{"id":76,"date":"2017-10-23T23:47:29","date_gmt":"2017-10-23T23:47:29","guid":{"rendered":"http:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=76"},"modified":"2017-10-23T23:47:29","modified_gmt":"2017-10-23T23:47:29","slug":"capitulo-1-de-psychopathia-sexualis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2017\/10\/23\/capitulo-1-de-psychopathia-sexualis\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 1 de &#8220;Psychopathia Sexualis&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Caso voc\u00ea prefira baixar o cap\u00edtulo em PDF, <a href=\"http:\/\/www.antoniofontoura.com.br\/pdf\/psychopathia sexualis richard von krafft ebing.pdf\">clique aqui<\/a>.<\/p>\n<p>Caso queira adquirir o livro, <a href=\"http:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/psychopathia-sexualis\/\">clique aqui<\/a>.<\/p>\n<hr \/>\n<h2>1. Um fragmento de uma psicologia da vida sexual<\/h2>\n<p>A propaga\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie humana n\u00e3o depende da sorte ou do capricho do indiv\u00edduo, pois \u00e9 assegurada por um instinto natural que, com toda sua for\u00e7a conquistadora, exige satisfa\u00e7\u00e3o. Na gratifica\u00e7\u00e3o deste impulso natural n\u00e3o se encontram apenas o prazer sensual e as fontes de bem-estar f\u00edsico mas, tamb\u00e9m, sentimentos mais elevados de satisfa\u00e7\u00e3o na perpetua\u00e7\u00e3o de nossa exist\u00eancia \u00fanica e perec\u00edvel, pela transmiss\u00e3o de atributos mentais e f\u00edsicos a um novo ser. No amor grosseiro e sensual, no impulso lascivo para satisfazer este instinto natural, o homem est\u00e1 ao n\u00edvel do animal; mas, para o ser humano, \u00e9 poss\u00edvel elevar-se a uma altura em que este instinto j\u00e1 n\u00e3o o torna um escravo: despertam sentimentos mais elevados e nobres que, apesar de sua origem sensual, expandem-se para um mundo de beleza, sublimidade e moralidade.<\/p>\n<p>Elevado dessa forma, o homem supera seu instinto natural, e desta fonte inesgot\u00e1vel, extrai material e inspira\u00e7\u00e3o para prazeres mais nobres, para trabalhos mais honrados, e para a realiza\u00e7\u00e3o de seus ideais. Maudsley (Deutsche Klinik, 1873, 2, 3) define, corretamente, o sentimento sexual como a base para o desenvolvimento do sentimento social. \u201cSe o homem fosse roubado do instinto da procria\u00e7\u00e3o e de tudo o que dele decorre mentalmente, quase toda a poesia e, talvez, tamb\u00e9m todo o sentido moral, seriam arrancados de sua vida\u201d.<\/p>\n<p>A sexualidade \u00e9 o mais poderoso fator na exist\u00eancia individual e social; o incentivo mais forte que impulsiona a aquisi\u00e7\u00e3o de bens materiais, a funda\u00e7\u00e3o de um lar, e o despertar de sentimentos altru\u00edstas; inicialmente s\u00e3o dirigidos a uma pessoa do sexo oposto, a seguir para a prole e, enfim, em um sentido mais amplo, a toda a humanidade.<\/p>\n<p>Assim, toda \u00e9tica e, talvez, boa parte da est\u00e9tica e da religi\u00e3o, dependem da exist\u00eancia do sentimento sexual.<\/p>\n<p>Embora a vida sexual conduza \u00e0s virtudes mais elevadas, at\u00e9 ao sacrif\u00edcio do pr\u00f3prio ego, em sua for\u00e7a sensual reside, por\u00e9m, o perigo da degenera\u00e7\u00e3o em poderosas paix\u00f5es e o desenvolvimento dos mais grosseiros v\u00edcios.<\/p>\n<p>O amor como uma paix\u00e3o desenfreada \u00e9 como um fogo que queima e consome tudo; como um abismo que engole tudo \u2013 honra, fortuna, bem-estar.<\/p>\n<p>Desta maneira, supomos ser de elevado interesse psicol\u00f3gico tra\u00e7ar as fases de desenvolvimento por meio das quais, no curso da evolu\u00e7\u00e3o da cultura humana para a moralidade e civiliza\u00e7\u00e3o atuais, a vida sexual se construiu . Em terras primitivas, a satisfa\u00e7\u00e3o do apetite sexual do homem se assemelha a do animal. A liberdade do ato sexual n\u00e3o \u00e9 controlada; homem e mulher n\u00e3o t\u00eam vergonha da nudez. Vemos ainda hoje selvagens nessa condi\u00e7\u00e3o (cf. Ploss, \u201cDas Weib\u201d, p. 196, 1884); como, por exemplo, os australianos, os polin\u00e9sios e os malaios das Filipinas. A f\u00eamea \u00e9 propriedade comum dos machos, o butim tempor\u00e1rio dos mais fortes, que se esfor\u00e7am para a posse do mais belo exemplar do sexo oposto, realizando instintivamente uma esp\u00e9cie de sele\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>A mulher \u00e9 algo m\u00f3vel, uma mercadoria, um objeto de barganha, de compras, e presentes; uma coisa utilizada para satisfazer a lux\u00faria, e para trabalhar.<\/p>\n<p>O aparecimento de um sentimento de vergonha perante os outros na manifesta\u00e7\u00e3o e satisfa\u00e7\u00e3o do instinto natural, bem como o pudor nas rela\u00e7\u00f5es entre os sexos, constituem o in\u00edcio da moralidade na vida sexual. Da\u00ed surgiu o esfor\u00e7o de esconder os \u00f3rg\u00e3os genitais (\u201cE viram que estavam nus\u201d) e a realiza\u00e7\u00e3o secreta do ato sexual.<\/p>\n<p>O desenvolvimento deste grau de cultura \u00e9 favorecido pelos rigores do clima e pela necessidade de uma consequente prote\u00e7\u00e3o completa do corpo. Assim, em parte, explica-se o fato de que, como pode ser provado antropologicamente, entre as ra\u00e7as do norte o pudor surgiu mais cedo do que entre as ra\u00e7as do sul.<\/p>\n<p>Uma nova etapa no desenvolvimento da cultura \u00e9 marcada quando a f\u00eamea deixa de ser uma coisa m\u00f3vel. Ela se torna uma pessoa; e se, ainda, por muito tempo, tenha sido mantida socialmente muito abaixo do homem, desenvolve-se, contudo, a ideia de que possui o direito de disposi\u00e7\u00e3o de si mesma, e seus favores pertencem apenas a ela.<\/p>\n<p>Assim, ela se torna o objeto de cortejo do homem. O sentimento sensual b\u00e1rbaro do desejo sexual \u00e9 superado pelos princ\u00edpios de um sentimento \u00e9tico. O instinto \u00e9 intelectualizado. A propriedade de mulheres deixa de existir. Indiv\u00edduos dos sexos opostos sentem-se atra\u00eddos um pelo outro por qualidades mentais e f\u00edsicas, e demonstram o amor apenas um pelo outro. Nesta fase, a mulher tem a sensa\u00e7\u00e3o de que seus encantos pertencem apenas ao homem de sua escolha, e deseja escond\u00ea-los dos outros. Assim, ao lado do pudor, os fundamentos da castidade e da fidelidade \u2013 enquanto durar o v\u00ednculo do amor \u2013 s\u00e3o estabelecidos.<\/p>\n<p>A mulher atinge esse grau de eleva\u00e7\u00e3o social quando, na transi\u00e7\u00e3o da vida n\u00f4made para um estado de habita\u00e7\u00e3o fixa, o homem obt\u00e9m uma casa e um lar, e surge a necessidade de possuir na mulher uma companheira para a vida dom\u00e9stica, uma dona de casa.