{"id":278,"date":"2018-10-17T18:03:56","date_gmt":"2018-10-17T18:03:56","guid":{"rendered":"http:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=278"},"modified":"2023-08-05T15:04:00","modified_gmt":"2023-08-05T15:04:00","slug":"confucionismo-e-puritanismo-parte-do-ultimo-capitulo-de-religiao-da-china-de-max-weber","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2018\/10\/17\/confucionismo-e-puritanismo-parte-do-ultimo-capitulo-de-religiao-da-china-de-max-weber\/","title":{"rendered":"Confucionismo e Puritanismo: parte do \u00faltimo cap\u00edtulo de &#8220;Religi\u00e3o da China&#8221; de Max Weber"},"content":{"rendered":"\n<p>Abaixo voc\u00ea l\u00ea uma parte da conclus\u00e3o do livro &#8220;Religi\u00e3o da China&#8221;, de Max Weber, em que o soci\u00f3logo alem\u00e3o estabelece uma compara\u00e7\u00e3o entre o Confucionismo e o Puritanismo<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><a name=\"_Toc526638731\"><\/a>Confucionismo e Puritanismo<\/h1>\n\n\n\n<p>Possivelmente, a maneira mais conveniente de construirmos uma perspectiva sobre que foi dito \u00e9 esclarecer rela\u00e7\u00e3o entre o racionalismo Confucionista \u2013 pois o nome \u00e9 apropriado \u2013 e o que est\u00e1 geogr\u00e1fica e historicamente mais pr\u00f3ximo de n\u00f3s: o racionalismo do Protestantismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Para julgar o n\u00edvel de racionaliza\u00e7\u00e3o que uma religi\u00e3o representa, h\u00e1 sobretudo duas formas de se avaliar as m\u00faltiplas rela\u00e7\u00f5es internas que mant\u00eam. A primeira \u00e9 o grau em que a religi\u00e3o se despojou da magia. O seguinte \u00e9 o grau em que unificou sistematicamente a rela\u00e7\u00e3o entre Deus e o mundo e, com isso, sua pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o \u00e9tica com o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>No primeiro caso, o Protestantismo asc\u00e9tico em suas diversas formas representa uma fase final. Suas manifesta\u00e7\u00f5es mais caracter\u00edsticas destru\u00edram por completo a magia. Foi inclusive, em princ\u00edpio, exterminada na forma sublimada dos sacramentos e dos s\u00edmbolos, tanto que os r\u00edgidos puritanos tinham os cad\u00e1veres de seus entes queridos escavados sem qualquer formalidade, a fim de assegurar a completa elimina\u00e7\u00e3o da \u201csupersti\u00e7\u00e3o\u201d. E isso significava, neste contexto, erradicar toda confian\u00e7a em manipula\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter m\u00e1gico. Em nenhum lugar o completo desencantamento do mundo se deu em todas as suas consequ\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto n\u00e3o significava se libertar do que hoje estamos acostumados a denominar de \u201csupersti\u00e7\u00e3o\u201d. Os julgamentos das bruxas tamb\u00e9m floresceram na Nova Inglaterra. Mas enquanto o Confucionismo deixava a magia intacta em seu significado positivo de reden\u00e7\u00e3o, com o Puritanismo o m\u00e1gico se tornou diab\u00f3lico, e apenas o racionalmente \u00e9tico era considerado religiosamente valioso: ou seja, atuar de acordo com o mandamento de Deus, a apenas a partir de uma mente temerosa a Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Deve ter ficado bastante claro a partir de nossa apresenta\u00e7\u00e3o que o jardim m\u00e1gico da doutrina heterodoxa (Tao\u00edsmo) estava sob o poder de cronomantes, geomantes, hidromantes, meteoromantes, em uma concep\u00e7\u00e3o abstrusa e universista da unidade do mundo. Qualquer conhecimento cient\u00edfico estava ausente, em parte como uma causa e em parte como consequ\u00eancia dessas for\u00e7as elementares. Tornava-se, assim, simplesmente fora de quest\u00e3o qualquer economia racional e tecnologia de car\u00e1ter ocidental moderno. A preserva\u00e7\u00e3o deste jardim m\u00e1gico, entretanto, foi uma das tend\u00eancias \u00edntimas da \u00e9tica Confucionista.