{"id":420,"date":"2019-12-02T19:16:30","date_gmt":"2019-12-02T19:16:30","guid":{"rendered":"http:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=420"},"modified":"2019-12-02T19:16:30","modified_gmt":"2019-12-02T19:16:30","slug":"trecho-de-a-cena-contemporanea-de-mariategui","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2019\/12\/02\/trecho-de-a-cena-contemporanea-de-mariategui\/","title":{"rendered":"Trecho de &#8220;A Cena Contempor\u00e2nea&#8221; de Mari\u00e1tegui"},"content":{"rendered":"<p>Voc\u00ea ir\u00e1 ler a seguir o trecho do ensaio &#8220;Biologia do Facismo&#8221;, do fil\u00f3sofo e jornalista peruano Jos\u00e9 Carlos Mari\u00e1tegui. Trata-se de um trecho da obra <a href=\"http:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/a-cena-contemporanea\/\"><strong>A Cena Contempor\u00e2nea<\/strong><\/a>. Caso voc\u00ea deseje adquirir a obra completa, basta clicar na capa abaixo.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/dp\/B086JFZV9R\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-402 aligncenter\" src=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/a-cena-capinha-211x300.jpg\" alt=\"\" width=\"211\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/a-cena-capinha-211x300.jpg 211w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/a-cena-capinha-106x150.jpg 106w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/a-cena-capinha.jpg 231w\" sizes=\"(max-width: 211px) 100vw, 211px\" \/><\/a><\/p>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/dp\/B086JFZV9R\"><strong>Adquirir Vers\u00e3o Ebook<\/strong><\/a><\/h3>\n<hr \/>\n<h4>A Biologia do Facismo<\/h4>\n<h5>MUSSOLINI E O FASCISMO<\/h5>\n<p>Fascismo e Mussolini s\u00e3o duas palavras insepar\u00e1veis e solid\u00e1rias. Mussolini \u00e9 o animador, o l\u00edder, o duce m\u00e1ximo do fascismo. O fascismo \u00e9 a plataforma, a tribuna e a carruagem de Mussolini. Para explicar parte deste epis\u00f3dio da crise europeia, vamos rapidamente percorrer a hist\u00f3ria dos fasci e de seu l\u00edder.<\/p>\n<p>Mussolini, como se sabe, \u00e9 um pol\u00edtico de origem socialista. N\u00e3o possu\u00eda posicionamento centrista ou temperada dentro do socialismo, mas uma posi\u00e7\u00e3o extremista e incandescente. Tivera um papel consistente com o seu temperamento. Porque Mussolini \u00e9, espiritual e organicamente, um extremista. Sua posi\u00e7\u00e3o est\u00e1 ou na extrema esquerda ou na extrema direita. De 1910 a 1911, ele foi um dos l\u00edderes da esquerda socialista. Em 1912, conduziu a expuls\u00e3o do espa\u00e7o socialista de quatro deputados partid\u00e1rios da colabora\u00e7\u00e3o ministerial: Bonomi, Bissolati, Cabrini e Podrecca. Ele ent\u00e3o assumiu a lideran\u00e7a da Avanti. Depois veio o ano de 1914 e a guerra. O socialismo italiano reivindicou a neutralidade da It\u00e1lia. Mussolini, invariavelmente inquieto e beligerante, revoltou-se contra o pacifismo de seus correligion\u00e1rios. Ele defendeu a interven\u00e7\u00e3o da It\u00e1lia na guerra. Ele deu ao seu intervencionismo, inicialmente, um ponto de vista revolucion\u00e1rio. Defendeu que estender e exasperar a guerra era apressar a revolu\u00e7\u00e3o europeia. Mas, na realidade, seu intervencionismo estava enraizado em sua psicologia guerreira que n\u00e3o podia ser reconciliada com uma atitude tolstoiana e passiva de neutralidade. Em novembro de 1914, Mussolini abandonou a lideran\u00e7a da Avanti e fundou Il Popolo d\u2019Italia em Mil\u00e3o para defender o ataque \u00e0 \u00c1ustria. A It\u00e1lia aderiu ao Entente. E Mussolini, um propagandista da interven\u00e7\u00e3o, foi