{"id":342,"date":"2018-12-30T15:05:31","date_gmt":"2018-12-30T15:05:31","guid":{"rendered":"http:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=342"},"modified":"2018-12-30T15:05:31","modified_gmt":"2018-12-30T15:05:31","slug":"a-pederastia-cultivada-de-krafft-ebing","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2018\/12\/30\/a-pederastia-cultivada-de-krafft-ebing\/","title":{"rendered":"&#8220;A Pederastia cultivada&#8221; de Krafft-Ebing"},"content":{"rendered":"<p>Trecho do cap\u00edtulo 6 de <strong>Psychopathia Sexualis<\/strong>. Voc\u00ea pode adquirir a vers\u00e3o impressa ou ebook deste livro, <a href=\"http:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/psychopathia-sexualis\/\">clicando aqui<\/a>.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-30 aligncenter\" src=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/coluna-4-psychopathia-211x300.jpg\" alt=\"\" width=\"211\" height=\"300\" \/><\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>A Pederastia cultivada<\/h3>\n<p>Esta \u00e9 uma das p\u00e1ginas mais tristes da hist\u00f3ria da delinqu\u00eancia humana&#8230;<\/p>\n<p>Os motivos que levam um homem originalmente normal e sadio \u00e0 pederastia s\u00e3o v\u00e1rios. \u00c9 usada temporariamente como um meio de satisfa\u00e7\u00e3o sexual <i>faute de mieux<\/i> \u2013 como nos casos infrequentes de bestialidade \u2013 em que a abstin\u00eancia da indulg\u00eancia sexual normal \u00e9 for\u00e7ada<a title=\"\" href=\"file:\/\/\/J:\/hd%20500\/!Nuno\/1-17\/Ebing\/vers%C3%B5es%20finais\/amazon%20final_2.doc#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Ocorre, portanto, a bordo de navios durante longas viagens, nas pris\u00f5es, em balne\u00e1rios, etc. \u00c9 altamente prov\u00e1vel que, entre homens submetidos a tais condi\u00e7\u00f5es, haja indiv\u00edduos solteiros de baixa moralidade e grande sensualidade, ou uranistas reais, que seduzem os outros. A lux\u00faria, a imita\u00e7\u00e3o e o desejo buscam seus pr\u00f3prios objetivos.<\/p>\n<p>A for\u00e7a do instinto sexual \u00e9 mais fortemente demonstrada pelo fato de que tais circunst\u00e2ncias s\u00e3o suficientes para superar a repugn\u00e2ncia pelo ato antinatural.<\/p>\n<p>Outra categoria de pederastas \u00e9 composta de velhos libertinos que se tornaram saciados da pr\u00e1tica sexual normal, e encontram na pederastia um meio de excitar o prazer sensual, sendo esse ato um novo m\u00e9todo de estimula\u00e7\u00e3o. Assim, eles renovam temporariamente sua pot\u00eancia, que foi ps\u00edquica e fisicamente reduzida a n\u00edveis muito baixos. A nova situa\u00e7\u00e3o sexual os torna, por assim dizer, relativamente potentes, tornando poss\u00edvel um prazer que n\u00e3o mais encontram nas rela\u00e7\u00f5es sexuais normais com mulheres. Com o tempo, o poder de excita\u00e7\u00e3o da pederastia tamb\u00e9m se modifica. O indiv\u00edduo pode finalmente ser reduzido \u00e0 pederastia passiva como est\u00edmulo para tornar poss\u00edvel a tempor\u00e1ria pederastia ativa; assim como, ocasionalmente, a flagela\u00e7\u00e3o ou a observa\u00e7\u00e3o de atos obscenos (casos de mutila\u00e7\u00e3o de animais de <i>Maschka<\/i>) servem ao mesmo prop\u00f3sito.<\/p>\n<p>O final da atividade sexual se expressa em todos os tipos de abuso de crian\u00e7as \u2013 cunil\u00edngua, fela\u00e7\u00e3o, e outras anormalidades.<\/p>\n<p>Este tipo de pederasta \u00e9 o mais perigoso, j\u00e1 que buscam principalmente meninos, e os arru\u00ednam de corpo e alma.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o a isso, as experi\u00eancias de <i>Tarnowsky<\/i> (op. cit. p. 53 e seq.) coletadas na sociedade de S\u00e3o Petersburgo, s\u00e3o terr\u00edveis. Os locais onde a pederastia \u00e9 cultivada s\u00e3o institutos. Velhos libertinos e uranistas desempenham o papel de sedutores. A princ\u00edpio, \u00e9 dif\u00edcil para a pessoa executar tal desagrad\u00e1vel ato. Objetivando servir como ajuda, fantasia-se com imagens femininas. Gradualmente, com a pr\u00e1tica, o ato natural torna-se f\u00e1cil e, finalmente, o indiv\u00edduo, como algu\u00e9m <i>degradado<\/i> pela masturba\u00e7\u00e3o, torna-se relativamente impotente para mulheres, e luxurioso o suficiente para encontrar prazer no ato perverso. Tais indiv\u00edduos, sob certas circunst\u00e2ncias, d\u00e3o-se por dinheiro.<\/p>\n<p>Como mostram <i>Tardieu<\/i>, <i>Hofmann<\/i>, <i>Simon<\/i> e <i>Taylor<\/i>, n\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil encontrar tais dem\u00f4nios nas grandes cidades. De numerosas declara\u00e7\u00f5es feitas a mim por uranistas, aprende-se que a prostitui\u00e7\u00e3o real e as casas da prostitui\u00e7\u00e3o para homens que amam homens existem em grandes cidades. As artes da sedu\u00e7\u00e3o, usadas por prostitutos masculinos s\u00e3o not\u00e1veis \u200b\u200b\u2013 ornamentos, perfumes, estilos femininos de vestir, etc., para atrair pederastas e uranistas. Essa imita\u00e7\u00e3o de peculiaridades femininas \u00e9 espont\u00e2nea e inconsciente em casos cong\u00eanitos, e em alguns casos adquiridos de (anormal) instinto sexual antip\u00e1tico.<\/p>\n<p>As linhas seguintes s\u00e3o de interesse para o psic\u00f3logo e podem dar aos oficiais da lei pistas importantes sobre a vida social e a pr\u00e1tica de pederastas:<\/p>\n<p><i>Coffignon<\/i>, \u201cLa Corruption a Paris\u201d, p. 237, divide os pederastas ativos em \u201c<i>amateurs<\/i>\u201d, \u201c<i>entreteneurs<\/i>\u201d e \u201c<i>souteneurs<\/i>\u201d<a title=\"\" href=\"file:\/\/\/J:\/hd%20500\/!Nuno\/1-17\/Ebing\/vers%C3%B5es%20finais\/amazon%20final_2.doc#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>Os \u201c<i>amateurs<\/i>\u201d s\u00e3o pessoas debochadas, frequentemente de invers\u00e3o sexual cong\u00eanita, de alta posi\u00e7\u00e3o social e de posses, que s\u00e3o for\u00e7ados a se proteger de serem descobertos para a satisfa\u00e7\u00e3o de seus desejos homossexuais. Por conta disso, visitam bord\u00e9is, alojamentos ou casas particulares de prostitutas, que, usualmente, mant\u00eam boas rela\u00e7\u00f5es com prostitutos. Escapam, assim, das chantagens.<\/p>\n<p>Alguns desses \u201c<i>amateurs<\/i>\u201d (\u201c<i>rivettes<\/i>\u201d) s\u00e3o ousados \u200b\u200bo suficiente para satisfazer seus desejos vis em lugares p\u00fablicos. Correm, assim, o risco de pris\u00e3o, mas, em uma cidade grande, sofrem pouco risco de chantagem. Diz-se que o perigo adiciona prazer a seus atos secretos.<\/p>\n<p>Os \u201c<i>entreteneurs<\/i>\u201d s\u00e3o velhos pecadores que, mesmo com o perigo de cair nas m\u00e3os de chantagistas, n\u00e3o podem se negar o prazer de manter um \u201camante\u201d.