{"id":1265,"date":"2025-10-11T20:24:52","date_gmt":"2025-10-11T20:24:52","guid":{"rendered":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=1265"},"modified":"2025-10-11T20:24:52","modified_gmt":"2025-10-11T20:24:52","slug":"as-leis-da-imitacao-de-gabriel-tarde","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2025\/10\/11\/as-leis-da-imitacao-de-gabriel-tarde\/","title":{"rendered":"As Leis da Imita\u00e7\u00e3o, de Gabriel Tarde"},"content":{"rendered":"\n<p>Voc\u00ea ir\u00e1 ler, a seguir, um trecho da obra &#8220;As Leis da Imita\u00e7\u00e3o&#8221; de Gabriel Tarde. Caso tenha interesse adquirir a obra, ou conhecer mais detalhes sobre essa edi\u00e7\u00e3o, <a href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/as-leis-da-imitacao\/\">clique aqui<\/a>, ou na imagem da capa abaixo.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/as-leis-da-imitacao\/\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"231\" height=\"328\" src=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/capinha_tarde_imita.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1258\" srcset=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/capinha_tarde_imita.jpg 231w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/capinha_tarde_imita-211x300.jpg 211w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/capinha_tarde_imita-106x150.jpg 106w\" sizes=\"(max-width: 231px) 100vw, 231px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\"> <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><a>I. A repeti\u00e7\u00e3o universal<\/a><\/h1>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>I. Regularidade n\u00e3o percebida dos fatos sociais sob certo ponto de vista<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>Suas analogias com os fatos naturais. As tr\u00eas formas da Repeti\u00e7\u00e3o universal: ondula\u00e7\u00e3o, gera\u00e7\u00e3o, imita\u00e7\u00e3o. Ci\u00eancia social e filosofia social. Sociedades animais.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 lugar para uma ci\u00eancia, ou apenas para uma hist\u00f3ria e, no m\u00e1ximo, para uma filosofia dos fatos sociais? A quest\u00e3o permanece em aberto, embora, \u00e0 verdade, esses fatos, se examinados de perto e sob certo \u00e2ngulo, sejam suscet\u00edveis, como os outros, de se resolverem em s\u00e9ries de pequenos fatos similares e em f\u00f3rmulas chamadas leis que resumem essas s\u00e9ries. Por que, ent\u00e3o, a ci\u00eancia social ainda est\u00e1 por nascer ou mal nascida em meio a todas as suas irm\u00e3s adultas e vigorosas? A principal raz\u00e3o, a meu ver, \u00e9 que aqui se largou a presa pela sombra, as realidades pelas palavras. Acreditou-se que n\u00e3o se poderia conferir \u00e0 sociologia um tom cient\u00edfico sen\u00e3o lhe dando um ar biol\u00f3gico ou, melhor ainda, um ar mec\u00e2nico. Isso era buscar esclarecer o conhecido pelo desconhecido; era transformar um sistema solar em uma nebulosa irresol\u00favel para entend\u00ea-lo melhor. Em mat\u00e9ria social, dispomos, por um privil\u00e9gio excepcional, das causas verdadeiras, dos atos individuais de que os fatos s\u00e3o feitos, o que nos \u00e9 absolutamente oculto aos olhos em qualquer outra mat\u00e9ria. Pareceria, pois, dispens\u00e1vel recorrer, para a explica\u00e7\u00e3o dos fen\u00f4menos da sociedade, a essas causas ditas gerais que os f\u00edsicos e naturalistas se veem obrigados a criar sob o nome de for\u00e7as, energias, condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia e outros paliativos verbais de sua ignor\u00e2ncia quanto ao \u00edntimo claro das coisas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas os atos humanos