{"id":1312,"date":"2026-05-08T00:54:50","date_gmt":"2026-05-08T00:54:50","guid":{"rendered":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=1312"},"modified":"2026-05-08T00:55:47","modified_gmt":"2026-05-08T00:55:47","slug":"da-demoniomania-dos-feiticeiros-por-jean-bodin","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2026\/05\/08\/da-demoniomania-dos-feiticeiros-por-jean-bodin\/","title":{"rendered":"Da Demoniomania dos Feiticeiros por Jean Bodin"},"content":{"rendered":"\n<p>Voc\u00ea ir\u00e1 ler um trecho de &#8220;Da Demoniomania dos Feiticeiros&#8221; de Jean Bodin. Caso deseje saber mais sobre a obra, inclusive como adquiri-la, <a href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/da-demoniomania-dos-feiticeiros\/\">clique aqui<\/a>, ou na imagem abaixo.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/da-demoniomania-dos-feiticeiros\/\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"231\" height=\"328\" src=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/bodin_capinha.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1306\" srcset=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/bodin_capinha.jpg 231w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/bodin_capinha-211x300.jpg 211w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/bodin_capinha-106x150.jpg 106w\" sizes=\"(max-width: 231px) 100vw, 231px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\"> <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a><\/a><a>Pref\u00e1cio do Autor<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>O julgamento que foi proferido contra uma feiticeira, ao qual fui chamado no \u00faltimo dia de abril de mil quinhentos e setenta e oito, deu-me ocasi\u00e3o para empunhar a pena e esclarecer o assunto dos feiticeiros, que a todas as pessoas parece extraordinariamente estranho e a muitos inacredit\u00e1vel. A feiticeira que mencionei chamava-se Jeanne Harvilliers, natural de Verberie, perto de Compi\u00e8gne, acusada de haver feito morrer v\u00e1rios homens e animais, como confessou sem interrogat\u00f3rio nem tortura, embora \u00e0 primeira vista tenha negado obstinadamente e tivesse mudado v\u00e1rias vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>Confessou tamb\u00e9m que sua m\u00e3e, quando ela tinha doze anos, a havia apresentado ao Diabo na figura de um grande homem negro, de estatura superior \u00e0 dos homens, vestido de tecido negro, dizendo-lhe que a havia, t\u00e3o logo nascera, prometido \u00e0quele que ela chamava Diabo, e que prometera trat\u00e1-la bem e torn\u00e1-la feliz; e que, desde ent\u00e3o, ela renunciara a Deus e prometera servir ao Diabo. E que naquele mesmo instante tivera c\u00f3pula carnal com o Diabo, continuando desde a idade de doze anos at\u00e9 os cinquenta, ou em torno disso, que era ent\u00e3o quando foi presa. Disse igualmente que o Diabo se lhe apresentava quando queria, sempre no traje e na forma em que se mostrara na primeira vez: esporado, cal\u00e7ado com botas, tendo uma espada ao lado e seu cavalo \u00e0 porta, que ningu\u00e9m via sen\u00e3o ela. E com ela teve, algumas vezes, c\u00f3pula, sem que seu marido, deitado ao seu lado, o percebesse.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, porquanto ela foi dissimulada em ser grande feiticeira, e foi quase imposs\u00edvel conter os camponeses que pretendiam arrebata-la das m\u00e3os da justi\u00e7a para a queimar, temendo que ela escapasse, ordenou-se, antes de proceder ao julgamento definitivo, que fosse enviada a Verberie, lugar onde nascera, para inquirir sobre sua vida, e \u00e0s outras aldeias onde ela houvera residido. Foi encontrado que, trinta anos antes, ela tivera o castigo do a\u00e7oite pelo mesmo crime, e que sua m\u00e3e fora condenada a ser queimada viva, por ac\u00f3rd\u00e3o da Corte do Parlamento que confirmara a senten\u00e7a do juiz de Senlis; e verificou-se que ela costumava mudar de nome e de lugar para encobrir seus feitos. E que por toda parte fora tida por feiticeira.<\/p>\n\n\n\n<p>Vendo-se condenada, ela pediu perd\u00e3o, fingindo repeti-lo; negou, todavia, muitas das maldades que tinha cometido e anteriormente confessado. Mas ela persistiu na confiss\u00e3o que havia feito do \u00faltimo homic\u00eddio, tendo lan\u00e7ado alguns p\u00f3s que o Diabo lhe havia preparado, e que ela p\u00f4s no lugar por onde devia passar aquele que havia batido em sua filha. Outro a\u00ed passou, ao qual ela n\u00e3o desejou mal nenhum, e prontamente sentiu uma dor pungente em todo o seu corpo. E visto que todos os vizinhos que o haviam visto entrar no lugar onde ela havia lan\u00e7ado o sortil\u00e9gio, naquele mesmo dia, ao verem o homem atacado por uma enfermidade t\u00e3o s\u00fabita, acreditaram que ela havia lan\u00e7ado o sortil\u00e9gio.