{"id":1347,"date":"2026-07-01T20:12:09","date_gmt":"2026-07-01T20:12:09","guid":{"rendered":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=1347"},"modified":"2026-07-01T20:12:53","modified_gmt":"2026-07-01T20:12:53","slug":"a-vida-de-jesus-de-ernest-renan","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2026\/07\/01\/a-vida-de-jesus-de-ernest-renan\/","title":{"rendered":"A Vida de Jesus, de Ernest Renan"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/clubedeautores.com.br\/livro\/a-vida-de-jesus-5?cart=true\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"231\" height=\"328\" src=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/capinha_renan_capa_arrumada.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1341\" srcset=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/capinha_renan_capa_arrumada.jpg 231w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/capinha_renan_capa_arrumada-211x300.jpg 211w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/capinha_renan_capa_arrumada-106x150.jpg 106w\" sizes=\"(max-width: 231px) 100vw, 231px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\"><a href=\"https:\/\/clubedeautores.com.br\/livro\/a-vida-de-jesus-5?cart=true\">Comprar Edi\u00e7\u00e3o Impressa<\/a><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><a>I. Papel de Jesus na Hist\u00f3ria do Mundo<\/a><\/h1>\n\n\n\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o pela qual as mais nobres por\u00e7\u00f5es da humanidade passaram das antigas religi\u00f5es, compreendidas sob o vago nome de paganismo, a uma religi\u00e3o fundamentada na unidade divina, na Trindade e na encarna\u00e7\u00e3o do Filho de Deus, \u00e9 o acontecimento central da hist\u00f3ria do mundo. Essa convers\u00e3o levou cerca de mil anos para se consumar. Durante pelo menos trezentos anos, a nova religi\u00e3o dedicou-se apenas a se formar. A origem da revolu\u00e7\u00e3o em quest\u00e3o ocorreu sob os reinados de Augusto e Tib\u00e9rio. Foi nesse per\u00edodo que viveu uma pessoa que, por sua audaciosa iniciativa e pelo amor que soube inspirar, criou o objeto e afirmou a base da futura lei que deveria reger a humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem sempre foi religioso desde o momento em que se distinguiu do animal; isto \u00e9, quando viu na natureza algo al\u00e9m da realidade e sentiu em si mesmo algo que n\u00e3o se encerrava no sepulcro. Durante milhares de anos, esse sentimento se manifestou de maneiras estranhas; em muitas culturas, limitou-se \u00e0 cren\u00e7a em feiticeiros, na forma grosseira que ainda observamos em algumas partes da Oceania. Em outras, o sentimento religioso conduziu a vergonhosas e sangrentas cenas, como as que caracterizavam a antiga religi\u00e3o do M\u00e9xico. Em outras ainda, especialmente na \u00c1frica, chegou a se transformar em puro fetichismo, restringindo-se \u00e0 adora\u00e7\u00e3o de objetos materiais, aos quais se atribu\u00eda poderes sobrenaturais. Assim como o instinto do amor, que \u00e0s vezes eleva e enobrece o homem mais vulgar, pode se transformar em pervers\u00e3o e ferocidade, da mesma forma, essa faculdade divina da religi\u00e3o p\u00f4de se transformar, por longo tempo, em uma esp\u00e9cie de c\u00e2ncer que precisava ser extirpado da ra\u00e7a humana, tornando-se uma causa de erros e crimes que os s\u00e1bios deviam tentar suprimir.