difunde-se por uma \u00e1rea cada vez mais ampla, onde o processo de aniquila\u00e7\u00e3o completa se torna cada vez mais dif\u00edcil. Assim, \u00e9 at\u00e9 poss\u00edvel que os h\u00e1bitos e inven\u00e7\u00f5es de ra\u00e7as h\u00e1 muito extintas permane\u00e7am como patrim\u00f4nio comum das na\u00e7\u00f5es sobreviventes; e as a\u00e7\u00f5es destrutivas que causam estragos nas civiliza\u00e7\u00f5es de regi\u00f5es espec\u00edficas n\u00e3o conseguem destruir a civiliza\u00e7\u00e3o do mundo como um todo.<\/p>\n\n\n\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a selvageria, a barb\u00e1rie e a semiciviliza\u00e7\u00e3o situa-se quase inteiramente em regi\u00f5es pr\u00e9-hist\u00f3ricas ou extrahist\u00f3ricas. Essa \u00e9, evidentemente, uma condi\u00e7\u00e3o desfavor\u00e1vel, e deve ser aceita com franqueza. A hist\u00f3ria direta mal nos diz algo sobre as transforma\u00e7\u00f5es da cultura selvagem, exceto quando em contato com a civiliza\u00e7\u00e3o estrangeira e sob sua influ\u00eancia dominante \u2013 situa\u00e7\u00e3o que pouco contribui para o nosso objetivo atual.<\/p>\n\n\n\n<p>Exames peri\u00f3dicos de povos de cultura inferior, deixados de outro modo isolados para seguir seus pr\u00f3prios caminhos, seriam testemunhos interessantes para o estudioso da civiliza\u00e7\u00e3o, se pudessem ser realizados \u2013 mas, infelizmente, n\u00e3o podem. As ra\u00e7as inferiores, desprovidas de registros documentais, descuidadas na preserva\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o e sempre prontas a revestir o mito com apar\u00eancia de hist\u00f3ria, raramente s\u00e3o fontes confi\u00e1veis quando contam hist\u00f3rias de tempos muito remotos.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria consiste em registros orais ou escritos que podem ser satisfatoriamente rastreados at\u00e9 o contato com os eventos que descrevem; e talvez nenhum relato do curso da cultura em seus est\u00e1gios inferiores consiga satisfazer esse crit\u00e9rio rigoroso.<\/p>\n\n\n\n<p>As tradi\u00e7\u00f5es podem ser invocadas tanto em apoio \u00e0 teoria da progress\u00e3o quanto \u00e0 teoria da degenera\u00e7\u00e3o. Essas tradi\u00e7\u00f5es podem ser em parte verdadeiras, e devem ser em parte falsas; mas, qualquer que seja o grau de verdade ou falsidade que contenham, h\u00e1 tanta dificuldade em separar a lembran\u00e7a do que foi da especula\u00e7\u00e3o sobre o que poderia ter sido, que a etnologia dificilmente ter\u00e1 muito a ganhar com tentativas de julgar os est\u00e1gios iniciais da civiliza\u00e7\u00e3o com base em tradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse \u00e9 um problema que ocupou a mente filos\u00f3fica at\u00e9 mesmo entre os povos selvagens e b\u00e1rbaros, e que tem sido \u201cresolvido\u201d por meio de especula\u00e7\u00f5es apresentadas como fatos, e por tradi\u00e7\u00f5es que s\u00e3o, em grande parte, teorias transformadas em narrativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Os chineses podem apresentar, com toda a devida solenidade, os registros de suas antigas dinastias e nos contar como, nos tempos antigos, seus antepassados habitavam cavernas, vestiam-se com folhas e comiam carne crua, at\u00e9 que, sob este ou aquele governante, aprenderam a construir cabanas, preparar peles para o vestu\u00e1rio e fazer fogo.<a href=\"#_ftn10\" id=\"_ftnref10\">[10]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Lucr\u00e9cio pode descrever, em seus famosos versos, a ra\u00e7a primitiva de homens \u2013 de ossos largos, resistentes, indom\u00e1veis \u2013 vivendo uma vida errante como os animais selvagens que venciam com pedras e porretes pesados, alimentando-se de bagas e bolotas, ignorando ainda o fogo, a agricultura e o uso de peles como vestu\u00e1rio. A partir desse estado, o poeta epicurista tra\u00e7a o desenvolvimento da cultura, come\u00e7ando fora, mas terminando dentro dos limites da mem\u00f3ria humana.<a href=\"#_ftn11\" id=\"_ftnref11\">[11]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Pertencem \u00e0 mesma categoria aquelas lendas que, partindo de um estado selvagem antigo, descrevem sua eleva\u00e7\u00e3o por civilizadores divinos: esta, que se pode chamar de teoria da progress\u00e3o sobrenatural, \u00e9 exemplificada nas conhecidas tradi\u00e7\u00f5es culturais do Peru e da It\u00e1lia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas outras mentes, seguindo uma trilha ideal diferente, que vai do presente ao passado, viram os primeiros est\u00e1gios da vida humana sob uma forma muito distinta. Aqueles homens cujos olhos est\u00e3o sempre voltados para a sabedoria dos antigos, aqueles que, por uma confus\u00e3o comum de pensamento, atribuem aos homens de outrora a sabedoria dos velhos, aqueles que se apegam a algum modelo de vida outrora honrado, mas agora ultrapassado por novos modelos que surgem diante de seus olhos \u2013 esses tendem a projetar sua vis\u00e3o do presente como um tempo de degenera\u00e7\u00e3o para \u00e9pocas muito remotas, at\u00e9 chegarem a um per\u00edodo de gl\u00f3ria primordial.