{"id":1335,"date":"2026-06-14T21:04:51","date_gmt":"2026-06-14T21:04:51","guid":{"rendered":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=1335"},"modified":"2026-06-14T21:04:51","modified_gmt":"2026-06-14T21:04:51","slug":"as-facecias-de-poggio-bracciolini","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2026\/06\/14\/as-facecias-de-poggio-bracciolini\/","title":{"rendered":"As Fac\u00e9cias, de Poggio Bracciolini"},"content":{"rendered":"\n<p>Voc\u00ea ir\u00e1 ler, a seguir, um trecho do livro &#8220;As Fac\u00e9cias&#8221;, de Poggio Bracciolini. Clique na imagem da capa para mais informa\u00e7\u00f5es sobre a obra, e como adquiri-la.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/as-facecias\/\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"231\" height=\"328\" src=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/capinha_facecias.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1327\" srcset=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/capinha_facecias.jpg 231w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/capinha_facecias-211x300.jpg 211w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/capinha_facecias-106x150.jpg 106w\" sizes=\"(max-width: 231px) 100vw, 231px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\"> <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>245. Brincadeira de um ignorante que deixou os eruditos embara\u00e7ados.<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>V\u00e1rios monges disputavam sobre a idade e as obras de nosso Salvador, e dizia-se que ele, depois de seus trinta anos, tivera in\u00edcio nas prega\u00e7\u00f5es. Perguntou-lhes ent\u00e3o um dos presentes, que n\u00e3o era t\u00e3o versado nas ci\u00eancias como eles, o que Jesus tivera feito logo ap\u00f3s completar o trig\u00e9simo ano de sua vida. Enquanto uns nada souberam responder e outros expressaram diferentes opini\u00f5es, disse ele: \u201cCom toda a vossa sabedoria, ignorais algo que \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil de reconhecer.\u201d E quando lhe perguntaram ent\u00e3o o que Jesus fizera primeiro, replicou: \u201cEle entrou no seu trig\u00e9simo primeiro ano de vida.\u201d Todos tiveram de rir e acharam o gracejo bom.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>246. Um mercador que acusava outros recebe uma resposta.<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>Carlo Gerio, um mercador florentino, era daqueles banqueiros que seguiam a c\u00faria romana, e veio, como muitos mercadores que negociam em v\u00e1rios pa\u00edses, a Avinh\u00e3o. Quando mais tarde retornou a Roma, foi, numa refei\u00e7\u00e3o entre amigos, perguntado como viviam os florentinos em Avinh\u00e3o e como se comportavam. \u201cS\u00e3o alegres e desinibidos\u201d, respondeu ele; \u201cpois todo aquele que l\u00e1 permanece um ano se descontrola.\u201d Perguntou-lhe ent\u00e3o um homem muito espirituoso entre os convidados, chamado Aldigherio, quanto tempo ele estivera em Avinh\u00e3o. Ao responder: \u201cApenas seis meses\u201d, disse o outro: \u201cTens, portanto, um entendimento excelente, Carlo, pois fizeste, em meio ano, aquilo para que outros precisam de um ano.\u201d Tivemos todos de rir dessa resposta cortante.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>247. Uma dama d\u00e1 uma resposta formosa a um jovem apaixonado por ela.<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>Um jovem florentino ardia de amor por uma mulher nobre e honrada e seguia-a frequentemente \u00e0s igrejas, por onde quer que ela fosse. Disse aos amigos que desejava um momento prop\u00edcio e uma boa ocasi\u00e3o para dirigir-lhe aquelas palavras que j\u00e1 havia composto e preparado. Quando a senhora, em um dia de festa, entrou na igreja de Santa L\u00facia, um de seus amigos lhe disse que era hora de agir, pois ela estava sozinha junto \u00e0 pia de \u00e1gua-benta. Contudo perdera toda a presen\u00e7a de esp\u00edrito e aproximou-se somente quando o amigo o empurrou e cutucou. Tinha, entretanto, esquecido tudo quanto preparara e n\u00e3o ousou dizer uma palavra. Seu amigo, por\u00e9m, encorajou-o a falar ao menos algumas palavras. Por fim disse: \u201cSenhora, eu sou vosso servo.