<\/p>\n\n\n\n<p>A elas, uniram-se raz\u00f5es internas que impediram qualquer avan\u00e7o do poder Confucionista. A \u00e9tica puritana, no mais forte contraste com a posi\u00e7\u00e3o imparcial do Confucionismo sobre as coisas deste mundo, situou-as no contexto de uma imensa e grandiosa tens\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao \u201cmundo\u201d. Toda religi\u00e3o que confronta o mundo com imperativos racionais (\u00e9ticos) \u2013 como veremos em detalhes \u2013 encontra-se em algum momento em uma rela\u00e7\u00e3o tensa com a irracionalidade do mundo. Estas tens\u00f5es com as religi\u00f5es individuais se estabelecem em pontos muito diferentes e, portanto, tanto a natureza como o grau da tens\u00e3o s\u00e3o diferentes. Nas religi\u00f5es individuais isto depende, em grande medida, da natureza do caminho de salva\u00e7\u00e3o dado pelas promessas metaf\u00edsicas. Sobretudo, o grau de desvaloriza\u00e7\u00e3o religiosa do mundo n\u00e3o \u00e9 id\u00eantico ao grau de sua rejei\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>No Confucionismo, a \u00e9tica (intencionalmente) racional reduziu ao m\u00ednimo absoluto a tens\u00e3o contra o mundo, tanto em sua desvaloriza\u00e7\u00e3o religiosa como em sua rejei\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica. O mundo era o melhor dos mundos poss\u00edveis; a natureza humana era predisposta eticamente ao bem; e as pessoas, nisto como em tudo o mais, ainda que fossem diferentes em grau, possu\u00edam a mesma natureza e eram capazes de ilimitada perfei\u00e7\u00e3o, portanto adequadas em princ\u00edpio ao cumprimento da lei moral. A educa\u00e7\u00e3o filos\u00f3fico-liter\u00e1ria baseada nos antigos cl\u00e1ssicos era o meio universal de auto-aperfei\u00e7oamento; enquanto a educa\u00e7\u00e3o insuficiente, aliada \u00e0 sua principal raz\u00e3o, a insuficiente seguran\u00e7a econ\u00f4mica, era a \u00fanica fonte de todos os defeitos. Tais defeitos, entretanto, especialmente os do governo, foram a raz\u00e3o essencial para todas os infort\u00fanios geradores de inquieta\u00e7\u00e3o dos esp\u00edritos (magicamente concebidos). O caminho correto para a salva\u00e7\u00e3o estava na adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s ordens supra-divinas eternas do mundo: o Tao; e, portanto, \u00e0s exig\u00eancias sociais da conviv\u00eancia resultantes da harmonia c\u00f3smica. Sobretudo, assim, a obedi\u00eancia piedosa \u00e0 ordem fixa dos poderes seculares. Para o indiv\u00edduo, a forma\u00e7\u00e3o de seu pr\u00f3prio eu enquanto uma personalidade universal e harmoniosamente equilibrada \u2013 neste sentido, um microcosmo \u2013 era o ideal correspondente. A \u201cgra\u00e7a e dignidade\u201d do homem ideal Confucionista \u2013 o cavalheiro \u2013expressava-se no cumprimento de seus deveres tradicionais. A piedade cerimoniosa e ritual em todas as situa\u00e7\u00f5es da vida era, enquanto virtude fundamental, o objetivo da supera\u00e7\u00e3o pessoal; enquanto o despertar do autocontrole racional e a supress\u00e3o de toda perturba\u00e7\u00e3o do equil\u00edbrio por conta de paix\u00f5es irracionais de qualquer tipo, os meios apropriados para obt\u00ea-lo. Mas o Confucionista n\u00e3o desejava outra \u201csalva\u00e7\u00e3o\u201d, sen\u00e3o livrar-se da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1rbara. O que ele esperava neste mundo, como recompensa da virtude, era uma vida longa, sa\u00fade e riqueza e, ap\u00f3s a morte, a preserva\u00e7\u00e3o de seu bom nome. Como para o homem verdadeiramente hel\u00eanico, n\u00e3o existia qualquer ancoragem transcendental da \u00e9tica, qualquer tens\u00e3o entre os mandamentos de um Deus transcendental e um mundo de criaturas, qualquer orienta\u00e7\u00e3o para um objetivo no al\u00e9m, nem qualquer concep\u00e7\u00e3o de mal radical. Aquele que cumpria os mandamentos, moldados ao homem de capacidade mediana, estava livre de pecado. Em v\u00e3o, os mission\u00e1rios crist\u00e3os procuraram