{"id":768,"date":"2023-11-07T16:13:00","date_gmt":"2023-11-07T16:13:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=768"},"modified":"2024-03-07T16:19:18","modified_gmt":"2024-03-07T16:19:18","slug":"historia-romana-de-apiano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2023\/11\/07\/historia-romana-de-apiano\/","title":{"rendered":"&#8220;Hist\u00f3ria Romana&#8221; de Apiano"},"content":{"rendered":"\n<p>Apiano, Historiador do s\u00e9culo II d.C., tem em &#8220;Hist\u00f3ria Romana&#8221; sua principal obra. Infelizmente, ela n\u00e3o chegou completa at\u00e9 n\u00f3s. Nesta edi\u00e7\u00e3o, est\u00e1 todo o conte\u00fado de &#8220;Guerras Civis&#8221;, a parte mais influente da obra da obra de Apiano.<\/p>\n\n\n\n<p>Abaixo voc\u00ea ir\u00e1 ler a Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 obra &#8220;Hist\u00f3ria Romana: Guerras Civis&#8221;. Caso deseje adquirir a obra completa, <a href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/historia-romana-as-guerras-civis\/\" data-type=\"page\" data-id=\"752\">clique aqui<\/a>, ou na capinha do livro.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/historia-romana-as-guerras-civis\/\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"231\" height=\"328\" src=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/capinha_apiano.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-753\" srcset=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/capinha_apiano.jpg 231w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/capinha_apiano-211x300.jpg 211w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/capinha_apiano-106x150.jpg 106w\" sizes=\"(max-width: 231px) 100vw, 231px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\"> <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Os plebeus e o Senado de Roma frequentemente estavam em conflito entre si sobre a promulga\u00e7\u00e3o de leis, o cancelamento de d\u00edvidas, a divis\u00e3o de terras ou a elei\u00e7\u00e3o de magistrados. No entanto, a disc\u00f3rdia interna n\u00e3o os levava a confrontos violentos; havia apenas dissens\u00f5es e contendas dentro dos limites da lei, resolvidas a partir de concess\u00f5es respeito m\u00fatuos. Certa vez, quando os plebeus estavam prestes a iniciar uma campanha, eles se envolveram em uma controv\u00e9rsia, mas n\u00e3o usaram as armas em suas m\u00e3os; ao inv\u00e9s disso, retiraram-se para uma colina, que a partir desse momento passou a ser conhecida como Monte Sagrado. Mesmo ent\u00e3o, n\u00e3o houve viol\u00eancia, mas eles criaram um magistrado para sua prote\u00e7\u00e3o e o chamaram de Tribuno da Plebe, para servir especialmente como um freio aos c\u00f4nsules, que eram escolhidos pelo Senado, de forma que o poder pol\u00edtico n\u00e3o ficasse exclusivamente em suas m\u00e3os. A partir disso, surgiu uma amargura ainda maior, e os magistrados se posicionaram em uma animosidade mais forte uns contra os outros, e o Senado e os plebeus firmaram suas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, cada um acreditando que prevaleceria sobre o outro aumentando o poder de seus pr\u00f3prios magistrados. Foi no centro de contendas desse tipo que M\u00e1rcio Coriolano, tendo sido banido contrariamente \u00e0 justi\u00e7a, refugiou-se com os Volscos e levantou guerra contra seu pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Este \u00e9 o \u00fanico caso de conflito armado que pode ser encontrado nas antigas sedi\u00e7\u00f5es, e isso foi causado por um ex\u00edlio. A espada nunca foi levada para a assembleia, e n\u00e3o houve massacre civil at\u00e9 Tib\u00e9rio Graco, enquanto servia como tribuno e apresentava novas leis, ser o primeiro a cair v\u00edtima das lutas internas; e com ele muitos outros, que estavam aglomerados no Capit\u00f3lio em torno do templo, tamb\u00e9m foram mortos. A sedi\u00e7\u00e3o n\u00e3o terminou com esse ato abomin\u00e1vel. As partes frequentemente entraram em conflito aberto, muitas vezes empunhando adagas; e de tempos em tempos nos templos, ou nas assembleias, ou no f\u00f3rum, algum tribuno, ou pretor, ou c\u00f4nsul, ou candidato a esses cargos, ou alguma pessoa de outra forma distinta, era morto. A viol\u00eancia indecorosa prevaleceu quase constantemente, junto com o vergonhoso desprezo pela lei e pela justi\u00e7a. Conforme o mal aumentava em grandeza, insurrei\u00e7\u00f5es abertas contra o governo e grandes expedi\u00e7\u00f5es b\u00e9licas contra o pa\u00eds eram empreendidas por exilados, ou criminosos, ou pessoas lutando entre si por algum cargo ou comando militar. Surgiam frequentemente chefes de fac\u00e7\u00f5es, aspirando ao poder supremo, alguns se recusando a desbandar as tropas confiadas a eles pelo povo, outros at\u00e9 mesmo contratando for\u00e7as um contra o outro por conta pr\u00f3pria, sem autoriza\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Sempre que um dos lados primeiro tomava posse da cidade, a fac\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria fazia guerra \u2013 nominalmente contra seus pr\u00f3prios advers\u00e1rios, mas, na verdade, contra seu pa\u00eds. Eles a atacavam como a capital de um inimigo, e massacres impiedosos e indiscriminados de cidad\u00e3os eram perpetrados. Alguns eram proscritos, outros banidos, propriedades eram confiscadas, e prisioneiros eram at\u00e9 mesmo submetidos a excruciantes torturas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhuma a\u00e7\u00e3o indecorosa foi deixada de lado at\u00e9, cerca de cinquenta anos ap\u00f3s a morte de Graco, Corn\u00e9lio Sula, um desses chefes de fac\u00e7\u00f5es, remediando um mal com outro, tornar-se \u00fanico senhor do estado por um longo tempo. Tais autoridades p\u00fablicas eram antigamente chamadas de ditadores \u2013 um cargo criado nas piores emerg\u00eancias por apenas seis meses, e que desde ent\u00e3o caiu em desuso. Mas Sula, embora nominalmente eleito, tornou-se ditador vital\u00edcio pela for\u00e7a e coa\u00e7\u00e3o. No entanto, ele se inundou de poder e foi o primeiro homem, at\u00e9 onde sei, detentor do poder supremo, que teve a coragem de abdicar voluntariamente e declarar que prestaria contas da sua administra\u00e7\u00e3o a qualquer pessoa insatisfeita com ela. E assim, por um per\u00edodo consider\u00e1vel, ele caminhou at\u00e9 o f\u00f3rum como um cidad\u00e3o comum \u00e0 vista de todos e retornou para casa sem ser molestado, t\u00e3o grande era o temor ainda presente em rela\u00e7\u00e3o ao seu governo na mente dos espectadores, ou seu espanto com a sua ren\u00fancia. Talvez eles se envergonhassem de cobr\u00e1-lo, ou tivessem outros bons sentimentos em rela\u00e7\u00e3o a ele, ou acreditassem que seu despotismo tinha sido ben\u00e9fico para o estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, houve um fim das disputas por um curto per\u00edodo de tempo enquanto Sula viveu, e uma compensa\u00e7\u00e3o pelos males que ele havia causado, mas ap\u00f3s sua morte, problemas semelhantes eclodiram e continuaram at\u00e9 Caio C\u00e9sar, que havia mantido o comando na G\u00e1lia por elei\u00e7\u00e3o por alguns anos, quando ordenado pelo Senado a renunciar ao seu comando, negou-se sob o pretexto de que este n\u00e3o era o desejo do Senado, mas de Pompeu, seu inimigo, que tinha o comando de um ex\u00e9rcito na It\u00e1lia, e estava tramando dep\u00f4-lo. Ent\u00e3o ele enviou propostas de que ambos deveriam manter seus ex\u00e9rcitos, para que nenhum precisasse temer a hostilidade do outro, ou que Pompeu tamb\u00e9m deveria dispensar suas for\u00e7as e viver como um cidad\u00e3o comum sob as leis da mesma forma que ele pr\u00f3prio. Ambas as sugest\u00f5es sendo recusadas, ele marchou da G\u00e1lia contra Pompeu no territ\u00f3rio romano, entrou em Roma e, encontrando Pompeu em fuga, o perseguiu at\u00e9 a Tess\u00e1lia, conquistou uma brilhante vit\u00f3ria sobre ele em uma grande batalha, e o seguiu at\u00e9 o Egito. Depois que Pompeu foi morto por alguns eg\u00edpcios, C\u00e9sar come\u00e7ou a trabalhar nos assuntos eg\u00edpcios e permaneceu l\u00e1 at\u00e9 poder resolver a dinastia daquele pa\u00eds. Ent\u00e3o ele retornou a Roma. Tendo superado seu principal rival na guerra, e chamado de \u201co Grande\u201d devido a seus brilhantes feitos militares, ele agora governava sem disfarce, ningu\u00e9m mais se atrevendo a contest\u00e1-lo sobre qualquer coisa, e foi escolhido, logo ap\u00f3s Sula, como ditador vital\u00edcio. Novamente todas as dissens\u00f5es civis cessaram at\u00e9 que Bruto e C\u00e1ssio, invejosos de seu grande poder e desejando restaurar o governo de seus pais, mataram no Senado aquele que se mostrara verdadeiramente popular e mais experiente na arte de governar.