<\/p>\n<p>Entre as na\u00e7\u00f5es do Oriente, os eg\u00edpcios, israelitas e gregos, e entre os ocidentais, os alem\u00e3es, alcan\u00e7aram cedo esta fase da cultura. Entre todas estas ra\u00e7as, neste est\u00e1gio de desenvolvimento, a preocupa\u00e7\u00e3o com a preserva\u00e7\u00e3o da virgindade, da castidade, do pudor e da fidelidade sexual, contrasta com outras na\u00e7\u00f5es, que oferecem a f\u00eamea da casa ao h\u00f3spede para seu prazer sexual .<\/p>\n<p>O fato de que esta fase da cultura da moralidade sexual \u00e9 bastante elevada, e surge mais tarde do que outras formas de desenvolvimento da cultura \u2013 como, por exemplo, a est\u00e9tica \u2013, fica demonstrado pelo exemplo dos japoneses; entre eles, costuma-se casar com uma mulher s\u00f3 depois dela ter vivido um ano nas casas de ch\u00e1 (que correspondem \u00e0s casas europeias de prostitui\u00e7\u00e3o), e para quem a nudez feminina n\u00e3o \u00e9 nada chocante. Em todo caso, entre os japoneses, toda mulher solteira pode se prostituir, sem que isso diminua em nada suas perspectivas futuras \u2013 prova de que, neste povo not\u00e1vel, a mulher n\u00e3o possui qualquer valor \u00e9tico, e \u00e9 valorizada no casamento apenas como um meio de obten\u00e7\u00e3o de prazer, procria\u00e7\u00e3o e for\u00e7a de trabalho.<\/p>\n<p>O cristianismo forneceu o mais poderoso impulso para a eleva\u00e7\u00e3o moral das rela\u00e7\u00f5es sexuais ao estabelecer a igualdade social entre a mulher e o homem, e ao elevar o v\u00ednculo do amor a uma institui\u00e7\u00e3o religiosa e moral .<\/p>\n<p>Torna-se reconhecido o fato de que, em uma civiliza\u00e7\u00e3o superior, o amor humano deve ser monog\u00e2mico e repousar sobre um contrato duradouro. Se a natureza n\u00e3o faz mais do que prover a procria\u00e7\u00e3o, uma comunidade (fam\u00edlia ou estado) n\u00e3o pode existir sem a garantia de que a prole se desenvolva f\u00edsica, moral e intelectualmente. A Cristandade adquiriu essa superioridade mental e material sobre as ra\u00e7as pol\u00edgamas, especialmente o Isl\u00e3, por meio da constru\u00e7\u00e3o de uma igualdade entre a mulher e o homem, e por estabelecer o casamento monog\u00e2mico, garantido por la\u00e7os legais, religiosos, e morais. Ainda que Maom\u00e9 desejasse elevar a mulher de seu lugar de escrava e meio de gratifica\u00e7\u00e3o sensual, para um plano social e matrimonial mais elevado, no mundo maometano a mulher permaneceu muito abaixo do homem, que possui o exclusivo direito \u2013 muito f\u00e1cil de ser obtido \u2013 do div\u00f3rcio.<\/p>\n<p>O Isl\u00e3 mantinha a mulher distante de qualquer participa\u00e7\u00e3o na vida p\u00fablica em todas as circunst\u00e2ncias, o que impediu seu desenvolvimento intelectual e moral. Como consequ\u00eancia, a mulher mu\u00e7ulmana sempre permaneceu como um meio de gratifica\u00e7\u00e3o sensual e de procria\u00e7\u00e3o; por outro lado, as virtudes e capacidades da mulher crist\u00e3 como dona de casa, educadora de crian\u00e7as e companheira igual do homem, foram permitidas para que se revelassem em toda sua beleza. O islamismo, com sua poligamia e sua vida de har\u00e9ns, contrasta vivamente com a monogamia da vida familiar do mundo crist\u00e3o.<\/p>\n<p>O mesmo contraste se revela quando comparamos a concep\u00e7\u00e3o que ambas as religi\u00f5es t\u00eam a respeito do futuro. A imagem da eternidade, vista pela f\u00e9 crist\u00e3, \u00e9 a de um para\u00edso livre de toda a sensualidade terrena, prometendo a mais pura felicidade intelectual; a fantasia do mu\u00e7ulmano preenche a vida futura com as del\u00edcias de um har\u00e9m repleto de h\u00faris.<\/p>\n<p>A despeito de todo aux\u00edlio que a religi\u00e3o, o direito, a educa\u00e7\u00e3o e a moralidade d\u00e3o ao homem civilizado no controle de suas paix\u00f5es, corre-se sempre o risco de mergulhar, da transl\u00facida plataforma do amor puro e casto, para a lama da sensualidade comum.<\/p>\n<p>Para manter-se em tal plataforma, \u00e9 necess\u00e1ria uma luta constante entre os impulsos naturais e a moral, entre sensualidade e moralidade. Somente indiv\u00edduos dotados de for\u00e7a de vontade s\u00e3o capazes de emancipar-se completamente da sensualidade, e participar desse amor puro do qual brotam as mais nobres alegrias da vida humana.<\/p>\n<p>Ainda se questiona se, ao longo dos \u00faltimos s\u00e9culos, a humanidade avan\u00e7ou na moralidade. \u00c9 certo, entretanto, que a ra\u00e7a ampliou seu sentido de pudor; e este fen\u00f4meno da civiliza\u00e7\u00e3o \u2013 este desejo de se esconder das propens\u00f5es animais \u2013 \u00e9, ao menos, uma concess\u00e3o que o v\u00edcio faz \u00e0 virtude.<\/p>\n<p>A partir da leitura das obras de Scherr (\u201cHist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o alem\u00e3\u201d), certamente ter\u00edamos a impress\u00e3o de que, em compara\u00e7\u00e3o com as da Idade M\u00e9dia, nossas pr\u00f3prias ideias de moralidade se tornaram mais refinadas, ainda que possamos reconhecer que maneiras mais sutis, mesmo que sem superior moralidade, substitu\u00edram as antigas obscenidades e express\u00f5es grosseiras.<\/p>\n<p>Quando se comparam per\u00edodos de hist\u00f3ria bastante distantes entre si, n\u00e3o resta d\u00favida de que a moralidade p\u00fablica, apesar de ocasionais retrocessos tempor\u00e1rios, possui um progresso cont\u00ednuo, e que o cristianismo \u00e9 uma das mais poderosas for\u00e7as que favorecem o progresso moral.<\/p>\n<p>Hoje em dia estamos muito distantes das condi\u00e7\u00f5es sexuais que, reveladas pela adora\u00e7\u00e3o sodomita de deuses, na vida do povo, nas leis e pr\u00e1ticas religiosas, existiam entre os antigos gregos \u2013 para n\u00e3o mencionar a adora\u00e7\u00e3o do Falo e de Priapo entre os atenienses e os babil\u00f4nios, dos bacanais da Roma antiga, e do lugar proeminente que as prostitutas ocuparam entre estes povos. No progresso lento e muitas vezes impercept\u00edvel da moral humana, h\u00e1 varia\u00e7\u00f5es ou flutua\u00e7\u00f5es, assim como na sexualidade individual manifestam-se fluxos e refluxos.<\/p>\n<p>Per\u00edodos de decad\u00eancia moral na vida de um povo s\u00e3o sempre contempor\u00e2neos a momentos de efemina\u00e7\u00e3o, sensualidade e lux\u00faria. Estas condi\u00e7\u00f5es s\u00f3 podem ser concebidas quando ocorre um aumento das exig\u00eancias sobre o sistema nervoso, que deve responder a essas solicita\u00e7\u00f5es. Como resultado do aumento do nervosismo, h\u00e1 aumento da sensualidade e, uma vez que esses excessos chegam \u00e0s massas, acaba por erodir as bases da sociedade \u2013 a moralidade e a pureza da vida familiar. Quando s\u00e3o destru\u00eddas por excessos, pela infidelidade e pela lux\u00faria, a destrui\u00e7\u00e3o do estado \u00e9 inevitavelmente acompanhada de ru\u00edna material, moral e pol\u00edtica. Exemplos alarmantes dessa situa\u00e7\u00e3o s\u00e3o apresentados em Roma, Gr\u00e9cia, e Fran\u00e7a sob Lu\u00eds XIV e XV . Em tempos de destrui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e moral, monstruosas pervers\u00f5es da vida sexual foram frequentes, o que, no entanto, podem estar relacionadas, em parte, a condi\u00e7\u00f5es psicopatol\u00f3gicas ou, ao menos, neuropatol\u00f3gicas existentes em povo.