{"id":784,"date":"2024-02-11T17:43:00","date_gmt":"2024-02-11T17:43:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=784"},"modified":"2024-03-11T17:47:25","modified_gmt":"2024-03-11T17:47:25","slug":"os-quadros-sociais-da-memoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2024\/02\/11\/os-quadros-sociais-da-memoria\/","title":{"rendered":"Os quadros sociais da mem\u00f3ria"},"content":{"rendered":"\n<p>Leia, a seguir, o primeiro cap\u00edtulo de &#8220;Os quadros sociais da mem\u00f3ria&#8221; de Maurice Halbwachs. Caso se interesse em adquirir a obra completa (ebook ou capa comum), clique na capa do livro abaixo.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/os-quadros-sociais-da-memoria\/\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"231\" height=\"328\" src=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/capinha_paisagem.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-782\" srcset=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/capinha_paisagem.jpg 231w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/capinha_paisagem-211x300.jpg 211w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/capinha_paisagem-106x150.jpg 106w\" sizes=\"(max-width: 231px) 100vw, 231px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\"> <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O sonho e as imagens mem\u00f3ria<\/h2>\n\n\n\n<p>\u201cCom frequ\u00eancia\u201d, como afirma Durkheim<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, \u201cnossos sonhos est\u00e3o relacionados a eventos passados; revemos o que vimos ou fizemos no estado de vig\u00edlia, ontem, antes de ontem, durante nossa juventude etc. Esses tipos de sonhos s\u00e3o comuns e ocupam um lugar consider\u00e1vel em nossa vida noturna.\u201d Ele esclarece posteriormente o que quer dizer com \u201csonhos relacionados a eventos passados\u201d: trata-se de \u201cremontar o curso do tempo\u201d, de \u201cimaginar que vivemos durante o sono uma vida que sabemos ter ocorrido h\u00e1 muito tempo\u201d e, essencialmente, de evocar \u201cmem\u00f3rias como as que temos durante o dia, mas com uma intensidade particular\u201d. \u00c0 primeira vista, essa observa\u00e7\u00e3o n\u00e3o surpreende. Nos sonhos, os estados psicol\u00f3gicos mais diversos e complicados, aqueles que pressup\u00f5em atividade, certo gasto de energia espiritual, podem se apresentar. Por que, ent\u00e3o, n\u00e3o poderiam se misturar aos reflexos, emo\u00e7\u00f5es e racioc\u00ednios as lembran\u00e7as? No entanto, quando examinamos os fatos mais de perto, essa afirma\u00e7\u00e3o parece menos \u00f3bvia.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos nos perguntar se, entre as ilus\u00f5es de nossos sonhos, se inserem lembran\u00e7as que confundimos com realidades. Pode-se argumentar que toda a mat\u00e9ria dos sonhos prov\u00e9m da mem\u00f3ria, que os sonhos s\u00e3o precisamente mem\u00f3rias que n\u00e3o reconhecemos no momento, mas que, em muitos casos, \u00e9 poss\u00edvel identificar sua natureza e origem ao acordarmos. Isso \u00e9 facilmente acredit\u00e1vel. Mas o que precisaria ser estabelecido (e \u00e9 o que \u00e9 afirmado na passagem que citamos) \u00e9 que eventos completos, cenas inteiras de nosso passado, s\u00e3o reproduzidos nos sonhos da mesma forma, com todas as suas peculiaridades, sem mistura de elementos relacionados a outros eventos, outras cenas ou elementos puramente fict\u00edcios. Assim, ao acordar, poder\u00edamos dizer n\u00e3o apenas: esse sonho se explica pelo que fiz ou vi em tal circunst\u00e2ncia, mas sim: esse sonho \u00e9 a lembran\u00e7a exata, a reprodu\u00e7\u00e3o pura e simples do que fiz ou vi naquele momento e naquele lugar. Isso \u00e9 o que \u201cremontar o curso do tempo\u201d e \u201creviver\u201d uma parte da vida poderia significar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o estamos sendo muito exigentes? E, apresentado dessa forma, o problema n\u00e3o \u00e9 resolvido imediatamente pelo absurdo, ou melhor, nem sequer se coloca, dada a clareza da solu\u00e7\u00e3o? Se lembran\u00e7as t\u00e3o detalhadas fossem evocadas nos sonhos, como n\u00e3o as reconhecer\u00edamos durante o pr\u00f3prio sonho? A ilus\u00e3o desapareceria imediatamente, e cessar\u00edamos de sonhar. No entanto, suponhamos que uma cena passada seja reproduzida com algumas mudan\u00e7as muito sutis, apenas significativas o suficiente para n\u00e3o despertar suspeitas. A lembran\u00e7a est\u00e1 l\u00e1, precisa e concreta, mas h\u00e1 uma esp\u00e9cie de atividade latente da mente que entra em a\u00e7\u00e3o para diferenci\u00e1-la e funciona como uma defesa inconsciente do sonho contra o despertar. Por exemplo, vejo-me diante de uma mesa rodeada por jovens: um deles est\u00e1 falando; no entanto, em vez de ser um estudante, \u00e9 um parente meu, que n\u00e3o teria motivo para estar ali. Esse simples detalhe \u00e9 suficiente para evitar que eu associe esse sonho \u00e0 lembran\u00e7a que ele reproduz. Mas n\u00e3o terei o direito, ao acordar e quando fizer essa associa\u00e7\u00e3o, de afirmar que o sonho era apenas uma lembran\u00e7a?<\/p>\n\n\n\n<p>Isso equivale a dizer que n\u00e3o poder\u00edamos reviver nosso passado durante o sono sem reconhec\u00ea-lo, e, na verdade, tudo ocorre como se reconhec\u00eassemos antecipadamente aqueles de nossos sonhos que s\u00e3o ou tendem a ser apenas mem\u00f3rias efetivas, uma vez que os modificamos inconscientemente para manter nossa ilus\u00e3o. Mas, primeiramente, por que uma lembran\u00e7a, mesmo que vagamente reconhecida, nos acordaria? H\u00e1 muitos casos em que, enquanto continuamos sonhando, temos a sensa\u00e7\u00e3o de que estamos sonhando, e at\u00e9 mesmo casos em que repetimos v\u00e1rias vezes, em intervalos de vig\u00edlia mais ou menos longos, exatamente o mesmo sonho, a ponto de, quando ele reaparece, termos uma vaga consci\u00eancia de que \u00e9 apenas uma repeti\u00e7\u00e3o, e mesmo assim n\u00e3o acordamos. Por outro lado, seria realmente inconceb\u00edvel que uma lembran\u00e7a propriamente dita, que reproduz uma parte de nosso passado em sua totalidade, seja evocada sem que a reconhe\u00e7amos? A quest\u00e3o \u00e9 saber se, na pr\u00e1tica, essa dissocia\u00e7\u00e3o entre a lembran\u00e7a e o reconhecimento acontece: o sonho poderia ser, nesse aspecto, uma experi\u00eancia \u201ccrucial\u201d, se nos revelasse que a lembran\u00e7a n\u00e3o reconhecida \u00e0s vezes ocorre durante o sono. Pelo menos h\u00e1 uma concep\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria na qual resultaria que a lembran\u00e7a pode ser reproduzida sem ser reconhecida. Suponhamos que o passado seja preservado sem altera\u00e7\u00f5es e lacunas no fundo da mem\u00f3ria, ou seja, que seja poss\u00edvel reviver a qualquer momento qualquer evento de nossa vida. Apenas algumas dessas lembran\u00e7as reaparecer\u00e3o durante a vig\u00edlia; como, quando as evocamos, permanecemos em contato com as realidades do presente, n\u00e3o podemos deixar de reconhecer elementos de nosso passado nelas. No entanto, durante o sono, quando esse contato \u00e9 interrompido, suponhamos que as lembran\u00e7as invadam nossa consci\u00eancia: como as reconhecer\u00edamos como lembran\u00e7as? N\u00e3o h\u00e1 mais presente ao qual possamos compar\u00e1-las; uma vez que s\u00e3o o passado n\u00e3o tal como o revemos \u00e0 dist\u00e2ncia, mas como ele se desenrolou quando era o presente, n\u00e3o h\u00e1 nada neles que revele que n\u00e3o est\u00e3o se apresentando a n\u00f3s pela primeira vez. Assim, teoricamente, nada impede que as lembran\u00e7as exer\u00e7am sobre n\u00f3s uma esp\u00e9cie de a\u00e7\u00e3o alucinat\u00f3ria durante o sono, sem precisarem se disfar\u00e7ar ou se distorcer para n\u00e3o serem reconhecidas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a><\/a><a>I.1. N\u00e3o podemos evocar em sonho cenas completas ou quadros detalhados de nossa vida passada<\/a><a href=\"#tdm\"><\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>Durante um pouco mais de quatro anos (exatamente desde janeiro de 1920), examinamos nossos sonhos a partir do ponto de vista que nos interessa, ou seja, para descobrir se continham cenas completas de nosso passado. O resultado foi claramente negativo. Na maioria das vezes, conseguimos reencontrar certos pensamentos, sentimentos, atitudes ou detalhes de um evento recente que haviam entrado em nosso sonho, mas nunca conseguimos realmente reviver uma lembran\u00e7a em um sonho.<\/p>\n\n\n\n<p>Consultamos algumas pessoas que se exercitaram em observar suas vis\u00f5es noturnas. Kaploun nos escreveu: \u201cNunca aconteceu de eu sonhar com uma cena completa da vida real. Nos sonhos, a parte de acr\u00e9scimos e modifica\u00e7\u00f5es devido ao fato de que o sonho \u00e9 uma cena que se sustenta \u00e9 consideravelmente maior do que a parte de elementos retirados do real vivido recentemente. Ou, se preferir, do real de onde s\u00e3o retirados os elementos integrados na cena sonhada.\u201d De uma carta que recebemos de Henri Pi\u00e9ron, destacamos este trecho: \u201cEm meus sonhos \u2013 que anotei sistematicamente por um per\u00edodo \u2013 nunca revivi de forma id\u00eantica per\u00edodos anteriores de minha vida: algumas vezes reencontrei sentimentos, imagens, epis\u00f3dios mais ou menos modificados, n\u00e3o mais.\u201d Bergson nos disse que sonhava muito e que n\u00e3o se lembrava de nenhum caso em que, ao acordar, reconhecesse em um de seus sonhos o que ele chama de \u201cmem\u00f3ria-imagem\u201d. No entanto, ele acrescentou que, por vezes, teve a sensa\u00e7\u00e3o de que, no sono profundo, havia retrocedido em seu passado: voltaremos a essa observa\u00e7\u00e3o mais adiante.<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, lemos a maior quantidade poss\u00edvel de descri\u00e7\u00f5es de sonhos, mas n\u00e3o encontramos exatamente o que procur\u00e1vamos. Em um cap\u00edtulo sobre a \u201cLiteratura\u201d dos problemas dos sonhos<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, Freud escreve: \u201cO sonho reproduz apenas fragmentos do passado. Essa \u00e9 a regra geral. No entanto, h\u00e1 exce\u00e7\u00f5es: um sonho pode reproduzir um evento com tanta exatid\u00e3o (vollst\u00e4ndig) quanto a mem\u00f3ria em estado de vig\u00edlia. Delboeuf fala de um de seus colegas universit\u00e1rios (atualmente professor em Viena): em seu sonho, ele refez uma perigosa viagem de carro na qual escapou de um acidente apenas por um milagre: todos os detalhes estavam reproduzidos. Calkins menciona dois sonhos que reproduziram exatamente um evento recente, e eu mesmo terei a oportunidade de citar um exemplo que conhe\u00e7o de reprodu\u00e7\u00e3o exata em um sonho de um evento da inf\u00e2ncia.\u201d Freud parece n\u00e3o ter observado diretamente nenhum sonho desse tipo.<\/p>\n\n\n\n<p>Vamos examinar esses exemplos. Aqui est\u00e1 como Delboeuf relata o sonho que lhe foi contado por seu amigo e antigo colega, o famoso cirurgi\u00e3o Gussenbauer, atualmente professor na Universidade de Praga<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a>: \u201cUm dia, ele percorreu de carro uma estrada que conecta duas localidades cujos nomes eu esqueci, que, em uma certa parte, apresenta uma inclina\u00e7\u00e3o acentuada e uma curva perigosa. O cocheiro chicoteou os cavalos com muita for\u00e7a, fazendo-os se empinar, e a carruagem e o passageiro quase rolaram para um precip\u00edcio cem vezes, ou se chocaram contra as rochas do outro lado do caminho. Recentemente, Gussenbauer sonhou que estava refazendo a mesma jornada e, ao chegar a esse ponto, ele se lembrou em todos os detalhes o acidente do qual quase foi v\u00edtima.\u201d Do texto, conclui-se que Freud o entendeu muito mal ou dele manteve uma lembran\u00e7a imprecisa: o professor em quest\u00e3o provavelmente refaz o mesmo trajeto em um sonho (ele n\u00e3o nos diz se est\u00e1 de carro, na mesma carruagem etc.), mas n\u00e3o refaz a mesma viagem na qual escaparia novamente do mesmo acidente. No sonho, ele se limita a se lembrar do acidente uma vez que chega ao local onde ocorreu. No entanto, \u00e9 algo completamente diferente sonhar que se lembra de um evento do dia anterior e se encontrar, em um sonho, na mesma situa\u00e7\u00e3o, assistindo ou participando dos mesmos eventos como quando estava acordado. Essa confus\u00e3o \u00e9, no m\u00ednimo, estranha.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos substituir este exemplo pelo seguinte, relatado por Foucault, tamb\u00e9m de segunda m\u00e3o, e que Freud n\u00e3o poderia conhecer<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a>: \u201cTrata-se de um m\u00e9dico que, ap\u00f3s ter ficado muito abalado com uma cirurgia em que teve que segurar as pernas do paciente a quem n\u00e3o foi poss\u00edvel administrar clorof\u00f3rmio, rev\u00ea o mesmo evento durante cerca de vinte noites: \u2018Eu via o corpo deitado em uma mesa e os m\u00e9dicos como no momento da cirurgia.\u2019 Ap\u00f3s acordar, a imagem permanecia na mente, n\u00e3o de forma alucinat\u00f3ria, mas ainda extremamente v\u00edvida. Assim que come\u00e7ava a adormecer, a mesma vis\u00e3o o acordava. A imagem tamb\u00e9m voltava \u00e0s vezes durante o dia, mas era menos v\u00edvida ent\u00e3o. A figura imaginativa era sempre a mesma e apresentava uma lembran\u00e7a precisa do evento. Finalmente, a obsess\u00e3o parou de ocorrer. Pode-se questionar se o fato em quest\u00e3o, ap\u00f3s o momento em que ocorreu e antes de ser revisto em um sonho pela primeira vez, n\u00e3o se imp\u00f4s de forma bastante intensa ao pensamento do sujeito, de modo que uma imagem possivelmente reconstru\u00edda em parte se substitu\u00edsse \u00e0 lembran\u00e7a. Assim, n\u00e3o estar\u00edamos mais lidando com o evento em si, mas com uma ou v\u00e1rias reprodu\u00e7\u00f5es sucessivas do evento que poderiam alimentar a imagina\u00e7\u00e3o daquele que o rev\u00ea mais tarde em um sonho. De fato, assim que uma lembran\u00e7a se reproduz v\u00e1rias vezes, ela n\u00e3o mais pertence \u00e0 s\u00e9rie cronol\u00f3gica de eventos que ocorreram apenas uma vez; ou melhor, sobre essa lembran\u00e7a (supondo que ela permane\u00e7a inalterada na mem\u00f3ria), se sobrep\u00f5em uma ou v\u00e1rias representa\u00e7\u00f5es, mas essas j\u00e1 n\u00e3o correspondem a um evento visto apenas uma vez, pois foi revisto v\u00e1rias vezes em pensamento. \u00c9 assim que precisamos distinguir entre a lembran\u00e7a de uma pessoa vista em um lugar e momento espec\u00edficos e a imagem dessa pessoa, conforme a imagina\u00e7\u00e3o possa t\u00ea-la reconstru\u00eddo (se n\u00e3o tiver sido vista novamente) ou conforme resulta de v\u00e1rias lembran\u00e7as sucessivas da mesma pessoa. Uma imagem desse tipo pode reaparecer em um sonho, sem que possamos dizer que estamos evocando uma lembran\u00e7a propriamente dita.