<\/p>\n\n\n\n<p>O povo certamente lamentou a morte de forma profunda. Eles vasculharam a cidade em busca dos assassinos, enterraram C\u00e9sar no centro do f\u00f3rum, constru\u00edram um templo no local de sua pira funer\u00e1ria e ofereceram sacrif\u00edcios a ele como a um deus. E agora a disc\u00f3rdia civil eclodia novamente pior do que nunca e aumentava enormemente. Massacres, banimentos e proscri\u00e7\u00f5es tanto de senadores quanto de cavaleiros ocorreram imediatamente, incluindo grandes n\u00fameros de ambas as classes, os chefes de grupos pol\u00edticos entregando seus inimigos um ao outro, e para esse fim n\u00e3o poupando nem mesmo seus amigos e irm\u00e3os; tal era a for\u00e7a da animosidade em rela\u00e7\u00e3o aos rivais que se sobrepunha ao amor pelos parentes. Assim, no decorrer dos acontecimentos, o imp\u00e9rio romano foi dividido, como se fosse sua propriedade privada, por esses tr\u00eas homens: Ant\u00f4nio, L\u00e9pido, e aquele que primeiro foi chamado de Ot\u00e1vio, mas depois de C\u00e9sar, por sua rela\u00e7\u00e3o com o primeiro C\u00e9sar e sua ado\u00e7\u00e3o em testamento. Pouco depois dessa divis\u00e3o, eles come\u00e7aram a lutar entre si, como era natural, e Ot\u00e1vio, que era superior em intelig\u00eancia e habilidade, primeiro privou L\u00e9pido da L\u00edbia, que lhe havia sido concedida, e depois, como resultado da batalha de \u00c1ccio, tirou de Ant\u00f4nio todas as prov\u00edncias entre a S\u00edria e o golfo de \u00c1ccio. Ent\u00e3o, enquanto todo o mundo estava repleto de espanto com essas maravilhosas demonstra\u00e7\u00f5es de poder, ele navegou para o Egito e tomou aquele pa\u00eds, o mais antigo dos reinos ent\u00e3o existentes, aquele que tinha sido o mais poderoso desde a morte de Alexandre, e o \u00fanico que faltava aos romanos para elevar seu imp\u00e9rio ao ponto em que est\u00e1 hoje. Essas grandezas valeram-lhe o ep\u00edteto de Augusto ainda em vida, um fen\u00f4meno para o qual os romanos ainda n\u00e3o tinham visto exemplo. Elas elevaram-no aos olhos de Roma e de todas as na\u00e7\u00f5es \u00e0s quais Roma ditava leis, a um grau de poder superior at\u00e9 mesmo ao que C\u00e9sar havia alcan\u00e7ado. Ele n\u00e3o precisou mais de elei\u00e7\u00e3o, nem de voto, nem mesmo de dissimula\u00e7\u00e3o ou hipocrisia. A perpetuidade do poder em suas m\u00e3os, a consist\u00eancia que ele soube lhe dar, sua felicidade em todas as coisas, e o peso imponente de seu nome fizeram com que ele deixasse o imp\u00e9rio para seus descendentes como um patrim\u00f4nio.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, a partir de m\u00faltiplas como\u00e7\u00f5es civis, o estado romano passou para a harmonia e a monarquia. Para mostrar como essas coisas aconteceram, escrevi e compilei esta narrativa, que vale muito a pena ser estudada por aqueles que desejam conhecer a insond\u00e1vel ambi\u00e7\u00e3o dos homens, sua terr\u00edvel sede de poder, sua perseveran\u00e7a incans\u00e1vel e as in\u00fameras formas de mal. Dedico-me a este trabalho ainda mais voluntariamente, pois v\u00e1rios desses eventos, precedendo aqueles que mudaram o destino do Egito e depois se mesclaram com eles, era apropriado que fossem mencionados primeiro. Pois o Egito foi conquistado durante a disputa entre Ant\u00f4nio e Ot\u00e1vio. O apoio que Cle\u00f3patra oferecia a Ant\u00f4nio foi o motivo. Vou dividir os temas, devido \u00e0 sua abund\u00e2ncia. Na primeira parte, incluirei as coisas que aconteceram desde Sempr\u00f4nio Graco at\u00e9 a morte de Sula. Na segunda, abrangerei aquelas que ocorreram desde a morte de Sula at\u00e9 a morte de C\u00e9sar. As tr\u00eas outras partes abordar\u00e3o tudo o que os tri\u00fanviros fizeram uns contra os outros e contra o povo romano, at\u00e9 o desfecho de todas as sedi\u00e7\u00f5es, que foi o ato mais importante, ou seja, at\u00e9 a Batalha de \u00c1ccio, vencida por Ot\u00e1vio contra Ant\u00f4nio e Cle\u00f3patra, e que servir\u00e1 como ponto de partida para a hist\u00f3ria do Egito.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando os romanos conquistaram partes da It\u00e1lia pela for\u00e7a militar, seu m\u00e9todo tradicional era ou tomar uma por\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio conquistado para estabelecer uma nova cidade, ou fundar col\u00f4nias de cidad\u00e3os romanos nas cidades j\u00e1 existentes. No entanto, eles come\u00e7aram a considerar a substitui\u00e7\u00e3o desse m\u00e9todo pelo uso de guarni\u00e7\u00f5es. A terra conquistada, da qual eles se tornaram propriet\u00e1rios pelo direito de conquista, era imediatamente distribu\u00edda entre aqueles interessados em se estabelecerem l\u00e1, se estivesse cultivada; caso contr\u00e1rio, era vendida ou alugada. Se a terra estivesse devastada pela guerra, o que era comum, era distribu\u00edda por sorteio ou leiloada, com um tributo anual exigido em produtos agr\u00edcolas, como um d\u00e9cimo das terras ar\u00e1veis e um quinto das terras de plantio. Para terras adequadas apenas para pastagem, era cobrado um tributo em animais grandes e animais menores. O objetivo era aumentar a popula\u00e7\u00e3o local, dispersa entre os povos da It\u00e1lia, considerada capaz de suportar trabalhos \u00e1rduos e fornecer auxiliares para os ex\u00e9rcitos romanos. No entanto, o resultado foi o oposto. Os cidad\u00e3os ricos monopolizaram a maior parte das terras incultas, considerando-se propriet\u00e1rios incontest\u00e1veis, com o tempo. Eles adquiriram terras por persuas\u00e3o ou viol\u00eancia, invadindo as pequenas propriedades dos vizinhos pobres. Grandes propriedades substitu\u00edram as pequenas fazendas. As terras e os rebanhos foram entregues a agricultores e pastores de condi\u00e7\u00e3o servil para evitar o recrutamento militar entre os homens livres. Essa estrat\u00e9gia resultou em um aumento significativo da popula\u00e7\u00e3o escrava, que se multiplicava livremente por n\u00e3o ser convocada para o servi\u00e7o militar. Como resultado, os ricos prosperaram, enquanto a popula\u00e7\u00e3o de escravos nas \u00e1reas rurais cresceu consideravelmente, e a popula\u00e7\u00e3o de homens livres declinou devido \u00e0 escassez, impostos e servi\u00e7o militar opressivo. Mesmo quando obtinham al\u00edvio no servi\u00e7o militar, os homens livres muitas vezes n\u00e3o tinham outra op\u00e7\u00e3o al\u00e9m da inatividade, j\u00e1 que as terras estavam nas m\u00e3os dos ricos, que preferiam empregar escravos em vez de homens livres para cultiv\u00e1-las.