{"id":1354,"date":"2026-07-27T21:00:25","date_gmt":"2026-07-27T21:00:25","guid":{"rendered":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=1354"},"modified":"2026-07-27T21:00:25","modified_gmt":"2026-07-27T21:00:25","slug":"o-testamento-de-jean-meslier","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2026\/07\/27\/o-testamento-de-jean-meslier\/","title":{"rendered":"O Testamento de Jean Meslier"},"content":{"rendered":"\n<p>Clique na capa para saber mais sobre a obra, e como adquiri-la.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/o-testamento\/\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"231\" height=\"328\" src=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/meslier_capinha.jpg\" alt=\"Capa de &quot;O Testamento&quot; de Jean Meslier\" class=\"wp-image-1351\" srcset=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/meslier_capinha.jpg 231w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/meslier_capinha-211x300.jpg 211w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/meslier_capinha-106x150.jpg 106w\" sizes=\"(max-width: 231px) 100vw, 231px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\"> <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><a>I. Pref\u00e1cio, des\u00edgnio da obra<\/a><\/h1>\n\n\n\n<p>Meus car\u00edssimos amigos, como n\u00e3o me teria sido permitido, e como teria sido de consequ\u00eancia demasiado perigosa e demasiado desagrad\u00e1vel dizer abertamente, durante minha vida, o que eu pensava da conduta e do governo dos homens, de suas religi\u00f5es e de seus costumes; resolvi diz\u00ea-lo a v\u00f3s ap\u00f3s minha morte. Seria realmente minha inclina\u00e7\u00e3o dizer-vos isso de viva voz, antes que eu morresse, se eu me visse pr\u00f3ximo do fim de meus dias e se ainda ent\u00e3o eu tivesse o livre uso da palavra e do ju\u00edzo. Mas, como n\u00e3o estou certo de ter, nesses \u00faltimos dias ou nesses \u00faltimos momentos, todo o tempo nem toda a presen\u00e7a de esp\u00edrito que me seriam necess\u00e1rios para ent\u00e3o vos declarar meus sentimentos, foi isso que me levou agora a empreender declar\u00e1-los aqui por escrito, e a vos dar ao mesmo tempo provas claras e convincentes de tudo quanto tenho a inten\u00e7\u00e3o de vos dizer a esse respeito, a fim de tentar desabusar-vos ao menos tardiamente, e tanto quanto me fosse poss\u00edvel, dos v\u00e3os erros nos quais todos n\u00f3s, tantos quantos somos, tivemos a desgra\u00e7a de nascer e viver; e nos quais at\u00e9 tive o desgosto de me ver obrigado a vos entreter. Digo o desgosto, porque era verdadeiramente um desgosto para mim ver-me nessa obriga\u00e7\u00e3o. Por isso mesmo tamb\u00e9m jamais me desincumbi dela sen\u00e3o com muita repugn\u00e2ncia e com bastante neglig\u00eancia, como v\u00f3s pudestes notar.<\/p>\n\n\n\n<p>Eis ingenuamente o que primeiro me levou a conceber o des\u00edgnio que me proponho executar.<\/p>\n\n\n\n<p>Como eu sentia<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a> naturalmente em mim mesmo que n\u00e3o encontrava nada de t\u00e3o doce, de t\u00e3o agrad\u00e1vel, de t\u00e3o am\u00e1vel e de t\u00e3o desej\u00e1vel nos homens quanto a paz, a bondade, a equidade, a verdade e a justi\u00e7a, que deviam, ao meu ver, ser para os pr\u00f3prios homens fontes inesgot\u00e1veis de bens e de felicidade, se conservassem cuidadosamente entre si virtudes t\u00e3o am\u00e1veis como essas; eu sentia naturalmente tamb\u00e9m em mim que n\u00e3o encontrava nada de t\u00e3o odioso, de t\u00e3o detest\u00e1vel e de t\u00e3o pernicioso quanto os tumultos e as divis\u00f5es, quanto a mal\u00edcia da