<\/p>\n<p>Os \u201c<i>souteneurs<\/i>\u201d s\u00e3o pederastas que foram punidos, que mant\u00eam alguns \u201c<i>jesus<\/i>\u201d, a quem enviam para seduzir seus clientes (\u201c<i>faire chanter les rivettes<\/i>\u201d) e que, no momento certo, e caso seja poss\u00edvel, surgem com a finalidade de encontrar a v\u00edtima.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 raro que vivam juntos em grupos, em que os membros, de acordo com cada desejo individual, vivam como maridos e esposas. E, em tais grupos, h\u00e1 casamentos formais, noivados, banquetes e apresenta\u00e7\u00f5es de noivas e noivos em seus apartamentos.<\/p>\n<p>Estes \u201c<i>souteneurs<\/i>\u201d treinam seus \u201c<i>jesus<\/i>\u201d.<\/p>\n<p>Os pederastas passivos s\u00e3o \u201c<i>petits<\/i> <i>jesus<\/i>\u201d \u201c<i>jesus<\/i>\u201d ou \u201ctias\u201d. Os \u201c<i>petits<\/i> <i>jesus<\/i>\u201d s\u00e3o crian\u00e7as perdidas e depravadas, colocadas acidentalmente nas m\u00e3os de ativos pederastas, que as seduzem e revelam a elas os horr\u00edveis meios de ganhar a vida, seja como \u201c<i>entreteneurs<\/i>\u201d, ou nas ruas para homens, com ou sem \u201c<i>souteneurs<\/i>\u201d.<\/p>\n<p>Os mais astutos e procurados \u201c<i>petits<\/i> <i>jesus<\/i>\u201d s\u00e3o aqueles treinados por pessoas que instruem essas crian\u00e7as na arte de se vestir e agir de maneira feminina.<\/p>\n<p>Gradualmente, eles se emanciparam do professor e mestre, para se tornarem \u201c<i>femmes entretenues<\/i>\u201d, n\u00e3o raramente por meio da den\u00fancia an\u00f4nima de seus \u201c<i>souteneurs<\/i>\u201d \u00e0 pol\u00edcia. \u00c9 objeto do \u201c<i>souteneur<\/i>\u201d e do \u201c<i>petit jesus<\/i>\u201d fazer com que estes \u00faltimos se pare\u00e7am mais jovens, por meio do uso das artes do toalete.<\/p>\n<p>O limite da idade \u00e9 de cerca de vinte e cinco anos, quando todos se tornam \u201c<i>jesus<\/i>\u201d e \u201c<i>femmes entretenues<\/i>\u201d e s\u00e3o, ent\u00e3o, sustentados por diversos \u201c<i>souteneurs<\/i>\u201d. Os \u201c<i>jesus<\/i>\u201d se dividem em tr\u00eas categorias: \u201c<i>filles galantes<\/i>\u201d, ou seja, aqueles que ca\u00edram novamente nas m\u00e3os de um \u201c<i>souteneur<\/i>\u201d \u201c; \u201c<i>pierreuses<\/i>\u201d (como suas colegas femininas, estes atuam andando nas ruas); e \u201c<i>domestiques<\/i>\u201d.<\/p>\n<p>Os \u201c<i>domestiques<\/i>\u201d alugam-se a pederastas ativos, para satisfazer seus desejos ou para obter \u201c<i>petit jesus<\/i>\u201d para eles. Um subgrupo desses \u201c<i>domestiques<\/i>\u201d \u00e9 formado por aqueles que entram no servi\u00e7o de \u201c<i>petits<\/i> <i>jesus<\/i>\u201d como \u201c<i>femmes de chambre<\/i>\u201d. O principal objetivo destes \u201c<i>domestiques<\/i>\u201d \u00e9 usar suas posi\u00e7\u00f5es para obter informa\u00e7\u00f5es comprometedoras, com os quais, mais tarde, praticar\u00e3o chantagem, assegurando, assim, a facilidade em sua velhice.<\/p>\n<p>A classe mais horr\u00edvel de pederastas ativos \u00e9 formada pelas \u201c<i>tias<\/i>\u201d \u2013 isto \u00e9, os \u201c<i>souteneurs<\/i>\u201d de prostitutos \u2013 que, embora sexualmente normais, s\u00e3o moralmente desprez\u00edveis, e praticam a pederastia (passiva) apenas com vistas a ganho, ou para fins de chantagem.<\/p>\n<p>Os \u201c<i>amateurs<\/i>\u201d ricos re\u00fanem-se em locais espec\u00edficos, onde os passivos aparecem em trajes femininos, e orgias terr\u00edveis acontecem. Os gar\u00e7ons, os m\u00fasicos, etc., em tais reuni\u00f5es s\u00e3o todos pederastas. As \u201c<i>filles galantes<\/i>\u201d n\u00e3o se aventuram, exceto durante o carnaval, a mostrar-se nas ruas com roupas femininas; mas sabem como dar \u00e0 sua apar\u00eancia algo que indica sua voca\u00e7\u00e3o por meio do estilo de vestir, etc. Atraem por meio de gestos, movimentos peculiares de suas m\u00e3os, etc., e levam suas v\u00edtimas a hot\u00e9is, banhos, ou bord\u00e9is.<\/p>\n<p>O que o autor diz da chantagem \u00e9, no geral, j\u00e1 conhecido. H\u00e1 casos em que os pederastas permitiram que toda a sua fortuna fosse arrancada deles.<\/p>\n<p>Que essas monstruosidades das grandes cidades sob a forma de \u201c<i>petit jesus<\/i>\u201d n\u00e3o sejam apenas consequ\u00eancia de treinamento profissional, mas sim de uma condi\u00e7\u00e3o mental degenerada, \u00e9 evidente a partir das pesquisas feitas por <i>Laurent<\/i> (\u201cLes bisexu\u00e9s\u201d, Paris, 1894). Ele descreve na p\u00e1gina 175 590 de seu livro, sob o t\u00edtulo de \u201cHermaphroditisme artificiel\u201d, manifesta\u00e7\u00f5es de \u201cefemina\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cinfantilismo\u201d. Referem-se a meninos que, na puberdade incipiente, n\u00e3o apresentam mais o desenvolvimento das formas e dos \u00f3rg\u00e3os genitais, cabelos e pelos n\u00e3o crescem, n\u00e3o mudam a voz e s\u00e3o atrasados em suas faculdades mentais. \u00c9 comum acontecer, em tais casos, o desenvolvimento de caracter\u00edsticas femininas secund\u00e1rias, tanto f\u00edsicas quanto ps\u00edquicas. O <i>post mortem<\/i> de tais \u201c<i>petits<\/i> <i>garroches<\/i>\u201d (Brouardel) revelam uma bexiga pequena, meros rudimentos da pr\u00f3stata, aus\u00eancia dos m\u00fasculos <i>ischio<\/i> e <i>bulbo cavernosi<\/i>, p\u00eanis infantil e uma p\u00e9lvis muito estreita.<\/p>\n<p>S\u00e3o indubitavelmente indiv\u00edduos fortemente maculados que experimentaram, no momento da puberdade, uma esp\u00e9cie de mudan\u00e7a sexual rudimentar.<\/p>\n<p>Laurent (p. 181) faz a interessante observa\u00e7\u00e3o, de que \u00e9 <i>nas fileiras destes \u201cInfantis\u201d e \u201cEfeminados\u201d que os pederastas passivos<\/i> <i>profissionais<\/i> (\u201c<i>petits<\/i> <i>jesus<\/i>\u201d) s\u00e3o recrutados.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente, portanto, que essas monstruosidades humanas s\u00e3o predestinadas e treinadas, por assim dizer, em sua abomin\u00e1vel carreira por fatores degenerativos e antropol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>O seguinte aviso de um jornal de Berlim, de fevereiro de 1884, que caiu em minhas m\u00e3os por acidente, parece adequado para mostrar algo da vida e dos costumes dos pederastas e uranistas:<\/p>\n<p>\u201c<i>O Baile dos que Odeiam Mulheres<\/i> \u2013 Quase todos os elementos sociais de Berlim t\u00eam suas reuni\u00f5es sociais \u2013 os gordos, os carecas, os solteiros, os vi\u00favos \u2013 e por que n\u00e3o os que odeiam mulheres? Essa esp\u00e9cie de homens, t\u00e3o interessante psicologicamente, mas nada edificante, teve um grande baile h\u00e1 poucos dias. \u2018Grande e Chique Baile Dan\u00e7ante de Viena\u2019 \u2013 lia-se no convite. A venda de ingressos \u00e9 muito rigorosa; eles desejam se manter bastante exclusivos. Seu encontro \u00e9 em um bem conhecido sal\u00e3o de dan\u00e7as. N\u00f3s entramos no sal\u00e3o \u00e0 meia-noite A alegre dan\u00e7a acompanha o ritmo de uma boa orquestra. A fuma\u00e7a pesada do tabaco, que obscurece as luzes do g\u00e1s, n\u00e3o permite que os detalhes da massa em movimento se tornem \u00f3bvios, e apenas quando ocorre uma pausa entre as dan\u00e7as podemos nos aproximar. As m\u00e1scaras s\u00e3o as mais comuns; casacos pretos e vestidos de baile s\u00e3o vistos aqui e ali.