{"id":452,"date":"2021-01-02T17:23:09","date_gmt":"2021-01-02T17:23:09","guid":{"rendered":"http:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=452"},"modified":"2021-01-02T17:23:09","modified_gmt":"2021-01-02T17:23:09","slug":"os-escravos-na-roma-antiga-trecho-de-as-saturnalias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2021\/01\/02\/os-escravos-na-roma-antiga-trecho-de-as-saturnalias\/","title":{"rendered":"Os Escravos na Roma Antiga &#8211; Trecho de &#8220;As Saturn\u00e1lias&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Este texto voc\u00ea encontra na obra <a href=\"http:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/as-saturnalias\/\">As Saturn\u00e1lias<\/a>. 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Ele tamb\u00e9m afirma incluir entre as pr\u00e1ticas religiosas as Sigil\u00e1rias, aquelas pequenas figuras de barro com as quais as crian\u00e7as mais novas se divertem. N\u00e3o seria admiss\u00edvel duvidar das supersti\u00e7\u00f5es que ele mistura com a religi\u00e3o, por que tem fama de ser o pr\u00edncipe dos conhecimentos religiosos?\u201d<\/p>\n<p>A estas palavras, todos foram tomados de indigna\u00e7\u00e3o. Mas Pretextato respondeu com sorrisos: \u201cN\u00e3o me importo que voc\u00ea, Ev\u00e2ngelo, me tome por um homem supersticioso e indigno de toda confian\u00e7a, se raz\u00f5es s\u00f3lidas n\u00e3o lhe mostrarem a certeza das minhas duas afirma\u00e7\u00f5es. E, falando de escravos, em primeiro lugar: isto \u00e9 uma piada, ou voc\u00ea pensa seriamente que existe uma esp\u00e9cie de homens que os deuses imortais n\u00e3o considerem dignos de sua provid\u00eancia e cuidado&#8230; ou voc\u00ea, por acaso, n\u00e3o sofreria caso os escravos n\u00e3o estivessem entre os homens?<\/p>\n<p>Aprenda, ent\u00e3o, com que indigna\u00e7\u00e3o o tormento de um escravo penetrou no c\u00e9u.<\/p>\n<p>No ano duzentos e sessenta e quatro da funda\u00e7\u00e3o de Roma, certo Autr\u00f4nio M\u00e1ximo, depois de ter tido seu escravo espancado com varas, o fez andar no circo, antes da abertura dos jogos p\u00fablicos , amarrado a uma forca. J\u00fapiter, indignado com esta conduta, ordenou em sonhos a um homem chamado \u00c2nio que anunciasse ao Senado que esta cruel a\u00e7\u00e3o o havia desagradado. \u00c2nio, descumprindo a ordem, teve seu filho tomado por uma morte s\u00fabita; e, ap\u00f3s uma segunda advert\u00eancia, foi punido por sua reiterada neglig\u00eancia por uma atonia corporal, da qual foi subitamente afligido. Por fim, por conselho de seus amigos, ele mesmo foi carregado em uma liteira neste estado, e narrou seu sonho ao Senado. Assim que terminou de falar, recuperou imediatamente sua sa\u00fade e saiu do local da assembleia. Portanto, e para apaziguar J\u00fapiter, um decreto do Senato decreteu a lei M\u00e9via aos dias das festas do circo: o dia chamado instauratius, assim chamado, n\u00e3o como alguns pensam, pelo nome grego do instrumento de castigo \u03c3\u03c4\u03b1\u03c5\u03c1\u1f79\u03c2; mas pela recupera\u00e7\u00e3o de \u00c2nio, de acordo com a opini\u00e3o de Varr\u00e3o, que afirma que instaurare \u00e9 formado a partir do instar nouare.