{"id":744,"date":"2023-05-01T20:03:00","date_gmt":"2023-05-01T20:03:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=744"},"modified":"2024-03-01T20:09:36","modified_gmt":"2024-03-01T20:09:36","slug":"o-colonialismo-torpe-de-malinowski","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2023\/05\/01\/o-colonialismo-torpe-de-malinowski\/","title":{"rendered":"O colonialismo torpe de Malinowski"},"content":{"rendered":"\n<p>Na obra &#8220;As Din\u00e2micas da Mudan\u00e7a Cultural&#8221;, o renomado antrop\u00f3logo Bronislaw Malinowski procura instrumentalizar colonizadores europeus a acelerar e aprofundar seu dom\u00ednio sobre a \u00c1frica. No cap\u00edtulo 5, por\u00e9m, Malinowski alertava: os africanos estavam aprendendo antropologia, e estavam dispostos a usar esta &#8220;arma&#8221; (palavras dele) contra os europeus. <\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/as-dinamicas-da-mudanca-cultural\/\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"231\" height=\"328\" src=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/capinha_malinowski.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-740\" srcset=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/capinha_malinowski.jpg 231w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/capinha_malinowski-211x300.jpg 211w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/capinha_malinowski-106x150.jpg 106w\" sizes=\"(max-width: 231px) 100vw, 231px\" \/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Leia abaixo o conte\u00fado do cap\u00edtulo 5. E, caso deseje, adquira a obra completa clicando na capa do livro. <\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><a>V. Fun\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es Africanas<\/a><\/h3>\n\n\n\n<p>Uma vez que compreendemos a abordagem funcionalista da cultura, percebemos imediatamente que pode parecer f\u00e1cil substituir aqui ou ali uma tradi\u00e7\u00e3o ou transformar um dispositivo t\u00e9cnico; no entanto, uma mudan\u00e7a de detalhes desse tipo pode muitas vezes perturbar uma institui\u00e7\u00e3o sem reform\u00e1-la, pois \u2013 como mostramos \u2013 cren\u00e7as, ideias e pr\u00e1ticas est\u00e3o estreitamente ligadas em sistemas mais amplos. Quando chegamos \u00e0s institui\u00e7\u00f5es integrantes de uma tribo ou de um Estado, as coisas se tornam muito complexas. Isso se deve ao fato de que uma institui\u00e7\u00e3o importante, como a fam\u00edlia ou o l\u00edder, o culto aos ancestrais ou a agricultura, tem ra\u00edzes em todos os aspectos da cultura. Est\u00e1 ligada a tantas realidades culturais, algumas das quais n\u00e3o s\u00e3o facilmente modific\u00e1veis, que apenas uma transforma\u00e7\u00e3o completa de toda a sociedade pode fornecer uma mudan\u00e7a sem problemas, sem adapta\u00e7\u00f5es defeituosas. Assim, uma fam\u00edlia africana, com poliginia, matrilinhagem e compra da esposa, pode ser substitu\u00edda por uma fam\u00edlia crist\u00e3, patriarcal, baseada no direito romano, no C\u00f3digo Napole\u00f4nico ou no direito civil ingl\u00eas. Mas tal mudan\u00e7a s\u00f3 pode ser realizada pela transforma\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea de toda a sociedade e fornecendo os meios necess\u00e1rios para estabelecer um tipo novo e mais elaborado. Uma institui\u00e7\u00e3o pode ser substitu\u00edda por outra que desempenha uma fun\u00e7\u00e3o semelhante. Mas tal mudan\u00e7a \u00e9 dif\u00edcil e deve sempre visar algo melhor no sentido cultural, ou seja, mais adaptado, proporcionando maior liberdade de a\u00e7\u00e3o e maiores oportunidades para aqueles que vivem de acordo com essa institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, permita-me dar um ou dois exemplos. Se a autoridade do l\u00edder apresenta uma for\u00e7a e resist\u00eancia t\u00e3o grandes, \u00e9 porque est\u00e1 associada \u00e0 religi\u00e3o e \u00e0s cren\u00e7as locais na magia, porque os homens da tribo reconhecem o direito consuetudin\u00e1rio como a \u00fanica express\u00e3o justa do bem e do mal. A autoridade do l\u00edder muitas vezes se baseia no sistema ind\u00edgena de parentesco e representa o princ\u00edpio da autoridade familiar de forma estendida e glorificada. Encarna a hist\u00f3ria passada, tudo o que \u00e9 magn\u00edfico. Para erradicar completamente a autoridade do l\u00edder, seria necess\u00e1rio mudar a lei e a religi\u00e3o, remodelar a vida familiar e sufocar todas as mem\u00f3rias do passado. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso; seria indispens\u00e1vel sincronizar todas essas mudan\u00e7as, control\u00e1-las cuidadosamente durante o per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o, estabelecer planos, compreender, aconselhar e, como veremos, especialmente pagar em dinheiro e em seus muitos equivalentes.