mentira, quanto a injusti\u00e7a, a impostura e a tirania, que destroem e amortecem nos homens tudo o que poderia haver de melhor neles: e que, por essa raz\u00e3o, s\u00e3o as fontes fatais n\u00e3o somente de todos os v\u00edcios e de todas as maldades de que eles est\u00e3o repletos; mas tamb\u00e9m as causas infelizes de todos os males e de todas as mis\u00e9rias de que s\u00e3o esmagados na vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde minha mais tenra juventude, entrevi os erros e os abusos que causam tantos males t\u00e3o grandes no mundo. Quanto mais avancei em idade e em conhecimento, mais reconheci a cegueira e a maldade dos homens; mais reconheci a vaidade de suas supersti\u00e7\u00f5es e a injusti\u00e7a de seu governo.<\/p>\n\n\n\n<p>De sorte que, sem jamais ter tido muito com\u00e9rcio com o mundo, eu podia dizer, com o s\u00e1bio Salom\u00e3o, que vi, e que vi mesmo com espanto e indigna\u00e7\u00e3o, a impiedade reinar por toda a terra, e uma corrup\u00e7\u00e3o t\u00e3o grande na justi\u00e7a, que aqueles mesmos que estavam estabelecidos para faz\u00ea-la aos outros haviam se tornado os mais criminosos e haviam posto em seu lugar a iniquidade<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Conheci tantas maldades no mundo, que a pr\u00f3pria virtude mais perfeita e a inoc\u00eancia mais pura n\u00e3o estavam isentas da mal\u00edcia dos caluniadores. Vi, e ainda hoje se v\u00ea todos os dias, uma infinidade de inocentes infelizes perseguidos sem raz\u00e3o e oprimidos com injusti\u00e7a, sem que ningu\u00e9m fosse tocado por sua desgra\u00e7a e sem que encontrassem algum protetor caridoso para socorr\u00ea-los. As l\u00e1grimas dos justos aflitos e as mis\u00e9rias de tantos povos tiranicamente oprimidos pelos ricos e pelos grandes da terra me deram, tanto quanto a Salom\u00e3o, tanto desgosto e tanto desprezo pelo v\u00edcio, que estimei, como ele, a condi\u00e7\u00e3o dos mortos muito mais feliz que a dos vivos; e daqueles que nunca existiram, mil vezes mais felizes que aqueles que s\u00e3o e que ainda gemem em tantas mis\u00e9rias t\u00e3o grandes<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>E o que ainda mais me surpreendia, particularmente, no espanto em que eu estava de ver tantos erros, tantos abusos, tantas supersti\u00e7\u00f5es, tantas imposturas e tanta tirania em vigor, era ver que, embora houvesse grande n\u00famero de personagens que passavam por eminentes em sabedoria, em doutrina e em piedade, contudo n\u00e3o havia nenhum que se atrevesse a falar, nem a declarar-se abertamente contra t\u00e3o detest\u00e1veis desordens. Eu n\u00e3o via pessoa de distin\u00e7\u00e3o alguma que as repreendesse e as censurasse; embora os pobres povos n\u00e3o cessassem de se queixar e de gemer entre si em suas mis\u00e9rias comuns. O sil\u00eancio de tantas pessoas s\u00e1bias e at\u00e9 de um grau e car\u00e1ter distintos, que deviam, a meu ver, opor-se ao torrente dos v\u00edcios e das supersti\u00e7\u00f5es, ou que ao menos deviam tentar trazer alguns rem\u00e9dios para tantos males, parecia-me, com espanto, uma esp\u00e9cie de aprova\u00e7\u00e3o, cuja raz\u00e3o nem a causa eu ainda n\u00e3o via bem. Mas, tendo depois examinado um pouco melhor a conduta dos homens, e tendo penetrado um pouco mais adiante nos segredos da pol\u00edtica fina e astuta daqueles que ambicionam os cargos, e que afetam querer governar os outros e ter autoridade sobre eles, ou que querem mais particularmente fazer-se honrar e respeitar por isso; reconheci facilmente n\u00e3o apenas a fonte e a origem de tantos erros, de tantas supersti\u00e7\u00f5es