{"id":1360,"date":"2026-10-22T14:29:08","date_gmt":"2026-10-22T14:29:08","guid":{"rendered":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=1360"},"modified":"2026-10-22T14:29:08","modified_gmt":"2026-10-22T14:29:08","slug":"os-judeus-na-caricatura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2026\/10\/22\/os-judeus-na-caricatura\/","title":{"rendered":"Os Judeus na Caricatura"},"content":{"rendered":"\n<p>Adquira o livro, clicando na capa.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/os-judeus-na-caricatura\/\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"231\" height=\"328\" src=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/capinha_clube.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1358\" srcset=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/capinha_clube.jpg 231w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/capinha_clube-211x300.jpg 211w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/capinha_clube-106x150.jpg 106w\" sizes=\"(max-width: 231px) 100vw, 231px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\"> <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>IX. Os judeus na caricatura do s\u00e9culo XIX<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>No s\u00e9culo XIX a hist\u00f3ria do juda\u00edsmo europeu recebeu seu mais importante corte. E isto por meio da emancipa\u00e7\u00e3o dos judeus que, nesse s\u00e9culo, se imp\u00f4s na Europa Ocidental, entendida como sua igualdade civil e pol\u00edtica oficial.<\/p>\n\n\n\n<p>A declara\u00e7\u00e3o de emancipa\u00e7\u00e3o dos judeus tem, nos diferentes pa\u00edses da Europa Ocidental, sempre uma data bem determinada: Fran\u00e7a, a grande Revolu\u00e7\u00e3o e a legisla\u00e7\u00e3o napole\u00f4nica; Am\u00e9rica, a mesma \u00e9poca; Hungria, 1839; Alemanha, 1848; Inglaterra, 1858; It\u00e1lia, 1859; Su\u00ed\u00e7a, 1866, etc. Mas, apesar dessas datas oficiais, tratou-se em todos os lugares de um processo gradual de transforma\u00e7\u00e3o, cujo t\u00e9rmino \u00e0s vezes s\u00f3 se alcan\u00e7ou muito mais tarde, conforme as particularidades das condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e pol\u00edticas de cada pa\u00eds. Na Alemanha hohenzollerniana esse processo ainda n\u00e3o estava de modo algum conclu\u00eddo quando a arrog\u00e2ncia feudal, incitada por massas politicamente confusas, em sua estupidez floresceu em pecados e entrou na guerra mundial como um rinoceronte em uma armadilha. Por outro lado, os judeus na Inglaterra, em virtude de seu desenvolvimento pol\u00edtico mais maduro, j\u00e1 no s\u00e9culo XVIII possu\u00edam direitos muito amplos. No leste da Europa, na R\u00fassia, a igualdade civil havia sido inteiramente negada aos judeus at\u00e9 a guerra mundial; s\u00f3 foi realizada pela revolu\u00e7\u00e3o bolchevique.<\/p>\n\n\n\n<p>A emancipa\u00e7\u00e3o dos judeus \u00e9, em geral, louvada como um resultado da humanidade: como o resultado da crescente percep\u00e7\u00e3o de que o judeu \u201cpor assim dizer e realmente\u201d tamb\u00e9m seria um ser humano. Esse triunfo da humanidade, t\u00e3o frequentemente afirmado, \u00e9 um completo disparate, porque a hist\u00f3ria jamais conhece tais triunfos. Ela conhece apenas triunfos de importantes interesses econ\u00f4micos vitais de uma \u00e9poca, que se apresentam sob o manto dissimulador do triunfo da humanidade. E assim sucedeu tamb\u00e9m em cada pa\u00eds no que se refere \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o dos judeus.