{"id":1284,"date":"2026-01-18T20:25:59","date_gmt":"2026-01-18T20:25:59","guid":{"rendered":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=1284"},"modified":"2026-01-18T20:25:59","modified_gmt":"2026-01-18T20:25:59","slug":"os-insulares-de-andaman-de-radcliffe-brown","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2026\/01\/18\/os-insulares-de-andaman-de-radcliffe-brown\/","title":{"rendered":"Os Insulares de Andaman de Radcliffe-Brown"},"content":{"rendered":"\n<p>Voc\u00ea ir\u00e1 ler, a seguir, um trecho da obra &#8220;Os Insulares de Andaman&#8221;. Caso tenha interesse em adquirir a obra, seja na vers\u00e3o impressa, seja em ebook, <a href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/os-insulares-de-andaman\/\">clique aqui<\/a>, ou na imagem da capa abaixo. <\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"231\" height=\"328\" src=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/capinha_insulares.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1280\" srcset=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/capinha_insulares.jpg 231w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/capinha_insulares-211x300.jpg 211w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/capinha_insulares-106x150.jpg 106w\" sizes=\"(max-width: 231px) 100vw, 231px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"> <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><a>I. A organiza\u00e7\u00e3o social<\/a><\/h1>\n\n\n\n<p>Neste cap\u00edtulo trataremos dos costumes e das institui\u00e7\u00f5es pelos quais os nativos do Grande Andaman regulavam a conduta entre si. Desde o in\u00edcio, \u00e9 preciso ter a ideia mais clara poss\u00edvel da estrutura da sociedade andamanesa. Essa estrutura, como ser\u00e1 mostrado, \u00e9 extremamente simples.<\/p>\n\n\n\n<p>O que realmente interessa ao etn\u00f3logo \u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o social dessas tribos como existia antes da ocupa\u00e7\u00e3o europeia das ilhas. As mudan\u00e7as ocorridas nos \u00faltimos anos foram extensas, sendo a mais importante a grande diminui\u00e7\u00e3o do n\u00famero de indiv\u00edduos e a fus\u00e3o do que antes eram comunidades distintas e frequentemente hostis. Ainda assim, \u00e9 relativamente f\u00e1cil descobrir, por meio dos pr\u00f3prios nativos, qual era a constitui\u00e7\u00e3o da sociedade em tempos passados, embora persistam pontos sobre os quais n\u00e3o se consiga obter informa\u00e7\u00f5es satisfat\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando as ilhas foram ocupadas pela primeira vez pelos brit\u00e2nicos, antes que a despovoa\u00e7\u00e3o afetasse suas institui\u00e7\u00f5es, os nativos do Grande Andaman viviam em pequenas comunidades espalhadas pelas ilhas, principalmente na costa, com algumas delas localizadas na floresta do interior. Cada uma dessas comunidades \u2013 que chamaremos de \u201cgrupo local\u201d \u2013 era independente e aut\u00f4noma, vivia \u00e0 sua maneira e regulava seus pr\u00f3prios assuntos. Havia rela\u00e7\u00f5es ocasionais entre grupos vizinhos: visitantes podiam deslocar\u2011se de um para outro; dois grupos podiam reunir\u2011se por alguns dias em festas e dan\u00e7as. Por outro lado, n\u00e3o eram raras as desaven\u00e7as entre vizinhos, que podiam resultar em rivalidades prolongadas. Entre comunidades separadas por uma dist\u00e2ncia de apenas cinquenta milhas ou menos, n\u00e3o havia rela\u00e7\u00f5es diretas. Os membros de uma comunidade mantinham\u2011se em sua pr\u00f3pria regi\u00e3o, saindo apenas para visitar amigos num raio restrito.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses grupos locais formavam unidades maiores, as tribos. Uma tribo era composta por v\u00e1rios grupos locais que falavam, segundo os pr\u00f3prios nativos, uma \u00fanica l\u00edngua; cada tribo tinha, portanto, sua l\u00edngua e seu nome. A tribo tinha pouca import\u00e2ncia na regula\u00e7\u00e3o da vida social, funcionando apenas como um agregado frouxo de grupos locais independentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Os grupos locais tamb\u00e9m eram distinguidos pelos pr\u00f3prios nativos segundo sua localiza\u00e7\u00e3o \u2013 costa ou interior \u2013 divis\u00e3o que era independente da divis\u00e3o em tribos. Algumas tribos eram formadas apenas por habitantes costeiros, enquanto outras inclu\u00edam tanto moradores da costa quanto da floresta.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro do grupo local, a \u00fanica divis\u00e3o era a familiar. A fam\u00edlia consistia de um homem, sua esposa e seus filhos n\u00e3o casados, sejam biol\u00f3gicos ou adotados.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas eram as \u00fanicas divis\u00f5es sociais entre os andamaneses; n\u00e3o existiam as divis\u00f5es conhecidas como \u201ccl\u00e3s\u201d, caracter\u00edsticas de muitas sociedades primitivas.