<\/p>\n<p>Est\u00e1 comprovado, pela hist\u00f3ria da Babil\u00f4nia, N\u00ednive, Roma, e tamb\u00e9m pelos \u201cmist\u00e9rios\u201d da vida nas capitais modernas, que as grandes cidades s\u00e3o os criadouros do nervosismo e da sensualidade degenerada. O dado not\u00e1vel, que pode ser aprendido da leitura da obra de Ploss, \u00e9 que a pervers\u00e3o do instinto sexual (salvo entre os ale\u00fates, e na forma da masturba\u00e7\u00e3o, entre as f\u00eameas do Oriente e dos Hotentotes Nama) n\u00e3o ocorre em ra\u00e7as n\u00e3o-civilizadas ou meio-civilizadas.<\/p>\n<p>O estudo da vida sexual no indiv\u00edduo deve come\u00e7ar em seu desenvolvimento na puberdade, e continuar atrav\u00e9s de suas diferentes fases, at\u00e9 a extin\u00e7\u00e3o dos sentimentos sexuais. Em sua \u201cFisiologia do Amor\u201d, Mantegazza descreve os anseios e impulsos do despertar da vida sexual, quando pressentimentos, sentimentos indefinidos, e impulsos existem muito antes da puberdade. Esta \u00e9poca \u00e9, fisiologicamente, a mais importante. No aumento abundante de sentimentos e ideias que produz, manifesta-se o significado do fator sexual na vida mental.<\/p>\n<p>Esses impulsos, inicialmente vagos e incompreens\u00edveis, decorrentes das sensa\u00e7\u00f5es despertadas por \u00f3rg\u00e3os que estavam, at\u00e9 ent\u00e3o, subdesenvolvidos, s\u00e3o acompanhados por uma poderosa excita\u00e7\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es. A rea\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica do impulso sexual na puberdade se expressa em uma multiplicidade de manifesta\u00e7\u00f5es que t\u00eam, em comum, apenas a condi\u00e7\u00e3o mental da emo\u00e7\u00e3o e o impulso de express\u00e1-la de alguma forma; ou, ainda, de objetivar essas estranhas emo\u00e7\u00f5es. A religi\u00e3o e a poesia est\u00e3o pr\u00f3ximas delas, e recebem poderosos incentivos da esfera sexual, quando se conclui o momento de desenvolvimento sexual, e esclarecem-se esses sentimentos e impulsos a princ\u00edpio incompreens\u00edveis. Aquele que duvida deste fato deve pensar quantas vezes o entusiasmo religioso surge na \u00e9poca da puberdade; qu\u00e3o frequentes s\u00e3o os epis\u00f3dios sexuais na vida dos santos ; qu\u00e3o poderosa se expressa a sensualidade nas hist\u00f3rias dos fan\u00e1ticos religiosos; e em que cenas revoltantes, verdadeiras orgias, as festas religiosas da antiguidade, n\u00e3o menos do que os \u201cencontros\u201d de certas seitas nos tempos modernos, se expressam \u2013 sem mencionar os mist\u00e9rios luxuriosos que caracterizavam os cultos dos antigos. Por outro lado, vemos que a sensualidade insatisfeita encontra, muito frequentemente, certo equivalente no entusiasmo religioso.<\/p>\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o entre sentimento religioso e sexual tamb\u00e9m \u00e9 demonstrada a partir de inequ\u00edvocos estados psicopatol\u00f3gicos. Basta lembrar como a intensa sensualidade se manifesta nas hist\u00f3rias cl\u00ednicas de muitos man\u00edacos religiosos; na mistura heterog\u00eanea de del\u00edrios religiosos e sexuais, que \u00e9 t\u00e3o frequentemente observada em psicoses (por exemplo, em mulheres man\u00edacas, que pensam que s\u00e3o ou ser\u00e3o a M\u00e3e de Deus), e particularmente na insanidade masturbadora; e, finalmente, as autopuni\u00e7\u00f5es, les\u00f5es, autocastra\u00e7\u00f5es, e at\u00e9 mesmo auto crucifica\u00e7\u00f5es, resultantes de um sentimento sexual-religioso anormal.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil encontrar qualquer tentativa explica\u00e7\u00e3o para as rela\u00e7\u00f5es entre religi\u00e3o e amor. Muitas analogias se apresentam. O sentimento de atra\u00e7\u00e3o sexual e o sentimento religioso (considerado como fatos psicol\u00f3gicos) consistem em dois elementos.<\/p>\n<p>Na religi\u00e3o, o elemento prim\u00e1rio \u00e9 um sentimento de depend\u00eancia \u2013 fato que Schleiermacher reconheceu muito antes de estudos posteriores em antropologia e etnografia, fundados na observa\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es primitivas, e alcan\u00e7aram as mesmas conclus\u00f5es. \u00c9 somente em um est\u00e1gio mais elevado da cultura que entra o segundo, e essencialmente \u00e9tico elemento \u2013 o amor de Deus: o sentimento religioso. No lugar dos esp\u00edritos malignos dos povos primitivos surgiram as cria\u00e7\u00f5es d\u00fabias \u2013 ora brandas, ora furiosas \u2013 das mitologias complexas, at\u00e9 que, finalmente, o Deus do amor, como doador da felicidade eterna, \u00e9 reverenciado, seja como Jeov\u00e1, enquanto uma b\u00ean\u00e7\u00e3o na terra; Al\u00e1, como uma b\u00ean\u00e7\u00e3o f\u00edsica no Para\u00edso; Cristo, como felicidade eterna no c\u00e9u; ou como o Nirvana dos Budistas.<\/p>\n<p>No desejo sexual, o amor, a expectativa de felicidade ilimitada \u00e9 o elemento prim\u00e1rio. O sentimento de depend\u00eancia \u00e9 de desenvolvimento secund\u00e1rio. O n\u00facleo deste sentimento existe em ambas as partes, mas pode permanecer subdesenvolvido em uma delas. Como regra, devido \u00e0 sua parte passiva na procria\u00e7\u00e3o e nas condi\u00e7\u00f5es sociais, \u00e9 mais pronunciada na mulher; mas, excepcionalmente, pode ser verdade para os homens com mentes que se aproximam do tipo feminino.<\/p>\n<p>Tanto nas esferas religiosas quanto nas sexuais o amor \u00e9 m\u00edstico, transcendental. No amor sexual, o verdadeiro prop\u00f3sito do instinto, a propaga\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie, n\u00e3o entra na consci\u00eancia; e a for\u00e7a do desejo \u00e9 maior do que qualquer prop\u00f3sito que a consci\u00eancia poderia criar. Na religi\u00e3o, por\u00e9m, o bem que \u00e9 buscado, e o objeto de devo\u00e7\u00e3o, s\u00e3o de tal natureza que n\u00e3o podem se tornar parte do conhecimento emp\u00edrico. Portanto, ambos os processos mentais d\u00e3o alcance ilimitado \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas ambos t\u00eam um objeto imortal, na medida em que a felicidade que o sentimento sexual cria na fantasia parece incompar\u00e1vel e infinita, em contraste com todos os outros sentimentos prazerosos; e o mesmo \u00e9 verdadeiro para as b\u00ean\u00e7\u00e3os prometidas da f\u00e9, que s\u00e3o concebidas para serem eternas e supremas.<\/p>\n<p>Da correspond\u00eancia entre os dois estados de consci\u00eancia, com refer\u00eancia \u00e0 import\u00e2ncia dominante de seus objetos, segue-se que ambos frequentemente atingem uma intensidade que \u00e9 irresist\u00edvel, e que supera todas as suas motiva\u00e7\u00f5es opostas. Devido ao fato de que, em ambos, seus objetos n\u00e3o podem ser alcan\u00e7ados, segue-se que facilmente degeneram em um entusiasmo tolo, em que a intensidade dos sentimentos ultrapassa em muito a clareza e const\u00e2ncia das ideias. Em ambos os casos, neste entusiasmo, na expectativa de uma felicidade que n\u00e3o pode ser atingida, a necessidade de submiss\u00e3o incondicional desempenha um papel.