<\/p>\n\n\n\n<p>A emancipa\u00e7\u00e3o dos judeus \u00e9 a forma pol\u00edtica para a liberta\u00e7\u00e3o definitiva da economia monet\u00e1ria da tutela de um governo autorit\u00e1rio de curta dura\u00e7\u00e3o, que a impedia de seu desenvolvimento sem restri\u00e7\u00f5es. Pois a economia monet\u00e1ria tinha de poder desabrochar completamente por essa \u00e9poca, se queria cumprir as tarefas da economia mundial exigidas pelo desenvolvimento da t\u00e9cnica, da ind\u00fastria e do com\u00e9rcio. Esse processo tornou-se uma emancipa\u00e7\u00e3o dos judeus porque era imposs\u00edvel desencadear a economia monet\u00e1ria sem, ao mesmo tempo, conceder os direitos politicamente l\u00f3gicos de propriedade ao seu portador mais importante, tanto em n\u00famero quanto em capacidade t\u00e9cnico-profissional. N\u00e3o se pode tornar a coisa \u00e1gil enquanto se mant\u00eam atadas as m\u00e3os que devem dirigi-la. A emancipa\u00e7\u00e3o dos judeus tornou-se, portanto, o m\u00ednimo existencial pol\u00edtico para a possibilidade de desenvolvimento do grande capitalismo na Europa a partir do momento em que a era da manufatura foi substitu\u00edda pela era da m\u00e1quina e suas perspectivas econ\u00f4micas enormes iam brilhando cada vez mais claramente nos c\u00e9rebros dos previdentes. E, a partir desse momento, ela tamb\u00e9m se tornou realidade, em parte mais cedo, em parte mais tarde. Seria, portanto, muito mais claro se, em vez de falar da emancipa\u00e7\u00e3o dos judeus, se falasse da emancipa\u00e7\u00e3o da economia monet\u00e1ria moderna. Mas a humanidade, afinal, gosta de se enganar a si mesma.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao tornar-se, pela emancipa\u00e7\u00e3o dos judeus, inteiramente livres as enormes for\u00e7as monet\u00e1rias e as extraordin\u00e1rias pot\u00eancias intelectuais do juda\u00edsmo do oeste europeu (seus conhecimentos especializados inigual\u00e1veis na economia monet\u00e1ria), essas for\u00e7as tornaram-se n\u00e3o apenas livres e \u00fateis para a constru\u00e7\u00e3o geral da moderna economia de lucros do grande capitalismo, mas tamb\u00e9m simultaneamente para a constru\u00e7\u00e3o do moderno Estado burgu\u00eas que por esse caminho surgiu. O Estado burgu\u00eas moderno \u00e9, ali\u00e1s, uma \u201cfunda\u00e7\u00e3o judaica\u201d, cujos benef\u00edcios favoreceram, em cada pa\u00eds, pelo menos cinquenta vezes mais crist\u00e3os do que judeus. &#8211;<\/p>\n\n\n\n<p>A transi\u00e7\u00e3o da era da manufatura para a era da m\u00e1quina, a transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica fundamental da modernidade, que geralmente se realizou na primeira metade do s\u00e9culo XIX, conduziu em todos os lugares as classes m\u00e9dias, condenadas por isso \u00e0 dissolu\u00e7\u00e3o, a graves crises e apertos financeiros. No inevit\u00e1vel contexto desse per\u00edodo de profundas convuls\u00f5es surgiram em todos os lugares fortes correntes antissemitas. Em determinados pa\u00edses, e sobretudo na Alemanha, o \u00f3dio aos judeus assumiu formas t\u00e3o graves como n\u00e3o se via h\u00e1 s\u00e9culos. Esse novo per\u00edodo de persegui\u00e7\u00e3o aos judeus foi tanto mais inquietante quanto sua primeira etapa de emancipa\u00e7\u00e3o judaica na Europa Ocidental \u2013 na Fran\u00e7a \u2013 havia ocorrido antes.