{"id":683,"date":"2022-11-22T13:21:00","date_gmt":"2022-11-22T13:21:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=683"},"modified":"2024-03-14T17:10:49","modified_gmt":"2024-03-14T17:10:49","slug":"a-vida-de-apolonio-de-tiana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2022\/11\/22\/a-vida-de-apolonio-de-tiana\/","title":{"rendered":"A vida de Apol\u00f4nio de Tiana"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/a-vida-de-apolonio-de-tiana\/\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"231\" height=\"328\" src=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/capinha_apolonio.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-678\" srcset=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/capinha_apolonio.jpg 231w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/capinha_apolonio-211x300.jpg 211w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/capinha_apolonio-106x150.jpg 106w\" sizes=\"(max-width: 231px) 100vw, 231px\" \/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Confira, a seguir, o trecho do Livro I da obra &#8220;A Vida de Apol\u00f4nio de Tiana&#8221;, por Fil\u00f3strato. <\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>L\u00ea-se nos trabalhos dedicados a Pit\u00e1goras que, antes de se tornar o s\u00e1bio de Samos, ele fora o troiano Euforbo e que havia retornado \u00e0 vida ap\u00f3s a morte, mas morrera como os c\u00e2nticos de Homero relatam. Eles dizem que ele se recusava a usar roupas feitas de produtos de animais mortos e, para preservar sua pureza, abstinha-se de toda dieta de carne e de oferecer animais em sacrif\u00edcio. Ele n\u00e3o queria manchar os altares com sangue; em vez disso, dizem que bolos de mel, incenso e hinos de louvor eram as oferendas feitas aos deuses por esse homem, que percebia que tais tributos eram mais bem recebidos por eles do que as hecatombes e o uso da faca no cesto de sacrif\u00edcios.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles afirmam que ele tinha um conv\u00edvio social com os deuses e aprendeu com eles as condi\u00e7\u00f5es sob as quais eles se agradam ou se desgostam dos homens, e com base nesse conv\u00edvio ele fundamentou sua vis\u00e3o da natureza. Ele dizia que, enquanto outros homens apenas fazem conjecturas sobre a divindade e fazem suposi\u00e7\u00f5es que se contradizem, no seu caso, Apolo havia se revelado a ele; e que Atena, as Musas e outros deuses, cujas formas e nomes ainda eram desconhecidos dos homens, tamb\u00e9m se comunicaram com ele, embora sem fazer tal reconhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Os seguidores de Pit\u00e1goras aceitavam como lei qualquer decis\u00e3o comunicada por ele e o honravam como um mensageiro de Zeus, mas, por respeito \u00e0 sua natureza divina, impunham um sil\u00eancio ritual sobre si mesmos. Pois muitos eram os segredos divinos e inef\u00e1veis que eles haviam ouvido, mas que eram dif\u00edceis de serem guardados por aqueles que n\u00e3o haviam aprendido que o sil\u00eancio tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de fala.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, afirmam que Emp\u00e9docles de Agrigento seguiu esse caminho de sabedoria quando escreveu: \u201cAlegrem-se, pois eu sou para voc\u00eas um Deus imortal, e n\u00e3o mais mortal.\u201d E tamb\u00e9m: \u201cPorque antes, eu j\u00e1 fui tanto menina quanto menino.\u201d E a oferta que, segundo a tradi\u00e7\u00e3o, ele fez a J\u00fapiter Ol\u00edmpico de um bolo representando um boi tamb\u00e9m mostra que ele aprovava os sentimentos de Pit\u00e1goras. E h\u00e1 muito mais que contam sobre esses s\u00e1bios que seguem a regra de Pit\u00e1goras, mas agora devo evitar entrar em tais pontos e seguir em frente com o trabalho que me propus a completar.