<\/p>\n<p>Devido \u00e0 correspond\u00eancia em muitos pontos entre estes dois estados emocionais, \u00e9 claro que, quando s\u00e3o muito intensos, um pode tomar o lugar do outro; ou podem surgir lado a lado, j\u00e1 que cada intensifica\u00e7\u00e3o de um elemento da vida mental tamb\u00e9m intensifica suas associa\u00e7\u00f5es. A emo\u00e7\u00e3o constante leva, assim, para a consci\u00eancia, uma ou outra, ou mesmo ambas as ideias com as quais est\u00e1 conectada. Qualquer um desses estados mentais pode se transformar em impulso \u00e0 crueldade (ativamente exercido ou passivamente sofrido).<\/p>\n<p>Na vida religiosa isso \u00e9 expresso pelo sacrif\u00edcio. Principalmente, a v\u00edtima parte da ideia de que \u00e9 materialmente desfrutada pela divindade; ent\u00e3o, em rever\u00eancia, e como sinal de submiss\u00e3o, torna-se um tributo; e, finalmente, com a cren\u00e7a de que pecados e transgress\u00f5es contra a divindade s\u00e3o assim expiados para obten\u00e7\u00e3o da b\u00ean\u00e7\u00e3o obtida. Se, por\u00e9m, esta oferta consiste em autopuni\u00e7\u00e3o (algo que ocorre em todas as religi\u00f5es, e em indiv\u00edduos de natureza religiosa muito excit\u00e1vel), esta servir\u00e1 n\u00e3o apenas como um s\u00edmbolo de submiss\u00e3o e como um equivalente na troca da dor presente pela felicidade futura; mas tudo que se acredita partir da divindade, tudo o que acontece em obedi\u00eancia ao mandato divino ou \u00e0 honra da divindade, \u00e9 sentido diretamente como prazer. Assim, o entusiasmo religioso leva ao \u00eaxtase, a uma condi\u00e7\u00e3o em que a consci\u00eancia est\u00e1 t\u00e3o preocupada com sentimentos de prazer mental, que o conceito de sofrimento suportado s\u00f3 pode ser percebido sem a sua qualidade dolorosa.<\/p>\n<p>A exalta\u00e7\u00e3o do entusiasmo religioso pode conduzir ativamente ao prazer no sacrif\u00edcio ao outro, se a piedade for excessivamente compensada por sentimentos de prazer religioso.<\/p>\n<p>O sadismo, e particularmente o masoquismo (v. infra), revelam que, na esfera da vida sexual, podem existir fen\u00f4menos semelhantes. Assim, as rela\u00e7\u00f5es bem estabelecidas entre religi\u00e3o, lux\u00faria e crueldade podem ser compreendidas na seguinte f\u00f3rmula: os estados de excita\u00e7\u00e3o religiosa e sexual, no auge de seu desenvolvimento, podem estar relacionados \u00e0 quantidade e qualidade da excita\u00e7\u00e3o e, portanto, sob circunst\u00e2ncias favor\u00e1veis, um poder\u00e1 ocupar o lugar do outro. Ambos, em condi\u00e7\u00f5es patol\u00f3gicas, podem se transformar em crueldade.<br \/>\nO fator sexual n\u00e3o \u00e9 menos influente no despertar dos sentimentos est\u00e9ticos. O que seria a poesia e a arte sem base sexual? No amor (sensual) obt\u00e9m-se aquele calor de fantasia sem o qual uma verdadeira cria\u00e7\u00e3o de arte \u00e9 imposs\u00edvel; e no fogo dos sentimentos sensuais, brilho e calor s\u00e3o preservados. Pode-se assim entender por que grandes poetas e artistas possuem naturezas sensuais.<\/p>\n<p>Este mundo de ideais se revela com o in\u00edcio dos processos de desenvolvimento sexual. Aquele que, neste per\u00edodo da vida, n\u00e3o consegue se entusiasmar com tudo o que \u00e9 grande, nobre e belo, permanece Filisteu por toda sua vida. N\u00e3o \u00e9 verdade que, nesta \u00e9poca, at\u00e9 o mais med\u00edocre cria versos?<\/p>\n<p>Nos limites da rea\u00e7\u00e3o fisiol\u00f3gica, h\u00e1 eventos que ocorrem na \u00e9poca da puberdade, na qual esses sentimentos obscuros de desejo se expressam em paroxismos de desespero de si e do outro, que caminham para o t\u00e6dium vit\u00e6, e s\u00e3o frequentemente acompanhadas pelo desejo de fazer mal aos outros (analogias fracas de uma conex\u00e3o psicol\u00f3gica entre a lux\u00faria e a crueldade).<\/p>\n<p>O amor do ser humano tem um car\u00e1ter rom\u00e2ntico e idealista. Ela eleva o objeto amado \u00e0 apoteose. Inicialmente \u00e9 plat\u00f4nico, e se volta para formas de poesia e romance. Com o despertar da sensualidade, h\u00e1 o perigo de que esse poder idealizador possa ser exercido sobre pessoas do sexo oposto que estejam posi\u00e7\u00f5es inferiores no aspecto mental, f\u00edsico e social. Assim, podem ocorrer m\u00e9ssalliances, sedu\u00e7\u00f5es e erros, trazendo toda a trag\u00e9dia de um amor apaixonado quando entra em conflito com as regras da posi\u00e7\u00e3o social e das perspectivas futuras, e por vezes termina no suic\u00eddio ou no suic\u00eddio duplo.<\/p>\n<p>O amor n\u00e3o sensual nunca pode ser duradouro e verdadeiro. Por esta raz\u00e3o, o primeiro amor \u00e9, em regra, muito fugaz; porque n\u00e3o \u00e9 nada mais que o brilho de uma paix\u00e3o, a chama de um fogo de palha.<\/p>\n<p>Somente o amor que repousa sobre um reconhecimento das qualidades sociais da pessoa amada, apenas um amor que est\u00e1 disposto n\u00e3o s\u00f3 a desfrutar prazeres presentes, mas suportar sofrimento pelo objeto amado e sacrificar tudo, ser\u00e1 amor verdadeiro. O amor de um homem fortemente constitu\u00eddo n\u00e3o se encolhe diante de dificuldades ou perigos em ganhar e manter a posse de seu objeto.<\/p>\n<p>O amor se expressa em atos de hero\u00edsmo e ousadia. Tal amor est\u00e1 em perigo, sob certas circunst\u00e2ncias, de se tornar criminoso, se os princ\u00edpios morais forem fracos. O ci\u00fame \u00e9 uma m\u00e1cula neste amor. O amor de um homem fracamente constitu\u00eddo \u00e9 sentimental. Por vezes leva ao suic\u00eddio quando n\u00e3o \u00e9 retribu\u00eddo, ou quando encontra obst\u00e1culos, enquanto, em condi\u00e7\u00f5es semelhantes, o homem fortemente constitu\u00eddo pode tornar-se um criminoso.<\/p>\n<p>O amor sentimental corre o risco de se tornar uma caricatura, ou seja, quando o elemento sensual \u00e9 fraco (Cavaleiro de Toggenburg, Dom Quixote, muitos cantores e trovadores da Idade M\u00e9dia).<\/p>\n<p>Tal amor \u00e9 suave e macio, e pode at\u00e9 ser tolo; mas a verdadeira express\u00e3o desse poderoso sentimento desperta a piedade, o respeito ou a tristeza no cora\u00e7\u00e3o dos outros.<\/p>\n<p>Frequentemente esse amor fraco se expressa em express\u00f5es semelhantes \u2013na poesia, que, no entanto, sob tais circunst\u00e2ncias, \u00e9 efeminada; na est\u00e9tica que \u00e9 exagerada; na religi\u00e3o, que se entrega a mist\u00e9rios e entusiasmo religioso; ou, quando existe um fundamento sensual mais poderoso, funda seitas ou se expressa na insanidade religiosa. O amor imaturo da idade da puberdade tem algo de tudo isso nele. De todos os poemas e rimas escritos nesta \u00e9poca da vida, s\u00f3 s\u00e3o leg\u00edveis os que s\u00e3o o produto de poetas divinamente dotados.