{"id":183,"date":"2018-01-20T14:26:08","date_gmt":"2018-01-20T14:26:08","guid":{"rendered":"http:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=183"},"modified":"2018-01-20T14:26:08","modified_gmt":"2018-01-20T14:26:08","slug":"o-misterioso-missivista-londrino-de-krafft-ebing","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2018\/01\/20\/o-misterioso-missivista-londrino-de-krafft-ebing\/","title":{"rendered":"O misterioso missivista londrino de Krafft-Ebing"},"content":{"rendered":"<p>Se voc\u00ea estuda hist\u00f3ria da sexualidade, da medicina, da psiquiatria, dos direitos LGBT, certamente j\u00e1 passou seus olhos pelos textos de Richard von Krafft-Ebing, o famoso autor de &#8220;Psychopathia Sexualis&#8221;. N\u00f3s j\u00e1 insistimos, <a href=\"http:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2017\/10\/24\/tudo-o-que-voce-sabia-sobre-krafft-ebing-estava-errado\/\">em outro post<\/a>, que provavelmente tudo o que voc\u00ea sabe sobre ele est\u00e1 errado.<\/p>\n<p>Um dos mais comuns erros relacionados a\u00a0Krafft-Ebing est\u00e1 em considerar que ele \u00e9 um psiquiatra que usa seus poderes de autoridade para rotular as pessoas de desviantes. Tudo o que n\u00e3o se encaixaria em seu modelo, seria &#8220;pervertido&#8221;. Essa \u00e9 uma vis\u00e3o deformada do &#8220;Psychopathia Sexualis&#8221;, e algo grotesca, se comparado com o livro em si.<\/p>\n<p>Na verdade, uma das principais fontes de informa\u00e7\u00f5es sobre as dificuldades dos homossexuais, e de sua busca por direitos sociais, est\u00e1 no livro de Krafft-Ebing. Ali voc\u00ea encontra documentos que, h\u00e1 muito tempo, foram esquecidos pelos pesquisadores, justamente por conta desse preconceito em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 obra.<\/p>\n<p>Krafft-Ebing adotou a t\u00e9cnica de reproduzir, em seu livro &#8211; e sem coment\u00e1rios &#8211; algumas cartas autobiogr\u00e1ficas que recebia de seus leitores. Algumas s\u00e3o mais curtas, de uma ou duas p\u00e1ginas; outras longu\u00edssimas, atravessando mais de duas dezenas. Lendo-se esses textos tem-se uma vis\u00e3o, em primeira pessoa, dos pensamentos daqueles que eram pacientes dos livros de medicina da \u00e9poca; mas sua voz s\u00f3 aparece em &#8220;Psychopathia Sexualis&#8221;. E se percebe, tamb\u00e9m, que os conceitos criados por\u00a0Krafft-Ebing n\u00e3o eram tirados do nada de sua cachola, mas constru\u00eddo em conjunto com os homossexuais, ou os fetichistas, ou os masoquistas.<\/p>\n<p>Uma das mais interessantes cartas, \u00e9 de algu\u00e9m identificado simplesmente como um &#8220;homem de alta posi\u00e7\u00e3o em Londres&#8221;. Certamente Krafft-Ebing o conhecia, pois ele ser\u00e1 citado em outras de suas obras. De qualquer forma, o texto a seguir \u00e9 um\u00a0<em>insight<\/em> muito interessante sobre o posicionamento de certos homossexuais europeus, a respeito da situa\u00e7\u00e3o social em que viviam.<\/p>\n<p>Com a palavra, o misterioso missivista londrino:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cVoc\u00ea n\u00e3o tem ideia do que \u00e9 uma luta constante que todos n\u00f3s \u2013 especialmente aqueles de n\u00f3s que t\u00eam a maior mente e melhores sentimentos \u2013 deve suportar, e como sofremos sob a preval\u00eancia de falsas ideias sobre n\u00f3s e nossa assim chamada \u2018imoralidade\u2019.