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela prometeu cur\u00e1-lo, e, de fato, cuidou do paciente durante a enfermidade, e confessou que, na quarta-feira anterior a ser presa, havia suplicado ao Diabo que curasse seu doente, ao que ele respondeu que era imposs\u00edvel. E que ela disse ent\u00e3o ao Diabo que ele a enganava sempre, e que n\u00e3o viesse mais v\u00ea-la. E desde que ele disse que n\u00e3o viria mais, dois dias depois o homem morreu. E logo ela foi esconder-se em um celeiro, onde foi encontrada.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqueles que assistiram ao julgamento estavam bem convencidos de que ela merecia a morte; mas quanto \u00e0 forma e ao g\u00eanero da morte houve algu\u00e9m mais brando, e de natureza mais piedosa, que opinava que bastava enforc\u00e1-la. Os outros, depois de haverem examinado os crimes detest\u00e1veis, e as penas estabelecidas pelas leis divinas e humanas, e igualmente o costume geral de toda a Cristandade, observado neste Reino desde tempos antigos, foram de opini\u00e3o que ela devia ser condenada a ser queimada viva: e isso foi decidido, e a senten\u00e7a, da qual n\u00e3o houve apela\u00e7\u00e3o, foi executada no \u00faltimo dia de abril por iniciativa de Mestre Claude Dofay, Procurador do Rei em Ribemont.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde a condena\u00e7\u00e3o ela confessou que havia sido transportada pelo Diabo \u00e0s assembleias dos feiticeiros, depois de haver usufru\u00eddo de algumas gra\u00e7as que o Diabo lhe dava, sendo conduzida com tal velocidade, e t\u00e3o longe, que ela ficava toda exausta e enfraquecida, e que havia visto nas assembleias grande n\u00famero de pessoas, que todas adoravam um homem negro, em lugar elevado, de idade como de trinta anos, a quem chamavam Belzebu. E depois disso se acasalavam carnalmente; e ent\u00e3o o Pr\u00edncipe lhes pregava serm\u00f5es dizendo que confiassem nele, e que ele os vingaria de seus inimigos, e os faria bem-aventurados. Interrogada se se dava dinheiro, disse que n\u00e3o; e acusou um pastor e um coveiro de Genlis, que ela disse serem feiticeiros; confessou-se e arrependeu-se, pedindo perd\u00e3o a Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>E porque havia os que julgavam o caso como estranho, e mesmo inacredit\u00e1vel, ocorreu-me redigir este tratado que intitulei DA DEMONIOMANIA DOS FEITICEIROS, pela f\u00faria que eles t\u00eam de correr atr\u00e1s dos dem\u00f4nios, para servir de advert\u00eancia a todos os que os virem, a fim de fazer conhecer ao dedo e ao olho que n\u00e3o h\u00e1 crimes que sejam de longe t\u00e3o execr\u00e1veis quanto este, ou que mere\u00e7am penas mais gravosas. E em parte tamb\u00e9m para responder \u00e0queles que, por livros impressos, se esfor\u00e7am por salvar os feiticeiros por todos os meios; de modo que parece que Satan\u00e1s os inspirou, e os atraiu para publicar esses belos livros, como foi um Pierre d\u2019Apone, m\u00e9dico, que se esfor\u00e7ava por fazer entender que n\u00e3o h\u00e1 esp\u00edritos, e, no entanto, soube-se depois que era dos maiores feiticeiros da It\u00e1lia.<\/p>\n\n\n\n<p>E, para que n\u00e3o pare\u00e7a estranho o que disse \u2013 que Satan\u00e1s tem homens predestinados a escrever, publicar e sustentar que nada do que se afirma sobre os feiticeiros \u00e9 verdadeiro \u2013, darei um exemplo memor\u00e1vel. Pierre Mamor o registra no pequeno livro <em>De Lamiis<\/em> a prop\u00f3sito de um certo M. Guillaume de Line, doutor em teologia, acusado e condenado como feiticeiro em 12 de dezembro de 1453. Ao final, ele se arrependeu e confessou que fora v\u00e1rias vezes transportado, \u00e0 noite, com outros feiticeiros, para adorar o Diabo, que ora aparecia em forma de homem, ora em forma de bode; declarou tamb\u00e9m que renunciara a toda religi\u00e3o. Foi ainda encontrado em posse de uma obriga\u00e7\u00e3o firmada com Satan\u00e1s, contendo promessas rec\u00edprocas. Entre essas cl\u00e1usulas, o doutor se comprometia a pregar publicamente que tudo o que se dizia dos feiticeiros era mera f\u00e1bula e coisa imposs\u00edvel, e que n\u00e3o se devia acreditar nisso.