<\/p>\n\n\n\n<p>O parsi volta-se para o feliz reinado do rei Yima, quando homens e animais eram imortais, quando as \u00e1guas e as \u00e1rvores jamais secavam e os alimentos eram inesgot\u00e1veis, quando n\u00e3o havia nem frio nem calor, nem inveja nem velhice.<a href=\"#_ftn12\" id=\"_ftnref12\">[12]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>O budista olha para a era dos gloriosos seres alados, que n\u00e3o conheciam pecado, nem sexo, nem necessidade de alimento \u2013 at\u00e9 que, na hora infeliz em que provaram de uma espuma deliciosa que se formava na superf\u00edcie da terra, ca\u00edram no mal e, com o tempo, degradaram-se a comer arroz, a gerar filhos, a construir casas, a dividir propriedades e a instituir castas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas eras seguintes, registros preservaram os detalhes do cont\u00ednuo processo de degenera\u00e7\u00e3o. Foi o rei Chetiya quem contou a primeira mentira, e os cidad\u00e3os que a ouviram, sem saber o que era uma mentira, perguntaram se ela era branca, preta ou azul. A vida dos homens foi se encurtando cada vez mais, e foi o rei Maha S\u00e2gara quem, ap\u00f3s um breve reinado de 252.000 anos, fez a sombria descoberta do primeiro fio de cabelo grisalho.<a href=\"#_ftn13\" id=\"_ftnref13\">[13]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Reconhecendo a imperfei\u00e7\u00e3o dos registros hist\u00f3ricos no que se refere aos est\u00e1gios mais baixos da cultura, devemos lembrar que essa imperfei\u00e7\u00e3o pode ser interpretada em mais de um sentido. Niebuhr, ao criticar os progressistas do s\u00e9culo XVIII, observa que estes negligenciaram o fato de que \u201cnenhum exemplo pode ser apresentado de um povo realmente selvagem que tenha se civilizado de maneira independente.\u201d<a href=\"#_ftn14\" id=\"_ftnref14\">[14]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Whately apropriou-se dessa observa\u00e7\u00e3o, que constitui, de fato, o cerne de sua conhecida <em>Lecture on the Origin of Civilisation<\/em>: \u201cOs fatos s\u00e3o teimosos\u201d, diz ele, \u201ce o fato de que n\u00e3o se pode apresentar nenhum exemplo autenticado de selvagens que tenham emergido, sem ajuda, desse estado, n\u00e3o \u00e9 uma teoria, mas uma afirma\u00e7\u00e3o, at\u00e9 hoje jamais refutada, de um fato.\u201d Ele usa isso como argumento para sustentar sua conclus\u00e3o geral: de que o ser humano n\u00e3o poderia ter passado de forma independente do estado selvagem ao civilizado, e de que os selvagens s\u00e3o descendentes degenerados de homens civilizados.<a href=\"#_ftn15\" id=\"_ftnref15\">[15]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Mas ele deixa de fazer a pergunta inversa: ser\u00e1 que encontramos um \u00fanico caso registrado de um povo civilizado que tenha ca\u00eddo de forma independente no estado selvagem?<\/p>\n\n\n\n<p>Qualquer registro desse tipo, direto e bem comprovado, teria grande interesse para os etn\u00f3logos, embora, \u00e9 claro, n\u00e3o contradissesse a teoria do desenvolvimento, pois provar perda n\u00e3o \u00e9 o mesmo que refutar progresso anterior. Mas onde est\u00e1 tal registro?<\/p>\n\n\n\n<p>A escassez de evid\u00eancia hist\u00f3rica sobre a transi\u00e7\u00e3o entre a selvageria e a cultura superior \u00e9 um fato com dois lados, e o argumento unilateral do arcebispo Whately s\u00f3 leva em conta um deles.<\/p>\n\n\n\n<p>Felizmente, essa defici\u00eancia est\u00e1 longe de ser fatal. Embora a hist\u00f3ria talvez n\u00e3o consiga explicar diretamente a exist\u00eancia nem esclarecer a posi\u00e7\u00e3o dos povos selvagens, ela ao menos oferece ind\u00edcios que tocam de perto essa quest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, temos diversos meios de estudar os est\u00e1gios inferiores da cultura com base em evid\u00eancias que n\u00e3o podem ter sido manipuladas para sustentar uma teoria. O antigo saber tradicional, embora pouco confi\u00e1vel como registro direto de eventos, cont\u00e9m descri\u00e7\u00f5es incidentais bastante fi\u00e9is de costumes e modos de vida; a arqueologia revela antigas estruturas e vest\u00edgios soterrados de tempos remotos; a filologia evidencia a hist\u00f3ria n\u00e3o intencional presente na linguagem, transmitida de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o sem consci\u00eancia de seu significado; o levantamento etnol\u00f3gico das ra\u00e7as do mundo revela muito; a compara\u00e7\u00e3o etnogr\u00e1fica de suas condi\u00e7\u00f5es revela ainda mais.