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Fran\u00e7a, com a grande Revolu\u00e7\u00e3o, os judeus obtiveram em um s\u00f3 golpe todos os direitos civis e pol\u00edticos. Embora Napole\u00e3o I os tenha restringido um tanto, os direitos permaneceram, durante todo o seu governo, em tal extens\u00e3o que os judeus da Europa realmente tinham todas as raz\u00f5es para permanecer entusiasmados com Napole\u00e3o. Onde quer que seus regimentos pusessem o p\u00e9, trouxeram aos judeus a igualdade de direitos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"707\" height=\"931\" src=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1361\" srcset=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image.jpg 707w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-228x300.jpg 228w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-114x150.jpg 114w\" sizes=\"(max-width: 707px) 100vw, 707px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Prancha: Apelo eleitoral antissemita franc\u00eas. Concebido e desenhado pelo candidato antissemita Adolf Willette. 1889.<\/p>\n\n\n\n<p>Napole\u00e3o havia reconhecido melhor do que todos os seus colegas leg\u00edtimos nos tronos da Europa a imensa import\u00e2ncia da federa\u00e7\u00e3o associativa judaica. Na medida em que a Alemanha esteve sob a plena esfera de poder de Napole\u00e3o, tamb\u00e9m a\u00ed os judeus obtiveram j\u00e1 ent\u00e3o muitos direitos. Assim, por exemplo, em toda a Pr\u00fassia da margem esquerda do Reno, assim como em Hamburgo e em Mecklemburgo (em contrapartida, permaneceram na Baviera a maioria, e na Sax\u00f4nia e na \u00c1ustria todas as antigas restri\u00e7\u00f5es impostas aos judeus). A queda de Napole\u00e3o alterou a situa\u00e7\u00e3o. Com sua queda ergueram-se imediatamente, no continente, todas as pot\u00eancias da rea\u00e7\u00e3o feudal para recuperar o mais completamente poss\u00edvel os privil\u00e9gios que a revolu\u00e7\u00e3o lhes havia tomado. A essas restitui\u00e7\u00f5es feudais juntou-se, precisamente por aquela \u00e9poca, a transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica dupla j\u00e1 iniciada; as guerras napole\u00f4nicas haviam acelerado extraordinariamente o curso do desenvolvimento econ\u00f4mico. Uma pol\u00edtica sensata poderia ter atenuado as consequ\u00eancias dessa alterada situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A rea\u00e7\u00e3o, que ressurgia na Europa, tornou as coisas no seu oposto. Ao lan\u00e7ar cem obst\u00e1culos ao saud\u00e1vel prosseguimento, converteu o processo de transforma\u00e7\u00e3o, que naturalmente n\u00e3o se podia deter, na mais grave e por muitos anos duradoura crise de mis\u00e9ria para toda a pequena e m\u00e9dia burguesia. Em tal terreno havia de aflorar o \u00f3dio aos judeus, e ele proliferou como uma erva daninha que sufoca toda raz\u00e3o, em exuber\u00e2ncia lasciva. Como na Alemanha as priva\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas eram maiores, ressoou aqui, mais alto e mais poderoso do que em qualquer outro lugar, de novo pelo pa\u00eds o terr\u00edvel grito: \u201cO judeu \u00e9 o culpado!\u201d Milhares de gargantas de pequeno-burgueses o bradaram numa cidade ap\u00f3s outra, e igualmente muitos responderam por sua vez em centenas de cidades alem\u00e3s. Assim ocorreu, no ano de 1819, a terr\u00edvel onda de tumultos Hep-Hep, que come\u00e7ou em W\u00fcrzburg e, sob pilhagem de lojas judaicas, destrui\u00e7\u00e3o de casas judaicas e renovadas expuls\u00f5es de judeus de suas resid\u00eancias, varreu por anos, como uma espantosa epidemia espiritual, metade da Alemanha. Em toda uma s\u00e9rie de cidades, como Hamburgo, Danzig, Darmstadt, D\u00fcsseldorf, Frankfurt, Heidelberg, Karlsruhe etc., esse chamado tumulto Hep-Hep assumiu formas t\u00e3o amea\u00e7adoras que as autoridades, que, no fundo, n\u00e3o viam com desagrado o furor das massas