tamb\u00e9m um soldado da interven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Chegaram a vit\u00f3ria, o armist\u00edcio, a desmobiliza\u00e7\u00e3o. E com estas coisas veio um per\u00edodo de desemprego para os intervencionistas. D\u2019Annunzio, nost\u00e1lgico por suas fa\u00e7anhas e \u00e9picos, embarcou na aventura do Fiume. Mussolini criou os fasci di combatimento: feixes ou grupos de combatentes. Mas na It\u00e1lia o momento era revolucion\u00e1rio e socialista. \u00c0 It\u00e1lia, a guerra tinha sido um mau neg\u00f3cio. A Entente tinha-lhe atribu\u00eddo uma parte escassa dos despojos. Esquecendo a contribui\u00e7\u00e3o das armas italianas \u00e0 vit\u00f3ria, ele havia teimosamente regateado a posse de Fiume. A It\u00e1lia, em resumo, tinha sa\u00eddo da guerra com um sentimento de descontentamento e desencanto. Realizaram-se, sob esta influ\u00eancia, as elei\u00e7\u00f5es. E os socialistas conquistaram 155 postos no parlamento. Mussolini, o candidato de Mil\u00e3o, foi derrotado de forma estrondosa pelos votos socialistas.<\/p>\n<p>Mas esses sentimentos de desapontamento e depress\u00e3o nacionais foram prop\u00edcios a uma violenta rea\u00e7\u00e3o nacionalista. E eles foram a raiz do fascismo. A classe m\u00e9dia \u00e9 peculiarmente acess\u00edvel aos mais exaltados mitos patri\u00f3ticos. E a classe m\u00e9dia italiana, al\u00e9m disso, sentia-se distante e oposta \u00e0 classe prolet\u00e1ria socialista. Sua neutralidade n\u00e3o era perdoada. N\u00e3o eram perdoados os altos sal\u00e1rios, os subs\u00eddios do Estado, as leis sociais que durante a guerra e depois dela obteve com o medo da revolu\u00e7\u00e3o. A classe m\u00e9dia se ressentia e sofria que o proletariado, neutro e at\u00e9 derrotista, era o benefici\u00e1rio de uma guerra que n\u00e3o queria. E cujos resultados desvalorizava, apequenava e desdenhava. Estes maus humores da classe m\u00e9dia encontraram um lar no fascismo. Mussolini atraiu assim a classe m\u00e9dia para o seu fasci di combatentimento.<\/p>\n<p>Alguns dissidentes do socialismo e do sindicalismo uniram-se ao fasci, trazendo consigo a sua experi\u00eancia e capacidades de organiza\u00e7\u00e3o e conquista de massas. O fascismo ainda n\u00e3o era uma seita program\u00e1tica e conscientemente reacion\u00e1ria e conservadora. Antes, pelo contr\u00e1rio, o fascismo se acreditava revolucion\u00e1rio. A sua propaganda tinha tons subversivos e demag\u00f3gicos. O fascismo, por exemplo, apregoava contra os novos ricos. Seus princ\u00edpios \u2013 essencialmente republicanos e anticlericais \u2013 estavam imbu\u00eddos da confus\u00e3o mental da classe m\u00e9dia que, instintivamente insatisfeita e enojada com a burguesia, \u00e9 vagamente hostil ao proletariado. Os socialistas italianos cometeram o erro de n\u00e3o usar armas pol\u00edticas sagazes para modificar a atitude espiritual da classe m\u00e9dia. Ainda mais. Acentuaram a inimizade entre o proletariado e a piccola borghesia, tratados com desd\u00e9m e desvalorizados por alguns te\u00f3ricos hier\u00e1ticos da ortodoxia revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>A It\u00e1lia entrou num per\u00edodo de guerra civil. Assustada com as possibilidades de revolu\u00e7\u00e3o, a burguesia armou, abasteceu e solicitamente estimulou o fascismo. E empurrou-o \u00e0 truculenta persegui\u00e7\u00e3o ao socialismo, \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o dos sindicatos e cooperativas revolucion\u00e1rias, \u00e0 quebra de greves e insurrei\u00e7\u00f5es. O fascismo se converteu assim em uma mil\u00edcia numerosa e militante. Acabou por ser mais forte do que o pr\u00f3prio Estado. E ent\u00e3o reclamou o poder. As brigadas fascistas conquistaram Roma. Mussolini, com uma \u201ccamisa negra\u201d, ascendeu ao governo, obrigou a maioria do parlamento a lhe obedecer, inaugurou um regime e uma era fascistas.