\u201d Ao que a dama, sorrindo, respondeu: \u201cEm casa tenho servos suficientes, sim, mais do que suficientes, que varrem e lavam a lou\u00e7a, e n\u00e3o preciso de nenhum outro.\u201d \u2013 E os amigos riram da estupidez de seu companheiro e da formosa resposta da dama.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>248. De um cavaleiro nos tempos do imperador Frederico, que se mostrava bravo no falar, mas n\u00e3o combatia.<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>Na \u00e9poca em que o imperador Frederico (que morreu em Buonconvento, uma cidade sienesa) acampou inimigo a duas milhas de Floren\u00e7a, correram muitos nobres para armar-se em defesa da p\u00e1tria e atacaram a posi\u00e7\u00e3o dos inimigos. Um fanfarr\u00e3o de fam\u00edlia distinta montou tamb\u00e9m, armado a cavalo, e galopou em larga passada at\u00e9 o port\u00e3o, censurando os demais por sua lentid\u00e3o e gritando que vinham atr\u00e1s como se tivessem medo de que, se necess\u00e1rio, ele combatesse sozinho contra os inimigos. Depois de galopar uma milha adiante e de gastar suas for\u00e7as em jact\u00e2ncias, viu alguns combatentes cobertos de feridas voltarem da batalha e foi gradualmente reduzindo o andamento, at\u00e9 deixar o cavalo andar a passo. Ao ouvir, por\u00e9m, o estrondo dos inimigos que lutavam com os cidad\u00e3os e ver de longe o tumulto da batalha, deteve-se e n\u00e3o se mexeu do lugar. Quando alguns, que tinham ouvido suas grandes palavras, lhe perguntaram por que n\u00e3o prosseguira e entrara na luta, respondeu depois de longo sil\u00eancio: \u201cSinto-me nem t\u00e3o forte nem t\u00e3o experiente em armas como me imaginara.\u201d Deve-se pesar as for\u00e7as da alma e do corpo e n\u00e3o prometer mais do que se pode cumprir.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>249. De um homem que por dois anos n\u00e3o tomou nem alimento nem bebida.<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>Receio que aquilo que agora incluo em nossas conversas pare\u00e7a ainda mais fabuloso do que muitos dos demais, pois \u00e9 contra a natureza e parece facilmente refut\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Um homem, chamado Giacomo, que, na \u00e9poca do Papa Eug\u00eanio, pertencia aos funcion\u00e1rios da C\u00faria Romana chamados copistas, adoecera, quando voltou \u00e0 sua cidade natal Noyon, na Fran\u00e7a, de uma enfermidade grave e prolongada. Minha narra\u00e7\u00e3o se tornaria demasiado longa se eu repetisse tudo o que, segundo seu relato, lhe sucedera durante a doen\u00e7a. Passados muitos anos, no 6.\u00ba ano do pontificado de Nicolau V, ele finalmente regressou \u00e0 C\u00faria. Veio, por\u00e9m, pobre e despojado de tudo, pois, na viagem, ca\u00edra nas m\u00e3os de ladr\u00f5es; dirigiu-se ent\u00e3o a membros da C\u00faria \u2013 vizinhos meus, homens de muito boa honra que o conheciam de antes \u2013 e contou-lhes que, h\u00e1 dois anos, desde sua enfermidade, n\u00e3o havia comido nem bebido, embora o tivesse tentado por v\u00e1rias vezes. \u00c9 sacerdote, muito magro e de ju\u00edzo sadio; recita as ora\u00e7\u00f5es sem falhas e assistiu \u00e0 missa na minha presen\u00e7a. Muitos te\u00f3logos e m\u00e9dicos falaram seriamente com ele; dizem tratar-se de algo antinatural, por\u00e9m t\u00e3o ineg\u00e1vel que seria obstinado quem n\u00e3o acreditasse nisso. Todos os dias vem muita gente interrog\u00e1-lo. As opini\u00f5es sobre ele s\u00e3o inteiramente diversas: alguns creem que seu corpo est\u00e1 possu\u00eddo por um dem\u00f4nio, embora n\u00e3o haja sinal algum disso; ele se apresenta totalmente como um homem perspicaz, honrado e piedoso, que ainda hoje exerce seu of\u00edcio de copista; outros dizem que \u00e9 seu temperamento melanc\u00f3lico que o sustenta. Eu mesmo conversei com ele por diversas vezes e estou convencido de que tudo quanto se ousou dizer a seu respeito \u00e9 falso. Ele afirma que se espanta tanto quanto os outros com seu estado, mas que n\u00e3o chegou a isso de repente, e sim gradualmente. Eu me admiraria ainda mais com este caso se, recentemente, n\u00e3o tivesse folheado certos anais que outrora copiara na Fran\u00e7a e lido neles que, nos tempos do imperador Lot\u00e1rio e do Papa Pascoal, no ano de 822, sucedera o mesmo. Uma menina de doze anos, na regi\u00e3o de Toul, na cidade de Commercy, abstivera-se, depois de comungar na P\u00e1scoa, primeiro por dez meses do p\u00e3o, depois por tr\u00eas anos dos alimentos e das bebidas, e ent\u00e3o voltou ao seu antigo costume de vida. Ele tamb\u00e9m espera que o mesmo suceda com ele.