despertar um sentido de pecado onde tais condi\u00e7\u00f5es eram tidas por evidentes. Um chin\u00eas educado se negaria decididamente a ser afligido permanentemente por \u201cpecados\u201d; afinal, sem d\u00favida, para toda classe nobre de intelectuais, este conceito era tido como vergonhoso e desprovido de dignidade. Usualmente era representado por varia\u00e7\u00f5es convencionais, ou feudais, ou esteticamente formuladas (por exemplo: \u201cindecente\u201d ou \u201cde mau gosto\u201d). Certamente havia pecados: mas, no campo \u00e9tico, tratava-se de ofensas \u00e0s autoridades tradicionais: pais, antepassados, superiores na hierarquia de cargos; ou seja, ofensas contra as for\u00e7as tradicionalistas. As demais eram viola\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de costumes tradicionais e, finalmente, das conven\u00e7\u00f5es sociais estabelecidas. Todas ofensas iguais entre si: \u201ceu pequei\u201d corresponderia ao nosso \u201cdesculpe-me\u201d, quando se viola alguma conven\u00e7\u00e3o. Ascetismo e contempla\u00e7\u00e3o, a mortifica\u00e7\u00e3o e fuga do mundo n\u00e3o s\u00f3 eram desconhecidos no Confucionismo, mas tamb\u00e9m desprezados como parasitismo. Toda forma de religiosidade paroquial e redentora ou foi diretamente perseguida e exterminada, ou considerada assunto privado e pouco estimado, assim como os sacerdotes \u00f3rficos pelos nobres Hel\u00eanicos da \u00e9poca cl\u00e1ssica. O pr\u00e9-requisito interno desta \u00e9tica da afirma\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o incondicional ao mundo era a continuidade ininterrupta da religiosidade puramente m\u00e1gica, come\u00e7ando pela posi\u00e7\u00e3o do Imperador, cujas qualifica\u00e7\u00f5es pessoais eram respons\u00e1veis pelo bom comportamento dos esp\u00edritos, ocorr\u00eancia da chuva e o bom tempo da colheita, ao culto dos esp\u00edritos ancestrais, absolutamente fundamental para a religiosidade oficial e popular, \u00e0 terapia m\u00e1gica n\u00e3o oficial (Tao\u00edsta) e a outras formas sobreviventes de compuls\u00e3o animista de esp\u00edritos, da cren\u00e7a antropol\u00e1trica e herol\u00e1trica em deuses funcionais. O Confucionista educado manteria a mesma mescla de ceticismo e submiss\u00e3o ocasional \u00e0 <i>deisidaimonia<\/i> do heleno culto; enquanto a massa de chineses influenciados pelo Confucionismo, manteria sua inquebrant\u00e1vel f\u00e9 dentro das concep\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas. \u201cTolo para quem l\u00e1 dirige seus olhos piscantes&#8230;\u201d, diria o Confucionista como o velho Fausto em rela\u00e7\u00e3o ao al\u00e9m; mas como este, deveria tamb\u00e9m fazer a restri\u00e7\u00e3o: \u201cPoderia tirar a magia de meu caminho&#8230;\u201d. Inclusive os altos funcion\u00e1rios mais educados no antigo sentido chin\u00eas dificilmente teriam escr\u00fapulos em mostrar qualquer sentido de piedade diante do mais est\u00fapido milagre.<\/p>\n\n\n\n<p>Jamais surgiu uma tens\u00e3o com o \u201cmundo\u201d porque, at\u00e9 onde alcan\u00e7am os registros, esteve ausente uma profecia \u00e9tica de um Deus transcendente que fazia <i>exig\u00eancias<\/i> \u00e9ticas. Nem o substitu\u00eda o fato de que os \u201cesp\u00edritos\u201d o exigiam \u2013 sobretudo, o fiel cumprimento de contratos. Por isso sempre se tratou de um dever espec\u00edfico \u2013 juramentado ou n\u00e3o \u2013 colocado sob a tutela dos esp\u00edritos, e jamais envolveu a forma\u00e7\u00e3o interna da personalidade enquanto tal ou seu particular modo de vida. A classe intelectual dirigente, funcion\u00e1rios p\u00fablicos e candidatos a cargos p\u00fablicos, apoiaram sistematicamente a preserva\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o m\u00e1gica e especialmente a rever\u00eancia animista aos antepassados, como condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o, sem obst\u00e1culos, das autoridades burocr\u00e1ticas; al\u00e9m disso, suprimiram todas as