<\/p>\n\n\n\n<p>As brilhantes civiliza\u00e7\u00f5es que se desenvolveram desde a remot\u00edssima antiguidade na China, na Babil\u00f4nia e no Egito imprimiram \u00e0 religi\u00e3o certo progresso. Na China, desde muito cedo, imperou uma esp\u00e9cie de bom senso que impediu aquele povo de cair nos grandes extravios de outras culturas. Ali, n\u00e3o se conheceram nem as vantagens nem os abusos do g\u00eanio religioso. Contudo, por isso mesmo, n\u00e3o exerceu, sob esse aspecto, nenhuma influ\u00eancia sobre a dire\u00e7\u00e3o da grande corrente da humanidade. As religi\u00f5es da Babil\u00f4nia e da S\u00edria sempre conservaram um fundo de estranho sensualismo; at\u00e9 sua extin\u00e7\u00e3o nos s\u00e9culos IV e V de nossa era, essas religi\u00f5es foram escolas de imoralidade, das quais, por uma esp\u00e9cie de intui\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, \u00e0s vezes surgiam lampejos do mundo divino.<\/p>\n\n\n\n<p>Atrav\u00e9s de um fetichismo aparente, o Egito possu\u00eda talvez desde muito cedo dogmas metaf\u00edsicos e um simbolismo revelado. No entanto, suas interpreta\u00e7\u00f5es de uma teologia refinada n\u00e3o eram, sem d\u00favida, primitivas. Quando o homem possui uma ideia clara, n\u00e3o se ocupa em revesti-la de s\u00edmbolos; quase sempre que se buscam ideias sob antigas imagens misteriosas, cujo significado se perdeu, \u00e9 em consequ\u00eancia de prolongadas reflex\u00f5es e da impossibilidade do esp\u00edrito humano de resignar-se ao absurdo. No entanto, n\u00e3o foi no Egito que surgiu a f\u00e9 da humanidade. Os elementos que, atrav\u00e9s de mil transforma\u00e7\u00f5es, passaram da S\u00edria e do Egito \u00e0 religi\u00e3o crist\u00e3 s\u00e3o formas exteriores de escassa transcend\u00eancia, ou bem esc\u00f3rias semelhantes \u00e0s que sempre existem no fundo dos cultos mais depurados. O grande defeito das religi\u00f5es mencionadas era seu car\u00e1ter essencialmente supersticioso; se de algo preencheram o mundo, foi de milh\u00f5es de amuletos e abraxas. Nenhuma grande ideia moral poderia emergir de ra\u00e7as abatidas por um despotismo secular e acostumadas a institui\u00e7\u00f5es que quase anulavam o exerc\u00edcio da liberdade individual.<\/p>\n\n\n\n<p>A poesia da alma, a f\u00e9, a liberdade, a honradez e a abnega\u00e7\u00e3o apareceram sobre a terra com as duas grandes ra\u00e7as que, at\u00e9 certo ponto, formaram a humanidade: a ra\u00e7a indo-europeia e a ra\u00e7a sem\u00edtica. As primeiras institui\u00e7\u00f5es da ra\u00e7a indo-europeia eram essencialmente naturalistas; mas era um naturalismo profundo e moral, um enlace amoroso entre a natureza e o homem, uma poesia deliciosa repleta do sentimento do infinito; um princ\u00edpio, enfim, do que, com o transcurso dos s\u00e9culos, viria a constituir o g\u00eanio c\u00e9ltico-germ\u00e2nico, que seria expresso por Goethe e Shakespeare.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquilo n\u00e3o era religi\u00e3o nem moral refletidas; mas sim melancolia, ternura, imagina\u00e7\u00e3o e, sobretudo, algo de grave e s\u00e9rio, qualidades indispens\u00e1veis \u00e0 moral e \u00e0 religi\u00e3o. No entanto, a f\u00e9 da humanidade n\u00e3o poderia surgir dali, pois aqueles antigos cultos se desprendiam trabalhosamente do polite\u00edsmo que os caracterizava e n\u00e3o conduziam a um s\u00edmbolo claro. Se o bramanismo chegou at\u00e9 n\u00f3s, deve-se sem d\u00favida ao assombroso privil\u00e9gio de conserva\u00e7\u00e3o que a \u00cdndia parece possuir. O budismo fracassou em todas as suas tentativas de se estender em dire\u00e7\u00e3o ao Ocidente. O druidismo permaneceu como uma forma exclusivamente nacional e sem tend\u00eancias universais. As tentativas gregas de reforma, o orfismo e os mist\u00e9rios n\u00e3o foram suficientes para fornecer \u00e0s almas um alimento s\u00f3lido. A P\u00e9rsia, por sua vez, conseguiu formar uma religi\u00e3o dogm\u00e1tica semimonote\u00edsta e sabiamente organizada; mas \u00e9 mais do que poss\u00edvel que essa mesma organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o fosse sen\u00e3o uma imita\u00e7\u00e3o ou um pl\u00e1gio. De qualquer modo, a P\u00e9rsia se converteu quando, em suas fronteiras, viu