<\/p>\n\n\n\n<p>O poder real do culto dos ancestrais reside em sua associa\u00e7\u00e3o profunda com a constitui\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia africana. Portanto, muitas vezes sobrevive em seus aspectos sociais e morais, mesmo quando foi superficialmente substitu\u00eddo pelo cristianismo. Em certos momentos, ele se manifesta em caso de cataclismo ou acidente individual na tribo. E muitas vezes \u00e9 ressuscitado como elemento nos novos movimentos separatistas crist\u00e3os. A compra da noiva, ou <em>lobola<\/em>, mostrou-se de grande tenacidade e plasticidade. Ela ressurgiu sob formas novas e com um significado parcialmente modificado, simplesmente porque sua verdadeira natureza n\u00e3o era a compra de uma jovem por um homem, mas o estabelecimento da legitimidade, uma garantia da estabilidade do casamento e uma compensa\u00e7\u00e3o justa pela perda de seu poder reprodutivo sentida pela fam\u00edlia de seus pais. A compra da noiva, por suas consequ\u00eancias duradouras e m\u00faltiplas ao longo da vida conjugal, exerce, portanto, uma profunda influ\u00eancia legal, moral e econ\u00f4mica sobre o casamento e a paternidade, sobre o comportamento entre marido e mulher, pais e filhos, bem como sobre a descend\u00eancia, sucess\u00e3o e heran\u00e7a. As cerim\u00f4nias de inicia\u00e7\u00e3o das meninas t\u00eam em toda parte um certo valor pedag\u00f3gico e atuam como um mecanismo para o desenvolvimento das qualidades dom\u00e9sticas. No entanto, elas exibem grande vitalidade em tribos em que se associam aos s\u00f3lidos princ\u00edpios que regem o comportamento sexual das meninas, como nos Chagga e Kikouyou.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso se relaciona \u00e0s for\u00e7as do conservadorismo inerentes \u00e0s institui\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas. Uma institui\u00e7\u00e3o completa persiste porque \u00e9 organicamente constitu\u00edda e atende a uma necessidade essencial da sociedade. Pode ser suprimida: nesse caso, \u00e9 reduzida \u00e0 clandestinidade. Pode ser truncada, privada de um de seus aspectos ou de uma de suas prerrogativas, mas desaparece apenas com a destrui\u00e7\u00e3o de toda a identidade cultural de um povo. Ou ent\u00e3o, \u00e9 substitu\u00edda por uma institui\u00e7\u00e3o mais apropriada, que desempenha a mesma fun\u00e7\u00e3o, satisfazendo as mesmas necessidades e alinhada, digamos, aos padr\u00f5es da cultura ocidental. No entanto, a aniquila\u00e7\u00e3o de uma autoridade verdadeiramente eficaz, de uma maneira met\u00f3dica de cumprir o dever de procriar, preservar a propriedade e manter a ordem e a lei, produzir alimentos e tudo o que \u00e9 necess\u00e1rio \u00e0 sociedade, levaria \u00e0 anarquia e \u00e0 desorganiza\u00e7\u00e3o total. Na verdade, existem regi\u00f5es destribalizadas da \u00c1frica onde existe um estado que se aproxima disso em alguns aspectos<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 agora, enfatizamos apenas um aspecto do quadro. Tentamos mostrar por que uma realidade cultural indefinidamente ramificada, conectada e entrela\u00e7ada, que chamamos de \u201cinstitui\u00e7\u00e3o\u201d, n\u00e3o pode ser facilmente e progressivamente removida de uma cultura ind\u00edgena. H\u00e1 outro aspecto. Precisamente porque as institui\u00e7\u00f5es fundamentais de cada cultura correspondem a necessidades fundamentais, porque as institui\u00e7\u00f5es mais importantes s\u00e3o universais, \u00e9 evidente que uma mudan\u00e7a cultural \u00e9 poss\u00edvel. A abordagem funcionalista prova que, em certas condi\u00e7\u00f5es, isso poderia ser f\u00e1cil, sem a resist\u00eancia inevit\u00e1vel proveniente bastante estranhamente da comunidade europeia, em vez da comunidade africana. J\u00e1 discutimos uma dificuldade essencial, ou seja, se a mudan\u00e7a \u00e9 poss\u00edvel, para ser satisfat\u00f3ria, permanente e real, ela deve ser total, no sentido de que um equil\u00edbrio \u00e9 novamente restabelecido nas institui\u00e7\u00f5es que constituem juntas a cultura. Mas isso n\u00e3o \u00e9 tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora haja uma rela\u00e7\u00e3o profunda entre as institui\u00e7\u00f5es dos diferentes povos, essas institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o id\u00eanticas. Como qualquer teoria que pretenda fornecer uma base s\u00f3lida para um trabalho comparativo, nossa an\u00e1lise atende a duas condi\u00e7\u00f5es fundamentais: ela fornece uma medida de compara\u00e7\u00e3o e destaca a diversidade das manifesta\u00e7\u00f5es concretas. Na medida em que cada cultura deve resolver o mesmo conjunto de problemas fundamentais, existe um sistema universal de culturas humanas. Na medida em que cada problema cultural pode ser resolvido por um campo de adapta\u00e7\u00f5es concretas, deve haver uma variedade de respostas. Portanto, falamos de um determinismo cultural espec\u00edfico em cada zona etnogr\u00e1fica. Esses dois princ\u00edpios n\u00e3o s\u00e3o contradit\u00f3rios, mas complementares.<\/p>\n\n\n\n<p>Encontramos em todas as culturas: a fam\u00edlia, a autoridade, a lei, a religi\u00e3o, a arte e o entretenimento. Eles t\u00eam a mesma subst\u00e2ncia em todos os climas, em todas as ra\u00e7as e em todos os n\u00edveis de desenvolvimento. Ao mesmo tempo, cada institui\u00e7\u00e3o e cada aspecto de uma cultura individual concreta s\u00e3o adaptados ao ambiente e certamente dependem do est\u00e1gio de mudan\u00e7a alcan\u00e7ado pelo povo. Em torno do n\u00facleo essencial de cada institui\u00e7\u00e3o, ao longo da hist\u00f3ria, desenvolve-se uma forma espec\u00edfica \u00e0 qual o povo se apega naturalmente, n\u00e3o apenas porque lhes \u00e9 pr\u00f3pria do ponto de vista racial, mas porque, em todos os n\u00edveis, afeta o ambiente f\u00edsico familiar, est\u00e1 relacionada ao seu modo de povoamento, aos seus objetivos econ\u00f4micos e aos seus recursos naturais.