{"id":792,"date":"2023-10-12T17:20:00","date_gmt":"2023-10-12T17:20:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=792"},"modified":"2024-03-12T17:25:21","modified_gmt":"2024-03-12T17:25:21","slug":"apologia-para-a-historia-de-marc-bloch","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2023\/10\/12\/apologia-para-a-historia-de-marc-bloch\/","title":{"rendered":"Apologia para a Hist\u00f3ria, de Marc Bloch"},"content":{"rendered":"\n<p>Voc\u00ea ir\u00e1 ler, a seguir, um trecho do Cap\u00edtulo &#8220;A Cr\u00edtica&#8221; da obra &#8220;Apologia para a Hist\u00f3ria&#8221; do historiador franc\u00eas Marc Bloch. Caso deseje saber mais detalhes e adquirir a obra completa, clique na capinha abaixo.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"231\" height=\"328\" src=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/capinha_apologia.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-789\" srcset=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/capinha_apologia.jpg 231w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/capinha_apologia-211x300.jpg 211w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/capinha_apologia-106x150.jpg 106w\" sizes=\"(max-width: 231px) 100vw, 231px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><a>III. A cr\u00edtica<\/a><\/h1>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>1. Esbo\u00e7o de uma hist\u00f3ria do m\u00e9todo cr\u00edtico<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>Que os testemunhos n\u00e3o devem ser necessariamente aceitos sem questionamento, mesmo os policiais mais ing\u00eanuos sabem bem. No entanto, muitas vezes, n\u00e3o se tira pleno proveito dessa compreens\u00e3o te\u00f3rica. Da mesma forma, h\u00e1 muito tempo percebemos que n\u00e3o devemos aceitar cegamente todos os testemunhos hist\u00f3ricos. Uma experi\u00eancia, quase t\u00e3o antiga quanto a humanidade, nos ensinou: mais de um texto se apresenta como sendo de uma \u00e9poca ou origem diferente do que realmente \u00e9; nem todos os relatos s\u00e3o verdadeiros, e as evid\u00eancias materiais tamb\u00e9m podem ser falsificadas. Na Idade M\u00e9dia, diante da abund\u00e2ncia de falsifica\u00e7\u00f5es, a d\u00favida frequentemente se tornava um reflexo natural de defesa. \u201cCom tinta, qualquer um pode escrever qualquer coisa\u201d, exclamava um nobre da Lorena no s\u00e9culo XI, em um processo contra monges que usavam provas documentais contra ele. A Doa\u00e7\u00e3o de Constantino \u2013 essa not\u00e1vel elucubra\u00e7\u00e3o que um cl\u00e9rigo romano do s\u00e9culo VIII atribuiu ao primeiro C\u00e9sar crist\u00e3o \u2013 foi contestada, tr\u00eas s\u00e9culos depois, no c\u00edrculo do piedoso Imperador Ot\u00e3o III. As falsas rel\u00edquias t\u00eam sido perseguidas quase desde que existem rel\u00edquias.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, o ceticismo por princ\u00edpio n\u00e3o \u00e9 uma atitude intelectual mais admir\u00e1vel nem mais produtiva do que a credulidade, com a qual, ali\u00e1s, muitas vezes se combina facilmente em mentes um pouco simples. Durante a outra guerra, conheci um veterin\u00e1rio corajoso que, n\u00e3o sem alguma apar\u00eancia de raz\u00e3o, recusava sistematicamente acreditar em qualquer not\u00edcia dos jornais. No entanto, se um companheiro ocasional despejasse em seu ouvido atento as hist\u00f3rias mais incr\u00edveis, meu amigo as aceitava sem hesita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma forma, a cr\u00edtica de senso comum, que foi por muito tempo a \u00fanica praticada e ainda seduz algumas mentes, n\u00e3o podia ir muito longe. O que \u00e9, na verdade, esse suposto senso comum na maioria das vezes? Nada mais do que uma combina\u00e7\u00e3o de postulados n\u00e3o fundamentados e experi\u00eancias generalizadas precipitadamente. Trata-se do mundo f\u00edsico? Ele negou a exist\u00eancia dos ant\u00edpodas. Ele nega o universo einsteiniano. Ele fez o relato de Her\u00f3doto, que