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos comparar essa observa\u00e7\u00e3o com aquela relatada por Brierre de Boismont, de acordo com Abercrombie<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. \u201cUm dos meus amigos\u201d, diz Abercrombie, \u201cque trabalhava como caixa em um dos principais bancos de Glasgow, estava em seu escrit\u00f3rio quando um indiv\u00edduo se apresentou, exigindo o pagamento de 6 libras esterlinas. Havia v\u00e1rias pessoas antes dele esperando sua vez, mas ele era t\u00e3o barulhento e especialmente insuport\u00e1vel devido \u00e0 sua gagueira que um dos assistentes pediu ao caixa para pagar a quantia para se livrar dele. O caixa atendeu ao pedido com um gesto de impaci\u00eancia e sem anotar o assunto [em vez dessa \u00faltima parte da frase, h\u00e1 em Abercrombie: e n\u00e3o pensou mais no assunto]. No final do ano, ou seja, oito ou nove meses depois, o balan\u00e7o dos livros n\u00e3o p\u00f4de ser equilibrado; ainda havia um erro de 6 libras. Meu amigo passou v\u00e1rias noites e dias procurando em v\u00e3o a causa desse d\u00e9ficit; vencido pelo cansa\u00e7o, voltou para casa, deitou-se na cama e sonhou que estava em seu escrit\u00f3rio, que o gago se apresentava e logo todos os detalhes desse assunto eram fielmente recriados em sua mente. Ele acordou com a mente v\u00edvida do sonho e com a esperan\u00e7a de que finalmente descobriria o que estava procurando em v\u00e3o. Depois de examinar seus livros, de fato, ele reconheceu que essa quantia n\u00e3o havia sido registrada em seu livro-caixa e que correspondia exatamente ao erro.\u201d Isso \u00e9 tudo o que B. de B&#8230; diz. No entanto, se voltarmos ao texto de Abercrombie, vemos que o que o autor acha particularmente extraordin\u00e1rio \u00e9 que o caixa tenha conseguido se lembrar em um sonho de um detalhe que n\u00e3o deixou nenhuma impress\u00e3o em sua mente no momento, e que ele nem mesmo havia percebido, a saber, que ele n\u00e3o havia registrado o pagamento. Mas aqui est\u00e1 o que poderia ter acontecido. Nos dias anteriores ao sonho, o caixa se lembrou dessa cena que o impressionou: a lembran\u00e7a, frequentemente evocada e na qual ele refletiu v\u00e1rias vezes, tornou-se uma simples imagem. Al\u00e9m disso, ele deve ter suposto que negligenciara registrar um pagamento. Era natural que essa imagem e essa suposi\u00e7\u00e3o que o preocupava se juntassem no sonho. No entanto, nem uma nem outra eram propriamente lembran\u00e7as. Isso certamente n\u00e3o explica que o fato assim imaginado no sonho tenha sido reconhecido com precis\u00e3o. Mas h\u00e1 acasos mais estranhos. Quanto \u00e0 observa\u00e7\u00e3o de Calkins<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[6]<\/a>, ela \u00e9 direta. No entanto, tudo o que ela nos diz se resume a isto: \u201cC. (a pr\u00f3pria) sonhou duas vezes com o detalhe exato de um evento que precedeu imediatamente (o sonho). \u00c9 um caso do tipo mais simples de imagina\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica.\u201d Ela acrescenta, em nota, \u00e9 verdade: \u201c\u00e9 incorreto cham\u00e1-lo, como faz Maury, de \u2018lembran\u00e7a ignorada\u2019, ou de \u2018mem\u00f3ria&#8230; n\u00e3o consciente\u2019. A mem\u00f3ria se diferencia da imagina\u00e7\u00e3o no sentido de que o evento \u00e9 conscientemente relacionado ao passado e ao eu.\u201d Mas n\u00e3o vamos discutir os termos e as defini\u00e7\u00f5es. O que importa \u00e9 que os sonhos aos quais se referem s\u00e3o exatamente aqueles que temos procurado em v\u00e3o at\u00e9 agora. Infelizmente, nenhum deles \u00e9 descrito para n\u00f3s. Isso \u00e9 ainda mais lament\u00e1vel, pois essa investiga\u00e7\u00e3o abrangeu um grande n\u00famero de sonhos em um curto per\u00edodo de tempo. Calkins fez anota\u00e7\u00f5es durante cinquenta e cinco noites, sobre 205 sonhos, uma m\u00e9dia de quase 4 sonhos por noite; o segundo observador, S&#8230;, observou 170 sonhos durante quarenta e seis noites, mas n\u00e3o anotou nenhum do mesmo tipo que os que nos interessam. A investiga\u00e7\u00e3o durou de seis a oito semanas. Tais condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o um tanto anormais. Al\u00e9m disso, precisar\u00edamos saber, por um lado, o que Calkins entende por \u201co detalhe exato de um evento\u201d e, por outro, qual era o evento que precedeu e, finalmente, se realmente n\u00e3o houve intervalo entre o evento e a noite em que ela sonhou.<\/p>\n\n\n\n<p>Resta o sonho que Freud conheceu. Ele n\u00e3o indica a p\u00e1gina de seu livro onde est\u00e1 relatado. Esse \u00e9 o \u00fanico entre todos os que ele descreveu que se aproxima do que ele antecipa: um de seus colegas contou a ele que havia visto em um sonho, pouco tempo antes, seu antigo tutor em uma posi\u00e7\u00e3o inesperada. Ele estava deitado ao lado de uma empregada (que permaneceu na casa at\u00e9 que esse colega tivesse 11 anos). O local onde a cena ocorreu apareceu no sonho. O irm\u00e3o do sonhador, mais velho, confirmou a realidade do que ele tinha visto em seu sonho. \u201cEle tinha uma mem\u00f3ria clara disso, pois tinha 6 anos na \u00e9poca. O casal lhe deu cerveja para deix\u00e1-lo embriagado e n\u00e3o se preocupou com o mais jovem, de 3 anos, que estava dormindo na sala da empregada.\u201d<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\">[7]<\/a> Freud n\u00e3o nos indica se essa representa\u00e7\u00e3o era uma lembran\u00e7a espec\u00edfica relacionada a uma noite espec\u00edfica, a um evento que o sonhador testemunhou apenas uma vez, ou se era uma associa\u00e7\u00e3o de ideias de car\u00e1ter mais geral. Dessa vez, ele n\u00e3o diz que a cena se reproduziu em todos os detalhes. O fato, se for verdade, continua sendo interessante. Pode ser comparado a exemplos semelhantes de outros autores.<\/p>\n\n\n\n<p>Maury relata o seguinte<a href=\"#_ftn8\" id=\"_ftnref8\">[8]<\/a>: \u201cPassei meus primeiros anos em Meaux e frequentemente ia a uma vila vizinha chamada Trilport.\u201d Seu pai estava construindo uma ponte l\u00e1. \u201cUma noite, encontro-me em um sonho transportado de volta aos dias da minha inf\u00e2ncia, brincando nessa vila de Trilport.\u201d Ele v\u00ea um homem usando um uniforme que lhe diz seu nome. Ao acordar, ele n\u00e3o tem nenhuma lembran\u00e7a associada a esse nome. Mas ele questiona uma empregada idosa, que lhe diz que era o nome do guarda da ponte que seu pai construiu. \u2013 Um de seus amigos lhe contou que, prestes a voltar para Montbrison, onde ele havia vivido quando crian\u00e7a, vinte e cinco anos antes, sonhou que encontrava um desconhecido perto da cidade, que lhe disse que era um amigo de seu pai e se chamava T&#8230; O sonhador sabia que conhecia algu\u00e9m com esse nome, mas n\u00e3o se lembrava de sua apar\u00eancia: ele encontrou esse homem de fato, parecido com a imagem de seu sonho, embora um pouco mais velho.<\/p>\n\n\n\n<p>Hervey de Saint-Denis<a href=\"#_ftn9\" id=\"_ftnref9\">[9]<\/a> conta que certa noite ele se viu em um sonho em Bruxelas, em frente \u00e0 igreja de Sainte-Gudule. \u201cEu estava andando tranquilamente, percorrendo uma rua movimentada, com muitas lojas cujas placas coloridas se estendiam sobre os pedestres.\u201d Como ele sabe que est\u00e1 sonhando e que se lembra em seu sonho de nunca ter estado em Bruxelas, ele come\u00e7a a examinar uma das lojas com extrema aten\u00e7\u00e3o para poder reconhec\u00ea-la mais tarde. \u201cEra a loja de um chapeleiro&#8230; Notei primeiro uma placa com duas m\u00e3os cruzadas, uma vermelha e outra branca, saindo sobre a rua, com um enorme chap\u00e9u de algod\u00e3o listrado como coroa. Li o nome do comerciante v\u00e1rias vezes para me lembrar bem; notei o n\u00famero da casa e a forma ogival de uma pequena porta, com um n\u00famero entrela\u00e7ado no topo.\u201d Alguns meses depois, ele visita Bruxelas e procura em v\u00e3o \u201ca rua das placas multicoloridas e da loja sonhada\u201d. V\u00e1rios anos se passam. Ele est\u00e1 em Frankfurt, onde j\u00e1 havia estado \u201cem seus anos mais jovens\u201d. Ele entra na Judengasse. \u201cTodo um conjunto de lembran\u00e7as indefin\u00edveis come\u00e7ou a tomar vagamente conta de minha mente. Tentei descobrir a causa dessa impress\u00e3o singular.\u201d E ent\u00e3o ele se lembra de suas buscas infrut\u00edferas em Bruxelas. A rua onde ele est\u00e1 \u00e9 realmente a rua de seu sonho: as mesmas placas caprichosas, o mesmo com\u00e9rcio, o mesmo movimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele encontra a casa, \u201ct\u00e3o exatamente igual \u00e0 da minha antiga vis\u00e3o que parecia ter voltado seis anos no passado e ainda n\u00e3o ter acordado\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos esses sonhos t\u00eam um tra\u00e7o comum; eles s\u00e3o mem\u00f3rias de inf\u00e2ncia, completamente esquecidas por um tempo indeterminado, e que n\u00e3o podemos recuperar durante a vig\u00edlia, mesmo depois de o sonho t\u00ea-las evocado; elas retornam mescladas aos nossos sonhos, e precisamos da mem\u00f3ria dos outros ou nos entregar a uma investiga\u00e7\u00e3o e verifica\u00e7\u00e3o objetiva para constatar que correspondem a realidades antigamente percebidas.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, sem d\u00favida, n\u00e3o s\u00e3o cenas completas que reaparecem, mas sim um nome, um rosto, o quadro de uma rua, de uma casa. No entanto, nada disso faz parte de nossa experi\u00eancia familiar, das lembran\u00e7as que n\u00e3o nos surpreendemos em encontrar, na forma de fragmentos, em nossos sonhos, porque s\u00e3o recentes ou porque sabemos que, acordados, temos algum controle sobre eles, porque, no geral, h\u00e1 todas as raz\u00f5es para que eles entrem nos produtos de nossa atividade imaginativa. Pelo contr\u00e1rio, dever\u00edamos admitir que as lembran\u00e7as de nossa inf\u00e2ncia se estereotiparam, que desde o in\u00edcio e permanecem, como disse Hervey de Saint-Denis, clich\u00eas-imagem, dos quais nossa consci\u00eancia n\u00e3o soube mais nada desde o momento em que eles foram gravados \u201cnas tabuletas de nossa mem\u00f3ria\u201d. Como negar que, nos casos em que reaparecem, \u00e9 de fato uma parte, um peda\u00e7o de nosso passado mais distante que est\u00e1 emergindo \u00e0 superf\u00edcie?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o estamos convencidos de que essas reminisc\u00eancias de inf\u00e2ncia correspondem ao que chamamos de mem\u00f3rias. Se n\u00e3o nos lembramos de nada desse per\u00edodo na vig\u00edlia, n\u00e3o seria por que o que poder\u00edamos recuperar se reduz a impress\u00f5es muito vagas, a imagens mal definidas demais para oferecer alguma apreens\u00e3o \u00e0 mem\u00f3ria propriamente dita? A consci\u00eancia da vida das crian\u00e7as pequenas se assemelha em muitos aspectos ao estado mental de algu\u00e9m que est\u00e1 sonhando, e se mantemos t\u00e3o poucas lembran\u00e7as dela, talvez seja por isso mesmo: os dois dom\u00ednios, o da inf\u00e2ncia e o do sonho, exceto por esse pequeno n\u00famero de lembran\u00e7as, apresentam o mesmo obst\u00e1culo \u00e0 nossa vis\u00e3o: s\u00e3o as \u00fanicas \u00e9pocas cujos eventos n\u00e3o fazem parte da s\u00e9rie cronol\u00f3gica onde nossas mem\u00f3rias do dia se encaixam. Portanto, \u00e9 muito improv\u00e1vel que tenhamos sido capazes, na primeira inf\u00e2ncia, de formar percep\u00e7\u00f5es precisas o suficiente para que a lembran\u00e7a que elas nos deixaram, quando reaparece, seja t\u00e3o precisa como se diz. A semelhan\u00e7a entre a imagem do sonho e o rosto real, no segundo sonho citado por Maury, ainda n\u00e3o \u00e9 uma identidade: em vinte e cinco anos, os tra\u00e7os n\u00e3o podem deixar de se transformar; talvez, se a pessoa se assemelhar tanto \u00e0 sua imagem, seja por que a pr\u00f3pria imagem \u00e9 bastante nebulosa? Hervey de Saint-Denis acredita ter assegurado que a casa vista na realidade era realmente como a casa vista no sonho, pois, logo ap\u00f3s acordar, desenhou os detalhes dela com muito cuidado. O que precisar\u00edamos saber \u00e9 exatamente com que idade ele a viu. Se \u201cdurante seus anos mais jovens\u201d significa por volta dos 5 ou 6 anos, parece improv\u00e1vel que ele pudesse ent\u00e3o guardar uma lembran\u00e7a t\u00e3o detalhada, pois, nessa idade, mal se percebe o aspecto geral dos objetos<a href=\"#_ftn10\" id=\"_ftnref10\">[10]<\/a>. Al\u00e9m disso, ele n\u00e3o nos diz que, quando a reviu, tenha se referido ao seu desenho; mas imediatamente pareceu a ele que estava exatamente no mesmo estado em que estava seis anos antes, quando sonhara; essa firmeza de mem\u00f3ria \u00e9 surpreendente. Na realidade, admitimos que entre a impress\u00e3o da inf\u00e2ncia e a imagem do sonho h\u00e1 uma estreita semelhan\u00e7a; essa \u00faltima reproduziu exatamente aquela, mas n\u00e3o acreditamos que ambas tenham sido reprodu\u00e7\u00f5es detalhadas da casa, ou seja, mem\u00f3rias reais. Tudo acontece como nos sonhos em que se rev\u00ea o que se viu ou acreditou ver em sonhos anteriores. E certamente, seria necess\u00e1rio explicar por que essas imagens s\u00f3 se reproduzem em sonhos, por que a mem\u00f3ria da vig\u00edlia n\u00e3o as atinge diretamente. Isso se deve, sem d\u00favida, a essas representa\u00e7\u00f5es serem muito amplas, e nossa mem\u00f3ria ser, relativamente, um instrumento muito espec\u00edfico, que normalmente s\u00f3 tem controle sobre o que est\u00e1 dentro de seu alcance, ou seja, apenas o que pode ser localizado.