aparecer o l\u00e1baro da unidade divina proclamada pelo Isl\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>A gl\u00f3ria de ter formado a religi\u00e3o da humanidade pertence inteiramente \u00e0 ra\u00e7a sem\u00edtica<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Sob sua tenda, n\u00e3o contagiada pelos desordens do mundo j\u00e1 corrompido e muito al\u00e9m dos confins da hist\u00f3ria, o patriarca bedu\u00edno preparava a f\u00e9 do g\u00eanero humano. Uma invenc\u00edvel antipatia pelos cultos voluptuosos da S\u00edria, uma grande simplicidade no ritual, a aus\u00eancia completa de templos e o \u00eddolo reduzido a insignificantes terafins s\u00e3o aspectos que evidenciam sua superioridade. Entre todas as tribos de semitas n\u00f4mades, a dos Beni-Israel j\u00e1 estava destinada a cumprir imensos destinos. Suas antigas rela\u00e7\u00f5es com o Egito, das quais talvez resultaram algumas imita\u00e7\u00f5es puramente materiais, apenas aumentaram sua avers\u00e3o pela idolatria. Uma \u201clei\u201d ou Tor\u00e1, escrita desde muito antigo em t\u00e1buas de pedra e cuja origem remontava a seu grande libertador Mois\u00e9s, j\u00e1 era o c\u00f3digo do monote\u00edsmo e continha poderosos germes de igualdade social e moralidade, se comparada \u00e0s institui\u00e7\u00f5es do Egito e da Caldeia.<\/p>\n\n\n\n<p>Um cofre ou arca, dotado de dois an\u00e9is laterais para facilitar seu transporte por meio de uma alavanca, constitu\u00eda todo o material religioso. Nela estavam reunidos os objetos sagrados da na\u00e7\u00e3o, suas rel\u00edquias, suas mem\u00f3rias, o \u201clivro\u201d, enfim, o di\u00e1rio da tribo, sempre aberto, mas no qual se escrevia apenas de forma muito discreta. Desde cedo, a fam\u00edlia encarregada do transporte e da cust\u00f3dia desses arquivos port\u00e1teis adquiriu grande import\u00e2ncia, estando pr\u00f3xima do livro e tendo acesso a ele. No entanto, a institui\u00e7\u00e3o que decidiu o futuro da humanidade n\u00e3o surgiu de l\u00e1; o sacerdote hebreu difere muito pouco dos outros sacerdotes da antiguidade. O car\u00e1ter que essencialmente distingue Israel dos demais povos teocr\u00e1ticos reside no fato de que, ali, o sacerd\u00f3cio sempre esteve subordinado \u00e0 iniciativa individual. Al\u00e9m dos sacerdotes, cada tribo n\u00f4made tinha seu nabi ou profeta, uma esp\u00e9cie de or\u00e1culo vivo consultado para a solu\u00e7\u00e3o de quest\u00f5es obscuras que exigiam um alto grau de previs\u00e3o. Os nabis de Israel, organizados em grupos ou escolas, tiveram grande superioridade.<\/p>\n\n\n\n<p>Defensores do antigo esp\u00edrito democr\u00e1tico, inimigos dos ricos e opostos a toda organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que pudesse levar Israel pela via das na\u00e7\u00f5es, eles foram os verdadeiros instrumentos da supremacia religiosa do povo judeu. Desde muito cedo, anunciaram esperan\u00e7as ilimitadas; e quando o povo, v\u00edtima at\u00e9 certo ponto de seus conselhos impol\u00edticos, foi subjugado pelo poder ass\u00edrio, proclamaram que lhe estava reservado um reino sem limites; que Jerusal\u00e9m seria um dia a capital do mundo inteiro e que a humanidade se tornaria judia. Jerusal\u00e9m e seu templo apareciam como uma cidade situada no cume de uma montanha, para a qual se dirigiriam todos os povos da terra; como um or\u00e1culo de onde deveria sair a lei universal; como o centro de um reino ideal onde a humanidade, pacificada por Israel, voltaria a encontrar os gozos do \u00c9den<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Para exaltar o mart\u00edrio e celebrar o poder do \u201chomem de dor\u201d, j\u00e1 se deixam ouvir acentos desconhecidos. A respeito de alguns daqueles sublimes pacientes que, \u00e0 maneira de Jeremias, regavam com seu sangue as ruas de