<\/p>\n\n\n\n<p>A estagna\u00e7\u00e3o e o decl\u00ednio da civiliza\u00e7\u00e3o devem ser reconhecidos como algumas das opera\u00e7\u00f5es mais frequentes e poderosas da vida nacional. Que o saber, as artes e as institui\u00e7\u00f5es decaiam em certas regi\u00f5es, que povos outrora progressistas fiquem para tr\u00e1s e sejam ultrapassados por vizinhos em avan\u00e7o, que \u00e0s vezes at\u00e9 mesmo sociedades inteiras regridam \u00e0 rudeza e \u00e0 mis\u00e9ria \u2013 todos esses s\u00e3o fen\u00f4menos com os quais a hist\u00f3ria moderna est\u00e1 familiarizada.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao julgar a rela\u00e7\u00e3o entre os est\u00e1gios inferiores e superiores da civiliza\u00e7\u00e3o, \u00e9 essencial ter alguma ideia de at\u00e9 que ponto tal rela\u00e7\u00e3o pode ter sido afetada por essa degenera\u00e7\u00e3o. Que tipo de evid\u00eancia a observa\u00e7\u00e3o direta e a hist\u00f3ria podem oferecer sobre a degrada\u00e7\u00e3o de homens de uma condi\u00e7\u00e3o civilizada rumo \u00e0 selvageria?<\/p>\n\n\n\n<p>Em nossas grandes cidades, as chamadas \u201cclasses perigosas\u201d est\u00e3o mergulhadas em uma mis\u00e9ria e deprava\u00e7\u00e3o horrendas. Se tivermos de comparar os papuas da Nova Caled\u00f4nia com as comunidades de mendigos e ladr\u00f5es europeus, talvez sejamos for\u00e7ados a reconhecer com tristeza que temos, entre n\u00f3s, algo pior que a selvageria. Mas n\u00e3o se trata de selvageria: \u00e9 civiliza\u00e7\u00e3o arruinada. Negativamente, os internos de um albergue de Whitechapel e os habitantes de um kraal hotentote se assemelham pela aus\u00eancia de conhecimento e virtude pr\u00f3prios da cultura superior. Mas positivamente, seus tra\u00e7os mentais e morais s\u00e3o totalmente distintos.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, a vida selvagem \u00e9 essencialmente dedicada \u00e0 obten\u00e7\u00e3o de subsist\u00eancia a partir da natureza \u2013 justamente o que a vida prolet\u00e1ria n\u00e3o \u00e9. Suas rela\u00e7\u00f5es com a vida civilizada \u2013 uma de independ\u00eancia, a outra de depend\u00eancia \u2013 s\u00e3o absolutamente opostas. A meu ver, as express\u00f5es populares como \u201cselvagens urbanos\u201d e \u201c\u00e1rabes das ruas\u201d s\u00e3o compara\u00e7\u00f5es t\u00e3o equivocadas quanto comparar uma casa em ru\u00ednas com o p\u00e1tio de um pedreiro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 mais pertinente observar como guerras e desgoverno, fome e peste devastaram repetidas vezes pa\u00edses inteiros, reduziram suas popula\u00e7\u00f5es a remanescentes miser\u00e1veis e rebaixaram seu n\u00edvel de civiliza\u00e7\u00e3o, e como a vida isolada de regi\u00f5es rurais remotas parece, \u00e0s vezes, tender \u00e0 selvageria. No entanto, tanto quanto sabemos, nenhuma dessas causas jamais reproduziu de fato uma comunidade verdadeiramente selvagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Como exemplo antigo de degenera\u00e7\u00e3o sob circunst\u00e2ncias adversas, a men\u00e7\u00e3o feita por Ov\u00eddio \u00e0 infeliz col\u00f4nia de Tomos, no mar Negro, \u00e9 um caso digno de nota \u2013 embora talvez n\u00e3o deva ser interpretado literalmente. Entre sua popula\u00e7\u00e3o mista de gregos e b\u00e1rbaros, assolada e levada \u00e0 escravid\u00e3o pelos cavaleiros s\u00e1rmatas, assim como os persas o foram at\u00e9 h\u00e1 pouco pelos turcomanos, o poeta descreve o abandono da arte da jardinagem, a decad\u00eancia das artes t\u00eaxteis, e as roupas b\u00e1rbaras feitas de peles:<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Nec tamen hEc loca sunt ullo pretiosa metallo:<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Hostis ab agricola vix sinit illa fodi.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Purpura sEpe tuos fulgens prEtexit amictus:<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Sed non Sarmatico tingitur illa mari.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Vellera dura ferunt pecudes, et Palladis uti<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Arte TomitanE non didicere nurus.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Femina pro lana Cerialia munera frangit,<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Suppositoque gravem vertice portat aquam.