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois o ideal perseguido por Apol\u00f4nio era bastante semelhante ao deles e, mais divinamente do que Pit\u00e1goras, buscava a sabedoria e se elevava acima dos tiranos; e embora n\u00e3o esteja, por sua \u00e9poca, nem muito distante nem muito pr\u00f3ximo de n\u00f3s, ainda n\u00e3o se conhece verdadeiramente qual foi sua filosofia, t\u00e3o digna de uma mente s\u00e1bia e de uma alma saud\u00e1vel. Por\u00e9m, alguns o elogiam de uma maneira, outros de outra; enquanto alguns, porque teve encontros com magos da Babil\u00f4nia e com os br\u00e2manes da \u00cdndia, e com os ascetas nus do Egito, o consideraram um mago: trata-se de uma cal\u00fania que surge devido ao fato de ele n\u00e3o ser bem conhecido.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois Emp\u00e9docles, bem como Pit\u00e1goras e Dem\u00f3crito, tiveram associa\u00e7\u00f5es com praticantes de magia e expressaram muitas ideias sobrenaturais. No entanto, \u00e9 importante notar que eles nunca recorreram \u00e0 magia negra. Por exemplo, Plat\u00e3o viajou ao Egito e incorporou muitos ensinamentos que obteve de profetas e sacerdotes locais em seus pr\u00f3prios discursos. Embora tenha aplicado sua interpreta\u00e7\u00e3o pessoal a essas no\u00e7\u00f5es, nunca foi qualificado como um mago. Ele foi, em vez disso, invejado por sua excepcional sabedoria.<\/p>\n\n\n\n<p>Observar que Apol\u00f4nio tamb\u00e9m previu e antecipou numerosos eventos n\u00e3o justifica de maneira alguma acus\u00e1-lo de praticar sabedoria obscura, como magia negra. Tal racioc\u00ednio seria equivalente a culpar S\u00f3crates pelo mesmo motivo, visto que ele possu\u00eda impress\u00f5es antecipadas devido ao seu \u201cesp\u00edrito familiar\u201d. Similarmente, acusar Anax\u00e1goras n\u00e3o seria v\u00e1lido, uma vez que ele fez v\u00e1rias previs\u00f5es que se realizaram. Por exemplo, em Ol\u00edmpia, durante um per\u00edodo de escassez de chuvas, Anax\u00e1goras vestiu uma pele de carneiro ao entrar no est\u00e1dio, prevendo corretamente a chegada da chuva. Da mesma forma, ele previu o colapso de uma casa, que de fato aconteceu. Suas previs\u00f5es, como a transforma\u00e7\u00e3o do dia em noite e a queda de pedras do c\u00e9u perto de Egosp\u00f3tamo, tamb\u00e9m se concretizaram.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 not\u00e1vel que esses feitos sejam atribu\u00eddos \u00e0 sabedoria de Anax\u00e1goras por pessoas que, ironicamente, negariam a Apol\u00f4nio o m\u00e9rito de suas previs\u00f5es baseadas na sabedoria, rotulando-as como resultado da magia.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, acredito que \u00e9 imperativo n\u00e3o apenas refutar, mas tamb\u00e9m esclarecer a ignor\u00e2ncia generalizada. Uma descri\u00e7\u00e3o precisa de Apol\u00f4nio \u00e9 necess\u00e1ria, destacando os momentos espec\u00edficos em que ele proferiu palavras ou realizou a\u00e7\u00f5es particulares. Al\u00e9m disso, \u00e9 essencial detalhar seus h\u00e1bitos e o car\u00e1ter de sabedoria que o tornaram objeto de adora\u00e7\u00e3o sobrenatural e considera\u00e7\u00e3o divina.<\/p>\n\n\n\n<p>Minhas informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o extra\u00eddas de diversas fontes, incluindo cidades onde Apol\u00f4nio era reverenciado, templos cujas pr\u00e1ticas rituais estavam em decl\u00ednio e haviam sido negligenciadas, mas que ele revitalizou. Tamb\u00e9m baseei meu conhecimento em relatos de outras pessoas e nas cartas que Apol\u00f4nio escreveu. Essas cartas foram direcionadas a reis, sofistas, fil\u00f3sofos, indiv\u00edduos de \u00c9lis, Delfos, \u00cdndia e Eti\u00f3pia. Nas cartas, ele abordava quest\u00f5es relacionadas aos deuses, tradi\u00e7\u00f5es, princ\u00edpios \u00e9ticos e leis. Em todos esses aspectos, ele corrigia os equ\u00edvocos nos quais a humanidade havia trope\u00e7ado. No entanto, encontrei informa\u00e7\u00f5es ainda mais precisas no trabalho de um certo D\u00e2mis.