Jerusal\u00e9m, um inspirado comp\u00f4s um c\u00e2ntico sobre os sofrimentos e o triunfo do \u201cservidor de Deus\u201d, c\u00e2ntico no qual parece se reconcentrar toda a for\u00e7a prof\u00e9tica do g\u00eanio de Israel<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cCrescia como planta humilde e brotava como uma raiz em terra \u00e1rida; n\u00e3o tinha aspecto belo nem esplendoroso. Desprezado e rejeitado pelos homens, ningu\u00e9m fazia caso dele. Coberto de vergonha e afrontado, era uma nada. \u00c9 verdade que ele mesmo tomou sobre si nossas dol\u00eancias e carregou nossas penalidades, mas era reputado como um leproso, como um homem ferido pela m\u00e3o de Deus e humilhado. Por causa de nossas iniquidades, foi ele lacerado e despeda\u00e7ado por nossas maldades; de seu castigo deveria nascer nossa paz, e com suas feridas fomos curados. Como ovelhas desgarradas, todos n\u00f3s temos sido; cada qual se desviou, e a ele somente Jeov\u00e1 carregou a iniquidade de todos. Desprezado e humilhado, n\u00e3o abriu sua boca; foi conduzido \u00e0 morte como vai a ovelha ao matadouro; como um cordeirinho que est\u00e1 mudo diante do que lhe tosquia, n\u00e3o abriu a boca. Seu sepulcro ser\u00e1 como o sepulcro de um \u00edmpio, sua morte como a morte de um perverso. Mas, depois de sofrida a opress\u00e3o e a in\u00edqua condena\u00e7\u00e3o, ver\u00e1 levantar-se uma gera\u00e7\u00e3o numerosa, e os interesses de Jeov\u00e1 prosperar\u00e3o em suas m\u00e3os.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, ocorreram profundas modifica\u00e7\u00f5es na Tor\u00e1. Novos textos foram produzidos, como o Deuteron\u00f4mio, que pretendiam representar a verdadeira lei de Mois\u00e9s e, na realidade, inauguraram um esp\u00edrito muito diferente do dos antigos n\u00f4mades. O car\u00e1ter dominante desse novo esp\u00edrito foi um grande fanatismo. Crentes fervorosos provocavam cont\u00ednuas viol\u00eancias contra tudo o que se afastava do culto de Jeov\u00e1, e um c\u00f3digo sanguin\u00e1rio, que estabelecia a pena de morte por delitos religiosos, conseguiu abrir caminho. A piedade traz consigo quase sempre singulares contrastes de veem\u00eancia e do\u00e7ura.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquele zelo religioso, que n\u00e3o conheceu a grosseira simplicidade do tempo dos Ju\u00edzes, inspira entona\u00e7\u00f5es de comovente prega\u00e7\u00e3o e de un\u00e7\u00e3o tern\u00edssima, como o mundo n\u00e3o havia escutado at\u00e9 ent\u00e3o. J\u00e1 se deixa sentir uma poderosa tend\u00eancia para as quest\u00f5es sociais, e as utopias, os ensaios de uma sociedade perfeita, penetram no seio do c\u00f3digo. O Pentateuco, mistura de moral patriarcal e de ardente devo\u00e7\u00e3o, de institui\u00e7\u00f5es primitivas e de refinamentos piedosos, como os que preencheram a alma de um Ezequias, de um Josias ou de um Jeremias, se fixou dessa maneira na forma em que o vemos, e, por s\u00e9culos, chegou a ser a regra absoluta do esp\u00edrito nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma vez criado aquele grande livro, a hist\u00f3ria do povo judeu se desenvolve com irresist\u00edvel rapidez. Os grandes imp\u00e9rios que se sucederam na \u00c1sia Ocidental, arrebatando-lhe toda esperan\u00e7a de um reino terrestre, o obrigam a se lan\u00e7ar, com uma esp\u00e9cie de sombria paix\u00e3o, nos bra\u00e7os dos ensaios religiosos. N\u00e3o se preocupando mais com dinastia nacional nem com independ\u00eancia pol\u00edtica, aceita todos os governos, desde que lhe deixem praticar livremente seu culto e seguir seus costumes. Da\u00ed em diante, Israel n\u00e3o ter\u00e1 outra dire\u00e7\u00e3o que a de seus entusiastas religiosos, outros inimigos que os da unidade divina, nem outra p\u00e1tria que sua lei.