<\/p>\n<p>\u201cMas o que \u00e9 isso? A dama de tarlatana rosa, que agora nos passou, tem um charuto aceso no canto da boca e solta baforadas como um soldado; e ela tamb\u00e9m veste uma pequena barba loira, levemente pintada. E, no entanto, ela est\u00e1 conversando com um anjo muito \u201c<i>d\u00e9collet\u00e9<\/i>\u201d em tric\u00f4, que permanece l\u00e1, com os bra\u00e7os nus dobrados por detr\u00e1s, tamb\u00e9m fumando. As duas vozes s\u00e3o masculinas, e a conversa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 muito masculina; trata-se da \u2018&#8230; fuma\u00e7a do tabaco, que n\u00e3o permite o ar\u2019. Dois homens vestidos de mulher! Um palha\u00e7o comum est\u00e1 ali, encostado uma coluna, em uma leve conversa com uma bailarina, com seu bra\u00e7o em torno de sua cintura perfeita. Ela tem uma bem definida cabe\u00e7a loira como Titus, e aparentemente uma forma voluptuosa. Os brincos brilhantes, o colar com um medalh\u00e3o, os ombros e os bra\u00e7os cheios, redondos, n\u00e3o permitem duvidar de sua \u2018autenticidade\u2019, at\u00e9 que, com um movimento s\u00fabito, ela se desprende do bra\u00e7o abra\u00e7ado e, bocejando, afasta-se, dizendo, em um baixo profundo, \u2018Emile, voc\u00ea est\u00e1 muito cansativo hoje!\u2019 A bailarina tamb\u00e9m \u00e9 um homem!<\/p>\n<p>\u201cSuspeitando de tudo agora, olhamos mais adiante. N\u00f3s quase suspeitamos que, aqui, o mundo est\u00e1 de cabe\u00e7a para baixo; pois l\u00e1 vai, ou melhor, l\u00e1 trope\u00e7a, um homem \u2013 n\u00e3o, n\u00e3o um homem, mesmo que use um bigode cuidadosamente tratado; o cabelo bem enrolado; o rosto em p\u00f3 pintado com as sobrancelhas enegrecidas; os brincos dourados; o buqu\u00ea de flores que se estende do ombro esquerdo at\u00e9 o peito, ornamentando o elegante vestido preto; os braceletes dourados nos pulsos; o elegante leque na m\u00e3o enluvada em branco \u2013 todas essas coisas s\u00e3o tudo, menos masculinas. E como ele brinca com o leque! Como ele dan\u00e7a e se vira e trope\u00e7a e balbucia! E, no entanto, a Natureza gentil fez deste boneco um homem. Ele \u00e9 vendedor em uma grande loja de doces, e o bailarino mencionado \u00e9 o seu \u2018colega\u2019.<\/p>\n<p>\u201cNuma pequena mesa de canto parece haver um grande c\u00edrculo social. V\u00e1rios cavalheiros idosos se espremem em torno de um grupo de senhoras <i>d\u00e9collet\u00e9<\/i>, que se sentam pr\u00f3ximas a um copo de vinho e \u2013 no esp\u00edrito de divers\u00e3o \u2013 fazem piadas que n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o delicadas. Quem s\u00e3o essas tr\u00eas senhoras? \u2018Senhoras\u2019, ri meu conhecido amigo. \u2018Bem, a da direita, com cabelos castanhos e vestido curto e elegante, \u00e9 chamada de \u2018Butterrieke\u2019, ele \u00e9 um cabeleireiro; a segunda \u2013 a loira em trajes de cantora, com colar de p\u00e9rolas \u2013 \u00e9 conhecida aqui pelo nome de \u2018Senhorita Ella da corda apertada\u2019, e ele \u00e9 um alfaiate de senhoras; e a terceira \u2013 \u00e9 a muito conhecida \u2018Lottie\u2019.<\/p>\n<p>\u201cMas pode aquela pessoa ser um homem? Aquela cintura, aquele busto, aqueles bra\u00e7os cl\u00e1ssicos, todo o ar e a pessoa s\u00e3o marcadamente femininos!<\/p>\n<p>\u201cDizem para mim que \u2018Lottie\u2019 j\u00e1 havia sido contador. Hoje ela, ou melhor, ele, \u00e9 exclusivamente \u2018Lottie\u2019, e tem prazer em enganar os homens sobre seu sexo pelo maior tempo poss\u00edvel. \u2018Lottie\u2019 est\u00e1 cantando uma can\u00e7\u00e3o que dificilmente seria para um sal\u00e3o, em voz aguda, adquirida ap\u00f3s anos de pr\u00e1tica, que muitas sopranos poderiam invejar. \u2018Lottie\u2019 tamb\u00e9m \u2018trabalhou\u2019 como uma comediante feminina. Agora, o ex-contador j\u00e1 entrou tanto no papel feminino que, nas ruas, aparece quase exclusivamente com trajes femininos e, como as pessoas com quem convive, usa um vestido de noite bordado.<\/p>\n<p>\u201cExaminando mais atentamente a assembleia, para o meu assombro, descubro v\u00e1rios conhecidos: meu sapateiro, que eu teria tomado por qualquer coisa, mas nunca como algu\u00e9m que odiasse mulheres \u2013 ele \u00e9 um \u2018trovador\u2019, com espada e pluma; e sua \u2018Leonora\u2019, vestida de noiva, \u00e9 quem costuma trazer minha marca de charutos preferida diante de mim, em uma certa loja de charutos. \u2018Leonora\u2019, que, durante uma pausa na m\u00fasica, tira as luvas, reconhe\u00e7o com certeza pelas suas grandes m\u00e3os. Certo! Tamb\u00e9m h\u00e1 meu camiseiro; ele se move em um question\u00e1vel traje como Baco, e \u00e9 o acompanhante de uma Diana repugnantemente enfeitada, que trabalha como gar\u00e7om em um restaurante. As verdadeiras \u2018senhoras\u2019 reais do baile n\u00e3o podem ser descritas aqui. Eles s\u00f3 se aproximam apenas umas das outras, e evitam os que odeiam mulheres; e estes \u00faltimos s\u00e3o exclusivos e divertem-se, ignorando absolutamente os encantos das mulheres\u201d.<\/p>\n<p>Estes fatos merecem a aten\u00e7\u00e3o cuidadosa da pol\u00edcia, que deve ser colocada em posi\u00e7\u00e3o de <i>lidar com a prostitui\u00e7\u00e3o masculina, como agora fazem com a feminina<\/i>.<\/p>\n<p>A prostitui\u00e7\u00e3o masculina \u00e9 certamente muito mais perigosa que a feminina; \u00e9 a mancha mais escura na hist\u00f3ria da humanidade.<\/p>\n<p>A partir das declara\u00e7\u00f5es de um alto funcion\u00e1rio policial de Berlim, aprendi que a pol\u00edcia est\u00e1 familiarizada com o submundo masculino da capital alem\u00e3, e faz tudo o que pode para suprimir a chantagem entre os pederastas \u2013 uma pr\u00e1tica que muitas vezes s\u00f3 \u00e9 interrompida pelo assassinato.<\/p>\n<p>Os fatos precedentes justificam o desejo de que <i>o legislador do futuro possa, pelo menos por raz\u00f5es de utilidade, abandonar a acusa\u00e7\u00e3o de pederastia.<\/i><\/p>\n<p>Com refer\u00eancia a este ponto, \u00e9 digno de nota que o C\u00f3digo franc\u00eas n\u00e3o pune a pederastia, enquanto n\u00e3o se tornar uma ofensa \u00e0 dec\u00eancia p\u00fablica. Provavelmente por raz\u00f5es pol\u00edtico-legais, o novo C\u00f3digo Penal italiano silencia sobre o crime de abuso antinatural, assim como os estatutos da Holanda e, tanto quanto sei, da B\u00e9lgica e da Espanha.