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante dessas preocupa\u00e7\u00f5es, a popula\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a temer a falta de aliados suficientes para o servi\u00e7o militar, bem como a amea\u00e7a representada pelo grande n\u00famero de escravos para o pr\u00f3prio governo. Sem encontrar uma solu\u00e7\u00e3o f\u00e1cil ou justa para o problema de privar os homens de suas propriedades, que haviam mantido por tanto tempo, incluindo terras, constru\u00e7\u00f5es e animais, uma lei foi finalmente promulgada com grande dificuldade, atendendo ao pedido dos tribunos. Esta legisla\u00e7\u00e3o estabelecia que ningu\u00e9m poderia possuir mais de 500 <em>jugera<\/em> de terra, ou pastar mais de 100 animais grandes ou 500 animais pequenos. Para garantir o cumprimento da lei, tamb\u00e9m foi determinado que um certo n\u00famero de homens livres seria empregado nas fazendas, com a responsabilidade de observar e relatar qualquer viola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Compreendendo a gravidade da situa\u00e7\u00e3o, os legisladores estabeleceram uma lei, incluindo juramentos e penalidades para aqueles que a violassem, com a expectativa de que a terra restante seria prontamente dividida entre os menos favorecidos em pequenas parcelas. Contudo, tanto a lei quanto os juramentos foram inteiramente ignorados. Os poucos que pareciam consider\u00e1-los transferiram fraudulentamente suas terras para parentes, enquanto a maioria simplesmente os desconsiderava. Nesse contexto, Tib\u00e9rio Sempr\u00f4nio Graco, uma figura destacada e eloquente, expressou de forma v\u00edvida suas preocupa\u00e7\u00f5es enquanto servia como tribuno. Ele lamentou a decad\u00eancia dos italianos, um povo valoroso em tempos de guerra e com la\u00e7os sangu\u00edneos com os romanos, que agora sofriam com a pobreza e a escassez populacional sem perspectiva de solu\u00e7\u00e3o. Graco considerava a enorme popula\u00e7\u00e3o de escravos in\u00fatil para a guerra e sempre potencialmente desleal aos seus mestres. Ele destacou a recente revolta dos escravos na Sic\u00edlia, motivada pelas demandas agr\u00edcolas excessivas, e relembrou a longa e perigosa guerra travada pelos romanos contra eles. Essa guerra n\u00e3o foi simples nem breve, mas prolongou-se com uma s\u00e9rie de reviravoltas perigosas da sorte. Em resposta, prop\u00f4s uma nova legisla\u00e7\u00e3o, limitando a posse de terras p\u00fablicas a 500 jugera por pessoa, com uma disposi\u00e7\u00e3o que permitiria aos filhos dos propriet\u00e1rios possuir metade dessa quantidade, enquanto o restante seria redistribu\u00eddo entre os pobres por meio de tr\u00eas comiss\u00e1rios eleitos anualmente.<\/p>\n\n\n\n<p>A introdu\u00e7\u00e3o da nova legisla\u00e7\u00e3o causou grande tumulto entre os ricos, pois, devido \u00e0 autoridade dos tri\u00fanviros, n\u00e3o podiam mais ignorar a lei como antes, nem adquirir terras alheias por meio de compra, j\u00e1 que Graco havia proibido tais transa\u00e7\u00f5es. Reuniram-se em grupos, expressando suas queixas e acusando os pobres de se apropriarem de suas terras, vinhas e casas. Alguns argumentavam que haviam comprado as terras dos vizinhos mediante pagamento justo \u2013 perderiam ent\u00e3o tanto o dinheiro quanto a terra? Outros mencionavam os t\u00famulos de seus ancestrais no solo que lhes fora atribu\u00eddo na partilha das propriedades paternas. Houve tamb\u00e9m quem alegasse que suas esposas haviam investido seus dotes nas terras ou que estas haviam sido destinadas \u00e0s filhas como heran\u00e7a. Agiotas exibiam empr\u00e9stimos garantidos por essas propriedades. Uma s\u00e9rie de lamentos e manifesta\u00e7\u00f5es de indigna\u00e7\u00e3o ressoavam simultaneamente. Por outro lado, os pobres tamb\u00e9m lamentavam, pois viam-se reduzidos da prosperidade \u00e0 extrema pobreza, e desta \u00e0 falta de descend\u00eancia, incapazes de fundar uma fam\u00edlia. Recordavam os servi\u00e7os militares prestados, pelos quais haviam recebido essas terras, e indignavam-se por serem privados de sua parte na propriedade comum. Criticavam os ricos por empregarem escravos, considerados sempre desleais e mal-intencionados, em vez de homens livres, cidad\u00e3os e soldados. Enquanto essas classes se acusavam mutuamente, um grande n\u00famero de colonos, moradores de cidades livres e outros interessados na quest\u00e3o das terras, preocupados com as mesmas apreens\u00f5es, juntaram-se \u00e0s suas respectivas fac\u00e7\u00f5es, indo a Roma e dando seu apoio para um lado ou para outro. Encorajados pelo grande n\u00famero e exacerbados uns contra os outros, provocaram dist\u00farbios consider\u00e1veis e aguardaram ansiosamente a vota\u00e7\u00e3o da nova lei, alguns buscando impedir sua promulga\u00e7\u00e3o a todo custo, enquanto outros desejavam que fosse aprovada. Al\u00e9m dos interesses pessoais, o esp\u00edrito de rivalidade impulsionava ambos os lados em suas prepara\u00e7\u00f5es para o confronto no dia marcado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, a proposta de Graco n\u00e3o se limitava apenas \u00e0 quest\u00e3o financeira, mas tamb\u00e9m buscava fortalecer o a popula\u00e7\u00e3o. Profundamente inspirado pela valoriza\u00e7\u00e3o do trabalho e convencido de que nada poderia ser mais vantajoso ou louv\u00e1vel para a It\u00e1lia, ele enfrentou as dificuldades que cercavam sua proposta. Durante a vota\u00e7\u00e3o, apresentou uma s\u00e9rie de extensos argumentos, questionando se n\u00e3o era justo permitir que o povo compartilhasse a propriedade comum, se um cidad\u00e3o n\u00e3o merecia mais considera\u00e7\u00e3o do que um escravo, se um homem que servia no ex\u00e9rcito n\u00e3o era mais \u00fatil do que aquele que n\u00e3o servia, e se quem tinha uma parte na terra n\u00e3o era mais inclinado a se dedicar aos interesses p\u00fablicos. Evitou prolongar a compara\u00e7\u00e3o entre homens livres e escravos, considerando-a degradante, e concentrou-se em revisar suas esperan\u00e7as e temores para o pa\u00eds. Destacou que os romanos haviam conquistado a maior parte de seu territ\u00f3rio e aspiravam ocupar o restante do mundo habit\u00e1vel. No entanto, alertou que o maior risco era se eles conseguissem isso com muitos homens valentes ou se seus inimigos tirariam o que j\u00e1 possu\u00edam devido \u00e0 fraqueza e aos ci\u00fames m\u00fatuos. Ele exagerou a gl\u00f3ria e a prosperidade associadas a uma dessas op\u00e7\u00f5es, e o perigo e o medo associados \u00e0 outra. Advertiu os ricos a agirem com cautela, sugerindo que, para alcan\u00e7arem suas esperan\u00e7as, deveriam oferecer essa terra como um presente gratuito, se necess\u00e1rio, a homens que tivessem filhos, em vez de negligenciar quest\u00f5es maiores ao discutir detalhes menores.<\/p>\n\n\n\n<p>Destacou que, para qualquer esfor\u00e7o que investissem, estavam recebendo uma compensa\u00e7\u00e3o generosa na forma de 500 jugera de terra livre, altamente cultivada, sem custo, e metade disso para cada filho daqueles que tivessem descendentes. Ap\u00f3s muitas palavras nesse sentido, instigando tanto os pobres quanto aqueles movidos pela raz\u00e3o al\u00e9m do amor \u00e0s suas posses, ele ordenou ao escriv\u00e3o que lesse a lei proposta.