considerados como os \u00fanicos fatores da hist\u00f3ria! Isso \u00e9 demasiado simples. Imp\u00f4s-se a obriga\u00e7\u00e3o de forjar outras causas \u00e0 semelhan\u00e7a dessas fic\u00e7\u00f5es \u00fateis que em outros ramos correm for\u00e7adas, e felicitou-se quem p\u00f4de assim emprestar por vezes aos fatos humanos vistos de muito alto, perdidos de vista, na verdade, uma cor inteiramente impessoal. Guardemo-nos desse idealismo vago; guardemo-nos tamb\u00e9m do individualismo banal que consiste em explicar as transforma\u00e7\u00f5es sociais pelo capricho de alguns grandes homens. Digamos antes que elas se explicam pela apari\u00e7\u00e3o, acidental em certa medida quanto ao lugar e ao momento, de algumas grandes ideias, ou melhor de um n\u00famero consider\u00e1vel de ideias pequenas ou grandes, f\u00e1ceis ou dif\u00edceis, na maioria das vezes despercebidas em seu nascimento, raramente gloriosas, em geral an\u00f4nimas, mas sempre ideias novas, e que, por essa novidade, me permitirei batizar coletivamente de inven\u00e7\u00f5es ou descobertas. Por esses dois termos entendo qualquer inova\u00e7\u00e3o ou um aperfei\u00e7oamento, por m\u00ednimo que seja, introduzido numa inova\u00e7\u00e3o anterior, em toda ordem de fen\u00f4menos sociais: linguagem, religi\u00e3o, pol\u00edtica, direito, ind\u00fastria, arte. No momento em que essa novidade, pequena ou grande, \u00e9 concebida ou resolvida por um homem, nada muda de apar\u00eancia no corpo social, assim como nada muda no aspecto f\u00edsico de um organismo em que entrou um micr\u00f3bio, seja ele funesto, seja ben\u00e9fico; e as mudan\u00e7as graduais que traz a introdu\u00e7\u00e3o desse elemento novo no corpo social parecem suceder, sem descontinuidade vis\u00edvel, \u00e0s mudan\u00e7as anteriores no curso das quais se inserem. Da\u00ed surge uma ilus\u00e3o enganosa que leva os historiadores fil\u00f3sofos a afirmar a continuidade real e fundamental das metamorfoses hist\u00f3ricas. Suas verdadeiras causas, por\u00e9m, se resolvem numa cadeia de ideias muito numerosas, \u00e9 verdade, mas distintas e descont\u00ednuas, embora unidas entre si pelos atos de imita\u00e7\u00e3o, ainda mais numerosos, que as tomaram por modelos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso partir da\u00ed, isto \u00e9, de iniciativas renovadoras que, trazendo ao mundo ao mesmo tempo necessidades novas e novas satisfa\u00e7\u00f5es, se propagam depois por imita\u00e7\u00e3o for\u00e7ada ou espont\u00e2nea, eletiva ou inconsciente, mais ou menos rapidamente, mas a um passo regular, \u00e0 maneira de uma onda luminosa ou de uma fam\u00edlia de cupins. A regularidade de que falo mal se mostra nos fatos sociais, mas a\u00ed a descobriremos se os decompusermos em tantos elementos quantos eles cont\u00eam, no mais simples dentre eles, de inven\u00e7\u00f5es distintas combinadas, de lampejos de g\u00eanio acumulados e tornados luzes banais: an\u00e1lise, \u00e9 certo, muito dif\u00edcil. Socialmente, tudo n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o inven\u00e7\u00f5es e imita\u00e7\u00f5es, e estas s\u00e3o os rios das quais aquelas s\u00e3o as montanhas; certamente nada muito sutil essa vis\u00e3o; mas, seguindo-a audaciosamente, sem reservas, desdobrando-a do menor detalhe at\u00e9 o conjunto mais completo dos fatos, talvez se note o quanto ela \u00e9 pr\u00f3pria para real\u00e7ar todo o pitoresco e, ao lado, toda a simplicidade da hist\u00f3ria, para nela revelar perspectivas t\u00e3o bizarras quanto um panorama de rochedos ou t\u00e3o regulares quanto um passeio de parque. \u2013 \u00c9 ainda idealismo, caso se queira, mas um idealismo que consiste em explicar a hist\u00f3ria pelas ideias de seus atores e n\u00e3o pelas do historiador.