e de tantos governos t\u00e3o maus; mas reconheci ainda a raz\u00e3o por que aqueles que passam por s\u00e1bios e esclarecidos no mundo nada dizem contra t\u00e3o detest\u00e1veis desordens, embora conhe\u00e7am suficientemente as mis\u00e9rias dos povos seduzidos e enganados por tantos erros, e oprimidos por tantas injusti\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><a>II. Pensamentos e sentimentos do autor sobre as religi\u00f5es do mundo<\/a><\/h1>\n\n\n\n<p>A fonte, pois, meus caros amigos, de todos os males que vos esmagam e de todas as imposturas que vos mant\u00eam infelizmente cativos no erro e na vaidade das supersti\u00e7\u00f5es, bem como sob as leis tir\u00e2nicas dos grandes da terra, n\u00e3o \u00e9 outra sen\u00e3o essa detest\u00e1vel pol\u00edtica dos homens de que acabo de falar; pois uns querendo injustamente dominar seus semelhantes e outros querendo adquirir alguma v\u00e3 reputa\u00e7\u00e3o de santidade e, por vezes, at\u00e9 de divindade; uns e outros se serviram habilmente n\u00e3o somente da for\u00e7a e da viol\u00eancia, mas empregaram ainda todo tipo de ast\u00facias e artif\u00edcios para seduzir os povos, a fim de chegar mais facilmente a seus fins, de sorte que uns e outros desses finos e astutos pol\u00edticos, abusando assim da fraqueza, da credulidade e da ignor\u00e2ncia dos mais fracos e dos menos esclarecidos, facilmente os fizeram acreditar tudo o que quiseram e, em seguida, os fizeram receber com respeito e submiss\u00e3o, de bom grado ou \u00e0 for\u00e7a, todas as leis que quiseram lhes dar; e, por esses meios, uns se fizeram honrar e respeitar ou mesmo adorar como divindades, ou ent\u00e3o como personagens de uma santidade extraordin\u00e1ria e especialmente encarregados por algumas divindades de dar a conhecer sua vontade ao restante dos homens; e outros se tornaram ricos, poderosos e tem\u00edveis no mundo; e, tendo uns e outros, por tais artif\u00edcios, se tornado suficientemente ricos, suficientemente poderosos, suficientemente vener\u00e1veis ou suficientemente tem\u00edveis para se fazer temer ou obedecer, subjugaram aberta e tiranicamente seus semelhantes a suas leis.<\/p>\n\n\n\n<p>Para isso muito lhes serviram tamb\u00e9m as desaven\u00e7as, as querelas, as divis\u00f5es e as animosidades que muitas vezes nascem entre os particulares, pois a maioria dos homens frequentemente se encontra de humor, esp\u00edrito e inclina\u00e7\u00e3o muito diferentes uns dos outros; n\u00e3o podem ajustar-se por muito tempo juntos sem se indispor e sem se dividir. E, quando esses tumultos e essas divis\u00f5es acontecem, ent\u00e3o aqueles que se encontram mais fortes, mais ousados e talvez mesmo tamb\u00e9m os mais perversos, n\u00e3o deixam de aproveitar essas ocasi\u00f5es para se tornarem mais facilmente os senhores absolutos de todos.<\/p>\n\n\n\n<p>Eis, meus caros amigos, a verdadeira fonte e a verdadeira origem de todos os males que perturbam a sociedade humana e que tornam os homens infelizes na vida. Eis a fonte e a origem de todos os erros, de todas as imposturas, de todas as supersti\u00e7\u00f5es, de todas as falsas divindades e de todas as idolatrias que infelizmente se espalharam por toda a terra. Eis a origem e a fonte de tudo o que vos \u00e9 proposto como sendo o mais santo e o mais sagrado, naquilo que vos fazem chamar piedosamente de religi\u00e3o. Eis a fonte e a origem de todas essas pretensas leis santas e inviol\u00e1veis que se quer, sob pretexto de piedade e de religi\u00e3o, fazer-vos observar t\u00e3o estritamente, como leis que v\u00eam da parte do pr\u00f3prio Deus. Eis a fonte de todas