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, Marco Ot\u00e1vio, outro tribuno, que havia sido influenciado por aqueles que detinham as terras a interpor seu veto (pois entre os romanos, o veto negativo sempre prevalece sobre uma proposta afirmativa), ordenou ao escriv\u00e3o que se calasse. Graco o repreendeu severamente e adiou a reuni\u00e3o da comitia para o dia seguinte. Em seguida, ele posicionou uma guarda pr\u00f3xima a si, como se fosse compelir Ot\u00e1vio contra sua vontade, e amea\u00e7ou o escriv\u00e3o para que lesse a proposta de lei para a multid\u00e3o. O escriv\u00e3o come\u00e7ou a ler, mas quando Ot\u00e1vio novamente proibiu, ele parou. Ent\u00e3o os tribunos come\u00e7aram a brigar entre si, e um tumulto consider\u00e1vel se levantou entre o povo. Cidad\u00e3os proeminentes imploraram aos tribunos que submetessem sua controv\u00e9rsia ao Senado para decis\u00e3o. Graco aproveitou a sugest\u00e3o, acreditando que a lei era aceit\u00e1vel para todas as pessoas bem-intencionadas, e correu para o Senado. No entanto, como tinha apenas alguns seguidores l\u00e1 e foi repreendido pelos ricos, ele retornou apressadamente ao f\u00f3rum e declarou que tomaria o voto na comitia do dia seguinte, tanto sobre a lei quanto sobre os direitos oficiais de Ot\u00e1vio, para determinar se um tribuno que agisse contra o interesse do povo poderia continuar no cargo. E assim Graco fez; pois quando Ot\u00e1vio, sem se intimidar, interveio novamente, Graco prop\u00f4s que o voto sobre ele fosse realizado primeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a primeira tribo votou pela destitui\u00e7\u00e3o do magistrado de Ot\u00e1vio, Graco dirigiu-se a ele e pediu-lhe que retirasse seu veto. Diante da recusa de Ot\u00e1vio, Graco prosseguiu com a vota\u00e7\u00e3o nas outras tribos. Na \u00e9poca, havia trinta e cinco tribos. As dezessete que votaram inicialmente apoiaram fervorosamente a mo\u00e7\u00e3o. Se a d\u00e9cima oitava seguisse o mesmo padr\u00e3o, isso resultaria em maioria. Novamente, diante do povo, Graco instou com Ot\u00e1vio, destacando o perigo extremo em que ele se encontrava ao obstruir um trabalho que era mais justo e \u00fatil para toda a It\u00e1lia. Ele o exortou a n\u00e3o frustrar os desejos sinceramente acalentados pelo povo, que ele, como tribuno, deveria compartilhar mais, nem olhar com indiferen\u00e7a a perda de seu cargo por condena\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Ap\u00f3s essas palavras, invocou os deuses como testemunhas de sua inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o desrespeitosa para com seu colega magistrado. Diante da inflexibilidade de Ot\u00e1vio, Graco continuou a tomar os votos. Ot\u00e1vio foi imediatamente destitu\u00eddo de seu posto como tribuno e saiu despercebido. Quinto M\u00famio foi escolhido como seu substituto, e a lei agr\u00e1ria foi promulgada.<\/p>\n\n\n\n<p>Os primeiros tri\u00fanviros designados para implementar a divis\u00e3o da terra foram Graco, o pr\u00f3prio proponente da lei, seu irm\u00e3o hom\u00f4nimo e seu sogro, \u00c1pio Cl\u00e1udio. Isso porque o povo ainda temia que a lei pudesse n\u00e3o ser executada corretamente caso Graco n\u00e3o liderasse com toda a sua fam\u00edlia. A popularidade de Graco cresceu enormemente devido \u00e0 lei, e ele foi acompanhado em triunfo at\u00e9 sua casa pela multid\u00e3o, como se fosse o fundador n\u00e3o apenas de uma \u00fanica cidade ou ra\u00e7a, mas de todas as na\u00e7\u00f5es da It\u00e1lia. Ap\u00f3s isso, aqueles que tiveram \u00eaxito voltaram para seus campos de origem para cuidar de seus assuntos. Os derrotados permaneceram na cidade e debateram o assunto, sentindo-se injusti\u00e7ados. Eles expressaram a cren\u00e7a de que, assim que Graco se tornasse um cidad\u00e3o comum, lamentaria por ter desrespeitado o sagrado e inviol\u00e1vel cargo de tribuno, e por ter semeados tantas sementes de futuras contendas na It\u00e1lia.<\/p>\n\n\n\n<p>Era ver\u00e3o e as elei\u00e7\u00f5es para tribunos estavam se aproximando rapidamente. \u00c0 medida que o per\u00edodo eleitoral se aproximava, os cidad\u00e3os ricos pareciam estar agindo de forma a favorecer aqueles que seriam os mais fervorosos opositores de Graco. Temendo as consequ\u00eancias se n\u00e3o fosse reeleito para o pr\u00f3ximo ano, Graco convocou seus amigos dos campos para participarem das elei\u00e7\u00f5es. No entanto, como estavam ocupados com a colheita, Graco foi obrigado a recorrer aos plebeus da cidade quando o dia da vota\u00e7\u00e3o se aproximava. Ele ent\u00e3o percorreu a cidade, solicitando individualmente a cada um que o elegesse novamente como tribuno para o ano seguinte, explicando o perigo em que estava e buscando seu apoio. Quando a vota\u00e7\u00e3o ocorreu, as duas primeiras tribos votaram a favor de Graco. Os ricos objetaram, argumentando que era ilegal uma mesma pessoa ocupar o cargo duas vezes seguidas. O tribuno R\u00fabrio, encarregado de presidir esta assembleia, ficou em d\u00favida sobre essa quest\u00e3o, e M\u00famio, que havia sido escolhido no lugar de Ot\u00e1vio, instou-o a passar a lideran\u00e7a para ele. R\u00fabrio concordou, mas os demais tribunos contestaram que a lideran\u00e7a deveria ser decidida por sorteio, argumentando que quando R\u00fabrio, selecionado dessa forma, renunciou, o sorteio deveria ser feito novamente. Diante da controv\u00e9rsia, Graco, em uma posi\u00e7\u00e3o desfavor\u00e1vel, adiou a vota\u00e7\u00e3o para o dia seguinte. Desesperado, ele vestiu-se de luto, apesar de ainda estar no cargo, e levou seu filho pelo f\u00f3rum, apresentando-o a cada homem e confiando-o a eles, como se sentisse que sua morte, pelas m\u00e3os de seus inimigos, estivesse pr\u00f3xima.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando tiveram um momento para refletir, os pobres foram tomados por uma profunda tristeza, tanto por si mesmos (temendo que n\u00e3o mais viveriam em uma condi\u00e7\u00e3o livre sob leis igualit\u00e1rias, mas seriam reduzidos \u00e0 servid\u00e3o pelos ricos), quanto por Graco, que estava sofrendo tanto em seu nome. Assim, todos o acompanharam com l\u00e1grimas at\u00e9 sua casa naquela noite e lhe pediram coragem para enfrentar o dia seguinte. Graco se fortaleceu, reuniu seus seguidores antes do amanhecer e lhes comunicou um sinal a ser mostrado caso houvesse necessidade de lutar. Ent\u00e3o, ele ocupou o templo no Monte Capitolino, onde a vota\u00e7\u00e3o estava programada para acontecer, e ficou no centro da assembleia. No entanto, ele foi impedido pelos outros tribunos e pelos ricos, que se recusaram a permitir que os votos fossem tomados sobre essa quest\u00e3o. Diante disso, ele deu o sinal. Houve um grito repentino daqueles que estavam cientes disso, e a viol\u00eancia irrompeu. Alguns dos apoiadores de Graco posicionaram-se ao seu redor como uma guarda, enquanto outros, munidos de feixes e cajados dos lictores, quebraram-nos em peda\u00e7os. Eles expulsaram os ricos da assembleia em meio a uma confus\u00e3o t\u00e3o intensa e com tantas les\u00f5es que os tribunos fugiram de seus assentos, e os sacerdotes fecharam as portas do templo. Muitos fugiram em desordem e espalharam rumores selvagens. Alguns diziam que Graco havia destitu\u00eddo todos os outros tribunos, e essa informa\u00e7\u00e3o foi aceita, pois nenhum deles podia ser encontrado. Outros afirmavam que ele havia se autodeclarado tribuno para o ano seguinte sem necessidade de elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante dessas circunst\u00e2ncias, o Senado se reuniu no templo de Fides. \u00c9 surpreendente para mim que eles nunca tenham cogitado nomear um ditador nessa emerg\u00eancia, embora muitas vezes tenham recorrido ao governo de um \u00fanico l\u00edder em tempos de perigo semelhantes; no entanto, um recurso que havia sido encontrado \u00fatil em tempos anteriores sequer cruzou a mente do povo, seja naquela ocasi\u00e3o ou posteriormente. Ap\u00f3s chegarem a essa decis\u00e3o, marcharam at\u00e9 o Capitolino, liderados por Corn\u00e9lio Cipi\u00e3o N\u00e1sica, o pont\u00edfice m\u00e1ximo, que clamava em voz alta: &#8220;Que aqueles que desejam salvar nossa p\u00e1tria me sigam.&#8221; Ele enrolou a borda de sua toga em torno da cabe\u00e7a, talvez para atrair um n\u00famero maior para segui-lo pela singularidade de sua apar\u00eancia, ou para se apresentar como um sinal de batalha para aqueles que o vissem, ou at\u00e9 mesmo para se esconder dos deuses devido ao que estava prestes a acontecer. Ao chegar ao templo e avan\u00e7ar contra os partid\u00e1rios de Graco, estes cederam em considera\u00e7\u00e3o a um cidad\u00e3o t\u00e3o ilustre, e tamb\u00e9m porque viram os senadores marchando ao seu lado. Os senadores, arrancando os bast\u00f5es das m\u00e3os dos pr\u00f3prios seguidores de Graco, ou quebrando bancos e outros m\u00f3veis trazidos para uso da assembleia, come\u00e7aram a atac\u00e1-los e persegui-los, expulsando-os do precip\u00edcio. No tumulto, muitos dos seguidores de Graco pereceram, e o pr\u00f3prio Graco, vagando sem rumo ao redor do templo, foi morto \u00e0 sua porta, perto das est\u00e1tuas dos reis. Todos os corpos foram lan\u00e7ados no Tibre durante a noite.