afirmava que ao contornar a \u00c1frica, os navegadores viam o ponto onde o sol nascente passava da direita para a esquerda, ser considerado uma f\u00e1bula. Trata-se de a\u00e7\u00f5es humanas? O pior \u00e9 que as observa\u00e7\u00f5es elevadas assim eternamente s\u00e3o necessariamente tomadas em um momento muito curto da dura\u00e7\u00e3o: o nosso. A\u00ed residia o principal defeito da cr\u00edtica voltairiana, t\u00e3o frequentemente perspicaz. N\u00e3o apenas as peculiaridades individuais s\u00e3o de todos os tempos; mais de um estado de esp\u00edrito comum no passado nos parece estranho, porque n\u00e3o o compartilhamos mais. O \u201cbom senso\u201d, parece, proibiria aceitar que o imperador Ot\u00e3o I poderia ter assinado, a favor dos papas, concess\u00f5es territoriais inaplic\u00e1veis, que contradiziam seus atos anteriores e dos quais os que vieram depois n\u00e3o deveriam levar em conta. No entanto, devemos acreditar que ele n\u00e3o tinha a mente constru\u00edda exatamente como a nossa \u2013 mais precisamente, naquele tempo, entre a escrita e a a\u00e7\u00e3o, havia uma dist\u00e2ncia cuja extens\u00e3o nos surpreende \u2013 pois o privil\u00e9gio \u00e9 indiscutivelmente aut\u00eantico.<\/p>\n\n\n\n<p>O verdadeiro progresso veio no dia em que a d\u00favida se tornou, como dizia Volney<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, um \u201cexaminador\u201d; quando regras objetivas, em outras palavras, foram gradualmente elaboradas que, entre a mentira e a verdade, permitem fazer uma triagem. O jesu\u00edta Papebroeck<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, cuja leitura das Vidas dos Santos inspirou uma desconfian\u00e7a incontrol\u00e1vel em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 heran\u00e7a de toda a Alta Idade M\u00e9dia, considerava falsos todos os diplomas merov\u00edngios, preservados nos mosteiros. N\u00e3o \u2013 respondeu, em ess\u00eancia, Mabillon<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a> \u2013, existem sem d\u00favida diplomas completamente forjados, modificados ou interpolados. Tamb\u00e9m h\u00e1 aut\u00eanticos, e aqui est\u00e1 como \u00e9 poss\u00edvel distingui-los. Naquele ano \u2013 1681, o ano da publica\u00e7\u00e3o do \u201cDe Re Diplomatica\u201d, uma data realmente importante na hist\u00f3ria do pensamento humano \u2013 a cr\u00edtica de documentos de arquivo foi definitivamente estabelecida.<\/p>\n\n\n\n<p>*<\/p>\n\n\n\n<p>Foi, ali\u00e1s, nessa hist\u00f3ria da metodologia cr\u00edtica, o momento decisivo, de qualquer forma. O humanismo da \u00e9poca anterior tinha suas pretens\u00f5es e intui\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o foi al\u00e9m disso. Nada mais caracter\u00edstico do que um trecho dos \u201cEssais\u201d de Montaigne. L\u00e1, ele justifica T\u00e1cito por ter relatado prod\u00edgios. \u201c\u00c9 assunto\u201d, diz ele, \u201cpara te\u00f3logos e fil\u00f3sofos discutirem as \u2018cren\u00e7as comuns\u2019\u201d. Os historiadores s\u00f3 precisam \u201crecit\u00e1-las\u201d conforme suas fontes as apresentam. \u201cQue nos devolvam a hist\u00f3ria mais de acordo com o que recebem do que conforme o que estimam\u201d. Em outras palavras, uma cr\u00edtica filos\u00f3fica apoiada em uma certa concep\u00e7\u00e3o da ordem natural ou divina \u00e9 perfeitamente leg\u00edtima; e entende-se que Montaigne n\u00e3o endossa os milagres de Vespasiano, assim como muitos outros. No entanto, ele n\u00e3o parece compreender bem como a pr\u00e1tica do exame, especificamente hist\u00f3rico, de um testemunho como tal, seria poss\u00edvel. A doutrina da pesquisa foi elaborada apenas no decorrer desse s\u00e9culo XVII, cuja verdadeira grandeza nem sempre \u00e9 reconhecida no lugar certo, nomeadamente, em sua segunda metade.