<\/p>\n\n\n\n<p>E por esse meio os feiticeiros se multiplicaram e tomaram grande incremento por esses textos, havendo os ju\u00edzes deixado a persegui\u00e7\u00e3o que faziam contra os feiticeiros. O que mostra bem que Satan\u00e1s tem leais s\u00faditos de todos os estados e de todas as qualidades: como o Cardeal Beno e Platin escrevem que houve v\u00e1rios papas, imperadores e outros pr\u00edncipes, os quais se deixaram enganar pelos feiticeiros, e por fim foram precipitados infelizmente por Satan\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>E mesmo em Toledo, onde antigamente estava a escola dos feiticeiros, nunca se teria pensado que tais personagens dali fizessem parte: quando se relatavam os processos dos feiticeiros, eles come\u00e7avam a rir, e faziam rir a todos com as tiradas que faziam, e afirmavam constantemente que era coisa fabulosa e imposs\u00edvel, e amoleciam tanto o cora\u00e7\u00e3o dos ju\u00edzes (como fez Alciato em seu tempo, depois que um Inquisidor fizera queimar no Piemonte mais de cem feiticeiros) que todos os feiticeiros escaparam. Monsieur Barthelemy Faye, presidente das investiga\u00e7\u00f5es da Corte, queixou-se em suas obras de que a toler\u00e2ncia de alguns ju\u00edzes em n\u00e3o fazer queimar feiticeiros, como o Parlamento tem feito desde tempos imemoriais, e outros povos igualmente, foi causa das grandes afli\u00e7\u00f5es que Deus nos enviou.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas M. d\u2019Aventon, conselheiro no Parlamento, e depois presidente em Poitiers (ao qual sucedeu Saluert no estado de presidente), fez queimar quatro feiticeiros todos vivos em Poitiers no ano de 1573, n\u00e3o obstante o apelo interposto por eles, queixando-se de que anteriormente haviam sido enviados absolvidos outros feiticeiros apelantes, que desde ent\u00e3o haviam infectado toda a regi\u00e3o, e que todo o povo se amotinava. \u00c9 verdade que confessaram ter cometido v\u00e1rios homic\u00eddios por encantamentos e sortil\u00e9gios, e os faziam executar, como prenot\u00e1veis, n\u00e3o obstante o apelo: porque \u00e9 pior (diz a Lei) matar com veneno do que com espada.<\/p>\n\n\n\n<p>A impunidade dos feiticeiros daquele tempo foi raz\u00e3o para que obtivessem um not\u00e1vel acr\u00e9scimo neste reino, para onde aportaram de todas as partes, inclusive da It\u00e1lia; entre eles estava um grande feiticeiro napolitano chamado o Conservador, bastante conhecido por seus atos. Desde ent\u00e3o continuaram, de modo que o feiticeiro Trois-\u00c9chelles Manseau, tendo obtido sua gra\u00e7a ap\u00f3s o veredicto de morte proferido contra ele, com a obriga\u00e7\u00e3o de denunciar seus c\u00famplices, afirmou que havia mais de cem mil naquele reino \u2013 talvez falsamente, para minorar sua impiedade por ter t\u00e3o bela companhia. Seja como for, denunciou um grande n\u00famero deles; por\u00e9m foi-lhe dado t\u00e3o bom trato que todos, ou a maioria, escaparam, ainda que confessassem maldades t\u00e3o execr\u00e1veis que o ar se contaminava por elas.<\/p>\n\n\n\n<p>Do que Deus, irritado, enviou terr\u00edveis persegui\u00e7\u00f5es, como Ele amea\u00e7ou<a href=\"#_edn1\" id=\"_ednref1\">[i]<\/a> por sua lei de exterminar os povos que permitissem viver os feiticeiros. \u00c9 por isso que Santo Agostinho, no livro <em>Cidade de Deus<\/em>, diz que todas as seitas j\u00e1 existiram decretaram penas contra os feiticeiros, exceto os epicuristas; estes foram refutados por Plutarco, no livro <em>De Oraculorum defectu<\/em>, e por Or\u00edgenes, em <em>Contra Celsum<\/em>, o Epicurista, e depois deles J\u00e2mblico, Proclo e os Acad\u00eamicos destru\u00edram os fundamentos da seita epicuriana; embora esta estivesse bastante arruinada pelos princ\u00edpios da Metaf\u00edsica de Arist\u00f3teles.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste \u00faltimo, ele conclui por necessidade que h\u00e1 tantos c\u00e9us quantas s\u00e3o as intelig\u00eancias \u2013 ou esp\u00edritos intelig\u00edveis \u2013 para os mover; as quais intelig\u00eancias ele diz serem separadas dos corpos, e que o Anjo se move com o movimento do seu c\u00e9u, como a alma do homem se move com o movimento do homem, o que demonstra bem que a disputa entre Anjos e Dem\u00f4nios n\u00e3o se pode tratar fisicamente. Negam-se muito aqueles que recusam a possibilidade de algo que seja imposs\u00edvel por natureza, pois o toque, o movimento e o lugar n\u00e3o podem concorrer sen\u00e3o ao corpo<a href=\"#_edn2\" id=\"_ednref2\">[ii]<\/a>, falando de corpo segundo, o f\u00edsico; e, no entanto, se a verdade \u00e9 sempre semelhante a si mesma, \u00e9 necess\u00e1rio confessar que o toque, o movimento e o lugar conv\u00eam aos esp\u00edritos tanto quanto ao corpo, como Arist\u00f3teles demonstrou em sua <em>Metaf\u00edsica<\/em><a href=\"#_edn3\" id=\"_ednref3\">[iii]<\/a>, ao tratar dos Anjos, ou Intelig\u00eancias, que movem os c\u00e9us.