{"id":799,"date":"2024-03-13T19:38:40","date_gmt":"2024-03-13T19:38:40","guid":{"rendered":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=799"},"modified":"2024-03-13T19:38:40","modified_gmt":"2024-03-13T19:38:40","slug":"as-causas-do-suicidio-de-maurice-halbwachs","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2024\/03\/13\/as-causas-do-suicidio-de-maurice-halbwachs\/","title":{"rendered":"As Causas do Suic\u00eddio, de Maurice Halbwachs"},"content":{"rendered":"\n<p>Voc\u00ea ir\u00e1 ler um trecho da obra &#8220;As Causas do Suic\u00eddio&#8221;, de Maurice Halbwachs. Caso deseje conhece mais e adquirir a obra, clique na capa.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/as-causas-do-suicidio\/\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"231\" height=\"328\" src=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/capinha_as-causas-do-suicidio.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-795\" srcset=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/capinha_as-causas-do-suicidio.jpg 231w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/capinha_as-causas-do-suicidio-211x300.jpg 211w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/capinha_as-causas-do-suicidio-106x150.jpg 106w\" sizes=\"(max-width: 231px) 100vw, 231px\" \/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\">XIV. An\u00e1lise da hip\u00f3tese psiqui\u00e1trica: o aspecto patol\u00f3gico e o aspecto social do suic\u00eddio<\/h1>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se l\u00ea sem um pouco de surpresa, em um trabalho publicado dois ou tr\u00eas anos atr\u00e1s pelo Dr. de Fleury<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, frases como estas: Os suic\u00eddios, todos os suic\u00eddios, com muito poucas exce\u00e7\u00f5es, s\u00e3o explicados pelo \u201cacesso de ang\u00fastia que ocorre no per\u00edodo de depress\u00e3o da psicose peri\u00f3dica, em sujeitos\u201d com uma constitui\u00e7\u00e3o emotiva. \u201cOs suic\u00eddios realizados com calma, por motivos totalmente discern\u00edveis, s\u00e3o extremamente raros, quase n\u00e3o se encontram\u201d. O autor n\u00e3o est\u00e1 se adiantando demais? O n\u00famero de casos individuais de suic\u00eddio que ele pode ter conhecido representa apenas uma propor\u00e7\u00e3o muito pequena desses fatos dispersos por todo o territ\u00f3rio. Sem d\u00favida, uma experi\u00eancia pode ser suficiente para estabelecer uma lei. No entanto, \u00e9 necess\u00e1rio que seja decisiva e que se conhe\u00e7am suficientemente os fatores envolvidos para que se possa concluir com certeza que, em determinado momento, determinado efeito ocorrer\u00e1. Mas que psiquiatra j\u00e1 previu com certeza que um paciente se suicidaria, e em que momento? Isso lembra o m\u00e9dico de Moli\u00e8re que poderia ter dito: \u201cA ang\u00fastia produz o suic\u00eddio, porque nela h\u00e1 uma certa virtude suicidog\u00eanica. E \u00e9 por isso que sua filha se matou&#8230;\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A opini\u00e3o do Dr. de Fleury, no entanto, \u00e9 bastante comum entre os m\u00e9dicos. Parece dif\u00edcil concili\u00e1-la com o que nos dizem as estat\u00edsticas do suic\u00eddio. Mas, segundo parece, s\u00e3o as estat\u00edsticas que est\u00e3o erradas. Ou melhor, aqui est\u00e1 como pretendem interpret\u00e1-las. \u00c9 verdade que se suicida mais na Fran\u00e7a, na Pr\u00fassia e na Dinamarca do que na It\u00e1lia, na B\u00e9lgica e na Inglaterra. Isso porque h\u00e1 mais psicopatas nos primeiros pa\u00edses do que nos segundos (mas nada autoriza a supor isso). \u00c9 verdade que os solteiros, com a mesma idade, se suicidam uma vez e meia mais frequentemente que as pessoas casadas. Pode-se admitir que o celibato predisp\u00f5e \u00e0 neurastenia, ou que os neurast\u00eanicos n\u00e3o se casam voluntariamente (mas isso tamb\u00e9m precisaria ser comprovado; observe-se que a regra j\u00e1 se aplica aos solteiros com menos de 25 anos, a maioria dos quais se casar\u00e1 mais tarde; aplica-se tamb\u00e9m aos vi\u00favos, que se suicidam duas vezes mais que as pessoas casadas)<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Suicida-se menos em per\u00edodos de guerra e agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do que em tempos normais? Isso porque, durante tais per\u00edodos, o n\u00famero de psicopatas diminui (mas por que, pelo contr\u00e1rio, n\u00e3o aumentaria?). Os protestantes se suicidam duas ou tr\u00eas vezes mais que os cat\u00f3licos? Talvez seja porque os protestantes s\u00e3o proporcionalmente mais numerosos nas cidades do que no campo, e as doen\u00e7as mentais s\u00e3o menos frequentes aqui do que l\u00e1 (mas o segundo fato, pelo menos, n\u00e3o \u00e9 evidente). Tamb\u00e9m \u00e9 porque os cat\u00f3licos escondem metade ou dois ter\u00e7os dos