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Non hic pampineis amicitur vitibus ulmus:<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Nulla premunt ramos pondere poma suo.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Tristia deformes pariunt absinthia campi,<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Terraque de fructu quam sit amara docet.<a href=\"#_ftn16\" id=\"_ftnref16\">[16]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Casos de civiliza\u00e7\u00e3o excepcionalmente baixa na Europa talvez possam ser, \u00e0s vezes, explicados por degenera\u00e7\u00e3o desse tipo. Mas, mais frequentemente, parecem ser rel\u00edquias de uma antiga barb\u00e1rie que permaneceu inalterada. As evid\u00eancias vindas de regi\u00f5es selvagens da Irlanda, dois ou tr\u00eas s\u00e9culos atr\u00e1s, s\u00e3o interessantes desse ponto de vista. Leis foram aprovadas contra os h\u00e1bitos arraigados de prender os arados aos rabos dos cavalos e de queimar aveia com a palha para evitar o trabalho de debulhar.<\/p>\n\n\n\n<p>No s\u00e9culo XVIII, a Irlanda ainda podia ser descrita em tom sat\u00edrico da seguinte forma:<\/p>\n\n\n\n<p>A ilha ocidental, famosa por seus p\u00e2ntanos,<\/p>\n\n\n\n<p>Por seus ladr\u00f5es e por seus grandes c\u00e3es de ca\u00e7a,<\/p>\n\n\n\n<p>Por puxar charretes pelos rabos,<\/p>\n\n\n\n<p>E debulhar milho com flagelos em chamas.<a href=\"#_ftn17\" id=\"_ftnref17\">[17]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A descri\u00e7\u00e3o de Fynes Moryson sobre os irlandeses selvagens ou \u201cpuros\u201d (<em>meere<\/em>) por volta de 1600 \u00e9 impressionante. Segundo ele, at\u00e9 mesmo os senhores entre eles viviam em pobres casas de barro ou cabanas de galhos cobertas com turfa. Em muitas regi\u00f5es, tanto homens quanto mulheres, mesmo no rigor do inverno, usavam apenas um trapo de linho em torno dos quadris e um manto de l\u00e3 sobre o corpo, de modo que \u201cchegava a embrulhar o est\u00f4mago\u201d ver uma velha pela manh\u00e3 antes do desjejum. Ele menciona tamb\u00e9m o costume de queimar a aveia ainda na palha e fazer bolos com ela. N\u00e3o usavam mesas, mas colocavam a comida sobre um feixe de capim. Festinavam com cavalos mortos e ferviam peda\u00e7os de boi e porco junto com as entranhas n\u00e3o lavadas dos animais, tudo isso dentro de uma \u00e1rvore oca, envolto numa pele de vaca crua e assim posto sobre o fogo; bebiam leite aquecido com uma pedra previamente lan\u00e7ada no fogo.<a href=\"#_ftn18\" id=\"_ftnref18\">[18]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Outra regi\u00e3o not\u00e1vel pela simplicidade b\u00e1rbara da vida s\u00e3o as H\u00e9bridas. At\u00e9 poucos anos atr\u00e1s, ainda se encontravam em uso cotidiano, nessas ilhas, vasos de barro n\u00e3o esmaltados e moldados \u00e0 m\u00e3o sem o uso de roda de oleiro \u2013 pe\u00e7as que poderiam figurar em museus como exemplares toscos de manufatura selvagem. Esses \u201c<em>craggans<\/em>\u201d ainda s\u00e3o feitos por uma velha em Barvas, que os vende como curiosidades. Esse estado moderno da arte da cer\u00e2mica nas H\u00e9bridas combina bem com a afirma\u00e7\u00e3o de George Buchanan, no s\u00e9culo XVI, de que os ilh\u00e9us costumavam ferver a carne no pr\u00f3prio est\u00f4mago ou na pele do animal.<a href=\"#_ftn19\" id=\"_ftnref19\">[19]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio do s\u00e9culo XVIII, Martin menciona como ainda predominante por l\u00e1 o antigo modo de preparar o cereal queimando-o com habilidade diretamente da espiga \u2013 processo muito r\u00e1pido, por isso chamado \u201c<em>graddan<\/em>\u201d (ga\u00e9lico <em>grad<\/em> = r\u00e1pido).<a href=\"#_ftn20\" id=\"_ftnref20\">[20]<\/a> Assim, vemos que o costume de queimar o gr\u00e3o, pelo qual os \u201cpuros irlandeses\u201d eram criticados, era na verdade a preserva\u00e7\u00e3o de uma antiga t\u00e9cnica celta, que n\u00e3o deixava de ter sua utilidade pr\u00e1tica. Do mesmo modo, o surgimento em regi\u00f5es c\u00e9lticas modernas de outras artes difundidas entre culturas inferiores \u2013 como a fervura com peles, semelhante \u00e0 dos citas em Her\u00f3doto, e a fervura com pedras, como a dos <em>assiniboins<\/em> da Am\u00e9rica do Norte \u2013 parece ajustar-se melhor \u00e0 ideia de uma sobreviv\u00eancia de civiliza\u00e7\u00e3o inferior do que \u00e0 de uma degenera\u00e7\u00e3o a partir de uma civiliza\u00e7\u00e3o superior. Irlandeses e habitantes das H\u00e9bridas estiveram durante s\u00e9culos sob a influ\u00eancia de civiliza\u00e7\u00f5es relativamente elevadas, mas isso n\u00e3o impediu que muitos de seus antigos e rudes costumes permanecessem inalterados.