<\/p>\n\n\n\n<p>Plutarco<a href=\"#_edn4\" id=\"_ednref4\">[iv]<\/a> e Apuleio<a href=\"#_edn5\" id=\"_ednref5\">[v]<\/a> afirmam que Arist\u00f3teles deixou por escrito \u2013 o que, contudo, n\u00e3o se encontra nos livros que nos restaram, os quais n\u00e3o s\u00e3o a metade do que escreveu \u2013 que os pitag\u00f3ricos se admirariam se houvesse homem no mundo que nunca tivesse conhecido dem\u00f4nio. De fato, o pr\u00f3prio Arist\u00f3teles confessa ter visto um chamado Thasius, que tinha incessantemente consigo um esp\u00edrito em figura humana, que ningu\u00e9m via sen\u00e3o ele \u2013 o que \u00e9 comum a todos os feiticeiros. Plat\u00e3o, em sua <em>Apologia<\/em>, apresenta um argumento decisivo a favor da exist\u00eancia de dem\u00f4nios, visto que seus efeitos os evidenciam: as vozes, as palavras, os arroubos e outras a\u00e7\u00f5es admir\u00e1veis n\u00e3o podem ser sem causa.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o faz muito tempo, Fran\u00e7ois della Mirandola, escreveu haver visto dois sacerdotes feiticeiros, sempre acompanhados de dois dem\u00f4nios, Hiphialtes, como guias de mulheres, dos quais abusaram por mais de quarenta anos, conforme confessaram antes de serem queimados, como diremos em seu lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>Arist\u00f3teles, no mesmo livro, narra tamb\u00e9m que em uma das sete ilhas de E\u00f3lo se ouvia um maravilhoso som de tamborins e c\u00edmbalos sem se ver ningu\u00e9m \u2013 fen\u00f4meno que \u00e9 ordin\u00e1rio em muitos lugares Setentrionais, como diz Olaus, e no monte Atlas, segundo testificam Solino e Pl\u00ednio \u2013, que s\u00e3o as assembleias e dan\u00e7as habituais dos feiticeiros com os maus esp\u00edritos, atestadas por in\u00fameros processos. Arist\u00f3teles acrescenta ainda, no mesmo livro, que havia uma feiticeira na cidade de Tene, na Tess\u00e1lia, a qual enfeiti\u00e7ava o basilisco com certas palavras e c\u00edrculos que tra\u00e7ava \u2013 o que n\u00e3o pode ser feito por natureza, como diremos em seu lugar, mas pela for\u00e7a e pot\u00eancia dos esp\u00edritos; pois estes n\u00e3o poderiam realizar as a\u00e7\u00f5es estranhas que se veem ao olho se n\u00e3o estivessem no lugar em que se manifestam, como diz Tom\u00e1s de Aquino. Seria, ademais, absurdo atribuir toque, lugar e movimento aos anjos que movem os c\u00e9us e que est\u00e3o separados dos c\u00e9us \u2013 conforme concordam todos os peripat\u00e9ticos, acad\u00eamicos e estoicos, assim como os Hebreus e \u00c1rabes \u2013 e negar essas propriedades aos esp\u00edritos, os quais se situam entre os elementos.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, se os dem\u00f4nios forem corp\u00f3reos e de mat\u00e9ria elementar \u2013 como sustentou Arist\u00f3teles no Livro IV da <em>Metaf\u00edsica<\/em>, e como afirmam Or\u00edgenes e Santo Agostinho (no Livro IX e no Livro VIII, cap. XVI, da <em>Cidade de Deus<\/em>), bem como Greg\u00f3rio Magno na homilia da Epifania, ao dizerem que os anjos s\u00e3o animais racionais \u2013 e ainda como Atan\u00e1sio de Alexandria, no livro <em>Sobre a ess\u00eancia do Pai<\/em>, e Alexandre de Afrodisias, o mais douto dos peripat\u00e9ticos, que sustentou que toda subst\u00e2ncia \u00e9 corp\u00f3rea \u2013 ent\u00e3o cessam todos os argumentos dos que negam as a\u00e7\u00f5es dos dem\u00f4nios; pois tais a\u00e7\u00f5es se fundamentam e se demonstram por meio de coisas corp\u00f3reas, isto \u00e9, elementares.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, Santo Agostinho diz, no terceiro livro, cap\u00edtulo \u00faltimo da Trindade, que n\u00e3o se pode errar ao afirmar que os Dem\u00f4nios sejam corp\u00f3reos; e assim se pode sustentar, contra a opini\u00e3o comum de que n\u00e3o h\u00e1 subst\u00e2ncia incorp\u00f3rea sen\u00e3o Deus, que tal tese se apoia numa demonstra\u00e7\u00e3o pouco examinada \u2013 isto \u00e9, a de que n\u00e3o h\u00e1 nada finito sen\u00e3o o corpo, por ter este sua grandeza e extens\u00e3o determinadas; e que o que n\u00e3o tem extremidade superficial \u00e9 infinito; segue-se, portanto, que n\u00e3o h\u00e1 coisa incorp\u00f3rea sen\u00e3o Deus, caso contr\u00e1rio as criaturas seriam infinitas como Deus. Tal argumento serviria n\u00e3o para instruir aqueles que creem em um Deus e na pluralidade das intelig\u00eancias \u2013 ambos demonstrados por Arist\u00f3teles<a href=\"#_edn6\" id=\"_ednref6\">[vi]<\/a> e sustentados por toda a Sagrada Escritura \u2013, mas para convencer mentes entorpecidas; n\u00e3o obstante, n\u00e3o pretende dar conta de todas as a\u00e7\u00f5es intelectuais dos Dem\u00f4nios, o que seria imposs\u00edvel, pois quem pudesse explicar todas as coisas seria semelhante a Deus, que sozinho sabe