<\/p>\n<p>Apesar de toda a \u00e9tica que o amor exige para se desenvolver em sua forma verdadeira e pura, sua raiz mais forte ainda \u00e9 sensualidade. O amor plat\u00f4nico \u00e9 uma impossibilidade, um autoengano, uma designa\u00e7\u00e3o falsa para sentimentos relacionados.<\/p>\n<p>Na medida em que o amor repousa sobre o desejo sensual, s\u00f3 \u00e9 conceb\u00edvel de uma maneira normal como a que existe entre indiv\u00edduos do sexo oposto, e capaz de rela\u00e7\u00f5es sexuais. Se essas condi\u00e7\u00f5es faltam ou est\u00e3o destru\u00eddas, ent\u00e3o, no lugar do amor, vem a amizade.<\/p>\n<p>O papel que a repress\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es sexuais desempenha no caso de um homem, tanto em construir e preservar o sentimento de autoestima, \u00e9 not\u00e1vel. A import\u00e2ncia desse fator pode ser apreciada na deteriora\u00e7\u00e3o da masculinidade e da autoconfian\u00e7a do onanista, em seu enfraquecido estado nervoso, e do homem que se tornou impotente.<\/p>\n<p>Gyurkovechky (mannl. Impotenz. Viena, 1889) afirma, corretamente, que homens velhos e jovens diferem mentalmente, na ess\u00eancia, devido \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de sua virilidade, e que a impot\u00eancia tem um efeito prejudicial sobre o sentimento de bem-estar, as a\u00e7\u00f5es, a autoconfian\u00e7a e o papel do desejo. Esta perda se torna mais importante quanto mais jovem for o homem que perde a sua virilidade, e quando mais sensualmente ele for constitu\u00eddo.<\/p>\n<p>Sob tais circunst\u00e2ncias uma s\u00fabita perda de virilidade pode induzir melancolia grave e, at\u00e9 mesmo, levar ao suic\u00eddio. Para tais naturezas, a vida sem amor \u00e9 insuport\u00e1vel.<\/p>\n<p>Mas, da mesma forma, nos casos em que a rea\u00e7\u00e3o n\u00e3o seja t\u00e3o profunda, o homem desprovido de sua virilidade torna-se sombrio e rancoroso, ego\u00edsta, ciumento, confrontador, indiferente, tem pouca autoestima ou senso de honra, e \u00e9 covarde. Analogias s\u00e3o vistas nos Skopzens que, ap\u00f3s castra\u00e7\u00e3o, os homens mudam para pior.<\/p>\n<p>A perda da virilidade \u00e9 ainda mais percept\u00edvel em certos indiv\u00edduos fracamente constitu\u00eddos, quando se expressa em formal efemina\u00e7\u00e3o (v. infra).<\/p>\n<p>Em uma mulher que se tornou uma matrona, a condi\u00e7\u00e3o possui menor impacto psicol\u00f3gico, embora seja percept\u00edvel. Se o antigo per\u00edodo de sua vida sexual foi satisfat\u00f3rio, se as crian\u00e7as deleitam o cora\u00e7\u00e3o da m\u00e3e envelhecida, ent\u00e3o ela est\u00e1 pouco consciente da mudan\u00e7a de sua personalidade. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente, no entanto, quando a esterilidade ou outras circunst\u00e2ncias retiraram uma mulher do desempenho de suas fun\u00e7\u00f5es naturais, e a felicidade lhe foi negada.<\/p>\n<p>Esses fatos caracterizam fortemente as diferen\u00e7as que prevalecem na psicologia da vida sexual no homem e na mulher, e a dissimilaridade do sentimento e desejo sexual em ambos. O homem tem, sem d\u00favida, o apetite sexual mais forte dos dois. Desde o per\u00edodo de pubesc\u00eancia, ele \u00e9 instintivamente atra\u00eddo para a mulher. Seu amor \u00e9 sensual, e sua escolha \u00e9 fortemente afetada em raz\u00e3o de atra\u00e7\u00f5es f\u00edsicas. Um poderoso impulso da natureza o torna agressivo e impetuoso em seu galanteio. No entanto, a lei da natureza n\u00e3o domina completamente o seu ser ps\u00edquico. Tendo obtido o pr\u00eamio, seu amor \u00e9 temporariamente eclipsado por outros interesses vitais e sociais.<\/p>\n<p>A mulher, no entanto, se f\u00edsica e mentalmente normal, e devidamente educada, tem pouco desejo sensual. Se fosse de outra forma, o casamento e vida familiar seriam palavras vazias. Pois o homem que evita as mulheres, e a mulher que procura homens, s\u00e3o anomalias.<br \/>\nA mulher \u00e9 cortejada para seu pr\u00f3prio favor. Ela permanece passiva. Sua organiza\u00e7\u00e3o sexual assim o exige, e os ditames da boa cria\u00e7\u00e3o v\u00eam em seu aux\u00edlio. No entanto, a consci\u00eancia sexual \u00e9 mais forte na mulher do que no homem. Sua necessidade de amor \u00e9 maior; \u00e9 cont\u00ednua, e n\u00e3o peri\u00f3dica, mas seu amor \u00e9 mais espiritual do que sensual. O homem ama primeiramente a mulher como sua esposa, e ent\u00e3o como a m\u00e3e de seus filhos; o primeiro lugar no cora\u00e7\u00e3o da mulher pertence ao pai de seu filho, o segundo a ele como marido. A mulher \u00e9 influenciada em sua escolha mais pelas qualidades mentais do que pelas f\u00edsicas. Como m\u00e3e, divide seu amor entre descend\u00eancia e marido. A sensualidade est\u00e1 fundida no amor da m\u00e3e. Depois disso, a esposa aceita rela\u00e7\u00f5es sexuais conjugais n\u00e3o tanto como uma gratifica\u00e7\u00e3o sensual, e mais como uma prova do afeto a seu marido.<\/p>\n<p>A mulher ama com toda a sua alma. O que a mulher ama \u00e9 a vida, o homem ama a alegria da vida. A desgra\u00e7a no amor fere o cora\u00e7\u00e3o do homem; mas arru\u00edna a vida da mulher e destr\u00f3i sua felicidade. \u00c9 realmente uma quest\u00e3o psicol\u00f3gica digna de considera\u00e7\u00e3o descobrir se a mulher pode realmente amar duas vezes em sua vida. A mente da mulher inclina-se certamente mais \u00e0 monogamia do que a do homem.<br \/>\nNas exig\u00eancias sexuais da natureza do homem ser\u00e3o encontrados os motivos de sua fraqueza para com a mulher. Ele \u00e9 escravizado por ela, e se torna cada vez mais dependente dela enquanto ele se torna mais fraco, e mais cede \u00e0 sensualidade. Isso explica o fato de que nos per\u00edodos de decl\u00ednio e lux\u00faria, a sensualidade foi o fator predominante. Da\u00ed surge o perigo social quando as cortes\u00e3s e seus dependentes governam o Estado e finalmente lan\u00e7am-no em ru\u00edna.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria mostra que os grandes (estadistas) homens t\u00eam sido frequentemente escravos das mulheres, em consequ\u00eancia das condi\u00e7\u00f5es neurop\u00e1ticas de sua constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ordenar o celibato a seus sacerdotes para libert\u00e1-los da sensualidade, de forma que concentrem toda sua atividade na busca de sua voca\u00e7\u00e3o, revela um magistral conhecimento psicol\u00f3gico da natureza humana da Igreja Cat\u00f3lica Romana. No entanto, \u00e9 uma pena que o estado celibat\u00e1rio prive o sacerdote da influ\u00eancia enobrecedora exercida pelo amor, e pela vida conjugal, sobre o car\u00e1ter.<\/p>\n<p>Considerando que, por natureza, o homem desempenha o papel agressivo na vida sexual, ele est\u00e1 exposto ao perigo de ultrapassar os limites estabelecidos pela lei e a moralidade.