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de tudo, ao considerar sob esse \u00e2ngulo a ci\u00eancia social, v\u00ea-se a sociologia humana ligar-se \u00e0s sociologias animais (por assim dizer) como a esp\u00e9cie ao g\u00eanero: esp\u00e9cie muito singular e infinitamente superior \u00e0s outras, seja, contudo, fraterna. Em seu belo livro sobre as Sociedades animais, que \u00e9 bem anterior \u00e0 primeira edi\u00e7\u00e3o da presente obra, Espinas diz expressamente que os trabalhos das formigas se explicam muito bem pelo princ\u00edpio \u201cda iniciativa individual seguida de imita\u00e7\u00e3o\u201d. Essa iniciativa \u00e9 sempre uma inova\u00e7\u00e3o, uma inven\u00e7\u00e3o igual \u00e0s nossas em aud\u00e1cia de esp\u00edrito. Para ter a ideia de construir um arco, um t\u00fanel aqui ou ali, aqui antes que ali, uma formiga deve ser dotada de uma inclina\u00e7\u00e3o inovadora que iguale ou supere a dos nossos engenheiros que perfuram istmos ou montanhas. A t\u00edtulo de observa\u00e7\u00e3o, segue-se da\u00ed que a imita\u00e7\u00e3o dessas iniciativas t\u00e3o novas pela massa das formigas desmente de maneira flagrante o pretenso misone\u00edsmo dos animais<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Foi muitas vezes que Espinas, em suas observa\u00e7\u00f5es sobre as sociedades de nossos irm\u00e3os inferiores, ficou impressionado com o papel importante que a\u00ed desempenha a iniciativa individual. Cada rebanho de bois selvagens tem seus l\u00edderes, suas cabe\u00e7as influentes. Os aperfei\u00e7oamentos do instinto das aves, segundo o mesmo autor, explicam-se por \u201cuma inven\u00e7\u00e3o parcial, transmitida depois de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o por ensino direto\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Se se pensa que as modifica\u00e7\u00f5es do instinto se prendem provavelmente ao mesmo princ\u00edpio que as modifica\u00e7\u00f5es da esp\u00e9cie e a g\u00eanese de novas esp\u00e9cies, talvez se seja tentado a perguntar se o princ\u00edpio da inven\u00e7\u00e3o imitada, ou de algo de an\u00e1logo fisiologicamente, n\u00e3o seria a explica\u00e7\u00e3o mais clara poss\u00edvel do problema sempre pendente das origens espec\u00edficas? Mas deixemos essa quest\u00e3o e limitemo-nos a constatar que, animais ou humanas, as sociedades se deixam explicar por essa maneira de ver.<\/p>\n\n\n\n<p>Em segundo lugar, e essa \u00e9 a tese especial do presente cap\u00edtulo, deste ponto de vista v\u00ea-se o objeto da ci\u00eancia social apresentar uma analogia not\u00e1vel com os outros dom\u00ednios da ci\u00eancia geral e reincorporar-se assim, por assim dizer, ao restante do universo no seio do qual fazia a impress\u00e3o de um corpo estranho.<\/p>\n\n\n\n<p>Em qualquer campo de estudos, as constata\u00e7\u00f5es puras e simples excedem prodigiosamente as explica\u00e7\u00f5es. E, por tudo o que \u00e9 simplesmente constatado, s\u00e3o os dados primeiros, acidentais e bizarros, premissas e fontes de onde decorre tudo o que \u00e9 explicado. H\u00e1 ou houve tais nebulosas, tais globos celestes, de tal massa, de tal volume, a tal dist\u00e2ncia; h\u00e1 tais subst\u00e2ncias qu\u00edmicas; h\u00e1 tais tipos de vibra\u00e7\u00f5es et\u00e9reas, chamadas luz, eletricidade, magnetismo; h\u00e1 tais tipos org\u00e2nicos principais, e primeiro h\u00e1 animais, e h\u00e1 plantas; h\u00e1 tais cadeias montanhosas, chamadas Alpes ou Andes, etc. Quando nos ensinam esses fatos capitais de onde se deduz todo o resto, o astr\u00f4nomo, o qu\u00edmico, o f\u00edsico, o