<\/p>\n\n\n\n<p>Casos de homens civilizados que adotam uma vida selvagem em regi\u00f5es remotas do mundo, deixando de buscar ou desejar os instrumentos da civiliza\u00e7\u00e3o, oferecem ind\u00edcios mais claros de degenera\u00e7\u00e3o. \u00c9 nesse contexto que ocorre a mais pr\u00f3xima aproxima\u00e7\u00e3o conhecida de uma degenera\u00e7\u00e3o independente de um estado civilizado para um estado selvagem. Isso se d\u00e1 em ra\u00e7as mistas, cujo padr\u00e3o de civiliza\u00e7\u00e3o pode ser mais ou menos inferior ao da ra\u00e7a superior.<\/p>\n\n\n\n<p>Os amotinados do <em>Bounty<\/em>, com suas esposas polin\u00e9sias, fundaram uma pequena comunidade em Pitcairn que, embora n\u00e3o fosse selvagem, tampouco era plenamente civilizada.<a href=\"#_ftn21\" id=\"_ftnref21\">[21]<\/a> As ra\u00e7as mistas de portugueses e nativos nas \u00cdndias Orientais e na \u00c1frica levam uma vida inferior ao padr\u00e3o europeu, mas n\u00e3o uma vida selvagem.<a href=\"#_ftn22\" id=\"_ftnref22\">[22]<\/a> Os ga\u00fachos das pampas sul-americanas, uma ra\u00e7a mista de europeus e ind\u00edgenas, s\u00e3o descritos como sentados sobre caveiras de boi, preparando caldo em chifres com brasas ao redor, vivendo apenas de carne, sem vegetais, e levando uma vida suja, brutal, desconfort\u00e1vel e degenerada \u2013 mas n\u00e3o selvagem.<a href=\"#_ftn23\" id=\"_ftnref23\">[23]<\/a> Um passo al\u00e9m disso nos leva aos casos de indiv\u00edduos civilizados que s\u00e3o absorvidos por tribos selvagens e adotam integralmente o modo de vida selvagem, sem exercer influ\u00eancia significativa de melhoria; os filhos desses homens podem ser considerados, de modo n\u00edtido, como selvagens.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses casos de mesti\u00e7agem, no entanto, n\u00e3o demonstram que uma cultura inferior tenha sido realmente produzida como resultado de degenera\u00e7\u00e3o a partir de uma superior. A teoria que se aplica aqui \u00e9 a de que, dadas duas civiliza\u00e7\u00f5es \u2013 uma superior e uma inferior \u2013 coexistindo entre dois povos, uma ra\u00e7a mista entre eles pode adotar tanto a condi\u00e7\u00e3o inferior quanto uma condi\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>A degenera\u00e7\u00e3o provavelmente atua de forma ainda mais ativa nas culturas inferiores do que nas superiores. Na\u00e7\u00f5es b\u00e1rbaras e hordas selvagens, com seu conhecimento limitado e escassez de instrumentos, parecem especialmente expostas a influ\u00eancias degradantes. Na \u00c1frica, por exemplo, parece ter havido, nos s\u00e9culos modernos, um decl\u00ednio cultural, provavelmente devido, em grande medida, \u00e0 influ\u00eancia estrangeira. J. L. Wilson, ao contrastar os relatos dos s\u00e9culos XVI e XVII sobre poderosos reinos negros na \u00c1frica Ocidental com as atuais pequenas comunidades, sem ou com pouca tradi\u00e7\u00e3o da mais ampla organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de seus antepassados, atribui especialmente ao tr\u00e1fico de escravos essa causa de deteriora\u00e7\u00e3o.<a href=\"#_ftn24\" id=\"_ftnref24\">[24]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>No sudeste da \u00c1frica, tamb\u00e9m, uma cultura b\u00e1rbara relativamente elevada \u2013 que associamos particularmente \u00e0s antigas descri\u00e7\u00f5es do reino de Monomotapa \u2013 parece ter se desfeito, sem contar as not\u00e1veis ru\u00ednas de edif\u00edcios de pedra lavrada ajustadas sem argamassa, que indicam a intrus\u00e3o de estrangeiros mais civilizados na regi\u00e3o do ouro!<a href=\"#_ftn25\" id=\"_ftnref25\">[25]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Na Am\u00e9rica do Norte, o padre Charlevoix observa, no s\u00e9culo passado, que os iroqueses, em tempos antigos, costumavam construir suas cabanas melhor do que outras na\u00e7\u00f5es \u2013 e melhor do que constroem agora; esculpiam nelas figuras r\u00fasticas em relevo; mas, como em v\u00e1rias expedi\u00e7\u00f5es quase todas as suas aldeias foram incendiadas, n\u00e3o se preocuparam em restaur\u00e1-las ao estado anterior.<a href=\"#_ftn26\" id=\"_ftnref26\">[26]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A degrada\u00e7\u00e3o dos \u00edndios cheyenne \u00e9 fato hist\u00f3rico. Perseguidos por seus inimigos, os sioux, e finalmente desalojados at\u00e9 mesmo de sua aldeia fortificada, o cora\u00e7\u00e3o da tribo se partiu. Seus n\u00fameros diminu\u00edram, n\u00e3o ousavam mais se estabelecer em um local permanente, abandonaram o cultivo da terra e tornaram-se uma tribo de ca\u00e7adores errantes, tendo os cavalos como \u00fanica posse valiosa \u2013 que a cada ano trocavam por milho, feij\u00e3o, ab\u00f3boras e mercadorias europeias, para ent\u00e3o retornarem \u00e0s profundezas das pradarias.