suic\u00eddios que lhes dizem respeito (mas, por v\u00e1rias raz\u00f5es que indicamos, isso \u00e9 bastante improv\u00e1vel). Isso faz, como se v\u00ea, muitas suposi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Elas n\u00e3o seriam necess\u00e1rias se pud\u00e9ssemos estabelecer que existem duas categorias de suic\u00eddios claramente distintas, com alguns explicados por condi\u00e7\u00f5es sociais e outros resultantes de dist\u00farbios mentais. Vamos dizer de antem\u00e3o que n\u00e3o acreditamos que seja assim. Mas \u00e9 dessa premissa que o autor da investiga\u00e7\u00e3o parisiense que acabamos de analisar se inspirou ao classificar os suic\u00eddios em psicop\u00e1ticos e n\u00e3o psicop\u00e1ticos. \u00c9 para essa tese que parece tamb\u00e9m se unir Georges Dumas, quando escreve: \u201cDo fato de que as causas biol\u00f3gicas desempenham um grande papel na determina\u00e7\u00e3o dos suic\u00eddios, n\u00e3o se pode concluir, em nossa opini\u00e3o, que as causas sociais n\u00e3o desempenham nenhum papel, nem mesmo que elas n\u00e3o desempenham um papel t\u00e3o consider\u00e1vel quanto as causas biol\u00f3gicas. \u00c9 muito prov\u00e1vel, pelo contr\u00e1rio, que, para os suicidas isentos de taras psicop\u00e1ticas, a explica\u00e7\u00e3o social de Durkheim mant\u00e9m todo o seu valor, que, em muitos psicopatas que chegam ao suic\u00eddio, \u00e9 necess\u00e1rio fazer uma parte \u00e0 explica\u00e7\u00e3o social ao mesmo tempo que \u00e0 explica\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica, e que, em certos casos, cuja contagem \u00e9 bastante dif\u00edcil de fazer, o suicida se enquadra apenas em um estado parox\u00edstico de ang\u00fastia t\u00e3o intensa, t\u00e3o obnubilante para a consci\u00eancia que os freios sociais n\u00e3o funcionam mais\u201d<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Opini\u00e3o moderada de um psic\u00f3logo que, em muitos casos, n\u00e3o exclui a explica\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica e, sem d\u00favida, lhe reserva um lugar na maioria. Finalmente, o pr\u00f3prio Durkheim se posicionava mais ou menos no mesmo ponto de vista: parece que, segundo ele, se tivesse sido demonstrado que a maioria dos suic\u00eddios eram de alienados ou psicopatas, n\u00e3o haveria motivo para buscar em outro lugar a explica\u00e7\u00e3o do suic\u00eddio. Se ele a buscou, foi porque lhe pareceu que o n\u00famero de suic\u00eddios psicop\u00e1ticos era muito pequeno, de modo que se perdiam no conjunto, assim como algumas impurezas dispersas pela massa de um corpo homog\u00eaneo n\u00e3o alteram suas propriedades. No entanto, ele distinguia duas esp\u00e9cies de suic\u00eddio; entre ele e Dumas, sem d\u00favida, haveria discord\u00e2ncia apenas sobre a propor\u00e7\u00e3o entre uns e outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, dever\u00edamos admitir, como Dumas, que existem duas categorias de suic\u00eddios, uns normais, outros, patol\u00f3gicos? E acrescentar apenas que, entre os suic\u00eddios do primeiro tipo, h\u00e1 alguns que n\u00e3o escapam \u00e0s influ\u00eancias ditas sociais, que n\u00e3o esquecem nem sua fam\u00edlia, nem seu grupo confessional e que, porque pensam nisso e se preocupam com isso, podem desistir de se matar?<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Dumas, ao mesmo tempo, nos concede demais, e n\u00e3o o suficiente.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele admite, de fato, que apenas os suic\u00eddios patol\u00f3gicos s\u00e3o explicados por um determinismo f\u00edsico ou fisiol\u00f3gico. Um determinismo social explicaria os outros. A maioria dos que se matam s\u00e3o loucos ou desequilibrados. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 alguns suic\u00eddios que t\u00eam como causa a perda de dinheiro, luto etc. Aqui, o psiquiatra n\u00e3o teria nada a ver.<\/p>\n\n\n\n<p>Ser\u00e1 verdade, no entanto, que existam suic\u00eddios que n\u00e3o interessam ao psiquiatra ou ao psicofisiologista? N\u00e3o acreditamos nisso.<\/p>\n\n\n\n<p>Se n\u00e3o aceitamos que separem assim todos os suic\u00eddios em duas esp\u00e9cies t\u00e3o diferentes uma da outra, t\u00e3o diferentes que n\u00e3o se v\u00ea como e por que seriam reunidos na mesma categoria, \u00e9, em primeiro lugar, porque n\u00e3o acreditamos que, se fossem diferentes de natureza e essencialmente, lhes dariam o mesmo nome e que a sociedade reagiria da mesma forma na presen\u00e7a uns e outros. Pode-se argumentar que ela reage de forma diferente quando se trata do suic\u00eddio de um louco ou do suic\u00eddio deliberado de uma pessoa normal. Mas a diferen\u00e7a \u00e9 fundamentalmente secund\u00e1ria. O que est\u00e1 em primeiro plano \u00e9 um sentimento bem definido, que, em um mesmo meio, na mesma \u00e9poca, \u00e9 o mesmo, independentemente dos motivos do