<\/p>\n\n\n\n<p>Existia um homem chamado D\u00e2mis, de forma alguma est\u00fapido, que residia na antiga cidade de N\u00ednive. Ele procurou Apol\u00f4nio com o prop\u00f3sito de buscar sabedoria e, ap\u00f3s ouvir e registrar, de acordo com sua narrativa, as jornadas de Apol\u00f4nio pelo exterior, elaborou delas um relato. Nesse escrito, ele registrou as opini\u00f5es, discursos e todas as profecias de Apol\u00f4nio. Um parente de D\u00e2mis chamou a aten\u00e7\u00e3o da imperatriz J\u00falia para os documentos que continham esses relatos, que at\u00e9 ent\u00e3o eram desconhecidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, eu fazia parte do c\u00edrculo da imperatriz J\u00falia , pois ela era uma entusiasta admiradora de todas as formas de express\u00e3o ret\u00f3rica. Ela me encarregou de reestruturar e editar esses ensaios, dando maior \u00eanfase ao estilo e \u00e0 reda\u00e7\u00e3o, visto que o homem de N\u00ednive havia transmitido sua hist\u00f3ria de maneira suficientemente clara, por\u00e9m um tanto desajeitada.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, eu tamb\u00e9m li o livro de M\u00e1ximo de Egeia, que abrangia toda a vida de Apol\u00f4nio em Egeia. Adicionalmente, um testamento foi redigido por Apol\u00f4nio, do qual podemos perceber qu\u00e3o arrebatado e inspirado ele era como um s\u00e1bio. Pois n\u00e3o devemos prestar aten\u00e7\u00e3o a Moeragenes, que escreveu quatro livros sobre Apol\u00f4nio e, no entanto, era ignorante de muitos detalhes de sua vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, unindo essas fontes dispersas, dediquei esfor\u00e7os \u00e0 minha composi\u00e7\u00e3o, como mencionado anteriormente. Desejo profundamente que meu trabalho reflita a honra do homem que \u00e9 o foco da minha compila\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo em que seja ben\u00e9fico para aqueles que valorizam a busca do conhecimento. Certamente, eles ir\u00e3o adquirir informa\u00e7\u00f5es aqui que at\u00e9 ent\u00e3o lhes eram desconhecidas.<\/p>\n\n\n\n<p>A casa de Apol\u00f4nio era em Tiana , uma cidade grega no meio de uma popula\u00e7\u00e3o de capad\u00f3cios. Seu pai tinha o mesmo nome e a fam\u00edlia descendia dos primeiros colonos. Eles superavam em riqueza as fam\u00edlias vizinhas, embora a regi\u00e3o fosse pr\u00f3spera.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando ele ainda estava no ventre de sua m\u00e3e, ela teve uma vis\u00e3o: era o deus eg\u00edpcio Proteu, o mesmo que, em Homero, assume diversas formas diferentes. Ela n\u00e3o ficou assustada e perguntou que tipo de crian\u00e7a ela iria ter. Ele respondeu: \u201cEu mesmo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ela perguntou: \u201cE quem \u00e9 voc\u00ea?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ele respondeu: \u201cProteu, o deus do Egito.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Devo presumir que n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio explicar aos leitores de poesia a qualidade de Proteu. Basta ter lido os poetas para saber o qu\u00e3o habilidoso ele era em se transformar, se metamorfosear, escapar daqueles que o buscavam; parecia que n\u00e3o desconhecia nada, nem mesmo o futuro. Mas em rela\u00e7\u00e3o a Apol\u00f4nio, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o lembrar de Proteu: at\u00e9 mesmo o desenrolar dessa narrativa mostrar\u00e1 que o homem foi al\u00e9m do deus no conhecimento do futuro, e que ele soube, at\u00e9 mesmo nas m\u00e3os de seus inimigos, escapar frequentemente de perigos que pareciam inevit\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>Dizem que ele nasceu em um prado perto do qual agora foi erguido um suntuoso templo em sua homenagem. N\u00e3o podemos deixar de mencionar a forma de seu nascimento. \u00c0 medida que a hora de seu nascimento se aproximava, sua m\u00e3e foi avisada em um sonho para ir ao prado e colher as flores. E assim ela fez, suas criadas espalhando-se pelo prado para colher as flores, enquanto ela adormecia na grama.