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, mesmo que nos seja apresentado um rosto, um objeto, um fato vistos no passado, com todos os seus detalhes, uma vez que nos aparecem em um sonho como somos hoje, o quadro geral \u00e9 modificado. N\u00e3o podemos afirmar que h\u00e1 uma justaposi\u00e7\u00e3o aqui de uma mem\u00f3ria real e do sentimento que temos agora sobre nosso eu, mas esses dois elementos se fundem, e como n\u00e3o podemos nos representar de outra forma sen\u00e3o como somos, \u00e9 preciso que o rosto, o objeto, o fato sejam alterados para que n\u00e3o os consideremos como presentes. Sem d\u00favida, poder\u00edamos conceber que nossa pessoa n\u00e3o apenas passasse para o segundo plano, mas que quase desaparecesse completamente, que nosso papel se tornasse t\u00e3o passivo a ponto de ser negligenci\u00e1vel, reduzindo-se a refletir, como um espelho que n\u00e3o tem idade, as imagens que ent\u00e3o se sucedem<a href=\"#_ftn11\" id=\"_ftnref11\">[11]<\/a>. No entanto, um dos tra\u00e7os caracter\u00edsticos do sonho \u00e9 que sempre intervimos nele, quer estejamos agindo, refletindo ou projetando sobre o que vemos a nuance particular de nosso estado atual, seja medo, inquieta\u00e7\u00e3o, surpresa, desconforto, curiosidade, interesse etc.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois exemplos relatados por Maury s\u00e3o muito instrutivos a esse respeito, sobre sonhos em que aparecem pessoas que sabemos estar mortas: \u201cH\u00e1 quinze anos, uma semana se passou desde a morte de L&#8230; quando o vi claramente em um sonho&#8230; Sua presen\u00e7a me surpreendeu muito, e perguntei com muita curiosidade como ele, depois de ter sido enterrado, poderia voltar a este mundo. L&#8230; me deu uma explica\u00e7\u00e3o que, como se pode imaginar, n\u00e3o fazia sentido, e que misturava teorias vitalistas que eu havia estudado recentemente.\u201d Desta vez, ele sente que est\u00e1 sonhando. Mas em outra ocasi\u00e3o, ele est\u00e1 convencido de que n\u00e3o est\u00e1 sonhando e, no entanto, o rev\u00ea e lhe pergunta como ele est\u00e1 l\u00e1<a href=\"#_ftn12\" id=\"_ftnref12\">[12]<\/a>. Ele observa em outro lugar que em sonhos n\u00e3o nos surpreendemos com as mais incr\u00edveis contradi\u00e7\u00f5es, que conversamos com pessoas que sabemos estar mortas etc.<a href=\"#_ftn13\" id=\"_ftnref13\">[13]<\/a> Em qualquer caso, mesmo que n\u00e3o busquemos resolver a contradi\u00e7\u00e3o, a notamos, temos pelo menos o sentimento dela.<\/p>\n\n\n\n<p>Calkins afirma que \u201cnos 375 casos observados por ela e por outro pesquisador, n\u00e3o h\u00e1 nenhum exemplo de um sonho em que eles se viram em outro momento que n\u00e3o o presente. Quando o sonho evocava a casa onde eles passaram a inf\u00e2ncia, ou uma pessoa que n\u00e3o tinham visto por muitos anos, a idade aparente do sonhador n\u00e3o era diminu\u00edda de forma alguma para evitar um anacronismo; em qualquer lugar ou car\u00e1ter do sonho, o sujeito tinha sua idade atual e suas condi\u00e7\u00f5es gerais de vida n\u00e3o haviam mudado.\u201d<a href=\"#_ftn14\" id=\"_ftnref14\">[14]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Sergu\u00e9ieff, cego h\u00e1 muitos anos, se v\u00ea em um sonho em S\u00e3o Petersburgo, no Pal\u00e1cio de Inverno<a href=\"#_ftn15\" id=\"_ftnref15\">[15]<\/a>. O imperador Alexandre II conversa com ele e o convida a retornar ao seu regimento. Ele obedece e encontra seu coronel, que lhe diz que ele pode retomar o servi\u00e7o no dia seguinte. \u201cMas eu n\u00e3o tive tempo de arranjar um cavalo. \u2013 Eu vou emprestar um dos cavalos do meu est\u00e1bulo para voc\u00ea. \u2013 Mas minha sa\u00fade est\u00e1 muito fraca. \u2013 O m\u00e9dico o isentar\u00e1 do servi\u00e7o.\u201d S\u00f3 ent\u00e3o, ou seja, por \u00faltimo, ele compartilha com o coronel um obst\u00e1culo fundamental e lembra a ele que, sendo cego, \u00e9 absolutamente incapaz de comandar um esquadr\u00e3o. Mesmo assim, ele teve desde o in\u00edcio o sentimento de uma impossibilidade, ou seja, desde o in\u00edcio e ao longo de todo o curso do sonho, sua personalidade atual interveio. Assim, nunca nos sonhos nos despojamos completamente de nosso eu atual, e isso bastaria para que as imagens do sonho, mesmo que reproduzissem quase que de forma id\u00eantica uma cena do nosso passado, ainda fossem diferentes das lembran\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, at\u00e9 agora, falamos apenas sobre os sonhos dos quais nos lembramos ao acordar. N\u00e3o haveria outros? E, al\u00e9m de todos aqueles dos quais n\u00e3o nos lembramos, talvez por raz\u00f5es parcialmente acidentais, n\u00e3o haveria aqueles cuja natureza \u00e9 tal que n\u00e3o podemos nos lembrar deles? Agora, se esses fossem precisamente os sonhos nos quais o sentimento da personalidade atual desaparece completamente, e onde revivemos o passado exatamente como ele foi, ent\u00e3o seria preciso dizer que de fato existem sonhos nos quais mem\u00f3rias se efetivam, mas que regularmente esquecemos quando paramos de sonhar. Isso \u00e9 exatamente o que Bergson entende, quando atribui aos sonhos leves aqueles dos quais nos lembramos e inclina-se a acreditar que, no sono profundo, as mem\u00f3rias se tornam o \u00fanico objeto ou pelo menos um objeto poss\u00edvel de nossos sonhos.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, quando Hervey de Saint-Denis, avaliando a profundidade de seu sono pela dificuldade que tem em acordar, percebe que, no sono profundo, o sonho \u00e9 mais \u201cv\u00edvido\u201d, mais \u201cl\u00facido\u201d e ao mesmo tempo \u201cmais cont\u00ednuo\u201d, por um lado ter\u00edamos a prova de que lembramos dos sonhos do sono profundo; por outro lado, nada indica que haja mais lembran\u00e7as, e lembran\u00e7as mais precisas, nesses sonhos do que nos sonhos do sono leve<a href=\"#_ftn16\" id=\"_ftnref16\">[16]<\/a>. Pode-se, de fato, argumentar: entre o momento em que se come\u00e7a a acordar algu\u00e9m e o momento em que ele realmente acorda, decorre um intervalo de tempo. Ainda que pequeno, esse intervalo \u00e9 suficiente, dada a rapidez com que os sonhos ocorrem, para que durante esse intervalo, correspondente a um estado intermedi\u00e1rio entre o sono profundo e a vig\u00edlia, ocorram os sonhos erroneamente associados ao sono profundo que o precedeu. Se encaixarmos assim em uma dura\u00e7\u00e3o infinitesimal sonhos de dura\u00e7\u00e3o aparentemente longa, de fato, nada prova que alcancemos os sonhos do sono profundo propriamente ditos. No entanto, talvez devamos desconfiar das observa\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas em que o sujeito acredita ter assistido, em sonho, a eventos que exigiriam, para ocorrer na realidade, muito tempo, v\u00e1rios dias ou at\u00e9 semanas, e que passaram diante de seus olhos em quest\u00e3o de instantes. At\u00e9 que ponto ele testemunhou os eventos, at\u00e9 que ponto ele teve deles apenas uma vis\u00e3o esquem\u00e1tica? Kaploun diz que notou \u201cv\u00e1rias vezes n\u00e3o apenas que n\u00e3o sonhamos mais r\u00e1pido do que pensamos quando acordados, mas que o sonho \u00e9 relativamente lento\u201d. Sua velocidade parece ser \u201caproximadamente a mesma da a\u00e7\u00e3o real\u201d<a href=\"#_ftn17\" id=\"_ftnref17\">[17]<\/a>. Hervey de Saint-Denis diz que, tendo frequentemente acordado algu\u00e9m que estava sonhando em voz alta, de modo que essa pessoa lhe fornecia pontos de refer\u00eancia enquanto dormia, ele \u201cconstantemente observou, ao perguntar imediatamente sobre o que ela tinha sonhado, que suas mem\u00f3rias nunca remontavam al\u00e9m de cinco a seis minutos\u201d. De qualquer forma, estamos longe dos poucos segundos que duram o despertar. \u201cMuitas e muitas vezes\u201d, acrescenta o mesmo autor<a href=\"#_ftn18\" id=\"_ftnref18\">[18]<\/a>, \u201creconstru\u00ed toda a sequ\u00eancia que a associa\u00e7\u00e3o das minhas ideias tinha percorrido durante um per\u00edodo de cinco a seis minutos, decorrido entre o momento em que comecei a cochilar e o momento em que fui retirado de um sonho j\u00e1 formado, ou seja, do estado de vig\u00edlia absoluta ao estado de sono completo.\u201d Assim, \u00e0s observa\u00e7\u00f5es sobre a rapidez dos sonhos, das quais se conclui que n\u00e3o lembramos dos sonhos do sono profundo, \u00e9 f\u00e1cil opor outras que tenderiam a provar o contr\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora podemos raciocinar com dados mais incontest\u00e1veis. Entre os nossos sonhos, existem aqueles que s\u00e3o combina\u00e7\u00f5es de imagens fragmentadas, cuja origem muitas vezes incerta s\u00f3 poder\u00edamos recuperar por meio de esfor\u00e7os interpretativos ao acordar, em uma ou v\u00e1rias \u00e1reas de nossa mem\u00f3ria. Outros s\u00e3o simplesmente lembran\u00e7as reutilizadas. Entre esses dois tipos h\u00e1 muitos intermedi\u00e1rios. Por que n\u00e3o supor que a s\u00e9rie n\u00e3o termina a\u00ed, que al\u00e9m dessas lembran\u00e7as reutilizadas existem outras que n\u00e3o s\u00e3o, e que em seguida surge uma categoria de sonhos que conteriam lembran\u00e7as puras e simples (realizadas)? Poder\u00edamos interpretar isso afirmando que o que impede a lembran\u00e7a de reaparecer integralmente s\u00e3o as sensa\u00e7\u00f5es org\u00e2nicas que, por mais vagas que sejam, ainda penetram no sonho e nos mant\u00eam em contato com o mundo exterior. \u00c0 medida que esse contato diminui cada vez mais, em \u00faltima inst\u00e2ncia, sem interfer\u00eancia externa para ordenar a sequ\u00eancia das imagens, s\u00f3 resta e continua a antiga ordem cronol\u00f3gica pela qual a s\u00e9rie de mem\u00f3rias se desdobrar\u00e1 novamente. No entanto, mesmo que possamos categorizar assim as imagens dos sonhos, nada nos autorizaria a admitir transi\u00e7\u00f5es insens\u00edveis da categoria de sonhos para a de lembran\u00e7as puras. Podemos dizer que a lembran\u00e7a, conforme definida nessa concep\u00e7\u00e3o, n\u00e3o possui graus: um estado \u00e9 uma lembran\u00e7a ou outra coisa; n\u00e3o \u00e9 parcialmente uma lembran\u00e7a e parcialmente outra coisa. Sem d\u00favida, existem lembran\u00e7as incompletas, mas n\u00e3o h\u00e1, em um sonho, uma mistura de lembran\u00e7as incompletas com outros elementos, porque mesmo uma lembran\u00e7a incompleta, quando evocada, se op\u00f5e a tudo o mais como o passado ao presente, enquanto o sonho, em todas as suas partes, se confunde conosco no presente. O sonho n\u00e3o escapa mais dessa condi\u00e7\u00e3o do que uma bailarina, mesmo que ela toque o solo apenas com as pontas dos p\u00e9s e d\u00ea a impress\u00e3o de que vai voar, n\u00e3o se subtrai das leis da gravidade. Portanto, n\u00e3o se pode concluir que existem sonhos que s\u00e3o lembran\u00e7as puras, com base no fato de que h\u00e1 sonhos que se assemelham mais a nossas lembran\u00e7as do que outros. Passar de um para o outro seria, na realidade, saltar de uma ordem de fatos para outra com natureza completamente diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a atividade por excel\u00eancia da mente durante o sono profundo fosse evocar lembran\u00e7as, seria estranho que, antes de adormecer, precis\u00e1ssemos desviar nossa aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas do presente e das lembran\u00e7as imediatas que o representam, mas tamb\u00e9m de todo tipo de lembran\u00e7as, e suspender ao mesmo tempo nossas percep\u00e7\u00f5es, a atividade da mem\u00f3ria. E \u00e9 exatamente isso que acontece. Kaploun acredita ter observado que, no in\u00edcio do adormecimento, atravessamos um estado de devaneio onde \u201cevocar lembran\u00e7as \u00e9 f\u00e1cil, cont\u00ednuo e f\u00e9rtil\u201d. Mas depois \u00e9 necess\u00e1rio \u201ccontrolar a energia da vig\u00edlia\u201d, o que \u00e9 conseguido \u201cocupando-a com um trabalho que cria um vazio, um empobrecimento: uma melodia ou alguma outra imagem r\u00edtmica\u201d. Em seguida, o mesmo autor descreve um estado singular que ele s\u00f3 conseguiu captar ap\u00f3s um longo treinamento, e que precederia imediatamente o sonho real. \u201cTodo motivo r\u00edtmico desaparece e nos encontramos como espectadores passivos de uma floresc\u00eancia constante e r\u00e1pida de imagens simples e curtas&#8230; nitidamente objetivas, independentes e exteriorizadas&#8230; Parece que estamos testemunhando a dissolu\u00e7\u00e3o do sistema latente espec\u00edfico (consci\u00eancia do real no estado de vig\u00edlia), cujas partes agem vigorosamente antes de desaparecerem. Os elementos desse sistema (no\u00e7\u00e3o de orienta\u00e7\u00e3o, de pessoas ao nosso redor ou que vimos) lan\u00e7am, de certa forma, sua \u00faltima luz<a href=\"#_ftn19\" id=\"_ftnref19\">[19]<\/a>.\u201d Assim, \u201cas caixas\u201d nas quais distribu\u00edmos as imagens do estado de vig\u00edlia devem desaparecer, para que um novo modo de sistematiza\u00e7\u00e3o se torne poss\u00edvel, o do sonho<a href=\"#_ftn20\" id=\"_ftnref20\">[20]<\/a>. Mas essas \u201ccaixas\u201d s\u00e3o tamb\u00e9m aquelas nas quais a evoca\u00e7\u00e3o das lembran\u00e7as ocorre no estado de vig\u00edlia. Portanto, parece que o sistema geral de percep\u00e7\u00f5es e lembran\u00e7as do estado de vig\u00edlia \u00e9 um obst\u00e1culo \u00e0 entrada no sonho.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, se por vezes hesitamos em entrar no estado de vig\u00edlia, se \u00e0s vezes permanecemos acordados por alguns instantes em um estado intermedi\u00e1rio que n\u00e3o \u00e9 exatamente sonho nem vig\u00edlia, \u00e9 porque n\u00e3o conseguimos afastar as \u201ccaixas\u201d onde foram distribu\u00eddas as \u00faltimas imagens vistas no sonho, e os moldes do pensamento desperto n\u00e3o coincidem com os do sonho. Aqui apresentamos um sonho em que parece que essa falta de concord\u00e2ncia \u00e9 clara: \u201cSonho triste. Estou com um jovem que se parece com um dos meus estudantes, em uma sala que se assemelha ao sagu\u00e3o de uma pris\u00e3o. Sou seu advogado e devo redigir com ele (?). Disseram-me: anote todos os detalhes que puder. Ele deve ser enforcado por algum crime que n\u00e3o sei qual \u00e9. Eu o compade\u00e7o, penso em seus pais, gostaria que ele escapasse. \u2013 Ao acordar, ainda estou t\u00e3o triste e preocupado que tento descobrir como poderia ajud\u00e1-lo a escapar (se ele estivesse nessa situa\u00e7\u00e3o). Imagino que estou em uma cidade grande e, em meus pensamentos, me transporto para bairros extensos com grandes grupos de casas atravessadas por galerias, com restaurantes etc. (como muitas vezes vi em sonhos, sempre os mesmos, sem correspond\u00eancia com qualquer mem\u00f3ria acordada). No entanto, ao mesmo tempo, sei que na cidade onde estou na realidade, nunca visitei tais bairros e eles n\u00e3o est\u00e3o indicados no mapa. Esse estado \u00e9 provavelmente explicado pela intensidade emocional do sonho, de modo que, ao acordar, ainda estava sob o dom\u00ednio do sentimento experimentado no sonho. Eu me sentia, portanto, ao mesmo tempo em duas cidades diferentes, uma delas sendo a cidade do meu sonho, e em v\u00e3o eu tentava encontrar na uma o que havia visto na outra.