<\/p>\n\n\n\n<p>No Capitolino, pereceu Graco, ainda exercendo o cargo de tribuno, filho daquele Graco que foi c\u00f4nsul duas vezes, e de Corn\u00e9lia, filha daquele Cipi\u00e3o que tirou Cartago de sua supremacia. Ele encontrou seu fim devido a um objetivo nobre buscado com muita intensidade; esse crime atroz, o primeiro a ocorrer na assembleia p\u00fablica, raramente ficou sem paralelos em tempos posteriores. Ap\u00f3s o assassinato de Graco, a cidade ficou dividida entre tristeza e alegria. Alguns lamentavam tanto por si mesmos quanto por ele, e lamentavam a condi\u00e7\u00e3o atual das coisas, acreditando que a rep\u00fablica n\u00e3o mais existia, mas havia sido substitu\u00edda pela for\u00e7a e pela viol\u00eancia. Outros consideravam que seus desejos mais profundos haviam sido realizados.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses eventos ocorreram quando Arist\u00f4nico lutava contra os romanos pelo controle da \u00c1sia. Ap\u00f3s a morte de Graco e \u00c1pio Cl\u00e1udio, F\u00falvio Flaco e Pap\u00edrio Carb\u00e3o foram designados, junto com o jovem Graco, para realizar a distribui\u00e7\u00e3o de terras. Como muitos propriet\u00e1rios das terras negligenciaram entregar listas de suas propriedades, uma proclama\u00e7\u00e3o foi emitida exigindo que informantes fornecessem testemunho contra eles. Isso resultou imediatamente em uma s\u00e9rie de processos dif\u00edceis. Em \u00e1reas onde novos campos haviam sido adquiridos ao lado de campos antigos, ou onde a terra foi dividida entre aliados, todo o distrito precisava ser minuciosamente investigado para determinar como essas transa\u00e7\u00f5es ocorreram. Muitos propriet\u00e1rios n\u00e3o haviam mantido seus contratos ou t\u00edtulos de loteamento, e mesmo quando encontrados, frequentemente eram inconclusivos. Durante a nova investiga\u00e7\u00e3o das terras, alguns propriet\u00e1rios foram for\u00e7ados a renunciar a terras com \u00e1rvores frut\u00edferas, estruturas agr\u00edcolas, e outras terras cultivadas em troca de terras nuas. Outros foram realocados de terras cultivadas para terras incultas, p\u00e2ntanos ou \u00e1reas alagadas. Originalmente, o levantamento das terras, sendo um esp\u00f3lio de guerra, nunca foi feito de maneira cuidadosa. A proclama\u00e7\u00e3o original permitia que qualquer pessoa trabalhasse nas terras distribu\u00eddas, incentivando muitos a cultivar as partes imediatamente adjacentes \u00e0s suas, at\u00e9 que a linha entre terras p\u00fablicas e privadas se tornasse indistinta. Com o passar do tempo, muitas mudan\u00e7as ocorreram. Assim, a injusti\u00e7a cometida pelos ricos, embora significativa, era dif\u00edcil de ser determinada, resultando em uma grande confus\u00e3o, com todas as partes sendo deslocadas de seus lugares originais e reassentadas nas terras de outras pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Os aliados italianos, incomodados com as perturba\u00e7\u00f5es e os processos movidos apressadamente contra eles, decidiram recorrer a Corn\u00e9lio Cipi\u00e3o, conhecido como o destruidor de Cartago, para defender suas queixas. Dado o seu apoio zeloso durante a guerra, ele relutava em ignorar o pedido deles. Assim, dirigiu-se ao Senado e, embora n\u00e3o criticasse abertamente a lei de Graco em considera\u00e7\u00e3o aos plebeus, exp\u00f4s suas dificuldades e argumentou que tais causas n\u00e3o deveriam ser decididas pelos tri\u00fanviros, pois estes n\u00e3o gozavam da confian\u00e7a dos litigantes, sugerindo que fossem atribu\u00eddas a outros tribunais. Sua perspectiva parecia sensata, e o Senado cedeu \u00e0 sua persuas\u00e3o, nomeando o c\u00f4nsul Tuditano para julgar esses casos.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, ao assumir a tarefa, Tuditano, percebendo as dificuldades, marchou contra os il\u00edrios, usando isso como pretexto para evitar agir como juiz. Como nenhum caso foi apresentado aos tri\u00fanviros, eles permaneceram ociosos. Isso gerou \u00f3dio e indigna\u00e7\u00e3o do povo contra Cipi\u00e3o, que antes era apoiado por eles em suas disputas com a aristocracia, e a quem eles haviam eleito c\u00f4nsul duas vezes de forma inconstitucional, e agora estava do lado dos aliados italianos contra eles mesmos. Os inimigos de Cipi\u00e3o aproveitaram-se disso, acusando-o de estar determinado a abolir completamente a lei de Graco e de estar disposto a iniciar uma luta armada e derramamento de sangue para alcan\u00e7ar esse objetivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o povo ouviu tais acusa\u00e7\u00f5es, ficou alarmado. Cipi\u00e3o, naquela mesma noite, colocou uma tabuleta perto de sua cama em casa, na qual pretendia escrever o discurso que faria perante o povo. No entanto, na manh\u00e3 seguinte, foi encontrado morto em sua cama, sem nenhum ferimento vis\u00edvel. A quest\u00e3o de se isso foi feito por Corn\u00e9lia, m\u00e3e dos Gracos (possivelmente com a ajuda de sua filha, Sempr\u00f4nia, que, apesar de casada com Cipi\u00e3o, era desprezada e negligenciada por ser deformada e est\u00e9ril), para evitar a aboli\u00e7\u00e3o da lei de Graco, ou se Cipi\u00e3o cometeu suic\u00eddio ao perceber que n\u00e3o poderia cumprir suas promessas, permanece incerta. Alguns relatam que escravos, sob tortura, testemunharam a entrada de pessoas desconhecidas pela retaguarda da casa durante a noite, que sufocaram Cipi\u00e3o. Aqueles que tinham conhecimento do ocorrido hesitaram em revelar, pois o povo ainda estava ressentido com Cipi\u00e3o e se alegraria com sua morte.<\/p>\n\n\n\n<p>Cipi\u00e3o morreu dessa forma, apesar de seus grandes servi\u00e7os para o dom\u00ednio de Roma no mundo, sem sequer receber as honras de um funeral p\u00fablico. Isso mostra como a raiva do momento presente pode pesar mais do que a gratid\u00e3o pelo passado. Esse evento, que por si s\u00f3 seria significativo, ocorreu como um simples incidente dentro do contexto da sedi\u00e7\u00e3o de Graco.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo ap\u00f3s esses eventos, aqueles que detinham as terras continuaram adiando a divis\u00e3o sob v\u00e1rios pretextos por um longo tempo. Alguns sugeriram que a todos os aliados italianos, que resistiam fortemente a isso, fossem concedidos a cidadania romana, de modo que, em gratid\u00e3o por esse grande favor, n\u00e3o mais contestassem a terra. Os italianos estavam dispostos a aceitar essa proposta, pois preferiam a cidadania romana \u00e0 posse das terras. F\u00falvio Flaco, que na \u00e9poca era tanto c\u00f4nsul quanto tri\u00fanviro, empenhou-se ao m\u00e1ximo para realizar esse desejo, mas os senadores ficaram irritados com a ideia de igualar seus s\u00faditos a eles pr\u00f3prios.