revoltas surgidas da religiosidade da reden\u00e7\u00e3o. A \u00fanica religi\u00e3o de salva\u00e7\u00e3o permitida \u2013 al\u00e9m da adivinha\u00e7\u00e3o Tao\u00edsta e da gra\u00e7a sacramental \u2013 por ser pacifista e, portanto, inofensiva, era a dos monges budistas. Na China, seu efeito pr\u00e1tico foi o de enriquecer a experi\u00eancia espiritual \u2013 como veremos \u2013 por certas nuances de humor. Mas, de resto, tratava-se mais de uma fonte adicional de gra\u00e7a m\u00e1gico-sacramental e de cerim\u00f4nias de fortalecimento da tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto implica que a import\u00e2ncia desta \u00e9tica intelectual para as amplas massas tinha seus limites. Inicialmente, as diferen\u00e7as locais e, especialmente, as sociais na educa\u00e7\u00e3o eram enormes. O tradicionalismo e, at\u00e9 os tempos modernos, o padr\u00e3o de consumo de car\u00e1ter fortemente subsistente entre os estratos mais pobres do povo, era mantido por um virtuosismo econ\u00f4mico (no sentido do consumo) jamais superado, impedindo qualquer rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima aos ideais cavalheirescos do Confucionismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Apenas os gestos e as formas de conduta externa do estrato dominante poderiam ser objeto de uma difus\u00e3o geral, como usualmente ocorre. A influ\u00eancia decisiva do estrato educado no modo de vida das massas produziu sobretudo certos efeitos negativos: por um lado, inibindo totalmente o surgimento de qualquer religiosidade prof\u00e9tica; pro outro, o exterm\u00ednio de todos os elementos orgi\u00e1sticos da religiosidade animista. Deve-se considerar ser poss\u00edvel que ao menos parte desses tra\u00e7os, que alguns autores ocasionalmente se referem como qualidades raciais dos chineses, tamb\u00e9m esteja condicionada por esses fatores. Atualmente n\u00e3o seria poss\u00edvel afirmar nada, nem mesmo com aux\u00edlio de especialistas, a respeito da influ\u00eancia da \u201ccomposi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica\u201d biol\u00f3gica. Mas para n\u00f3s \u00e9 importante uma observa\u00e7\u00e3o muito simples e confirmada por eminentes sinologistas. Quanto mais se retrocede na hist\u00f3ria, mais parecidos se parecem os chineses e sua cultura (nos aspectos que nos s\u00e3o mais importantes) ao que tamb\u00e9m se encontra entre n\u00f3s. Tanto a antiga f\u00e9 popular, os antigos anacoretas, as mais antigas can\u00e7\u00f5es do <i>Shih Ching<\/i>, os antigos reis da guerra, os conflitos entre escolas filos\u00f3ficas, o feudalismo, assim como os rascunhos de um desenvolvimento capitalista na \u00e9poca dos Estados Combatentes nos parecem muito mais pr\u00f3ximos aos fen\u00f4menos ocidentais que as caracter\u00edsticas da China Confucionista. Portanto, deve-se considerar a possibilidade de que muitos dos aspectos que frequentemente se consideram inatos, sejam produto de influ\u00eancias culturais puramente hist\u00f3ricas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para este tipo de caracter\u00edsticas, o soci\u00f3logo depende essencialmente da literatura mission\u00e1ria, que certamente apresenta experi\u00eancias diversas, mas em \u00faltima inst\u00e2ncia \u00e9 a mais segura. Algumas insistentes observa\u00e7\u00f5es sempre se destacam: a not\u00e1vel aus\u00eancia de \u201cnervos\u201d no sentido espec\u00edfico da palavra dada pelos europeus na atualidade, a paci\u00eancia ilimitada e a cortesia moderada, a tenacidade de apego ao costume, a absoluta insensibilidade \u00e0 monotonia e a capacidade ininterrupta de trabalho, a lentid\u00e3o da rea\u00e7\u00e3o a est\u00edmulos incomuns, sobretudo na esfera intelectual: tudo parece representar, compreensivelmente, uma unidade l\u00f3gica e coerente em si mesma. Existem, por outro lado, contrastes importantes. O extraordin\u00e1rio acanhamento, que vai al\u00e9m do usual, e se expressa como uma insuper\u00e1vel