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a><\/a><a>I.2. Diferen\u00e7a entre os quadros do pensamento da vig\u00edlia e do sonho<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>Entre o pensamento do sonho e o do estado de vig\u00edlia h\u00e1, de fato, uma diferen\u00e7a fundamental: ambos n\u00e3o se desenvolvem nos mesmos quadros. Dois autores, Maury e Freud, parecem ter compreendido isso, apesar de suas concep\u00e7\u00f5es serem muito distintas. Quando Maury associa o sonho a certas formas de aliena\u00e7\u00e3o mental, ele sente que, em ambos os casos, o sujeito vive em um ambiente pr\u00f3prio, onde rela\u00e7\u00f5es se estabelecem entre pessoas, objetos e palavras, que t\u00eam significado apenas para ele. Saindo do mundo real, esquecendo tanto as leis f\u00edsicas quanto as conven\u00e7\u00f5es sociais, o sonhador, assim como o alienado, provavelmente realiza um mon\u00f3logo interno. No entanto, ao mesmo tempo, ele cria um mundo f\u00edsico e social onde novas leis e conven\u00e7\u00f5es surgem, as quais, ali\u00e1s, mudam constantemente.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, quando Freud atribui \u00e0s vis\u00f5es dos sonhos o valor de sinais cujo significado ele procura nas preocupa\u00e7\u00f5es ocultas do sujeito, ele n\u00e3o est\u00e1 realmente dizendo algo diferente. Se nos atermos aos dados literais do sonho, somos impressionados por sua insignific\u00e2ncia e incoer\u00eancia. Por\u00e9m, o que \u00e9 desinteressante para n\u00f3s certamente n\u00e3o o \u00e9 para quem sonha, e h\u00e1 uma l\u00f3gica do sonho que explica todas essas contradi\u00e7\u00f5es. Sem d\u00favida, Freud n\u00e3o para por a\u00ed; ele tenta explicar o conte\u00fado aparente do sonho pelas preocupa\u00e7\u00f5es ocultas do sonhador; ele at\u00e9 imagina que o sujeito, ao representar em sonho a realiza\u00e7\u00e3o de seus desejos, deve, no entanto, ocultar sua natureza, por respeito a um segundo eu, que exerce uma esp\u00e9cie de censura nesse teatro interno, e cuja vigil\u00e2ncia deve ser enganada e cujas suspeitas devem ser evitadas: da\u00ed adv\u00e9m o car\u00e1ter simb\u00f3lico dos sonhos.<\/p>\n\n\n\n<p>As interpreta\u00e7\u00f5es que ele prop\u00f5e s\u00e3o ao mesmo tempo muito complicadas e muito incertas: para relacionar um evento da vig\u00edlia a um incidente do sonho, \u00e9 preciso recorrer a associa\u00e7\u00f5es de ideias frequentemente inesperadas. Al\u00e9m disso, Freud n\u00e3o se limita geralmente a uma \u00fanica interpreta\u00e7\u00e3o: ele sobrep\u00f5e dois, tr\u00eas ou at\u00e9 quatro sistemas de interpreta\u00e7\u00e3o, e quando para, sugere ainda vislumbrar muitas outras rela\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, mas as omite porque \u00e9 necess\u00e1rio estabelecer limites. Isso significa que, enquanto no estado de vig\u00edlia as imagens que percebemos s\u00e3o o que s\u00e3o, cada uma representando apenas uma pessoa, um objeto ocupa apenas um lugar, uma a\u00e7\u00e3o tem apenas um resultado, uma palavra tem apenas um significado, sem o qual os seres humanos n\u00e3o poderiam se encontrar no meio das coisas e n\u00e3o poderiam se entender entre si, no sonho, s\u00edmbolos substituem as realidades a que essas regras j\u00e1 n\u00e3o se aplicam. Isso ocorre precisamente porque n\u00e3o estamos mais em contato com objetos externos ou com outros seres humanos, mas apenas com n\u00f3s mesmos. Assim, qualquer linguagem expressa e qualquer forma representa tudo o que temos em mente naquele momento, j\u00e1 que ningu\u00e9m ou nenhuma for\u00e7a f\u00edsica se op\u00f5e a isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, entre o mundo do sonho e o da vig\u00edlia, h\u00e1 um desacordo t\u00e3o grande que n\u00e3o se compreende como \u00e9 poss\u00edvel manter, em um deles, qualquer lembran\u00e7a do que se fez e pensou no outro. Como uma lembran\u00e7a da vig\u00edlia, compreendida aqui enquanto uma lembran\u00e7a completa de uma cena inteira reproduzida com precis\u00e3o, poderia encontrar espa\u00e7o nessa s\u00e9rie de imagens fantasmas chamada sonho? \u00c9 como se estiv\u00e9ssemos tentando mesclar, com uma ordem de fatos sujeita ao puro arb\u00edtrio do indiv\u00edduo, a ordem dos fatos reais sujeitos \u00e0s leis f\u00edsicas e sociais. No entanto, inversamente, como guardamos, ao acordar, qualquer lembran\u00e7a de nossos sonhos? Como essas vis\u00f5es fugazes e incoerentes conseguem acessar a consci\u00eancia desperta?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s vezes, ao acordar, mantemos na mente uma imagem espec\u00edfica de um sonho, retida na mem\u00f3ria sem saber por qu\u00ea: como pequenos lagos que permanecem nas rochas depois que o mar se retira. \u00c0s vezes, a imagem est\u00e1 ligada ao que a precede: ela abre toda uma hist\u00f3ria, sendo o primeiro elo de uma cadeia de outras imagens; \u00e0s vezes, ela se destaca em um tempo vazio: nem antes, nem depois, nada se destaca que esteja conectado a ela. De qualquer forma, se, depois, seguimos vagamente os vest\u00edgios do que se desenvolveu na consci\u00eancia a partir dela, antes, n\u00e3o vemos mais nada. No entanto, sabemos que ela n\u00e3o surgiu do nada: temos a sensa\u00e7\u00e3o de que, por tr\u00e1s da tela que a separa do passado, muitas lembran\u00e7as permanecem na mem\u00f3ria. Mas n\u00e3o temos meios de recuper\u00e1-las. Quando, apesar de tudo, conseguimos enxergar al\u00e9m da tela, quando, na pr\u00f3pria imagem, a princ\u00edpio opaca e que gradualmente se torna transparente, vemos os contornos de objetos ou eventos que a precederam em nosso sonho, ent\u00e3o surge em n\u00f3s um sentimento profundo do paradoxo desse ato de mem\u00f3ria. Na pr\u00f3pria imagem, assim como no que a antecede (e \u00e9 por isso que ela nos parece um come\u00e7o), n\u00e3o havia nenhum ponto de apoio para nos transportarmos para um momento anterior dessa forma; n\u00e3o existia nenhuma conex\u00e3o intelig\u00edvel entre a imagem e o que a precedia. Como, ent\u00e3o, passamos disso para aquilo? A imagem e o que a acompanha, formando com ela uma imagem mais ou menos coerente, mas cujas partes se sustentam mutuamente, parecem um mundo fechado \u2013 n\u00e3o compreendemos, quando estamos presos nele, e quando todos os caminhos que o atravessam nos trazem de volta, que podemos sair dele e entrar em outro. Compreendemos isso t\u00e3o pouco quanto a passagem de um plano para outro, para quem parece estar obrigado a se mover no primeiro: isso \u00e9 t\u00e3o obscuro para n\u00f3s quanto a exist\u00eancia de uma nova dimens\u00e3o do espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, ser\u00e1 realmente a mem\u00f3ria que entra em a\u00e7\u00e3o quando evocamos nossos sonhos? Os psic\u00f3logos que tentaram descrever as vis\u00f5es do sono reconhecem que essas imagens s\u00e3o t\u00e3o inst\u00e1veis que devem ser anotadas imediatamente ap\u00f3s acordar. Caso contr\u00e1rio, h\u00e1 o risco de substituir o sonho pelo que \u00e9 apenas uma reconstru\u00e7\u00e3o e, sem d\u00favida, em muitos aspectos, uma deforma\u00e7\u00e3o. Eis o que parece acontecer, em resumo. Quando acordamos e nos voltamos para o sonho, temos a sensa\u00e7\u00e3o de que uma sequ\u00eancia de imagens, desigualmente v\u00edvidas, permanece suspensa na mente, como um corante em um l\u00edquido recentemente agitado. A mente ainda est\u00e1, de certa forma, impregnada por elas. Se n\u00e3o as atentarmos imediatamente, sabemos que elas desaparecer\u00e3o gradualmente; sentimos que algumas delas j\u00e1 se foram e que nenhum esfor\u00e7o seria capaz de recuper\u00e1-las. Portanto, focamos nelas, quase como se fossem objetos externos que estamos percebendo, e \u00e9 nesse momento que as introduzimos na consci\u00eancia desperta. A partir desse ponto, quando as lembramos, evocamos n\u00e3o as imagens como apareciam no momento de acordar, mas a percep\u00e7\u00e3o que tivemos delas naquele momento. E podemos pensar que a mem\u00f3ria atinge o sonho. Na realidade, indiretamente, por meio do que conseguimos fixar assim, \u00e9 que o conheceremos; a mem\u00f3ria da vig\u00edlia reproduzir\u00e1 uma imagem da vig\u00edlia. Certamente, \u00e0s vezes, no meio do dia seguinte ao sonho, ou at\u00e9 mais tarde, partes do sonho que n\u00e3o t\u00ednhamos fixado assim imediatamente ap\u00f3s acordar reaparecem. Mas o processo ser\u00e1 o mesmo: elas permaneceram na mente, que, por alguma raz\u00e3o, n\u00e3o se voltou para elas, e perceberemos que, se, quando as notarmos, n\u00e3o fizermos o esfor\u00e7o necess\u00e1rio para fix\u00e1-las, elas desaparecer\u00e3o tamb\u00e9m, definitivamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, \u00e9 necess\u00e1rio distinguir, no processo que nos leva a possuir o que podemos chamar de mem\u00f3ria de um sonho, duas fases muito distintas. A segunda \u00e9 um ato de mem\u00f3ria semelhante aos outros: adquirimos uma lembran\u00e7a, a mantemos, a evocamos, a reconhecemos e, finalmente, a localizamos no momento do despertar, onde a adquirimos, e indiretamente no per\u00edodo de sono anterior, durante o qual sabemos que tivemos esse sonho, mas sem poder dizer em qual momento espec\u00edfico; a primeira consiste simplesmente em que havia, ao acordar, algumas imagens flutuando na mente e que n\u00e3o eram lembran\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre esse \u00faltimo ponto, \u00e9 importante um aprofundamento. Afinal, n\u00e3o \u00e9 uma lembran\u00e7a exatamente isso: uma imagem ligada ao passado e, no entanto, que permanece? No entanto, se aceitarmos a distin\u00e7\u00e3o proposta por Bergson entre mem\u00f3rias-h\u00e1bitos ou mem\u00f3rias-movimentos, que correspondem a estados psicol\u00f3gicos reproduzidos com mais ou menos frequ\u00eancia, e mem\u00f3rias-imagens, que correspondem a estados que ocorreram apenas uma vez e, cada um deles, tem uma data, ou seja, pode ser localizado em um momento espec\u00edfico do nosso passado, n\u00e3o vemos como as imagens do sonho, como elas aparecem ao acordar, possam se encaixar em qualquer uma dessas categorias.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, s\u00e3o realmente mem\u00f3rias-h\u00e1bitos, pois elas s\u00f3 apareceram uma vez: quando as percebemos, elas n\u00e3o provocam em n\u00f3s o sentimento de familiaridade que acompanha a percep\u00e7\u00e3o de objetos ou pessoas com as quais temos rela\u00e7\u00f5es frequentes<a href=\"#_ftn21\" id=\"_ftnref21\">[21]<\/a>. No entanto, elas tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o mem\u00f3rias-imagens, pois n\u00e3o s\u00e3o \u201clocalizadas em um momento definido do nosso passado\u201d. Sem d\u00favida, as localizamos posteriormente; podemos dizer, quando acordamos, que elas ocorreram durante a noite que acabou de passar. Mas em que momento? N\u00e3o sabemos. Suponha que negligenciemos definir os limites de tempo nos quais ocorreram e (como ocorre excepcionalmente) as evocamos v\u00e1rios dias ou semanas depois; n\u00e3o teremos meio de recuperar suas datas.<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, aqui, faltamos com esses pontos de refer\u00eancia, sem os quais muitas lembran\u00e7as de eventos do dia anterior tamb\u00e9m nos escapariam. \u00c9 por isso que n\u00e3o lembramos esses da mesma maneira como lembramos as imagens do sonho. Se temos a sensa\u00e7\u00e3o (talvez ilus\u00f3ria) de que nossas mem\u00f3rias (entendo as que se referem \u00e0 vida consciente da vig\u00edlia) est\u00e3o dispostas em uma ordem imut\u00e1vel em nossa mem\u00f3ria, se a sequ\u00eancia de imagens do passado nos parece, nesse sentido, t\u00e3o objetiva quanto a sequ\u00eancia dessas imagens atuais ou virtuais que chamamos de objetos do mundo exterior, \u00e9 porque elas realmente se encaixam em quadros im\u00f3veis que n\u00e3o s\u00e3o nossa exclusiva cria\u00e7\u00e3o e que nos s\u00e3o impostos de fora. As mem\u00f3rias, mesmo quando reproduzem estados afetivos simples (ali\u00e1s, as mais raras e menos claramente localizadas), mas principalmente quando refletem os eventos de nossa vida, n\u00e3o apenas nos colocam em contato com nosso passado, mas nos transportam para uma \u00e9poca, nos recolocam em um estado da sociedade do qual existem, ao nosso redor, muitos outros vest\u00edgios do que os que descobrimos em n\u00f3s mesmos. Assim como precisamos nossas sensa\u00e7\u00f5es nos guiando pelas dos outros, tamb\u00e9m complementamos nossas mem\u00f3rias nos apoiando, pelo menos em parte, na mem\u00f3ria dos outros. Isso n\u00e3o ocorre apenas porque, \u00e0 medida que o tempo passa, o intervalo entre um per\u00edodo de nossa exist\u00eancia e o momento presente se amplia, fazendo com que muitas mem\u00f3rias nos escapem; mas tamb\u00e9m porque n\u00e3o vivemos mais no meio das mesmas pessoas: muitas testemunhas que poderiam nos lembrar de eventos antigos desaparecem. \u00c0s vezes, basta mudarmos de local, de profiss\u00e3o, passarmos de uma fam\u00edlia para outra, ou algum grande evento como uma guerra ou revolu\u00e7\u00e3o transforma profundamente o ambiente social ao nosso redor, para que de per\u00edodos inteiros do nosso passado restem apenas um n\u00famero bem reduzido de mem\u00f3rias. Pelo contr\u00e1rio, uma viagem ao pa\u00eds onde passamos nossa juventude, o encontro repentino com um amigo de inf\u00e2ncia, tem o efeito de despertar e \u201crefrescar\u201d nossa mem\u00f3ria: nossas mem\u00f3rias n\u00e3o foram apagadas; mas elas s\u00e3o preservadas na mem\u00f3ria dos outros e na apar\u00eancia inalterada das coisas. N\u00e3o \u00e9 surpreendente que n\u00e3o possamos evocar da mesma maneira as imagens que apenas n\u00f3s percebemos, pelo menos na ordem em que o sonho nos apresenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, poderia ser explicado o fato que chamou nossa aten\u00e7\u00e3o, ou seja, que em nossos sonhos nunca introduzimos uma mem\u00f3ria real e completa, como aquelas que lembramos no estado de vig\u00edlia, mas que nossos sonhos sejam compostos por fragmentos de mem\u00f3rias muito mutiladas ou confundidas com outras para que possamos reconhec\u00ea-las. N\u00e3o h\u00e1 motivo para se surpreender com isso, assim como n\u00e3o nos surpreendemos por n\u00e3o descobrirmos em nossos sonhos sensa\u00e7\u00f5es verdadeiras, como aquelas que experimentamos quando estamos acordados, que exigem certo grau de aten\u00e7\u00e3o refletida e que se ajustam \u00e0 ordem das rela\u00e7\u00f5es naturais das quais n\u00f3s e os outros temos experi\u00eancia. Da mesma forma, se a s\u00e9rie de imagens de nossos sonhos n\u00e3o cont\u00e9m mem\u00f3rias propriamente ditas, \u00e9 porque, para lembrar, \u00e9 necess\u00e1rio ser capaz de raciocinar e comparar e sentir-se em rela\u00e7\u00e3o a uma sociedade de pessoas que podem garantir a fidelidade de nossa mem\u00f3ria, condi\u00e7\u00f5es que obviamente n\u00e3o s\u00e3o atendidas quando estamos dormindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa forma de considerar a mem\u00f3ria suscita pelo menos duas obje\u00e7\u00f5es. De fato, \u00e0s vezes evocamos nosso passado, n\u00e3o para encontrar eventos que possam ser \u00fateis para n\u00f3s, mas para saborear o prazer puramente desinteressado de reviver em pensamento um per\u00edodo passado de nossa exist\u00eancia. \u201cFrequentemente, diz Rousseau, distraio-me dos meus infort\u00fanios presentes pensando nos diversos eventos da minha vida, e os arrependimentos, as doces lembran\u00e7as, os pesares, a ternura se alternam para me fazer esquecer por um momento o meu sofrimento\u201d. Vemos frequentemente, no conjunto das imagens passadas com as quais entrar\u00edamos em contato dessa maneira, a parte mais \u00edntima do nosso eu, aquela que mais escapa \u00e0 a\u00e7\u00e3o do mundo exterior e, especialmente, da sociedade. E vemos tamb\u00e9m, nas mem\u00f3rias assim entendidas, estados que se n\u00e3o im\u00f3veis, s\u00e3o pelo menos imut\u00e1veis, depositados ao longo da nossa dura\u00e7\u00e3o de acordo com uma ordem que n\u00e3o podemos modificar, que reaparecem como eram quando os atravessamos pela primeira vez, sem terem sido, no intervalo, submetidos a qualquer elabora\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, \u00e9 porque acredita-se que as mem\u00f3rias s\u00e3o assim dadas de uma vez por todas que se nega ao esp\u00edrito que se lembra qualquer atividade intelectual. Entre sonhar acordado e se lembrar, h\u00e1 pouco mais que uma nuance. As mem\u00f3rias seriam t\u00e3o estranhas \u00e0 consci\u00eancia voltada para o presente, e, quando ela se volta para elas, elas desfilariam diante de seus olhos ou a invadiriam, exigindo dela t\u00e3o pouco esfor\u00e7o quanto os objetos reais, quando a mente se relaxa e n\u00e3o os considera mais do ponto de vista pr\u00e1tico. Poder\u00edamos facilmente admitir que \u00e9 uma faculdade especial, n\u00e3o utilizada enquanto estamos principalmente preocupados em agir, que entra em a\u00e7\u00e3o tanto na devaneio quanto na mem\u00f3ria; seria simplesmente a capacidade de se deixar impressionar sem reagir, ou reagir apenas o suficiente para que essa impress\u00e3o se torne consciente. Ent\u00e3o n\u00e3o se v\u00ea como as mem\u00f3rias se distinguiriam das imagens de nossos sonhos, e n\u00e3o se compreende por que n\u00e3o entrariam nelas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ser\u00e1 que o ato que evoca a mem\u00f3ria \u00e9 realmente aquele que nos faz entrar mais profundamente em n\u00f3s mesmos? Nossa mem\u00f3ria \u00e9 realmente o nosso dom\u00ednio exclusivo, e quando nos refugiamos em nosso passado, podemos dizer que estamos escapando da sociedade para nos trancar em nosso \u201ceu\u201d? Como isso seria poss\u00edvel se toda mem\u00f3ria est\u00e1 ligada (mesmo que n\u00e3o seja o conte\u00fado) a imagens que representam pessoas diferentes de n\u00f3s mesmos? Sem d\u00favida, podemos nos lembrar de muitos eventos dos quais fomos as \u00fanicas testemunhas, da apar\u00eancia de lugares que percorremos sozinhos e, especialmente, existem muitos sentimentos e pensamentos que nunca comunicamos a ningu\u00e9m e dos quais s\u00f3 n\u00f3s guardamos o segredo. Mas mantemos uma mem\u00f3ria precisa dos objetos vistos durante uma caminhada solit\u00e1ria apenas na medida em que os localizamos, determinamos sua forma e os nomeamos, e eles nos proporcionaram alguma reflex\u00e3o. E tudo isso, localiza\u00e7\u00e3o, forma, nome, reflex\u00e3o, s\u00e3o instrumentos pelos quais nossa intelig\u00eancia se agarra aos dados do passado que, sem eles, nos restaria apenas uma vaga reminisc\u00eancia indistinta. Um explorador \u00e9 obrigado a tomar notas sobre as v\u00e1rias etapas de sua viagem; datas, marcos em mapas geogr\u00e1ficos, palavras necessariamente gerais ou esbo\u00e7os esquem\u00e1ticos, s\u00e3o os pregos com os quais ele fixa suas mem\u00f3rias, que de outra forma escapariam como a maioria das apari\u00e7\u00f5es da vida noturna.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se nos acuse de nos atermos apenas ao que \u00e9 mais exterior nas mem\u00f3rias e de nos determos na superf\u00edcie da mem\u00f3ria. Certamente, todas essas indica\u00e7\u00f5es de forma impessoal s\u00f3 t\u00eam valor na medida em que ajudam a reencontrar e reproduzir um estado interno que desapareceu. Por si mesmas, elas n\u00e3o possuem uma virtude evocativa. Quando folheamos um \u00e1lbum de fotografias, ou as pessoas que elas representam s\u00e3o parentes, amigos, que desempenharam um papel em nossa vida, e ent\u00e3o cada uma dessas imagens ganha vida e se torna o ponto de perspectiva de onde de repente avistamos um ou v\u00e1rios per\u00edodos do nosso passado; ou ent\u00e3o se trata de desconhecidos, e ent\u00e3o nossos olhares deslizam indiferentemente sobre esses rostos apagados e esses trajes desatualizados, que n\u00e3o nos lembram de nada. No entanto, \u00e9 igualmente verdadeiro que a lembran\u00e7a dos sentimentos n\u00e3o pode ser separada das circunst\u00e2ncias em que os experimentamos. N\u00e3o h\u00e1 um caminho interno direto que nos permita encontrar uma dor ou uma alegria abolidas. Na \u201cTristesse d\u2019Olympio\u201d, o poeta procura primeiro, de certa forma, os fragmentos de suas lembran\u00e7as, que ficaram presos \u00e0s \u00e1rvores, \u00e0s cercas, \u00e0s sebes do caminho, antes de aproxim\u00e1-los e fazer emergir a paix\u00e3o do passado em sua realidade. Se quis\u00e9ssemos abstrair as pessoas e os objetos, cujas imagens permanentes e imut\u00e1veis s\u00e3o mais facilmente encontradas, visto que s\u00e3o como quadros gerais do pensamento e da atividade, procurar\u00edamos em v\u00e3o os estados de esp\u00edrito vividos anteriormente, fantasmas inapreens\u00edveis da mesma forma que aqueles de nossos sonhos assim que eles n\u00e3o estiverem mais sob nosso olhar. N\u00e3o devemos imaginar que a apar\u00eancia puramente pessoal de nossos estados antigos de consci\u00eancia \u00e9 preservada no fundo da mem\u00f3ria e que basta \u201cvirar a cabe\u00e7a para esse lado\u201d para recuper\u00e1-los. \u00c9 na medida em que eles foram ligados a imagens de significado social e que n\u00f3s os representamos comummente pelo fato de sermos membros da sociedade, como por exemplo a sociedade dos \u201cgrandes carruagens gemendo que voltam \u00e0 noite\u201d, ou da \u201ccancela onde a esmola havia esvaziado nossos bolsos\u201d, que mantemos alguma conex\u00e3o com nossas antigas disposi\u00e7\u00f5es internas e podemos pelo menos reconstitu\u00ed-las em parte.<\/p>\n\n\n\n<p>Existe uma concep\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria segundo a qual os estados de consci\u00eancia, assim que ocorrem, adquirem de alguma forma um direito indefinido de persistir: eles permaneceriam como s\u00e3o, adicionados aos que os precederam, no passado. Entre eles e \u201co plano ou a ponta do presente\u201d, dever\u00edamos imaginar que a mente se move. De qualquer forma, n\u00e3o bastariam as imagens, ideias e reflex\u00f5es atuais para reconstituir o quadro dos dias passados. Haveria apenas uma maneira de evocar as \u201cmem\u00f3rias puras\u201d: seria deixar o presente, relaxar os recursos do pensamento racional e nos deixar voltar ao passado, at\u00e9 que entr\u00e1ssemos em contato com aquelas realidades do passado, que permaneceram como estavam quando se fixaram em uma forma de exist\u00eancia que as confinaria para sempre. Entre o plano dessas mem\u00f3rias e o presente haveria uma regi\u00e3o intermedi\u00e1ria, onde nem as percep\u00e7\u00f5es nem as lembran\u00e7as se apresentariam em estado puro, como se a mente n\u00e3o pudesse voltar sua aten\u00e7\u00e3o para o passado sem deform\u00e1-lo, como se a lembran\u00e7a se transformasse, mudasse de aspecto, se corrompesse sob a a\u00e7\u00e3o da luz intelectual, \u00e0 medida que ela sobe e se aproxima da superf\u00edcie.<\/p>\n\n\n\n<p>Na realidade, tudo o que podemos observar \u00e9 que a mente, na mem\u00f3ria, se orienta para um intervalo do passado com o qual ela nunca entra em contato, e que ela converte para esse intervalo todos os seus elementos que lhe permitem recuperar e tra\u00e7ar o contorno e o rastro, mas do pr\u00f3prio passado ela n\u00e3o obt\u00e9m nada. Ent\u00e3o, por que supor que as mem\u00f3rias persistem, j\u00e1 que nada nos traz uma prova disso, e que podemos explicar sua reprodu\u00e7\u00e3o sem ter que admitir que elas permaneceram?<\/p>\n\n\n\n<p>O ato (pois \u00e9 de fato um ato) pelo qual a mente se esfor\u00e7a para recuperar uma lembran\u00e7a de dentro de sua mem\u00f3ria parece-nos precisamente o oposto daquele pelo qual ela tende a externalizar seus estados internos atuais. A dificuldade em ambos os casos \u00e9, de fato, inversamente proporcional e, de qualquer forma, completamente diferente. Quando expressamos o que pensamos ou sentimos, muitas vezes nos contentamos com os termos gerais da linguagem comum; \u00e0s vezes usamos compara\u00e7\u00f5es; esfor\u00e7amo-nos, associando palavras que denotam ideias gerais, para delinear cada vez mais os contornos de nosso estado de consci\u00eancia. No entanto, entre a impress\u00e3o e a express\u00e3o, sempre h\u00e1 um desvio. Sob a influ\u00eancia de ideias e formas de pensamento gerais, a consci\u00eancia individual se acostuma a desviar sua aten\u00e7\u00e3o do que h\u00e1 de excepcional nela e que n\u00e3o pode ser facilmente traduzido para a linguagem comum. Isso explicaria a natureza imprecisa das descri\u00e7\u00f5es feitas por alguns pacientes sobre o que sentem: \u00e0 medida que certas sensa\u00e7\u00f5es org\u00e2nicas intensificam-se neles, sensa\u00e7\u00f5es que mal existem, ou n\u00e3o existem de todo, em pessoas normais, eles tamb\u00e9m s\u00e3o obrigados a usar termos inadequados para descrev\u00ea-los, pois n\u00e3o h\u00e1 termos adequados para isso<a href=\"#_ftn22\" id=\"_ftnref22\">[22]<\/a>. No entanto, isso se aplica a muitos outros casos. H\u00e1 uma lacuna na express\u00e3o que mede a inadequa\u00e7\u00e3o das consci\u00eancias individuais \u00e0s condi\u00e7\u00f5es da vida normal.<\/p>\n\n\n\n<p>Inversamente, quando nos lembramos, partimos do presente, do sistema de ideias gerais que est\u00e1 sempre ao nosso alcance, da linguagem e das refer\u00eancias adotadas pela sociedade, ou seja, de todos os meios de express\u00e3o que ela nos disponibiliza, e os combinamos de modo a reencontrar seja um detalhe espec\u00edfico, seja uma nuance das figuras ou dos eventos passados e, em geral, dos nossos estados de consci\u00eancia anteriores. No entanto, essa reconstru\u00e7\u00e3o nunca \u00e9 completa. Sentimos que h\u00e1 elementos pessoais de nossas impress\u00f5es antigas que n\u00e3o podemos evocar por esse m\u00e9todo. H\u00e1 uma lacuna na impress\u00e3o que mede a inadequa\u00e7\u00e3o da compreens\u00e3o social \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de nossa vida consciente pessoal anterior.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas como explicar, ent\u00e3o, que \u00e0s vezes fiquemos surpresos com o fato de que essa lacuna seja preenchida de repente, de que uma lembran\u00e7a que pens\u00e1vamos ter perdido seja recuperada quando menos esper\u00e1vamos? Durante um devaneio triste ou feliz, um per\u00edodo de nossa vida, figuras e pensamentos do passado que se alinham com nosso estado atual parecem reviver diante de nossa vis\u00e3o interna: n\u00e3o s\u00e3o esquemas abstratos, rascunhos, seres transparentes, sem cor; ao contr\u00e1rio, temos a ilus\u00e3o de reencontrar esse passado inalterado, porque nos encontramos novamente no estado em que o atravessamos. Como duvidar de sua realidade, j\u00e1 que entramos em contato com ele t\u00e3o imediatamente quanto com objetos externos, que podemos circund\u00e1-lo e que, longe de encontrar apenas o que est\u00e1vamos procurando, ele nos revela muitos detalhes dos quais n\u00e3o t\u00ednhamos mais ideia? Desta vez, n\u00e3o seria mais a mente que convocaria a lembran\u00e7a: seria a lembran\u00e7a que nos convocaria, que nos pressionaria a reconhec\u00ea-la e nos acusaria de t\u00ea-la esquecido. Portanto, \u00e9 do nosso \u00edntimo, como de um corredor onde s\u00f3 n\u00f3s poder\u00edamos entrar, que as mem\u00f3rias viriam ao nosso encontro ou nos aproximar\u00edamos delas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas de onde vem essa esp\u00e9cie de seiva que infla algumas de nossas recorda\u00e7\u00f5es, at\u00e9 dar-lhes apar\u00eancia da vida real? Ser\u00e1 a vida de outrora que eles preservaram, ou n\u00e3o ser\u00e1 uma vida nova que lhes comunicamos, mas uma vida emprestada, retirada do presente e que durar\u00e1 apenas tanto quanto nossa excita\u00e7\u00e3o passageira ou nossa disposi\u00e7\u00e3o afetiva do momento? Quando nos deixamos levar para recriar em nossa imagina\u00e7\u00e3o uma s\u00e9rie de eventos cujo pensamento nos comove em rela\u00e7\u00e3o a n\u00f3s mesmos ou aos outros, especialmente quando retornamos aos lugares onde ocorreram, seja vendo vest\u00edgios deles nas fachadas das casas que nos viram passar no passado, nos troncos das \u00e1rvores, nos olhares dos idosos, envelhecidos ao mesmo tempo que n\u00f3s, mas que carregam as marcas e talvez a lembran\u00e7a do mesmo passado, ou ao percebermos principalmente o quanto tudo mudou, o quanto pouco resta da antiga apar\u00eancia que nos era familiar, e ent\u00e3o, sens\u00edveis principalmente \u00e0 instabilidade das coisas, temos menos dificuldade em abolir mentalmente aquelas que agora ocupam o lugar do cen\u00e1rio desaparecido de nossas pequenas ou grandes paix\u00f5es, ocorre que a agita\u00e7\u00e3o transmitida ao nosso organismo psicof\u00edsico por essas semelhan\u00e7as, contrastes, reflex\u00f5es, desejos e arrependimentos nos d\u00e1 a ilus\u00e3o de que estamos realmente revivendo as emo\u00e7\u00f5es do passado. Assim, por uma troca m\u00fatua, as imagens que