<\/p>\n\n\n\n<p>Por essa raz\u00e3o, a tentativa foi abandonada, deixando o povo, que h\u00e1 muito tempo ansiava por terras, desanimado. Em meio a esse desalento, Caio Graco, que havia conquistado a simpatia deles como tribuno, lan\u00e7ou-se como candidato ao tribunato. Ele era o irm\u00e3o mais novo de Tib\u00e9rio Graco, o proponente da lei agr\u00e1ria, e havia permanecido em sil\u00eancio por um tempo ap\u00f3s a morte de seu irm\u00e3o. No entanto, diante do desprezo de muitos senadores, ele se apresentou como postulante ao cargo de tribuno. Ele foi eleito com grande \u00eaxito e come\u00e7ou a articular conspira\u00e7\u00f5es contra o Senado. Graco fez uma proposta sem precedentes: a distribui\u00e7\u00e3o mensal de trigo a cada cidad\u00e3o \u00e0s custas p\u00fablicas. Essa medida pol\u00edtica lhe garantiu rapidamente a lideran\u00e7a do povo, contando com a coopera\u00e7\u00e3o de F\u00falvio Flaco. Logo em seguida, ele foi escolhido tribuno para o ano seguinte, pois, nos casos em que n\u00e3o havia um n\u00famero suficiente de candidatos, a lei permitia que o povo selecionasse mais tribunos dentre o corpo total de cidad\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, Caio Graco tornou-se tribuno pela segunda vez. Ap\u00f3s ter conquistado, por assim dizer, os plebeus, ele iniciou outra manobra pol\u00edtica semelhante para atrair a ordem equestre, que ocupava uma posi\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria entre o Senado e os plebeus. Graco transferiu os tribunais de justi\u00e7a, que haviam sido desacreditados devido \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, dos senadores para os cavaleiros. Ele censurou especialmente os senadores, citando exemplos recentes de \u00c1urelio Cota, Salinador e M\u00e2nio Aqu\u00edlio (conhecido como o dominador da \u00c1sia), todos not\u00f3rios por receberem subornos e que haviam sido absolvidos pelos ju\u00edzes, mesmo com embaixadores presentes enviados para protestar contra sua conduta. O Senado, envergonhado com esses acontecimentos, cedeu \u00e0 lei, que foi ratificada pelo povo. Assim, os tribunais de justi\u00e7a foram transferidos do Senado para os cavaleiros. Diz-se que logo ap\u00f3s a promulga\u00e7\u00e3o dessa lei, Graco comentou que havia enfraquecido o poder do Senado de uma vez por todas, e o ditado de Graco ganhou um significado ainda mais profundo ao longo dos eventos subsequentes. Isso porque o poder de julgar todos os romanos e italianos, inclusive os pr\u00f3prios senadores, em quest\u00f5es relacionadas \u00e0 propriedade, direitos civis e ex\u00edlio, elevava os cavaleiros a governantes sobre eles, colocando os senadores no n\u00edvel de s\u00faditos. Al\u00e9m disso, como os cavaleiros votavam nas elei\u00e7\u00f5es para apoiar o poder dos tribunos e obtinham concess\u00f5es em troca, tornavam-se cada vez mais poderosos em rela\u00e7\u00e3o aos senadores. Assim, a supremacia pol\u00edtica foi rapidamente invertida, com o poder nas m\u00e3os dos cavaleiros e a honra apenas remanescente no Senado. Os cavaleiros, de fato, foram t\u00e3o longe que n\u00e3o apenas tinham poder sobre os senadores, mas desafiavam abertamente sua autoridade al\u00e9m do devido. Tamb\u00e9m se entregaram ao suborno, e ao se beneficiarem desses ganhos enormes, tornaram-se ainda mais \u00e1vidos e descontrolados do que os pr\u00f3prios senadores. Subornavam acusadores contra os ricos e eliminavam completamente as acusa\u00e7\u00f5es por suborno, seja por acordo m\u00fatuo ou por meio de viol\u00eancia aberta, tornando obsoleta a pr\u00e1tica desse tipo de investiga\u00e7\u00e3o. Assim, a reforma judicial de Graco desencadeou outra luta de fac\u00e7\u00f5es, que perdurou por muito tempo e foi t\u00e3o prejudicial quanto as anteriores.<\/p>\n\n\n\n<p>Graco empreendeu a constru\u00e7\u00e3o de extensas estradas por toda a It\u00e1lia, colocando assim uma multid\u00e3o de empreiteiros e artes\u00e3os em sua d\u00edvida e tornando-os dispostos a atender aos seus desejos. Al\u00e9m disso, ele prop\u00f4s a cria\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias col\u00f4nias e convocou os aliados latinos a reivindicarem plenos direitos de cidadania romana, argumentando que o Senado n\u00e3o poderia, com dec\u00eancia, negar esse privil\u00e9gio a pessoas parentes suas. Para os outros aliados, que n\u00e3o tinham permiss\u00e3o para votar nas elei\u00e7\u00f5es romanas, ele buscou garantir o direito de voto, visando obter seu apoio na aprova\u00e7\u00e3o das leis que tinha em mente.<\/p>\n\n\n\n<p>O Senado ficou profundamente alarmado com essas propostas e instruiu os c\u00f4nsules a emitirem um aviso p\u00fablico: &#8220;Ningu\u00e9m que n\u00e3o possua o direito de voto deve permanecer na cidade ou se aproximar dentro de quarenta est\u00e1dios dela durante a vota\u00e7\u00e3o sobre essas leis.&#8221; Al\u00e9m disso, o Senado persuadiu L\u00edvio Druso, outro tribuno, a vetar as leis propostas por Graco, embora n\u00e3o tenha revelado ao povo suas raz\u00f5es para faz\u00ea-lo, pois n\u00e3o era necess\u00e1rio que um tribuno fornecesse justificativas para seu veto. Para apaziguar o povo, concederam a Druso o privil\u00e9gio de fundar doze col\u00f4nias, o que deixou os plebeus t\u00e3o satisfeitos que ridicularizaram as leis propostas por Graco.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s perder o favor da plebe, Graco partiu para a \u00c1frica acompanhado de F\u00falvio Flaco, que, ap\u00f3s seu consulado, tamb\u00e9m fora escolhido tribuno pelos mesmos motivos que Graco. Decidiu-se enviar uma col\u00f4nia para a \u00c1frica devido \u00e0 sua reputada fertilidade, e esses homens foram selecionados especificamente como fundadores para afast\u00e1-los por um tempo, permitindo assim que o Senado tivesse um intervalo da demagogia. Eles demarcaram a cidade para a col\u00f4nia no local onde Cartago anteriormente existira, ignorando o fato de que Cipi\u00e3o, ao destru\u00ed-la, a havia dedicado com solenes impreca\u00e7\u00f5es \u00e0 pastagem de ovelhas para sempre. Designaram 6000 colonos para este lugar, em vez do menor n\u00famero estipulado por lei, para continuar a agradar o povo com isso. Ao retornarem a Roma, convidaram os 6000 de toda a It\u00e1lia. Os funcion\u00e1rios que ainda estavam na \u00c1frica, delimitando a cidade, escreveram para casa relatando que lobos haviam arrancado e espalhado os marcos de fronteira feitos por Graco e F\u00falvio, o que os \u00e1ugures interpretaram como um mau press\u00e1gio para a col\u00f4nia. Diante disso, o Senado convocou uma assembleia, na qual foi proposta a revoga\u00e7\u00e3o da lei relativa a esta col\u00f4nia. Ao perceberem sua derrota neste tema, Graco e F\u00falvio ficaram furiosos e acusaram o Senado de mentir sobre os lobos. Os plebeus mais audaciosos juntaram-se a eles, armados com adagas, e dirigiram-se ao Capit\u00f3lio, onde a assembleia sobre a col\u00f4nia deveria ser realizada.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse ponto, com a assembleia j\u00e1 reunida e F\u00falvio iniciando a discuss\u00e3o sobre o assunto em quest\u00e3o, Graco chegou ao Capit\u00f3lio acompanhado por um grupo de seus seguidores. Consciente dos planos em curso e preocupado com o que estava prestes a acontecer, ele evitou a \u00e1rea da assembleia, posicionando-se no p\u00f3rtico para observar os eventos. Nesse momento, um plebeu chamado Antilo, que estava realizando um sacrif\u00edcio no p\u00f3rtico, percebeu a agita\u00e7\u00e3o de Graco e, talvez tendo ouvido ou suspeitado algo, ou movido por outra motiva\u00e7\u00e3o, aproximou-se e implorou que Graco n\u00e3o prejudicasse sua p\u00e1tria. Graco, j\u00e1 perturbado e agora ainda mais assustado por ser confrontado de repente, lan\u00e7ou-lhe um olhar penetrante. Um de seus partid\u00e1rios, sem que Graco desse qualquer sinal ou ordem, interpretou o olhar furioso como um sinal de que era hora de agir e decidiu fazer um favor a Graco dando o primeiro golpe. Assim, ele sacou sua adaga e assassinou Antilo. Um tumulto irrompeu, o corpo do plebeu jazia no meio da multid\u00e3o, e os presentes fugiram do templo apavorados com o que poderia ocorrer em seguida. Graco tentou se explicar no f\u00f3rum, mas ningu\u00e9m estava disposto a ouvi-lo; todos o evitavam como se estivesse manchado de sangue. Tanto ele quanto F\u00falvio, desorientados e privados da oportunidade de alcan\u00e7ar seus objetivos devido a esse ato impensado, retornaram apressadamente para suas casas, acompanhados por seus seguidores. O restante da popula\u00e7\u00e3o ocupou o f\u00f3rum ap\u00f3s a meia-noite, como se antecipassem uma calamidade iminente. O