<\/p>\n<p>Sobre Mussolini tem sido feito muito romance e pouca hist\u00f3ria. Devido \u00e0 sua beliger\u00e2ncia pol\u00edtica, uma defini\u00e7\u00e3o clara e objetiva da sua personalidade e figura \u00e9 dificilmente poss\u00edvel. Algumas defini\u00e7\u00f5es s\u00e3o ditir\u00e2mbicas e corteses; outras defini\u00e7\u00f5es s\u00e3o rancorosas e panflet\u00e1rias. Mussolini \u00e9 conhecido, episodicamente, por meio de anedotas e instant\u00e2neos. Diz-se, por exemplo, que Mussolini \u00e9 o art\u00edfice do Fascismo. Acredita-se que Mussolini tenha \u201cfeito\u201d o fascismo. Agora, Mussolini \u00e9 um agitador experiente, um organizador esperto, um tipo vertiginosamente ativo. Sua atividade, seu dinamismo, sua tens\u00e3o, tiveram vasta influ\u00eancia no fen\u00f4meno fascista. Durante a campanha fascista, Mussolini falava em tr\u00eas ou quatro cidades no mesmo dia. Usava o avi\u00e3o para saltar de Roma para Pisa, de Pisa para Bolonha, de Bolonha para Mil\u00e3o. Mussolini \u00e9 um tipo volitivo, din\u00e2mico, verboso, italianista, dotado de um dom \u00fanico para agitar massas e excitar multid\u00f5es. E ele era o organizador, o animador, o condottiere do Fascismo. Mas ele n\u00e3o foi seu criador, n\u00e3o foi o seu arquiteto. Ele extraiu de um estado de esp\u00edrito um movimento pol\u00edtico; mas ele n\u00e3o modelou esse movimento \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a. Mussolini n\u00e3o deu um esp\u00edrito, um programa, ao fascismo. Pelo contr\u00e1rio, o fascismo deu o seu esp\u00edrito a Mussolini. Sua consubstancia\u00e7\u00e3o, sua identifica\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica com os fascistas, obrigou Mussolini a se exonerar, a se purificar de seus \u00faltimos res\u00edduos socialistas. Mussolini precisava assimilar, absorver o antissocial\u00edssimo, o chauvinismo da classe m\u00e9dia para enquadr\u00e1-lo e organiz\u00e1-lo nas fileiras do fasci di combatimento. E ele teve que definir sua pol\u00edtica como uma pol\u00edtica reacion\u00e1ria, antissocialista e antirrevolucion\u00e1ria. O caso de Mussolini \u00e9 diferente do caso de Bonomi, de Briand e outros ex-socialistas.<\/p>\n<p>Bonomi, Briand, nunca foram for\u00e7ados a fazer uma ruptura expl\u00edcita com suas origens socialistas. Ao contr\u00e1rio, atribu\u00edram a si mesmos um socialismo m\u00ednimo, um socialismo homeop\u00e1tico. Mussolini, por outro lado, chegou ao ponto de dizer que se enrubescia de seu passado socialista como um homem maduro cora diante de suas cartas de amor adolescente. E ele saltou do socialismo mais extremo para o conservadorismo mais extremo. Ele n\u00e3o diminuiu, n\u00e3o reduziu o seu socialismo; abandonou-o total e integralmente. Seus rumos econ\u00f4micos, por exemplo, s\u00e3o adversos a uma pol\u00edtica de intervencionismo, de Estado, de fiscalismo. Eles n\u00e3o aceitam o tipo transacional de estado capitalista e empreendedor: eles tendem a restaurar o tipo cl\u00e1ssico de estado gendarme e coletor de impostos. As suas opini\u00f5es de hoje s\u00e3o diametralmente opostas \u00e0s suas opini\u00f5es de ontem. Mussolini foi um convencido ontem como \u00e9 um convencido hoje. Qual fora o mecanismo ou processo da sua convers\u00e3o de uma doutrina a outra? N\u00e3o se trata de um fen\u00f4meno cerebral; \u00e9 um fen\u00f4meno irracional. A