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso notar que essa lei era toda social e moral; era a obra de homens imbu\u00eddos de um elevado ideal da vida presente, que acreditavam ter encontrado os melhores meios de realiz\u00e1-lo. Todos est\u00e3o convencidos de que a Tor\u00e1 bem observada n\u00e3o pode deixar de conduzir \u00e0 perfeita felicidade. Nela, nada h\u00e1 de comum com as \u201cleis\u201d gregas ou romanas, que, n\u00e3o considerando mais que o direito abstrato, penetram pouco nas quest\u00f5es de felicidade e moralidade privadas. Sabe-se de antem\u00e3o que os resultados dela ser\u00e3o de ordem social e n\u00e3o pol\u00edtica; que a obra em que aquele povo trabalha \u00e9 um reino de Deus e n\u00e3o uma rep\u00fablica civil; uma institui\u00e7\u00e3o universal, mais do que uma nacionalidade ou uma p\u00e1tria.<\/p>\n\n\n\n<p>Israel, em meio a numerosos desfalecimentos e fraquezas, sustenta admiravelmente essa voca\u00e7\u00e3o. Uma s\u00e9rie de homens piedosos, abrasados pelo zelo da lei, como Esdras, Neemias, Onias e os Macabeus, se sucedem na defesa das antigas institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia de que Israel \u00e9 um povo de santos, uma tribo escolhida por Deus e ligada a Ele por meio de um pacto, lan\u00e7a profundas ra\u00edzes que se tornam, a cada dia, mais s\u00f3lidas. Uma imensa esperan\u00e7a preenche as almas. Toda a antiguidade indo-europeia havia colocado o para\u00edso na origem; todos os seus poetas lamentaram uma idade de ouro que se desvanecera. Em contraste, Israel projeta a idade de ouro para o futuro. Os Salmos, essa eterna poesia das almas religiosas, brotam com sua divina e melanc\u00f3lica harmonia desse pietismo exaltado. Enquanto ao seu redor as religi\u00f5es pag\u00e3s se reduzem cada vez mais a um charlatanismo oficial na P\u00e9rsia e Babil\u00f4nia, a uma grosseira idolatria na S\u00edria e Egito, e a v\u00e3os simulacros no mundo grego e latino, Israel se torna verdadeiramente, por excel\u00eancia, o povo de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>O que os m\u00e1rtires crist\u00e3os realizaram nos primeiros s\u00e9culos de nossa era, e o que at\u00e9 nossos dias t\u00eam feito as v\u00edtimas da ortodoxia perseguidora dentro do pr\u00f3prio cristianismo, foi o que os judeus concretizaram nos dois s\u00e9culos que precederam a era crist\u00e3. Um movimento extraordin\u00e1rio de ideias levou a resultados muito opostos, tornando-os, naquela \u00e9poca, o povo mais chocante e original do mundo. Sua dispers\u00e3o por todo o litoral do Mediterr\u00e2neo e o uso da l\u00edngua grega, que adotaram fora da Palestina, prepararam o caminho para uma propaganda que as antigas sociedades ainda n\u00e3o haviam oferecido, divididas como estavam em pequenas nacionalidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de sua persist\u00eancia em anunciar que um dia se tornaria a religi\u00e3o do g\u00eanero humano, o juda\u00edsmo manteve, at\u00e9 o tempo dos Macabeus, o car\u00e1ter de todos os outros cultos da antiguidade, restringindo-se a um culto de fam\u00edlia e de tribo. O israelita acreditava que seu culto era o melhor e falava com desprezo dos deuses estrangeiros; acreditava, acima de tudo, que o culto do verdadeiro Deus havia sido feito apenas para ele. Aquele que ingressava no seio de uma fam\u00edlia judia abra\u00e7ava o culto de Jav\u00e9, e a isso se resumia tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, nenhum israelita pensava em converter o estrangeiro a um culto que se acreditava ser patrim\u00f4nio exclusivo dos filhos de Abra\u00e3o. O desenvolvimento do esp\u00edrito pietista que se produziu ap\u00f3s Esdras e Neemias trouxe consigo uma concep\u00e7\u00e3o muito mais firme e l\u00f3gica. Desde ent\u00e3o, o juda\u00edsmo passou a ser, de modo absoluto, a