<\/p>\n\n\n\n<p>Os homens daquela \u00e9poca tinham consci\u00eancia disso. Era um lugar-comum, entre 1680 e 1690, denunciar como uma moda moment\u00e2nea o \u201cpirronismo da hist\u00f3ria\u201d. \u201cDizem\u201d, escreve Michel le Vassor<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a> comentando esse termo, \u201cque a retid\u00e3o de esp\u00edrito consiste em n\u00e3o acreditar levianamente e em saber duvidar em v\u00e1rias ocasi\u00f5es.\u201d O pr\u00f3prio termo \u201ccr\u00edtica\u201d, que at\u00e9 ent\u00e3o pouco designava al\u00e9m de um julgamento de gosto, assume quase um novo significado de prova de veracidade. No in\u00edcio, ousa-se apenas com desculpas. Porque \u201cn\u00e3o est\u00e1 inteiramente em bom uso\u201d: entendam que ainda tem um sabor t\u00e9cnico. No entanto, ganha cada vez mais aceita\u00e7\u00e3o. Bossuet o mant\u00e9m prudentemente \u00e0 dist\u00e2ncia. Quando fala dos \u201cnossos autores cr\u00edticos\u201d, percebe-se o movimento de ombros. Mas Richard Simon<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a> o inclui no t\u00edtulo de quase todos os seus trabalhos. Os mais perspicazes, no entanto, n\u00e3o se enganam. O que esse nome anuncia \u00e9, de fato, a descoberta de um m\u00e9todo de aplica\u00e7\u00e3o quase universal. A cr\u00edtica, esse \u201ctipo de lanterna que nos ilumina e nos guia nas estradas obscuras da antiguidade, fazendo-nos distinguir o verdadeiro do falso\u201d, expressa-se assim Ellies du Pin<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. E Bayle, ainda mais claramente: \u201cO Sr. Simon espalhou, nesta nova Contesta\u00e7\u00e3o, v\u00e1rias regras de cr\u00edtica que podem servir n\u00e3o apenas para entender as Escrituras, mas tamb\u00e9m para ler com proveito muitas outras obras.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, comparemos algumas datas de nascimento: Papebroeck (que, se errou nas cartas, ainda assim ocupa um lugar de destaque entre os fundadores da cr\u00edtica aplicada \u00e0 historiografia), 1628; Mabillon, 1632; Richard Simon (cujo trabalho domina os primeiros anos da exegese b\u00edblica), 1638. Acrescente, fora da coorte dos eruditos propriamente ditos, Spinoza \u2013 o Spinoza do \u201cTratado Teol\u00f3gico-Pol\u00edtico\u201d, essa obra-prima pura de cr\u00edtica \u2013 filol\u00f3gica e hist\u00f3rica: 1632 ainda. No sentido mais justo da palavra, \u00e9 uma gera\u00e7\u00e3o cujos contornos se delineiam assim diante de n\u00f3s, com uma not\u00e1vel clareza. Mas \u00e9 preciso detalhar mais. \u00c9, precisamente, a gera\u00e7\u00e3o que viu a luz do dia por volta do momento em que \u201cO Discurso do M\u00e9todo\u201d foi publicado.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o digamos: uma gera\u00e7\u00e3o de cartesianos. Mabillon, para citar apenas um exemplo, era um monge devoto, ortodoxo com simplicidade, e nos deixou, como \u00faltima obra, um tratado sobre A Morte Crist\u00e3. Pode-se duvidar que ele tenha conhecido de perto a nova filosofia, t\u00e3o suspeita para muitas pessoas piedosas; mais ainda, se por acaso encontrou algumas luzes, teria achado muitos motivos de aprova\u00e7\u00e3o. Por outro lado, mesmo que algumas p\u00e1ginas, talvez demasiado c\u00e9lebres, de Claude Bernard pare\u00e7am sugerir o contr\u00e1rio, as verdades evidentes, de car\u00e1ter matem\u00e1tico, para as quais o m\u00e9todo de d\u00favida de Descartes tem a miss\u00e3o de abrir caminho, apresentam poucos tra\u00e7os comuns com as probabilidades cada vez mais aproximadas que a cr\u00edtica hist\u00f3rica, assim como as ci\u00eancias do laborat\u00f3rio, se satisfaz em desenvolver. Mas, para que uma filosofia impregne toda uma \u00e9poca, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio que ela aja exatamente conforme sua letra, nem que a maioria das mentes sofra seus efeitos de outra forma que n\u00e3o seja por uma esp\u00e9cie de osmose, frequentemente meio inconsciente. Assim como a \u201cci\u00eancia\u201d cartesiana, a cr\u00edtica do testemunho hist\u00f3rico faz <em>tabula rasa<\/em> da cren\u00e7a. Como a ci\u00eancia cartesiana ainda, ela procede a essa