<\/p>\n<p>Perceba ent\u00e3o que o maior dos deuses tinha o apre\u00e7o por um escravo. O que inspirou em voc\u00ea um desprezo t\u00e3o profundo e estranho pelos escravos? Como se eles n\u00e3o fossem formados e alimentados pelos mesmos elementos que voc\u00ea, como se n\u00e3o fossem animados pelo mesmo alento, derivando do mesmo princ\u00edpio! Considere que aqueles a quem voc\u00ea chama de seus bens nascem dos mesmos princ\u00edpios que voc\u00ea, desfrutam do mesmo c\u00e9u, vivem e morrem como voc\u00ea. Eles s\u00e3o escravos, mas s\u00e3o homens. Eles s\u00e3o escravos, mas n\u00f3s tamb\u00e9m n\u00e3o somos escravos? Se voc\u00ea considerar que a fortuna tem tanto poder sobre n\u00f3s quanto sobre eles, pode acontecer que voc\u00ea os veja como livres, e eles, por sua vez, o vejam como um escravo. Voc\u00ea n\u00e3o sabe com que idade H\u00e9cuba, Creso, a m\u00e3e de D\u00e1rio, Di\u00f3genes e o pr\u00f3prio Plat\u00e3o se tornaram escravos? E por que devemos ficar t\u00e3o horrorizados com a palavra escravid\u00e3o? Algu\u00e9m s\u00f3 \u00e9 escravo por necessidade; mas um escravo pode ter uma alma livre. Voc\u00ea ter\u00e1 menosprezado o escravo se puder me mostrar quem n\u00e3o o \u00e9. Um \u00e9 escravo do deboche, um da gan\u00e2ncia, outro da ambi\u00e7\u00e3o; todos s\u00e3o escravos da esperan\u00e7a e do medo.<\/p>\n<p>Certamente, nenhuma servid\u00e3o \u00e9 mais vergonhosa do que aquela que \u00e9 volunt\u00e1ria; e ainda assim pisamos, como um ser desprez\u00edvel, o infeliz que a sorte colocou sob o jugo; e n\u00e3o queremos retificar nossos preconceitos a esse respeito. Voc\u00ea encontrar\u00e1 entre os escravos alguns que s\u00e3o incorrupt\u00edveis, enquanto voc\u00ea encontrar\u00e1 um mestre cuja esperan\u00e7a de ganho o faz cobrir com beijos as m\u00e3os dos escravos de outras pessoas. N\u00e3o \u00e9, portanto, de acordo com sua condi\u00e7\u00e3o que julgarei os homens, mas de acordo com seu car\u00e1ter. Cada um faz seu pr\u00f3prio car\u00e1ter; \u00e9 o acaso que estabelece as condi\u00e7\u00f5es. Assim como aquele que compraria um cavalo e consideraria apenas sua sela e arreios, tamb\u00e9m o mais tolo de todos os homens \u00e9 aquele que pensa que deveria julgar seu semelhante por suas roupas ou por sua condi\u00e7\u00e3o, ou por qual pe\u00e7a de vestu\u00e1rio o envolve.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 apenas no Senado ou no f\u00f3rum, meu caro Ev\u00e2ngelo, que voc\u00ea deve procurar por amigos. Se for cuidadoso, voc\u00ea os encontrar\u00e1 em sua pr\u00f3pria casa. Trate seu escravo, portanto, com gentileza; admita-o graciosamente em suas conversas e, \u00e0s vezes, aceite dele um conselho necess\u00e1rio. Observe nossos ancestrais que, para salvar os senhores da odiosidade da domina\u00e7\u00e3o e os escravos da humilha\u00e7\u00e3o da servid\u00e3o, consideravam os escravos como parte da fam\u00edlia de um paterfamilias. Ent\u00e3o, acredite em mim, fa\u00e7a-se agradecido em vez de temido por seus escravos.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m pode me acusar de rebaixar os senhores de sua posi\u00e7\u00e3o, e de chamar os escravos \u00e0 liberdade, porque eu disse que deveriam antes reverenciar seus senhores do que tem\u00ea-los. Aquele que pensa assim esqueceria que basta aos mestres conceder-lhes o que \u00e9 suficiente para os deuses. Al\u00e9m disso, n\u00f3s amamos aquele que respeitamos; mas o amor n\u00e3o pode ser unido ao medo. De onde voc\u00ea acha que vem o insolente prov\u00e9rbio: \u2018Tantos escravos quanto inimigos\u2019? N\u00e3o, eles n\u00e3o s\u00e3o nossos inimigos, mas n\u00f3s os fazemos assim quando somos arrogantes, insolentes e cru\u00e9is para com eles. O h\u00e1bito de uma vida de deleite nos leva a um excesso de extravag\u00e2ncia tal que tudo que n\u00e3o responde imediatamente \u00e0 nossa vontade desperta em n\u00f3s raiva e f\u00faria. Tornamo-nos verdadeiros tiranos em nossas casas, e queremos exercer toda a extens\u00e3o de nossa autoridade sobre os escravos, sem qualquer considera\u00e7\u00e3o pela justi\u00e7a.