verdadeira religi\u00e3o; concedia-se a todo o mundo o direito de ingressar nela<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, e logo se tornou uma obra pia e merit\u00f3ria conduzir o maior n\u00famero poss\u00edvel de pessoas a suas fileiras<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. \u00c9 indubit\u00e1vel que ainda n\u00e3o existia o delicado sentimento que elevou Jo\u00e3o Batista, Jesus e S\u00e3o Paulo acima das mesquinhas ideias de ra\u00e7a, embora, por uma estranha contradi\u00e7\u00e3o, aqueles convertidos (pros\u00e9litos) fossem mal vistos e tratados com desd\u00e9m<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. Contudo, a ideia de uma religi\u00e3o exclusiva, a no\u00e7\u00e3o de que neste mundo h\u00e1 algo superior \u00e0 p\u00e1tria, ao sangue e \u00e0s leis; essa ideia que haveria de produzir os ap\u00f3stolos e m\u00e1rtires j\u00e1 estava cimentada. O sentimento de todo o povo judeu se resume, a partir de ent\u00e3o, em uma profunda piedade pelos pag\u00e3os, independentemente do brilho de sua fortuna mundana<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. Os guias do povo se dedicam, sobretudo, a inculcar a ideia de que a virtude consiste em uma ades\u00e3o fan\u00e1tica a determinadas institui\u00e7\u00f5es religiosas, utilizando um ciclo de lendas destinadas a apresentar modelos de inquebrant\u00e1vel firmeza, como Daniel e seus companheiros, a m\u00e3e dos Macabeus e seus sete filhos<a href=\"#_ftn8\" id=\"_ftnref8\">[8]<\/a>, e a novela do Hip\u00f3dromo de Alexandria<a href=\"#_ftn9\" id=\"_ftnref9\">[9]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>As persegui\u00e7\u00f5es de Ant\u00edoco Epif\u00e2nio transformaram essa ideia em paix\u00e3o, quase em frenesi, algo muito an\u00e1logo ao que ocorreu duzentos e trinta anos mais tarde sob o imp\u00e9rio de Nero. A desespera\u00e7\u00e3o e a raiva lan\u00e7am os crentes no mundo das vis\u00f5es e dos devaneios. Surge o primeiro apocalipse, o \u201cLivro de Daniel\u201d, e com ele renasce o profetismo, mas sob uma forma bem diferente da antiga e com um sentimento muito mais amplo dos destinos do mundo. O livro de Daniel foi, at\u00e9 certo ponto, a \u00faltima express\u00e3o das esperan\u00e7as messi\u00e2nicas. O Messias n\u00e3o era mais um rei \u00e0 maneira de Davi e Salom\u00e3o, nem um Ciro teocr\u00e1tico e mosaico; mas um \u201cfilho do homem\u201d aparecendo nas nuvens<a href=\"#_ftn10\" id=\"_ftnref10\">[10]<\/a>, um ser sobrenatural com apar\u00eancia humana, encarregado de julgar o mundo e de presidir a idade de ouro. Talvez o <em>Saoshyant<\/em> da P\u00e9rsia, o grande profeta do futuro que deveria preparar o reinado de Ormuzd<a href=\"#_ftn11\" id=\"_ftnref11\">[11]<\/a>, tenha influenciado alguns tra\u00e7os desse novo ideal. De todo modo, \u00e9 indubit\u00e1vel que o desconhecido autor do Livro de Daniel exerceu uma influ\u00eancia decisiva no acontecimento religioso que transformaria o mundo: ele forneceu o aparato e os termos t\u00e9cnicos do novo messianismo, e sem d\u00favida podem ser aplicadas a ele aquelas palavras de Jesus a respeito de Jo\u00e3o Batista: \u201cAt\u00e9 ele, os profetas; depois dele, o reino de Deus.\u201d No entanto, n\u00e3o se deve crer que aquele movimento, t\u00e3o profundamente religioso e apaixonado, tivesse como m\u00f3vel dogmas particulares, como ocorreu em todas as lutas que eclodiram no seio do cristianismo. Os judeus daquela \u00e9poca eram pouco te\u00f3logos e n\u00e3o especulavam sobre a ess\u00eancia da divindade; suas cren\u00e7as a respeito dos anjos, dos fins do homem e das hip\u00f3stases divinas, cujo primeiro germe j\u00e1 se deixava entrever, eram cren\u00e7as livres, medita\u00e7\u00f5es \u00e0s quais cada um se entregava segundo a \u00edndole de seu esp\u00edrito, mas das quais a maioria das pessoas n\u00e3o tinha nem a mais remota ideia. Os mais ortodoxos eram os que mais se afastavam dessas imagina\u00e7\u00f5es particulares, atendo-se \u00e0 simplicidade do mosa\u00edsmo.