desencadeadas contra os judeus, por fim tamb\u00e9m se alarmaram e convocaram o ex\u00e9rcito. Certamente, isso ocorreu muito menos para proteger os judeus, cujos bens e vidas estavam amea\u00e7ados, do que para evitar que a f\u00faria popular um dia almejasse objetivos mais elevados. Em Frankfurt-am-Main, que no s\u00e9culo XVIII havia, de fato, devido exclusivamente aos judeus sua grande prosperidade, mas, apesar de tudo, seguira uma pol\u00edtica muito desavergonhada para com os judeus, estes haviam finalmente conquistado, no ano de 1811, os plenos direitos de cidadania. Mal, por\u00e9m, a chamada \u201ccidade livre\u201d esteve inteiramente nas m\u00e3os de um grupo de pequeno-burgueses provincianos (1815), e logo esse pleno direito de cidadania dos judeus foi novamente revogado. E outra vez, exatamente como antes, qualquer bandoleiro que lhe aprouvesse, contanto que fosse crist\u00e3o, tinha o direito de, a todo judeu que encontrasse, dizer: \u201cMach\u2019 Mores, Jud!\u201d e expuls\u00e1-lo da cal\u00e7ada para a rua. Como antes, os judeus s\u00f3 podiam residir em determinados bairros. Em Bremen e L\u00fcbeck os judeus foram mesmo expulsos da cidade. Etc. Quando saiu a ordem de que os judeus deviam adotar nomes civis, isso foi, especialmente na \u00c1ustria, para in\u00fameros burocratas uma ocasi\u00e3o favor\u00e1vel para soltar as r\u00e9deas de sua arrog\u00e2ncia subalterna e, al\u00e9m disso, de sua cobi\u00e7a por subornos. Quem pagasse bem aos burocratas podia escolher um nome bonito ou discreto. Quem n\u00e3o tinha dinheiro e n\u00e3o podia saciar a gan\u00e2ncia crist\u00e3 por subornos era-lhe imposto algum nome rid\u00edculo ou at\u00e9 mesquinho \u2013 por exemplo, Wohlgeruch, Galgenvogel, Schwei\u00dfloch -. Deste modo sucedeu que tantos judeus j\u00e1, pelo pr\u00f3prio nome, exerciam um efeito rid\u00edculo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sob tais aberra\u00e7\u00f5es estapaf\u00fardias da estreiteza mental, o Estado autorit\u00e1rio suprimiu tudo isso. Infelizmente essa supress\u00e3o durou, em v\u00e1rios lugares, diversas d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p>***<\/p>\n\n\n\n<p>A caricatura daquele tempo \u00e9 um espelho n\u00edtido de tudo isso. Ela \u00e9 um testemunho flagrante de com quanta pouca sagacidade a mentalidade pequeno-burguesa, n\u00e3o esclarecida pelo grandioso prel\u00fadio hist\u00f3rico da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, mas apenas momentaneamente assustada, ainda continuou a enfrentar todos os problemas da \u00e9poca. Na Alemanha, pela queda de Napole\u00e3o e pelo subsequente triunfo da \u201cSanta Alian\u00e7a\u201d, o pequeno-burgu\u00eas se tornara ainda mais todo-poderoso do que em qualquer outro pa\u00eds; ele era, por assim dizer, o \u00fanico governante. Todo acontecimento p\u00fablico trazia o seu selo inconfund\u00edvel. E por isso tamb\u00e9m a caricatura sobre os judeus. Ela nunca foi mais pequeno-burguesa do que naquela \u00e9poca. Nenhum tra\u00e7o de aud\u00e1cia, nada de energia e grandeza se fazia sentir nela. Em contrapartida, havia muito mais pretens\u00e3o rid\u00edcula. Cada folha isolada \u00e9 um exemplo v\u00edvido disso. Observe-se as folhas \u201cA morte de Absal\u00e3o\u201d, \u201cO judeu na armadilha da raposa\u201d, \u201cContempla\u00e7\u00e3o Sens\u00edvel da Lua\u201d e semelhantes (fig. 87-97); elas atestam esse clima da forma mais clara poss\u00edvel. Certamente, o humor, que no contentamento do pequeno-burgu\u00eas ainda tem seu terreno mais fecundo, aqui frequentemente atinge plenamente