<\/p>\n<p>De fato, al\u00e9m de v\u00e1rios outros tipos de crueldade, h\u00e1 mestres que, enquanto se enchem avidamente da abund\u00e2ncia de suas mesas, n\u00e3o permitem que seus escravos, que est\u00e3o de p\u00e9, movam seus l\u00e1bios para dizer uma \u00fanica palavra. O mais leve murm\u00fario \u00e9 suprimido pela vara: mesmo casos acidentais n\u00e3o escapam \u00e0 puni\u00e7\u00e3o. Tosse, espirros, solu\u00e7os, s\u00e3o severamente punidos. Assim, acontece que aqueles que n\u00e3o est\u00e3o autorizados a falar diante de seu mestre falam muito dele; enquanto aqueles que n\u00e3o s\u00f3 mant\u00eam a boca fechada diante de seu mestre, mas mesmo que foram capazes de falar com ele, est\u00e3o prontos a perecer com ele, e a trazer sobre suas pr\u00f3prias cabe\u00e7as os perigos que o amea\u00e7avam. Estes escravos falavam \u00e0s refei\u00e7\u00f5es, mas se calavam nas torturas.<\/p>\n<p>Voc\u00ea gostaria que pass\u00e1ssemos pelos casos generosos devidos aos escravos? O primeiro \u00e9 sobre Urbino. Condenado \u00e0 morte, ele estava escondido em Reate. Quando seu esconderijo foi descoberto, um de seus escravos, usando seu anel e suas roupas, deitou-se em seu lugar na cama para a qual aqueles que o perseguiam se dirigiam, apresentou sua cabe\u00e7a aos soldados, e recebeu o golpe fatal como se fosse Urbino. Posteriormente, Urbino, tendo sido reabilitado, ergueu um monumento a este escravo, com uma inscri\u00e7\u00e3o atestando t\u00e3o grande devo\u00e7\u00e3o. Esopo, um liberto de Dem\u00f3stenes, que foi informado do adult\u00e9rio que seu mestre havia cometido com J\u00falia, foi torturado por muito tempo, mas perseverou em n\u00e3o trair seu mestre, at\u00e9 que o pr\u00f3prio Dem\u00f3stenes, pressionado por outras testemunhas, confessou o crime. Se voc\u00ea acha que \u00e9 sempre f\u00e1cil esconder o segredo de um \u00fanico indiv\u00edduo, voc\u00ea deve saber que os libertos de Labieno, que o haviam escondido, n\u00e3o puderam ser for\u00e7ados a delat\u00e1-lo por qualquer tipo de tormento. E para que ningu\u00e9m diga que esta fidelidade dos libertos se devia mais ao reconhecimento do benef\u00edcio da liberdade do que \u00e0 sua boa natureza, ou\u00e7a um aspecto da benevol\u00eancia por parte de um escravo para com seu senhor, mesmo enquanto ele o castigava. \u00c2ntio Resti\u00e3o, proscrito, fugiu sozinho \u00e0 noite. Enquanto seus escravos saqueavam sua propriedade, um deles, que havia sido colocado em ferros e marcado na testa, encontrando-se, ap\u00f3s a condena\u00e7\u00e3o de seu mestre, entregue pela compaix\u00e3o de outro, foi em busca do fugitivo, exortando-o a n\u00e3o tem\u00ea-lo, dizendo que sabia que era \u00e0 sorte e n\u00e3o ao seu mestre que deveria imputar sua afronta. Este escravo veio para levar alimentos para Resti\u00e3o todo o tempo em que este permaneceu escondido. Quando depois sentiu que aqueles que o perseguiam estavam se aproximando, cortou a garganta de um velho que o acaso lhe ofereceu, construiu uma pira sobre a qual jogou o cad\u00e1ver; e tendo ateado fogo a ela, veio ao encontro daqueles que procuravam a Resti\u00e3o, dizendo-lhes que tinha feito justi\u00e7a ao fora-da-lei, e que o havia castigado mais cruelmente do que ele mesmo havia sido castigado. Os perseguidores acreditaram nele, e Resti\u00e3o foi salvo.