<\/p>\n<p>\u201cA sua opini\u00e3o de que o fen\u00f4meno em considera\u00e7\u00e3o deve-se principalmente a uma disposi\u00e7\u00e3o cong\u00eanita \u2018patol\u00f3gica\u2019 pode, talvez, tornar poss\u00edvel superar os preconceitos existentes e despertar a compaix\u00e3o pelos pobres e \u2018anormais\u2019 homens, em vez da atual repugn\u00e2ncia e desprezo.<\/p>\n<p>\u201cTanto quanto eu acredito que a opini\u00e3o expressa por voc\u00ea \u00e9 extremamente ben\u00e9fica para n\u00f3s, ainda estou obrigado, no interesse da ci\u00eancia, a repudiar a palavra \u2018patol\u00f3gico\u2019; e voc\u00ea me permitir\u00e1 expressar alguns pensamentos com respeito a isso.<\/p>\n<p>\u201cSob todas as caracter\u00edsticas, o fen\u00f4meno \u00e9 an\u00f4malo; mas a palavra \u2018patol\u00f3gico\u2019 transmite outro sentido, que eu n\u00e3o posso aceitar que se adapte a este fen\u00f4meno; pelo menos, como tive ocasi\u00e3o de observ\u00e1-lo em muitos casos. Concordarei, a priori, que, entre uranistas, pode ser observada uma propor\u00e7\u00e3o muito maior de casos de insanidade, de exaust\u00e3o nervosa, etc., do que em outros homens normais. Ser\u00e1 que este aumento de nervosismo depende necessariamente do car\u00e1ter de uranismo, ou n\u00e3o seria resultado, na maioria dos casos, do efeito das leis e dos preceitos da sociedade, que pro\u00edbem a pr\u00e1tica de seus desejos sexuais, fundados sobre uma peculiaridade cong\u00eanita, enquanto outros n\u00e3o s\u00e3o assim impedidos?<\/p>\n<p>\u201cO uranista jovem, quando sente os primeiros impulsos sexuais e os expressa ingenuamente a seus colegas, logo descobre que n\u00e3o \u00e9 compreendido; recolhe-se em si mesmo. Se diz a seus pais ou professor o que o motiva, o que para ele \u00e9 t\u00e3o natural quanto o \u00e9 para um peixe nadar, ser\u00e1 descrito como errado e pecaminoso, e ouve que \u00e9 algo que deve combater e superar a qualquer pre\u00e7o. Em seguida, come\u00e7a um conflito interior, uma poderosa repress\u00e3o das inclina\u00e7\u00f5es sexuais; e quanto mais \u00e9 reprimida a satisfa\u00e7\u00e3o natural do desejo, mais animada se torna a fantasia e colore as pr\u00f3prias imagens que se desejava banir. Quanto mais en\u00e9rgico o car\u00e1ter que leva a este conflito interior, mais o sistema nervoso inteiro deve sofrer. Tal repress\u00e3o poderosa de um instinto t\u00e3o profundamente implantado em n\u00f3s, em minha opini\u00e3o, desenvolve os sintomas anormais que s\u00e3o observados em muitos uranistas; mas isso n\u00e3o \u00e9 consequ\u00eancia necessariamente da disposi\u00e7\u00e3o do uranista.<\/p>\n<p>\u201cAlguns permanecem nesse conflito por tempos mais ou menos longos, ferindo-se a si mesmos; outros finalmente chegam \u00e0 conclus\u00e3o de que o poderoso instinto com o qual nasceram n\u00e3o pode ser pecaminoso e, portanto, deixam de tentar fazer o imposs\u00edvel \u2013 a repress\u00e3o do instinto. Ent\u00e3o, no entanto, come\u00e7am a ter sofrimento e excita\u00e7\u00e3o constantes. Quando um homem normal procura a satisfa\u00e7\u00e3o de sua inclina\u00e7\u00e3o sexual, sabe como encontr\u00e1-la facilmente; n\u00e3o \u00e9 assim com o uranista. Ele v\u00ea homens que o atraem, mas n\u00e3o se atreve a dizer \u2013 nem mesmo trair por um olhar \u2013 quais s\u00e3o seus sentimentos. Acha que apenas ele no mundo tem sentimentos t\u00e3o anormais. Naturalmente procura a companhia de homens jovens; mas n\u00e3o se atreve a confiar neles. Assim, ele ir\u00e1 prover a si mesmo uma satisfa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o pode obter de outra forma. O onanismo \u00e9 praticado desmedidamente, seguindo-se por todos os maus resultados desse v\u00edcio. Quando, depois de um tempo, o sistema nervoso est\u00e1 ferido, a anormalidade n\u00e3o \u00e9 mais o resultado do uranismo, mas produzido pelo onanismo ao qual o uranista recorre, como resultado do sentimento p\u00fablico que lhe nega oportunidade de satisfazer o instinto sexual que lhe \u00e9 natural.