<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo, o chefe africano \u00e9 um fazedor de chuva, especialmente em regi\u00f5es onde a fertilidade depende da incid\u00eancia favor\u00e1vel de chuva e sol. As lendas e gl\u00f3rias de uma monarquia africana s\u00e3o tang\u00edveis e reais. Os vest\u00edgios locais de monumentos, reais e m\u00edticos, podem ser apontados. Al\u00e9m disso, o chefe africano est\u00e1 presente. Pode ser visto. Seu poder foi sentido por gera\u00e7\u00f5es, em alguns momentos como uma restri\u00e7\u00e3o cruel, em outros como uma garantia ben\u00e9fica de seguran\u00e7a e prote\u00e7\u00e3o. Sua generosidade se estendeu ao pai e ao av\u00f4 e ainda pode ser apreciada e saboreada. Podemos realmente dizer que em uma tribo o chefe ou rei pode ser substitu\u00eddo por aquilo que para os ind\u00edgenas \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o, um soberano, um presidente ou um ditador distante?<\/p>\n\n\n\n<p>A cerim\u00f4nia de coroa\u00e7\u00e3o em Westminster n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o impressionante para aqueles que n\u00e3o podem ver, ouvir, ou mesmo ter um relato fixo, quanto a cerim\u00f4nia africana de entroniza\u00e7\u00e3o de um chefe. As personalidades de M. Lebrun, do rei George e at\u00e9 mesmo de Mussolini carecem de contorno e realidade. Vemos, por esse exemplo, que para substituir efetivamente o \u201cchefe\u201d europeu pelo \u201cchefe\u201d africano, toda a situa\u00e7\u00e3o deveria ser modificada para o africano. Isso n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel \u2013 se o pre\u00e7o for pago. O chefe africano poderia ser transformado em um pr\u00edncipe europeu, talvez at\u00e9 mesmo em um ditador; ou poderia ser garantido que o rei europeu fosse trazido para a \u00c1frica. A segunda alternativa \u00e9 materialmente imposs\u00edvel. O rei George n\u00e3o conseguiria passar nem duas semanas em cada tribo africana. Somente com um esfor\u00e7o imenso ele poderia comparecer ao Durbar Hindu, embora isso seja realmente um exemplo concreto do que significa tal argumento. A primeira abordagem, ou seja, transformar uma monarquia africana em principado europeu, seria poss\u00edvel se estivesse disposto a gastar todo o dinheiro necess\u00e1rio para o equivalente (ou caricatura) de um pequeno principado alem\u00e3o pr\u00e9-guerra na \u00c1frica. Isso obviamente n\u00e3o \u00e9 uma proposta s\u00e9ria. Por outro lado, muitos mission\u00e1rios e educadores pr\u00f3-ind\u00edgenas esperam e trabalham para estabelecer na \u00c1frica uma fam\u00edlia ocidental e crist\u00e3 para substituir a f\u00f3rmula ind\u00edgena. Uma tarefa imposs\u00edvel? De forma alguma. Isso foi realizado esporadicamente e em pequena escala. Mas para realiz\u00e1-lo em todo o continente, seria necess\u00e1rio fornecer cada lar com um apartamento, meios de instru\u00e7\u00e3o e, \u00e9 claro, fornecer a base econ\u00f4mica correspondente ao padr\u00e3o de vida da fam\u00edlia crist\u00e3 mais pobre da Europa.<\/p>\n\n\n\n<p>O que dissemos sobre o chefe e a fam\u00edlia se aplica a cada institui\u00e7\u00e3o, a cada voca\u00e7\u00e3o, a cada profiss\u00e3o. A transi\u00e7\u00e3o do status relativamente simples de um africano para o de um crist\u00e3o civilizado e cidad\u00e3o europeu exige, acima de tudo, riqueza. Pode-se ser tot\u00eamico por algumas migalhas anuais; o pastor Masai pode viver de seu pequeno rebanho de vacas. Mas para ser um bom crist\u00e3o, um homem bem educado, branco ou negro, instru\u00eddo, limpo, respeit\u00e1vel e respons\u00e1vel, pronto para cooperar com qualquer outra pessoa civilizada, \u00e9 preciso ter seguran\u00e7a material, ser um cidad\u00e3o pleno e, \u00e9 claro, ter o controle de sua pr\u00f3pria fam\u00edlia (incluindo a m\u00e3o de obra) e estar livre das in\u00fameras regulamenta\u00e7\u00f5es policiais. Ser civilizado e indigente muitas vezes significa ser revolucion\u00e1rio e inst\u00e1vel. O \u201cPobre Branco\u201d \u00e9 um problema s\u00e9rio em qualquer lugar que esteja. O \u201cPobre Negro\u201d torna-se um problema quando recebe essa semi-civiliza\u00e7\u00e3o que desperta ambi\u00e7\u00f5es, cria demandas, mas n\u00e3o faz nada para satisfaz\u00ea-las.