<\/p>\n<p>A infidelidade da esposa, em compara\u00e7\u00e3o com a do marido, \u00e9 moralmente de muito maior porte, e deve sempre encontrar um castigo mais severo nas m\u00e3os da lei. A esposa infiel n\u00e3o s\u00f3 desonra a si mesma, mas tamb\u00e9m seu marido e sua fam\u00edlia, para n\u00e3o mencionar a poss\u00edvel incerteza da paternidade.<\/p>\n<p>Instintos naturais e posi\u00e7\u00e3o social s\u00e3o causas frequentes da tradi\u00e7\u00e3o no homem (o marido), enquanto a esposa \u00e9 cercada por muitas influ\u00eancias protetoras. A rela\u00e7\u00e3o sexual \u00e9 de diferente import\u00e2ncia para a solteira, e para o solteiro. A sociedade exige dela pudor, mas tamb\u00e9m castidade. A civiliza\u00e7\u00e3o moderna concede apenas \u00e0 esposa essa posi\u00e7\u00e3o de destaque, na qual a mulher promove sexualmente os interesses morais da sociedade.<\/p>\n<p>O objetivo final, o ideal, da mulher, mesmo quando \u00e9 arrastada pela lama do v\u00edcio \u00e9, e sempre ser\u00e1, o casamento. A mulher, como Mantegazza observa corretamente, busca n\u00e3o apenas gratifica\u00e7\u00e3o de desejos sensuais, mas tamb\u00e9m prote\u00e7\u00e3o e apoio para si mesma e sua prole. N\u00e3o importa o qu\u00e3o sensual o homem possa ser: a menos que seja profundamente depravado, ele procurar\u00e1 como esposa apenas aquela mulher cuja castidade n\u00e3o pode duvidar.<\/p>\n<p>O emblema e ornamento da mulher que aspira a este estado, verdadeiramente digno de si mesma, \u00e9 o pudor, t\u00e3o bem definido por Mantegazza como \u201cuma das formas de autoestima f\u00edsica\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o cabe discutir aqui a evolu\u00e7\u00e3o desta que \u00e9 a mais graciosa das virtudes, mas provavelmente \u00e9 uma consequ\u00eancia do crescimento gradual da civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um contraste not\u00e1vel pode ser encontrado na exposi\u00e7\u00e3o ocasional de encantos f\u00edsicos, convencionalmente sancionada pelo mundo da moda, em que at\u00e9 mesmo a mais discreta donzela se entrega quando se veste para um baile, teatro ou outro evento social. Embora as raz\u00f5es de tal exposi\u00e7\u00e3o sejam \u00f3bvias, a mulher modesta n\u00e3o os considera mais importantes, felizmente, do que os motivos que subjazem as modas peri\u00f3dicas, que levam certas formas do corpo a uma proemin\u00eancia indevida, para n\u00e3o falar de espartilhos, etc.<br \/>\nSempre, e entre todas as ra\u00e7as, as mulheres gostam de toalete e de adornos. No reino animal, a natureza dotou o macho com maior beleza. Homens denominam as mulheres como \u201co belo sexo\u201d, uma galanteria que surge claramente de suas exig\u00eancias sensuais. Enquanto a mulher busca apenas a autogratifica\u00e7\u00e3o no adorno pessoal, e desde que ela permane\u00e7a inconsciente das raz\u00f5es psicol\u00f3gicas para se tornar atraente, nenhuma obje\u00e7\u00e3o pode ser levantada contra ela; isso s\u00f3 ocorrer\u00e1 quando o fizer tendo como objetivo espec\u00edfico agradar aos homens, o que degenera em coqueteria.<\/p>\n<p>Sob circunst\u00e2ncias semelhantes, o homem se tornaria rid\u00edculo.<\/p>\n<p>A mulher ultrapassa em muito o homem na psicologia natural do amor, em parte porque a evolu\u00e7\u00e3o e a educa\u00e7\u00e3o fizeram do amor seu pr\u00f3prio elemento, em parte porque ela \u00e9 animada por sentimentos mais refinados (Mantegazza).<\/p>\n<p>Mesmo os que receberam a melhor cria\u00e7\u00e3o permitem que um homem olhe para a mulher principalmente como um meio de satisfazer os desejos de seu instinto natural, embora o confine apenas \u00e0 mulher de sua escolha. Assim, a civiliza\u00e7\u00e3o estabelece um contrato social, que \u00e9 chamado de casamento, e concede por lei estatutos de prote\u00e7\u00e3o e apoio \u00e0 esposa e seus direitos.<\/p>\n<p>\u00c9 importante, por conta de certas manifesta\u00e7\u00f5es patol\u00f3gicas (a que nos referiremos mais adiante), examinar os acontecimentos psicol\u00f3gicos que levam o homem e a mulher a essa estreita uni\u00e3o que concentra a plenitude do afeto exclusivamente sobre o amado, excluindo-se todas as outras pessoas do mesmo sexo.<\/p>\n<p>Se fosse poss\u00edvel demonstrar o objetivo dos processos da natureza \u2013 a adapta\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser negada \u2013, ent\u00e3o o fato de se deixar fascinar por uma \u00fanica pessoa do sexo oposto, com indiferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a todas as outras, como ocorre entre verdadeiros e felizes amantes, descobrir\u00edamos uma maravilhosa estrat\u00e9gia para garantir a monogamia pela valoriza\u00e7\u00e3o de seu objeto.<\/p>\n<p>O observador cient\u00edfico n\u00e3o encontra neste v\u00ednculo amoroso dos cora\u00e7\u00f5es qualquer mist\u00e9rio de almas, mas pode, quase sempre, identificar certas peculiaridades f\u00edsicas ou mentais pelas quais o poder atrativo \u00e9 caracterizado.<\/p>\n<p>Da\u00ed as palavras fetiche e fetichismo. A palavra fetiche significa um objeto, ou partes ou atributos de objetos que, em virtude da associa\u00e7\u00e3o com o sentimento, a personalidade, ou as ideias semelhantes, exercem um encanto (o portugu\u00eas \u201cfetisso\u201d ) ou, pelo menos, produzem uma impress\u00e3o individual peculiar que n\u00e3o est\u00e1 de modo algum relacionada com a apar\u00eancia externa do signo, s\u00edmbolo ou fetiche.<\/p>\n<p>A valoriza\u00e7\u00e3o individual do fetiche que se estende at\u00e9 ao entusiasmo irracional \u00e9 chamada de fetichismo. Esse interessante fen\u00f4meno psicol\u00f3gico pode ser explicado por uma lei emp\u00edrica de associa\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, a rela\u00e7\u00e3o existente entre a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o e suas partes, que s\u00e3o essencialmente ativas na produ\u00e7\u00e3o de emo\u00e7\u00f5es prazerosas. \u00c9 mais comumente encontrada nas esferas religiosas e er\u00f3ticas. O fetichismo religioso encontra seu motivo original na ilus\u00e3o de que seu objeto, isto \u00e9, o \u00eddolo, n\u00e3o \u00e9 um mero s\u00edmbolo, mas possui atributos divinos, e lhe atribui virtudes peculiares m\u00e1gicas (rel\u00edquias) ou protetoras (amuletos).<\/p>\n<p>O fetichismo er\u00f3tico faz, das qualidades f\u00edsicas ou mentais de uma pessoa, ou mesmo meramente dos objetos usados por ela, um \u00eddolo, por ser capaz de despertar poderosas associa\u00e7\u00f5es com a pessoa amada, originando assim fortes emo\u00e7\u00f5es de prazer sexual. \u00c9 sempre poss\u00edvel identificar analogias com o fetichismo religioso; pois, neste \u00faltimo, os objetos mais insignificantes (cabelos, unhas, ossos, etc.) se tornam, por vezes, fetiches que produzem sentimentos de prazer e at\u00e9 mesmo de \u00eaxtase.<\/p>\n<p>O germe do amor sexual \u00e9 provavelmente encontrado no encanto individual (fetiche) com o qual as pessoas de sexo oposto se atraem mutuamente.