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, os cisnes que se alimentavam no prado dan\u00e7aram ao seu redor enquanto ela dormia, levantaram suas asas e, como costumam fazer, cantaram alto, pois havia uma brisa soprando no prado. Ela acordou com o som da can\u00e7\u00e3o e deu \u00e0 luz a crian\u00e7a, pois um susto repentino pode causar um parto prematuro.<\/p>\n\n\n\n<p>As pessoas da regi\u00e3o dizem que, no momento do nascimento, um raio parecia prestes a cair na terra e depois subiu ao c\u00e9u e desapareceu no alto. Os deuses, assim, indicaram, creio eu, a grande distin\u00e7\u00e3o que o s\u00e1bio alcan\u00e7aria e prenunciaram como ele transcenderia todas as coisas terrenas e se aproximaria dos deuses, sinalizando tudo o que ele realizaria.<\/p>\n\n\n\n<p>Perto de Tiana, h\u00e1 um po\u00e7o sagrado de Zeus, o deus dos caminhos, como dizem, e o chamam de po\u00e7o de Asbama. Dizem que dele jorra uma \u00e1gua fria, mas que borbulha como um caldeir\u00e3o fervente. Esta \u00e1gua \u00e9 saud\u00e1vel e doce para aqueles que seguem os caminhos corretos, mas para os mentirosos, traz justi\u00e7a c\u00e9lere; ela ataca seus olhos, m\u00e3os e p\u00e9s, e eles se tornam presa da hidropisia e de doen\u00e7as debilitantes; eles nem sequer conseguem sair do lugar e se lamentam \u00e0 beira do po\u00e7o, reconhecendo suas mentiras.<\/p>\n\n\n\n<p>As pessoas da regi\u00e3o dizem que Apol\u00f4nio era filho de Zeus, mas ele mesmo se autodenominava filho de Apol\u00f4nio.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao alcan\u00e7ar a idade em que se come\u00e7a a instruir as crian\u00e7as, Apol\u00f4nio deu sinais de uma grande mem\u00f3ria e de um grande entusiasmo pelo estudo. Ele falava no dialeto \u00e1tico e jamais o contato com o idioma de sua terra natal alterou a pureza de sua linguagem. Ele atra\u00eda todos os olhares com sua beleza. Quando atingiu seus catorze anos, seu pai o levou a Tarso, \u00e0 casa de Euquidemo, o Fen\u00edcio, um famoso ret\u00f3rico da \u00e9poca, que assumiu sua educa\u00e7\u00e3o. Apol\u00f4nio se apegou ao seu mestre, mas os costumes da cidade lhe pareceram irracionais e pouco prop\u00edcios ao estudo da filosofia. De fato, em nenhum lugar o gosto pelo prazer \u00e9 mais generalizado. Os habitantes de Tarso s\u00e3o zombeteiros e insolentes; eles valorizam mais a apar\u00eancia do que os atenienses valorizam a sabedoria. Sua cidade \u00e9 atravessada pelo rio Cidno, e eles est\u00e3o constantemente nas margens desse rio, como aves aqu\u00e1ticas. Portanto, Apol\u00f4nio, em uma carta que enviou a eles, disse: \u201cVoc\u00eas nunca v\u00e3o parar de se embebedar com a \u00e1gua de voc\u00eas.\u201d A pedido de seu pai, ele se mudou com seu mestre para uma cidade vizinha, Egas, onde encontraria uma tranquilidade mais prop\u00edcia aos estudos filos\u00f3ficos e exemplos melhores para a juventude: al\u00e9m disso, havia um templo de Ascl\u00e9pio l\u00e1, e o pr\u00f3prio Ascl\u00e9pio aparecia aos homens. Apol\u00f4nio estava na cidade com platonistas, disc\u00edpulos de Crisipo e seguidores do P\u00f3rtico; ele at\u00e9 mesmo n\u00e3o negligenciou ouvir as li\u00e7\u00f5es dos epicuristas; no entanto, sentiu uma prefer\u00eancia secreta pelas doutrinas de Pit\u00e1goras. Para ensin\u00e1-lo, teve um mestre pouco recomend\u00e1vel, que raramente praticava sua filosofia: ele havia sido vencido pela gula e pelos prazeres do amor, vivendo \u00e0 moda de Epicuro. Seu nome era Euxeno, e ele nasceu em Heracleia, no Ponto. Ele conhecia as doutrinas de Epicuro, assim como as aves sabem o que lhes \u00e9 ensinado; de fato, quando as aves nos dizem:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOl\u00e1. \u2013 Seja feliz. \u2013 Que J\u00fapiter esteja a seu favor! etc.,\u201d elas n\u00e3o t\u00eam a menor ideia do que est\u00e3o dizendo, e n\u00e3o expressam os menores desejos por n\u00f3s; elas apenas movem a l\u00edngua de certa maneira. Mas, como os filhotes de \u00e1guia, enquanto suas asas ainda est\u00e3o cobertas com uma penugem macia, voam ao redor de seus pais, que os ensinam a voar; ent\u00e3o, assim que podem se elevar no ar, voam mais alto do que seus pais, especialmente quando os veem ciscar o solo em busca de alimento para saciar sua voracidade; da mesma forma, na inf\u00e2ncia, Apol\u00f4nio seguiu as li\u00e7\u00f5es de Euxeno e se deixou guiar por sua palavra; ent\u00e3o, quando ele atingiu seus dezesseis anos, ele al\u00e7ou voo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 vida pitag\u00f3rica: sem d\u00favida, alguma divindade lhe havia dado asas.