for\u00e7a motriz desta mudan\u00e7a de atitude ideol\u00f3gica n\u00e3o tem sido a ideia; tem sido o sentimento. Mussolini n\u00e3o se livrou do seu socialismo, intelectual ou conceitualmente. O socialismo n\u00e3o era um conceito, mas uma emo\u00e7\u00e3o, assim como o fascismo n\u00e3o \u00e9 um conceito, mas uma emo\u00e7\u00e3o. Vejamos um fato psicol\u00f3gico e fision\u00f4mico: Mussolini nunca foi cerebral, mas sim um sentimental. Na pol\u00edtica, na imprensa, ele n\u00e3o tem sido um te\u00f3rico ou um fil\u00f3sofo, mas um ret\u00f3rico e um condutor. Sua linguagem n\u00e3o tem sido program\u00e1tica, de princ\u00edpios ou cient\u00edfica, mas sim apaixonada, sentimental. Os mais fracos discursos de Mussolini foram aqueles em que ele tentou definir a filia\u00e7\u00e3o, a ideologia do fascismo. O programa do fascismo \u00e9 confuso, contradit\u00f3rio, heterog\u00eaneo: cont\u00e9m, conceitos mistos de p\u00e9le-m\u00e9le, conceitos liberais e conceitos sindicalistas. Em outras palavras, Mussolini n\u00e3o ditou um verdadeiro programa ao fascismo; ele ditou um plano de a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mussolini passou do socialismo ao fascismo, da revolu\u00e7\u00e3o \u00e0 rea\u00e7\u00e3o, por uma forma sentimental, n\u00e3o por uma forma conceitual. Todas as apostasias hist\u00f3ricas t\u00eam sido provavelmente um fen\u00f4meno espiritual. Mussolini, um extremista da revolu\u00e7\u00e3o de ontem, um extremista da rea\u00e7\u00e3o de hoje, nos faz lembrar Juliano. Como este imperador, personagem de Ibsen e Mjerowskovsky, Mussolini \u00e9 um ser inquieto, teatral, alucinado, supersticioso e misterioso que se sentiu escolhido pelo destino para decretar a persegui\u00e7\u00e3o do novo deus e para substituir os velhos deuses moribundos em seu ret\u00e1bulo.<\/p>\n<h5>\nD\u2019ANNUNZIO E O FASCISMO<\/h5>\n<p>D\u2019Annunzio n\u00e3o \u00e9 fascista. Mas o fascismo \u00e9 d\u2019annunziano. O fascismo usa habitualmente uma ret\u00f3rica, t\u00e9cnica e postura danunzianas. O grito fascista de \u201cEia, eia, alal\u00e1!\u201d \u00e9 um grito do \u00e9pico D\u2019Annunzio. As origens espirituais do fascismo est\u00e3o na literatura de D\u2019Annunzio e na vida de D\u2019Annunzio. D\u2019Annunzio pode, portanto, negar o fascismo. Mas o fascismo n\u00e3o pode negar D\u2019Annunzio. D\u2019Annunzio \u00e9 um dos criadores, um dos arquitetos do estado de esp\u00edrito no qual o fascismo foi incubado e em que se moldou.<\/p>\n<p>Ainda mais. Todos os \u00faltimos cap\u00edtulos da hist\u00f3ria italiana est\u00e3o saturados de d\u2019annunzianismo. Adriano Tilgher, em um completo ensaio sobre Tersa Italia define o per\u00edodo pr\u00e9-guerra de 1905 a 1915 como \u201co reinado incontest\u00e1vel da mentalidade d\u2019annunziana, alimentado por mem\u00f3rias da Roma imperial e das comunas italianas da Idade M\u00e9dia, formadas pelo naturalismo pseudo-pag\u00e3o\u201d, de avers\u00e3o ao sentimentalismo crist\u00e3o e humanit\u00e1rio, de culto \u00e0 viol\u00eancia heroica, de desprezo pelo trabalho profano e vulgar, de diletantismo quilometrof\u00e1gico com um del\u00edrio vago de grandes palavras e gestos imponentes\u201d. Durante este per\u00edodo, Tilgher constata, a pequena e m\u00e9dia burguesia italiana alimentavam-se da ret\u00f3rica de uma imprensa escrita por escritores fracassados, totalmente impregnada de d\u2019annunzianismo e nostalgia imperial.