suic\u00eddio. Ao lado do julgamento que se faz sobre o suicida, que pode variar, o sentimento que se tem ao pensar ou ao presenciar qualquer suic\u00eddio n\u00e3o varia em uma mesma sociedade. Da mesma forma, pode-se distinguir as mortes que resultam da introdu\u00e7\u00e3o violenta no corpo de uma faca, de uma adaga etc., todas causas inorg\u00e2nicas, j\u00e1 que o metal \u00e9 uma subst\u00e2ncia f\u00edsica, e as mortes produzidas por qualquer causa org\u00e2nica. Ora, sem d\u00favida, reage-se de forma diferente diante de um assassinato, ou do desfecho fatal de uma doen\u00e7a. Mas a morte \u00e9 sempre a morte, como o suic\u00eddio \u00e9 sempre o suic\u00eddio. H\u00e1 uma impress\u00e3o particular, que \u00e9 produzida pela morte como tal em cada tipo de sociedade. Assim, todos os suic\u00eddios, como todas as mortes, est\u00e3o compreendidos em um \u00fanico g\u00eanero, cuja unidade n\u00e3o tem nada de artificial. Mas se todos os suic\u00eddios s\u00e3o fundamentalmente da mesma natureza, se s\u00e3o tantas esp\u00e9cies ou variedades de um mesmo g\u00eanero, devem ser explicados por causas do mesmo tipo. De fato, n\u00e3o se pode admitir que um mesmo efeito resulte, dependendo dos casos ou circunst\u00e2ncias, de duas esp\u00e9cies diferentes de causas. Este \u00e9 um princ\u00edpio sobre o qual pedimos desculpas por insistir. Mas, sempre que se pretende que um mesmo fen\u00f4meno \u00e9 explicado ora por um fator, ora por outro, s\u00f3 h\u00e1 uma coisa que est\u00e1 clara e pode ser considerada como estabelecida: \u00e9 que ainda n\u00e3o se encontrou a causa desse fen\u00f4meno.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir do momento em que sabemos que uma propor\u00e7\u00e3o significativa dos suic\u00eddios, seja 20 para 100, 30 para 100, ou at\u00e9 mais, tem causas psicop\u00e1ticas, \u00e9 preciso admitir que todos os suic\u00eddios resultam de causas semelhantes. N\u00f3s ir\u00edamos, portanto, muito al\u00e9m de Dumas no sentido da tese psicofisiol\u00f3gica; pois n\u00f3s admitir\u00edamos sem dificuldade que em todo indiv\u00edduo que se suicida se encontraria, no momento em que se suicida, e talvez nas horas e mesmo nos dias que o precedem, um dist\u00farbio mais ou menos profundo, mas sempre efetivo, das fun\u00e7\u00f5es nervosas e cerebrais, o que deve resultar em um estado ps\u00edquico pr\u00f3ximo daqueles que se observam na neurose de ang\u00fastia, na depress\u00e3o etc.<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a> Uma grande dor f\u00edsica ou moral, seja por um choque e uma perturba\u00e7\u00e3o s\u00fabita, ou por uma longa sucess\u00e3o de pequenos aborrecimentos que se acumulam, um desespero profundo, um acesso de f\u00faria contra si mesmo ou contra os outros, o medo do sofrimento que surge seja de males corporais, seja da desonra, seja do decl\u00ednio social, todas essas causas determinam, a longo prazo ou bruscamente, um estado de desequil\u00edbrio nervoso. A opini\u00e3o comum n\u00e3o se engana: se dir\u00e1 de algu\u00e9m que est\u00e1 perdido pela paix\u00e3o, cegado pela tristeza, embriagado de f\u00faria, fora de si, louco de dor etc. Os estados afetivos violentos e profundos se acompanham de uma perturba\u00e7\u00e3o org\u00e2nica que, se n\u00e3o por suas origens, pelo menos em seu desenvolvimento, fases, express\u00e3o e efeitos, n\u00e3o se distingue muito da agita\u00e7\u00e3o ou depress\u00e3o nervosa de natureza patol\u00f3gica.<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a> Portanto, se explicamos o suic\u00eddio pelo estado org\u00e2nico em um caso, por que n\u00e3o invocar a mesma causa em todos os casos?<\/p>\n\n\n\n<p>Seria poss\u00edvel dizer que, no entanto, esta diferen\u00e7a entre o suicida normal e o suicida psicopata, que, neste \u00faltimo, o desequil\u00edbrio resulta de uma causa interna ao corpo, les\u00e3o, intoxica\u00e7\u00e3o ou dist\u00farbio funcional relacionado com o estado dos \u00f3rg\u00e3os, causa tal que ela leva ao seu efeito independentemente das circunst\u00e2ncias externas<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. No suicida normal, ao contr\u00e1rio, o dist\u00farbio org\u00e2nico seria preparado no corpo apenas como o desequil\u00edbrio est\u00e1 no equil\u00edbrio: a causa que o determina \u00e9 externa ao organismo; mesmo quando algu\u00e9m se mata para escapar aos sofrimentos f\u00edsicos, \u00e9 a ideia de sofrimentos futuros, ou seja, de algo que neste momento est\u00e1 fora dele, que movimenta seu poder de agir. Entre este e aquele haveria, portanto, toda a dist\u00e2ncia que separa um homem perfeitamente saud\u00e1vel de corpo, e um homem doente que carrega h\u00e1 muito tempo em si uma tara org\u00e2nica.