implac\u00e1vel revers\u00e3o de todas as bases antigas apenas para chegar a novas certezas (ou grandes probabilidades), agora devidamente testadas. Em outras palavras, a ideia que a inspira pressup\u00f5e uma invers\u00e3o quase total das concep\u00e7\u00f5es antigas da d\u00favida. Se suas mordidas pareciam uma afli\u00e7\u00e3o ou se algu\u00e9m encontrava nele, ao contr\u00e1rio, uma nobre do\u00e7ura, ele havia sido considerado at\u00e9 ent\u00e3o como uma atitude mental puramente negativa, como uma simples aus\u00eancia. Estima-se, agora, que conduzido racionalmente, pode se tornar um instrumento de conhecimento. \u00c9 uma ideia cujo surgimento ocorre em um momento muito espec\u00edfico da hist\u00f3ria do pensamento.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da\u00ed, as regras essenciais do m\u00e9todo cr\u00edtico estavam, em suma, estabelecidas. Sua abrang\u00eancia geral escapava t\u00e3o pouco que, no s\u00e9culo XVIII, entre os temas mais frequentemente propostos pela Universidade de Paris para o concurso de agrega\u00e7\u00e3o de fil\u00f3sofos, vemos um bastante moderno: \u201cdo testemunho dos homens sobre os fatos hist\u00f3ricos\u201d. N\u00e3o \u00e9 certamente porque as gera\u00e7\u00f5es seguintes n\u00e3o tenham trazido muitos aperfei\u00e7oamentos \u00e0 ferramenta. Sobretudo, elas generalizaram bastante o seu uso e consideravelmente ampliaram as aplica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">*<\/p>\n\n\n\n<p>Durante muito tempo, as t\u00e9cnicas da cr\u00edtica foram praticadas, pelo menos de maneira consistente, quase exclusivamente por um punhado de eruditos, exegetas e curiosos. Os escritores dedicados \u00e0 composi\u00e7\u00e3o de obras hist\u00f3ricas com certo \u00edmpeto raramente se preocupavam em se familiarizar com essas receitas de laborat\u00f3rio, que consideravam excessivamente minuciosas, e mal se dignavam a levar em conta seus resultados. Ora, nunca \u00e9 bom, como disse Humboldt, que os qu\u00edmicos temam \u201csujar as m\u00e3os\u201d. Para a hist\u00f3ria, o perigo de um tal cisma entre a prepara\u00e7\u00e3o e a implementa\u00e7\u00e3o \u00e9 de duas faces. Ele atinge primeiro e cruelmente os grandes ensaios de interpreta\u00e7\u00e3o. Estes n\u00e3o apenas falham, assim, no dever primordial da veracidade pacientemente buscada; privados, al\u00e9m disso, desse constante renascimento, dessa surpresa sempre renovada que apenas a luta com o documento pode proporcionar, torna-se imposs\u00edvel escapar de uma oscila\u00e7\u00e3o incessante entre alguns temas estereotipados impostos pela rotina. Mas o trabalho t\u00e9cnico em si n\u00e3o sofre menos. N\u00e3o sendo mais guiado de cima, corre o risco de se agarrar indefinidamente a problemas insignificantes ou mal formulados. N\u00e3o h\u00e1 desperd\u00edcio pior do que o da erudi\u00e7\u00e3o quando ela gira vazia, nem orgulho mais mal colocado do que o orgulho da ferramenta que se considera um fim em si mesma.<\/p>\n\n\n\n<p>Contra esses perigos, o esfor\u00e7o consciente do s\u00e9culo XIX lutou bravamente. A escola alem\u00e3, Renan, Fustel de Coulanges devolveram \u00e0 erudi\u00e7\u00e3o seu status intelectual. O historiador foi trazido de volta \u00e0 bancada. No entanto, a batalha est\u00e1 completamente ganha? Seria muito otimismo acreditar nisso. Com demasiada frequ\u00eancia, o trabalho de pesquisa continua a avan\u00e7ar sem uma escolha racional de seus pontos de aplica\u00e7\u00e3o. Sobretudo, a necessidade cr\u00edtica ainda n\u00e3o conseguiu conquistar plenamente a opini\u00e3o desses \u201chonestos cidad\u00e3os\u201d (no antigo sentido do termo) cujo consentimento, sem d\u00favida necess\u00e1rio para a higiene moral de qualquer ci\u00eancia, \u00e9 especialmente indispens\u00e1vel \u00e0 nossa. Tendo os homens como objeto de estudo, como poder\u00edamos sentir que estamos cumprindo apenas pela metade nossa miss\u00e3o se os homens n\u00e3o conseguem nos compreender?