desconfian\u00e7a ao desconhecido e cujas inten\u00e7\u00f5es n\u00e3o sejam aparentes, a rejei\u00e7\u00e3o ou falta de necessidade de conhecer tudo o que n\u00e3o for diretamente tang\u00edvel, \u00f3bvio e \u00fatil, contrastam com a ilimitada ingenuidade diante de qualquer manifesta\u00e7\u00e3o m\u00e1gica. Do mesmo modo, o que parece ser a aus\u00eancia de compaix\u00e3o ao pr\u00f3ximo, que frequentemente \u00e9 muito forte, constitui uma aparente contradi\u00e7\u00e3o com a grande tenacidade da coes\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es sociais. A (supostamente t\u00edpica) falta de carinho e absoluta submiss\u00e3o \u00e0 autoridade por parte dos filhos menores aos pais. Do mesmo modo, uma not\u00e1vel aus\u00eancia de franqueza (por exemplo, em rela\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3prio advogado) parece ser dif\u00edcil de conciliar \u2013 em termos relativos e em compara\u00e7\u00e3o com pa\u00edses de passado feudal como o Jap\u00e3o \u2013 com a aparentemente fiabilidade dos comerciantes em grandes transa\u00e7\u00f5es comerciais (para o com\u00e9rcio em pequenas quantidades, os \u201cpre\u00e7os fixos\u201d costumam ser fict\u00edcios inclusive para os pr\u00f3prios locais). A t\u00edpica <i>desconfian\u00e7a dos chineses entre si<\/i> \u00e9 confirmada por todos os observadores e contrasta violentamente com a confian\u00e7a na honradez dos irm\u00e3os de f\u00e9 nas seitas Puritanas, compartilhada desde fora da comunidade. Entretanto, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a unidade e a impassibilidade do h\u00e1bito psicof\u00edsico contrasta com a instabilidade, frequentemente denunciada, de todos os aspectos do modo de vida chin\u00eas que n\u00e3o est\u00e3o regulados \u2013 como \u00e9 o caso da maioria deles \u2013 externamente por normas fixas. Em s\u00edntese: a aus\u00eancia de uma unidade regulada do modo de vida \u201cdesde dentro\u201d, por meio de crit\u00e9rios centrais, constitui o contraste fundamental em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 aus\u00eancia de espontaneidade da sociedade chinesa, estabelecida por inumer\u00e1veis conven\u00e7\u00f5es. Como tudo isso pode ser explicado?<\/p>\n\n\n\n<p>A aus\u00eancia de ascese produtora de histeria e de formas de religiosidade semelhantes, al\u00e9m da elimina\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o completa, mas entretanto ampla \u2013 de cultos ext\u00e1ticos, n\u00e3o deixam de influenciar a constitui\u00e7\u00e3o nervosa e ps\u00edquica de um grupo humano. Quanto ao uso de t\u00f3xicos, os chineses pertenciam aos povos (relativamente) \u201cs\u00f3brios\u201d, desde o momento da pacifica\u00e7\u00e3o (em compara\u00e7\u00e3o com a import\u00e2ncia da embriaguez na casa dos homens e nas cortes principescas). A embriaguez e a \u201cobsess\u00e3o\u201d orgi\u00e1stica se despojaram de seu valor carism\u00e1tico da santidade e passaram a ser consideradas apenas sintomas de possess\u00e3o demon\u00edaca. O Confucionismo rejeitava o uso de bebidas alco\u00f3licas exceto \u2013 e enquanto vest\u00edgio \u2013 em sacrif\u00edcios. O fato de que a embriaguez n\u00e3o fosse incomum entre as classes baixas, inclusive na China, n\u00e3o muda a import\u00e2ncia relativa da diferen\u00e7a. Entretanto, o t\u00f3xico considerado especificamente chin\u00eas, o \u00f3pio, foi importado apenas em tempos modernos, e sua aceita\u00e7\u00e3o se imp\u00f4s apesar de uma feroz resist\u00eancia das classes dirigentes. Al\u00e9m disso, seus efeitos est\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o do \u00eaxtase ap\u00e1tico, quer dizer, na prolonga\u00e7\u00e3o da linha de \u201c<i>Wu wei<\/i>\u201d, e n\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o da embriaguez heroica ou do desencadeamento de ativas paix\u00f5es. A <i>Sophrosyne<\/i> hel\u00eanica n\u00e3o impedia que Plat\u00e3o visse a grandeza de Fedro como nascida de uma bela