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Esta palavra indica simplesmente os povos que falam ou falaram uma das l\u00ednguas chamadas sem\u00edticas. Essa designa\u00e7\u00e3o \u00e9 totalmente defeituosa, mas \u00e9 um desses voc\u00e1bulos, como \u201carquitetura g\u00f3tica\u201d, \u201ccifras \u00e1rabes\u201d, que \u00e9 preciso conservar para melhor entendimento.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Isa\u00edas, II, 1-4, e sobretudo os cap. XL e seg.; LX e seguintes; Miqueias, IV, 1 e seg. \u00c9 necess\u00e1rio ter presente que a 2.\u00aa parte do livro de Isa\u00edas, a partir do cap\u00edtulo XL, n\u00e3o \u00e9 de Isa\u00edas.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> Isa., LII, 13 e seg.; e LIII inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> Ester, IX, 27.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> Mat., XXIII, 15; Josefo, Vita, 23; B. J., II, XVII, 10; VII, III, 3; Ant., XX, II, 4; Hor\u00e1cio, Sat., I, IV; Juv., XIV, 96 e seg.; T\u00e1cito, Ann., II, 85; Hist., V, 5; Di\u00e3o C\u00e1ssio, XXXVII, 17.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[6]<\/a> Mischna, Schebiit, X, 9; Talmud de Babil\u00f4nia, Niddah, fol. 13 b; Jebamoth, 47 b; Kidduschin, 70 b; Midrasch, Jalkut Ruth, fol. 163 d.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\">[7]<\/a> Carta ap\u00f3crifa de Baruch, em Fabricius, Cod. pseud. V. T., II, 147 e seg.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\" id=\"_ftn8\">[8]<\/a> II livro dos Macabeus, cap. VII, e De Maccab\u00e6is atribu\u00eddo a Josefo. Ep\u00edstola aos Hebreus, XI, 33 e seg.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref9\" id=\"_ftn9\">[9]<\/a> III livro (ap\u00f3cr.) dos Macabeus; Rufino, sup. ad Jos., Contra Apionem, II, 5.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref10\" id=\"_ftn10\">[10]<\/a> Dan., VII, 13 e seg.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref11\" id=\"_ftn11\">[11]<\/a> Minokhired, trecho publicado na Zeitschrift der Deutschen Morgenl\u00e4ndischen Gesellschaft, I, 263; Boundehesch, XXXI. A falta de cronologia segura para os textos <em>zendo<\/em> e <em>pelvi<\/em> deixa muitas d\u00favidas sobre essas semelhan\u00e7as entre as cren\u00e7as judaicas e persas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>I. Papel de Jesus na Hist\u00f3ria do Mundo A revolu\u00e7\u00e3o pela qual as mais nobres por\u00e7\u00f5es da humanidade passaram das antigas religi\u00f5es, compreendidas sob o vago nome de paganismo, a uma religi\u00e3o fundamentada na unidade divina, na Trindade e na encarna\u00e7\u00e3o do Filho de Deus, \u00e9 o acontecimento central da\u2026<\/p>\n<p class=\"continue-reading-button\"> <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2026\/07\/01\/a-vida-de-jesus-de-ernest-renan\/\">Leia mais<i class=\"crycon-right-dir\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1341,"comment_status":"closed","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5,63],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1347"}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1347"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1347\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1348,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1347\/revisions\/1348"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1341"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1347"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1347"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1347"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}