essas cerim\u00f4nias pomposas, mas v\u00e3s e rid\u00edculas, que vossos sacerdotes afetam realizar com ostenta\u00e7\u00e3o na celebra\u00e7\u00e3o de seus falsos mist\u00e9rios e de seu falso culto divino. Em uma palavra, eis a fonte e a origem de tudo o que vos fazem respeitar e adorar como divindades, ou como coisas inteiramente divinas. Eis tamb\u00e9m a origem e a fonte de todos esses t\u00edtulos e nomes soberbos de senhor, de pr\u00edncipe, de rei, de monarca e de potentado, que todos, sob pretexto de vos governar como soberanos, vos oprimem como tiranos: que, sob pretexto do bem p\u00fablico, vos arrebatam tudo o que tendes de mais belo e de melhor: e que, sob pretexto de terem sua autoridade de alguma suprema divindade, fazem com que eles mesmos sejam obedecidos, temidos e respeitados como deuses. E, enfim, eis a fonte e a origem de todos esses outros v\u00e3os nomes de nobre, de fidalgo, de conde etc., de que a terra fervilha, como diz um autor, e que s\u00e3o quase todos como lobos vorazes que, sob pretexto de querer gozar de seus direitos e de sua autoridade, vos pisam, vos maltratam, vos saqueiam e vos arrebatam o que tendes de melhor. Eis igualmente a fonte e a origem de todos esses pretensos caracteres santos e sagrados de ordem e de poder eclesi\u00e1stico e espiritual, que vossos sacerdotes e vossos bispos atribuem sobre v\u00f3s: que, sob pretexto de vos conferir os bens espirituais de uma gra\u00e7a e de um favor inteiramente divinos, vos arrebatam sutilmente bens que s\u00e3o incomparavelmente mais reais e mais s\u00f3lidos do que aqueles que fingem querer vos conferir; e que, sob pretexto de querer conduzir-vos ao c\u00e9u e vos proporcionar nele uma felicidade eterna, impedem-vos de gozar tranquilamente de qualquer verdadeira felicidade na terra; e que, enfim, sob pretexto de querer garantir-vos, em outra vida, das penas imagin\u00e1rias de um inferno que n\u00e3o existe, assim como dessa outra vida eterna da qual entret\u00eam inutilmente para v\u00f3s, mas inutilmente para eles, vossos medos e vossas esperan\u00e7as, reduzem-vos a sofrer nesta vida, que \u00e9 a \u00fanica que tendes para reivindicar, as penas reais de um verdadeiro inferno.<\/p>\n\n\n\n<p>E como a for\u00e7a dessas esp\u00e9cies de governos tir\u00e2nicos s\u00f3 subsiste pelos mesmos meios e pelos mesmos princ\u00edpios que os estabeleceram, e como \u00e9 perigoso querer combater as m\u00e1ximas fundamentais de uma religi\u00e3o, assim como abalar as leis fundamentais de um Estado ou de uma rep\u00fablica; n\u00e3o se deve espantar se as pessoas s\u00e1bias e esclarecidas se conformam \u00e0s leis gerais do Estado, por mais injustas que possam ser, ou se conformam, ao menos em apar\u00eancia, ao uso e \u00e0 pol\u00edtica de uma religi\u00e3o que encontram estabelecida, embora reconhe\u00e7am suficientemente seus erros e sua vacuidade, porque, por mais repugn\u00e2ncia que possam ter em se submeter a ela, \u00e9-lhes, no entanto, muito mais \u00fatil e vantajoso viver tranquilamente conservando o que podem ter do que se exporem voluntariamente a perder-se, querendo opor-se ao turbilh\u00e3o dos erros comuns, ou querendo resistir \u00e0 autoridade de um soberano que quer tornar-se senhor absoluto de tudo; al\u00e9m disso, em grandes Estados e governos, como s\u00e3o os reinos e os imp\u00e9rios, sendo imposs\u00edvel que aqueles que s\u00e3o soberanos possam sozinhos, por si mesmos, prover a tudo e manter seu poder e sua autoridade em extens\u00f5es t\u00e3o grandes de territ\u00f3rio, eles tomam o cuidado de estabelecer por toda parte oficiais, intendentes, governadores