<\/p>\n<p>Em que medida esses pederastas cultivados devem ser considerados mental e moralmente s\u00f3lidos pode permanecer uma quest\u00e3o aberta. A maioria deles sofre com neuroses genitais. <i>Pelo menos nesses casos, h\u00e1 os est\u00e1gios de transi\u00e7\u00e3o para o instinto sexual antip\u00e1tico patol\u00f3gico adquirido<\/i> (ver acima). A responsabilidade desses indiv\u00edduos, certamente muito mais baixos do que as mulheres que se prostituem, n\u00e3o pode, em geral, ser questionada.<\/p>\n<p>As v\u00e1rias categorias de homens amantes do sexo masculino, no que diz respeito \u00e0 forma da pr\u00e1tica sexual, podem assim ser caracterizadas em geral:<\/p>\n<p>O uranista <i>cong\u00eanito<\/i> torna-se apenas um pederasta e, eventualmente, recorre a este ato depois de ter praticado e esgotado todos os poss\u00edveis atos imorais com homens.<\/p>\n<p>A pederastia passiva \u00e9, para ele, a forma ideal, e praticamente adequada, do ato sexual. Ele pratica a pederastia ativa apenas para agradar a outro. O ponto mais importante aqui \u00e9 a pervers\u00e3o cong\u00eanita e imut\u00e1vel do instinto sexual.<\/p>\n<p>\u00c9 diferente do que se torna pederasta pelo cultivo da pr\u00e1tica. Ele j\u00e1 agiu sexualmente do ponto de vista normal, ou pelo menos teve inclina\u00e7\u00f5es normais, e ocasionalmente tem rela\u00e7\u00f5es sexuais com o sexo oposto. Sua perversidade sexual n\u00e3o \u00e9 cong\u00eanita nem imut\u00e1vel. Ele come\u00e7a com a pederastia e termina em outros atos sexuais perversos, induzidos pela fraqueza dos centros de ere\u00e7\u00e3o e ejacula\u00e7\u00e3o. No auge de sua pot\u00eancia, seu desejo sexual n\u00e3o \u00e9 passivo, mas sim \u00e9 pela pederastia ativa. Ele cede \u00e0 pederastia passiva apenas para agradar a outro; por dinheiro, no papel de um prostituto; ou como uma maneira, quando a virilidade est\u00e1 em decl\u00ednio, para tornar a pederastia ativa ainda ocasionalmente poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Um ato horr\u00edvel, que deve abordado, em conclus\u00e3o, \u00e9 <i>p\u00e6dicatio mulierum<\/i><a title=\"\" href=\"file:\/\/\/J:\/hd%20500\/!Nuno\/1-17\/Ebing\/vers%C3%B5es%20finais\/amazon%20final_2.doc#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, e inclusive <i>uxorum<a title=\"\" href=\"file:\/\/\/J:\/hd%20500\/!Nuno\/1-17\/Ebing\/vers%C3%B5es%20finais\/amazon%20final_2.doc#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><b>[4]<\/b><\/a><\/i>. As pessoas sensuais \u00e0s vezes fazem isso com prostitutas experientes, ou mesmo com suas esposas. <i>Tardieu<\/i> d\u00e1 exemplos nos quais homens, geralmente praticando coito, \u00e0s vezes se entregavam \u00e0 pederastia com suas esposas. Ocasionalmente o medo de uma repeti\u00e7\u00e3o da gravidez pode induzir o homem a realizar, e a mulher a tolerar, o ato.<\/p>\n<p><b>Caso 237<\/b>. <i>Imputa\u00e7\u00e3o de pederastia que n\u00e3o foi provada. Resumo do processo judicial<\/i>:<\/p>\n<p>Em 30 de maio de 1888, S., qu\u00edmico, de H., em uma carta an\u00f4nima, foi acusado por seu padrasto de ter rela\u00e7\u00f5es imorais com G., de 19 anos, filho de um a\u00e7ougueiro. S. recebeu a carta e, espantado com o seu conte\u00fado, repassou-a a seu senhor, que prometeu proceder discretamente no assunto e averiguar das autoridades o que estava sendo tido sobre ele em p\u00fablico.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, G., que morava na casa de S., foi preso. Na \u00e9poca ele estava sofrendo de gonorreia e orquite. S. tentou induzir as autoridades a libertar G., e aconselhou cautela, mas n\u00e3o foi atendido. Em sua declara\u00e7\u00e3o ao juiz, S. disse que conheceu G. na rua, tr\u00eas anos antes, e depois n\u00e3o mais o viu at\u00e9 o outono de 1887, quando o encontrou na loja de seu pai. Depois de novembro, G. fornecia carne \u00e0 cozinha de S. \u2013 chegando \u00e0 noite para pegar a ordem e trazendo a carne na manh\u00e3 seguinte. Assim S. gradualmente familiarizou-se com G., e veio a desenvolver um sentimento de forte amizade em rela\u00e7\u00e3o a ele. Quando S. caiu doente e ficou, por um tempo razo\u00e1vel, confinado a sua cama at\u00e9 o meio de maio, 1888, G. foi t\u00e3o atencioso que S.. e sua esposa. foram atra\u00eddos por ele por conta de sua disposi\u00e7\u00e3o feliz e infantil. S. mostrou e explicou a sua cole\u00e7\u00e3o de curiosidades, e eles passaram agrad\u00e1veis noites juntos, com a esposa usualmente tamb\u00e9m presente; al\u00e9m disso, S. e G. come\u00e7aram fazer salsichas, geleias, etc. Em fevereiro de 1888, G. adoeceu com gonorreia. S., sendo seu amigo, e tendo estudado medicina por algum tempo, cuidou de G., encontrou rem\u00e9dios para ele, etc. Em maio, G. ainda estava doente e, por v\u00e1rias raz\u00f5es, desejando sair de casa, S. e sua esposa o trouxeram para sua pr\u00f3pria casa para cuidar dele. S. negou a verdade de todas as suspeitas que haviam sido levantadas por esta revela\u00e7\u00e3o, e defendeu-se destacando sua vida anterior de grande respeitabilidade, sua educa\u00e7\u00e3o, e ao fato de que G., na \u00e9poca, estava sofrendo com uma doen\u00e7a nojenta e contagiosa, e que ele mesmo tinha uma afec\u00e7\u00e3o dolorosa (c\u00e1lculo nefr\u00edtico, com ataques ocasionais de c\u00f3licas).<\/p>\n<p>Contrariamente a estas declara\u00e7\u00f5es de S., devem ser mencionados os fatos apresentados em tribunal, e que levaram \u00e0 condena\u00e7\u00e3o em primeiro julgamento.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o de S. com G. tinha, em raz\u00e3o de sua obviedade, dado margem a certas observa\u00e7\u00f5es feitas por particulares, bem como por aqueles em casas p\u00fablicas. G. passava quase todas as noites com a fam\u00edlia de S. e, finalmente, passou a se sentir em casa l\u00e1. Eles caminhavam juntos. Certa vez, enquanto caminhava, S. disse a G. que ele era um belo sujeito, e que gostava muito dele. Na mesma ocasi\u00e3o, houve tamb\u00e9m conversas sobre assuntos sexuais, e tamb\u00e9m pederastia. S. disse que tocou nesses assuntos apenas para alertar G. Com refer\u00eancia \u00e0 rela\u00e7\u00e3o sexual em casa, ficou provado que S., ocasionalmente, enquanto estava sentado em um sof\u00e1, abra\u00e7ava G. e o beijava. Isso acontecia na presen\u00e7a da esposa, assim como de empregadas. Quando G. estava doente com gonorreia, S. instruiu-o no m\u00e9todo de usar a seringa e, em certa ocasi\u00e3o, segurou o p\u00eanis em suas m\u00e3os. G. testemunhou que S., em resposta a sua pergunta de por que ele gostava tanto dele, disse: \u201cEu n\u00e3o conhe\u00e7o a mim mesmo\u201d. Quando, um dia, G. permaneceu ausente de casa, S., com l\u00e1grimas nos olhos, queixou-se dele quando este retornou. S. tamb\u00e9m lhe disse que seu casamento era infeliz, e, em l\u00e1grimas, implorou a G. para que n\u00e3o o deixasse; que ele deveria tomar o lugar de sua esposa.