<\/p>\n<p>E na guerra contra a \u00c1ustria, uma gesta d\u2019annunziana, gerou-se o fascismo, uma gesta d\u2019annunziana tamb\u00e9m. Todos os l\u00edderes e capit\u00e3es do fascismo v\u00eam da fac\u00e7\u00e3o que esmagou o governo neutralista de Giolitti e levou a It\u00e1lia \u00e0 guerra. As brigadas do fascismo foram inicialmente chamadas de feixes de combatentes. O fascismo era uma emana\u00e7\u00e3o da guerra. A aventura de Fiume e a organiza\u00e7\u00e3o dos fasci foram fen\u00f4menos g\u00eameos, dois fen\u00f4menos sincr\u00f4nicos e sinf\u00f4nicos. Os fascistas de Mussolini e os ardite de D\u2019Annunzio confraternizaram. Uns e outros lan\u00e7ando adiante suas ideias aos gritos de \u201cEia, eia, alal\u00e1!\u201d Fascismo e Fiumanismo se amamentavam no \u00fabere da mesma loba que R\u00f4mulo e Remo. Mas, os novos R\u00f4mulos e Remo tamb\u00e9m, o destino queria que um matasse o outro. Fiume sucumbiu ao afogamento de Fiume em sua ret\u00f3rica e em sua poesia. E o fascismo desenvolveu-se, livre da concorr\u00eancia de todos os movimentos semelhantes, \u00e0 custa dessa imola\u00e7\u00e3o e desse sangue.<\/p>\n<p>O Fiumanismo se ressentia em descer do mundo astral e ol\u00edmpico de sua utopia para o mundo contingente, prec\u00e1rio e prosaico da realidade. Sentia-se acima da luta de classes, acima do conflito entre a ideia individualista e a ideia socialista, acima da economia e dos seus problemas. Isolado da terra, perdido no \u00e9ter, o Fiumanismo foi condenado \u00e0 evapora\u00e7\u00e3o e \u00e0 morte, mas o Fascismo tomou uma posi\u00e7\u00e3o na luta de classes. E, explorando a ojeriza da classe m\u00e9dia contra o proletariado, enquadrou-o nas suas fileiras e conduziu-o \u00e0 luta contra a revolu\u00e7\u00e3o e contra o socialismo. Todos os elementos reacion\u00e1rios, todos os elementos conservadores, mais ansiosos por um capit\u00e3o determinado a lutar contra a revolu\u00e7\u00e3o do que por um pol\u00edtico inclinado a fazer um pacto com ela, alistaram-se e se concentraram nas fileiras do fascismo. Exteriormente, o fascismo manteve os seus ares d\u2019annunzianos; mas interiormente, o seu novo conte\u00fado social, a sua nova estrutura social, desalojou e sufocou a gasosa ideologia d\u2019annunziana. O fascismo cresceu e venceu n\u00e3o como um movimento d\u2019annunziano, mas como um movimento reacion\u00e1rio; n\u00e3o como um interesse superior \u00e0 luta de classes, mas como um interesse de uma das classes beligerantes. O fiumanismo era um fen\u00f4meno liter\u00e1rio e n\u00e3o pol\u00edtico. O fascismo, por outro lado, \u00e9 um fen\u00f4meno eminentemente pol\u00edtico. O simpatizante do fascismo tinha que ser, portanto, um pol\u00edtico, um l\u00edder tumultuado, plebiscit\u00e1rio e demag\u00f3gico. \u00c9 por isso que o fascismo encontrou seu duce, seu animador em Benito Mussolini, e n\u00e3o em Gabriel D\u2019Annunzio. O fascismo precisava de um l\u00edder pronto a usar, contra o proletariado socialista, o rev\u00f3lver, o pau e o \u00f3leo de r\u00edcino. E a poesia e o \u00f3leo de r\u00edcino s\u00e3o duas coisas irreconcili\u00e1veis e diferentes.<\/p>\n<p>A personalidade de D\u2019Annunzio \u00e9 uma personalidade arbitr\u00e1ria e vers\u00e1til que n\u00e3o se enquadra dentro de um partido. D\u2019Annunzio \u00e9 um homem sem afilia\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica ou disciplina. Ele aspira a ser um grande ator na hist\u00f3ria. Ele n\u00e3o est\u00e1 preocupado com o papel, mas com sua grandeza, seu relevo, sua est\u00e9tica. Contudo, D\u2019Annunzio mostrou, apesar do seu elitismo e aristocracia, uma tend\u00eancia frequente e instintiva \u00e0 esquerda e \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o. Em D\u2019Annunzio n\u00e3o h\u00e1 teoria, nem