e uma multid\u00e3o de outras pessoas, que pagam largamente \u00e0s expensas do p\u00fablico, para velar por seus interesses, para manter sua autoridade, de modo que n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que ousasse p\u00f4r-se em condi\u00e7\u00f5es de resistir, nem mesmo de contradizer abertamente uma autoridade t\u00e3o absoluta, sem se expor ao mesmo tempo a um perigo manifesto de se perder. Por isso, os mais s\u00e1bios e os mais esclarecidos s\u00e3o constrangidos a permanecer em sil\u00eancio, embora vejam manifestamente os abusos e as desordens de um governo t\u00e3o injusto e t\u00e3o odioso.<\/p>\n\n\n\n<p>Acrescentai a isso as vis\u00f5es e as inclina\u00e7\u00f5es particulares de todos os que possuem os grandes, os m\u00e9dios ou mesmo os menores cargos, seja no Estado civil, seja no estado eclesi\u00e1stico, ou dos que aspiram possu\u00ed-los. Certamente, mal h\u00e1 entre todos esses algu\u00e9m que n\u00e3o pense muito mais em tirar proveito e buscar sua vantagem particular do que em proporcionar sinceramente o bem p\u00fablico dos outros. Mal h\u00e1 quem n\u00e3o se mova por algumas vis\u00f5es de ambi\u00e7\u00e3o ou de interesse, ou por outras quaisquer vis\u00f5es que lisonjeiam a carne e o sangue. N\u00e3o ser\u00e3o aqueles que ambicionam cargos e empregos em um Estado que se opor\u00e3o ao orgulho, \u00e0 ambi\u00e7\u00e3o ou \u00e0 tirania de um pr\u00edncipe que quer submeter tudo \u00e0s suas leis: ao contr\u00e1rio, antes o lisonjeiam em suas m\u00e1s paix\u00f5es e em seus injustos des\u00edgnios, na esperan\u00e7a de avan\u00e7arem e se engrandecerem eles pr\u00f3prios sob o favor de sua autoridade. Tampouco ser\u00e3o aqueles que ambicionam benef\u00edcios ou dignidades na Igreja que se opor\u00e3o a isso: pois \u00e9 pelo favor e pelo pr\u00f3prio poder dos pr\u00edncipes que pretendem alcan\u00e7\u00e1-los, ou neles se manter, quando os houverem alcan\u00e7ado; e, longe de pensar em opor-se aos seus maus des\u00edgnios, ou de lhes contradizer em qualquer coisa, ser\u00e3o os primeiros a aplaudi-los e a lisonje\u00e1-los em tudo o que fazem. Tampouco ser\u00e3o eles que censurar\u00e3o os erros estabelecidos, nem que revelar\u00e3o aos outros as mentiras, as ilus\u00f5es ou as imposturas de uma falsa religi\u00e3o: pois \u00e9 sobre esses erros e essas imposturas que se funda toda a sua dignidade, e todo o seu poder, com todas as grandes rendas que deles extraem. N\u00e3o ser\u00e3o ricos avarentos que se opor\u00e3o \u00e0 injusti\u00e7a do pr\u00edncipe, nem que censurar\u00e3o publicamente os erros e os abusos de uma falsa religi\u00e3o; pois muitas vezes \u00e9 pelo pr\u00f3prio favor do pr\u00edncipe que possuem os empregos lucrativos no Estado ou ricos benef\u00edcios na Igreja. Se aplicar\u00e3o muito mais a acumular riquezas e tesouros do que a destruir erros e abusos p\u00fablicos, dos quais extraem uns e outros t\u00e3o grandes lucros. Tampouco ser\u00e3o aqueles que amam a vida suave, ou os prazeres e as comodidades da vida, que se opor\u00e3o aos abusos de que falo; eles preferem muito mais gozar tranquilamente dos prazeres e das do\u00e7uras da vida do que expor-se a sofrer persegui\u00e7\u00f5es, querendo opor-se ao turbilh\u00e3o dos erros comuns.