<\/p>\n\n\n\n<p>*<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez, ali\u00e1s, n\u00e3o tenhamos, na realidade, preenchido perfeitamente essa miss\u00e3o. O esoterismo \u00e1rduo no qual alguns dos melhores entre n\u00f3s persistem em se confinar; em nossa produ\u00e7\u00e3o de leitura comum, a predomin\u00e2ncia do triste manual, que a obsess\u00e3o por um ensino mal concebido substitui pela verdadeira s\u00edntese; a singular timidez que, assim que sa\u00edmos do ateli\u00ea, parece nos proibir de apresentar aos leigos os nobres experimentos de nossos m\u00e9todos: todos esses maus h\u00e1bitos, nascidos da acumula\u00e7\u00e3o de preconceitos contradit\u00f3rios, comprometem uma causa ainda assim nobre. Conspiram para entregar, indefesos, a massa de leitores \u00e0s falsas luzes de uma hist\u00f3ria pretensa, cuja falta de seriedade, pitoresco de pacotilha e tend\u00eancias pol\u00edticas pensam redimir por uma imodesta seguran\u00e7a: Maurras, Bainville ou Plekhanov afirmam, onde Fustel de Coulanges ou Pirenne teriam duvidado. Entre a investiga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, como ela \u00e9 feita ou aspira a ser feita, e o p\u00fablico que l\u00ea, inegavelmente subsiste um mal-entendido. Para envolver de maneira bastante curiosa ambos os lados, a grande controv\u00e9rsia sobre as notas n\u00e3o \u00e9 o menos significativo desses sintomas.<\/p>\n\n\n\n<p>As margens inferiores das p\u00e1ginas exercem sobre muitos eruditos uma atra\u00e7\u00e3o que beira o vertiginoso. Certamente, \u00e9 absurdo sobrecarregar os espa\u00e7os em branco, como fazem, com refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas que uma lista, elaborada no in\u00edcio do volume, teria, na maioria dos casos, poupado; ou, pior ainda, relegar ali, por pura pregui\u00e7a, extensos desenvolvimentos cujo lugar estava marcado no pr\u00f3prio corpo da exposi\u00e7\u00e3o, de modo que o mais \u00fatil desses trabalhos muitas vezes precisa ser procurado na obscuridade. Mas quando alguns leitores reclamam que a menor linha, destacando-se no final do texto, confunde-lhes a mente, quando alguns editores afirmam que seus clientes, talvez menos sens\u00edveis na realidade do que querem fazer crer, sofrem torturas ao ver qualquer folha assim desonrada, esses delicados simplesmente demonstram sua impermeabilidade aos preceitos mais elementares de uma \u00e9tica da intelig\u00eancia. Pois, fora dos livres jogos da fantasia, uma afirma\u00e7\u00e3o s\u00f3 tem o direito de se apresentar sob a condi\u00e7\u00e3o de poder ser verificada; e para um historiador, indicar o mais brevemente poss\u00edvel a origem de um documento, ou seja, o meio de encontr\u00e1-lo novamente, equivale simplesmente a se submeter a uma regra universal de probidade. Envenenada por dogmas e mitos, nossa opini\u00e3o, mesmo a menos hostil \u00e0 luz, perdeu at\u00e9 mesmo o gosto pelo controle. No dia em que, tendo o cuidado primeiro de n\u00e3o afast\u00e1-la por um pedantismo ocioso, conseguirmos persuadi-la a medir o valor de um conhecimento pela sua prontid\u00e3o em se submeter \u00e0 refuta\u00e7\u00e3o antecipada, as for\u00e7as da raz\u00e3o conquistar\u00e3o uma de suas vit\u00f3rias mais brilhantes. \u00c9 para isso que trabalham nossas humildes notas, nossas pequenas refer\u00eancias minuciosas, que tantos esp\u00edritos brilhantes zombam hoje, sem compreend\u00ea-las.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">*<\/p>\n\n\n\n<p>Os documentos que os primeiros eruditos manuseavam eram, na maioria das vezes, escritos que se apresentavam por si mesmos ou que eram apresentados, tradicionalmente, como sendo de um autor ou de uma \u00e9poca espec\u00edfica e que narravam deliberadamente determinados eventos. Seriam eles ver\u00eddicos? Os livros chamados de mosaicos eram realmente de Mois\u00e9s \u2013 e os diplomas que trazem o nome de Cl\u00f3vis eram leg\u00edtimos? Qual era o valor dos relatos do \u00caxodo ou das Vidas dos santos? Esse era o problema. No entanto, \u00e0 medida que a hist\u00f3ria passou a utilizar cada vez mais os testemunhos involunt\u00e1rios, ela deixou de poder se limitar a pesar as afirma\u00e7\u00f5es expl\u00edcitas dos documentos. Foi necess\u00e1rio tamb\u00e9m extrair deles as informa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o pretendiam fornecer.