<\/p>\n<p>Torna-se uma situa\u00e7\u00e3o \u00f3bvia quando a vis\u00e3o da pessoa do sexo oposto ocorre simultaneamente com a excita\u00e7\u00e3o sexual, por meio da qual essa \u00faltima \u00e9 intensificada.<\/p>\n<p>As impress\u00f5es emocionais e visuais combinam-se, e est\u00e3o t\u00e3o profundamente incorporadas na mente, que uma sensa\u00e7\u00e3o recorrente desperta a mem\u00f3ria visual e provoca uma excita\u00e7\u00e3o sexual renovada, e mesmo o orgasmo e a polu\u00e7\u00e3o (muitas vezes apenas em sonhos), que ocorre quando a apar\u00eancia f\u00edsica \u00e9 um fetiche.<\/p>\n<p>Essas, entre outras coisas, s\u00e3o meras particularidades, sejam f\u00edsicas ou mentais, que podem ter o efeito do fetiche, caso sua percep\u00e7\u00e3o coincida com a emo\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia mostra que o acaso controla, em grande medida, essa associa\u00e7\u00e3o mental, e que a natureza do fetiche varia com a personalidade do indiv\u00edduo, despertando assim as mais estranhas simpatias ou antipatias.<\/p>\n<p>Esses fatos fisiol\u00f3gicos do fetichismo muitas vezes explicam o afeto que surge espontaneamente entre homem e mulher, por conta da prefer\u00eancia por uma certa pessoa em detrimento de todas as outras do mesmo sexo. Uma vez que o fetiche assuma a forma de uma marca distintiva, fica evidente que seu efeito s\u00f3 poder\u00e1 ser de car\u00e1ter individual. Sendo acentuado pelos mais fortes sentimentos de prazer, segue-se que as falhas existentes na amada s\u00e3o negligenciadas (\u201co amor \u00e9 cego\u201d), e nasce uma paix\u00e3o que parece incompreens\u00edvel ou rid\u00edcula para os outros. \u00c9 por isso que o amante devotado, que adora seu amor e acredita que este possua qualidades que na realidade n\u00e3o existem, \u00e9 taxado pelos demais como sendo um simples louco. Desta forma, o amor apresenta-se ora como uma mera paix\u00e3o, ora como uma pronunciada anomalia ps\u00edquica que atinge o que parecia imposs\u00edvel: torna a bela feia, o profano sublime e oblitera toda a consci\u00eancia dos deveres existentes para com os outros.<\/p>\n<p>Tarde (\u201cArchives de l\u2019Antrhropologi Criminelle\u201d, vol. v. n. 30) argumenta que o tipo de fetichismo varia n\u00e3o apenas entre as pessoas, mas tamb\u00e9m entre as na\u00e7\u00f5es, mas que o ideal da beleza permanece o mesmo entre os povos civilizados de uma mesma \u00e9poca.<br \/>\nBinet analisou e estudou mais profundamente esse fetichismo do amor.<\/p>\n<p>Dele brota a escolha particular de formas delgadas ou gordas, loiras ou morenas, forma particular ou cor dos olhos, tom da voz, odor do cabelo ou do corpo (mesmo o perfume artificial), forma das m\u00e3os, p\u00e9s ou orelhas, etc., que constituem o encanto individual, o primeiro elo de uma complexa cadeia de processos mentais, convergindo todos nesse foco, o amor, isto \u00e9, a possess\u00e3o f\u00edsica e mental da pessoa amada.<br \/>\nEsse fato estabelece a exist\u00eancia do fetichismo fisiol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Sem demonstrar uma condi\u00e7\u00e3o patol\u00f3gica, o fetiche pode exercer seu poder enquanto as partes s\u00e3o ainda qualidades de um todo completo, e enquanto o amor produzido por ele compreender toda a personalidade mental e f\u00edsica da outra pessoa. \u201cO amor normal nos aparece como uma sinfonia de tons\u201d. Max Dessoir (pseud\u00f4nimo Ludwig Brunn) em um artigo \u201cO Fetichismo do Amor\u201d, afirma com precis\u00e3o:<br \/>\n\u201cO amor normal nos aparece como uma sinfonia de tons de todos os tipos. \u00c9 despertado pelas mais variadas raz\u00f5es. \u00c9, por assim dizer, polite\u00edsta. O fetichismo reconhece somente a cor t\u00f4nica de um \u00fanico instrumento; emana de um \u00fanico motivo; \u00e9 monote\u00edsta\u201d.<\/p>\n<p>Mesmo o pensamento moderado chegar\u00e1 \u00e0 conclus\u00e3o de que a express\u00e3o \u201camor verdadeiro\u201d (t\u00e3o frequentemente mal utilizada) s\u00f3 pode ser aplicada quando toda a pessoa do amado se torna objeto f\u00edsico e mental de venera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que h\u00e1 sempre um elemento sensual no amor, isto \u00e9, o desejo de gozar a plena posse do objeto amado e, em uni\u00e3o com ele, cumprir as leis da natureza.<\/p>\n<p>Mas quando o corpo da pessoa amada \u00e9 o \u00fanico objeto do amor, ou se o prazer sexual \u00e9 buscado sem considera\u00e7\u00e3o \u00e0 comunh\u00e3o da alma e da mente, o verdadeiro amor n\u00e3o existe. Nem \u00e9 encontrado entre os disc\u00edpulos de Plat\u00e3o, que amam a somente alma e desprezam o prazer sexual. Em um caso, o corpo \u00e9 o fetiche, no outro a alma; e o amor \u00e9 fetichismo.<\/p>\n<p>Exemplos como esses representam simplesmente transi\u00e7\u00f5es para o fetichismo patol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Esta hip\u00f3tese \u00e9 refor\u00e7ada por outro crit\u00e9rio de amor verdadeiro, a saber, a satisfa\u00e7\u00e3o mental derivada do ato sexual.<\/p>\n<p>Um impressionante fen\u00f4meno no fetichismo \u00e9 que, entre os diversos objetos que podem servir como fetiches, h\u00e1 alguns que ganham esse significado mais comumente do que outros; por exemplo, o cabelo, a m\u00e3o, o p\u00e9 da mulher ou a express\u00e3o do olho. Isso \u00e9 importante na patologia do fetichismo.<\/p>\n<p>A mulher certamente parece estar mais ou menos consciente desses fatos. Pois ela dedica grande aten\u00e7\u00e3o a seu cabelo, e muitas vezes gasta uma quantidade razo\u00e1vel de tempo e dinheiro com seu cuidado. Qu\u00e3o cuidadosamente a m\u00e3e cuida do cabelo da filha! Que atividade importante desempenha o cabeleireiro! A queda do cabelo causa desespero a muitas jovens senhoras. O autor recorda o caso de uma mulher v\u00e3 que caiu em melancolia por conta deste problema, e finalmente se suicidou. Um assunto favorito da conversa entre senhoras s\u00e3o os coiffures. Elas s\u00e3o invejosos das belas tran\u00e7as umas das outras.<\/p>\n<p>O cabelo bonito \u00e9 um fetiche poderoso para muitos homens. Na lenda de Lorelei, que atraiu os homens para a destrui\u00e7\u00e3o, o \u201ccabelo dourado\u201d, que ela penteia com um pente dourado, aparece como fetiche. Frequentemente a m\u00e3o ou o p\u00e9 possuem efeitos n\u00e3o menos poderosos; mas nesses casos, sentimentos masoquistas e s\u00e1dicos muito frequentemente, \u2013 embora nem sempre \u2013 ajudam a determinar o tipo peculiar de fetiche.<\/p>\n<p>Por uma transfer\u00eancia que ocorre por meio da associa\u00e7\u00e3o de ideias, luvas ou sapatos passam a ocupar o significado de um fetiche. Max Dessoir ressalta que, entre os costumes da Idade M\u00e9dia, beber do sapato de uma bela mulher (h\u00e1bito que ainda se encontra na Pol\u00f4nia) desempenhou um papel not\u00e1vel na galanteria e na homenagem. O sapato tamb\u00e9m desempenha um papel importante na lenda de Aschenbr\u00f6del.