<a href=\"#_ftn27\" id=\"_ftnref27\">[27]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Quando, nas Montanhas Rochosas, Lord Milton e o Dr. Cheadle encontraram um fragmento isolado da ra\u00e7a <em>shushwap<\/em>, sem cavalos nem c\u00e3es, abrigando-se sob rudes inclina\u00e7\u00f5es tempor\u00e1rias feitas de casca ou esteira, caindo ano ap\u00f3s ano em mis\u00e9ria ainda maior e rapidamente desaparecendo, encontraram mais um exemplo da degenera\u00e7\u00e3o que, sem d\u00favida, j\u00e1 rebaixou ou exterminou muitos povos selvagens.<a href=\"#_ftn28\" id=\"_ftnref28\">[28]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Existem tribos que s\u00e3o verdadeiros p\u00e1rias da vida selvagem. H\u00e1 raz\u00e3o para se considerar os miser\u00e1veis \u00edndios <em>digger<\/em> da Am\u00e9rica do Norte e os <em>bushmen<\/em> do sul da \u00c1frica como os remanescentes perseguidos de tribos que conheceram dias melhores.<a href=\"#_ftn29\" id=\"_ftnref29\">[29]<\/a> As tradi\u00e7\u00f5es dos povos inferiores acerca de uma vida melhor de seus antepassados podem, \u00e0s vezes, ser lembran\u00e7as reais de um passado n\u00e3o muito distante. Os \u00edndios algonquinos olham para os tempos antigos como uma idade de ouro, quando a vida era melhor do que agora, quando havia melhores leis e l\u00edderes, e os costumes eram menos rudes.<a href=\"#_ftn30\" id=\"_ftnref30\">[30]<\/a> E, de fato, sabendo o que sabemos de sua hist\u00f3ria, podemos admitir que t\u00eam raz\u00f5es para lembrar, na mis\u00e9ria, a felicidade passada. Tamb\u00e9m com raz\u00e3o o rude <em>kamchadal<\/em> poderia declarar que o mundo est\u00e1 piorando cada vez mais, que os homens s\u00e3o cada vez menos e mais vis, e que a comida est\u00e1 mais escassa, pois o ca\u00e7ador, o urso e o veado est\u00e3o fugindo daqui rumo \u00e0 vida mais feliz nas regi\u00f5es inferiores.<a href=\"#_ftn31\" id=\"_ftnref31\">[31]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Seria uma valiosa contribui\u00e7\u00e3o para o estudo da civiliza\u00e7\u00e3o investigar a a\u00e7\u00e3o do decl\u00ednio e da queda com base num conjunto de evid\u00eancias mais amplo e preciso do que at\u00e9 hoje se tentou. Os casos aqui apresentados s\u00e3o provavelmente apenas parte de uma longa s\u00e9rie que poderia ser reunida para provar que a degenera\u00e7\u00e3o cultural tem sido \u2013 embora n\u00e3o a causa prim\u00e1ria da exist\u00eancia da barb\u00e1rie e da selvageria no mundo \u2013 uma a\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria que afetou ampla e profundamente o desenvolvimento geral da civiliza\u00e7\u00e3o. Pode-se at\u00e9 dizer que a degenera\u00e7\u00e3o da cultura, tanto em seu modo de operar quanto em sua imensa extens\u00e3o, se compara legitimamente ao processo de denuda\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria geol\u00f3gica da Terra.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao se julgar as rela\u00e7\u00f5es entre a vida selvagem e a civilizada, algo pode ser aprendido ao se observar as divis\u00f5es da ra\u00e7a humana. Para esse fim, a classifica\u00e7\u00e3o por fam\u00edlias de l\u00ednguas pode ser usada de maneira conveniente, se for confrontada com as evid\u00eancias das caracter\u00edsticas corporais. Sem d\u00favida, a linguagem por si s\u00f3 \u00e9 um guia insuficiente para tra\u00e7ar a descend\u00eancia nacional \u2013 como mostram os casos extremos dos judeus na Inglaterra ou de ra\u00e7as tr\u00eas-quartos negras nas \u00cdndias Ocidentais, que, apesar disso, falam o ingl\u00eas como l\u00edngua materna. Ainda assim, em circunst\u00e2ncias normais, a conex\u00e3o lingu\u00edstica indica, em maior ou menor grau, uma conex\u00e3o racial ancestral.<\/p>\n\n\n\n<p>Como guia para tra\u00e7ar a hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o, a linguagem fornece evid\u00eancia ainda melhor, pois uma l\u00edngua comum, em grande medida, implica uma cultura comum. A ra\u00e7a dominante o bastante para manter ou impor sua l\u00edngua geralmente mant\u00e9m ou imp\u00f5e, em maior ou menor grau, sua civiliza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. Assim, a origem comum das l\u00ednguas dos hindus, gregos e teut\u00f4nicos se deve, sem d\u00favida, em grande parte \u00e0 ancestralidade comum, mas est\u00e1 ainda mais intimamente ligada a uma hist\u00f3ria social e intelectual comum, ao que o professor Max M\u00fcller chama com propriedade de \u201crela\u00e7\u00e3o espiritual\u201d. A admir\u00e1vel perman\u00eancia da linguagem frequentemente nos permite detectar, entre tribos remotas no tempo e no espa\u00e7o, os tra\u00e7os de uma civiliza\u00e7\u00e3o conectada. Com base nisso, como se apresentam as rela\u00e7\u00f5es entre tribos selvagens e civilizadas dentro dos v\u00e1rios grupos da humanidade historicamente ligados pela posse de l\u00ednguas aparentadas?