<\/p>\n<p>De tudo isso resultou a justa acusa\u00e7\u00e3o de que a rela\u00e7\u00e3o entre os dois homens tinha uma dire\u00e7\u00e3o sexual. O fato de que tudo era aberto e de conhecimento de todos, de acordo com a queixa, n\u00e3o defendia o car\u00e1ter inofensivo da rela\u00e7\u00e3o, mas sim da intensidade da paix\u00e3o de S. A vida imaculada do acusado tamb\u00e9m foi considerada, assim como sua honestidade e gentileza. A probabilidade de um casamento infeliz, e que S. era de uma natureza muito sensual, foi revelada.<\/p>\n<p>No decurso do julgamento, G. foi repetidamente examinado pelos peritos m\u00e9dicos. Ele era quase de tamanho m\u00e9dio, p\u00e1lido e de constitui\u00e7\u00e3o forte; p\u00eanis e test\u00edculos eram perfeitamente desenvolvidos (grandes).<\/p>\n<p>Em conson\u00e2ncia com a acusa\u00e7\u00e3o, verificou-se que o \u00e2nus havia sido alterado patologicamente, na medida em que n\u00e3o havia rugas na pele e o esf\u00edncter era relaxado; e presumiu-se que essas mudan\u00e7as apontaram para a probabilidade de pederastia passiva.<\/p>\n<p>A convic\u00e7\u00e3o baseava-se nesses fatos. O julgamento reconheceu que a rela\u00e7\u00e3o existente entre os culpados n\u00e3o apontava, necessariamente, abusos n\u00e3o naturais, como tampouco as condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas encontradas na pessoa de G.<\/p>\n<p>No entanto, em virtude da combina\u00e7\u00e3o dos dois fatos, a corte estava convencida da culpa de ambos os acusados, e concluiu: \u201cQue a condi\u00e7\u00e3o anormal do \u00e2nus de G. tinha sido causada pela frequentemente e repetida introdu\u00e7\u00e3o do p\u00eanis de S., e que G. voluntariamente permitiu o desempenho desse ato imoral em si mesmo\u201d.<\/p>\n<p>Assim, as condi\u00e7\u00f5es do \u00a7175, R. St. G. B., pareciam ser atendidas. Ao pronunciar a senten\u00e7a, considerou-se a educa\u00e7\u00e3o de S., que o fazia parecer o sedutor de G.; no caso de G., esse fato e sua juventude foram consideradas; e tamb\u00e9m a respeitabilidade anterior de ambos foi considerada. Assim, S. foi condenado a pris\u00e3o por oito meses, e G. por quatro meses.<\/p>\n<p>Apelaram ao Supremo Tribunal de Leipzig, e se prepararam, caso a apela\u00e7\u00e3o fosse negada, para recolher provas suficientes para pedir um novo julgamento.<\/p>\n<p>Eles se submeteram a exames e observa\u00e7\u00f5es por especialistas conhecidos. Estes \u00faltimos declararam que o \u00e2nus de G. n\u00e3o apresentava sinais de indulg\u00eancia na pederastia passiva.<\/p>\n<p>Uma vez que pareceu importante para os interessados \u200b\u200besclarecer o aspecto psicol\u00f3gico do caso, que n\u00e3o foi abordado no julgamento, o autor foi encarregado do exame e observa\u00e7\u00e3o de S. e G.<\/p>\n<p><i>Resultados de Exame Pessoal, de 11 A 13 de Dezembro de 1888, em Graz<\/i>: \u201cS., com 37 anos; casado h\u00e1 dois anos, sem filhos. Ex-diretor do Laborat\u00f3rio Municipal de H. Ele vem de um pai que se diz ter sido nervoso, devido \u00e0 grande atividade; que teve um ataque apopl\u00e9ctico com 57 anos, e morreu aos sessenta e sete, de outro ataque de apoplexia. Sua m\u00e3e est\u00e1 viva, e \u00e9 descrita como uma pessoa forte, que \u00e9 nervosa h\u00e1 anos. A m\u00e3e dela chegou a uma idade avan\u00e7ada, e diz-se que teria morrido de um tumor cerebelar. Um irm\u00e3o do pai da m\u00e3e \u00e9 dito ter sido um bebedor. O av\u00f4 paterno morreu cedo, de enfraquecimento do c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>\u201cS. tem dois irm\u00e3os, que est\u00e3o em perfeita sa\u00fade.<\/p>\n<p>\u201cEle afirma que ele \u00e9 de temperamento nervoso, e tem constitui\u00e7\u00e3o forte. Ap\u00f3s o reumatismo articular, que teve com 14 anos, sofreu com grande nervosismo por alguns meses. A partir da\u00ed, passou a sofrer muitas vezes com dores reum\u00e1ticas, palpita\u00e7\u00f5es e falta de ar. Estes sintomas desapareceram gradualmente com banho de mar. Sete anos atr\u00e1s ele teve gonorreia. Esta doen\u00e7a tornou-se cr\u00f4nica, e por um longo tempo causou dificuldades na bexiga.<\/p>\n<p>\u201cEm 1887 teve seu primeiro ataque de c\u00f3lica renal, e tais ataques se repetiram durante o inverno de 1887 e 1888, at\u00e9 16 de maio de 1888, quando saiu um c\u00e1lculo renal muito grande. Desde ent\u00e3o, sua condi\u00e7\u00e3o tinha sido bastante satisfat\u00f3ria. Enquanto sofria de pedras, durante o coito, no momento da ejacula\u00e7\u00e3o, sentia intensa dor na uretra e mesmo ao urinar.<\/p>\n<p>\u201cCom rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua vida, S. declara que frequentou o Gin\u00e1sio at\u00e9 aos 14 anos, mas depois disso, devido aos resultados de sua doen\u00e7a grave, passou a estudar de forma privada. Passou ent\u00e3o quatro anos em uma farm\u00e1cia, e depois estudou medicina por seis semestres na Universidade, servindo na guerra de 1870 como assistente volunt\u00e1rio de um hospital. Como n\u00e3o tinha certificado de gradua\u00e7\u00e3o no Gin\u00e1sio, desistiu do estudo da medicina e obteve o grau de doutor em filosofia. Em seguida, trabalhou no Museu de Minerais em K. e depois como assistente no Instituto Mineral\u00f3gico de H. Em seguida, fez estudos especiais em qu\u00edmica de alimentos e, h\u00e1 cinco anos, tornou-se diretor do Laborat\u00f3rio Municipal.<\/p>\n<p>\u201cEle faz todas estas declara\u00e7\u00f5es de maneira r\u00e1pida e precisa, e n\u00e3o pensa muito em suas respostas; de modo que s\u00e3o ind\u00edcios que levam a pensar que ele ama a verdade, e a declara \u2013 al\u00e9m do qu\u00ea, no dia seguinte, suas declara\u00e7\u00f5es s\u00e3o id\u00eanticas. Com refer\u00eancia \u00e0 sua <i>vita sexualis<\/i>, S., de forma modesta, delicada e aberta, declara que, aos 11 anos, come\u00e7ou a entender a diferen\u00e7a dos sexos e, at\u00e9 seus 14 anos ano, foi dado ao onanismo. Come\u00e7ou tendo coito aos 18 anos, o qual praticou, depois disso, moderadamente. Seu desejo sensual nunca fora muito grande, mas, at\u00e9 recentemente, o ato sexual tinha sido normal em todos os sentidos, e acompanhado de gratificante sentimento de prazer e plena virilidade. Desde seu casamento, h\u00e1 dois anos, ele convivia exclusivamente com a esposa. Ele casara com sua esposa por amor, e ainda a amava, tendo coito com ela pelo menos v\u00e1rias vezes por semana. A esposa, que tamb\u00e9m estava \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, confirmou estas declara\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cEm toda investiga\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o a uma pervers\u00e3o do sentimento sexual dirigida aos homens S., respondeu negativamente de forma insistente, mesmo com a repeti\u00e7\u00e3o dos exames, e isso sem entrar em contradi\u00e7\u00e3o ou qualquer pensamento. Mesmo quando, com o objetivo de flagr\u00e1-lo, foi dito a ele que uma prova de instinto sexual perverso seria \u00fatil no julgamento, ele se apegava a suas declara\u00e7\u00f5es. Solidifica-se a importante impress\u00e3o de que S. n\u00e3o tem o menor conhecimento dos fatos relacionados ao amor masculino. Assim, aprende-se que seus sonhos lascivos nunca foram sobre homens; que est\u00e1 interessado unicamente na nudez feminina; que gostava de dan\u00e7ar com damas, etc. N\u00e3o h\u00e1 vest\u00edgios de qualquer tipo de inclina\u00e7\u00e3o sexual para o seu pr\u00f3prio sexo. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s suas rela\u00e7\u00f5es com G., S. exprime-se exatamente como o fez em seu interrogat\u00f3rio perante o tribunal. Em explica\u00e7\u00e3o a sua afei\u00e7\u00e3o por G., ele s\u00f3 pode dizer que ele \u00e9 um homem nervoso, de sentimentos e grande sensibilidade, e muito sens\u00edvel \u00e0 amizade. Durante sua doen\u00e7a, sentiu-se muito solit\u00e1rio e deprimido; sua esposa frequentemente estava com os pais dela; e, assim, ocorreu de ter se aproximado de G., que era t\u00e3o gentil e agrad\u00e1vel. Ainda sentia-se pr\u00f3ximo a ele, e se tornava notavelmente silencioso e reservado quando falava de sua amizade.<\/p>\n<p>\u201cEle j\u00e1 tivera duas amizades \u00edntimas: quando ainda era estudante, com um companheiro da corpora\u00e7\u00e3o, um Dr. A., que ele tamb\u00e9m abra\u00e7ava e beijava; mais tarde, com um Bar\u00e3o M. Quando ocorreu de n\u00e3o poder v\u00ea-lo por alguns dias, ficou deprimido, e at\u00e9 chorou.<\/p>\n<p>\u201cEle tamb\u00e9m tinha sentimentos semelhantes de apego a animais. Assim, lamentou a perda de um poodle que havia morrido h\u00e1 pouco tempo, como se fosse um membro da fam\u00edlia; muitas vezes beijara o animal (quando relatava isso, l\u00e1grimas vinham em seus olhos). Seu irm\u00e3o confirmou estas declara\u00e7\u00f5es, com a observa\u00e7\u00e3o, referindo-se \u00e0 not\u00e1vel amizade de seu irm\u00e3o por A. e M., que nesses casos n\u00e3o havia a menor suspeita de car\u00e1ter sexual ou de rela\u00e7\u00f5es sexuais. O exame mais cuidadoso e detalhado de S. n\u00e3o apresentou qualquer motivo para essa pressuposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEle afirma que nunca teve o menor sentimento sexual por G., e nunca teve ere\u00e7\u00e3o ou desejo sexual. Sobre sua prefer\u00eancia por G., que se aproximava do ci\u00fame, S. explicou sendo resultado apenas de seu temperamento sentimental e sua especial amizade. Queria tanto G. como se este fosse seu filho.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 digno de nota que S. declarou que, quando G. lhe falou sobre suas aventuras amorosas com meninas, isso o magoava apenas no sentido de que G. poderia correr perigo de se ferir e arruinar sua sa\u00fade por dissipa\u00e7\u00e3o. Ele nunca lamentaria uma situa\u00e7\u00e3o como essa. Se conhecesse uma menina que fosse boa para G., ficaria feliz em compartilhar com ele sua alegria, bem como fazer de tudo para promover seu casamento.<\/p>\n<p>\u201cS. declarou que foi o primeiro a perceber que, no decorrer do seu exame jur\u00eddico, viu como tinha sido descuidado em sua rela\u00e7\u00e3o com G., permitindo fofocas. Nunca escondeu nada porque sua amizade era inocente.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 digno de nota que a esposa de S. nunca notou nada de suspeito na rela\u00e7\u00e3o entre seu marido e G., embora a esposa, instintivamente, perceberia algo dessa natureza. A Sra. S. tamb\u00e9m n\u00e3o se op\u00f4s a receber G. na pr\u00f3pria casa. Nesse ponto, ela observou que o quarto de dormir em que G. ficava, quando doente, estava no segundo andar, enquanto eles dormiam no quarto andar; e, al\u00e9m disso, que S. nunca ficava sozinho com G. enquanto ele estava na casa. Ela afirma que est\u00e1 convencida da inoc\u00eancia de seu marido, e que ela o ama exatamente como antes.<\/p>\n<p>\u201cS. declarou, por iniciativa pr\u00f3pria, que beijara G. muitas vezes, e conversava com ele sobre assuntos sexuais. G. era muito dado \u00e0s mulheres, e por amizade, muitas vezes advertiu G. sobre a dissipa\u00e7\u00e3o sexual, particularmente quando G., como muitas vezes acontecia, n\u00e3o parecia bem de sa\u00fade. Ele tamb\u00e9m havia dito, certa vez, que G. era um belo homem; isso dentro de uma rela\u00e7\u00e3o perfeitamente inofensiva.<\/p>\n<p>\u201cO beijo de G. tinha sido consequ\u00eancia de uma profunda amizade, quando G. lhe dava alguma aten\u00e7\u00e3o especial, ou o agradava especialmente. No ato, nunca havia tido qualquer sentimento sexual. Quando, de vez em quando, sonhava com G., era de uma maneira perfeitamente inofensiva\u201d.<\/p>\n<p>Parecia de grande import\u00e2ncia para o autor apresentar, ainda, uma opini\u00e3o sobre a personalidade de G.. Em 12 de dezembro, a oportunidade desejada foi dada, e G. foi cuidadosamente examinado.<\/p>\n<p>G. era um jovem de 20 anos, de delicada constitui\u00e7\u00e3o, cujo desenvolvimento estava adequada \u00e0 idade; parecia ser neurop\u00e1tico e sensual. Os \u00f3rg\u00e3os genitais eram normais e bem desenvolvidos. O autor pensou que poderia ignorar a condi\u00e7\u00e3o do \u00e2nus, pois n\u00e3o sentiu necessidade de analis\u00e1-lo. O prolongado contato com G. deu a impress\u00e3o de ser um homem inofensivo, bondoso e ing\u00eanuo, de mente tranquila, mas n\u00e3o moralmente depravado. Nada em seus modos ou maneira de vestir indicava sentimento sexual perverso. N\u00e3o podia haver a menor suspeita de que ele fosse um cortes\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando G. foi introduzido <i>in media res<\/i>, ele afirmou que S. e ele, sabendo de sua inoc\u00eancia, haviam dito tudo o que realmente tinha acontecido, e foi nisso tudo em que se baseou o julgamento.<\/p>\n<p>No in\u00edcio, a amizade de S., e especialmente os beijos, pareciam excepcionais, inclusive para ele. Mais tarde, convenceu-se de que era apenas amizade, e n\u00e3o pensava mais nisso.<\/p>\n<p>G. considerara S. como um amigo como se fosse um pai; por ser t\u00e3o altru\u00edsta, amava-o assim.<\/p>\n<p>A express\u00e3o \u201cbelo homem\u201d foi feita quando G. teve um caso de amor, e S. expressou seus temores sobre um futuro feliz para G. Naquele momento S. o havia confortado e disse que a apar\u00eancia de G. era agrad\u00e1vel, e que seria um belo partido.