<\/p>\n\n\n\n<p>O sucesso da mudan\u00e7a cultural na \u00c1frica, portanto, exige enormes gastos. Um dos princ\u00edpios mais saud\u00e1veis e importantes da sociologia \u00e9 o fato de que as pessoas est\u00e3o preparadas para passar apenas do pior para o melhor. Apenas essa mudan\u00e7a se realiza sem muita fric\u00e7\u00e3o e com uma relativa rapidez. \u00c9 por isso que as minorias nacionais nos Estados Unidos evolu\u00edram culturalmente com uma surpreendente facilidade, sem muita resist\u00eancia e com uma incr\u00edvel rapidez para um europeu membro de uma minoria. Dezesseis milh\u00f5es de poloneses na Europa permaneceram fi\u00e9is \u00e0 sua cultura, ou seja, \u00e0 sua nacionalidade, durante 150 anos de persegui\u00e7\u00f5es e esfor\u00e7os sobre-humanos por parte dos prussianos para desnacionaliz\u00e1-los. Mais de um quarto desse n\u00famero j\u00e1 foi absorvido sem dificuldade pela na\u00e7\u00e3o americana. Embora haja outras raz\u00f5es, a principal \u00e9 que nos Estados Unidos foram oferecidos a eles benef\u00edcios econ\u00f4micos, pol\u00edticos e sociais substanciais, o que n\u00e3o era o caso sob o dom\u00ednio russo ou prussiano.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto \u00e0 possibilidade de transformar completamente uma tribo africana em uma comunidade negra europeia, seria dif\u00edcil para o antrop\u00f3logo prever at\u00e9 que ponto isso pode ser realizado sem nenhuma diferen\u00e7a residual. Certamente seria \u00fatil equipar essa nova comunidade com todas as necessidades requeridas, principalmente materiais, para a funda\u00e7\u00e3o de uma comunidade europeia; fornecer recursos naturais suficientes em terras e materiais brutos, em capital; e dar-lhe a oportunidade n\u00e3o apenas de receber, mas de produzir os meios t\u00e9cnicos indispens\u00e1veis a uma sociedade ocidental. Dito isso, podemos replicar na \u00c1frica, em maior escala e com melhorias, seja Harlem, seja partes da Jamaica, ou do Sul dos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, oferecemos em todos os campos os benef\u00edcios de nossa cultura aos africanos que vivem nessas terras ou onde um grande n\u00famero de colonos est\u00e1 instalado? Discutiu-se sobre o fato de que a mudan\u00e7a cultural progressiva n\u00e3o pode ter sucesso quando envolve fatores realmente importantes, ou seja, as institui\u00e7\u00f5es. Da\u00ed surge um regime de concess\u00f5es culturais em que o presente \u00e9 muito seletivo, levantando um problema totalmente diferente da situa\u00e7\u00e3o em que o africano teria apenas que pegar o que deseja de nossa civiliza\u00e7\u00e3o ocidental. A nenhum dos povos africanos sob nosso controle damos os seguintes elementos de nossa cultura:<\/p>\n\n\n\n<p>1. Os elementos do poder material: armas de fogo, avi\u00f5es bombardeiros, gases t\u00f3xicos e tudo o que torna a defesa eficaz ou a agress\u00e3o poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>2. Nossos meios de domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. A soberania permanece nas m\u00e3os da realeza inglesa ou belga, da Rep\u00fablica francesa ou da ditadura italiana ou portuguesa. Com exce\u00e7\u00e3o de uma minoria insignificante, os ind\u00edgenas n\u00e3o t\u00eam o direito de voto. Eles n\u00e3o s\u00e3o cidad\u00e3os plenos do imp\u00e9rio, da rep\u00fablica ou da ditadura. Mesmo quando \u00e9 concedida a eles a Administra\u00e7\u00e3o indireta, \u00e9 sob controle.<\/p>\n\n\n\n<p>3. N\u00e3o compartilhamos com eles a subst\u00e2ncia da riqueza ou das vantagens econ\u00f4micas, na maioria dos territ\u00f3rios. O metal proveniente das minas de ouro ou cobre n\u00e3o flui atrav\u00e9s das vias africanas, exceto como um sal\u00e1rio insuficiente. Mesmo quando, sob o regime de explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica indireta, como na \u00c1frica Ocidental e em Uganda, concedemos aos africanos uma parte dos lucros, o controle total da organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica permanece nas m\u00e3os da empresa ocidental.<\/p>\n\n\n\n<p>4. Geralmente, n\u00e3o os reconhecemos como nossos iguais, seja na Igreja Anglicana, nas escolas ou nos sal\u00f5es. Em alguns sistemas coloniais, principalmente o sistema franc\u00eas, os africanos podem ascender na hierarquia pol\u00edtica. Na \u00c1frica Ocidental Inglesa, a discrimina\u00e7\u00e3o racial \u00e9 menos aguda do que na \u00c1frica Oriental ou na \u00c1frica do Sul, mas em nenhum lugar \u00e9 concedida a plena igualdade pol\u00edtica, social e at\u00e9 religiosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, a partir de todos os pontos aqui enumerados, pode-se ver facilmente que n\u00e3o se trata de \u201cdar\u201d, nem mesmo de uma \u201coferta\u201d generosa, mas geralmente de \u201ctomar\u201d. As terras foram alienadas em grande medida, geralmente nas regi\u00f5es mais produtivas, pelos africanos da Uni\u00e3o Sul-Africana, Basutol\u00e2ndia, Suazil\u00e2ndia e Qu\u00eania. A soberania tribal e o prazer da guerra, que o africano valorizava como parecemos valorizar, foram retirados dele. Ele paga impostos, mas a disposi\u00e7\u00e3o dos fundos assim arrecadados nem sempre est\u00e1 sob seu controle, e nunca completamente estar\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que, em oposi\u00e7\u00e3o a isso, podemos estabelecer uma longa lista de tudo o que os europeus fizeram pelo africano com boa vontade, abnega\u00e7\u00e3o e desinteresse. Os europeus forneceram escolas, servi\u00e7os de sa\u00fade e tamb\u00e9m tentaram evangelizar os ind\u00edgenas. De certa forma, eles proporcionaram ao africano uma administra\u00e7\u00e3o mais eficaz; estradas, ferrovias e rotas a\u00e9reas cortam o continente.