<\/p>\n<p>\u201cOu vamos supor que o uranista tenha tido a rara dose de sorte de encontrar, rapidamente, uma pessoa tal como ele; ou que tenha sido introduzido por um amigo experiente nos acontecimentos do mundo dos uranistas. Ent\u00e3o ele ser\u00e1 bastante poupado de seu conflito interior; mas, ao mesmo tempo, cuidados e ansiedades tem\u00edveis seguem seus passos. Agora ele sabe que n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico no mundo que tem tais sentimentos anormais; abre seus olhos e se maravilha por encontrar tantos de sua esp\u00e9cie em todos os c\u00edrculos sociais e em todas as profiss\u00f5es; tamb\u00e9m aprende que, no mundo dos uranistas, como no outro, h\u00e1 prostitui\u00e7\u00e3o, e que tanto homens como mulheres podem ser comprados. Assim, n\u00e3o h\u00e1 mais nenhuma falta de oportunidade para a satisfa\u00e7\u00e3o sexual. Mas, aqui, como \u00e9 diferente a experi\u00eancia obtida com a aquela na maneira normal de pr\u00e1tica sexual!<\/p>\n<p>\u201cConsideremos o caso mais feliz. Depois de ansiar toda a sua vida, encontra um amigo com sentimentos semelhantes. Mas n\u00e3o pode abord\u00e1-lo abertamente, como um amante se aproxima da garota que ama. Com constante medo, ambos devem esconder suas rela\u00e7\u00f5es; at\u00e9 mesmo a intimidade que poderia facilmente suscitar suspeitas \u2013 especialmente se n\u00e3o fossem da mesma idade, ou pertencerem a classes diferentes \u2013 devem ser mantidas fora do conhecimento do mundo. Assim, mesmo nesta rela\u00e7\u00e3o, \u00e9 forjada uma cadeia de ansiedade e medo de que o segredo ser\u00e1 tra\u00eddo ou descoberto, o que n\u00e3o lhes garante alegria na pr\u00e1tica. A menor coisa que n\u00e3o afeta aos demais, os faz tremer de medo, como surgir a suspeita do segredo ser descoberto, destruindo a tanto posi\u00e7\u00e3o social de ambos, como os neg\u00f3cios. Poderia essa constante ansiedade e preocupa\u00e7\u00e3o se manter sem deixar sequelas, sem exercer influ\u00eancia sobre todo o sistema nervoso?<\/p>\n<p>\u201cOutro homem menos afortunado, que n\u00e3o encontra um amigo de sentimentos iguais, mas cai nas m\u00e3os de um belo homem, que o procurou at\u00e9 que o segredo foi descoberto. Agora, a mais refinada chantagem \u00e9 realizada. O infeliz, o homem perseguido, trazido \u00e0 alternativa de pagar ou de perder sua posi\u00e7\u00e3o social, o que traria desgra\u00e7a sobre si mesmo e sobre sua fam\u00edlia, paga; e quanto mais ele d\u00e1, mais voraz se torna o vampiro; at\u00e9 que finalmente n\u00e3o sobra nada, sen\u00e3o a absoluta ru\u00edna financeira ou a desonra. Quem pode admirar que os nervos n\u00e3o sejam os mesmos dentro de uma luta t\u00e3o terr\u00edvel!<\/p>\n<p>\u201cEles cedem; a insanidade se aproxima, e o homem miser\u00e1vel finalmente encontra, em um asilo, o descanso que n\u00e3o poderia encontrar no mundo. Outro, na mesma situa\u00e7\u00e3o, desesperado, encontra al\u00edvio no suic\u00eddio. N\u00e3o se pode saber quantos suic\u00eddios de homens jovens devem ser atribu\u00eddos a essa combina\u00e7\u00e3o de circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o acho que esteja errado quando declaro que pelo menos metade dos suic\u00eddios de homens jovens devem-se