<\/p>\n<p>Cera vez, S. se confessou a G. que sua esposa estava bebendo muito, e come\u00e7ou a chorar. G. foi tocado pela infelicidade de seu amigo. Nessa ocasi\u00e3o, S. o beijou e implorou por sua amizade, pedindo-lhe que o visitasse com frequ\u00eancia. S. nunca dirigira espontaneamente a conversa para assuntos sexuais.<\/p>\n<p>Certa vez, G. perguntou certa vez o que era pederastia, algo que ouviu muito quando estava na Inglaterra; e S. o explicou.<\/p>\n<p>G. reconheceu ser sensual. Com a idade de 12 tinha se familiarizado com assuntos sexuais por meio de colegas de escola. Ele nunca se masturbara, tivera coito com a idade de 18 anos e, desde ent\u00e3o, frequentava bord\u00e9is frequentemente. Ele nunca sentiu qualquer inclina\u00e7\u00e3o para seu pr\u00f3prio sexo, e nunca havia experimentado qualquer excita\u00e7\u00e3o sexual quando S. o beijava. Ele sempre teve prazer no coito normalmente realizado. Seus sonhos lascivos sempre foram com mulheres. Com indigna\u00e7\u00e3o e apontando para sua descend\u00eancia de uma fam\u00edlia saud\u00e1vel e respeit\u00e1vel, ele repeliu a insinua\u00e7\u00e3o de ter sido dado a uma pederastia passiva. At\u00e9 que as fofocas sobre eles chegaram a seus ouvidos, ele tinha sido inocente, e n\u00e3o suspeitava de nada. As anomalias anais tentou explicar da mesma maneira que fez no julgamento. Negou a automasturba\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Deve-se notar que o Sr. J. S. afirmou n\u00e3o ter sido menos surpreendido pela acusa\u00e7\u00e3o contra seu irm\u00e3o de amor masculino do que aqueles mais estreitamente ligados com ele. Ainda assim, n\u00e3o conseguia entender o que fazia com seu irm\u00e3o se ligasse de tal forma a G.; e todas as explica\u00e7\u00f5es feitas por S. a respeito de sua rela\u00e7\u00e3o com G., foram v\u00e3s.<\/p>\n<p>O autor teve o trabalho de observar S. e G., agindo de maneira natural, quando jantavam, em companhia de o irm\u00e3o de S. e da Sra. S., em Graz. Esta observa\u00e7\u00e3o n\u00e3o revelou o menor sinal de amizade impr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Minha impress\u00e3o geral sobre S. foi a de um indiv\u00edduo nervoso, sangu\u00edneo, um pouco tenso mas, ao mesmo tempo, bondoso, de cora\u00e7\u00e3o aberto e muito emotivo.<\/p>\n<p>S. era fisicamente forte, um tanto corpulento, com um cr\u00e2nio braquicef\u00e1lico sim\u00e9trico. Os \u00f3rg\u00e3os genitais eram bem desenvolvidos; o p\u00eanis um pouco grande; o prep\u00facio ligeiramente hipertrofiado.<\/p>\n<p><i>Opini\u00e3o<\/i>. A pederastia, infelizmente, n\u00e3o \u00e9 infrequente na humanidade de hoje; mas, mesmo que ocorra entre os povos da Europa, \u00e9 uma forma incomum, perversa, e mesmo monstruosa de gratifica\u00e7\u00e3o sexual. Presume uma pervers\u00e3o cong\u00eanita ou adquirida do instinto sexual e, ao mesmo tempo, um defeito de sentido moral que \u00e9 original ou adquirido, como resultado de influ\u00eancias patol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia m\u00e9dico-legal est\u00e1 completamente familiarizada com as condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e ps\u00edquicas das quais se origina essa aberra\u00e7\u00e3o do instinto sexual; e, no concreto e duvidoso caso, parece necess\u00e1rio verificar se essas condi\u00e7\u00f5es emp\u00edricas e subjetivas necess\u00e1rias para a pederastia est\u00e3o presentes. \u00c9 essencial distinguir entre pederastia ativa e passiva.<\/p>\n<p>A <i>pederastia ativa<\/i> ocorre:<\/p>\n<p>I. Enquanto fen\u00f4meno n\u00e3o patol\u00f3gico:<\/p>\n<p>1. Como meio de satisfa\u00e7\u00e3o sexual, em caso de grande desejo sexual, com abstin\u00eancia for\u00e7ada de rela\u00e7\u00f5es sexuais naturais.<\/p>\n<p>2. Em velhos libertinos, que se tornaram saciados com rela\u00e7\u00f5es sexuais normais e, sendo mais ou menos impotentes, s\u00e3o tamb\u00e9m moralmente depravados; e os que recorrem \u00e0 pederastia para excitar sua lux\u00faria com esse novo est\u00edmulo, auxiliando sua virilidade que se afundou tanto ps\u00edquica quando fisicamente.<\/p>\n<p>3. Tradicionalmente, entre certas ra\u00e7as b\u00e1rbaras desprovidas de moralidade.<\/p>\n<p>II. Como um <i>fen\u00f4meno patol\u00f3gico<\/i>:<\/p>\n<p>1. Sobre os fundamentos de uma invers\u00e3o sexual cong\u00eanita, com repugn\u00e2ncia, e mesmo incapacidade absoluta, para rela\u00e7\u00f5es sexuais com as mulheres. Mas, inclusive como <i>Casper<\/i> sabia, a pederastia, sob tais condi\u00e7\u00f5es, \u00e9 muito infrequente. O assim chamado uranista se satisfaz com um homem por meio de onanismo passivo ou m\u00fatuo, ou por meio de atos de coito (por exemplo, <i>coitus inter femora<\/i>); e recorre \u00e0 pederastia apenas excepcionalmente, como resultado de um intenso desejo sexual, ou a partir de um sentido moral baixo ou reduzido, pelo desejo de agradar a outro.<\/p>\n<p>2. Com base na invers\u00e3o sexual patol\u00f3gica adquirida:<\/p>\n<p>(a) Como resultado do onanismo praticado ao longo de muitos anos, que finalmente causa impot\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres, com a manuten\u00e7\u00e3o de intenso desejo sexual.<\/p>\n<p>(b) Como consequ\u00eancia de uma doen\u00e7a mental grave (dem\u00eancia senil, enfraquecimento do c\u00e9rebro nos insanos, etc.) na qual, como a experi\u00eancia ensina, pode ocorrer uma invers\u00e3o do instinto sexual.<\/p>\n<p>A <i>pederastia passiva<\/i> ocorre:<\/p>\n<p>I. Como fen\u00f4meno <i>n\u00e3o-patol\u00f3gico<\/i>:<\/p>\n<p>1. Nos indiv\u00edduos da classe mais baixa que, tendo tido a infelicidade de terem sido seduzidos na inf\u00e2ncia por libertinos, suportavam a dor e desgosto por conta do dinheiro, tornando-se moralmente depravados, de modo que, quando amadureciam, ca\u00edam t\u00e3o baixos que gostam de ser prostitutos.<\/p>\n<p>2. Em circunst\u00e2ncias an\u00e1logas \u00e0s de I., 1 &#8211; como pr\u00eamio a outrem por permitirem a pederastia ativa.<\/p>\n<p>II. Como <i>fen\u00f4meno patol\u00f3gico<\/i>:<\/p>\n<p>1. Em indiv\u00edduos afetados com invers\u00e3o sexual, com resist\u00eancia \u00e0 dor e ao nojo, como uma retribui\u00e7\u00e3o a homens que lhes prestaram favores sexuais.<\/p>\n<p>2. Em uranistas que se sentem mulheres para os homens, para al\u00e9m do desejo e da lux\u00faria. Em tais homens-mulheres h\u00e1 <i>horror femin\u00e6<\/i> e absoluta incapacidade para rela\u00e7\u00f5es sexuais com mulheres. Car\u00e1ter e inclina\u00e7\u00f5es s\u00e3o femininos.