sua express\u00e3o. A folha \u201cIsraelzinho engoliu um ducado\u201d \u00e9, para isso, um exemplar delicioso. Tamb\u00e9m a folha \u201cContempla\u00e7\u00e3o Sens\u00edvel da Lua\u201d (fig. 97) \u00e9, do ponto de vista humor\u00edstico, uma pe\u00e7a primorosa. Por\u00e9m esse humor foi muito cedo e fortemente sufocado pela indescrit\u00edvel malevol\u00eancia que, ap\u00f3s o deflagrar dos tumultos Hep-Hep, passou a constituir cada vez mais a t\u00f4nica dominante. Pois j\u00e1 nessas folhas, not\u00e1veis por seu humor eficaz, ressoa uma maldade extraordinariamente forte. Rostos como os da folha \u201cIsraelzinho engoliu um ducado\u201d s\u00f3 podem ser moldados pela mal\u00edcia superior. Com o in\u00edcio dessa nova persegui\u00e7\u00e3o aos judeus principiou uma enxurrada de caricaturas antijudaicas como n\u00e3o se vira na Alemanha desde o s\u00e9culo XVI. Numerosas cidades puseram caricaturas de judeus no mercado, sobretudo Nuremberg, que ent\u00e3o constitu\u00eda um centro da arte gr\u00e1fica popular. Em termos de novos motivos tem\u00e1ticos, acrescentou-se nessa \u00e9poca muito: o judeu como literato, como amante, como d\u00e2ndi da moda etc. Certamente, muito j\u00e1 provinha de um tempo um pouco anterior. A \u00e9poca das querelas liter\u00e1rias, com que se inaugurou o novo s\u00e9culo, havia, no ano de 1804, produzido um \u201cNathan, o S\u00e1bio\u201d travestido (fig. 75), e a moda dos livrinhos de bolso e almanaques apresentou tamb\u00e9m sat\u00edricos \u201cLivrinhos de Bolso para as Crian\u00e7as de Israel\u201d, nos quais o judeu n\u00e3o mais aparece apenas como varejista ou agiota, mas tamb\u00e9m como homem do mundo, como elegante etc. (fig. 77-80). Vale tamb\u00e9m mencionar aqui as, em 1806, aparecidas \u201cPretzels de Quaresma para judeus e crist\u00e3os\u201d, ornadas com quatro xilogravuras.<\/p>\n\n\n\n<p>A nova enxurrada de caricaturas antijudaicas prende-se, em particular, \u00e0 farsa publicada no ano do tumulto Hep-Hep, isto \u00e9, em 1819, intitulada \u201cUnser Verkehr\u201d. Essa farsa, que apareceu sob o pseud\u00f4nimo K. B. Sessa, zombava da avareza judaica de modo t\u00e3o espirituoso quanto maldoso; dou, em outro lugar, para caracteriz\u00e1-la, a primeira cena dessa farsa.<\/p>\n\n\n\n<p>Por tr\u00e1s do pseud\u00f4nimo Sessa escondia-se um superintendente de Halberstadt, Maertens, fato que, por\u00e9m, s\u00f3 veio a p\u00fablico d\u00e9cadas depois. Os contempor\u00e2neos atribu\u00edram, em amplos c\u00edrculos e por longo tempo, a autoria a Goethe, o que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o surpreendente, visto que seu \u00f3dio aos judeus era not\u00f3rio. Entre os judeus essa farsa despertou uma ira formid\u00e1vel. Diz-se que Rothschild ofereceu uma alta recompensa pela descoberta do verdadeiro autor. Essa indigna\u00e7\u00e3o \u00e9 perfeitamente compreens\u00edvel, \u00e0 vista da feroz maldade contida em cada linha. Tanto mais se considerar que a pe\u00e7a fez um verdadeiro desfile triunfal em quase todos os palcos alem\u00e3es e por isso provocou imediatamente elabora\u00e7\u00f5es semelhantes. Cito apenas a farsa publicada no mesmo ano \u201cDie Juden in der Klemme.