<\/p>\n<p>Cepi\u00e3o, que havia conspirado contra Augusto, tendo sido descoberto e condenado, foi carregado por um escravo em uma cesta at\u00e9 o Tibre: tendo descido a \u00d3stia, foi conduzido de noite \u00e0 casa de campo de seu pai, no territ\u00f3rio de Laurente. Afastado de Cumas por um naufr\u00e1gio, escondeu-se com seu mestre em N\u00e1poles. Ali, tendo sido capturado por um centuri\u00e3o, nem dinheiro nem amea\u00e7as o fizeram trair seu mestre.<\/p>\n<p>As\u00ednio Poli\u00e3o quis for\u00e7ar implacavelmente os habitantes de P\u00e1dua a entregarem suas armas e dinheiro e, por isso, se esconderam. Depois prometeu liberdade e recompensa aos escravos que denunciassem seus senhores. Mas \u00e9 sabido que nenhum deles, seduzidos pela recompensa, quis trair seu mestre.<\/p>\n<p>Permita-me narrar a voc\u00ea uma caracter\u00edstica que \u00e9, da parte dos escravos, n\u00e3o apenas um ato de fidelidade, mas mesmo uma inven\u00e7\u00e3o engenhosa voltada ao bem. Durante o cerco de Grumento, alguns escravos, tendo deixado sua senhora, dirigiram-se ao inimigo. Quando a cidade foi tomada, eles concordaram entre si, e correram para a casa de sua senhora, e a arrastaram com um ar amea\u00e7ador, dizendo \u00e0queles que encontravam que tinham finalmente o poder de punir sua cruel senhora. Tendo-a levado assim, como se a levassem \u00e0 tortura, colocaram-na em seguran\u00e7a com respeitosa piedade.<\/p>\n<p>Veja este outro caso: um escravo que tem a magnanimidade de preferir \u00e0 morte em detrimento da ignom\u00ednia. O escravo de C. V\u00e9cio, do pa\u00eds dos Pelignes, na It\u00e1lia, vendo-o preso por suas pr\u00f3prias coortes, matou-o para que n\u00e3o fosse entregue a Pompeu, e depois se matou para que n\u00e3o sobrevivesse a seu senhor. Euporo ou, segundo contam outros, Fil\u00f3crates, escravo de C. Graco, seguiu-o de forma incans\u00e1vel, fugindo do Monte Aventino, enquanto havia esperan\u00e7a de salv\u00e1-lo, e o defendeu o m\u00e1ximo que p\u00f4de; quando Graco foi morto, o escravo se matou sobre o cad\u00e1ver de seu senhor. O escravo de Publ. Cipi\u00e3o, o pai do Africano, colocou seu mestre, que acabara de ser ferido numa luta com An\u00edbal, sobre um cavalo e, enquanto todos o abandonavam, o trouxe sozinho para o acampamento.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 uma coisa pequena ter servido seus senhores vivos; os escravos far\u00e3o mais: eles estar\u00e3o sempre ansiosos para ving\u00e1-los. Um escravo do rei Seleuco, que havia se tornado escravo de um dos amigos do rei, e que havia sido seu assassino, vingou a morte de seu primeiro amo, matando o segundo enquanto jantava.<\/p>\n<p>O que mais queremos? Queremos ver as duas virtudes mais nobres unidas em um escravo, a capacidade de governar e a magnanimidade de desprezar o trono? Mess\u00eanio Anaxilau, que fundou Messina na Sic\u00edlia, e foi tirano dos Regianos, tendo deixado crian\u00e7as, contentou-se em recomend\u00e1-las aos cuidados de seu escravo Micito, que administrava religiosamente esta tutela, e governava com tanta modera\u00e7\u00e3o, que os Regianos n\u00e3o se ressentiram de serem governados por um escravo. Posteriormente, Micito entregou as crian\u00e7as j\u00e1 crescidas junto ao governo, bem como seus bens, e se aposentou com uma pequena soma de dinheiro \u2013 tudo em Ol\u00edmpia, onde chegou \u00e0 velhice em profunda tranquilidade.