<\/p>\n\n\n\n<p>Os nativos do Grande Andaman (excluindo os J\u030c<em><u>a<\/u><\/em>rawa, que por l\u00edngua e cultura pertencem \u00e0 divis\u00e3o da Pequena Andaman) estavam divididos em dez tribos, cada uma ocupando determinada regi\u00e3o do territ\u00f3rio. Cada tribo era formada por pessoas que falavam, segundo os nativos, uma \u00fanica l\u00edngua.<\/p>\n\n\n\n<p>O fato de a tribo ser, fundamentalmente, um grupo lingu\u00edstico fica demonstrado pelos nomes tribais. Eles s\u00e3o todos formados a partir de um radical precedido do prefixo <em>Aka-<\/em>, usado nas l\u00ednguas do Grande Andaman para indicar refer\u00eancia \u00e0 boca e, por extens\u00e3o, \u00e0 fala. Assim, na l\u00edngua <em>Aka<\/em>\u2011<em>J\u030ceru<\/em>, o radical <em>po\u03b7<\/em> significa \u201cum buraco de qualquer tipo\u201d, e <em>Aka<\/em><em>\u2011po\u03b7<\/em> significa \u201ca boca\u201d, n\u00e3o havendo outra palavra para essa parte do corpo. Na mesma l\u00edngua, o radical -ar- (que significa \u201cfalar\u201d) s\u00f3 pode ser usado com o prefixo <em>Aka-<\/em>, como em <em>ak\u2019-ar-ka<\/em>, \u201cele diz\u201d. O prefixo caracter\u00edstico dos nomes tribais indica, portanto, que esses nomes s\u00e3o, de fato, nomes de l\u00ednguas.<\/p>\n\n\n\n<p>Os significados ou as deriva\u00e7\u00f5es de alguns nomes tribais n\u00e3o foram determinados com certeza. O nome <em>Aka<\/em>\u2011<em>\u010cari<\/em> deriva da palavra cari, que significa \u201c\u00e1gua salgada\u201d, e, portanto, significa \u201ca l\u00edngua da \u00e1gua salgada\u201d. De maneira semelhante, <em>Aka<\/em>\u2011<em>J\u030ceru<\/em> deriva de <em>J\u030ceru<\/em>, uma esp\u00e9cie de <em>Sterculia<\/em> utilizada na confec\u00e7\u00e3o de canoas. Nas l\u00ednguas do Norte, <em>ot<\/em><em>\u2011bo<\/em> significa \u201cas costas\u201d de qualquer coisa, e o\u03b7\u2011Kora significa \u201ca m\u00e3o\u201d; \u00e9 poss\u00edvel que <em>Aka<\/em>\u2011Bo e <em>Aka<\/em>\u2011Kora se relacionem com esses radicais (os<em> ot<\/em><em>\u2011 <\/em>e<em> o\u03b7<\/em><em>\u2011 <\/em>sendo prefixos), mas n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancia de que os nativos pensem dessa forma hoje. Entre as tribos do Sul, <em>Akar<\/em><em>\u2011Bale<\/em> deriva de uma palavra que significa \u201co outro lado\u201d de um riacho ou estreito, referindo\u2011se \u00e0 sua posi\u00e7\u00e3o no arquip\u00e9lago. O nome A\u2011<em>Pu\u010dik<\/em>\u2011<em>war<\/em> (equivalente a <em>Aka<\/em><em>\u2011Bea<\/em> \u00e9 <em>Aka<\/em>\u2011<em>Bo<\/em><em>\u01f0ig<\/em>\u2011yab) significa \u201caqueles que falam nossa pr\u00f3pria l\u00edngua\u201d, a partir do radical <em>pu\u010dik<\/em> (<em>Aka<\/em><em>\u2011Bea<\/em>, <em>bo<\/em><em>\u01f0ig<\/em>), que quer dizer \u201cpertencente a n\u00f3s mesmos\u201d, em oposi\u00e7\u00e3o a estranhos da mesma ra\u00e7a. O Sr. Portman<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a> fornece os seguintes significados para outros nomes tribais do Sul e do Meio Andaman, embora as deriva\u00e7\u00f5es sejam um tanto duvidosas: <em>Aka<\/em><em>\u2011Bea<\/em> \u2013 \u00e1gua doce; <em>Oko<\/em>\u2011<em>Juwoi<\/em> \u2013 \u201celes cortam padr\u00f5es em seus arcos\u201d; <em>Aka<\/em>\u2011<em>K<u>o<\/u>l<\/em> \u2013 sabor amargo ou salgado.<\/p>\n\n\n\n<p>Aproveito para apontar dois erros nos nomes das tribos dados no \u201cRelat\u00f3rio do Censo\u201d de 1901. O nome <em>Aka<\/em>\u2011<em>\u010cari<\/em> aparece como <em>Aka<\/em>\u2011Chariar; o radical -ar significa \u201cfalar\u201d e n\u00e3o \u00e9 parte essencial do nome tribal \u2013 por exemplo, <em>Aka<\/em><em>\u2011\u010cari<\/em><em>\u2011ar<\/em><em>\u2011bom<\/em> significa \u201cele fala a l\u00edngua <em>\u010cari<\/em>\u201d. O nome <em>Aka<\/em>\u2011Bo aparece como <em>Aka<\/em>\u2011Tabo;<em> t\u2019<\/em>a\u2011Bo significa \u201ceu (sou) <em>Aka<\/em>\u2011Bo\u201d, assim como<em> t\u2019<\/em>a\u2011<em>J\u030ceru<\/em> significa \u201ceu (sou) <em>Aka<\/em>\u2011<em>J\u030ceru<\/em>\u201d, o prefixo <em>Aka<\/em>\u2011 sendo contra\u00eddo para a\u2011 ap\u00f3s o pronome pessoal<em> t\u2019<\/em> (= eu ou meu).<\/p>\n\n\n\n<p>Embora os nativos reconhecessem e nomeassem dez l\u00ednguas distintas, todas eram intimamente relacionadas. Em geral, n\u00e3o havia grande diferen\u00e7a entre l\u00ednguas vizinhas: um homem da tribo <em>Aka<\/em>\u2011<em>J\u030ceru<\/em> podia compreender, sem muita dificuldade, um homem falando <em>Aka<\/em>\u2011Bo. Por outro lado, muitas l\u00ednguas apresentavam dois ou mais dialetos distintos.<\/p>\n\n\n\n<p>Na tribo <em>Akar-Bale<\/em> havia dois dialetos: um, na metade sul do arquip\u00e9lago, aliado ao <em>Aka-Bea<\/em>; o outro, na metade norte, mostrava afinidades com A-Pu\u010dikwar. At\u00e9 em tribos pequenas, como a <em>Aka-\u010cari<\/em>, aparentemente havia diferen\u00e7as dialetais. Assim, do ponto de vista lingu\u00edstico, a tribo n\u00e3o era inteiramente homog\u00eanea.