doutrina, nem conceito. Em D\u2019Annunzio h\u00e1 acima de tudo, um ritmo, uma m\u00fasica, uma forma. Mas este ritmo, esta m\u00fasica, esta forma, tem tido, por vezes, em alguns epis\u00f3dios sonoros da hist\u00f3ria do grande poeta, uma nuance e sentido revolucion\u00e1rios. D\u2019Annunzio ama o passado, mas ele ama mais o presente. O passado fornece e abastece com elementos decorativos, esmaltes arcaicos, cores raras e hier\u00f3glifos misteriosos. Mas o presente \u00e9 a vida. E a vida \u00e9 a fonte da fantasia e da arte. E, enquanto a rea\u00e7\u00e3o \u00e9 o instinto de conserva\u00e7\u00e3o, o estertor agonizante do passado, a revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 a dolorosa gesta\u00e7\u00e3o, o nascimento sangrento do presente.<\/p>\n<p>Quando, em 1900, D\u2019Annunzio entrou na C\u00e2mara Italiana, a sua falta de filia\u00e7\u00e3o, a sua falta de ideologia, levou-o a um lugar conservador. Mas um dia de emocionante controv\u00e9rsia entre a maioria burguesa e din\u00e1stica e a extrema esquerda socialista e revolucion\u00e1ria, D\u2019Annunzio, ausente da controv\u00e9rsia te\u00f3rica, sens\u00edvel apenas ao batimento card\u00edaco e \u00e0 emo\u00e7\u00e3o da vida, foi atra\u00eddo magneticamente para o campo de gravidade da minoria. E ele falou \u00e0 extrema esquerda: \u201cNo espet\u00e1culo de hoje vi de um lado muitos mortos gritando, do outro poucos homens vivos e eloquentes. Como homem de intelecto, marchei em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 vida.\u201d D\u2019Annunzio n\u00e3o estava marchando ao socialismo, ele n\u00e3o estava marchando \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o sabia ou n\u00e3o queria saber nada sobre teorias ou doutrinas. Ele estava simplesmente a marchar em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 vida. A revolu\u00e7\u00e3o exerceu nele a mesma atra\u00e7\u00e3o natural e org\u00e2nica que o mar, o campo, as mulheres, a juventude e o combate.<\/p>\n<p>E, ap\u00f3s a guerra, D\u2019Annunzio aproximou-se v\u00e1rias vezes da revolu\u00e7\u00e3o. Quando ocupou Fiume, disse que o fiumanismo era a causa de todos os povos oprimidos, de todos os povos n\u00e3o redimidos. E ele enviou um telegrama para Lenin. Parece que Lenin queria responder a D\u2019Annunzio. Mas os socialistas italianos se opuseram a que os sovi\u00e9ticos levassem a s\u00e9rio o gesto do poeta. D\u2019Annunzio convidou todos os sindicatos de Fiume a colaborar com ele na elabora\u00e7\u00e3o da constitui\u00e7\u00e3o fiumana. Alguns homens da ala esquerda do socialismo, inspirados pelo seu instinto revolucion\u00e1rio, defenderam um entendimento com D\u2019Annunzio. Mas a burocracia do socialismo e os sindicatos rejeitaram e excomungaram esta proposta herege, declarando D\u2019Annunzio um diletante, um aventureiro. A heterodoxia e o individualismo do poeta eram repugnantes ao seu sentimento revolucion\u00e1rio. D\u2019Annunzio, privado de qualquer coopera\u00e7\u00e3o doutrin\u00e1ria, deu a Fiume uma constitui\u00e7\u00e3o ret\u00f3rica. Uma constitui\u00e7\u00e3o com um tom \u00e9pico que \u00e9, sem d\u00favida, um dos documentos mais curiosos da literatura pol\u00edtica destes tempos. Na capa da Constitui\u00e7\u00e3o do Arengo del Carnaro est\u00e3o escritas estas palavras: \u201cA vida \u00e9 bela e digna de ser vivida magnificamente\u201d. E em seus cap\u00edtulos e par\u00e1grafos, a Constitui\u00e7\u00e3o do Fiume assegura aos cidad\u00e3os do Arengo de Carnaro, uma assist\u00eancia generosa e infinita para seu corpo, sua alma, sua imagina\u00e7\u00e3o e seus m\u00fasculos. Na Constitui\u00e7\u00e3o de Fiume, h\u00e1 toques de comunismo. N\u00e3o do comunismo moderno, cient\u00edfico e dial\u00e9tico de Marx e Lenin, mas do comunismo ut\u00f3pico e arcaico da Rep\u00fablica de Plat\u00e3o, da Cidade do Sol de Campanella e da Cidade de S\u00e3o Rafael de John Ruskin.