<\/p>\n<p>V\u00e1rios exemplos tamb\u00e9m nos ensinam qu\u00e3o \u00fateis os escravos t\u00eam sido para o interesse p\u00fablico. Durante a Guerra P\u00fanica, como havia escassez de cidad\u00e3os para alistamento, os escravos, tendo-se oferecido para lutar por seus senhores, foram admitidos na categoria de cidad\u00e3os; e, por terem se oferecido voluntariamente, foram chamados de uolones (volunt\u00e1rios). Ap\u00f3s a batalha de Canas, os romanos derrotados compraram oito mil escravos e os levaram como soldados; e embora tivesse custado menos resgatar os prisioneiros, a Rep\u00fablica, naquela violenta crise, preferiu confiar nos escravos. Ap\u00f3s a famosa derrota de Trasimeno, os libertos tamb\u00e9m foram chamados para o juramento militar. Durante a Guerra Social, doze coortes, criadas entre os libertos, realizaram a\u00e7\u00f5es de memor\u00e1vel valor. Sabe-se que C\u00e9sar, a fim de substituir os soldados que havia perdido, aceitou escravos de seus amigos, e deles obteve um servi\u00e7o muito bom. C\u00e9sar Augusto formou, na Germ\u00e2nia e Il\u00edria, v\u00e1rias coortes de libertos, chamadas de volunt\u00e1rios.<\/p>\n<p>N\u00e3o pense que tais coisas aconteceram somente em nossa Rep\u00fablica. Os boristenianos, atacados por Zopiri\u00e3o, libertaram os escravos, deram aos estrangeiros o direito de cidadania, aboliram os t\u00edtulos de d\u00edvidas; e foram assim capazes de resistir ao inimigo. Em Esparta, restavam apenas quinhentos lacedemonianos em condi\u00e7\u00f5es de portar armas; foi quando Cleomenes, com escravos libertos, recrutou nove mil combatentes. Os atenienses tamb\u00e9m, tendo esgotado os recursos p\u00fablicos, deram liberdade aos escravos.<\/p>\n<p>Para que voc\u00ea n\u00e3o pense que n\u00e3o havia virtude apenas entre os escravos homens, escute uma a\u00e7\u00e3o de mulheres escravas, n\u00e3o menos memor\u00e1vel que as anteriores, e mais \u00fatil \u00e0 Rep\u00fablica do que qualquer outra que voc\u00ea possa encontrar entre as classes nobres: o Festival Das Servi\u00e7ais, que \u00e9 celebrada nas Nonas de Julho, \u00e9 t\u00e3o bem conhecido que ningu\u00e9m ignora sua origem ou as raz\u00f5es de sua fama. Neste dia, as mulheres livres e os escravos oferecem sacrif\u00edcios a Juno Caprotina sob uma figueira selvagem, em mem\u00f3ria da preciosa devo\u00e7\u00e3o que as mulheres escravas demonstraram para a preserva\u00e7\u00e3o da honra nacional. Ap\u00f3s uma insurrei\u00e7\u00e3o dos gauleses, quando Roma foi tomada por eles, a Rep\u00fablica estava extremamente enfraquecida. Os povos vizinhos, desejando aproveitar a oportunidade de destruir o nome romano, nomearam L\u00edvio Post\u00famio, de Fidenes, como ditador, que informou ao Senado que, caso desejassem preservar os restos da cidade, deveriam entregar as m\u00e3es de fam\u00edlia junto com suas filhas. Enquanto os pais recrutas deliberavam, incertos quanto ao curso a seguir, uma criada chamada Tutela ou Filotia se ofereceu para ir ao inimigo com outras criadas, como se fossem suas senhoras. Tendo se passado por m\u00e3es e filhas, as servas foram levadas aos inimigos, seguidas por carpideiras que simulavam o luto. L\u00edvio, tendo-as distribu\u00eddo no acampamento, provocou os homens a beber, fingindo que era um dia de festa para