reconstru\u00edmos emprestam das emo\u00e7\u00f5es atuais esse sentimento de realidade que as transforma em nossos olhos em objetos ainda existentes, enquanto os sentimentos atuais, ao se ligarem a essas imagens, se identificam com as emo\u00e7\u00f5es que as acompanharam no passado e, ao mesmo tempo, perdem sua apar\u00eancia de estados atuais. Assim, acreditamos simultaneamente que o passado revive no presente e que deixamos o presente para retornar ao passado. No entanto, nem um nem outro \u00e9 verdadeiro: tudo o que se pode dizer \u00e9 que as mem\u00f3rias, como outras imagens, \u00e0s vezes imitam nossos estados presentes quando nossos sentimentos atuais as encontram e se incorporam a elas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a><\/a><a>I.3. A mem\u00f3ria n\u00e3o faz o passado reviver, mas o reconstr\u00f3i<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>At\u00e9 que ponto o passado pode realmente enganar? Acontece de as mem\u00f3rias imporem \u00e0 consci\u00eancia a sensa\u00e7\u00e3o de sua realidade, assim como algumas imagens alucinat\u00f3rias que acabamos confundindo com sensa\u00e7\u00f5es? Abordamos esse problema no contexto dos sonhos, mas agora precisamos consider\u00e1-lo em toda a sua extens\u00e3o. Existem doen\u00e7as ou exalta\u00e7\u00f5es da mem\u00f3ria, chamadas de paramn\u00e9sias, que consistem no seguinte: voc\u00ea chega a uma cidade pela primeira vez, v\u00ea uma pessoa pela primeira vez e, no entanto, as reconhece como se j\u00e1 as tivesse visto antes. A ilus\u00e3o que desejamos examinar \u00e9 o oposto disso: trata-se de saber se, ao retornar ou imaginar estar em uma cidade onde j\u00e1 estivemos, podemos acreditar que estamos na \u00e9poca em que a visitamos pela primeira vez, revivendo os mesmos sentimentos de curiosidade e surpresa como antes, sem perceber que j\u00e1 os t\u00ednhamos experimentado. Mais genericamente, enquanto os sonhos s\u00e3o ilus\u00f5es talvez interrompidas (sempre que n\u00e3o estamos sonhando) por intervalos em que a consci\u00eancia est\u00e1 vazia, n\u00e3o haveria ilus\u00f5es que interrompem o curso dos estados de consci\u00eancia durante a vig\u00edlia, determinadas pela mem\u00f3ria, e que nos fa\u00e7am confundir o passado revivido com a realidade?<\/p>\n\n\n\n<p>Certamente houve pessoas que desejaram experimentar ilus\u00f5es desse tipo e acreditaram ter alcan\u00e7ado. Os m\u00edsticos que recordam suas vis\u00f5es parecem reviver seu passado. Resta saber se o que est\u00e1 sendo reproduzido \u00e9 a mem\u00f3ria em si ou uma imagem distorcida que gradualmente substituiu a original. Se deixarmos de lado esses casos, nos quais a imagina\u00e7\u00e3o sem d\u00favida desempenha um papel principal, e considerarmos aqueles nos quais, volunt\u00e1ria ou involuntariamente, evocamos uma mem\u00f3ria que manteve sua integridade original, ou seja, da qual n\u00e3o extra\u00edmos outras experi\u00eancias, parece inconceb\u00edvel acreditar que tomemos a mem\u00f3ria de uma percep\u00e7\u00e3o ou sentimento como a pr\u00f3pria percep\u00e7\u00e3o ou sentimento. N\u00e3o \u00e9 porque essas mem\u00f3rias, surgidas durante a vig\u00edlia, se confrontam com nossas percep\u00e7\u00f5es atuais, que desempenhariam o papel de redutores em rela\u00e7\u00e3o a elas. Poder\u00edamos conceber que nossas sensa\u00e7\u00f5es enfraquecessem o suficiente para que as imagens do passado, mais intensas, se impusessem \u00e0 mente e parecessem mais reais que o presente. Mas isso n\u00e3o acontece. Nada prova, inclusive, que o enfraquecimento de nossas sensa\u00e7\u00f5es seja uma condi\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel para a evoca\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias. Afirma-se que, nos idosos, a mem\u00f3ria \u00e9 reativada \u00e0 medida que suas sensa\u00e7\u00f5es se tornam embotadas. No entanto, para explicar por que eles evocam mais frequentemente do que os outros um n\u00famero talvez maior de mem\u00f3rias, \u00e9 suficiente observar que seu interesse se desloca, que suas reflex\u00f5es seguem outro curso, sem que o sentimento de realidade diminua neles. Pelo contr\u00e1rio, as mem\u00f3rias s\u00e3o tanto mais n\u00edtidas, precisas e completas, v\u00edvidas e coloridas, quanto mais ativos s\u00e3o nossos sentidos, quanto mais estamos envolvidos no mundo real e quanto nossa mente, estimulada por todas as excita\u00e7\u00f5es vindas de fora, tem mais energia e est\u00e1 plenamente ativa. A capacidade de lembrar est\u00e1 intimamente relacionada com o conjunto das faculdades da mente desperta: ela diminui \u00e0 medida que essas faculdades enfraquecem. Portanto, n\u00e3o \u00e9 surpreendente que n\u00e3o confundamos nossas mem\u00f3rias com sensa\u00e7\u00f5es reais, j\u00e1 que as evocamos apenas quando somos capazes de reconhec\u00ea-las e contrast\u00e1-las com essas sensa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem tudo se reduz, no caso da mem\u00f3ria, a uma simples luta entre sensa\u00e7\u00f5es e imagens; a intelig\u00eancia como um todo est\u00e1 envolvida, e se n\u00e3o interviesse, n\u00e3o nos lembrar\u00edamos. Voltaire poderia ter imaginado em um de seus Contos um rei deposto, \u00e0 merc\u00ea de seus inimigos, trancado em uma masmorra, a quem, por uma fantasia cruel, aquele que o escravizou quisesse dar a ilus\u00e3o por algum tempo de que ele ainda \u00e9 rei e que tudo o que aconteceu desde que ele n\u00e3o o \u00e9 mais \u00e9 apenas um sonho. Ele seria colocado, por exemplo, durante seu sono, no quarto de seu pal\u00e1cio onde costumava descansar, e ao acordar encontraria objetos e rostos familiares. Isso evitaria qualquer conflito poss\u00edvel entre as representa\u00e7\u00f5es da vig\u00edlia e da mem\u00f3ria, j\u00e1 que elas se confundiriam. No entanto, em que condi\u00e7\u00f5es ele n\u00e3o descobrir\u00e1 imediatamente essa trama? Ser\u00e1 necess\u00e1rio que n\u00e3o lhe seja permitido o tempo de se reconhecer, que m\u00fasicas, perfumes, luzes deslumbrantes e atordoantes seus sentidos, ou seja, ele ter\u00e1 que ser mantido em um estado em que seja incapaz tanto de perceber precisamente o que o rodeia quanto de evocar exatamente o momento em que se acredita que ele foi transportado. Assim que sua aten\u00e7\u00e3o puder se concentrar, assim que ele refletir, ele estar\u00e1 cada vez mais longe de confundir essa fic\u00e7\u00e3o que est\u00e3o tentando fazer com que ele tome como seu estado atual com a realidade de seu passado, conforme sua mem\u00f3ria o representar\u00e1. De fato, n\u00e3o \u00e9 no espet\u00e1culo que ele v\u00ea hoje, que viu, quase exatamente id\u00eantico, no passado, que ele encontraria um princ\u00edpio de distin\u00e7\u00e3o. Enquanto essa imagem permanece suspensa de certa forma no ar, na verdade, n\u00e3o \u00e9 uma percep\u00e7\u00e3o nem uma mem\u00f3ria, \u00e9 uma daquelas imagens de sonho que nos afastam do mundo atual e da realidade, embora n\u00e3o nos transportem para o passado. N\u00e3o sabemos o que \u00e9 at\u00e9 que o tenhamos colocado em seu ambiente, ou seja, at\u00e9 que tenhamos sa\u00eddo do campo estreito que ele delimitava, representado o conjunto do qual ele faz parte e determinado seu lugar e papel nesse conjunto. No entanto, para pensar em uma s\u00e9rie, em um conjunto, seja do passado ou do presente, uma opera\u00e7\u00e3o puramente sens\u00edvel, que n\u00e3o envolveria compara\u00e7\u00e3o, ideias gerais, representa\u00e7\u00e3o do tempo em per\u00edodos definidos, marcados por pontos de refer\u00eancia, ou representa\u00e7\u00e3o de uma sociedade onde nossa vida se desenrola, n\u00e3o seria suficiente. A mem\u00f3ria n\u00e3o est\u00e1 completa, n\u00e3o \u00e9 real (na medida em que pode ser) a menos que toda a mente esteja focada nela.<\/p>\n\n\n\n<p>A representa\u00e7\u00e3o impl\u00edcita de um tipo de plano ou esquema geral, em que as imagens<a href=\"#_ftn23\" id=\"_ftnref23\">[23]<\/a> que se sucedem em nossa mente encontrariam seu lugar, \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o ainda mais necess\u00e1ria para a mem\u00f3ria do que para a percep\u00e7\u00e3o. Isso decorre do fato de que as sensa\u00e7\u00f5es ocorrem por si mesmas antes de as ligarmos \u00e0s nossas percep\u00e7\u00f5es anteriores, antes de as iluminarmos com a luz de nossa reflex\u00e3o, enquanto na maioria das vezes a reflex\u00e3o precede a evoca\u00e7\u00e3o das mem\u00f3rias<a href=\"#_ftn24\" id=\"_ftnref24\">[24]<\/a>. Mesmo quando uma lembran\u00e7a surge de forma s\u00fabita, ela se apresenta inicialmente de maneira crua, isolada, incompleta. E \u00e9, sem d\u00favida, uma oportunidade para refletirmos a fim de conhec\u00ea-la melhor e, como dizem, \u201clocaliz\u00e1-la\u201d. No entanto, at\u00e9 que essa reflex\u00e3o ocorra, \u00e9 poss\u00edvel questionar se, em vez de uma lembran\u00e7a, n\u00e3o se trata de uma dessas imagens fugazes que perpassam a mente sem deixar rastros.<\/p>\n\n\n\n<p>No sonho, por outro lado, ocasionalmente h\u00e1 uma esp\u00e9cie de sistematiza\u00e7\u00e3o, mas os quadros l\u00f3gicos, temporais e espaciais onde se desenrolam as vis\u00f5es do sono s\u00e3o muito inst\u00e1veis. Mal se pode falar em quadros; \u00e9 mais uma atmosfera especial onde podem brotar os pensamentos mais quim\u00e9ricos, mas que n\u00e3o acomodam as mem\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez dev\u00eassemos estudar aqui especialmente a mem\u00f3ria dos sentimentos. A lembran\u00e7a de um pensamento ou sensa\u00e7\u00e3o, quando separada das emo\u00e7\u00f5es que podem ter sido associadas a eles, pouco difere de um pensamento ou sensa\u00e7\u00e3o nova. O presente se assemelha tanto ao passado aqui que tudo ocorre como se a lembran\u00e7a fosse apenas uma repeti\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o uma reapari\u00e7\u00e3o do estado anterior. N\u00e3o \u00e9 o mesmo com os sentimentos, especialmente aqueles em que parece que nossa personalidade, por um momento, um estado dela foi expresso de maneira \u00fanica e inimit\u00e1vel. Para que sejam lembrados, eles precisam renascer pessoalmente, e n\u00e3o sob a forma de algum substituto. Se a mem\u00f3ria dos sentimentos existe, \u00e9 porque eles n\u00e3o morrem completamente, e algo do nosso passado subsiste.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas os sentimentos, assim como nossos outros estados de consci\u00eancia, n\u00e3o escapam dessa regra: para lembrarmos deles, \u00e9 necess\u00e1rio inseri-los em um conjunto de fatos, seres e ideias que fazem parte da nossa representa\u00e7\u00e3o da sociedade. Rousseau, em um trecho do Em\u00edlio, onde imagina que o mestre e a crian\u00e7a est\u00e3o juntos no campo quando o sol nasce, declara que a crian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 capaz de sentimentos diante da natureza e atribui a ela apenas sensa\u00e7\u00f5es. Para que o sentimento pela natureza desperte, ser\u00e1 necess\u00e1rio que ela possa associar a imagem que tem diante dos olhos com a lembran\u00e7a de eventos em que esteve envolvida e que est\u00e3o ligados a ela. No entanto, esses eventos a colocam em contato com seres humanos; portanto, a natureza fala ao nosso cora\u00e7\u00e3o apenas porque, para nossa imagina\u00e7\u00e3o, est\u00e1 impregnada de humanidade. Por um curioso paradoxo, o autor que se apresentou no s\u00e9culo XVIII como amigo da natureza e inimigo da sociedade \u00e9 tamb\u00e9m aquele que ensinou \u00e0s pessoas a espalhar a vida social por um campo de natureza mais amplo, e se ele vibrou com o contato das coisas, \u00e9 porque nelas e ao seu redor ele descobria seres capazes de sentir e amar. Foi demonstrado que o abalo sentimental que, por ocasi\u00e3o da Nova Helo\u00edsa, abriu a sociedade do s\u00e9culo XVIII para uma compreens\u00e3o ampliada da natureza, foi determinado na realidade e principalmente pelo elemento propriamente romanesco desse livro em si. E os leitores de Rousseau puderam contemplar sem avers\u00e3o, tristeza ou t\u00e9dio, com simpatia, ternura e entusiasmo, cenas de montanhas, florestas e lagos selvagens e solit\u00e1rios, porque sua imagina\u00e7\u00e3o os preenchia com os personagens que o autor do livro havia criado, e eles se habituavam a encontrar, como ele, conex\u00f5es entre os aspectos da natureza material e os sentimentos ou situa\u00e7\u00f5es humanas<a href=\"#_ftn25\" id=\"_ftnref25\">[25]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Se, al\u00e9m disso, as Confiss\u00f5es s\u00e3o t\u00e3o evocativas, n\u00e3o seria por que o autor nos conta, na ordem em que se sucedem, os grandes e pequenos eventos de sua vida, nomeando e descrevendo lugares e pessoas, e que, depois de ter explicado dessa forma tudo o que poderia ser, basta que ele nos conte em termos gerais os sentimentos significativos para ele, para que saibamos que tudo o que restou desse passado, tudo o que poderia ser recuperado dele, est\u00e1 agora acess\u00edvel a n\u00f3s? No entanto, o que ele nos revela \u00e9 um conjunto de dados separados da vida social de sua \u00e9poca, \u00e9 o que os outros pensavam dele, ou o que ele pensava dos outros, \u00e9 o julgamento que algumas das pessoas que ele conheceu teriam feito sobre ele, \u00e9 como ele se assemelha aos outros, em que difere deles. Essas mesmas diferen\u00e7as se expressam em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade: Rousseau sente que levou certos v\u00edcios e virtudes mais longe do que os outros, certas ideias e ilus\u00f5es, e que nos basta olhar ao nosso redor ou dentro de n\u00f3s mesmos para conhec\u00ea-los. Certamente, cada vez mais ele imp\u00f5e seu ponto de vista sobre essa sociedade, e a partir dela somos sempre redirecionados para ele. No entanto, como, fora desse ponto de vista, n\u00e3o alcan\u00e7amos diretamente nada dele, \u00e9 pela ideia que ele pr\u00f3prio fez dos homens no meio ou longe dos quais ele viveu que podemos ter uma ideia do que ele foi. Quanto aos seus sentimentos, eles j\u00e1 n\u00e3o existiam quando ele os descrevia: como ent\u00e3o poder\u00edamos conhecer algo al\u00e9m do quadro que ele nos apresenta e no qual os reconstituiu sem ter um modelo diante dos olhos?