naturalista, o ge\u00f3grafo fazem-nos a obra de s\u00e1bios propriamente ditos? N\u00e3o, fazem uma simples constata\u00e7\u00e3o e n\u00e3o diferem em nada do cronista que relata a expedi\u00e7\u00e3o de Alexandre ou a descoberta da imprensa. Se h\u00e1 uma diferen\u00e7a, veremos, ela \u00e9 inteiramente a favor do historiador. O que, pois, sabemos no sentido cient\u00edfico da palavra? Pode-se, sem d\u00favida, responder: as causas e os fins; e quando chegamos a ver que dois fatos diferentes s\u00e3o produzidos um pelo outro ou colaboram para um mesmo fim, chamamos isso de t\u00ea-los explicado. Contudo, suponhamos um mundo onde nada se assemelha nem se repete, hip\u00f3tese estranha, mas intelig\u00edvel a rigor; um mundo inteiramente de imprevisto e novidade, onde, por assim dizer, sem mem\u00f3ria alguma, a imagina\u00e7\u00e3o criadora tem livre curso, onde os movimentos dos astros fossem sem per\u00edodo, as agita\u00e7\u00f5es do \u00e9ter sem ritmo vibrat\u00f3rio, as gera\u00e7\u00f5es sucessivas sem caracteres comuns e sem tipo heredit\u00e1rio. Nada impede supor, apesar disso, que cada apari\u00e7\u00e3o nessa fantasmagoria seja produzida e determinada mesmo por outra, que ela mesmo trabalhe para originar outra. Ainda poderiam existir causas e fins. Mas haveria lugar para alguma ci\u00eancia nesse mundo? N\u00e3o; e por qu\u00ea? Porque, mais uma vez, n\u00e3o haveria nem semelhan\u00e7as nem repeti\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto \u00e9 o essencial. Conhecer as causas permite prever \u00e0s vezes; mas conhecer as semelhan\u00e7as permite contar e medir sempre, e a ci\u00eancia, antes de tudo, vive de n\u00famero e de medida. Al\u00e9m disso, essencial n\u00e3o significa suficiente. Uma vez encontrado seu campo pr\u00f3prio de semelhan\u00e7as e repeti\u00e7\u00f5es, uma ci\u00eancia nova deve compar\u00e1-las entre si e observar o v\u00ednculo de solidariedade que une suas varia\u00e7\u00f5es concomitantes. Mas, a bem dizer, o esp\u00edrito n\u00e3o compreende bem, n\u00e3o admite de modo definitivo o v\u00ednculo de causa a efeito sen\u00e3o na medida em que o efeito se assemelha \u00e0 causa, repete a causa, quando, por exemplo, uma ondula\u00e7\u00e3o sonora gera outra ondula\u00e7\u00e3o sonora, ou uma c\u00e9lula outra c\u00e9lula semelhante. Nada h\u00e1 mais misterioso, pode-se dizer, do que essas reprodu\u00e7\u00f5es. \u00c9 verdade; mas, aceito esse mist\u00e9rio, nada h\u00e1 mais claro do que tais s\u00e9ries. E cada vez que produzir n\u00e3o significa reproduzir-se, tudo se torna trevas para n\u00f3s<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando as coisas semelhantes s\u00e3o partes de um mesmo todo ou julgadas tais, como as mol\u00e9culas de um mesmo volume de hidrog\u00eanio, ou as c\u00e9lulas lenhosas de uma mesma \u00e1rvore, ou os soldados de um mesmo regimento, a semelhan\u00e7a toma o nome de quantidade e n\u00e3o simplesmente de grupo. Quando, em outras palavras, as coisas que se repetem permanecem anexadas umas \u00e0s outras ao se multiplicarem, como as vibra\u00e7\u00f5es cal\u00f3ricas ou el\u00e9tricas que, ao se acumular no interior de um corpo, o aquecem ou o eletrizam cada vez mais, ou como as forma\u00e7\u00f5es de c\u00e9lulas similares que se multiplicam no corpo de uma crian\u00e7a em crescimento, ou como as ades\u00f5es a uma mesma religi\u00e3o pela convers\u00e3o dos infi\u00e9is, a repeti\u00e7\u00e3o ent\u00e3o chama-se aumento e n\u00e3o simplesmente s\u00e9rie. Em tudo isso, n\u00e3o vejo nada que singularize o objeto da ci\u00eancia social.