<\/p>\n\n\n\n<p>Deixando de lado o <em>Aka-Bea<\/em>, a extens\u00e3o m\u00e9dia do territ\u00f3rio ocupado por uma tribo era de cerca de 163 milhas quadradas. Das nove tribos, a maior em \u00e1rea era a <em>Aka-Kede<\/em>, com mais de 300 milhas quadradas, enquanto a menor era provavelmente a <em>Aka-\u010cari<\/em>, com menos de 100 milhas quadradas. Exceto no caso da tribo <em>Akar-Bale<\/em>, que ocupava as ilhas do Arquip\u00e9lago de Ritchie, \u00e9 dif\u00edcil encontrar caracter\u00edsticas geogr\u00e1ficas marcantes que tenham determinado a extens\u00e3o e os limites das diferentes tribos. A <em>Aka-Bea<\/em> ocupava uma posi\u00e7\u00e3o an\u00f4mala, pois n\u00e3o havia fronteira reconhecida entre eles e os J\u030c<em><u>a<\/u><\/em>rawa. Juntas, essas duas divis\u00f5es dos andamanenses ocupavam uma \u00e1rea de cerca de 600 milhas quadradas. Os <em>Aka-Bea<\/em> parecem ter permanecido mais na costa, enquanto os J\u030c<em><u>a<\/u><\/em>rawa ocupavam o interior de Andaman do Sul e da ilha Rutland.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a estimativa dada anteriormente da popula\u00e7\u00e3o anterior das ilhas estiver correta, as nove tribos (deixando de lado o <em>Aka-Bea<\/em>) teriam anteriormente contado cerca de 3.750 pessoas de todas as idades. Atualmente, as quatro tribos de Andaman do Norte somam cerca de 400 pessoas, das quais aproximadamente 100 ou menos s\u00e3o crian\u00e7as. As outras seis tribos, juntas (incluindo o quase extinto <em>Aka-Bea<\/em>), totalizam cerca de 200 pessoas, das quais n\u00e3o mais de 30 s\u00e3o crian\u00e7as. O Sr. Man estimou o n\u00famero da tribo <em>Aka-Bea<\/em> (chamada por ele <em>Bo<\/em><em>\u01f0ig<\/em>&#8211; \u03b7i\u01f0i<em>-da<\/em>) em 1882 em cerca de 400, e sup\u00f5e que eles tivessem contado cerca de 1.000 em 1858. Em 1901, essa tribo consistia apenas de 37 pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da divis\u00e3o em tribos, os andamanenses reconhecem outra distin\u00e7\u00e3o, independente da tribalidade: habitantes da costa e habitantes da floresta. Na l\u00edngua <em>Aka-Bea<\/em>, os habitantes da costa s\u00e3o chamados Ar-yoto, enquanto os habitantes da floresta s\u00e3o chamados <em><u>E<\/u>rem<\/em>-taga. A diferen\u00e7a entre eles deve-se unicamente \u00e0 fonte de seu alimento. Os Ar-yoto obt\u00eam grande parte da sua comida do mar; s\u00e3o especialistas em pesca e na ca\u00e7a de tartarugas. Fazem canoas e as usam n\u00e3o apenas para ca\u00e7ar, mas tamb\u00e9m para deslocar-se de um acampamento a outro. Parte de sua alimenta\u00e7\u00e3o prov\u00e9m tamb\u00e9m da floresta, destacando-se ra\u00edzes, frutos comest\u00edveis e a carne do javali selvagem. Por outro lado, os <em><u>E<\/u>rem<\/em>-taga dependem exclusivamente da floresta e dos riachos interiores para seu sustento. O \u00fanico uso que fazem das canoas \u00e9 nos riachos. N\u00e3o praticam a ca\u00e7a de tartarugas ou dugongos, mas sentem\u2011se mais \u00e0 vontade na floresta do que os habitantes da costa e, em geral, s\u00e3o mais habilidosos na ca\u00e7a de porcos. A vantagem certamente recai sobre os habitantes da costa, pois t\u00eam tanto o mar quanto a floresta \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas tribos consistem apenas em habitantes da costa, como os <em>Aka<\/em> <em>\u010cari<\/em>, os <em>Akar-Bale<\/em> e talvez os <em>Aka-K<u>o<\/u>l<\/em>. Por outro lado, os <em>Aka-<\/em>Bo, embora seu territ\u00f3rio inclua parte da costa oeste, s\u00e3o, pela ocupa\u00e7\u00e3o e modo de vida, habitantes da floresta; o mesmo parece ter sido o caso dos <em>Oko<\/em>&#8211;<em>Juwoi<\/em>. As tribos A-Pu\u010dikwar, <em>Aka-Kede<\/em>, <em>Aka-J\u030ceru<\/em> e talvez tamb\u00e9m os <em>Aka-<\/em>Kora reuniam tanto habitantes da costa quanto habitantes da floresta. Antigamente, cada tribo era formada por um certo n\u00famero de grupos locais independentes.<\/p>\n\n\n\n<p>O grupo local, e n\u00e3o a tribo, era o propriet\u00e1rio da terra: cada grupo possu\u00eda ou exercia direitos de ca\u00e7a sobre uma \u00e1rea determinada e reconhecida. Atualmente, devido \u00e0 desintegra\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o local \u2013 causada pela coloniza\u00e7\u00e3o das ilhas e pela consequente diminui\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 dif\u00edcil determinar qual \u00e1rea do territ\u00f3rio era ocupada por cada grupo local. Em muitos casos, parece que as fronteiras entre dois grupos vizinhos n\u00e3o eram muito bem definidas, havendo por\u00e7\u00f5es de floresta sobre as quais membros de ambos ca\u00e7avam quando os grupos estavam em paz<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que, nas localidades mais favor\u00e1veis, particularmente na costa, o territ\u00f3rio ocupado por um \u00fanico grupo era menor do que em regi\u00f5es com menor abund\u00e2ncia de recursos. \u00c9 prov\u00e1vel que os grupos locais que habitavam a floresta ocupassem \u00e1reas consideravelmente maiores do que os grupos costeiros. Alguns dos grupos costeiros parecem ter ocupado \u00e1reas inferiores a dez milhas quadradas.