tudo. Do mesmo modo que \u00e9 imposs\u00edvel conhecer Deus e compreend\u00ea-lo tal como \u00e9 \u2013 pois aquele que O conhecesse e pudesse compreend\u00ea-lo dessa forma haveria de ser ele pr\u00f3prio Deus \u2013, \u00e9 necess\u00e1rio confessar que s\u00f3 Deus pode dar raz\u00e3o de todas as coisas. Para tanto exige-se uma ci\u00eancia infinita, que n\u00e3o pode residir nem nos homens, nem nos Anjos, nem em criatura alguma do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 por isso que Arist\u00f3teles, no primeiro livro de sua <em>Metaf\u00edsica<\/em>, onde trata dos esp\u00edritos e intelig\u00eancias, confessa que n\u00e3o se pode conhecer a verdade, por causa da imbecilidade do esp\u00edrito humano, que consiste em reconhecer bem a ignor\u00e2ncia de todos em geral e n\u00e3o a sua em particular; pois, no mesmo livro, ele diz<a href=\"#_edn7\" id=\"_ednref7\">[vii]<\/a> que n\u00e3o se deve procurar raz\u00e3o onde ela n\u00e3o h\u00e1. Veja estas palavras. Como Pl\u00ednio, em caso semelhante, diz no terceiro livro, cap\u00edtulo quarto: \u201cN\u00e3o se procura o pr\u00f3prio prop\u00f3sito, mas busca-se a vontade da natureza.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma incongru\u00eancia not\u00e1vel que um fil\u00f3sofo afirme que algo se fa\u00e7a sem raz\u00e3o e sem causa, e uma arrog\u00e2ncia insuport\u00e1vel negar a exist\u00eancia de causa: antes de confessar a ignor\u00e2ncia, o que se faz quando n\u00e3o a conhece? Alexandre de Afrodisias bem o confessou, dizendo que a natureza reservou em seu segredo a raz\u00e3o pela qual o ru\u00eddo da lima torna os dentes entorpecidos. Ora, o mais belo louvor que se pode render a Deus \u00e9 confessar a pr\u00f3pria ignor\u00e2ncia, e \u00e9 inj\u00faria a Deus n\u00e3o reconhecer a fraqueza do pr\u00f3prio c\u00e9rebro. \u00c9 por isso que, depois de todos os discursos de J\u00f3 e de seus amigos, em que disputavam os atos de Deus, quando J\u00f3 pensava haver alcan\u00e7ado a verdade, Deus lhe apareceu em vis\u00e3o e come\u00e7ou a falar desta sorte: \u201cQuem \u00e9 este homem ignorante, que por discursos fora do prop\u00f3sito obscurece as obras do Soberano?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em seguida discorreu sobre a altura, a grandeza e o movimento terr\u00edvel dos c\u00e9us, sobre a for\u00e7a dos astros, as leis do c\u00e9u sobre a terra, a terra fundada sobre as \u00e1guas, as \u00e1guas suspensas no meio do mundo e outras maravilhas que cada um v\u00ea; mostrou que toda a ci\u00eancia humana est\u00e1 plena de ignor\u00e2ncia. Muitos louvam o saber de Arist\u00f3teles, pois \u00e9 certo que ele muito soube, e, contudo, n\u00e3o soube nem a mil\u00e9sima parte das coisas naturais. Porque todos os fil\u00f3sofos hebreus<a href=\"#_edn8\" id=\"_ednref8\">[viii]<\/a> e acad\u00eamicos demonstraram que ele nada viu das coisas intelig\u00edveis, e das coisas naturais ignorou as mais belas: n\u00e3o soube sequer o n\u00famero dos c\u00e9us, notado pela Escritura Sagrada nas dez cortinas do Tabern\u00e1culo, que \u00e9 o modelo deste mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>E quando se diz: \u201cOs c\u00e9us s\u00e3o as obras dos teus dedos\u201d, que s\u00e3o em n\u00famero de dez (pois em outros lugares se diz sempre \u201cobras das m\u00e3os de Deus\u201d) \u2013 isto foi ignorado por todos os fil\u00f3sofos e matem\u00e1ticos at\u00e9 que Jean de Realmont o demonstrou. Mesmo Arist\u00f3teles n\u00e3o entendeu sequer a ordem dos planetas, pois coloca V\u00eanus e Merc\u00fario acima do Sol, contrariamente ao que Ptolomeu demonstrou depois, nem compreendeu um s\u00f3 dos movimentos dos astros. E, sem ir t\u00e3o longe nem procurar em Arist\u00f3teles a verdade dos dem\u00f4nios e das coisas sobrenaturais, v\u00ea-se que a maior parte das coisas naturais lhe foi desconhecida: como a falha do mar, que della Mirandola<a href=\"#_edn9\" id=\"_ednref9\">[ix]<\/a>, apelidado o F\u00eanix de sua \u00e9poca, atribuiu \u00e0 \u00fanica provid\u00eancia de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>E, no entanto, a origem das fontes dada por Arist\u00f3teles \u00e9 ainda mais absurda. Segundo ele, elas prov\u00eam da putrefa\u00e7\u00e3o do ar e das cavernas da terra, o que contrasta com as grossas e inesgot\u00e1veis nascentes, fontes e rios que t\u00eam curso perp\u00e9tuo; todo o ar do mundo, por mais corrompido que fosse, n\u00e3o poderia engendrar em cem anos a \u00e1gua que delas sai em um dia. Os fil\u00f3sofos hebreus, e mesmo Salom\u00e3o, mostraram que prov\u00eam do mar, assim como as veias do corpo humano t\u00eam origem no f\u00edgado.