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, ele continuou a amar Euxeno, e, tendo obtido para ele uma propriedade que continha jardins deliciosos e riachos frescos, ele lhe disse: \u201cViva como quiser; eu viverei como um pitag\u00f3rico.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cIsto exige muito esfor\u00e7o\u201d, observou Euxeno, \u201cmas por onde voc\u00ea come\u00e7ar\u00e1?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Farei como os m\u00e9dicos, respondeu Apol\u00f4nio. O primeiro cuidado deles \u00e9 purgar; e assim eles previnem doen\u00e7as ou as curam.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir desse momento, ele n\u00e3o consumiu mais nenhum animal (ele considerava isso uma comida impura e propensa afetar a mente), alimentando-se apenas de vegetais e frutas, dizendo que tudo o que a terra fornece \u00e9 puro. Quanto ao vinho, ele considerava a bebida proveniente de uma planta pura e valiosa para o ser humano; no entanto, julgava que essa bebida desequilibrava a mente, perturbando a parte superior da alma.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de purificar seu est\u00f4mago dessa maneira, ele honrou-se ao andar descal\u00e7o, vestindo apenas tecidos de linho, renunciando a todos os tecidos de pelos de animais, deixou seu cabelo crescer e viveu no templo. Ele causava admira\u00e7\u00e3o em todos aqueles ligados ao templo, e um dia Ascl\u00e9pio disse ao sacerdote que estava feliz por ter Apol\u00f4nio como testemunha das curas que realizava. As pessoas vieram de todos os lados para Egeia para v\u00ea-lo, n\u00e3o apenas das cidades da Cil\u00edcia, mas das prov\u00edncias vizinhas; e isso deu origem a um ditado na Cil\u00edcia que se tornou um prov\u00e9rbio: \u201cPara v\u00e3o voc\u00eas t\u00e3o r\u00e1pido? V\u00e3o ver o jovem?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, \u00e9 fundamental que eu n\u00e3o omita o que ocorreu no Templo enquanto relato a vida de um homem que era at\u00e9 mesmo estimado pelos deuses. Um jovem ass\u00edrio veio consultar Ascl\u00e9pio: apesar de estar doente, vivia uma vida de luxo, sempre embriagado, e sua condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica continuava a se deteriorar. Sendo acometido pela hidropisia, ele s\u00f3 desejava beber, sem se preocupar em combater a umidade do corpo. Por isso, era negligenciado por Ascl\u00e9pio, que se recusava a lhe aparecer, mesmo em sonhos. Entretanto, quando ele reclamou do esquecimento ao qual foi submetido, Ascl\u00e9pio aproximou-se dele e disse:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cConverse com Apol\u00f4nio, e voc\u00ea se recuperar\u00e1.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O jovem procurou Apol\u00f4nio e perguntou: \u201cQue benef\u00edcio\u201d, ele indagou, \u201cposso obter de sua sabedoria? Ascl\u00e9pio me instruiu a conversar com voc\u00ea\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cVoc\u00ea obter\u00e1 com essa conversa\u201d, respondeu Apol\u00f4nio, \u201cum benef\u00edcio que valorizar\u00e1 sua condi\u00e7\u00e3o. Pois voc\u00ea est\u00e1 buscando, eu acredito, por sa\u00fade.\u201d \u2013 \u201cSim, a sa\u00fade prometida por Ascl\u00e9pio e que ele n\u00e3o concede.