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil determinar, neste momento, exatamente quantas pessoas integravam um grupo local. Mouat, que visitou as ilhas em 1857\u201358, diz sobre os nativos: \u201cRaramente, ou quase nunca, s\u00e3o vistos vivendo isoladamente; v\u00e1rias de suas pequenas cabanas s\u00e3o erguidas na mesma localidade, onde vivem juntos em grupos cujo n\u00famero varia de trinta a trezentas pessoas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em outro trecho:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEm geral, est\u00e3o divididos em pequenos grupos, cujos efetivos variam consideravelmente: alguns n\u00e3o cont\u00eam mais de dez indiv\u00edduos, enquanto outros podem chegar a duzentos ou trezentos. A grande maioria desses grupos nativos \u00e9 composta, em m\u00e9dia, de trinta a cinquenta homens, mulheres e crian\u00e7as, embora por vezes se encontrem reunidos at\u00e9 trezentos indiv\u00edduos.\u201d<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. \u00c9 prov\u00e1vel que um grupo t\u00e3o reduzido quanto dez indiv\u00edduos fosse apenas uma equipe de ca\u00e7a passando um ou alguns dias longe do acampamento principal. Por outro lado, um agrupamento de at\u00e9 trezentas pessoas s\u00f3 poderia ocorrer por ocasi\u00e3o de reuni\u00f5es peri\u00f3dicas de v\u00e1rios grupos locais para festividades. A afirma\u00e7\u00e3o de Mouat de que os grupos consistiam, em m\u00e9dia, de trinta a cinquenta pessoas concorda bem com os relatos dos pr\u00f3prios nativos e pode ser considerada bastante precisa. O Sr. Man, escrevendo em 1882, refere\u2011se aos andamanenses como divididos em comunidades \u201ccada uma consistindo de vinte a cinquenta indiv\u00edduos\u201d, e acrescenta que \u201cacampamentos permanentes variam em tamanho e consistem em v\u00e1rias cabanas, que no total raramente s\u00e3o habitadas por mais de cinquenta a oitenta pessoas\u201d<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir das informa\u00e7\u00f5es obtidas junto aos pr\u00f3prios nativos, conclu\u00ed que um grupo local m\u00e9dio consistia de 40 a 50 pessoas de todas as idades, sendo o n\u00famero m\u00e9dio de grupos locais por tribo cerca de 10. Isso daria uma extens\u00e3o m\u00e9dia do territ\u00f3rio ocupado por cada grupo local de cerca de 16 milhas quadradas, embora alguns grupos tivessem certamente territ\u00f3rios maiores e outros menores.<\/p>\n\n\n\n<p>O Sr. M. V. Portman descreve as tribos da parte sul do Grande Andaman como divididas em aquilo que ele chama de <em>septs<\/em>, sem, contudo, explicar o termo. Afirma que os <em>Aka-Bea<\/em> eram divididos em sete <em>septs<\/em>, os A-Pu\u010dikwar em quatro, os <em>Akar-Bale<\/em> em dois, enquanto os <em>Aka-K<u>o<\/u>l<\/em> e os <em><u>Oko<\/u><\/em>-J\u030cuwoi n\u00e3o tinham subdivis\u00f5es reais<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Seja qual for o sentido que o Sr. Portman quis dar a \u201csept\u201d, \u00e9 claro que ele n\u00e3o o usou para denotar o que aqui chamamos de grupo local, mas alguma subdivis\u00e3o maior da tribo. Esses <em>septs<\/em> parecem ter sido grupos formados por quatro ou cinco grupos locais cada, cujos membros mantinham rela\u00e7\u00f5es amistosas entre si e se reuniam ocasionalmente nas festividades que ser\u00e3o descritas mais adiante neste cap\u00edtulo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o havia, estritamente falando, nomes distintivos para os grupos locais. Um grupo local podia ser identificado por refer\u00eancia ao distrito que ocupava ou a um de seus principais acampamentos. Assim, na tribo <em>Akar-Bale<\/em>, os que ocupavam a ilha de <em>Teb-<\/em><em>\u01f0uru<\/em> eram chamados <em>Teb-<\/em><em>\u01f0uru<\/em>&#8211;<em>wa<\/em> \u2013 <em>wa<\/em> significando \u201cpessoas\u201d \u2013 e os habitantes da costa leste da Ilha Havelock eram denominados <em>Puluga-l\u2019armugu-wa<\/em>, a partir do nome do distrito que ocupavam. Nas tribos de Andaman do Norte, o equivalente a <em>wa<\/em> do sul \u00e9 <em>koloko<\/em>. Alguns dos grupos locais da tribo <em>Aka-<\/em>Bo eram distingu\u00edveis como <em>Teraut buliu koloko<\/em>, <em>Kelera buliu koloko<\/em>, <em>Teradikili buliu koloko<\/em> etc., a partir dos nomes dos riachos (buliu) que ocupavam. Na tribo <em>Aka-\u010cari<\/em>, o grupo local que ocupava a ilha de Tonmuket e o continente adjacente era chamado Tarotolo <em>koloko<\/em>. Quando perguntado a que parte do territ\u00f3rio pertencia, um homem geralmente mencionava um dos principais locais de acampamento de seu grupo local. Assim, um homem do Tarotolo <em>koloko<\/em> podia dizer que pertencia a <em>Laropuli<\/em>, um dos principais acampamentos daquela regi\u00e3o; um homem do Teraut buliu <em>koloko<\/em> podia dizer que pertencia \u00e0 aldeia de \u010cai\u010due.