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 certo ponto, o africano \u00e9 autorizado a usufruir de alguns desses benef\u00edcios de uma civiliza\u00e7\u00e3o muito mais desenvolvida. Mas, ao distribuir o valor das coisas dadas em compara\u00e7\u00e3o com aquelas que foram retiradas, n\u00e3o devemos esquecer que, quando se trata de dons espirituais, \u00e9 f\u00e1cil dar, mas mais dif\u00edcil aceitar. Os benef\u00edcios materiais, por sua vez, s\u00e3o facilmente aceitos, mas s\u00e3o abandonados com relut\u00e2ncia. No entanto, \u00e9 precisamente dos dons espirituais que somos mais generosos, enquanto recusamos a riqueza, o poder, a independ\u00eancia e a igualdade social. Mesmo no campo dos dons espirituais, somos mais generosos com a sombra do que com a subst\u00e2ncia. Por exemplo, o Banto da \u00c1frica do Sul \u00e9 instru\u00eddo apenas na medida em que isso conv\u00e9m \u00e0 comunidade europeia; quando permitido a progredir na educa\u00e7\u00e3o, muitas vezes \u00e9 instru\u00eddo para um estilo de vida que n\u00e3o lhe \u00e9 permitido levar adiante<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Tamb\u00e9m aconselhamos de acordo com a f\u00f3rmula de nossa religi\u00e3o. O puritanismo exacerbado da religi\u00e3o proposta ao ind\u00edgena pode aprision\u00e1-lo na hipocrisia e priv\u00e1-lo dos prazeres tradicionais da vida tribal. O crist\u00e3o prega a fraternidade de todos os homens como sendo filhos de Deus. No entanto, a tradi\u00e7\u00e3o europeia faz com que os crist\u00e3os de cor sejam separados dos crist\u00e3os brancos na igreja e na f\u00e1brica, nos campos esportivos ou nas ruas de Joanesburgo e Nair\u00f3bi, por uma barreira intranspon\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>O leitor superficial pode cometer o erro de considerar esse racioc\u00ednio como um excesso pr\u00f3-ind\u00edgena. N\u00e3o \u00e9 o caso. Isso \u00e9 apenas a afirma\u00e7\u00e3o de um dos fatores mais cientificamente relevantes da mudan\u00e7a cultural, conforme ocorre em algumas partes da \u00c1frica. Ignorar o fato de que h\u00e1 um presente seletivo por parte dos europeus \u00e9 distorcer a evid\u00eancia e \u00e9 um pecado contra a ci\u00eancia. O presente seletivo influencia o processo de mudan\u00e7a talvez mais do que qualquer outro elemento da situa\u00e7\u00e3o. A recusa seletiva por parte dos europeus \u00e9 ao mesmo tempo significativa e bem determinada. Isso realmente retira do contato cultural todos os elementos \u2013 econ\u00f4micos, pol\u00edticos e legais \u2013 que constituem os benef\u00edcios da cultura superior. Se o poder, a riqueza e os prazeres da vida social fossem concedidos, a mudan\u00e7a cultural seria um processo relativamente f\u00e1cil e sem atritos. \u00c9 a aus\u00eancia desses fatores \u2013 nossos presentes seletivos \u2013 que torna a mudan\u00e7a cultural um processo t\u00e3o complicado e dif\u00edcil. As for\u00e7as reais necess\u00e1rias para uma assimila\u00e7\u00e3o efetiva devem ser encontradas nos benef\u00edcios que oferecemos \u00e0 cultura que os aceita. Se ensinarmos os africanos, fornecendo-lhes conhecimentos te\u00f3ricos, elevamos o n\u00edvel de suas aspira\u00e7\u00f5es e eles aprendem a apreciar nossa maior for\u00e7a pol\u00edtica, o valor das riquezas materiais, a import\u00e2ncia dos privil\u00e9gios e da posi\u00e7\u00e3o social. Se ao mesmo tempo abrirmos horizontes mais amplos para eles, tanto intelectual quanto emocionalmente, fechamos violentamente as portas para qualquer vantagem que da\u00ed decorra, como tem sido frequentemente feito na \u00c1frica do Sul, resultando manifestamente em efeitos desastrosos na moral individual e nas possibilidades de adapta\u00e7\u00e3o cultural.<\/p>\n\n\n\n<p>Tivemos que abandonar o conceito mec\u00e2nico da mistura de elementos culturais. Tamb\u00e9m percebemos o qu\u00e3o irreal \u00e9 a ideia de negros e brancos formando um todo bem integrado numa situa\u00e7\u00e3o em que a barreira racial vai exatamente contra o determinismo no processo do presente cultural. Em todas as fases e detalhes da mudan\u00e7a cultural, a barreira racial deve ser inscrita no plano metodol\u00f3gico, n\u00e3o como uma acusa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mas como a avalia\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de uma for\u00e7a importante, talvez a mais importante de todas.