<\/p>\n\n\n\n<p>A fam\u00edlia sem\u00edtica, que representa uma das civiliza\u00e7\u00f5es mais antigas conhecidas do mundo, inclui \u00e1rabes, judeus, fen\u00edcios, s\u00edrios etc., e teve uma conex\u00e3o anterior e tamb\u00e9m posterior no norte da \u00c1frica. Essa fam\u00edlia abrange algumas tribos rudes, mas nenhuma que pudesse ser classificada como selvagem.<\/p>\n\n\n\n<p>A fam\u00edlia ariana existiu na \u00c1sia e na Europa certamente por muitos milhares de anos, e h\u00e1 tra\u00e7os bem conhecidos e bem definidos de sua antiga condi\u00e7\u00e3o b\u00e1rbara, a qual talvez tenha sobrevivido com menos mudan\u00e7as entre tribos isoladas nos vales do Hindu Kush e do Himalaia. N\u00e3o parece haver, por outro lado, nenhum caso conhecido de uma tribo ariana plena que tenha se tornado selvagem. Os ciganos e outros grupos marginalizados s\u00e3o, sem d\u00favida, em parte arianos por sangue, mas sua condi\u00e7\u00e3o degradada n\u00e3o \u00e9 selvageria. Na \u00cdndia, h\u00e1 tribos arianas por l\u00edngua, mas cujo tipo f\u00edsico \u00e9 mais ind\u00edgena, e cuja ancestralidade \u00e9 majoritariamente oriunda de grupos locais, com maior ou menor mistura com os hindus dominantes. Algumas tribos que se enquadram nessa categoria, como entre os <em>bhils<\/em> e <em>kulis<\/em> da presid\u00eancia de Bombaim, falam dialetos que s\u00e3o hindis ao menos no vocabul\u00e1rio, mesmo que n\u00e3o na estrutura gramatical, e ainda assim o povo em si tem cultura inferior \u00e0 de algumas na\u00e7\u00f5es hinduizadas que conservaram sua fala drav\u00eddica original \u2013 como os t\u00e2meis, por exemplo. Mas todos esses parecem situar-se em est\u00e1gios mais elevados de civiliza\u00e7\u00e3o do que quaisquer tribos florestais da pen\u00ednsula que possam ser consideradas quase selvagens; todos esses grupos s\u00e3o n\u00e3o arianos tanto por sangue quanto por l\u00edngua.<a href=\"#_ftn32\" id=\"_ftnref32\">[32]<\/a><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Refer\u00eancia a uma fala da com\u00e9dia \u201cO Burgu\u00eas Fidalgo\u201d (<em>Le Bourgeois Gentilhomme<\/em>, 1670), de Moli\u00e8re. Nela, o personagem Monsieur Jourdain descobre, surpreso, que fala em prosa sem jamais ter sabido: \u201cPar ma foi! il y a plus de quarante ans que je dis de la prose sans que j\u2019en susse rien\u201d (\u201cPor minha f\u00e9! H\u00e1 mais de quarenta anos que falo em prosa sem saber!\u201d). A frase tornou-se proverbial (N.T.).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Blackstone, Commentaries on the Laws of England, livro II., cap\u00edtulo 3. O exemplo acima substitui o dado em edi\u00e7\u00f5es anteriores. Outro exemplo pode ser encontrado em sua explica\u00e7\u00e3o sobre a origem do <em>deodand<\/em>, livro I, cap. 8, como destinado, nos tempos obscuros do papado, a ser uma expia\u00e7\u00e3o pelas almas daqueles que foram arrebatados pela morte s\u00fabita.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> G. W. Earl, Papuans, p. 79; A. R. Wallace, Eastern Archipelago.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> Rochefort, Iles Antilles, pp. 400-480.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> Gibbon, Decline and Fall of the Roman Empire, cap\u00edtulo xxxviii.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[6]<\/a> De Maistre, Soir\u00e9es de St. P\u00e9tersbourg, vol. ii. p. 150.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\">[7]<\/a> De Brosses, Dieux F\u00e9tiches, p. 15; Formation des Langues, vol. i. p. 49; vol. ii. p. 32.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\" id=\"_ftn8\">[8]<\/a> Goguet, Origine des Lois, des Arts, etc., vol. i. p. 88.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref9\" id=\"_ftn9\">[9]<\/a> Whately, Essay on the Origin of Civilisation, em Miscellaneous Lectures, etc. Examinei suas evid\u00eancias em detalhes em meu Early History of Mankind, cap\u00edtulo vii. Ver tamb\u00e9m W. Cooke Taylor, Natural History of Society.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref10\" id=\"_ftn10\">[10]<\/a> Goguet, vol. iii. p. 270.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref11\" id=\"_ftn11\">[11]<\/a> Lecret. v. 923, etc.; ver Hor. Sat. i. 3.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref12\" id=\"_ftn12\">[12]<\/a> Avesta, trans. Spiegel &amp; Bleeck, vol. ii. p. 50.