\u201d O aplauso que \u201cUnser Verkehr\u201d suscitou foi t\u00e3o duradouro que, ainda quarenta anos depois, reapareceram novas edi\u00e7\u00f5es (imagem 116 e 117). Mas houve tamb\u00e9m outra circunst\u00e2ncia que constantemente agu\u00e7ava novamente a ira dos judeus: essa farsa tornou-se, a saber, o arsenal de onde os caricaturistas das mais diversas cidades incessantemente retiravam motivos para caricaturas sobre os judeus. As cenas mais importantes da pe\u00e7a e todos os tipos a\u00ed apresentados foram repetidamente ilustrados satiricamente. E nas vitrines de todas as livrarias alem\u00e3s penduraram-se durante muitos anos essas caricaturas de judeus mais populares de todas. Dou aqui algumas das caricaturas mais difundidas (Imagem 85, 87, 98 e prancha). A m\u00e1xima ilustrada pela Figura 85 foi a mais frequentemente repetida.<\/p>\n\n\n\n<p>O auge da luta iconogr\u00e1fica e liter\u00e1ria contra os judeus daqueles anos foi constitu\u00eddo pelos in\u00fameros libelos difamat\u00f3rios que a editora Goedtsche\u2019sche em Mei\u00dfen publicou na d\u00e9cada de 1830. Perante esse concentrado ataque de massas, tudo o mais desaparece. Em cerca de dez livretos ilustrados de 100 a 150 p\u00e1ginas cada, os judeus foram ridicularizados, caluniados e escarnecidos de todas as maneiras conceb\u00edveis e da forma mais desumana. Por meio de poemas sat\u00edricos, de can\u00e7\u00f5es de amor par\u00f3dicas colocadas em pauta, narrativas, anedotas etc. Tudo em dialeto judaico; isto \u00e9, naquele alem\u00e3o corrompido conhecido como Judendeutsch; dou em outro lugar uma pequena amostra. Como autor de todos esses panfletos \u00e9 sempre mencionado Itzig Veitel Stern. Por tr\u00e1s desse pseud\u00f4nimo diz-se que de fato teria se ocultado um literato judeu. Se isso realmente tivesse sido o caso, repetiria, naturalmente, apenas aquilo que tantas vezes se observa na luta contra os judeus: frequentemente s\u00e3o judeus renegados os autores dos ataques mais cru\u00e9is contra os pr\u00f3prios judeus. No s\u00e9culo XVI, como \u00e9 sabido, nenhum crist\u00e3o injuriou mais os judeus do que o convertido judeu Pfefferkorn. Os mais importantes desses panfletos sat\u00edricos, todos publicados em diversas edi\u00e7\u00f5es, s\u00e3o \u201cO jardinzinho de s\u00e1bado da nossa gente\u201d, \u201cOs costumes e o esp\u00edrito de Israel\u201d e \u201cPoemas, prov\u00e9rbios e anedotas para a nossa gente\u201d, este \u00faltimo publicado em v\u00e1rias partes. Reproduzo aqui algumas de suas capas e p\u00e1ginas de rosto ilustradas satiricamente, bem como algumas das ilustra\u00e7\u00f5es sat\u00edricas que os acompanhavam.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Adquira o livro, clicando na capa. IX. Os judeus na caricatura do s\u00e9culo XIX No s\u00e9culo XIX a hist\u00f3ria do juda\u00edsmo europeu recebeu seu mais importante corte. E isto por meio da emancipa\u00e7\u00e3o dos judeus que, nesse s\u00e9culo, se imp\u00f4s na Europa Ocidental, entendida como sua igualdade civil e pol\u00edtica\u2026<\/p>\n<p class=\"continue-reading-button\"> <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2026\/10\/22\/os-judeus-na-caricatura\/\">Leia mais<i class=\"crycon-right-dir\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1358,"comment_status":"closed","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5,65],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1360"}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1360"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1360\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1362,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1360\/revisions\/1362"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1358"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1360"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1360"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1360"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}