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, quanto mais cedo falarmos livremente e abertamente sobre isso, com total desapego cient\u00edfico, melhor ser\u00e1; pois os africanos educados est\u00e3o rapidamente percebendo a situa\u00e7\u00e3o e a exageram. O africano est\u00e1 se tornando um antrop\u00f3logo que volta nossas pr\u00f3prias armas contra n\u00f3s. Ele est\u00e1 estudando os objetivos, as pretens\u00f5es dos europeus e todas as injusti\u00e7as reais ou imagin\u00e1rias. Esta antropologia \u00e9, sem d\u00favida, truncada e mal orientada, cheia de contra-preconceitos e carregada de uma amarga hostilidade. Muitas vezes \u00e9 cega em sua intransig\u00eancia e impetuosa em sua acusa\u00e7\u00e3o global. Mas n\u00e3o pode ser ignorada pelo estudioso; e seria melhor que o homem pr\u00e1tico n\u00e3o a tratasse como uma piada ou como um fen\u00f4meno insignificante e menor. Pois, no geral, ela cont\u00e9m uma grande parte da verdade e antecipa o surgimento de uma opini\u00e3o p\u00fablica, de um sentimento nacional e racial que, mais cedo ou mais tarde, ter\u00e1 que ser levado em considera\u00e7\u00e3o pelos agentes do contato no plano pr\u00e1tico<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>O africano inteligente percebe rapidamente que a maioria das promessas contidas na instru\u00e7\u00e3o europeia, no ensino dos mission\u00e1rios e at\u00e9 na boa vontade dos servi\u00e7os administrativos s\u00e3o imposs\u00edveis de serem cumpridas. Ele come\u00e7a a ver que, apesar das melhores inten\u00e7\u00f5es, o europeu amig\u00e1vel n\u00e3o est\u00e1 sozinho. Todos os colonos brancos, gerentes de empresas europeias e todos aqueles que t\u00eam interesses de algum tipo na \u00c1frica, devem zelar pela parte do duplo mandato que lhes diz respeito. O africano percebe que \u00e9 for\u00e7ado a recorrer a seus pr\u00f3prios recursos. Um novo conservadorismo est\u00e1 nascendo como um ressalto. Muitos africanos proeminentes est\u00e3o mudando de posi\u00e7\u00e3o e considerando o tribalismo, n\u00e3o como um objeto de desprezo, mas como o s\u00edmbolo de sua heran\u00e7a racial, de suas esperan\u00e7as nacionalistas e de uma futura independ\u00eancia cultural.<\/p>\n\n\n\n<p>O fato de a moral sexual diminuir sob a influ\u00eancia da instru\u00e7\u00e3o, do cristianismo e do contato pr\u00f3ximo com a vida europeia; de que o casamento e a fam\u00edlia se desintegram; de que a autoridade parental, assim como o respeito pela lei e pelo costume, declinam \u2013 tudo isso \u00e9 motivo de preocupa\u00e7\u00e3o tanto para os europeus simpatizantes quanto para os nativos instru\u00eddos. As formas do novo \u201cindividualismo africano\u201d s\u00e3o todos, sem exce\u00e7\u00e3o, fen\u00f4menos negativos ou patol\u00f3gicos, devido em parte ao fato de que a transi\u00e7\u00e3o significa a dualidade do controle e que uma dupla moral dificilmente \u00e9 uma verdadeira moral. A desintegra\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia e da solidariedade familiar n\u00e3o \u00e9 devida \u00e0 influ\u00eancia do individualismo da cultura europeia contra o \u201ccomunismo\u201d africano; \u00e9 uma fase que ocorre em todas as sociedades sob a press\u00e3o da mis\u00e9ria econ\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, o africano encontra-se em transi\u00e7\u00e3o em uma \u201cterra de ningu\u00e9m\u201d onde sua antiga estabilidade tribal, sua seguran\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o aos recursos econ\u00f4micos garantidos pelo antigo regime por meio da solidariedade familiar, desapareceram. A nova cultura que o instigou a renunciar ao tribalismo prometeu elev\u00e1-lo, por meio da instru\u00e7\u00e3o, a um n\u00edvel de vida digno de um homem educado. No entanto, n\u00e3o lhe proporcionou equivalentes apropriados e satisfat\u00f3rios. Foi incapaz de conceder-lhe a cidadania desfrutada pelo ocidental educado; socialmente, excluiu-o de quase todos os aspectos da rotina ordin\u00e1ria da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>O antigo tribalismo, tal como existia antes da chegada dos europeus, est\u00e1 morto e enterrado. Como tal, n\u00e3o \u00e9 relevante nem para a mudan\u00e7a cultural e sua compreens\u00e3o, nem para a organiza\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m observamos que o novo \u201cmil\u00eanio\u201d africano, aquele em que o negro desfrutar\u00e1 plenamente dos benef\u00edcios espirituais e materiais da cultura ocidental, ainda n\u00e3o foi realizado. Provavelmente, n\u00e3o ser\u00e1 alcan\u00e7ado por algum tempo. No entanto, \u00e9 dever do antrop\u00f3logo mostrar que, se o antigo tribalismo desapareceu, o novo tribalismo, conforme sobrevive atualmente, \u00e9 um fen\u00f4meno muito v\u00e1lido para a felicidade do ind\u00edgena como indiv\u00edduo e para o bem-estar da comunidade. Se forem fornecidas as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para o seu desenvolvimento, esse novo tribalismo carrega consigo as sementes de um futuro Estado africano muito robusto. Mas, se, nas melhores inten\u00e7\u00f5es, continuarmos a destruir o que resta, enfrentaremos o surgimento e o crescimento de novas for\u00e7as nacionalistas e raciais que podem ser, a longo prazo, hostis, incontrol\u00e1veis e perigosas<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Os v\u00e1rios movimentos surgidos at\u00e9 hoje falharam, em grande parte porque os ind\u00edgenas ainda n\u00e3o estavam maduros para uma a\u00e7\u00e3o nacional, bem organizada e coletiva. No entanto, com o tempo, se uma pot\u00eancia europeia se encontrasse politicamente em dificuldades, criando assim um terreno f\u00e9rtil para a uni\u00e3o de todos os ind\u00edgenas, desde a regi\u00e3o dos Lagos at\u00e9 o Cabo, tal corpo poderia se tornar um fator adequado. Uma das tarefas do antrop\u00f3logo deveria ser, n\u00e3o