<\/p>\n\n\n\n<p>Um homem ou uma mulher costuma ser considerado pertencente ao grupo local no territ\u00f3rio onde nasceu. Entretanto, nada impede que algu\u00e9m se estabele\u00e7a em outro grupo local, se assim desejar e se os membros desse grupo estiverem dispostos a receb\u00ea\u2011lo. Houve um n\u00famero razo\u00e1vel de casos em que uma pessoa deixava seu grupo local para se juntar a outro. Em particular, quando dois jovens de grupos diferentes se casavam, podiam fixar resid\u00eancia com os pais dele ou dela.<\/p>\n\n\n\n<p>O grupo local, como j\u00e1 foi afirmado, era o propriet\u00e1rio da terra. Um homem podia ca\u00e7ar no territ\u00f3rio de seu pr\u00f3prio grupo a qualquer momento, mas n\u00e3o podia ca\u00e7ar no territ\u00f3rio de outro sem a permiss\u00e3o dos membros desse grupo. Mesmo hoje, quando a organiza\u00e7\u00e3o local est\u00e1 em grande parte desagregada, alguns desses direitos de ca\u00e7a ainda s\u00e3o observados. Notei um caso em que alguns homens pediram e obtiveram permiss\u00e3o para ca\u00e7ar porcos em certa parte do territ\u00f3rio de um homem que era apresentado como o propriet\u00e1rio daquela \u00e1rea, sendo ele um dos poucos sobreviventes do grupo local ao qual pertencia. Em tempos antigos, teria sido uma ofensa que facilmente poderia levar a s\u00e9rias disputas o fato de homens ca\u00e7arem ou pescarem no territ\u00f3rio ou nas \u00e1guas de outro grupo sem autoriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro do territ\u00f3rio de cada grupo local existem v\u00e1rios locais de acampamento reconhecidos. Durante a maior parte do ano, os membros do grupo local viviam juntos em um ou outro desses locais. Alguns acampamentos est\u00e3o em uso h\u00e1 muitos s\u00e9culos, como demonstram montes de lixo com v\u00e1rios p\u00e9s de profundidade, compostos principalmente de conchas de moluscos e ossos de animais. Esses montes de cozinha, como foram chamados, podem ser encontrados em grande n\u00famero ao redor das costas das ilhas. Nas comunidades costeiras, os acampamentos situam\u2011se sempre pr\u00f3ximos \u00e0 costa ou a um riacho, de modo que sejam acess\u00edveis por canoa; para os que habitam o interior, isso n\u00e3o ocorre. Em qualquer caso, um dos principais fatores que determinam a escolha do local \u00e9 a exist\u00eancia de um suprimento de \u00e1gua doce, de extrema import\u00e2ncia sobretudo durante a esta\u00e7\u00e3o seca, quando a \u00e1gua se torna escassa.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro de seu pr\u00f3prio territ\u00f3rio, o grupo local \u00e9 o que podemos chamar de semin\u00f4made. Os habitantes da costa raramente permanecem continuamente no mesmo local por mais de alguns meses; mudam de um acampamento para outro por diversas raz\u00f5es. Se ocorre uma morte, o acampamento \u00e9 abandonado por v\u00e1rios meses e outro \u00e9 ocupado. Muitas mudan\u00e7as ocorrem com a varia\u00e7\u00e3o das esta\u00e7\u00f5es: alguns locais oferecem vantagens em determinados per\u00edodos do ano, como abrigo do vento predominante ou melhor ca\u00e7a e pesca. Outra raz\u00e3o para o abandono de um acampamento pelos costeiros \u00e9 o ac\u00famulo de lixo nas proximidades; ap\u00f3s alguns meses, a mat\u00e9ria org\u00e2nica em decomposi\u00e7\u00e3o torna o local inabit\u00e1vel. Os nativos parecem achar mais f\u00e1cil deslocar o acampamento do que limpar o lixo. Talvez estejam t\u00e3o acostumados a mover\u2011se para aproveitar melhor os recursos naturais que n\u00e3o tomam as medidas sanit\u00e1rias que seriam necess\u00e1rias se desejassem permanecer muitos meses seguidos no mesmo lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>Os habitantes da floresta s\u00e3o menos n\u00f4mades que os costeiros. Uma raz\u00e3o \u00e9 que, por n\u00e3o poderem transportar seus pertences por canoa, precisam carreg\u00e1\u2011los por terra, e mudar de acampamento \u00e9, portanto, mais cansativo. Durante grande parte do ano, os habitantes da floresta costumam permanecer em um acampamento que funciona como o acampamento principal do grupo; em particular, l\u00e1 passam toda a esta\u00e7\u00e3o chuvosa. Nas esta\u00e7\u00f5es fria e quente, deixam o acampamento principal por alguns meses, adotando uma vida mais n\u00f4made em acampamentos tempor\u00e1rios de ca\u00e7a e visitando amigos em outros grupos. No in\u00edcio da esta\u00e7\u00e3o chuvosa, retornam ao acampamento principal. Os acampamentos dos nativos da Grande Andaman podem ser distinguidos em tr\u00eas tipos. Do primeiro tipo fazem parte os que podem ser chamados de acampamentos permanentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Certamente cada grupo de habitantes da floresta, e provavelmente cada grupo da costa, tinha um acampamento permanente que servia, por assim dizer, como sede do grupo. Nesse local erguia\u2011se uma cabana comunit\u00e1ria ou uma vila cuidadosamente constru\u00edda. As cabanas comunit\u00e1rias ca\u00edram em desuso recentemente, uma vez que os nativos agora vagam pelas ilhas com muito mais liberdade do que antes. N\u00e3o vi nenhuma durante minha visita \u00e0 Grande Andaman, embora me tenham falado de uma em ru\u00ednas no interior da Andaman Central. Uma dessas cabanas comunit\u00e1rias foi fotografada em 1895 por M. L. Lapicque, em um local chamado Lekera\u2011l\u2019un\u2011<em>ta<\/em><a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. Foi talvez a \u00faltima que os nativos da Grande Andaman ergueram.