c\u00f4nsul Op\u00edmio, presente na cidade, ordenou que uma for\u00e7a armada fosse reunida no Capit\u00f3lio ao amanhecer e enviou arautos para convocar o Senado. Ele pr\u00f3prio se posicionou no templo de Castor e P\u00f3lux, no centro da cidade, aguardando os desdobramentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando esses arranjos foram feitos, o Senado convocou Graco e Flaco de suas resid\u00eancias para a Casa do Senado para que pudessem se defender. No entanto, eles optaram por sair armados em dire\u00e7\u00e3o ao monte Aventino, na esperan\u00e7a de tomar o controle dele antes e for\u00e7ar o Senado a negociar com eles em seus pr\u00f3prios termos. Enquanto percorriam a cidade, tentavam convencer os escravos a se juntarem a eles em v\u00e3o. Apesar disso, com as for\u00e7as que tinham, conseguiram ocupar e fortificar o templo de Diana. Enviaram ent\u00e3o Quinto, filho de Flaco, ao Senado em busca de uma solu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica. O Senado exigiu que eles depusessem as armas, comparecessem \u00e0 Casa do Senado e apresentassem suas demandas, ou ent\u00e3o cessassem o envio de mensageiros. Na segunda tentativa de Quinto, o c\u00f4nsul Op\u00edmio o prendeu por n\u00e3o ser mais considerado um enviado ap\u00f3s o aviso anterior. Simultaneamente, ele enviou seus homens armados contra os Seguidores de Graco. Graco fugiu pelo rio atrav\u00e9s de uma ponte de madeira com apenas um escravo, refugiando-se em um bosque, onde, prestes a ser capturado, pediu ao escravo que o matasse. Flaco se escondeu na oficina de um conhecido. Seus perseguidores, incapazes de localiz\u00e1-lo, amea\u00e7aram incendiar toda a fileira de casas. O homem que havia dado abrigo a Flaco hesitou em entreg\u00e1-lo, mas apontou outro para faz\u00ea-lo. Flaco foi capturado e executado. As cabe\u00e7as de Graco e Flaco foram apresentadas a Op\u00edmio, que recompensou aqueles que as trouxeram com o peso delas em ouro, enquanto o povo saqueava suas resid\u00eancias. Op\u00edmio ent\u00e3o prendeu os demais conspiradores, mandando-os para a pris\u00e3o, onde foram estrangulados; no entanto, permitiu que Quinto, filho de Flaco, escolhesse seu pr\u00f3prio modo de morte. Ap\u00f3s esses eventos, uma purifica\u00e7\u00e3o da cidade foi realizada atrav\u00e9s do derramamento de sangue, e o Senado ordenou a constru\u00e7\u00e3o de um templo para a Conc\u00f3rdia no f\u00f3rum.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi desta forma o fim da revolta do jovem Graco. Pouco tempo depois, uma lei foi promulgada permitindo que os propriet\u00e1rios vendessem as terras sobre as quais havia disputas; algo proibido pela lei do Graco mais velho. Imediatamente, os ricos come\u00e7aram a adquirir as concess\u00f5es dos pobres ou buscavam pretextos para tom\u00e1-las \u00e0 for\u00e7a. Consequentemente, a situa\u00e7\u00e3o dos pobres se deteriorou ainda mais do que antes. Foi ent\u00e3o que Esp\u00fario T\u00f3rio, um tribuno do povo, introduziu uma lei que encerrava o processo de redistribui\u00e7\u00e3o da propriedade p\u00fablica. Segundo essa lei, a terra seria de quem a possu\u00edsse, pagando aluguel ao povo, e a receita assim gerada seria distribu\u00edda. Embora essa distribui\u00e7\u00e3o tenha sido um al\u00edvio para os pobres, n\u00e3o contribuiu para aumentar a popula\u00e7\u00e3o. Por meio dessas medidas, a eficaz e ben\u00e9fica lei de Graco, se tivesse sido implementada, foi frustrada. Mais tarde, o pr\u00f3prio sistema de aluguel foi abolido por influ\u00eancia de outro tribuno. Com isso, os plebeus perderam tudo, o que resultou em uma queda ainda maior no n\u00famero de cidad\u00e3os e soldados, na receita da terra e sua distribui\u00e7\u00e3o, e nas pr\u00f3prias concess\u00f5es. Cerca de quinze anos ap\u00f3s a promulga\u00e7\u00e3o da lei de Graco, devido a uma s\u00e9rie de processos, o povo foi reduzido ao desespero do desemprego.<\/p>\n\n\n\n<p>Por volta desse per\u00edodo, o c\u00f4nsul Cipi\u00e3o N\u00e1sica ordenou a demoli\u00e7\u00e3o do teatro iniciado por L\u00facio C\u00e1ssio, que estava quase conclu\u00eddo, pois considerava-o uma poss\u00edvel fonte de novas sedi\u00e7\u00f5es ou porque acreditava que os romanos n\u00e3o deveriam se acostumar aos prazeres gregos. Enquanto isso, o censor Quinto Cec\u00edlio Metelo tentou rebaixar Gl\u00e1ucia, um senador, e Apuleio Saturnino, um ex-tribuno, devido ao seu estilo de vida vergonhoso, mas n\u00e3o teve sucesso devido \u00e0 falta de concord\u00e2ncia de seu colega censor. Como resultado, Apuleio, mais tarde, para se vingar de Metelo, apresentou-se novamente como candidato nas elei\u00e7\u00f5es para tribunos, aproveitando-se do fato de que Gl\u00e1ucia estava atuando como pretor e presidia as elei\u00e7\u00f5es dos tribunos. No entanto, N\u00f4nio, um homem de nobre linhagem conhecido por sua franqueza ao criticar Apuleio e Gl\u00e1ucia, foi eleito para o cargo. Temendo que N\u00f4nio os punisse como tribuno, eles o atacaram com uma multid\u00e3o de agressores assim que ele saiu das elei\u00e7\u00f5es, perseguindo-o at\u00e9 uma estalagem onde o esfaquearam. Esse assassinato, por sua natureza tr\u00e1gica e chocante, levou os seguidores de Gl\u00e1ucia a se reunirem cedo na manh\u00e3 seguinte, antes que o povo se reunisse, e elegeram Apuleio como tribuno.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa maneira, o assassinato de N\u00f4nio foi abafado, pois todos temiam responsabilizar Apuleio, j\u00e1 que ele era um tribuno; e Metelo foi exilado por seus inimigos com a assist\u00eancia de Caio M\u00e1rio, ent\u00e3o em seu sexto consulado, e seu inimigo secreto. Todos eles colaboraram nesse esfor\u00e7o. Ent\u00e3o, Apuleio prop\u00f4s uma lei para distribuir as terras que os Cimbros, uma tribo celta recentemente expulsa por M\u00e1rio, haviam tomado no territ\u00f3rio agora conhecido como G\u00e1lia pelos romanos, que j\u00e1 n\u00e3o era considerado territ\u00f3rio g\u00e1lico, mas sim romano. Al\u00e9m disso, na lei, foi estipulado que, se o povo a aprovasse, os senadores teriam que prestar juramento dentro de cinco dias para obedec\u00ea-la; qualquer um que se recusasse seria expulso do Senado e multado em vinte talentos, em benef\u00edcio do povo. O objetivo era punir aqueles que aceitassem relutantemente a lei, especialmente Metelo, que era muito orgulhoso para se submeter ao juramento. Esse foi o teor da lei proposta. Apuleio marcou o dia para os com\u00edcios e enviou mensageiros aos distritos rurais, nos quais ele mais confiava, pois esses homens haviam servido no ex\u00e9rcito sob M\u00e1rio. No entanto, como a lei favorecia principalmente os aliados italianos, o povo da cidade n\u00e3o a recebeu bem.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos com\u00edcios, uma agita\u00e7\u00e3o eclodiu. Os opositores das leis propostas pelos tribunos foram atacados por Apuleio e afastados da Rostra. A multid\u00e3o na cidade alegou ter ouvido trov\u00f5es na assembleia, o que, segundo a tradi\u00e7\u00e3o romana, proibia a conclus\u00e3o dos neg\u00f3cios naquele dia. No entanto, os seguidores de Apuleio persistiram, e o povo da cidade se organizou, reunindo todos os peda\u00e7os de madeira que encontraram para dispersar os camponeses. Estes, liderados por Apuleio, retaliaram, atacando os cidad\u00e3os com porretes e conseguindo aprovar a lei. Posteriormente, M\u00e1rio, como c\u00f4nsul, trouxe a quest\u00e3o do juramento ao Senado. Conhecendo a inflexibilidade de Metelo em rela\u00e7\u00e3o a qualquer compromisso verbal, M\u00e1rio, de maneira hip\u00f3crita, afirmou publicamente que nunca aceitaria voluntariamente tal juramento. Quando Metelo concordou com essa posi\u00e7\u00e3o e os outros senadores aprovaram, M\u00e1rio dissolveu o Senado. No quinto dia seguinte, temendo a fervorosa ades\u00e3o do povo \u00e0 lei, M\u00e1rio os convocou com urg\u00eancia por volta da d\u00e9cima hora, alegando receio do povo devido ao seu zelo pela lei. Contudo, ele concebeu um estratagema para evit\u00e1-los, propondo que jurassem obedecer \u00e0 lei na medida em que ela fosse considerada uma lei, assim dispersando os camponeses de uma vez por todas por meio de uma artimanha. Em seguida, seria f\u00e1cil argumentar que essa lei, promulgada com viol\u00eancia e supostamente acompanhada de trov\u00f5es, contrariando os costumes ancestrais, n\u00e3o era verdadeiramente uma lei.