<\/p>\n\n\n\n<p>E frequentemente se v\u00ea na natureza efeitos produzidos contra toda raz\u00e3o natural: v\u00ea-se, por exemplo, a neve \u2013 que \u00e9 \u00e1gua gelada \u2013 aquecer a terra e proteger os cereais da geada, e a bruma fria, maravilhosamente, torrar e queimar os cereais e os brotos como em um forno; por essa causa, diz Feste Pomp\u00e9e, \u201ca geada (<em>pruina<\/em>) recebe esse nome por \u2018queimar completamente\u2019 (<em>perurere<\/em>)\u201d; e a Sagrada Escritura, entre as maravilhas de Deus, relata isto no Salmo cento e dezessete: \u201cQue d\u00e1 a neve como l\u00e3, e espalha a geada como cinza\u201d, que Buchanan traduziu assim: \u201cque cobre os c\u00e9us de nuvens como velo de l\u00e3, e descreve as geadas espalhadas a modo de cinza.\u201d E Teodoro de Beza Teodoro de Beza:<\/p>\n\n\n\n<p>Que cobre os montes e a plan\u00edcie<\/p>\n\n\n\n<p>De neve branca como l\u00e3,<\/p>\n\n\n\n<p>E que vem a bruma derramar,<\/p>\n\n\n\n<p>T\u00e3o mi\u00fada como cinza.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas eles n\u00e3o tocaram este belo milagre. Pois boa parte das compara\u00e7\u00f5es com a l\u00e3 \u00e9 not\u00f3ria, e a bruma n\u00e3o se assemelha em nada \u00e0s cinzas. Por\u00e9m poderia ser assim vertido:<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Que a neve aquece a plan\u00edcie<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Como de um manto de l\u00e3;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; E que a bruma, os brotos tenros,<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Torra-os como ardentes cinzas.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m Alberto mostrou o erro de Arist\u00f3teles relativo ao arco no c\u00e9u, ao afirmar que ele n\u00e3o ocorre \u00e0 noite, o que \u00e9 manifestamente falso, e, por conseguinte, igualmente mostrou a insufici\u00eancia da raz\u00e3o de Arist\u00f3teles \u2013 pois, na verdade, n\u00e3o h\u00e1 nem ritmo nem raz\u00e3o. Seria necess\u00e1rio, pela mesma raz\u00e3o, que todas as nuvens tivessem a mesma cor.<\/p>\n\n\n\n<p>Deixo de lado mil maravilhas da natureza cuja causa ainda n\u00e3o foi descoberta. \u00c9 por isso que o Cardeal Cusan, um dos homens mais eminentes de sua \u00e9poca, destacou a variedade, ambiguidade e incerteza da doutrina de Arist\u00f3teles, e antes dele o Cardeal Bessarion<a href=\"#_edn10\" id=\"_ednref10\">[x]<\/a>. E, acima de todos, o Cardeal d\u2019Ailly sustentou e defendeu com vigorosas raz\u00f5es que n\u00e3o existe, em Arist\u00f3teles, uma \u00fanica demonstra\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, salvo aquela pela qual ele demonstrou que havia um s\u00f3 Deus, e poucas outras que notou. Quanto \u00e0 demonstra\u00e7\u00e3o<a href=\"#_edn11\" id=\"_ednref11\">[xi]<\/a> da eternidade do mundo por Arist\u00f3teles \u2013 opini\u00e3o em que foi, entre os fil\u00f3sofos antigos, o primeiro e o \u00fanico a sustentar tal tese \u2013 ela est\u00e1 repleta de ignor\u00e2ncia, como mostraram Plutarco<a href=\"#_edn12\" id=\"_ednref12\">[xii]<\/a>, Galeno<a href=\"#_edn13\" id=\"_ednref13\">[xiii]<\/a>, os estoicos<a href=\"#_edn14\" id=\"_ednref14\">[xiv]<\/a> e os acad\u00eamicos<a href=\"#_edn15\" id=\"_ednref15\">[xv]<\/a>; at\u00e9 os epicuristas<a href=\"#_edn16\" id=\"_ednref16\">[xvi]<\/a> a ridicularizaram. Entre os hebreus, o rabino Maim\u00f4nides<a href=\"#_edn17\" id=\"_ednref17\">[xvii]<\/a>, a quem, por seu saber eminente, apelidou a si mesmo de Grande \u00c1guia, discorreu eruditamente sobre a impossibilidade da demonstra\u00e7\u00e3o de Arist\u00f3teles; e Filopono, em quatorze livros em grego que escreveu contra Proclo, o Acad\u00eamico \u2013 obras que mereceriam ser traduzidas na \u00edntegra \u2013 tratou desse assunto.<\/p>\n\n\n\n<p>Posteriormente, Tom\u00e1s de Aquino tamb\u00e9m assinalou a impossibilidade dessa demonstra\u00e7\u00e3o por outros argumentos, os quais omitirei por ora, tendo-o tratado em outro lugar. E, todavia, sempre que Arist\u00f3teles se viu encurralado em algum ponto de que n\u00e3o podia sair, misturou de tal forma seus argumentos que ningu\u00e9m consegue discernir o que quis dizer, como se v\u00ea no primeiro cap\u00edtulo da F\u00edsica e no livro da Alma, onde a Escola dos fil\u00f3sofos mais sutis que houve notou uma contradi\u00e7\u00e3o incompat\u00edvel nas raz\u00f5es de Arist\u00f3teles, da qual alguns inferiram a corrup\u00e7\u00e3o deste \u2013 como Dicearco, contempor\u00e2neo de Arist\u00f3teles<a href=\"#_edn18\" id=\"_ednref18\">[xviii]<\/a>, Epicuro \u00c1tico, Afrod\u00edsias, Simone Porzio e Pomponazzi.