loucura. Nela, o racionalismo tanto da nobreza romana \u2013 que traduzia \u201c<i>ekstasis<\/i>\u201d por \u201c<i>superstitio<\/i>\u201d \u2013 como do estrato culto chin\u00eas, pensavam a embriaguez de maneira completamente diferente. A \u201cinimperturbabilidade\u201d, assim como o que se percebe como indol\u00eancia, est\u00e1 possivelmente em certa medida relacionada com esta total aus\u00eancia de elementos dionis\u00edacos na religiosidade da China \u2013 uma consequ\u00eancia da consciente elimina\u00e7\u00e3o do culto por parte da burocracia. N\u00e3o havia, e n\u00e3o poderia haver, nada nela que pudesse perturbar o equil\u00edbrio a alma. Toda paix\u00e3o dominante, especialmente a ira, <i>Tschei<\/i>, provocava feiti\u00e7os malignos; diante de qualquer dor e para cada sofrimento primeiro se devia perguntar a qual <i>Tschei<\/i> se devia atribuir.<\/p>\n\n\n\n<p>A preserva\u00e7\u00e3o da magia animista como \u00fanica forma de religiosidade popular, desprezada pelos estratos cultos, mas suportada pelo car\u00e1ter dos cultos oficiais, era o resultado do medo tradicionalista a qualquer inova\u00e7\u00e3o que pudesse lan\u00e7ar maldi\u00e7\u00f5es e perturbar os esp\u00edritos. Ela explica a grande credulidade. Consequ\u00eancia da preserva\u00e7\u00e3o na f\u00e9 m\u00e1gica estava a ideia de que a enfermidade e a desgra\u00e7a eram sintomas da ira divina que o indiv\u00edduo trazia a si mesmo, favorecia certa supress\u00e3o desses sentimentos que tendem a surgir do sentimento comunit\u00e1rio das religi\u00f5es de reden\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao sofrimento e, portanto, sempre dominaram fortemente a \u00e9tica popular na \u00cdndia. O resultado foi o particular esfriamento da filantropia na China, inclusive das rela\u00e7\u00f5es dos grupos de parentesco, combinado \u00e0 corre\u00e7\u00e3o cerimonial e ao medo ego\u00edsta de esp\u00edritos.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/religiao-da-china-confucionismo-e-taoismo\/\">Adquira sua c\u00f3pia da obra completa.<\/a><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"231\" height=\"328\" src=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/weber-capa-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-643\" srcset=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/weber-capa-2.jpg 231w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/weber-capa-2-211x300.jpg 211w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/weber-capa-2-106x150.jpg 106w\" sizes=\"(max-width: 231px) 100vw, 231px\" \/><\/figure><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Abaixo voc\u00ea l\u00ea uma parte da conclus\u00e3o do livro &#8220;Religi\u00e3o da China&#8221;, de Max Weber, em que o soci\u00f3logo alem\u00e3o estabelece uma compara\u00e7\u00e3o entre o Confucionismo e o Puritanismo Confucionismo e Puritanismo Possivelmente, a maneira mais conveniente de construirmos uma perspectiva sobre que foi dito \u00e9 esclarecer rela\u00e7\u00e3o entre o\u2026<\/p>\n<p class=\"continue-reading-button\"> <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2018\/10\/17\/confucionismo-e-puritanismo-parte-do-ultimo-capitulo-de-religiao-da-china-de-max-weber\/\">Leia mais<i class=\"crycon-right-dir\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":271,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[22],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/278"}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=278"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/278\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":649,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/278\/revisions\/649"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/271"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=278"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=278"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=278"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}