<\/p>\n\n\n\n<p>Internas ou externas, ali\u00e1s, quantidades ou grupos, aumentos ou s\u00e9ries, as semelhan\u00e7as, as repeti\u00e7\u00f5es fenomenais s\u00e3o os temas necess\u00e1rios das diferen\u00e7as e das varia\u00e7\u00f5es universais, as tramas desses bordados, as medidas dessa m\u00fasica. O mundo fantasmag\u00f3rico que supus h\u00e1 pouco seria, no fundo, o menos ricamente diferenciado dos mundos poss\u00edveis. Quanto em nossas sociedades o trabalho, ac\u00famulo de a\u00e7\u00f5es copiadas umas nas outras, n\u00e3o \u00e9 mais renovador do que as revolu\u00e7\u00f5es! E o que h\u00e1 de mais mon\u00f3tono do que a vida livre do selvagem comparada \u00e0 vida sujeita do homem civilizado? Sem a hereditariedade, haveria progresso org\u00e2nico poss\u00edvel? Sem a periodicidade dos movimentos celestes, sem o ritmo ondulat\u00f3rio dos movimentos terrestres, teria a exuberante variedade das eras geol\u00f3gicas e das cria\u00e7\u00f5es vivas eclodido?<\/p>\n\n\n\n<p>As repeti\u00e7\u00f5es servem, pois, \u00e0s varia\u00e7\u00f5es. Caso se admitisse o contr\u00e1rio, a necessidade da morte \u2013 problema considerado quase insol\u00favel por Delboeuf em seu livro sobre a mat\u00e9ria bruta e a mat\u00e9ria viva \u2013 n\u00e3o se compreenderia; pois, por que o pi\u00e3o vivo, uma vez lan\u00e7ado, n\u00e3o giraria eternamente? Mas, se as repeti\u00e7\u00f5es t\u00eam apenas uma raz\u00e3o de ser, a de mostrar sob todas as suas faces uma originalidade \u00fanica que procura vir \u00e0 tona, nessa hip\u00f3tese a morte deve fatalmente ocorrer com o esgotamento das modula\u00e7\u00f5es expressas. \u2013 Observemos, ali\u00e1s, de passagem, que a rela\u00e7\u00e3o do universal ao particular, alimento de toda a controv\u00e9rsia filos\u00f3fica da Idade M\u00e9dia sobre o nominalismo e o realismo, \u00e9 precisamente a da repeti\u00e7\u00e3o para a varia\u00e7\u00e3o. O nominalismo \u00e9 a doutrina segundo a qual os indiv\u00edduos s\u00e3o as \u00fanicas realidades que contam; e por indiv\u00edduos deve entender-se os seres considerados por seu lado diferencial. O realismo, ao contr\u00e1rio, n\u00e3o considera como dignos de aten\u00e7\u00e3o e do nome de realidade, num indiv\u00edduo dado, sen\u00e3o os tra\u00e7os pelos quais ele se assemelha a outros indiv\u00edduos e tende a reproduzir-se em outros indiv\u00edduos semelhantes.<\/p>\n\n\n\n<p>O interesse desse tipo de especula\u00e7\u00e3o aparece quando se pensa que o liberalismo individualista na pol\u00edtica \u00e9 uma esp\u00e9cie particular de nominalismo, e que o socialismo \u00e9 uma esp\u00e9cie particular de realismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Toda repeti\u00e7\u00e3o, social, org\u00e2nica ou f\u00edsica, tanto faz, isto \u00e9, imitativa, heredit\u00e1ria ou vibrat\u00f3ria (para nos atermos apenas \u00e0s formas mais marcantes e t\u00edpicas da Repeti\u00e7\u00e3o universal), procede de uma inova\u00e7\u00e3o, como toda luz procede de um foco; e assim o normal, em toda ordem de conhecimento, parece derivar do acidental. Pois, tanto a propaga\u00e7\u00e3o de uma for\u00e7a atrativa ou de uma vibra\u00e7\u00e3o luminosa a partir de um astro, ou a de uma ra\u00e7a animal a partir de um primeiro casal, ou a de uma ideia, de uma necessidade, de um rito religioso, em toda uma na\u00e7\u00e3o, a partir de um s\u00e1bio, de um inventor, de um mission\u00e1rio, nos parecem fen\u00f4menos naturais e regularmente ordenados, tanto o ordenamento em parte informul\u00e1vel no qual apareceram ou se justapuseram os focos de todas essas irradia\u00e7\u00f5es, por exemplo, as diversas ind\u00fastrias, religi\u00f5es, institui\u00e7\u00f5es sociais, os diversos tipos org\u00e2nicos, as diversas subst\u00e2ncias