eles. Quando os homens estavam dormindo, do alto de uma figueira selvagem perto do acampamento, elas deram um sinal para os romanos, que sa\u00edram vitoriosos ao ataque sem aviso pr\u00e9vio. O Senado agradecido concedeu liberdade a todas as escravas, dotou-as \u00e0s custas do Estado, permitiu que usassem o traje que haviam usado na ocasi\u00e3o e deu o nome de Nonas Caprotinas \u00e0quele dia, por causa da figueira selvagem (caprificus) da qual os romanos receberam o sinal da vit\u00f3ria. O Senado tamb\u00e9m ordenou que, em sua mem\u00f3ria, este dia fosse solenizado anualmente por um sacrif\u00edcio no qual o suco da figueira selvagem deveria ser utilizado.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m foram encontradas entre os escravos mentes altas o suficiente para alcan\u00e7ar a ci\u00eancia filos\u00f3fica. Fedo, da escola de S\u00f3crates e seu amigo, bem como amigo de Plat\u00e3o a tal ponto que este \u00faltimo dedicou a seu nome aquele tratado divino sobre a Imortalidade da Alma, era um escravo que tinha o exterior e a alma de um homem livre. Diz-se que Cebes, um disc\u00edpulo de S\u00f3crates, foi comprado por conselho de seu mestre, e treinado por ele nos exerc\u00edcios de filosofia. Fedo tornou-se depois um fil\u00f3sofo ilustre, e escreveu discuss\u00f5es de bom gosto sobre S\u00f3crates.<\/p>\n<p>Desde de Cebes, h\u00e1 um grande n\u00famero de escravos que foram fil\u00f3sofos ilustres. Entre eles estava Menipo, cujas obras Varr\u00e3o queria imitar em suas s\u00e1tiras, que outros chamam de c\u00ednicas, e que ele mesmo chama de Menipeanas. Ao mesmo tempo viveu P\u00f4mpolo, escravo do peripat\u00e9tico Filostrato; Perseu, escravo do estoico Zeno; e Mis, escravo de Epicuro, cada um deles famosos fil\u00f3sofos. Entre eles podemos incluir tamb\u00e9m Di\u00f3genes, o C\u00ednico, embora nascido livre, tornou-se escravo porque foi vendido para a escravid\u00e3o. Xen\u00edades o Cor\u00edntio, desejando compr\u00e1-lo, perguntou-lhe que arte ele conhecia: \u2018eu sei\u2019, respondeu Di\u00f3genes, \u2018como governar homens livres\u2019. Xen\u00edades, admirado pela resposta, o comprou, o libertou e o confiou a seus filhos, e disse: \u2018Estes s\u00e3o meus filhos (liberos), a quem voc\u00ea governar\u00e1\u2019. A mem\u00f3ria do ilustre fil\u00f3sofo Epiteto \u00e9 bastante recente na mem\u00f3ria para esquecer que ele era um escravo. Dois versos dele s\u00e3o citados sobre si mesmo, cujo significado \u00edntimo \u00e9: que aqueles que lutam contra a variedade dos males desta vida n\u00e3o s\u00e3o de forma alguma odiados pelos deuses; mas que a raz\u00e3o dos males deve ser procurada em causas secretas, que a sagacidade de poucos homens \u00e9 capaz de penetrar.<\/p>\n<p>\u0394\u03bf\u1fe6\u03bb\u03bf\u03c2 \u1f18\u03c0\u03af\u03ba\u03c4\u03b7\u03c4\u03bf\u03c2 \u03b3\u03b5\u03bd\u03cc\u03bc\u03b7\u03bd, \u03ba\u03b1\u1f76 \u03c3\u1ff6\u03bc\u1fbd \u1f00\u03bd\u03ac\u03c0\u03b7\u03c1\u03bf\u03c2,<br \/>\n\u039a\u03b1\u1f76 \u03c0\u03b5\u03bd\u03af\u03b7\u03bd \u1f3e\u03c1\u03bf\u03c2, \u03ba\u03b1\u1f76 \u03c6\u03af\u03bb\u03bf\u03c2 \u1f00\u03b8\u03b1\u03bd\u03ac\u03c4\u03bf\u03b9\u03c2.<\/p>\n<p>Epiteto nasceu escravo, seu corpo est\u00e1 mutilado; ele \u00e9 pobre como Irus; e ainda assim \u00e9 querido pelos imortais.