<\/p>\n<p>Liquidade a aventura Fiume, D\u2019Annunzio teve um per\u00edodo de contato e negocia\u00e7\u00f5es com alguns l\u00edderes do proletariado. Na sua aldeia de Gardone, D\u2019Aragona e Baldesi, secret\u00e1rios da Confedera\u00e7\u00e3o Geral do Trabalho, encontraram-se com ele. Ele tamb\u00e9m recebeu uma visita de Tchicherin, que estava retornando de G\u00eanova \u00e0 R\u00fassia. Um acordo entre D\u2019Annunzio e os sindicatos e o socialismo parecia iminente. Estes foram os dias em que os socialistas italianos, dissociados dos comunistas, pareciam pr\u00f3ximos \u00e0 colabora\u00e7\u00e3o ministerial. Mas a ditadura fascista estava em marcha. E, em vez de D\u2019Annunzio e os socialistas, conquistaram a Cidade Eterna Mussolini e as \u201ccamisas negras\u201d.<\/p>\n<p>D\u2019Annunzio vive em boas rela\u00e7\u00f5es com o fascismo. A ditadura das \u201ccamisas negras\u201d flerta com o poeta. D\u2019Annunzio, desde seu retiro de Gardone, olha para ela sem rancor ou antipatia. Mas ele permanece esquivo e amuado a qualquer associa\u00e7\u00e3o com ela. Mussolini patrocinou o pacto do marinheiro elaborado pelo poeta que \u00e9 uma esp\u00e9cie de padrinho para as pessoas do mar. Os trabalhadores do mar se submetem voluntariamente. E ao seu imp\u00e9rio. O poeta de \u201cO Navio\u201d exerce sobre eles uma autoridade patriarcal e teocr\u00e1tica. Ele est\u00e1 proibido de legislar pela terra, ele se contenta em legislar pelo mar. O mar compreende-o melhor do que a terra.<\/p>\n<p>Mas a hist\u00f3ria \u00e9 feita em terra e n\u00e3o no mar. E tem como quest\u00e3o central a pol\u00edtica e n\u00e3o a poesia. Uma pol\u00edtica que exige de seus atores um contato constante e met\u00f3dico com a realidade, com a ci\u00eancia, com a economia, com tudo aquilo que a megalomania dos poetas n\u00e3o conhece e despreza. Num per\u00edodo normal e tranquilo da hist\u00f3ria, D\u2019Annunzio n\u00e3o teria sido um protagonista da pol\u00edtica. Porque em tempos normais e calmos, a pol\u00edtica \u00e9 um neg\u00f3cio administrativo e burocr\u00e1tico. Mas nesta era do neo-romantismo, nesta era do renascimento do Her\u00f3i, do Mito e da A\u00e7\u00e3o, a pol\u00edtica deixa de ser um com\u00e9rcio sistem\u00e1tico de burocracia e ci\u00eancia. D\u2019Annunzio, portanto, tem um lugar na pol\u00edtica contempor\u00e2nea. Apenas D\u2019Annunzio, ondulante e arbitr\u00e1rio, n\u00e3o pode imobilizar-se dentro de uma seita ou juntar-se a um lado. Ele n\u00e3o \u00e9 capaz de marchar com rea\u00e7\u00e3o ou revolu\u00e7\u00e3o. Muito menos ele \u00e9 capaz de se juntar ao ecl\u00e9tico e astuto meio-termo da democracia e das reformas.<\/p>\n<p>E assim, sem D\u2019Annunzio ser consciente e especificamente reacion\u00e1rio, a rea\u00e7\u00e3o \u00e9 paradoxal e enfaticamente D\u2019Annunziana. A rea\u00e7\u00e3o na It\u00e1lia tomou do d\u2019annunzianismo o gesto, a pose e o sotaque. Em outros pa\u00edses a rea\u00e7\u00e3o \u00e9 mais s\u00f3bria, mais brutal, mais nua. Na It\u00e1lia, o pa\u00eds da eloqu\u00eancia e da ret\u00f3rica, a rea\u00e7\u00e3o precisa ficar em um plinto suntuosamente decorado pelos frisos, baixos-relevos e pergaminhos da literatura d\u2019annunziana.<\/p>\n<hr \/>\n<p><em>Gostou? Deseja ler a obra inteira? 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