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o ser\u00e3o os devotos hip\u00f3critas que se opor\u00e3o a isso, porque eles s\u00f3 gostam de se cobrir com o manto da virtude e de servir-se de um especioso pretexto de piedade e de zelo religioso para ocultar seus piores v\u00edcios e para chegar mais sutilmente aos fins particulares que se prop\u00f5em, que \u00e9 sempre buscar seus interesses e suas satisfa\u00e7\u00f5es, enganando os outros por belas apar\u00eancias de virtude. Enfim, n\u00e3o ser\u00e3o os fracos nem os ignorantes que se opor\u00e3o a isso, porque, estando sem ci\u00eancia e sem autoridade, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que possam desvendar tantos erros e tantas imposturas de que os entret\u00eam, nem que possam resistir \u00e0 viol\u00eancia de um turbilh\u00e3o, que n\u00e3o deixaria de arrast\u00e1-los se tivessem dificuldade em segui-lo; al\u00e9m disso, h\u00e1 uma tal liga\u00e7\u00e3o e uma tal cadeia de subordina\u00e7\u00e3o e de depend\u00eancia entre todos os diferentes estados e condi\u00e7\u00f5es dos homens; e h\u00e1 tamb\u00e9m quase sempre entre eles tanta inveja e tanto ci\u00fame, tanta perf\u00eddia e trai\u00e7\u00e3o, mesmo entre os parentes mais pr\u00f3ximos, que uns n\u00e3o poderiam confiar nos outros; e, por conseguinte, n\u00e3o poderiam fazer nada, nem empreender nada, sem se exporem ao mesmo tempo a serem descobertos e tra\u00eddos por algu\u00e9m. N\u00e3o seria sequer seguro confiar em um amigo, nem em um irm\u00e3o, em uma coisa de tal consequ\u00eancia, como seria a de querer derrubar um governo t\u00e3o mau.<\/p>\n\n\n\n<p>De modo que, n\u00e3o havendo ningu\u00e9m que possa, queira ou ouse opor-se a tantos erros, a tantas imposturas e \u00e0 tirania dos grandes da terra, n\u00e3o \u00e9 de admirar se esses v\u00edcios reinam t\u00e3o poderosamente e t\u00e3o universalmente no mundo. E eis como os abusos, os erros, as supersti\u00e7\u00f5es e a tirania se estabeleceram no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Pareceria, ao menos em tal caso, que a religi\u00e3o e a pol\u00edtica n\u00e3o deveriam se acomodar, e que ent\u00e3o deveriam se encontrar reciprocamente contr\u00e1rias e opostas uma \u00e0 outra, visto que parece que a do\u00e7ura e a piedade da religi\u00e3o deveriam condenar os rigores e as injusti\u00e7as de um governo tir\u00e2nico; e que, por outro lado, parece que a prud\u00eancia de uma pol\u00edtica s\u00e1bia deveria condenar e reprimir os abusos, os erros e as imposturas de uma falsa religi\u00e3o. \u00c9 verdade que isso deveria acontecer assim; mas o que deveria acontecer, nem sempre acontece. Assim, embora pare\u00e7a que a religi\u00e3o e a pol\u00edtica devessem ser t\u00e3o contr\u00e1rias e t\u00e3o opostas uma \u00e0 outra, em seus princ\u00edpios e em suas m\u00e1ximas; elas, no entanto, n\u00e3o deixam de concordar bastante bem entre si, quando uma vez fizeram alian\u00e7a e contra\u00edram amizade entre si: ou se poderia dizer que, ent\u00e3o, elas se entendem como dois ladr\u00f5es; pois, ent\u00e3o, defendem-se e sustentam-se mutuamente uma \u00e0 outra. A religi\u00e3o sustenta o governo pol\u00edtico, por mais perverso que ele possa ser; e, por sua vez, o governo sustenta a religi\u00e3o, por mais tola e v\u00e3 que ela possa ser. De um lado, os padres, que s\u00e3o os ministros da religi\u00e3o, recomendam, sob pena de maldi\u00e7\u00e3o e de dana\u00e7\u00e3o eterna, obedecer aos magistrados, aos pr\u00edncipes e aos soberanos, como sendo estabelecidos por Deus para governar os outros; e os pr\u00edncipes, por sua vez, fazem respeitar os padres, fazem-lhes conceder bons soldos e bons rendimentos e os mant\u00eam nas fun\u00e7\u00f5es v\u00e3s e abusivas de seu falso minist\u00e9rio, constrangendo o povo a considerar como santo e como sagrado tudo o que eles fazem e tudo o que ordenam aos outros que creiam ou fa\u00e7am, sob esse belo e aparente pretexto de religi\u00e3o e de culto divino. E eis, ainda uma vez, como os abusos e como os erros, as supersti\u00e7\u00f5es, as ilus\u00f5es e o engano se estabeleceram no mundo, e como a\u00ed se mant\u00eam para o grande infort\u00fanio dos pobres povos, que gemem sob jugos t\u00e3o \u00e1speros e t\u00e3o pesados.