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref13\" id=\"_ftn13\">[13]<\/a> Hardy, Manual of Budhism, pp. 64, 128.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref14\" id=\"_ftn14\">[14]<\/a> Niebuhr, R\u00f6mische Geschichte, part i. p. 88: Nur das haben sie \u00fcbersehen, dasz kein einziges Beyspiel von einem wirklich wilden Volk aufzuweisen ist, welches frey zur Cultur \u00fcbergegangen w\u00e4re.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref15\" id=\"_ftn15\">[15]<\/a> Whately, Essay on Origin of Civilisation.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref16\" id=\"_ftn16\">[16]<\/a> Ov\u00eddio. Ex Ponto, iii. 8; ver Grote, History of Greece, vol. xii. p. 641.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref17\" id=\"_ftn17\">[17]<\/a> W. C. Taylor, Nat. Hist. of Society, vol. i. p. 202.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref18\" id=\"_ftn18\">[18]<\/a> Fynes Moryson, Itinerary; Londres, 1617, part iii. p. 162, etc.; J. Evans em ArchEologia, vol. xli. Ver description of hide-boiling, etc., among the wild Irish, about 1550, em Andrew Boorde, Introduction of Knowledge, edi\u00e7\u00e3o de F. J. Furnivall, Early English Text Soc. 1870.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref19\" id=\"_ftn19\">[19]<\/a> Buchanan, Rerum Scoticarum Historia; Edinburgh, 1528, p. 7. Ver Early History of Mankind, 2. ed. p. 272.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref20\" id=\"_ftn20\">[20]<\/a> Martin, Description of Western Islands, em Pinkerton, vol. iii. p. 639.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref21\" id=\"_ftn21\">[21]<\/a> Barrow, Mutiny of the Bounty\u2019; W. Brodie, Pitcairn: Island.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref22\" id=\"_ftn22\">[22]<\/a> Wallace, Malay Archipelago, vol. i. pp. 42, 471; vol. ii. pp. 11, 43, 48; Latham, Descr. Eth., vol. ii. pp. 492-5; D. e C. Livingstone, Exp. to Zambesi, p. 45.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref23\" id=\"_ftn23\">[23]<\/a> Southey, History of Brazil, vol. iii. p. 422.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref24\" id=\"_ftn24\">[24]<\/a> J. L. Wilson, W. Afr., p. 189.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref25\" id=\"_ftn25\">[25]<\/a> Waitz, Anthropologie, vol. ii. p. 359, ver 91; Du Chaillu, Ashangoland, p. 116; T. H. Bent, Ruined Cities of Mashonaland.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref26\" id=\"_ftn26\">[26]<\/a> Charlevoix, Nouvelle France, vol. vi. p. 51.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref27\" id=\"_ftn27\">[27]<\/a> Irving, Astoria, vol. ii. cap\u00edtulo v.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref28\" id=\"_ftn28\">[28]<\/a> Milton e Cheadle, North West Passage by Land, p. 241; Waitz, vol. iii. pp. 74-6.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref29\" id=\"_ftn29\">[29]<\/a> Early History of Mankind, p. 187.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref30\" id=\"_ftn30\">[30]<\/a> Schoolcraft, Algic Res., vol. i. p. 50.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref31\" id=\"_ftn31\">[31]<\/a> Steller, Kamtschatka, p. 272.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref32\" id=\"_ftn32\">[32]<\/a> Ver G. Campbell, Ethnology of India, em Journ. As. Soc. Bengal, 1866 parte ii.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea ir\u00e1 ler, a seguir, um trecho de &#8220;Cultura Primitiva&#8221;, de Edward B. Tylor. Caso tenha interesse em adquiria a obra completa, ou conhecer mais detalhes da edi\u00e7\u00e3o, clique aqui, ou na capa abaixo. I. A ci\u00eancia da cultura Cultura ou Civiliza\u00e7\u00e3o, tomada em seu amplo sentido etnogr\u00e1fico, \u00e9 esse\u2026<\/p>\n<p class=\"continue-reading-button\"> <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2025\/06\/28\/cultura-primitiva-de-edward-b-tylor\/\">Leia mais<i class=\"crycon-right-dir\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1223,"comment_status":"closed","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5,55],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1225"}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1225"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1225\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1226,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1225\/revisions\/1226"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1223"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1225"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1225"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1225"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}