<\/p>\n\n\n\n<p>Poderia ser argumentado que n\u00e3o temos o direito de reduzir a opera\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria a uma tal reconstru\u00e7\u00e3o. Mantemos os meios que nos permitem, partindo do presente, preparar o espa\u00e7o para o passado, direcionar nossa mente de forma geral para um per\u00edodo desse passado. Por\u00e9m, uma vez que as lembran\u00e7as apare\u00e7am, pode n\u00e3o ser mais necess\u00e1rio conect\u00e1-los dolorosamente uns aos outros, faz\u00ea-los emergir uns dos outros, atrav\u00e9s de um trabalho mental semelhante ao nosso racioc\u00ednio. Sup\u00f5e-se que, uma vez que o fluxo de lembran\u00e7as tenha entrado no canal que abrimos, ele flui e se desloca por conta pr\u00f3pria. A s\u00e9rie de lembran\u00e7as \u00e9 cont\u00ednua. Dizemos facilmente que nos deixamos levar pela corrente de nossas lembran\u00e7as, ao longo da mem\u00f3ria. Em vez de usar nossas faculdades intelectuais nesse momento, parece prefer\u00edvel deix\u00e1-las adormecer. Qualquer reflex\u00e3o poderia desviar nosso pensamento e aten\u00e7\u00e3o: \u00e9 melhor ser passivo, adotar a atitude de um simples espectador e ouvir as respostas que v\u00eam naturalmente ao encontro de perguntas que nem mesmo tivemos tempo de formular. N\u00e3o \u00e9 surpreendente que, ao revisar toda a sequ\u00eancia de a\u00e7\u00f5es e eventos que preencheram anos, meses e dias passados, encontramos tra\u00e7os e caracter\u00edsticas que v\u00e3o al\u00e9m do momento considerado, convidando-nos a coloc\u00e1-los em contextos mais amplos, simultaneamente mais duradouros e impessoais? Como poderia ser diferente, uma vez que, a cada momento, tomamos consci\u00eancia do que acontece dentro de n\u00f3s mesmos, conhecido apenas por n\u00f3s, e de tudo o que nos interessa na vida dos grupos ou sociedades das quais fazemos parte? Isso \u00e9 motivo para acreditar que s\u00f3 podemos abordar nosso passado por esse meio? E n\u00e3o somos, ao contr\u00e1rio, impressionados com o fato de que, \u00e0 medida que nossas lembran\u00e7as s\u00e3o mais precisas e numerosas, n\u00e3o somos n\u00f3s que as colocamos em um quadro geral e externo, mas s\u00e3o esses tra\u00e7os e caracter\u00edsticas sociais que se integram \u00e0 s\u00e9rie de nossos estados internos, n\u00e3o para se separarem, mas para se fundirem? Em outras palavras, uma data ou um lugar adquirem nesse momento um significado para n\u00f3s que n\u00e3o teriam para os outros. \u00c9 atrav\u00e9s da reflex\u00e3o, ao isol\u00e1-los de nossos outros estados, que os pensar\u00edamos abstratamente, e que eles se identificariam com o que s\u00e3o para nosso grupo. No entanto, precisamente quando evocamos nossas lembran\u00e7as dessa maneira, evitamos refletir sobre elas e consider\u00e1-las isoladamente. Haveria, em outras palavras, uma continuidade de lembran\u00e7as que seria incompat\u00edvel com a descontinuidade dos quadros do pensamento ou do racioc\u00ednio discursivo.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, \u00e9 necess\u00e1rio escolher entre duas concep\u00e7\u00f5es aqui. Se, ao lembrar, n\u00e3o reconstruirmos o passado, mas, al\u00e9m disso e at\u00e9 exclusivamente, o revivemos, ent\u00e3o cada um dos diversos eventos do passado deveria surgir novamente em nossa consci\u00eancia um por um, ao contr\u00e1rio, e isoladamente. Mesmo que n\u00e3o se admita que haja uma solu\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de um para outro, como contestar que cada um deles ocupou de fato um momento, e apenas um, da dura\u00e7\u00e3o? Se ele \u00e9 mantido na mem\u00f3ria e pode reaparecer como foi, \u00e9 em si mesmo e pelo que \u00e9, n\u00e3o devido e atrav\u00e9s de suas rela\u00e7\u00f5es com outros, que o evocamos. Mas ent\u00e3o, qual seria a diferen\u00e7a entre uma dessas lembran\u00e7as e as imagens que reaparecem em sonhos, que s\u00e3o claramente separadas da s\u00e9rie que a mem\u00f3ria ret\u00e9m? E por que as lembran\u00e7as n\u00e3o causariam as mesmas ilus\u00f5es que os sonhos? O que exatamente faz com que o sonho seja confundido com a realidade \u00e9 que as imagens que o comp\u00f5em, embora perten\u00e7am ao passado, s\u00e3o desligadas dele. Seja a imagem de uma pessoa conhecida, de um lugar ou parte de um lugar onde estivemos antes, de um sentimento, de uma atitude, de uma palavra, ela se imp\u00f5e a n\u00f3s, e acreditamos em sua realidade, porque ela est\u00e1 sozinha, porque n\u00e3o est\u00e1 ligada \u00e0s nossas representa\u00e7\u00f5es do dia anterior, ou seja, \u00e0s nossas percep\u00e7\u00f5es, e \u00e0 vis\u00e3o geral de nosso passado. \u00c9 muito diferente com as lembran\u00e7as. Elas n\u00e3o se apresentam isoladamente. Mesmo quando nossa aten\u00e7\u00e3o e interesse se concentram em uma delas, sentimos que outras est\u00e3o presentes, organizando-se de acordo com as principais dire\u00e7\u00f5es e pontos de refer\u00eancia de nossa mem\u00f3ria, assim como linhas e figuras se destacam em uma pintura cuja composi\u00e7\u00e3o geral conhecemos.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, \u00e9 poss\u00edvel tamb\u00e9m escolher entre duas concep\u00e7\u00f5es para explicar por que e como passamos de uma lembran\u00e7a para outra. Se, ao lembrar, reviv\u00eassemos os eventos passados, ent\u00e3o ter\u00edamos que admitir que estamos realmente voltando \u00e0 \u00e9poca em que eles ocorreram, e entender\u00edamos que as mesmas raz\u00f5es que determinaram anteriormente a sucess\u00e3o desses momentos, a apari\u00e7\u00e3o de um ap\u00f3s o outro, poderiam ser invocadas para explicar a reapari\u00e7\u00e3o, na mesma ordem, dos mesmos estados. Como n\u00e3o examinar\u00edamos esses estados de fora, uma vez que estar\u00edamos dentro deles, s\u00f3 precisar\u00edamos deixar a espontaneidade interna fluir livremente, trazendo uns aos outros, sem supor, na verdade, a menos que se trate de reflex\u00f5es ou racioc\u00ednios antigos que estar\u00edamos reproduzindo, uma atividade racional e representa\u00e7\u00f5es gerais. Mas se n\u00e3o revivemos o passado, se nos limitamos a reconstru\u00ed-lo, \u00e9 necess\u00e1rio explicar o que \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o um retorno \u00e0 exist\u00eancia. Para que representa\u00e7\u00f5es de eventos distintos e sucessivos ocorram em uma ordem espec\u00edfica, \u00e9 necess\u00e1rio que sempre tenhamos em mente a ideia dessa ordem enquanto buscamos as representa\u00e7\u00f5es que se encaixam nela. Em outras palavras, para nos lembrarmos de uma s\u00e9rie de eventos, como os que preencheram o primeiro m\u00eas da guerra para n\u00f3s, precisamos nos fazer perguntas como: onde eu estava antes da mobiliza\u00e7\u00e3o, quando foi anunciado o resultado da batalha de Charleroi, quando Paris estava amea\u00e7ada etc.? E nossas lembran\u00e7as devem estar de acordo com essas datas, que t\u00eam um significado social, assim como nossas movimenta\u00e7\u00f5es, nossas estadias aqui e ali, pr\u00f3ximos de certos parentes e amigos, ou longe deles, devem estar em harmonia com a distribui\u00e7\u00e3o geral dos lugares, conforme a concebemos em nossa sociedade. Ou, se criticarmos esse exemplo por destacar eventos de alcance geral, consideremos como representamos, depois de ocorrido, um evento que interessa apenas a n\u00f3s, que talvez n\u00e3o tenha deixado marcas al\u00e9m de n\u00f3s, como a morte de algu\u00e9m pr\u00f3ximo. Nesse caso, se quisermos nos lembrar da tristeza, da dor, de uma intensidade e matiz espec\u00edficos, que sentimos, n\u00e3o podemos evoc\u00e1-los isoladamente, mas teremos que dar uma volta: n\u00e3o come\u00e7aremos com o mais privado do evento, com nossa rea\u00e7\u00e3o emocional, mas pensaremos primeiro na sucess\u00e3o da doen\u00e7a, nos \u00faltimos momentos, no funeral, no luto, ou ainda nos parentes e amigos do falecido, ou mesmo no local onde ele morava, na cidade onde tivemos que ir para v\u00ea-lo antes de sua morte, e para evoc\u00e1-lo melhor, pensaremos em sua idade, profiss\u00e3o, tra\u00e7os gerais de seu car\u00e1ter e vida; isso n\u00e3o impedir\u00e1, \u00e9 claro, que tamb\u00e9m lembremos de algum detalhe mais \u00edntimo, como se ele tivesse dito algo para n\u00f3s pouco antes, ou algo mais concreto e individual, como se houvesse uma carta inacabada dele na mesa, e sua presen\u00e7a ainda fosse sentida na ordem ou desordem l\u00e1 presente etc.; mas esse detalhe s\u00f3 ter\u00e1 todo o seu valor quando o representarmos no local e na data, e pensarmos nele em rela\u00e7\u00e3o ao evento; pois, por si s\u00f3, ele permaneceria insignificante: de fato, sonhamos com detalhes insignificantes, mas n\u00e3o nos lembramos deles.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o percebemos todo o trabalho mental que o resgate de uma lembran\u00e7a exige. Acreditamos que basta que ela fa\u00e7a parte de uma s\u00e9rie cronol\u00f3gica para que a apari\u00e7\u00e3o daquelas que a precederam a traga \u00e0 cena da consci\u00eancia. At\u00e9 que ponto isso seria insuficiente, \u00e9 exatamente o que resulta do sonho. Sonhamos muito; quantas pessoas acreditam que nunca sonham! E quantos dos nossos sonhos nos lembramos apenas de alguns detalhes! Agora, as imagens do sonho podem obedecer, quando se associam, a uma l\u00f3gica especial: em qualquer caso, elas n\u00e3o s\u00e3o colocadas no mesmo tempo e espa\u00e7o que os objetos que percebemos quando estamos acordados, e n\u00e3o est\u00e3o ligadas ao conjunto de nossas ideias, que a cada momento determina nossa concep\u00e7\u00e3o do mundo e da sociedade. Se n\u00e3o as situamos no tempo da vig\u00edlia, ainda \u00e9 verdade que ocupam uma dura\u00e7\u00e3o e se sucedem. Mas se as imagens na mem\u00f3ria se dispusessem umas ap\u00f3s as outras \u00e0 medida que s\u00e3o produzidas, o mesmo ocorreria com as imagens do sonho, e poder\u00edamos encontr\u00e1-las umas relacionadas \u00e0s outras, perguntando-nos apenas: o que sonhamos antes ou depois? No entanto, \u00e9 precisamente porque h\u00e1 pouco mais do que uma liga\u00e7\u00e3o de sucess\u00e3o cronol\u00f3gica entre as imagens do sonho que, na maior parte das vezes, elas nos escapam. Parece, pelo contr\u00e1rio, que as que lembramos nos escondem as outras, e que precisamos afastar umas para encontrar as outras, esquecer algumas, alterar a dire\u00e7\u00e3o de nossos pensamentos, para redescobrir, por acaso, outra s\u00e9rie de quadros de nossa vida noturna. Portanto, se n\u00e3o ocorre o mesmo com as imagens da vig\u00edlia, se nos lembramos de tantas delas, se n\u00e3o h\u00e1 realmente lacunas em nossa vida que n\u00e3o possamos preencher, ent\u00e3o devemos nos guiar por outras rela\u00e7\u00f5es que n\u00e3o a sucess\u00e3o no tempo para passar de uma lembran\u00e7a para outra. Como nos lembrar\u00edamos da mesma forma de certas imagens vistas em sonho, se pudermos percorrer mentalmente todas as partes do espa\u00e7o onde os eventos mais recentes de nossa experi\u00eancia ocorreram, sem encontrar em nenhum deles algum ind\u00edcio dessas imagens, nem nada que pare\u00e7a relacionado ao nosso sonho? Pelo contr\u00e1rio, quando evocamos uma cidade, seus bairros, suas ruas, suas casas, quantas lembran\u00e7as surgem, muitas das quais pareciam desaparecidas para sempre, e que, por sua vez, nos ajudam a descobrir outras! Assim, abordamos nossas lembran\u00e7as desenhando de certa forma ao redor delas curvas conc\u00eantricas cada vez mais pr\u00f3ximas, e ao inv\u00e9s de termos a s\u00e9rie cronol\u00f3gica dada de antem\u00e3o, frequentemente ser\u00e1 apenas ap\u00f3s muitas idas e vindas entre pontos de refer\u00eancia nos quais reencontramos um e outro, que organizamos nossas lembran\u00e7as na ordem de sucess\u00e3o onde tudo indica que devem ter ocorrido.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a><\/a><a>I.4. Resumo dessa an\u00e1lise<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>Resumindo toda esta an\u00e1lise e os resultados a que ela nos conduziu. Ela se baseia inteiramente em um fato que contrasta com uma teoria. Esse fato \u00e9 que somos incapazes de reviver nosso passado durante o sonho<a href=\"#_ftn26\" id=\"_ftnref26\">[26]<\/a> pois, embora nossos sonhos apresentem imagens que t\u00eam toda a apar\u00eancia de lembran\u00e7as, elas aparecem como fragmentos, como partes desconectadas das cenas que realmente vivenciamos: nunca um evento com todas as suas particularidades, sem mistura de elementos estranhos, nunca uma cena completa do passado reaparece na consci\u00eancia durante o sono. Examinamos exemplos que provariam o contr\u00e1rio. Alguns eram relatados de maneira imprecisa ou incompleta demais para se compreender o significado. Em outros casos, era razo\u00e1vel supor que, entre o evento e o sonho, a mente havia refletido sobre suas mem\u00f3rias e, como as havia evocado uma ou mais vezes, as tinha transformado em imagens. Agora, \u00e9 a imagem ou a mem\u00f3ria que a precedeu e foi a ocasi\u00e3o dela que reaparece no sonho? Ambas as possibilidades pareciam igualmente plaus\u00edveis. Por fim, foram citadas mem\u00f3rias da primeira inf\u00e2ncia, esquecidas durante a vig\u00edlia, que atravessariam certos sonhos: no entanto, eram representa\u00e7\u00f5es certamente muito vagas na crian\u00e7a para terem dado origem a mem\u00f3rias verdadeiras. Al\u00e9m disso, em todos esses casos e em todos os sonhos imagin\u00e1veis, j\u00e1 que a personalidade atual e n\u00e3o a do passado est\u00e1 ativamente envolvida no sonho, o aspecto geral dos eventos e das pessoas reproduzidas n\u00e3o pode deixar de ser alterado.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui, nos deparamos com a teoria do Bergson, que, parece-nos, n\u00e3o admite uma incompatibilidade t\u00e3o marcada entre mem\u00f3ria e sonho, e que sob o nome de \u201cimagens-mem\u00f3rias\u201d, se refere ao nosso passado em si, preservado no fundo da nossa mem\u00f3ria, onde a mente, quando n\u00e3o est\u00e1 mais focada no presente e a atividade da vig\u00edlia relaxa, naturalmente deveria retornar. Isso \u00e9 uma consequ\u00eancia t\u00e3o necess\u00e1ria de sua concep\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria que Bergson, ao notar que, na verdade, as imagens-mem\u00f3rias n\u00e3o reaparecem nos sonhos, observa ainda: \u201cQuando dormimos profundamente, temos sonhos de outra natureza, mas n\u00e3o sobra muito disso ao acordar. Inclino-me a acreditar \u2013 mas por raz\u00f5es principalmente te\u00f3ricas e, portanto, hipot\u00e9ticas \u2013 que nesse momento temos uma vis\u00e3o muito mais ampla e detalhada do nosso passado\u201d<a href=\"#_ftn27\" id=\"_ftnref27\">[27]<\/a>. Isso ocorre porque, de fato, de acordo com ele, o eu dos sonhos \u00e9 a \u201ctotalidade do meu passado\u201d<a href=\"#_ftn28\" id=\"_ftnref28\">[28]<\/a>. E, por outro lado, n\u00e3o faltam passagens em que o mesmo autor, ao considerar a primeira das duas mem\u00f3rias que ele distingue, aquela que registraria sob a forma de imagens-mem\u00f3rias todos os eventos de nossa vida cotidiana, atribuindo a cada fato e a cada gesto o seu lugar e a sua data, a aproxima do sonho. \u201cPara evocar o passado sob a forma de imagem, \u00e9 necess\u00e1rio poder se abstrair da a\u00e7\u00e3o presente, \u00e9 preciso saber valorizar o in\u00fatil, \u00e9 preciso querer sonhar&#8230; Ao se reproduzirem na consci\u00eancia (essas imagens-mem\u00f3rias) n\u00e3o ir\u00e3o elas desnaturar o car\u00e1ter pr\u00e1tico da vida, misturando o sonho \u00e0 realidade? Sem d\u00favida, essas s\u00e3o (as imagens armazenadas pela mem\u00f3ria espont\u00e2nea) imagens de sonho\u201d<a href=\"#_ftn29\" id=\"_ftnref29\">[29]<\/a>. E, mais adiante: \u201cEssas imagens passadas, reproduzidas como s\u00e3o, com todos os seus detalhes e at\u00e9 sua colora\u00e7\u00e3o afetiva, s\u00e3o as imagens da devaneio ou do sonho.