agir como um espi\u00e3o e muito menos como <em>un agent provocateur<\/em>, mas estudar as for\u00e7as crescentes do nacionalismo banto; insistir, como fazem todos aqueles que sabem e preveem, que a melhoria das condi\u00e7\u00f5es sociais e, especialmente, das condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, \u00e9 o \u00fanico meio de superar as dificuldades; e que n\u00e3o h\u00e1 pre\u00e7o muito alto a pagar para evitar um desastre inevit\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>A moral de tudo isso \u00e9 que os problemas do estudo da mudan\u00e7a, da difus\u00e3o da cultura, da aceita\u00e7\u00e3o de nossos valores, leis e maneiras est\u00e3o ligados \u00e0 an\u00e1lise da situa\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea com os motivos, inten\u00e7\u00f5es e meios de a\u00e7\u00e3o da comunidade europeia. O problema mais importante da mudan\u00e7a cultural pode ser formulado assim: os ind\u00edgenas est\u00e3o evoluindo e se dirigindo para&#8230;? A defini\u00e7\u00e3o dessas \u201cretic\u00eancias\u201d ou desse \u201cX\u201d \u00e9 o elemento essencial do problema. Podemos garantir \u00e0 comunidade ind\u00edgena e a n\u00f3s mesmos a honestidade de nossas inten\u00e7\u00f5es: que os africanos receber\u00e3o, cedo ou tarde, uma parte significativa dos recursos econ\u00f4micos de seus territ\u00f3rios e ser\u00e3o educados para desempenhar um papel preponderante na organiza\u00e7\u00e3o e desenvolvimento desses recursos? Podemos garantir que eles ser\u00e3o os mestres de seu pa\u00eds e que suas convic\u00e7\u00f5es religiosas lhes assegurar\u00e3o a plena dignidade de homens civilizados e crist\u00e3os, conforme essa religi\u00e3o implica? Se a resposta for afirmativa, ent\u00e3o, e somente ent\u00e3o, poderemos honestamente impor nossa cultura a eles com seu lado t\u00e9cnico, com seus debates legais, pol\u00edticos e religiosos. Caso contr\u00e1rio, ser\u00e1 mais s\u00e1bio permitir-lhes uma grande latitude na autodetermina\u00e7\u00e3o, de acordo com suas informa\u00e7\u00f5es culturais historicamente estabelecidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Retornando \u00e0 base te\u00f3rica desta discuss\u00e3o sobre os problemas pr\u00e1ticos do contato cultural, podemos concluir que:<\/p>\n\n\n\n<p>1. A abordagem funcionalista \u00e9 apropriada porque n\u00e3o exclui pontos de vista hist\u00f3ricos ou retrospectivos. No entanto, ela tamb\u00e9m incorpora no plano o <em>terminus ad quem<\/em>, considera\u00e7\u00f5es futuras em suas aspira\u00e7\u00f5es, pol\u00edtica e resultado prov\u00e1vel. Introduz a hist\u00f3ria viva, ou seja, a sobreviv\u00eancia do passado no mito, no sentimento retrospectivo e nas institui\u00e7\u00f5es existentes. A mudan\u00e7a, por mais revolucion\u00e1ria que seja, n\u00e3o apaga completamente o passado; ela o transforma parcialmente ou o esconde sob fen\u00f4menos superficiais. As institui\u00e7\u00f5es fundamentais da cultura persistem, embora a forma pela qual desempenham certas fun\u00e7\u00f5es possa ser transformada pelo impacto do contato europeu.<\/p>\n\n\n\n<p>2. A abordagem funcionalista exige um estudo abrangente, ou seja, um estudo dos novos elementos, na medida em que eles se enraizaram e precisamente na forma como o fizeram. No entanto, devido ao fato de que os princ\u00edpios de integra\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o simples e se dividem, pelo pr\u00f3prio fato da mudan\u00e7a, em tr\u00eas t\u00edtulos principais, o <em>Problemstellung<\/em> n\u00e3o deve ser falsamente simplificado.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada t\u00f3pico da mudan\u00e7a cultural se enquadra em uma divis\u00e3o tripartida:<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;a) Interesses europeus.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;b) Processo de contato, mistura, implanta\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;c) Reservat\u00f3rio da cultura ind\u00edgena \u2013 sua influ\u00eancia ativa, conservadora.<\/p>\n\n\n\n<p>3. A abordagem funcionalista fornece crit\u00e9rios para adapta\u00e7\u00e3o defeituosa, n\u00e3o do ponto de vista moral, sentimental ou normativo arbitr\u00e1rio, mas por meio de um instrumento. Uma an\u00e1lise funcional revela que a cultura \u00e9 um vasto aparato para a satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades. Cada institui\u00e7\u00e3o, integrada segundo um princ\u00edpio espec\u00edfico, tem um determinado sistema de necessidades a satisfazer: a fam\u00edlia, n\u00e3o apenas a reprodu\u00e7\u00e3o e a sexualidade, mas tamb\u00e9m a instru\u00e7\u00e3o, a cidadania e as bases de coes\u00e3o social; a economia \u2013 um aporte saud\u00e1vel de valores nutritivos e tamb\u00e9m uma certa autonomia de todas as necessidades b\u00e1sicas da cultura tribal. A vida econ\u00f4mica deve estar ligada \u00e0s contribui\u00e7\u00f5es adequadas do ambiente e a um n\u00famero de valores sociais e morais. A incorpora\u00e7\u00e3o do africano na economia global como um trabalhador assalariado, com todas as implica\u00e7\u00f5es decorrentes da priva\u00e7\u00e3o de sua autonomia econ\u00f4mica, \u00e9 