<\/p>\n\n\n\n<p>Como era a cabana comunit\u00e1ria pode ser verificado tanto pelas declara\u00e7\u00f5es dos nativos quanto pelo fato de que elas ainda s\u00e3o usadas, at\u00e9 hoje, pelos nativos da Pequena Andaman e pelos J\u030c<em><u>a<\/u><\/em>rawa. A cabana tinha formato aproximadamente circular, podia atingir at\u00e9 60 p\u00e9s de di\u00e2metro e 20 a 30 p\u00e9s de altura no centro, assemelhando\u2011se, de certo modo, a uma colmeia. Dois c\u00edrculos conc\u00eantricos \u2013 um de postes altos pr\u00f3ximos ao centro e outro de postes mais curtos junto \u00e0 circunfer\u00eancia \u2013 eram ligados por vigas de telhado horizontais e inclinadas; sobre elas eram colocados e fixados tapetes de folhas de palmeira. Esses tapetes geralmente chegavam at\u00e9 o ch\u00e3o, deixando uma pequena porta em um dos lados.<\/p>\n\n\n\n<p>Tais cabanas comunit\u00e1rias, embora ainda usadas na Pequena Andaman e pelos J\u030c<em><u>a<\/u><\/em>rawa e anteriormente pelos habitantes da floresta da Grande Andaman, aparentemente n\u00e3o eram frequentemente erguidas pelos habitantes da costa da ilha maior na \u00e9poca em que as ilhas foram ocupadas, em 1858. O Sr. Man parece ter considerado que elas eram caracter\u00edsticas peculiares dos J\u030c<em><u>a<\/u><\/em>rawa e dos nativos da Pequena Andaman<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. No entanto, h\u00e1 evid\u00eancias de que at\u00e9 os habitantes da costa erguiam tais cabanas, pois na tribo <em>Akar<\/em><em>\u2011Bale<\/em> existem v\u00e1rios lugares com nomes como Partly <em>Bud<\/em> e Golugma <em>Bud<\/em>, indicando que cabanas comunit\u00e1rias existiram ali em algum momento. A palavra <em>bud<\/em> designa uma cabana comunit\u00e1ria, em contraste com uma vila, chamada <em>barai<\/em><em>\u01f0<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma grande cabana comunit\u00e1ria levava tempo para ser erguida: os postes tinham de ser cortados e implantados \u2013 trabalho dos homens \u2013 e as folhas de palmeira precisavam ser coletadas e transformadas em tapetes pelas mulheres. Uma vez constru\u00edda, uma cabana durava v\u00e1rios anos e, se usada de forma relativamente constante \u2013 especialmente se n\u00e3o fosse abandonada durante as chuvas \u2013 podia servir, com reparos ocasionais, por dez anos ou mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os habitantes da costa, era mais comum erguer, na sede, uma vila semipermanente. Parte de uma dessas vilas aparece nas fotografias reproduzidas nas Pranchas VI e VII. A vila ocupava uma pequena clareira na floresta, pr\u00f3xima \u00e0 costa, em um lugar chamado Moi\u2011lepto, no territ\u00f3rio da tribo <em>Akar<\/em><em>\u2011Bale<\/em>. Uma fonte ou po\u00e7a pr\u00f3xima fornecia \u00e1gua pot\u00e1vel. O local era bastante favor\u00e1vel: bem protegido e a uma dist\u00e2ncia conveniente de boas \u00e1reas de pesca e de ca\u00e7a de tartarugas. Antigamente era um dos principais locais de acampamento do grupo local conhecido como <em>Boroin<\/em> <em>wa<\/em> (pessoas da colina).<\/p>\n\n\n\n<p>A vila consistia em oito cabanas dispostas em torno de um espa\u00e7o aberto central, todas voltadas para o interior. Esse espa\u00e7o era mantido limpo e livre para dan\u00e7as, sendo simplesmente o local de dan\u00e7a da vila. Cada cabana era ocupada por um grupo familiar \u2013 um homem, sua esposa, filhos e dependentes \u2013 exceto uma que abrigava um velho vi\u00favo e um solteiro. A forma de constru\u00e7\u00e3o das cabanas pode ser observada nas fotografias. Na sua vers\u00e3o mais simples, a cabana consiste em um telhado inclinado de folhas de palmeira sustentado por quatro postes: dois mais altos na frente e dois mais baixos atr\u00e1s (uma dessas cabanas aparece na Prancha VII). Se \u00e9 necess\u00e1rio mais abrigo, acrescenta\u2011se um segundo telhado, de modo que a parte superior de um se projeta sobre a do outro; em alguns casos, um terceiro telhado pode ser adicionado em um dos lados.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas Pranchas VI e VII h\u00e1 duas esteiras de folhas de palmeira em processo de confec\u00e7\u00e3o, deitadas no ch\u00e3o. Cabanas nas quais as folhas s\u00e3o primeiro transformadas em esteiras e depois fixadas \u00e0s vigas duram bastante. Mesmo que a vila seja abandonada por v\u00e1rias semanas \u2013 ao menos durante a esta\u00e7\u00e3o seca \u2013 pouco trabalho \u00e9 necess\u00e1rio para torn\u00e1\u2011la habit\u00e1vel novamente quando os ocupantes retornam.