a tais condi\u00e7\u00f5es. Mesmo nos casos em que os uranistas n\u00e3o sejam perseguidos por um vil\u00e3o sem cora\u00e7\u00e3o, mas quando existe uma rela\u00e7\u00e3o feliz entre dois homens que \u00e9 descoberta, ou mesmo o pr\u00f3prio medo de ser descoberto, muitas vezes leva ao suic\u00eddio. Quantos oficiais, quantos soldados, tendo tais rela\u00e7\u00f5es com seus subordinados ou companheiros, no momento em que se creem descobertos, procuram escapar da amea\u00e7a da desgra\u00e7a por meio de uma bala. E \u00e9 o mesmo em todas as profiss\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cPortanto, se \u00e9 preciso admitir que, entre os uranistas, sejam realmente observadas mais anormalidades mentais, e mais insanidade, do que entre outros homens, isso n\u00e3o prova que o dist\u00farbio mental \u00e9 um acompanhamento necess\u00e1rio da condi\u00e7\u00e3o do uranista, j\u00e1 que este \u00faltimo induz o primeiro.<\/p>\n<p>\u201cDe acordo com minha firme convic\u00e7\u00e3o, de longe o maior n\u00famero de casos de problemas mentais ou dist\u00farbios anormais observados em uranistas n\u00e3o devem ser atribu\u00eddos \u00e0 anomalia sexual; mas s\u00e3o causados pelas existentes concep\u00e7\u00f5es a respeito dos uranistas, e das consequentes leis, em um sentimento p\u00fablico dominante sobre a anomalia. Qualquer um que possua uma adequada ideia sobre o sofrimento mental e moral, da ansiedade e dos cuidados que o uranista deve enfrentar; da constante hipocrisia e sigilo que deve praticar para ocultar seu instinto interior; das dificuldades que encontra para satisfazer seu desejo natural, s\u00f3 pode se surpreender que n\u00e3o sejam ainda mais comuns em uranistas a insanidade e a perturba\u00e7\u00e3o nervosa. A maior parte desses estados anormais n\u00e3o teria surgido se o uranista, como os demais, pudesse encontrar uma maneira simples e f\u00e1cil de satisfazer seu desejo sexual \u2013 se n\u00e3o estivesse sempre perturbado por essas ansiedades\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Quer encontrar mais p\u00e9rolas como essa? O &#8220;Psychopathis sexualis&#8221;, em sua vers\u00e3o integral (e n\u00e3o apenas com supostos &#8220;melhores momentos&#8221;, como se vende por a\u00ed) est\u00e1 repleto delas. <a href=\"http:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/psychopathia-sexualis\/\">Clique aqui para saber mais<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se voc\u00ea estuda hist\u00f3ria da sexualidade, da medicina, da psiquiatria, dos direitos LGBT, certamente j\u00e1 passou seus olhos pelos textos de Richard von Krafft-Ebing, o famoso autor de &#8220;Psychopathia Sexualis&#8221;. N\u00f3s j\u00e1 insistimos, em outro post, que provavelmente tudo o que voc\u00ea sabe sobre ele est\u00e1 errado. Um dos mais\u2026<\/p>\n<p class=\"continue-reading-button\"> <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2018\/01\/20\/o-misterioso-missivista-londrino-de-krafft-ebing\/\">Leia mais<i class=\"crycon-right-dir\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":78,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/183"}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=183"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/183\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/78"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=183"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=183"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=183"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}