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cVamos l\u00e1, sem palavras \u00e1speras! Ascl\u00e9pio oferece sa\u00fade \u00e0queles que realmente a desejam; por\u00e9m, voc\u00ea faz tudo o que pode para agravar sua situa\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea se entrega \u00e0 boa comida, enchendo suas entranhas \u00famidas e debilitadas com iguarias suculentas: \u00e9 como se misturasse lama na \u00e1gua.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Uma resposta como essa, se n\u00e3o estou enganado, era muito mais clara do que a de Her\u00e1clito: esse fil\u00f3sofo, tamb\u00e9m atingido pela mesma doen\u00e7a, afirmava que \u201cprecisava de algo que pudesse transformar o \u00famido em seco\u201d; algo dif\u00edcil de compreender. Apol\u00f4nio restaurou a sa\u00fade do jovem ass\u00edrio, falando com tanta clareza quanto com sabedoria.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dia, Apol\u00f4nio viu o altar inundado de sangue e coberto de ofertas sagradas; bois eg\u00edpcios e porcos de tamanho extraordin\u00e1rio jaziam abatidos; os sacerdotes estavam ocupados esfolando ou retalhando as v\u00edtimas; perto do altar havia dois vasos de ouro, enriquecidos com pedras indianas de uma beleza maravilhosa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO que significa tudo isso?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>perguntou Apol\u00f4nio ao sacerdote.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSua surpresa vai aumentar\u201d, respondeu o sacerdote. \u201cO homem que oferece este rico sacrif\u00edcio ainda n\u00e3o recebeu nada do deus; ele n\u00e3o esperou o tempo comum passar; ele n\u00e3o recebeu de Ascl\u00e9pio nem a sa\u00fade, nem nada do que deveria pedir: parece que chegou apenas ontem. E ele anuncia que duplicar\u00e1 seus sacrif\u00edcios e oferendas se suas preces forem atendidas. Ele \u00e9 um dos mais opulentos: possui na Cil\u00edcia mais propriedades do que todos os outros Cil\u00edcios juntos. Ele tem um olho perfurado e pede ao deus que o restaure.\u201d<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Clique na capa do livro e adquira a obra completa:<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/a-vida-de-apolonio-de-tiana\/\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"231\" height=\"328\" src=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/capinha_apolonio.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-678\" srcset=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/capinha_apolonio.jpg 231w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/capinha_apolonio-211x300.jpg 211w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/capinha_apolonio-106x150.jpg 106w\" sizes=\"(max-width: 231px) 100vw, 231px\" \/><\/a><\/figure><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confira, a seguir, o trecho do Livro I da obra &#8220;A Vida de Apol\u00f4nio de Tiana&#8221;, por Fil\u00f3strato. L\u00ea-se nos trabalhos dedicados a Pit\u00e1goras que, antes de se tornar o s\u00e1bio de Samos, ele fora o troiano Euforbo e que havia retornado \u00e0 vida ap\u00f3s a morte, mas morrera como\u2026<\/p>\n<p class=\"continue-reading-button\"> <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2022\/11\/22\/a-vida-de-apolonio-de-tiana\/\">Leia mais<i class=\"crycon-right-dir\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":678,"comment_status":"closed","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[30,5],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/683"}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=683"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/683\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":684,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/683\/revisions\/684"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/678"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=683"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=683"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=683"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}