qu\u00edmicas ou massas celestes, nos surpreende sempre por sua estranheza. Todas essas belas uniformidades ou essas belas s\u00e9ries \u2013 o hidrog\u00eanio id\u00eantico a si mesmo na infinita multiplicidade de seus \u00e1tomos dispersos entre todos os astros do c\u00e9u, ou a expans\u00e3o da luz de uma estrela na imensid\u00e3o do espa\u00e7o; o protoplasma id\u00eantico a si mesmo de um extremo a outro da escala vivente, ou a sucess\u00e3o inalter\u00e1vel de incalcul\u00e1veis gera\u00e7\u00f5es de esp\u00e9cies marinhas desde os tempos geol\u00f3gicos; as ra\u00edzes verbais das l\u00ednguas indo-europeias id\u00eanticas em quase toda a humanidade civilizada, ou a transmiss\u00e3o notavelmente fiel das palavras, da l\u00edngua copta dos antigos eg\u00edpcios at\u00e9 n\u00f3s, etc. \u2013 todas essas multid\u00f5es inumer\u00e1veis de coisas semelhantes e semelhantemente ligadas, cuja coexist\u00eancia ou sucess\u00e3o igualmente harmoniosa admiramos, prendem-se a acidentes f\u00edsicos, biol\u00f3gicos, sociais cujo v\u00ednculo nos desorienta.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda aqui a analogia prossegue entre os fatos sociais e os outros fen\u00f4menos da natureza. Se, por\u00e9m, os primeiros, considerados por meio dos historiadores e mesmo dos soci\u00f3logos, nos d\u00e3o a impress\u00e3o de um caos, ao passo que os outros, vistos por meio dos f\u00edsicos, qu\u00edmicos, fisiologistas, deixam a impress\u00e3o de mundos muito bem ordenados, n\u00e3o h\u00e1 de se estranhar. Esses \u00faltimos s\u00e1bios nos mostram o objeto de sua ci\u00eancia apenas pelo lado das similaridades e das repeti\u00e7\u00f5es que lhe s\u00e3o pr\u00f3prias, relegando a uma sombra prudente o lado das heterogeneidades e das transforma\u00e7\u00f5es (ou transubstancia\u00e7\u00f5es) correspondentes. Os historiadores e os soci\u00f3logos, ao contr\u00e1rio, lan\u00e7am um v\u00e9u sobre a face mon\u00f3tona e regulada dos fatos sociais, sobre os fatos sociais enquanto se assemelham e se repetem, e n\u00e3o nos apresentam sen\u00e3o seu aspecto acidentado e interessante, renovado e diversificado at\u00e9 o infinito. Caso se trate dos galo-romanos, mesmo o historiador, ainda que fil\u00f3sofo, n\u00e3o ter\u00e1 a ideia, imediatamente ap\u00f3s a conquista de C\u00e9sar, de nos passear passo a passo por toda a G\u00e1lia para nos mostrar cada palavra latina, cada rito romano, cada comando, cada manobra militar, para uso das legi\u00f5es romanas, cada of\u00edcio, cada costume, cada servi\u00e7o, cada lei, enfim cada ideia especial e cada necessidade especial importadas de Roma, em processo de irradiar progressivamente dos Pireneus ao Reno e de conquistar sucessivamente, ap\u00f3s uma luta mais ou menos viva contra as antigas ideias e os antigos usos celtas, todas as bocas, todos os bra\u00e7os, todos os cora\u00e7\u00f5es e todos os esp\u00edritos gauleses, copistas entusiastas de C\u00e9sar e de Roma. Certamente, se ele nos fizer fazer uma vez essa longa caminhada, n\u00e3o nos a far\u00e1 repetir tantas vezes quantas palavras ou formas gramaticais h\u00e1 na l\u00edngua romana, quantas formalidades rituais h\u00e1 na religi\u00e3o romana ou manobras aprendidas pelos legion\u00e1rios com seus oficiais instrutores, quantas variedades h\u00e1 na arquitetura romana \u2013 templos, bas\u00edlicas, teatros, circos, aquedutos, vilas com seu \u00e1trio, etc. \u2013, quantos versos de Virg\u00edlio ou de Hor\u00e1cio s\u00e3o ensinados nas escolas a milh\u00f5es de escolares, quantas leis h\u00e1 na legisla\u00e7\u00e3o romana, quantos processos industriais e art\u00edsticos s\u00e3o transmitidos fielmente e indefinidamente de oper\u00e1rio a aprendiz e de mestre a aluno na civiliza\u00e7\u00e3o romana. No entanto, s\u00f3 a esse pre\u00e7o se pode ter uma no\u00e7\u00e3o exata da enorme dose de regularidade que as sociedades mais agitadas cont\u00eam.