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a distin\u00e7\u00e3o entre sa\u00fade e doen\u00e7a, equil\u00edbrio e desequil\u00edbrio, \u00e9 toda relativa. \u00c9 certo que h\u00e1 nos suicidas que chamamos de psicopatas uma les\u00e3o determinada, que se pode descobrir na aut\u00f3psia e que explica seus dist\u00farbios nervosos? Talvez. Mas sabemos se n\u00e3o encontrar\u00edamos les\u00f5es desse tipo, talvez menos graves, mas n\u00e3o menos reais, em homens aparentemente saud\u00e1veis, mas cujo sistema nervoso \u00e9 bastante impression\u00e1vel? Entre uma les\u00e3o bem determinada e a aus\u00eancia completa de les\u00e3o, h\u00e1 todos os intermedi\u00e1rios. Nunca se pode afirmar que exista uma diferen\u00e7a n\u00edtida entre a constitui\u00e7\u00e3o org\u00e2nica de um suicida dito psicopata e de um suicida dito normal. Essa diferen\u00e7a pode ser apenas de grau. Mas n\u00e3o falemos mais de les\u00e3o, j\u00e1 que, afinal de contas, a mat\u00e9ria \u00e9 bastante obscura. Consideremos apenas a maneira de agir ou reagir de um homem que \u00e9 psicopata, e de um homem que n\u00e3o o \u00e9. A sa\u00fade \u00e9 um estado de equil\u00edbrio inst\u00e1vel, que comporta muitas oscila\u00e7\u00f5es. O que se observa no psicopata muitas vezes \u00e9 apenas um exagero, em intensidade e frequ\u00eancia, de dist\u00farbios aos quais a maioria dos organismos, apesar de sua sa\u00fade aparente, tamb\u00e9m est\u00e1 exposta. Sem d\u00favida, h\u00e1 uma diferen\u00e7a no sentido de que o doente n\u00e3o est\u00e1 bem adaptado \u00e0s condi\u00e7\u00f5es do meio normal, que ele sofre com isso e que esse sofrimento \u00e9 forte o suficiente para lev\u00e1-lo em certos casos ao suic\u00eddio. O homem normal, ao contr\u00e1rio, est\u00e1 adaptado ao meio normal. Mas que o meio mude, por qualquer motivo que seja; ser\u00e1 um meio anormal, ao qual o homem normal n\u00e3o estar\u00e1 mais adaptado. Ele estar\u00e1 na mesma situa\u00e7\u00e3o em que estava, e onde provavelmente permaneceu o psicopata. Ser\u00e1 poss\u00edvel dizer, no entanto, que h\u00e1 esta diferen\u00e7a, que a causa pela qual n\u00e3o h\u00e1 mais adapta\u00e7\u00e3o, mas desequil\u00edbrio, n\u00e3o est\u00e1 e nunca esteve nele. Mas ent\u00e3o onde estaria? Quando dizemos que um homem adaptado ao casamento n\u00e3o o est\u00e1 mais \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de viuvez, parecemos abandonar o plano org\u00e2nico. Falamos de uma adapta\u00e7\u00e3o moral ou ps\u00edquica. Mas existe um estado ps\u00edquico ao qual n\u00e3o corresponda um estado org\u00e2nico? A tristeza de um vi\u00favo que n\u00e3o pode se consolar se manifesta por um estado de depress\u00e3o, assim como a depress\u00e3o de um ciclot\u00edmico se acompanha de um estado de tristeza. Um \u00f3rg\u00e3o pode estar paralisado seja porque uma les\u00e3o interna desenvolve nele seus efeitos, seja porque o meio externo o obriga a um esfor\u00e7o de rea\u00e7\u00e3o do qual ele n\u00e3o \u00e9 capaz. Ele continua paralisado nos dois casos. O psiquiatra pode constatar que em determinado momento um fator de desequil\u00edbrio manifesta sua a\u00e7\u00e3o no organismo. A origem desse fator n\u00e3o modifica de modo algum a natureza desses dist\u00farbios. N\u00e3o h\u00e1, portanto, necessidade de levar isso em conta.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9, verdade, um ponto de vista em que se coloca naturalmente e, para o senso comum, embora designe todos os suic\u00eddios com um mesmo nome e os acolha com a mesma rea\u00e7\u00e3o, talvez haja, como para os psiquiatras, duas maneiras de explicar o suic\u00eddio: ou por um acesso de loucura, ou por uma resolu\u00e7\u00e3o refletida. \u00c9 que o senso comum gosta de distin\u00e7\u00f5es claras e tipos bem definidos. Mas esses tipos existem sem d\u00favida. A tradi\u00e7\u00e3o da antiguidade nos transmitiu a lembran\u00e7a de suic\u00eddios heroicos, realizados deliberadamente, sem que seu autor parecesse estar sujeito a um del\u00edrio, a uma agita\u00e7\u00e3o desordenada, ou mesmo sentir o aguilh\u00e3o de uma dor f\u00edsica interna. E, por outro lado, os exemplos n\u00e3o faltam de suic\u00eddios que, por repentinos, inesperados e todos os sintomas de desorienta\u00e7\u00e3o que os precedem, assemelham-se a acessos de loucura furiosa. No primeiro caso, o homem age voluntariamente sob a influ\u00eancia de um desespero moral, e, no segundo, \u00e9 um dist\u00farbio org\u00e2nico profundo que destr\u00f3i nele todo poder de controle. A uns, se associar\u00e1 todas as mortes volunt\u00e1rias que parecem se explicar por um motivo s\u00e9rio. Um homem arruinado, desonrado, cuja exist\u00eancia \u00e9 devastada por uma m\u00e1goa ou luto, decide morrer com a mesma fria resolu\u00e7\u00e3o que em outras circunst\u00e2ncias ele aceitaria se submeter a uma opera\u00e7\u00e3o grave que oferece apenas algumas chances de recupera\u00e7\u00e3o. Ele tamb\u00e9m \u00e9 senhor de si mesmo quando abandona seu corpo \u00e0 a\u00e7\u00e3o dos instrumentos que escolheu, ou dos elementos aos quais decidiu se expor, como um paciente que se deita na mesa de opera\u00e7\u00e3o. Ser\u00e3o classificados, por outro lado, na categoria de suic\u00eddios de loucos ou de doentes mentais todos aqueles aos quais s\u00f3 se podem encontrar motivos insignificantes, e que parecem caber mais ao psiquiatra do que ao moralista. Se a vontade e o desatino se encontram assim no suic\u00eddio, n\u00e3o \u00e9 porque haja entre eles toda uma s\u00e9rie de elos intermedi\u00e1rios. \u00c9, ao contr\u00e1rio, porque os extremos se tocam e que, para enfrentar a morte, \u00e9 preciso muita resolu\u00e7\u00e3o e raz\u00f5es muito fortes, ou ent\u00e3o \u00e9 preciso olh\u00e1-la sem v\u00ea-la.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o senso comum est\u00e1 errado em considerar como t\u00edpicas essas formas de suic\u00eddio, que, na realidade, s\u00e3o raras, se n\u00e3o totalmente excepcionais. S\u00e3o extremos, mas a massa dos casos est\u00e1 no intervalo, e n\u00e3o se presta a uma distin\u00e7\u00e3o t\u00e3o clara. No fundo, tudo se resume a dizer que \u00e0s vezes o homem se mata porque sofre moralmente, e \u00e0s vezes porque seu organismo lhe pesa e ele sente uma dor f\u00edsica difusa e imprecisa, mas que n\u00e3o \u00e9 menos intoler\u00e1vel. Mas, entre a dor moral, que tem suas causas nas ideias e pensamentos, ou seja, que \u00e9 determinada em n\u00f3s pela mudan\u00e7a de nossas rela\u00e7\u00f5es com o mundo, e esse sofrimento f\u00edsico contido dentro dos limites de nosso corpo, n\u00e3o h\u00e1 oposi\u00e7\u00e3o a menos que se considere apenas casos extremos. Uma dor moral s\u00f3 \u00e9 uma dor na medida em que se instala em n\u00f3s e perturba o funcionamento de nossas fun\u00e7\u00f5es corporais. Um sofrimento f\u00edsico \u00e9 irremedi\u00e1vel apenas quando nos representamos que o mundo conspira com nosso corpo para nos impor isso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cVejo\u201d, diz Rousseau, \u201cum homem jovial, alegre, vigoroso, de boa sa\u00fade; sua presen\u00e7a inspira alegria, seus olhos anunciam contentamento, bem-estar: ele carrega consigo a imagem da felicidade. Chega uma carta pelo correio; o homem feliz a olha, est\u00e1 endere\u00e7ada a ele, ele a abre, ele a l\u00ea. Instantaneamente, sua express\u00e3o muda; ele empalidece, desmaia. Recuperando-se, ele chora, se agita, geme, arranca os cabelos, faz o ar ecoar com seus gritos, parece estar tomado por terr\u00edveis convuls\u00f5es. Insensato! Que mal esse papel te fez? Que membro ele te arrancou? Que crime ele te fez cometer? Enfim, o que ele mudou em ti mesmo para te colocar no estado em que te vejo? Se a carta se tivesse perdido, se uma m\u00e3o caridosa a tivesse jogado ao fogo, o destino desse mortal, feliz e infeliz ao mesmo tempo, teria sido, parece-me, um estranho problema. Seu infort\u00fanio, dir\u00e3o voc\u00eas, era real. Muito bem, mas ele n\u00e3o o sentia. Onde estava ent\u00e3o? Sua felicidade era imagin\u00e1ria. Eu entendo; a sa\u00fade, a alegria, o bem-estar, o contentamento da mente n\u00e3o s\u00e3o mais do que vis\u00f5es\u201d<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. Sentimos que este racioc\u00ednio \u00e9 paradoxal. Pois a sa\u00fade, o bem-estar, o contentamento deste homem resultam precisamente do fato de que ele n\u00e3o sente preocupa\u00e7\u00f5es, de que ele desfruta de um sentimento de seguran\u00e7a, de que seus neg\u00f3cios v\u00e3o bem, de que nenhum sinal lhe previa uma cat\u00e1strofe. \u00c9 porque uma representa\u00e7\u00e3o do mundo \u00e9 substitu\u00edda bruscamente por outra que exige dele outras rea\u00e7\u00f5es que ele mergulha no desespero. Mas as rea\u00e7\u00f5es anteriores tamb\u00e9m estavam relacionadas com a ideia que ele fazia do mundo exterior e do lugar que ele ocupava nele. O homem \u00e9 obrigado a se adaptar ao mundo, e o paradoxo \u00e9 querer que o mundo mude sem que ele pr\u00f3prio, isto \u00e9, sua atitude em rela\u00e7\u00e3o ao mundo, mude tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui est\u00e1, agora, outro homem que tem todas as raz\u00f5es para se sentir feliz. Ele \u00e9 rico, respeitado. Ele tem sucesso em tudo que empreende. Ele s\u00f3 encontra motivos de satisfa\u00e7\u00e3o em sua vida dom\u00e9stica. Seus amigos o cercam com seu afeto. Nada lhe falta. No passado, ele s\u00f3 v\u00ea imagens sorridentes. Nenhuma nuvem escurece o futuro. Um dia, no entanto, observa-se que ele se absorve em si mesmo e fica sombrio. Um dist\u00farbio org\u00e2nico que se preparava h\u00e1 algum tempo acaba de se consolidar e ele passa por uma grave crise de depress\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 uma doen\u00e7a que o exp\u00f5e \u00e0 morte, nem mesmo que causa sofrimentos locais definidos. Este vazio, este nada que ele sente dentro de si n\u00e3o altera em nada o mundo ao seu redor, n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o com o estado de sua fortuna, sua situa\u00e7\u00e3o social, os sentimentos daqueles que o cercam. N\u00e3o poder\u00edamos dizer a ele: \u201cInsensato! Sua afli\u00e7\u00e3o existe apenas em sua imagina\u00e7\u00e3o. Desvie sua aten\u00e7\u00e3o desse fundo escuro de seu ser, dessas regi\u00f5es onde a consci\u00eancia normal n\u00e3o alcan\u00e7a. N\u00e3o abra esta mensagem que chega das regi\u00f5es obscuras da vida org\u00e2nica. Concentre-se no que constitui a trama s\u00f3lida de sua exist\u00eancia\u201d. \u201c\u00d3 homem! Contraia sua exist\u00eancia dentro de voc\u00ea\u201d, disse Rousseau. N\u00f3s poder\u00edamos dizer tamb\u00e9m, ao deprimido que se absorve em si mesmo: \u201c\u00d3 homem! Estenda sua exist\u00eancia para al\u00e9m de voc\u00ea.\u201d Mas o homem n\u00e3o pode seguir nem um nem outro conselho. O interior e o exterior est\u00e3o muito estreitamente ligados, como a face e o reverso de um mesmo objeto. O doente mental n\u00e3o v\u00ea mais as coisas e as pessoas como elas s\u00e3o. A representa\u00e7\u00e3o que ele faz do mundo se transforma. Ele projeta ao seu redor suas preocupa\u00e7\u00f5es, suspeitas, medos, pressentimentos. Ele os busca e os encontra de fato como motivos de seu sofrimento. A partir desse momento, onde encontrar uma diferen\u00e7a entre ele e um homem s\u00e3o de esp\u00edrito mas que um verdadeiro infort\u00fanio abala e desorienta? \u00c9 o mesmo estado de inadapta\u00e7\u00e3o e desequil\u00edbrio ao mesmo tempo org\u00e2nico e mental.<\/p>\n\n\n\n<p>*<\/p>\n\n\n\n<p>* *<\/p>\n\n\n\n<p>Mas se todo suic\u00eddio teoricamente pertence \u00e0 psicopatologia estendida at\u00e9 seus limites extremos, inversamente, h\u00e1 poucos suic\u00eddios, mesmo psicop\u00e1ticos, que n\u00e3o pertencem \u00e0 sociologia. Nesse sentido, vai-se longe demais, muito longe, e n\u00e3o nos \u00e9 dado cr\u00e9dito suficiente quando se afirma que a maioria dos suic\u00eddios por ang\u00fastia, depress\u00e3o, intoxica\u00e7\u00e3o alco\u00f3lica, realizados em estado de embriaguez etc., constituem uma categoria bem definida, e que diferem de natureza de todos os outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Considere, de fato, algumas das causas pelas quais geralmente se explica o suic\u00eddio, e que n\u00e3o envolvem fatores mentais m\u00f3rbidos: as dores f\u00edsicas, as m\u00e1goas amorosas, o ci\u00fame, as preocupa\u00e7\u00f5es financeiras, a vergonha, o medo da desonra, o medo de puni\u00e7\u00f5es, o pesar causado por um luto. Durkheim hesitou em ver nesses motivos causas verdadeiras do suic\u00eddio considerado como fato social: primeiro porque s\u00e3o muito heterog\u00eaneos e n\u00e3o se entenderia que causas t\u00e3o diferentes pudessem explicar um mesmo efeito; depois porque esses eventos ou circunst\u00e2ncias s\u00e3o muito individuais para determinar um fato que se repete com tanta const\u00e2ncia e cujas varia\u00e7\u00f5es parecem estar relacionadas a fatores mais gerais<a href=\"#_ftn8\" id=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. No entanto, se por si s\u00f3 n\u00e3o s\u00e3o suficientes para explicar os suic\u00eddios, podemos supor que eles n\u00e3o desempenham nenhum papel em sua ocorr\u00eancia? N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel descobrir sob sua diversidade for\u00e7as de natureza semelhante e, traduzindo esses fatos individuais em termos sociais, apontar neles tantos obst\u00e1culos \u00e0 integra\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo na sociedade? N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, ao mesmo tempo, mostrar que, neste sentido, a outra categoria de motivos que se distingue, ou seja, os fatores m\u00f3rbidos mentais, desempenham exatamente o mesmo papel e tendem a agir na mesma dire\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Um homem culpado e respons\u00e1vel por algum ato que atenta contra sua honra se sente diminu\u00eddo aos olhos dos membros de seu grupo, e exclu\u00eddo dele. A honra repousa, sem d\u00favida, em considera\u00e7\u00f5es diferentes, dependendo das sociedades. Frazer conta em algum lugar que um jovem selvagem se enterra voluntariamente vivo, porque \u00e9 muito magro e fraco e \u00e9 ridicularizado em sua tribo. Aqui \u00e9 a honra profissional, l\u00e1 \u00e9 a honra aristocr\u00e1tica, \u00e9 a honra do comerciante, que entra em jogo. Um homem insultado, uma m\u00e3e solteira abandonada, um jogador que n\u00e3o pode pagar uma d\u00edvida de jogo, perdem o respeito daqueles que os cercam, e cuja opini\u00e3o eles valorizam mais: eles s\u00e3o violentamente rejeitados fora do