<\/p>\n<p>Os fatos emp\u00edricos recolhidos pela medicina legal e pela psiquiatria est\u00e3o todos inclu\u00eddos nesta classifica\u00e7\u00e3o. Diante do tribunal da ci\u00eancia m\u00e9dica, seria necess\u00e1rio provar que um homem pertence a uma das categorias acima, a fim de formar a convic\u00e7\u00e3o de ser ele um pederasta.<\/p>\n<p>Na vida e no car\u00e1ter de S., procurou-se em v\u00e3o sinais que o colocassem em uma das categorias de pederastas ativos estabelecidos pela ci\u00eancia. Ele n\u00e3o era nem for\u00e7ado \u00e0 abstin\u00eancia sexual, nem tornado impotente para as mulheres devido \u00e0 devassid\u00e3o; nem era um cong\u00eanito amante de homem, nem sem interesse pelas mulheres pela masturba\u00e7\u00e3o, ou atra\u00eddo aos homens pela perpetua\u00e7\u00e3o do desejo sexual; e, finalmente, n\u00e3o era sexualmente perverso como resultado de doen\u00e7a mental grave.<\/p>\n<p>De fato, faltam nele as condi\u00e7\u00f5es gerais necess\u00e1rias para a ocorr\u00eancia de pederastia \u2013 imbecilidade moral ou deprava\u00e7\u00e3o moral, por um lado, e desejo sexual desordenado do outro.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m era imposs\u00edvel classificar o c\u00famplice, em qualquer das categorias emp\u00edricas da pederastia passiva; pois ele n\u00e3o possu\u00eda nem as peculiaridades do prostituto, nem as marcas cl\u00ednicas de efemina\u00e7\u00e3o; e n\u00e3o tinha os estigmas antropol\u00f3gicos e cl\u00ednicos do homem-mulher. Ele era, de fato, o oposto de tudo isso.<\/p>\n<p>Para estabelecer, entre ambos, uma rela\u00e7\u00e3o de pederastia plaus\u00edvel do ponto de vista m\u00e9dico-cient\u00edfico, teria sido necess\u00e1rio que S. apresentasse os antecedentes e marcas dos pederastas ativos de I., 2, e G., as marcas dos pederastas passivos de II ., 1 ou 2.<\/p>\n<p>O pressuposto que estava na base do veredicto foi, de um ponto de vista psicol\u00f3gico, juridicamente insustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Dentro do mesmo direito, todos os homens podem ser considerados pederastas. Resta saber se as explica\u00e7\u00f5es dadas pelo Dr. S. e por G. de sua not\u00e1vel amizade s\u00e3o v\u00e1lidas psicologicamente.<\/p>\n<p>Psicologicamente n\u00e3o \u00e9 sem paralelo que um homem t\u00e3o sentimental e exc\u00eantrico como S. \u2013 sem qualquer excita\u00e7\u00e3o sexual \u2013 deva ter uma amizade transcendental. Basta recordar a amizade entre alunas, a amizade abnegada dos jovens sentimentais em geral, e o apego com o qual esse homem sens\u00edvel mostrava, \u00e0s vezes, mesmo para animais dom\u00e9sticos \u2013 situa\u00e7\u00f5es nas quais ningu\u00e9m pensaria em sodomia. Com o car\u00e1ter mental de S., sua extraordin\u00e1ria amizade pelo jovem G. pode ser facilmente compreendida. O car\u00e1ter p\u00fablico dessa amizade permite concluir que era inocente, muito mais do que dependia da paix\u00e3o sensual.<\/p>\n<p>Os r\u00e9us conseguiram obter um novo julgamento. O novo julgamento ocorreu em 7 de mar\u00e7o de 1890. Havia muita evid\u00eancia apresentada em favor do acusado.<\/p>\n<p>A vida moral de S. foi reconhecida amplamente. A Irm\u00e3 de Caridade, que cuidou de G. na casa de S., nunca notou nada suspeito nas rela\u00e7\u00f5es entre S. e G. Os antigos amigos de S. testemunharam sobre sua moralidade, sua profunda amizade e seu h\u00e1bito de beij\u00e1-los, fosse quando os encontrava, fosse quando os deixava. As anormalidades anais encontradas anteriormente em G. j\u00e1 n\u00e3o estavam presentes. Especialistas chamados pelo tribunal permitiram a possibilidade de que fossem devidas simplesmente a manipula\u00e7\u00f5es digitais; seu valor diagn\u00f3stico em qualquer caso foi contestado pelos peritos convocados pela defesa.<\/p>\n<p>O tribunal reconheceu que o crime imputado n\u00e3o havia sido provado e inocentou os r\u00e9us.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p><a title=\"\" href=\"file:\/\/\/J:\/hd%20500\/!Nuno\/1-17\/Ebing\/vers%C3%B5es%20finais\/amazon%20final_2.doc#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> <i>Lombroso<\/i> (\u201cDer Verbrecher, p. 20 e seq.) demonstra que tamb\u00e9m no caso de animais, rela\u00e7\u00f5es sexuais com o mesmo sexo ocorrem quando a pr\u00e1tica normal \u00e9 uma impossibilitada.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"file:\/\/\/J:\/hd%20500\/!Nuno\/1-17\/Ebing\/vers%C3%B5es%20finais\/amazon%20final_2.doc#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> \u201cAmadores\u201d, \u201cmantenedores\u201d, e \u201csustentados\u201d. Os termos foram mantidos em franc\u00eas, por fazerem parte da g\u00edria espec\u00edfica dos homossexuais franceses do per\u00edodo (N. do T.).<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"file:\/\/\/J:\/hd%20500\/!Nuno\/1-17\/Ebing\/vers%C3%B5es%20finais\/amazon%20final_2.doc#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> <i>Cf.<\/i> <i>Tardieu<\/i>, \u201cAttentats,\u201d p. 198; <i>Martineau<\/i>, \u201cDeutsche Med. Zeitung,\u201d 1882, p. 9; <i>Virchow<\/i> \u201cJahrb.,\u201d 1881, i., p. 533; <i>Coutagne<\/i>, \u201cLyon M\u00e8dical,\u201d Nos. 35, 36. <i>Eulenburg<\/i> em \u201cZ\u00fclzer&#8217;s Klin. Handb. d. Harn- u. Sexual-organe,\u201d iv.Abtheil., p. 45, relata casos de sua pr\u00f3pria experi\u00eancia, em que as mulheres apresentaram a\u00e7\u00f5es de div\u00f3rcio com o fundamento de que o marido, para evitar a prole, praticava somente a <i>p\u00e6dicatio<\/i>.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"file:\/\/\/J:\/hd%20500\/!Nuno\/1-17\/Ebing\/vers%C3%B5es%20finais\/amazon%20final_2.doc#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Sexo anal com mulheres, inclusive esposas (N. do T.).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Trecho do cap\u00edtulo 6 de Psychopathia Sexualis. Voc\u00ea pode adquirir a vers\u00e3o impressa ou ebook deste livro, clicando aqui. &nbsp; A Pederastia cultivada Esta \u00e9 uma das p\u00e1ginas mais tristes da hist\u00f3ria da delinqu\u00eancia humana&#8230; Os motivos que levam um homem originalmente normal e sadio \u00e0 pederastia s\u00e3o v\u00e1rios. \u00c9\u2026<\/p>\n<p class=\"continue-reading-button\"> <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2018\/12\/30\/a-pederastia-cultivada-de-krafft-ebing\/\">Leia mais<i class=\"crycon-right-dir\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":343,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/342"}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=342"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/342\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/343"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=342"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=342"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=342"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}