<\/p>\n\n\n\n<p>As regras cr\u00edticas, que haviam se mostrado eficazes no primeiro caso, revelaram-se igualmente eficientes no segundo. Tenho diante de mim um conjunto de cartas medievais. Algumas est\u00e3o datadas, outras n\u00e3o. Quando a indica\u00e7\u00e3o est\u00e1 presente, ela deve ser verificada, pois a experi\u00eancia mostra que pode ser enganosa. Se estiver ausente, \u00e9 importante restabelec\u00ea-la. Em ambos os casos, os mesmos meios ser\u00e3o utilizados. Atrav\u00e9s da caligrafia (caso se trate de um original), do estado do latim, das institui\u00e7\u00f5es mencionadas e do aspecto geral do documento, suponho, um ato atende aos usos facilmente conhec\u00edveis dos not\u00e1rios franceses por volta do ano mil. Se ele se apresenta como da \u00e9poca merov\u00edngia, a fraude \u00e9 denunciada. Se estiver sem data, ela \u00e9 aproximadamente fixada. Da mesma forma que o arque\u00f3logo, que se prop\u00f5e a classificar ferramentas pr\u00e9-hist\u00f3ricas por idades e civiliza\u00e7\u00f5es ou a rastrear antiguidades falsas, examina, compara, distingue formas ou m\u00e9todos de fabrica\u00e7\u00e3o, seguindo regras, de ambos os lados, fundamentalmente semelhantes.<\/p>\n\n\n\n<p>O historiador n\u00e3o \u00e9, e cada vez menos, aquele juiz de instru\u00e7\u00e3o um tanto rabugento cuja imagem alguns manuais de inicia\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o tomarem cuidado, facilmente imporiam. Ele n\u00e3o se tornou, sem d\u00favida, cr\u00e9dulo. Sabe que seus testemunhos podem se enganar ou mentir. Mas, acima de tudo, preocupa-se em faz\u00ea-los falar para compreend\u00ea-los. N\u00e3o \u00e9 um dos menores m\u00e9ritos do m\u00e9todo cr\u00edtico ter conseguido, sem modificar seus princ\u00edpios fundamentais, continuar a guiar a pesquisa nesse aprimoramento.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, seria desonesto negar: o testemunho falso n\u00e3o foi apenas o est\u00edmulo que provocou os primeiros esfor\u00e7os de uma t\u00e9cnica da verdade. Continua sendo o caso simples a partir do qual esta, para desenvolver suas an\u00e1lises, necessariamente deve partir.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a id=\"_ftn1\" href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Constantin Fran\u00e7ois de Chasseb\u0153uf, conde de Volney (1757 \u2013 1820), fil\u00f3sofo franc\u00eas (N.T.).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Daniel Papebroch, (1628 \u2013 1714), jesu\u00edta e hagi\u00f3grafo flamengo (N.T.).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> Jean Mabillon, (1632 \u20131707), monge beneditino e historiador. Em sua obra, <em>De re diplomatica<\/em>, de 1681, Mabillon constr\u00f3i uma an\u00e1lise de documentos medievais a partir da an\u00e1lise do estilo da escrita, dos tipos de selos, das assinaturas, para determinar sua veracidade (N.T.).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> Sacerdote e orador franc\u00eas (1648 \u2013 1718) (N.T.).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> Historiador franc\u00eas (Ricardo Simon ou Richard Simon, (1638 \u2013 1712) (N.T.).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[6]<\/a> (1657 \u2013 1719), historiador franc\u00eas (N.T.).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea ir\u00e1 ler, a seguir, um trecho do Cap\u00edtulo &#8220;A Cr\u00edtica&#8221; da obra &#8220;Apologia para a Hist\u00f3ria&#8221; do historiador franc\u00eas Marc Bloch. Caso deseje saber mais detalhes e adquirir a obra completa, clique na capinha abaixo. III. A cr\u00edtica 1. 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