meio social do qual n\u00e3o podem viver. Mas o mesmo acontece com o comerciante que vai \u00e0 fal\u00eancia, com o homem rico que perde sua fortuna, com o pai de fam\u00edlia cujos recursos s\u00e3o reduzidos repentinamente<a href=\"#_ftn9\" id=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. Todos veem seu status social diminuir. Eles s\u00e3o, at\u00e9 certo ponto, desclassificados. O que significa ser desclassificado? \u00c9 passar de um grupo que voc\u00ea conhece, que o estima, para outro que voc\u00ea desconhece e cuja opini\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o tem motivo para valorizar. Voc\u00ea ent\u00e3o sente um vazio se abrir ao seu redor. Aqueles que o rodeavam antes, com quem voc\u00ea tinha tantas ideias em comum, tantos preconceitos em comum, com quem voc\u00ea tinha tantas afinidades porque se reconhecia neles assim como eles em voc\u00ea, de repente se afastam. Voc\u00ea desaparece de suas preocupa\u00e7\u00f5es e de suas mem\u00f3rias. Aqueles entre os quais voc\u00ea se encontra agora n\u00e3o entendem nem sua desorienta\u00e7\u00e3o nem sua nostalgia e arrependimento. Desconectado de um grupo por um abalo s\u00fabito, voc\u00ea \u00e9 incapaz, ou pelo menos acredita ser incapaz, de encontrar em outro lugar algum apoio, ou qualquer coisa que substitua o que perdeu. Mas quando se morre assim para a sociedade, muitas vezes se perde a principal raz\u00e3o de viver.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, vamos nos voltar para aqueles que se suicidaram porque perderam algu\u00e9m que amavam, ou para esses suic\u00eddios passionais que seguem a separa\u00e7\u00e3o ou a amea\u00e7a de ser separado do objeto amado. Tais desesperos tamb\u00e9m resultam de um v\u00ednculo quebrado<a href=\"#_ftn10\" id=\"_ftnref10\">[10]<\/a>. Mas isso \u00e9 realmente um v\u00ednculo social? O afeto ou o apego apaixonado que une duas pessoas pertence \u00e0 ordem dos sentimentos individuais. Se um falta ao outro, n\u00e3o h\u00e1 nada que possa isol\u00e1-lo do grupo de seus semelhantes. Pelo contr\u00e1rio, pode ser que o sentimento no qual estavam imersos tenha sido um obst\u00e1culo para que se unissem mais estreitamente aos outros. Talvez, afinal, formassem uma pequena sociedade, pois tinham uma linguagem e conven\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias, mas ao mesmo tempo uma sociedade muito exclusiva e restrita. Uma vez dissolvido esse grupo, nada impede que cada um dos dois indiv\u00edduos que o compunham se ligue a outros ambientes que haviam esquecido, reencontre seus parentes, seus amigos, e reforce com eles la\u00e7os que haviam relaxado. Mas sentimentos desse tipo, quando intensos o suficiente, sobrevivem por um tempo \u00e0 perda daquele que era seu objeto. Para lembrar os outros, \u00e9 preciso esquecer esse. \u00c9 durante esse intervalo que se desespera pelo que se perdeu, sem imaginar que algo possa substitu\u00ed-lo. Contando a hist\u00f3ria de uma jovem seduzida e abandonada, Goethe diz: \u201cTr\u00eamula, desesperada, ela se encontra \u00e0 beira de um precip\u00edcio. Tudo ao seu redor \u00e9 escurid\u00e3o. Nenhuma perspectiva, nenhum consolo, nenhum pressentimento. Pois aquele que, sozinho, lhe fazia sentir sua exist\u00eancia, a abandonou. Ela n\u00e3o v\u00ea o vasto mundo, nem tantos seres que poderiam substituir o que ela perdeu. Ela se sente s\u00f3, abandonada por todos. O futuro se fecha diante dela.\u201d<a href=\"#_ftn11\" id=\"_ftnref11\">[11]<\/a> Como uma corrente leva um nadador para longe, a paix\u00e3o arrastou o indiv\u00edduo longe de todos os grupos. Quando o ser amado desaparece, ele o procura onde n\u00e3o pode mais encontr\u00e1-lo e n\u00e3o tem mais coragem ou vontade de voltar-se para a sociedade<a href=\"#_ftn12\" id=\"_ftnref12\">[12]<\/a>. Assim se explica que um desespero amoroso revele repentinamente ao homem sua solid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos os supostos motivos do suic\u00eddio normal, por mais diferentes que pare\u00e7am, t\u00eam o mesmo car\u00e1ter. S\u00e3o fatos ou circunst\u00e2ncias, sentimentos ou pensamentos que isolam o homem da sociedade. Certamente, poder\u00edamos argumentar, pelo contr\u00e1rio, que, em muitos casos, se o homem se mata, \u00e9 porque n\u00e3o est\u00e1 suficientemente desapegado de sua fam\u00edlia e de seu meio e atribui demasiada import\u00e2ncia aos preconceitos, cren\u00e7as e costumes de seu grupo. O medo de ser desonrado, o desejo de n\u00e3o cair em desgra\u00e7a, de n\u00e3o ver os seus envolvidos nas dificuldades da exist\u00eancia, a ambi\u00e7\u00e3o frustrada e at\u00e9 mesmo o pesar causado por alguns lutos, s\u00e3o todos sentimentos que pressup\u00f5em a vida social e um certo grau de cultura. Eles seriam estranhos a um homem que se desinteressasse dos outros. Mas \u00e9 muito