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois, quando o cristianismo tiver surgido, o mesmo historiador evitar\u00e1, sem d\u00favida, nos obrigar a repetir essa enfadonha peregrina\u00e7\u00e3o a prop\u00f3sito de cada rito crist\u00e3o que se propaga na G\u00e1lia pag\u00e3 n\u00e3o sem resist\u00eancia, \u00e0 maneira de uma onda sonora em um ar j\u00e1 vibrante. Em contrapartida, nos dir\u00e1 que, em certa data, J\u00falio C\u00e9sar conquistou a G\u00e1lia, e que, em outra, tais santos vieram pregar a doutrina crist\u00e3 nessa regi\u00e3o. Talvez tamb\u00e9m nos enumere os diversos elementos que comp\u00f5em a civiliza\u00e7\u00e3o romana ou a f\u00e9 e a moral crist\u00e3s introduzidas no mundo gaul\u00eas. O problema ent\u00e3o se colocar\u00e1 para ele de compreender, de apresentar sob uma luz racional, l\u00f3gica, cient\u00edfica, essa sobreposi\u00e7\u00e3o bizarra do cristianismo sobre o romanismo, ou melhor, da cristianiza\u00e7\u00e3o gradual sobre a romaniza\u00e7\u00e3o gradual; e a dificuldade n\u00e3o ser\u00e1 menor ao explicar racionalmente, no romanismo e no cristianismo tomados separadamente, a justaposi\u00e7\u00e3o estranha de farrapos etruscos, gregos, orientais e outros, bastante heterog\u00eaneos entre si, que constituem um, e de ideias judaicas, eg\u00edpcias, bizantinas, pouco coerentes ali\u00e1s, mesmo dentro de cada grupo distinto, que constituem o outro. \u00c9, no entanto, essa \u00e1rdua tarefa que o fil\u00f3sofo da hist\u00f3ria se propor\u00e1; ele n\u00e3o crer\u00e1 poder elidi-la se quiser agir como cientista, e cansar\u00e1 o c\u00e9rebro tentando p\u00f4r ordem nesse desordem, procurando a lei desses acasos e a raz\u00e3o desses encontros. Seria melhor procurar como e por que \u00e0s vezes desses encontros resultam harmonias, e em que consistem essas harmonias. Tentaremos isso mais adiante.<\/p>\n\n\n\n<p>Em suma, \u00e9 como se um bot\u00e2nico se julgasse obrigado a negligenciar tudo o que diz respeito \u00e0 gera\u00e7\u00e3o das plantas de uma mesma esp\u00e9cie ou de uma mesma variedade, e tamb\u00e9m ao seu crescimento e \u00e0 sua nutri\u00e7\u00e3o, esp\u00e9cie de gera\u00e7\u00e3o celular ou de regenera\u00e7\u00e3o dos tecidos; ou como se um f\u00edsico desdenhasse o estudo das ondula\u00e7\u00f5es sonoras, luminosas, calor\u00edficas e de seu modo de propaga\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s dos diferentes meios, eles mesmos ondulat\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Imagine-se um convencido de que o objeto pr\u00f3prio e exclusivo de sua ci\u00eancia \u00e9 o encadeamento dos tipos espec\u00edficos dissemelhantes, desde a primeira alga at\u00e9 a \u00faltima orqu\u00eddea, e a justificativa profunda desse encadeamento; e outro convencido de que seus estudos t\u00eam por \u00fanico fim investigar por que raz\u00e3o h\u00e1 exatamente os sete modos de ondula\u00e7\u00e3o luminosa que conhecemos, assim como a eletricidade e o magnetismo, e n\u00e3o outras esp\u00e9cies de vibra\u00e7\u00e3o et\u00e9rea? Quest\u00f5es certamente interessantes e que o fil\u00f3sofo pode suscitar, mas n\u00e3o o cientista, pois sua solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o parece jamais suscept\u00edvel de alcan\u00e7ar o alto grau de probabilidade exigido por este \u00faltimo. \u00c9 claro que a primeira condi\u00e7\u00e3o para ser anatomista ou fisiologista \u00e9 o estudo