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez v\u00f3s penseis, meus caros amigos, que, em t\u00e3o grande n\u00famero de falsas religi\u00f5es quantas h\u00e1 no mundo, minha inten\u00e7\u00e3o seria excluir ao menos desse n\u00famero a religi\u00e3o cat\u00f3lica, da qual todos n\u00f3s professamos, e a qual dizemos ser a \u00fanica que ensina a pura verdade, a \u00fanica que reconhece e adora como conv\u00e9m o verdadeiro Deus, e a \u00fanica que conduz os homens pelo verdadeiro caminho da salva\u00e7\u00e3o e de uma eternidade bem-aventurada; mas desenganai-vos, meus caros amigos, desenganai-vos disso e, em geral, de tudo o que vossos piedosos ignorantes, ou vossos padres e doutores zombadores e interessados, apressam-se em vos dizer e fazer crer, sob o falso pretexto da certeza infal\u00edvel de sua pretensa religi\u00e3o santa e divina. N\u00e3o estais menos seduzidos nem menos enganados do que aqueles que s\u00e3o os mais seduzidos e enganados. N\u00e3o estais menos no erro do que aqueles que nele est\u00e3o mais profundamente mergulhados.<\/p>\n\n\n\n<p>Vossa religi\u00e3o n\u00e3o \u00e9 menos v\u00e3, nem menos supersticiosa, que qualquer outra; ela n\u00e3o \u00e9 menos falsa em seus princ\u00edpios, nem menos rid\u00edcula e absurda em seus dogmas e m\u00e1ximas; n\u00e3o sois menos id\u00f3latras do que aqueles a quem censurais e que v\u00f3s mesmos condenais por idolatria. As ideias dos pag\u00e3os e as vossas n\u00e3o diferem sen\u00e3o no nome e na apar\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Tende isso em v\u00f3s. Sentis tamb\u00e9m isso em v\u00f3s mesmos. Filipenses II. 5.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Vi debaixo do sol, no lugar do ju\u00edzo, a impiedade, e no lugar da justi\u00e7a, a iniquidade. Ecles. III. 16.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> Louvei mais os mortos do que os vivos; e julguei mais feliz do que uns e outros aquele que ainda n\u00e3o nasceu e n\u00e3o viu os males que se fazem debaixo do sol. Ecles. IV, 2.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique na capa para saber mais sobre a obra, e como adquiri-la. I. Pref\u00e1cio, des\u00edgnio da obra Meus car\u00edssimos amigos, como n\u00e3o me teria sido permitido, e como teria sido de consequ\u00eancia demasiado perigosa e demasiado desagrad\u00e1vel dizer abertamente, durante minha vida, o que eu pensava da conduta e do\u2026<\/p>\n<p class=\"continue-reading-button\"> <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2026\/07\/27\/o-testamento-de-jean-meslier\/\">Leia mais<i class=\"crycon-right-dir\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1351,"comment_status":"closed","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5,64],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1354"}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1354"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1354\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1355,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1354\/revisions\/1355"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1351"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1354"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1354"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1354"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}