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s expor seu plano, M\u00e1rio n\u00e3o esperou pelo desfecho, agindo enquanto todos estavam at\u00f4nitos com a proposta e sem tempo para ponderar. Levantou-se imediatamente e dirigiu-se ao templo de Saturno, onde os questores habitualmente administravam juramentos, e prestou o juramento em primeiro lugar, acompanhado por seus aliados. Os demais seguiram seu exemplo, temerosos por sua pr\u00f3pria seguran\u00e7a. Somente Metelo permaneceu firme em sua recusa de jurar, mantendo-se inabal\u00e1vel em sua decis\u00e3o inicial.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia seguinte, Apuleio enviou seu oficial para tentar arrastar Metelo para fora da casa do Senado. Entretanto, os outros tribunos defenderam Metelo, e Gl\u00e1ucia e Apuleio correram para o povo do campo, dizendo-lhes que jamais conseguiriam a terra se Metelo n\u00e3o fosse banido. Propuseram ent\u00e3o um decreto de banimento contra ele, ordenando aos c\u00f4nsules que o privassem de fogo, \u00e1gua e abrigo, e marcaram uma data para a ratifica\u00e7\u00e3o do decreto.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa medida causou grande indigna\u00e7\u00e3o entre o povo da cidade, que acompanhou Metelo constantemente, armados com adagas. Metelo agradeceu e elogiou suas boas inten\u00e7\u00f5es, mas afirmou que n\u00e3o podia permitir que o pa\u00eds enfrentasse perigos por sua causa. Ap\u00f3s suas palavras, retirou-se da cidade. Apuleio conseguiu a ratifica\u00e7\u00e3o do decreto, e M\u00e1rio anunciou seu conte\u00fado ao p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>Metelo, um homem admir\u00e1vel, foi desta maneira enviado ao ex\u00edlio. Logo depois, Apuleio foi eleito tribuno pela terceira vez, tendo como colega um indiv\u00edduo que se acreditava ser um escravo fugitivo, mas que afirmava ser filho do Graco mais velho. A multid\u00e3o apoiou sua elei\u00e7\u00e3o em lamento por Graco. Enquanto isso, nas elei\u00e7\u00f5es para c\u00f4nsules, Marco Ant\u00f4nio foi escolhido como um deles por consentimento comum, enquanto Gl\u00e1ucia e M\u00eamio disputavam o outro cargo. M\u00eamio era o mais ilustre dos dois, e Gl\u00e1ucia e Apuleio estavam ansiosos pelo resultado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, enviaram uma brutamontes para atacar M\u00eamio com porretes durante a elei\u00e7\u00e3o. Estes brutamontes o espancaram at\u00e9 a morte \u00e0 vista de todos, dispersando a assembleia em terror. N\u00e3o havia mais respeito pela lei, pelos tribunais ou pela vergonha. No dia seguinte, o povo, enfurecido, pretendia matar Apuleio, mas ele reuniu outra multid\u00e3o do campo e, com Gl\u00e1ucia e Caio Saufeio, o questor, tomou o Capit\u00f3lio. O Senado os declarou inimigos p\u00fablicos. Embora M\u00e1rio estivesse descontente, ele mobilizou algumas de suas tropas relutantemente. Enquanto ele atrasava, outros cortaram o suprimento de \u00e1gua do Capit\u00f3lio. Saufeio quase morreu de sede e prop\u00f4s incendiar o templo, mas Gl\u00e1ucia e Apuleio, esperando o apoio de M\u00e1rio, renderam-se primeiro, seguidos por Saufeio.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, a multid\u00e3o exigiu que fossem executados imediatamente. M\u00e1rio os trancou na casa do Senado, aparentemente como um pretexto para lidar com eles de maneira mais legal. A multid\u00e3o, no entanto, considerou isso uma desculpa e os apedrejou at\u00e9 a morte, incluindo um questor, um tribuno e um pretor, que ainda estavam usando suas ins\u00edgnias do cargo.<\/p>\n\n\n\n<p>Na tumultuada revolta, muitos outros perderam a vida. Entre eles estava o outro tribuno, supostamente filho de Graco, que faleceu no primeiro dia de seu mandato. Liberdade, democracia, leis, reputa\u00e7\u00e3o e cargos oficiais perderam sua relev\u00e2ncia, pois at\u00e9 mesmo o posto sagrado e inviol\u00e1vel de tribuno, destinado a conter os malfeitores e proteger os plebeus, estava manchado por ultrajes e indignidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a queda do partido de Apuleio, tanto o Senado quanto o povo clamaram pelo retorno de Metelo. No entanto, P\u00fablio F\u00fario, um tribuno de origem liberta, resistiu bravamente \u00e0s demandas. Nem mesmo o apelo emocionado de Metelo, filho de Metelo, que implorou com l\u00e1grimas nos olhos e se prostrou diante dele em p\u00fablico, foi capaz de comov\u00ea-lo. Esse ato dram\u00e1tico rendeu ao filho de Metelo o ep\u00edteto de &#8220;Pio&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>No ano seguinte, F\u00fario foi responsabilizado por sua obstina\u00e7\u00e3o pelo novo tribuno, Caio Canuleio. O povo n\u00e3o esperou por suas explica\u00e7\u00f5es e o linchou. Assim, a cada ano, novas atrocidades manchavam o f\u00f3rum. No entanto, Metelo foi autorizado a retornar, e dizem que um dia inteiro n\u00e3o foi longo o suficiente para as sauda\u00e7\u00f5es daqueles que o receberam nos port\u00f5es da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa foi a terceira contenda civil, sucedendo \u00e0s dos dois Gracos, e trouxe consequ\u00eancias marcantes para os romanos. Enquanto estavam imersos nesse cen\u00e1rio, a Guerra Social eclodiu, envolvendo muitos povos italianos. Surgiu de repente, rapidamente ganhou propor\u00e7\u00f5es enormes e silenciou a sedi\u00e7\u00e3o em Roma por um bom tempo, atrav\u00e9s de um novo terror. No entanto, ao t\u00e9rmino dessa guerra, surgiram novas dissens\u00f5es, lideradas por figuras mais poderosas, que n\u00e3o se baseavam na introdu\u00e7\u00e3o de novas leis ou em artif\u00edcios demag\u00f3gicos, mas sim em confrontos entre ex\u00e9rcitos inteiros. Optei por abordar esse evento nesta narrativa porque teve suas ra\u00edzes na agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em Roma e resultou em uma crise ainda mais grave. Tudo come\u00e7ou assim.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apiano, Historiador do s\u00e9culo II d.C., tem em &#8220;Hist\u00f3ria Romana&#8221; sua principal obra. Infelizmente, ela n\u00e3o chegou completa at\u00e9 n\u00f3s. Nesta edi\u00e7\u00e3o, est\u00e1 todo o conte\u00fado de &#8220;Guerras Civis&#8221;, a parte mais influente da obra da obra de Apiano. Abaixo voc\u00ea ir\u00e1 ler a Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 obra &#8220;Hist\u00f3ria Romana: Guerras\u2026<\/p>\n<p class=\"continue-reading-button\"> <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2023\/11\/07\/historia-romana-de-apiano\/\">Leia mais<i class=\"crycon-right-dir\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":754,"comment_status":"closed","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[36,5],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/768"}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=768"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/768\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":769,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/768\/revisions\/769"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/754"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=768"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=768"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=768"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}