<\/p>\n<p>Agora voc\u00ea deve estar convencido, penso eu, por que os escravos n\u00e3o devem ser desprezados por sua condi\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que foram objeto da solicitude de J\u00fapiter, e \u00e9 certo que muitos foram fi\u00e9is, prudentes, corajosos e at\u00e9 filos\u00f3ficos.<\/p>\n<p>Agora tenho algo mais a dizer sobre a Sigil\u00e1ria, para que voc\u00ea possa estar convencido de que falei de objetos sagrados, e n\u00e3o de coisas pueris. Epicado relata que H\u00e9rcules, depois de matar Geri\u00e3o, trazendo de volta em vit\u00f3ria, atrav\u00e9s da It\u00e1lia, as manadas de bois que havia roubado dele, lan\u00e7ou no Tibre, na ponte agora chamada Subl\u00edcio, constru\u00edda naquela \u00e9poca, um n\u00famero de imagens de homens igual ao n\u00famero de companheiros seus que havia perdido durante sua viagem; que estas imagens, levadas para o mar pelo curso das \u00e1guas, pudessem ser devolvidas \u00e0 p\u00e1tria dos falecidos, no lugar de seus corpos. \u00c9 da\u00ed que o costume de fazer tais imagens teria se tornado uma pr\u00e1tica religiosa. Quanto a mim, a origem deste costume me parece mais prov\u00e1vel aquela que acabei de mencionar. Ou seja, Pelasges, instru\u00eddos por uma interpreta\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel que a palavra \u2018cabe\u00e7a\u2019 poderia ser entendida como significando n\u00e3o cabe\u00e7as humanas, mas de barro, e que a palavra \u03c6\u03c9\u03c4\u1f79\u03c2 significava n\u00e3o apenas um homem, mas tamb\u00e9m uma tocha, come\u00e7ou a acender tochas de cera em honra a Saturno, e figuras consagradas, ao inv\u00e9s de suas pr\u00f3prias cabe\u00e7as, no altar de Saturno, cont\u00edguas \u00e0 capela de Dis. Da\u00ed surgiu o costume de enviarem-se tochas de cera durante a Saturn\u00e1lia, e de fazer e vender figuras esculpidas de barro, oferecidas como sacrif\u00edcio expiat\u00f3rio, para si e para sua fam\u00edlia, em mem\u00f3ria de Dis. Tendo o com\u00e9rcio destes objetos sido estabelecido durante a Saturn\u00e1lia, a venda continuou por sete dias, que s\u00e3o dias de descanso, embora nem todos sejam comemorados; mas apenas os do meio da Saturn\u00e1lia, ou seja, no d\u00e9cimo terceiro dia antes das Calendas, como j\u00e1 comentamos. Isso \u00e9 confirmado pelo testemunho daqueles que trataram mais plenamente da divis\u00e3o do ano, dos meses e dos dias, e da organiza\u00e7\u00e3o adotada por C\u00e9sar\u201d.<\/p>\n<hr \/>\n<p><em>Gostou do trecho? 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Adquirir Vers\u00e3o Ebook Neste trecho, os diferentes convidados presentes \u00e0 Saturn\u00e1lia, ouvem como Pretextato &#8211; o anfitri\u00e3o &#8211; justifica a import\u00e2ncia da escravid\u00e3o e dos escravos para a vida cotidiana. \u00c9 interessante notar o\u2026<\/p>\n<p class=\"continue-reading-button\"> <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2021\/01\/02\/os-escravos-na-roma-antiga-trecho-de-as-saturnalias\/\">Leia mais<i class=\"crycon-right-dir\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":387,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5,14],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/452"}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=452"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/452\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/387"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=452"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=452"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=452"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}