<\/p>\n\n\n\n<p>Um segundo tipo de acampamento era montado quando os nativos n\u00e3o pretendiam ficar mais de dois ou tr\u00eas meses. Esses acampamentos eram montados pelo povo da floresta durante a esta\u00e7\u00e3o seca ou sempre que eram obrigados a deixar o acampamento principal devido ao falecimento de algum membro. Tais acampamentos tempor\u00e1rios eram sempre organizados na forma de vila, nunca como cabana comunit\u00e1ria. As cabanas eram semelhantes \u00e0s j\u00e1 descritas, mas feitas de modo mais descuidado: em vez de ser feita em esteiras, a folhagem era simplesmente amarrada em feixes \u00e0s vigas. Uma cabana desse tipo dura cerca de tr\u00eas meses e pode ser constru\u00edda muito rapidamente onde houver suprimento suficiente de folhas de palmeira. Atualmente os nativos raramente erguem acampamentos permanentes para si mesmos, contentando\u2011se com acampamentos tempor\u00e1rios do tipo descrito.<\/p>\n\n\n\n<p>Um terceiro tipo de acampamento merece breve men\u00e7\u00e3o: o acampamento de ca\u00e7a. Um grupo de ca\u00e7a \u2013 que pode incluir mulheres al\u00e9m de homens \u2013 que passa alguns dias longe de um acampamento principal ergue algumas cabanas ou abrigos consistindo apenas em um simples abrigo de folhas. Cavernas ou abrigos rochosos adequados para ocupa\u00e7\u00e3o humana s\u00e3o quase desconhecidos nas Ilhas Andaman. No arquip\u00e9lago h\u00e1 um ou dois pequenos abrigos rochosos ocasionalmente usados por grupos de ca\u00e7a por uma noite. Fui informado pelos nativos de que, em uma das ilhas ao largo da costa oeste da Andaman do Norte, existe um abrigo rochoso de tamanho razo\u00e1vel que foi, anteriormente, usado como um de seus principais acampamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>A figura a seguir dar\u00e1 uma ideia da vila andamanense e de sua disposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em acampamentos de ca\u00e7a destinados a ser ocupados apenas por alguns dias ou semanas, essa disposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 observada; em vez disso, as cabanas ou abrigos s\u00e3o dispostos de modo a oferecer abrigo do vento predominante, sem considera\u00e7\u00e3o especial pela posi\u00e7\u00e3o relativa das diferentes unidades.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"567\" height=\"320\" src=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/image.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1285\" srcset=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/image.png 567w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/image-300x169.png 300w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/image-150x85.png 150w\" sizes=\"(max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Plano da Vila Andamanense \u2013 a. Cabana de pessoas casadas. b. Cabana de solteiros. c. Local de cozimento p\u00fablico. d. Espa\u00e7o para dan\u00e7as.<\/h3>\n\n\n\n<p>A constitui\u00e7\u00e3o do grupo local fica ilustrada pela disposi\u00e7\u00e3o da vila. A vila inteira \u00e9 composta por v\u00e1rias cabanas separadas, cada qual ocupada por uma fam\u00edlia. Uma fam\u00edlia \u00e9 formada por um homem, sua esposa e seus filhos, pr\u00f3prios ou adotados, que ainda n\u00e3o t\u00eam idade para ser independentes. Al\u00e9m das fam\u00edlias, cada grupo inclui um pequeno n\u00famero de homens solteiros e vi\u00favos, assim como algumas mulheres solteiras e vi\u00favas. Os homens solteiros e vi\u00favos sem filhos ocupam uma cabana separada (ou cabanas), que podemos chamar de cabana dos solteiros. O Sr. Man afirma que as mo\u00e7as (isto \u00e9, as mulheres solteiras em idade de casar) e as vi\u00favas ocupam uma cabana pr\u00f3pria, assim como os solteiros<a href=\"#_ftn8\" id=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. Nos acampamentos que visitei n\u00e3o encontrei nenhuma cabana para mo\u00e7as: as mulheres solteiras que observei estavam ligadas a uma ou outra das fam\u00edlias da vila, cada uma vivendo na cabana de algum parente casado, geralmente o pai ou o pai adotivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Todas as cabanas voltam-se para um espa\u00e7o aberto central \u2013 o local de dan\u00e7a da vila \u2013 e, exceto quando situadas em locais expostos, costumam ficar completamente abertas na frente. Em um ponto conveniente, em um dos lados desse espa\u00e7o, situa-se o local de cozimento comunit\u00e1rio da vila. Esse local geralmente fica pr\u00f3ximo \u00e0 cabana dos solteiros, pois s\u00e3o eles que cuidam do cozimento ali realizado. Al\u00e9m do local p\u00fablico de cozimento, cada fam\u00edlia tem sua pr\u00f3pria lareira na sua cabana, onde se mant\u00e9m um fogo continuamente aceso.<\/p>\n\n\n\n<p>Duas ou mais fam\u00edlias podem construir cabanas adjacentes de tal forma que, para todos os efeitos, passam a formar uma \u00fanica constru\u00e7\u00e3o, da qual cada fam\u00edlia ocupa uma parte distinta. Dois irm\u00e3os, por exemplo, muitas vezes formam esse tipo de lar comum.