<\/p>\n<p>A express\u00e3o do olho \u00e9 particularmente importante como um meio de acender a centelha do amor. Um olho neurop\u00e1tico frequentemente afeta pessoas de qualquer sexo como um fetiche. \u201cMadam, vos beaux yeux me font mourir d\u2019amour.\u201d (Moli\u00e8re).<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos exemplos que mostram que os odores do corpo se tornam fetiches.<\/p>\n<p>Este fato \u00e9 utilizado no \u201cArs amandi\u201d de maneira consciente ou inconsciente, pela mulher. Rute tentou atrair Boaz perfumando a si mesma. O demi-monde dos tempos antigos e modernos assemelham-se em seu uso pr\u00f3digo de perfumes fortes. J\u00e4ger, em sua \u201cDescoberta da Alma\u201d, chama a aten\u00e7\u00e3o para muitas simpatias olfativas.<\/p>\n<p>Casos s\u00e3o conhecidos em que os homens se casaram com mulheres feias apenas porque seus odores pessoais eram extremamente agrad\u00e1veis.<\/p>\n<p>Binet acredita que seja prov\u00e1vel que a voz tamb\u00e9m possa agir como um fetiche.<\/p>\n<p>Belot, em seu romance \u201cLes baigneuses de Trouville\u201d, faz a mesma afirma\u00e7\u00e3o. Binet acredita que muitos casamentos com cantores t\u00eam sua origem no fetiche de suas vozes. Ele tamb\u00e9m observa que, entre os p\u00e1ssaros cantores, a voz tem o mesmo significado sexual que os odores entre os quadr\u00fapedes. Os p\u00e1ssaros seduzem por sua can\u00e7\u00e3o, e o macho que canta mais lindamente une-se \u00e0 noite com a companheira encantada.<\/p>\n<p>Os fatos patol\u00f3gicos do masoquismo e sadismo mostram que as peculiaridades mentais tamb\u00e9m podem agir como fetiches, mas em um sentido mais amplo.<\/p>\n<p>Assim, o fato das idiossincrasias \u00e9 explicado, e o velho prov\u00e9rbio \u201cDe gustibus non est disputandum\u201d mant\u00e9m sua for\u00e7a.<br \/>\nEm rela\u00e7\u00e3o ao fetichismo na mulher, a ci\u00eancia deve, pelo menos por enquanto, contentar-se com meras conjecturas. Para certo, por\u00e9m, que em tendo causa fisiol\u00f3gica, seus efeitos devem ser an\u00e1logos aos dos homens, isto \u00e9, produzindo simpatias sexuais com pessoas do mesmo sexo.<\/p>\n<p>Somente descobriremos esses detalhes quando as mulheres m\u00e9dicas iniciarem os estudos nesses assuntos.<\/p>\n<p>Podemos ao menos ter certeza que a fetiche feminina assume a forma das qualidades f\u00edsicas e mentais dos homens. Na maioria dos casos, sem d\u00favida, os atributos f\u00edsicos no macho exercem esse poder, sem levarmos em conta a exist\u00eancia de sensualidade consciente. Por outro lado, verifica-se que a superioridade mental do homem constitui o poder atrativo quando a beleza f\u00edsica est\u00e1 faltando. Nos \u201cestratos\u201d superiores da sociedade isto \u00e9 mais aparente, mesmo se desconsiderarmos a enorme influ\u00eancia exercida pelo \u201csangue azul\u201d e a alta taxa de reprodu\u00e7\u00e3o. A possibilidade de que o desenvolvimento intelectual superior favore\u00e7a o avan\u00e7o na sociedade, e abra caminho para uma carreira brilhante, n\u00e3o parece influenciar de forma significativa os julgamentos.<\/p>\n<p>O fetichismo do corpo e da mente \u00e9 importante na produ\u00e7\u00e3o de descendentes; favorece a sele\u00e7\u00e3o do mais apto e a transmiss\u00e3o de virtudes f\u00edsicas e mentais.<\/p>\n<p>Em geral, as seguintes qualidades masculinas se imp\u00f5em \u00e0 mulher: for\u00e7a f\u00edsica, coragem, nobreza da mente, cavalheirismo, autoconfian\u00e7a, at\u00e9 mesmo autoafirma\u00e7\u00e3o, insol\u00eancia, bravata e uma demonstra\u00e7\u00e3o consciente de dom\u00ednio sobre o sexo mais fraco.<br \/>\nUm \u201cDon Juan\u201d impressiona muitas mulheres e suscita admira\u00e7\u00e3o, pois ele estabelece a prova de seus poderes viris, embora a donzela inexperiente n\u00e3o possa, de modo algum, suspeitar dos muitos riscos de s\u00edfilis e uretrite cr\u00f4nica que ela corre em uma uni\u00e3o conjugal com este interessante personagem.<\/p>\n<p>O ator bem sucedido, o m\u00fasico ou o artista vocal, o cavaleiro de circo, o atleta e at\u00e9 mesmo o criminoso, muitas vezes fascinam a jovem, bem como a mulher madura. De qualquer modo, as mulheres deliram e os inundam com cartas de amor.<br \/>\n\u00c9 um fato bem conhecido que o cora\u00e7\u00e3o feminino tem uma fraqueza particular por uniformes militares, sendo que os homens da cavalaria sempre t\u00eam a prefer\u00eancia.<\/p>\n<p>O cabelo do homem, especialmente a barba, emblema da virilidade, s\u00edmbolo secund\u00e1rio do poder gerador \u2013 \u00e9 um fetiche predominante na mulher. Na medida em que as mulheres d\u00e3o especial cuidado ao cultivo de seus cabelos, os homens as procuram atrair e agradar, cultivando o crescimento elegante da barba e, especialmente, do bigode.<\/p>\n<p>O olho e a voz exercem o mesmo charme. Cantores de renome facilmente tocam o cora\u00e7\u00e3o da mulher. Eles s\u00e3o sobrecarregados com cartas de amor e ofertas de casamento. Os tenores t\u00eam uma especial vantagem.<\/p>\n<p>Bind (op. cit.) refere-se a uma observa\u00e7\u00e3o desse personagem feita por Dumas em seu romance \u201cLa maison du vent\u201d. Uma mulher que se apaixona pela voz de um tenor perde sua virtude.<\/p>\n<p>At\u00e9 o momento, o autor n\u00e3o conseguiu reunir fatos em rela\u00e7\u00e3o ao fetichismo patol\u00f3gico na mulher.<\/p>\n<hr \/>\n<p><a href=\"http:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/psychopathia-sexualis\/\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-30\" src=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/coluna-4-psychopathia.jpg\" alt=\"\" width=\"231\" height=\"328\" \/><\/a><\/p>\n<h4><a href=\"http:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/psychopathia-sexualis\/\">Adquira o livro!<\/a><\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Caso voc\u00ea prefira baixar o cap\u00edtulo em PDF, clique aqui. Caso queira adquirir o livro, clique aqui. 1. Um fragmento de uma psicologia da vida sexual A propaga\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie humana n\u00e3o depende da sorte ou do capricho do indiv\u00edduo, pois \u00e9 assegurada por um instinto natural que, com toda\u2026<\/p>\n<p class=\"continue-reading-button\"> <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2017\/10\/23\/capitulo-1-de-psychopathia-sexualis\/\">Leia mais<i class=\"crycon-right-dir\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":78,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76"}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=76"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/78"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=76"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=76"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=76"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}