<\/p>\n\n\n\n<p>E, pelo mesmo motivo, Teofrasto, Temisto, Filopono, Simpl\u00edcio, Tom\u00e1s de Aquino, della Mirandola<a href=\"#_edn19\" id=\"_ednref19\">[xix]<\/a> chegaram igualmente \u00e0 conclus\u00e3o da imortalidade das almas, e os \u00c1rabes tamb\u00e9m. Averr\u00f3is concluiu, pelos mesmos lugares de Arist\u00f3teles, a unidade do intelecto e da natureza humana.<\/p>\n\n\n\n<p>Pode-se considerar que Arist\u00f3teles n\u00e3o penetrou os belos segredos da Natureza, como bem notaram os antigos, figurando no verso de sua medalha uma mulher com o rosto coberto por um v\u00e9u, chamada <em>Physis<\/em>, isto \u00e9, Natureza; significando que a beleza da Natureza lhe foi oculta, e que ele s\u00f3 viu o exterior das vestes. Tamb\u00e9m se diz que ele se precipitou ao mar, como Proc\u00f3pio, por n\u00e3o ter sabido compreender por que o mar, no estreito de Negrepont, em vinte e quatro horas, tem sete fluxos e outros tantos refluxos. E se os mais belos tesouros da Natureza nos s\u00e3o ocultos, como poderemos atingir as coisas sobrenaturais e intelig\u00edveis? Por isso Her\u00e1clito primeiro, como escreve Plutarco, e depois dele Teofrasto, diziam que as mais belas coisas do mundo s\u00e3o ignoradas pela arrog\u00e2ncia dos homens, que n\u00e3o querem crer em nada cuja raz\u00e3o o esp\u00edrito humano n\u00e3o possa compreender. Entre essas coisas podem ser inclu\u00eddas as estranhas a\u00e7\u00f5es dos esp\u00edritos malignos e dos feiticeiros, que ultrapassam o esp\u00edrito humano e as causas naturais.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, assim como seria com raz\u00e3o reputado louco e insensato aquele que quisesse negar que a calamita ou o \u00edm\u00e3 deixa uma impress\u00e3o na agulha para faz\u00ea-la voltar para o vento do norte, por n\u00e3o compreender a raz\u00e3o; ou que n\u00e3o quisesse confessar que a arraia-el\u00e9trica<a href=\"#_edn20\" id=\"_ednref20\">[xx]<\/a>, estando entre suas redes, faz com que as m\u00e3os, depois os bra\u00e7os e enfim todo o corpo dos pescadores adorme\u00e7am e se tornem est\u00fapidos, por n\u00e3o saber a raz\u00e3o; assim se deve reputar loucos e insensatos aqueles que, vendo as a\u00e7\u00f5es estranhas dos feiticeiros e dos esp\u00edritos, n\u00e3o querem nelas crer por n\u00e3o poderem compreender a causa, ou porque a causa lhes parece imposs\u00edvel por natureza. Pois mesmo Arist\u00f3teles<a href=\"#_edn21\" id=\"_ednref21\">[xxi]<\/a>, encontrando-se espantado por v\u00e1rias coisas cuja causa n\u00e3o conhecia, disse que aquele que revogar em d\u00favida o que se v\u00ea n\u00e3o dir\u00e1 coisa melhor que os outros. O mesmo Autor, assim como Averr\u00f3is, no livro 8 da F\u00edsica, afirmam que o povo ignorante n\u00e3o cr\u00ea sen\u00e3o naquilo que toca.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, vemos que Orfeu, que viveu cerca de mil e duzentos anos antes de Jesus Cristo, e depois dele Homero, que s\u00e3o os primeiros autores entre os pag\u00e3os, deixaram por escrito as feiti\u00e7arias, necromancias e encantamentos que se praticam presentemente. V\u00ea-se na Lei de Deus, publicada mais de dois anos antes de Orfeu, os feiticeiros de Fara\u00f3 imitarem as obras de Deus. V\u00ea-se a feiticeira de Saul evocar os esp\u00edritos e faz\u00ea-los falar. As proibi\u00e7\u00f5es contidas na lei de Deus de recorrer a adivinhos, feiticeiros, pitonisas \u2013 onde todas as sortes de feiti\u00e7arias e adivinha\u00e7\u00f5es s\u00e3o especificadas \u2013 pelas quais Deus declara que havia exterminado da terra os amorreus e cananeus. E pelas quais feiti\u00e7arias Je\u00fa fez comer pelos c\u00e3es a rainha Jezabel, depois de a haver precipitado de seu pal\u00e1cio. V\u00ea-se tamb\u00e9m as penas estabelecidas contra os feiticeiros nas Leis das Doze T\u00e1buas, que os embaixadores dos romanos haviam extra\u00eddo das leis gregas; v\u00ea-se ainda as mais cru\u00e9is<a href=\"#_edn22\" id=\"_ednref22\">[xxii]<\/a> penas que existem em todas as constitui\u00e7\u00f5es dos imperadores romanos estabelecidas contra os feiticeiros, nos quais s\u00e3o chamados inimigos da Natureza, inimigos do g\u00eanero humano e mal\u00e9ficos<a href=\"#_edn23\" id=\"_ednref23\">[xxiii]<\/a> pelas grandes maldades que cometem, e as impreca\u00e7\u00f5es abomin\u00e1veis trazidas pelas leis \u2013 que n\u00e3o se encontram em quaisquer outras leis sen\u00e3o contra os feiticeiros \u2013 as quais<a href=\"#_edn24\" id=\"_ednref24\">[xxiv]<\/a> a peste cruel (diz a lei) possa extinguir e consumir.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref1\" id=\"_edn1\">[i]<\/a> Lev\u00edtico, cap. 20.