<\/p>\n\n\n\n<p>A cabana comum, tanto na disposi\u00e7\u00e3o quanto na constru\u00e7\u00e3o, \u00e9 na verdade uma aldeia em miniatura: as cabanas agrupam-se de modo que cada uma esteja unida \u00e0 pr\u00f3xima e os telhados se encontrem no meio. No centro h\u00e1 um espa\u00e7o aberto correspondente ao local de dan\u00e7a da aldeia; esse espa\u00e7o chega a ser usado como lugar de dan\u00e7a, embora seja um tanto pequeno para esse fim. \u00c9 a parte p\u00fablica da cabana. Ao redor dele disp\u00f5em-se as diferentes fam\u00edlias, cada qual ocupando sua por\u00e7\u00e3o espec\u00edfica da constru\u00e7\u00e3o, demarcada por pequenos peda\u00e7os de madeira colocados no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O local p\u00fablico de cozimento \u00e0s vezes fica dentro da cabana, e existe tamb\u00e9m um espa\u00e7o demarcado para os homens solteiros. A vantagem da cabana comum \u00e9 a melhor prote\u00e7\u00e3o contra as intemp\u00e9ries; a desvantagem \u00e9 que quase n\u00e3o deixa espa\u00e7o para dan\u00e7ar. Pode-se ver, portanto, que a disposi\u00e7\u00e3o do acampamento revela claramente a constitui\u00e7\u00e3o do grupo local, composto, como se observa, por algumas fam\u00edlias. Cada grupo parece conter, em m\u00e9dia, cerca de dez fam\u00edlias, com alguns homens e mulheres solteiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Os habitantes das Ilhas Andaman dependem inteiramente dos recursos naturais do mar e da floresta para sua subsist\u00eancia. Do mar obt\u00eam dugongo, tartaruga (tanto a verde quanto a de casco), uma enorme variedade de peixes, crust\u00e1ceos (caranguejos, lagostas e camar\u00f5es) e moluscos. Peixes e caranguejos tamb\u00e9m podem ser encontrados nos riachos de \u00e1gua salgada que, em muitos pontos, penetram terra adentro por alguns quil\u00f4metros. Da floresta obt\u00eam a carne do javali selvagem, mel silvestre e diversos alimentos vegetais \u2013 ra\u00edzes, frutas e sementes.<\/p>\n\n\n\n<p>A vida dos habitantes da floresta \u00e9 mais simples e uniforme do que a dos habitantes da costa, e podemos, portanto, consider\u00e1-la primeiro. Durante a esta\u00e7\u00e3o chuvosa, que vai de meados de maio at\u00e9 o final de setembro, o grupo local vive em seu acampamento-sede, que, como vimos, muitas vezes tomava a forma de uma cabana comum. Nesse per\u00edodo a comida de origem animal \u00e9 abundante, pois os animais da selva est\u00e3o em boa condi\u00e7\u00e3o; por outro lado, h\u00e1 pouca disponibilidade de alimentos vegetais. O breve relato a seguir d\u00e1 uma ideia de como se passa um dia em tal acampamento nessa \u00e9poca do ano.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Notes on the Languages of the South Andaman Group of Tribes , p. 27.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Algumas pequenas \u00e1reas n\u00e3o eram ocupadas, por exemplo, a maior parte do Saddle Peak, em Andaman do Norte, que \u00e9 coberto por uma densa selva e considerado pelos nativos como o ref\u00fagio de cobras grandes e mortais e de esp\u00edritos malignos.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> Loc. cit. p. 300.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> Journ. Anthrop. Inst. Vol. XII, pp. 107 e 108.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> Portman, Notes on the Languages of the South Andaman Group of Tribes, p. 23.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[6]<\/a> A fotografia \u00e9 reproduzida em Le Tour du Monde 1895, p. 447.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\">[7]<\/a> Ver Journ. Anthrop. Inst, Vol. xii, p. 71.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\" id=\"_ftn8\">[8]<\/a> Man, <em>op. cit.<\/em> p. 108.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea ir\u00e1 ler, a seguir, um trecho da obra &#8220;Os Insulares de Andaman&#8221;. Caso tenha interesse em adquirir a obra, seja na vers\u00e3o impressa, seja em ebook, clique aqui, ou na imagem da capa abaixo. I. A organiza\u00e7\u00e3o social Neste cap\u00edtulo trataremos dos costumes e das institui\u00e7\u00f5es pelos quais os\u2026<\/p>\n<p class=\"continue-reading-button\"> <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2026\/01\/18\/os-insulares-de-andaman-de-radcliffe-brown\/\">Leia mais<i class=\"crycon-right-dir\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1280,"comment_status":"closed","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5,58],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1284"}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1284"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1284\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1286,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1284\/revisions\/1286"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1280"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1284"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1284"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1284"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}