um dos grandes problemas da mudan\u00e7a cultural. Em outras palavras, ao introduzir os benef\u00edcios culturais, mesmo a educa\u00e7\u00e3o, os produtos europeus e a conveni\u00eancia, o europeu n\u00e3o apenas d\u00e1, mas tamb\u00e9m recebe; e determinar at\u00e9 que ponto o presente substitui exatamente o processo retr\u00f3grado \u00e9 um problema constante da mudan\u00e7a cultural, um problema em que todos os elementos podem ainda ser cientificamente determinados. Neste contexto, o funcionalista sugeriria claramente (e sugeriu de fato) considerar uma por uma certas atividades fundamentais da cultura ao satisfazer certas necessidades biol\u00f3gicas e sociais. A dificuldade da transforma\u00e7\u00e3o cultural que se insere t\u00e3o claramente em toda a \u00c1frica \u00e9 provocada por duas realidades: primeiro, a complexidade e as enormes ramifica\u00e7\u00f5es de todos os sistemas organizados, ou seja, das institui\u00e7\u00f5es. Em segundo lugar, o fato de que as institui\u00e7\u00f5es que se desenvolveram ao longo de uma mudan\u00e7a hist\u00f3rica<em> in situ<\/em> mostram certas adapta\u00e7\u00f5es ao ambiente, a certas necessidades locais espec\u00edficas, ao n\u00edvel cultural e n\u00e3o podem ser substitu\u00eddas nem progressiva nem aleatoriamente. Em resumo, como tentamos demonstrar, o conservadorismo ou \u201cconservadorismo seletivo\u201d n\u00e3o \u00e9 uma esp\u00e9cie de teimosia obstinada. N\u00e3o \u00e9 devido a defici\u00eancias raciais. \u00c9 o resultado inevit\u00e1vel das leis naturais do processo cultural. Nossa demonstra\u00e7\u00e3o n\u00e3o implica de forma alguma que a transforma\u00e7\u00e3o seja imposs\u00edvel. Pelo contr\u00e1rio, embora seja dif\u00edcil, \u00e9 poss\u00edvel empreender uma mudan\u00e7a. Mas para que a mudan\u00e7a seja eficaz e leve \u00e0 estabilidade, antes de tudo, ela deve ser amplamente financiada, no sentido literal da palavra; e, em seguida, ela deve ser altamente tecnicizada, ou seja, estabelecida com base em um conhecimento s\u00f3lido dos objetivos da transforma\u00e7\u00e3o (o ponto de partida) e das implica\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Por exemplo, na popula\u00e7\u00e3o flutuante do Cintur\u00e3o de Cobre e no proletariado negro mais carente das comunas e reservas ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Desde que este texto foi escrito, foi publicado um relat\u00f3rio preparado pelo Subcomit\u00ea do Comit\u00ea Consultivo sobre Educa\u00e7\u00e3o nas Col\u00f4nias (1943), contendo conselhos sobre a educa\u00e7\u00e3o em massa na \u00c1frica. O relat\u00f3rio recomendava a acelera\u00e7\u00e3o do progresso educacional e o desenvolvimento de novas t\u00e9cnicas para problemas educacionais em determinadas localidades. Foi nomeada uma Comiss\u00e3o de Investiga\u00e7\u00e3o sobre o Ensino Superior na \u00c1frica Ocidental. Esse movimento de reforma deve ser levado em conta ao ler sobre educa\u00e7\u00e3o no pr\u00f3ximo cap\u00edtulo.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> A literatura produzida por africanos instru\u00eddos, alguns dos quais expressam suas ideias com modera\u00e7\u00e3o e grande perspic\u00e1cia, constitui um conjunto de evid\u00eancias sobre as quais um antrop\u00f3logo branco, mais cedo ou mais tarde, ter\u00e1 de realizar um estudo cient\u00edfico. Aqueles que desejam obter uma vis\u00e3o da opini\u00e3o africana devem ler o livro Ten Africans, de Margery PERHAM.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> J\u00e1 discuti essas possibilidades em um artigo anterior: \u201cRace and Labour\u201d, The Listener, Suppl. No. 8 (1930). Veja tamb\u00e9m HUNTER, Reaction to Conquest, pp. 554 e seguintes, sobre movimentos semelhantes entre os Pondo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na obra &#8220;As Din\u00e2micas da Mudan\u00e7a Cultural&#8221;, o renomado antrop\u00f3logo Bronislaw Malinowski procura instrumentalizar colonizadores europeus a acelerar e aprofundar seu dom\u00ednio sobre a \u00c1frica. No cap\u00edtulo 5, por\u00e9m, Malinowski alertava: os africanos estavam aprendendo antropologia, e estavam dispostos a usar esta &#8220;arma&#8221; (palavras dele) contra os europeus. Leia abaixo\u2026<\/p>\n<p class=\"continue-reading-button\"> <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2023\/05\/01\/o-colonialismo-torpe-de-malinowski\/\">Leia mais<i class=\"crycon-right-dir\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":741,"comment_status":"closed","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5,34],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/744"}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=744"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/744\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":745,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/744\/revisions\/745"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/741"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=744"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=744"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=744"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}