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref2\" id=\"_edn2\">[ii]<\/a> Livro IV e VI.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref3\" id=\"_edn3\">[iii]<\/a> Arist\u00f3teles, Livro V; Livro VIII.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref4\" id=\"_edn4\">[iv]<\/a> No livro Sobre o Dem\u00f4nio de S\u00f3crates.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref5\" id=\"_edn5\">[v]<\/a> No livro Sobre o Deus de S\u00f3crates.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref6\" id=\"_edn6\">[vi]<\/a> Livro VI da F\u00edsica; Livro VIII da Metaf\u00edsica.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref7\" id=\"_edn7\">[vii]<\/a> Livro IV; Livro VI e VII da Metaf\u00edsica.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref8\" id=\"_edn8\">[viii]<\/a> Rabi Maim\u00f4nides, Livro II do Guia dos Perplexos.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref9\" id=\"_edn9\">[ix]<\/a> Pico della Mirandola em sua posi\u00e7\u00e3o doutrinal.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref10\" id=\"_edn10\">[x]<\/a> No Livro I das Senten\u00e7as, q. 3.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref11\" id=\"_edn11\">[xi]<\/a> Livro I Do C\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref12\" id=\"_edn12\">[xii]<\/a> No livro Sobre relatos maravilhosos.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref13\" id=\"_edn13\">[xiii]<\/a> No livro II das Opini\u00f5es de Hip\u00f3crates.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref14\" id=\"_edn14\">[xiv]<\/a> Plutarco, em Opini\u00f5es dos Fil\u00f3sofos.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref15\" id=\"_edn15\">[xv]<\/a> Plat\u00e3o, no Timeu; Filopono, Livro XIV Contra Proclo.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref16\" id=\"_edn16\">[xvi]<\/a> Lucr\u00e9cio; Plutarco, em Opini\u00f5es dos Fil\u00f3sofos.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref17\" id=\"_edn17\">[xvii]<\/a> Livro II do Nemore Haneboq.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref18\" id=\"_edn18\">[xviii]<\/a> Livro II, distin\u00e7\u00e3o 1, quest\u00e3o 3.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref19\" id=\"_edn19\">[xix]<\/a> Livro Do M\u00e9todo da Hist\u00f3ria, cap. 6; Livro IV.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref20\" id=\"_edn20\">[xx]<\/a> Os gregos chamam-no de nark\u0113 (\u03bd\u03ac\u03c1\u03ba\u03b7); os latinos, chamando-o de torp\u0113do pelo seu efeito, consideram-no o mais comum milagre da natureza.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref21\" id=\"_edn21\">[xxi]<\/a> Arist\u00f3teles, na \u00c9tica a Nic\u00f4maco; \u00caxodo, cap. 2; Lev\u00edtico 20 e 21; Deuteron\u00f4mio 18; Jeremias 27, 19 e 50; Nabuco 3; 1 Reis, cap. 9; 2 Cr\u00f4nicas, cap. 33; Isa\u00edas 3, 4, 8 e 47; N\u00fameros 23; Reis 23.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref22\" id=\"_edn22\">[xxii]<\/a> Todo o t\u00edtulo Dos Malef\u00edcios.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref23\" id=\"_edn23\">[xxiii]<\/a> Em raz\u00e3o da grandeza dos malef\u00edcios, os malefic\u00e1rios s\u00e3o assim chamados na lei natural 3, Dos Malef\u00edcios, C.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref24\" id=\"_edn24\">[xxiv]<\/a> Lei Neminem, mesmo t\u00edtulo: \u201cQue a peste infernal consuma os que&#8230;\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea ir\u00e1 ler um trecho de &#8220;Da Demoniomania dos Feiticeiros&#8221; de Jean Bodin. Caso deseje saber mais sobre a obra, inclusive como adquiri-la, clique aqui, ou na imagem abaixo. Pref\u00e1cio do Autor O julgamento que foi proferido contra uma feiticeira, ao qual fui chamado no \u00faltimo dia de abril de\u2026<\/p>\n<p class=\"continue-reading-button\"> <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2026\/05\/08\/da-demoniomania-dos-feiticeiros-por-jean-bodin\/\">Leia mais<i class=\"crycon-right-dir\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1306,"comment_status":"closed","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[60,5],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1312"}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1312"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1312\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1315,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1312\/revisions\/1315"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1306"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1312"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1312"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1312"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}