\u201d Mais adiante ainda: \u201cUm ser humano que sonhasse sua exist\u00eancia em vez de viv\u00ea-la certamente manteria sob seu olhar, a todo momento, a infinidade de detalhes de sua hist\u00f3ria passada\u201d<a href=\"#_ftn30\" id=\"_ftnref30\">[30]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, nada prova que possamos transitar assim de maneira insens\u00edvel do sonho \u00e0 imagem-mem\u00f3ria. Como o sonho, mesmo na fronteira, se confundiria com tais mem\u00f3rias, se o que nos chama a aten\u00e7\u00e3o quando pensamos nele \u00e9 que ele sempre tem as caracter\u00edsticas de um fato presente, novo, que vemos pela primeira vez, se nos proporciona o espet\u00e1culo de uma cria\u00e7\u00e3o continuamente em curso? Quando Bergson aproxima os dois termos \u2013 sonho e devaneio \u2013 ele sabe muito bem que a palavra sonhar denota duas opera\u00e7\u00f5es diferentes, mas ele considera que a linguagem est\u00e1 correta, porque, segundo ele, nos dois casos, a mente procede da mesma maneira, j\u00e1 que se lembrar \u00e9 sonhar acordado, e sonhar \u00e9 se lembrar durante o sono. No entanto, essa associa\u00e7\u00e3o, por mais deliberada que seja, continua sendo uma confus\u00e3o. Se a mente se observar ao passar da vig\u00edlia ao sonho, do sonho ao pensamento da vig\u00edlia, ela ver\u00e1 que este \u00faltimo se desenvolve em estruturas sem rela\u00e7\u00e3o com aquelas do pensamento noturno, de modo que nem sequer entendemos como, uma vez acordados, podemos lembrar de nossos sonhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Demonstramos de fato que, se quisermos falar com precis\u00e3o, devemos dizer que n\u00e3o nos lembramos, ou melhor, lembramos apenas do que conseguimos fixar imediatamente ap\u00f3s acordar. A opera\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria pressup\u00f5e uma atividade construtiva e racional da mente, da qual somos incapazes durante o sono: ela s\u00f3 ocorre em um ambiente natural e social organizado e coeso, no qual reconhecemos a todo momento o plano geral e as principais dire\u00e7\u00f5es. Toda lembran\u00e7a, por mais pessoal que seja, mesmo aquelas de eventos dos quais fomos os \u00fanicos testemunhas, mesmo aquelas de pensamentos e sentimentos n\u00e3o expressos, est\u00e1 relacionada a um conjunto de conceitos que muitos outros possuem al\u00e9m de n\u00f3s, a pessoas, grupos, lugares, datas, palavras e formas de linguagem, a racioc\u00ednios e ideias, ou seja, \u00e0 vida material e moral das sociedades das quais fazemos ou fizemos parte. Quando evocamos uma lembran\u00e7a e a detalhamos localizando-a, ou seja, quando a completamos, \u00e0s vezes dizemos que a ligamos \u00e0s que a cercam. Na realidade, \u00e9 porque outras lembran\u00e7as relacionadas a essa persistem ao nosso redor, nos objetos, nos seres entre os quais vivemos ou em n\u00f3s mesmos: pontos de refer\u00eancia no espa\u00e7o e no tempo, no\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, geogr\u00e1ficas, biogr\u00e1ficas, pol\u00edticas, dados de experi\u00eancia comum e perspectivas familiares, que nos permitem determinar com maior precis\u00e3o o que inicialmente era apenas o esquema vazio de um evento do passado. Por\u00e9m, como a lembran\u00e7a precisa ser reconstru\u00edda dessa maneira, n\u00e3o podemos dizer, a n\u00e3o ser por met\u00e1fora, que a revivemos no estado de vig\u00edlia; tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para admitir que tudo o que vivemos, vimos e fizemos permanece exatamente como era, e que nosso presente arrasta todo o nosso passado consigo. N\u00e3o \u00e9 na mem\u00f3ria, mas sim no sonho, que a mente est\u00e1 mais distante da sociedade. Se a psicologia puramente individual busca um dom\u00ednio em que a consci\u00eancia se encontre isolada e entregue a si mesma, \u00e9 na vida noturna, somente l\u00e1 que ela ter\u00e1 mais chances de encontr\u00e1-lo. No entanto, longe de se expandir, de se libertar das limita\u00e7\u00f5es do estado de vig\u00edlia e de recuperar em extens\u00e3o o que perde em coer\u00eancia e precis\u00e3o, a consci\u00eancia parece ent\u00e3o notavelmente reduzida e estreitada: quase completamente separadas do sistema de representa\u00e7\u00f5es sociais, as imagens s\u00e3o apenas mat\u00e9ria-prima capazes de entrar em qualquer tipo de combina\u00e7\u00e3o, e entre elas s\u00f3 se estabelecem rela\u00e7\u00f5es baseadas no acaso, na verdade no jogo desordenado das modifica\u00e7\u00f5es corporais. Certamente elas seguem uma ordem cronol\u00f3gica, mas entre a sequ\u00eancia de imagens sucessivas do sonho e a s\u00e9rie de lembran\u00e7as, h\u00e1 tanta diferen\u00e7a quanto entre um monte de materiais mal trabalhados, cujas partes sobrepostas escorregam umas sobre as outras ou ficam equilibradas por acidente, e as paredes de uma constru\u00e7\u00e3o sustentada por uma estrutura completa e apoiada ou refor\u00e7ada pelas constru\u00e7\u00f5es vizinhas. Isso ocorre porque o sonho se baseia apenas nele mesmo, enquanto nossas lembran\u00e7as se apoiam nas de todos os outros e nas estruturas amplas da mem\u00f3ria da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Les formes \u00e9l\u00e9mentaires de la vie religieuse, p. 79.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Die Traumdeutung, primeira edi\u00e7\u00e3o, 1900, p. 13.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> DELBOEUF, Le sommeil et les r\u00eaves, Revue philosophique, 1880, p. 640.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> FOUCAULT, Le r\u00eave, \u00e9tudes et observations, Paris, 1906, p. 210.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> BRIERRE DE BOISMONT, em seu livro, Des hallucinations (3\u00aa ed., 1852, p. 259) segundo ABERCROMBIE, Inquiries concerning the intellectual powers, 11\u00aa edi\u00e7\u00e3o, Londres, 1841 (a primeira edi\u00e7\u00e3o \u00e9 de 1830). Consultamos a 12\u00aa edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[6]<\/a> The American Journal of Psychology, vol. V, 1893, p. 323, Statistics of dreams.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\">[7]<\/a> FREUD, op. cit., p. 129.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\" id=\"_ftn8\">[8]<\/a> Le sommeil et les r\u00eaves, 4\u00aa edi\u00e7\u00e3o, 1878, p. 92.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref9\" id=\"_ftn9\">[9]<\/a> Les r\u00eaves et les moyens de les diriger, Paris, 1867, p. 27.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref10\" id=\"_ftn10\">[10]<\/a> Segundo Binet, somente aos 7 anos uma crian\u00e7a pode apontar lacunas em uma figura, ou seja, ela percebe, por exemplo, em um desenho que est\u00e1 faltando um olho, ou uma boca, ou os bra\u00e7os, em algo que ela reconhece como sendo um homem. Consulte \u201cAnn\u00e9e psychologique, XIV, 1908\u201d. N\u00f3s confirmamos esse teste negativo para a idade de 6 anos.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref11\" id=\"_ftn11\">[11]<\/a> Calkins observa que, em alguns casos, o \u201csentimento de identidade pessoal pode desaparecer explicitamente. Imagina-se ser outra pessoa, ou que se \u00e9 o pr\u00f3prio duplo, e ent\u00e3o h\u00e1 um segundo \u2018eu\u2019 que se v\u00ea ou se ouve\u201d (obra citada, p. 335). Maury disse: \u201cUma vez, em um sonho, acreditei ter me tornado uma mulher e, al\u00e9m disso, estar gr\u00e1vida\u201d (obra citada, p. 141, nota). \u2013 No entanto, nesse momento, a mem\u00f3ria \u00e9 ainda mais distorcida, j\u00e1 que os fatos s\u00e3o representados como outra pessoa poderia t\u00ea-los visto.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref12\" id=\"_ftn12\">[12]<\/a> MAURY, Le sommeil et les r\u00eaves, p. 166.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref13\" id=\"_ftn13\">[13]<\/a> Ibid., p. 46.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref14\" id=\"_ftn14\">[14]<\/a> Op. cit., p. 331.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref15\" id=\"_ftn15\">[15]<\/a> SERGU\u00c9IEFF S., Le sommeil et le syst\u00e8me nerveux. Physiologie de la veille et du sommeil, Paris, 1892, 2\u00ba vol., p. 907 e seguintes.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref16\" id=\"_ftn16\">[16]<\/a> HEERWAGEN (Friedr.), dans Statistische Untersuchungen \u00fcber Tr\u00e4ume und Schlaf, Philos. Studien de Wundt., V, 1889: uma pesquisa com quase 500 indiv\u00edduos concluiu que as pessoas t\u00eam sonhos mais v\u00edvidos e se lembram melhor deles quando t\u00eam sono leve. Mas as mulheres foram a exce\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, as perguntas foram feitas em termos muito vagos.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref17\" id=\"_ftn17\">[17]<\/a> Veja tamb\u00e9m a cr\u00edtica do \u201csonho de Maury\u201d, em DELAGE (Yves), Le r\u00eave, Nantes, 1920, p. 460 e seguintes. Delage n\u00e3o acredita, pelo menos em geral, na \u201cvelocidade impressionante\u201d dos sonhos.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref18\" id=\"_ftn18\">[18]<\/a> Op. cit., p. 266.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref19\" id=\"_ftn19\">[19]<\/a> Op. cit., p. 180.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref20\" id=\"_ftn20\">[20]<\/a> Delacroix definiu com muita propriedade a maneira como as imagens de nossos sonhos s\u00e3o organizadas: \u201cUma multid\u00e3o de sistemas ps\u00edquicos desagregados\u201d. La structure logique du r\u00eave, Revue de M\u00e9taphysique et de Morale, 1904, p. 934.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref21\" id=\"_ftn21\">[21]<\/a> KAPLOUN, op. cit. pp. 84 e 133, diz que \u201creconhecemos\u201d objetos e pessoas, tanto nos sonhos quanto na vida desperta, ou seja, entendemos tudo o que vemos. Isso \u00e9 verdade. Mas o mesmo n\u00e3o acontece com as cenas dos sonhos como um todo: pelo contr\u00e1rio, cada uma delas nos parece, em um sonho, inteiramente nova e atual.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref22\" id=\"_ftn22\">[22]<\/a> BLONDEL (Ch.), La conscience morbide, 1914.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref23\" id=\"_ftn23\">[23]<\/a> Segundo KAPLOUN (Psychologie g\u00e9n\u00e9rale tir\u00e9e de l\u2019\u00e9tude du r\u00eave, 1919, p. 83, \u00a7 86), \u201cuma lembran\u00e7a n\u00e3o volta primeiramente destacada do passado para ser reconhecida e localizada depois; o reconhecimento e a localiza\u00e7\u00e3o precedem sua imagem. N\u00f3s o vemos chegar.\u201d Na verdade, para reconhecer e localizar, \u00e9 necess\u00e1rio que possuamos, de forma latente, \u201co sistema geral de nosso passado\u201d. Uma lembran\u00e7a n\u00e3o reconhecida \u00e9 apenas um conhecimento incompleto.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref24\" id=\"_ftn24\">[24]<\/a> Idem.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref25\" id=\"_ftn25\">[25]<\/a> MORNET, Le sentiment de la nature en France de J.-J. Rousseau \u00e0 Bernardin de Saint-Pierre, Paris, 1907.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref26\" id=\"_ftn26\">[26]<\/a> LUCR\u00c9CIO j\u00e1 havia observado esse fato. Durante o sonho, ele diz,<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;meminisse jacet, languetque sopore [a mem\u00f3ria \u00e9 inerte e adormecida].<\/p>\n\n\n\n<p>A mem\u00f3ria est\u00e1 t\u00e3o inerte e adormecida que, \u00e0s vezes, o sonhador n\u00e3o se lembra de que uma pessoa que lhe aparece viva est\u00e1 morta h\u00e1 muito tempo, De natura rerum, IV, 746. Esse trecho nos foi gentilmente indicado por PRADINES.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref27\" id=\"_ftn27\">[27]<\/a> BERGSON, L\u2019\u00e9nergie spirituelle, 7\u00aa edi\u00e7\u00e3o, Paris, 1922, p. 115.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref28\" id=\"_ftn28\">[28]<\/a> Ibid., p. 110.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref29\" id=\"_ftn29\">[29]<\/a> Mati\u00e8re et m\u00e9moire, 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o, Paris, 1900, p. 78 e seguintes.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref30\" id=\"_ftn30\">[30]<\/a> Ibid., p. 169.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leia, a seguir, o primeiro cap\u00edtulo de &#8220;Os quadros sociais da mem\u00f3ria&#8221; de Maurice Halbwachs. Caso se interesse em adquirir a obra completa (ebook ou capa comum), clique na capa do livro abaixo. O sonho e as imagens mem\u00f3ria \u201cCom frequ\u00eancia\u201d, como afirma Durkheim[1], \u201cnossos sonhos est\u00e3o relacionados a eventos\u2026<\/p>\n<p class=\"continue-reading-button\"> <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2024\/02\/11\/os-quadros-sociais-da-memoria\/\">Leia mais<i class=\"crycon-right-dir\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":781,"comment_status":"closed","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5,35],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/784"}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=784"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/784\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":785,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/784\/revisions\/785"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/781"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=784"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=784"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=784"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}