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>250. Observa\u00e7\u00e3o espirituosa de um homem que prometera ensinar um burro.<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>Um pr\u00edncipe ordenou, sob pena severa, a um s\u00fadito \u2013 cujas propriedades desejava apoderar-se e que se gabava de que muitas coisas lhe eram poss\u00edveis \u2013 que ensinasse um burro a ler. Este declarou que isso seria imposs\u00edvel, se n\u00e3o lhe fosse concedido um longo prazo para o ensino. Ao ouvir-se dizer que pedisse tanto tempo quanto julgasse necess\u00e1rio, pediu dez anos. Todos zombaram dele e disseram que ele se havia proposto algo imposs\u00edvel. Contudo consolou seus amigos com as palavras: \u201cN\u00e3o me inquieto; pois ou eu morrerei entretanto, ou o burro, ou o pr\u00edncipe.\u201d Com isso mostrou que \u00e9 ben\u00e9fico alongar e adiar uma coisa dif\u00edcil.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>251. De um sacerdote que n\u00e3o sabia se a Epifania fora homem ou mulher.<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>Um amigo contou-me, no dia da Epifania, acerca da rid\u00edcula estupidez de um sacerdote de sua terra natal. Este anunciou \u00e0 sua comunidade a celebra\u00e7\u00e3o vindoura da Epifania com as palavras: \u201cAmanh\u00e3 comemorareis a Epifania com a mais profunda piedade; \u00e9 uma festa muito grande, sim, uma festa principal; n\u00e3o sei se foi homem ou mulher, mas quem quer que tenha sido, devemos celebrar este dia com a mais alta humildade!\u201d<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>252. De um usur\u00e1rio que fingiu arrependimento e tornou tudo pior do que antes.<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>A um velho usur\u00e1rio, que fingira haver abandonado seu of\u00edcio, veio um homem que queria pegar dinheiro emprestado com juros usur\u00e1rios e trouxe como penhor uma cruz de prata na qual estava inclu\u00eddo um fragmento da cruz de nosso Salvador. Quando pediu ao velho que lhe emprestasse dinheiro tendo aquilo como garantia, este disse: \u201cAfasto-me j\u00e1 do pecado da usura, mas vai ao meu filho (e disse o nome dele), que quer perder a alma, e deixa que ele te empreste!\u201d E enviou com ele um criado para lhe mostrar a casa do filho. Quando j\u00e1 estavam bem longe, o velho gritou ao criado: \u201cEi, tu! diz ao meu filho que n\u00e3o se esque\u00e7a de abater do valor o peso da madeira!\u201d Aquele homem, que parecia haver-se arrependido de sua vida passada, n\u00e3o queria que seu filho avaliasse a madeira da cruz pelo mesmo valor da prata e a considerava menos valiosa que a prata. A natureza humana nunca se nega.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea ir\u00e1 ler, a seguir, um trecho do livro &#8220;As Fac\u00e9cias&#8221;, de Poggio Bracciolini. Clique na imagem da capa para mais informa\u00e7\u00f5es sobre a obra, e como adquiri-la. 245. Brincadeira de um ignorante que deixou os eruditos embara\u00e7ados. V\u00e1rios monges disputavam sobre a idade e as obras de nosso Salvador,\u2026<\/p>\n<p class=\"continue-reading-button\"> <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2026\/06\/14\/as-facecias-de-poggio-bracciolini\/\">Leia mais<i class=\"crycon-right-dir\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1327,"comment_status":"closed","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5,62],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1335"}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1335"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1335\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1336,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1335\/revisions\/1336"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1327"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1335"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1335"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1335"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}