dos tecidos, agregados de c\u00e9lulas, de fibras, de vasos semelhantes, ou o estudo das fun\u00e7\u00f5es, ac\u00famulo de pequenas contra\u00e7\u00f5es, de pequenas inerva\u00e7\u00f5es, de pequenas oxida\u00e7\u00f5es ou desoxida\u00e7\u00f5es semelhantes; enfim e antes de tudo a f\u00e9 na hereditariedade, essa grande art\u00edfice da vida. E n\u00e3o \u00e9 menos claro que, para ser qu\u00edmico ou f\u00edsico, antes de tudo \u00e9 preciso examinar muitos volumes gasosos, l\u00edquidos, s\u00f3lidos, feitos de corp\u00fasculos todos iguais, ou de chamadas for\u00e7as f\u00edsicas que s\u00e3o massas prodigiosas de pequenas vibra\u00e7\u00f5es similares acumuladas. Tudo se reduz, de fato, ou est\u00e1 sendo reduzido, no mundo f\u00edsico, \u00e0 ondula\u00e7\u00e3o; tudo nele assume cada vez mais um car\u00e1ter essencialmente ondulat\u00f3rio, assim como no mundo vivo a faculdade geradora, a propriedade de transmitir hereditariamente as menores particularidades (nascidas, na maioria das vezes, n\u00e3o se sabe como) \u00e9 cada vez mais julgada inerente \u00e0 menor c\u00e9lula.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Nas esp\u00e9cies superiores de formigas, segundo Espinas, \u201co indiv\u00edduo desenvolve uma iniciativa surpreendente\u201d. Como come\u00e7am os trabalhos, as migra\u00e7\u00f5es das formigueiros? \u00c9 por um impulso comum, instintivo, espont\u00e2neo, vindo de todos os associados ao mesmo tempo, sob a press\u00e3o de circunst\u00e2ncias externas sofridas ao mesmo tempo por todas as formigas? N\u00e3o; um indiv\u00edduo se destaca, come\u00e7a a trabalhar primeiro e bate seus vizinhos com suas antenas para avis\u00e1-los a lhe prestar ajuda. A cont\u00e1gio imitativo faz o resto.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> \u201cO conhecimento cient\u00edfico n\u00e3o deve necessariamente partir das menores coisas hipot\u00e9ticas e desconhecidas. Ele encontra seu come\u00e7o em qualquer lugar onde a mat\u00e9ria formou unidades de ordem semelhante, que podem ser comparadas entre si e medidas umas pelas outras; em qualquer lugar onde essas unidades se re\u00fanem em unidades compostas de ordem mais elevada, fornecendo elas mesmas a medida de compara\u00e7\u00e3o dessas \u00faltimas.\u201d (Von Naegeli, Discurso no congresso dos naturalistas alem\u00e3es em 1877.)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea ir\u00e1 ler, a seguir, um trecho da obra &#8220;As Leis da Imita\u00e7\u00e3o&#8221; de Gabriel Tarde. Caso tenha interesse adquirir a obra, ou conhecer mais detalhes sobre essa edi\u00e7\u00e3o, clique aqui, ou na imagem da capa abaixo. I. A repeti\u00e7\u00e3o universal I. Regularidade n\u00e3o percebida dos fatos sociais sob certo\u2026<\/p>\n<p class=\"continue-reading-button\"> <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2025\/10\/11\/as-leis-da-imitacao-de-gabriel-tarde\/\">Leia mais<i class=\"crycon-right-dir\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1258,"comment_status":"closed","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5,57],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1265"}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1265"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1265\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1266,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1265\/revisions\/1266"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1258"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1265"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1265"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1265"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}