evidente que um homem sente mais dolorosamente a ruptura de certos la\u00e7os sociais quanto mais estreitamente estes o envolvem. O homem nascido ou tornado ego\u00edsta ceder\u00e1 menos que os outros a esses motivos de desespero porque seu principal interesse \u00e9 ele mesmo. Nele, as preocupa\u00e7\u00f5es mais pessoais preenchem o vazio deixado pela aus\u00eancia de sentimentos altru\u00edstas. Enquanto ele conseguir enganar a si mesmo dessa maneira, ao se tornar, por uma habilidosa duplicidade, o \u00fanico objeto de seus afetos, ele n\u00e3o sentir\u00e1 seu isolamento. Mas Silas Marner s\u00f3 teria que se enforcar quando encontra seu esconderijo vazio, se um ser humano n\u00e3o viesse imediatamente rastejar aos seus p\u00e9s. Suponhamos, se quiserem, que n\u00e3o \u00e9 o isolamento, mas o sentimento repentino de solid\u00e3o, que, em todos esses casos, leva ao suic\u00eddio.<\/p>\n\n\n\n<p>O ego\u00edsmo do prazer talvez n\u00e3o seja acompanhado de um sentimento penoso de solid\u00e3o, porque na realidade, quando pensa que est\u00e1 pensando apenas em si mesmo, o ego\u00edsta pensa mesmo nos outros. Na busca pelo prazer, ele pensa que est\u00e1 \u00e0 frente deles, que \u00e9 invejado, que muitos gostariam de imit\u00e1-lo. Isso tamb\u00e9m \u00e9 um sentimento enraizado na sociedade. Mas h\u00e1 um ego\u00edsmo da dor, pelo qual o homem, ao contr\u00e1rio, toma consci\u00eancia de estar definitivamente preso a si mesmo e isolado de seus semelhantes. A dor f\u00edsica muitas vezes s\u00f3 \u00e9 suportada se puder ser compartilhada, ou pelo menos expressa, comunicada e sentida pelos outros. Um doente encontra al\u00edvio no pensamento de que suas dores n\u00e3o s\u00e3o \u00fanicas, que fazem parte do destino comum da humanidade, e que as pessoas que cuidam dele entendem a extens\u00e3o e a intensidade delas. Enquanto isso for assim, o doente n\u00e3o perde o p\u00e9. No intervalo de suas dores, e at\u00e9 mesmo quando elas o oprimem, ele continua sendo membro de uma sociedade cuja presen\u00e7a invis\u00edvel o sustenta e encoraja. Mas quando a dor se torna cont\u00ednua, ou quando ultrapassa certos limites, especialmente quando n\u00e3o h\u00e1 mais esperan\u00e7a de que ela diminua, seu pensamento se afasta do mundo, se afasta dos outros e se concentra em si mesmo. Ent\u00e3o, ele est\u00e1 e se sente sozinho. \u00c9 por isso que a dor e a doen\u00e7a determinaram mais de um suic\u00eddio.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 por uma raz\u00e3o an\u00e1loga que os delirantes e os deprimidos se matam? Certamente, ao contr\u00e1rio de muitos doentes, os psicopatas em per\u00edodos de depress\u00e3o n\u00e3o buscam a simpatia compreensiva dos outros. Eles escondem sua doen\u00e7a e seu sofrimento, como se sentissem vergonha. Parece que, como pacientes desesperados, eles se sentem imediatamente exclu\u00eddos do resto do mundo. S\u00e3o verdadeiros isolados. Nesse sentido, e embora os estados psicop\u00e1ticos pare\u00e7am ter pouco a ver com as outras causas examinadas at\u00e9 agora que levam os homens ao suic\u00eddio, eles representariam apenas um caso particular de um fen\u00f4meno geral. Os psicopatas tamb\u00e9m se matariam porque est\u00e3o \u00e0 margem da sociedade e n\u00e3o podem mais encontrar em outro lugar sen\u00e3o em si mesmos um ponto de apoio.<\/p>\n\n\n\n<p>Blondel, ap\u00f3s observar durante anos e de forma muito aprofundada v\u00e1rios pacientes tratados na Salp\u00eatri\u00e8re, destacou bem tudo o que h\u00e1 de inadapta\u00e7\u00e3o social nos estados mentais de certas categorias de ansiosos, hipocondr\u00edacos e perseguidos. \u201cA mentalidade m\u00f3rbida\u201d, diz ele, \u201c\u00e9 uma mentalidade aberrante, \u00e9 uma mentalidade antissocial.\u201d<a href=\"#_ftn13\" id=\"_ftnref13\">[13]<\/a> N\u00e3o podemos aqui revisar todas as formas de aliena\u00e7\u00e3o, de psicastenia, de debilidade mental. Mas h\u00e1 pouca d\u00favida de que todas s\u00e3o caracterizadas por uma interrup\u00e7\u00e3o pelo menos parcial e uma altera\u00e7\u00e3o muitas vezes profunda das rela\u00e7\u00f5es que existiam ou deveriam existir entre o doente e seu meio<a href=\"#_ftn14\" id=\"_ftnref14\">[14]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Certamente a doen\u00e7a, seja qual for, singulariza o paciente que a possui. Os doentes, especialmente quando sofrem muito, s\u00e3o um pouco incompreendidos. Por isso, nos sanat\u00f3rios e nas cidades termais, eles se buscam e formam pequenas sociedades originais com base em uma compreens\u00e3o m\u00fatua de seus males. Na vasta sociedade humana, aqueles que se sentem mais expostos \u00e0 dor e \u00e0 doen\u00e7a fazem parte, que percebam ou n\u00e3o, de uma comunidade silenciosa e secreta, da qual os saud\u00e1veis est\u00e3o exclu\u00eddos. No entanto, quando sua doen\u00e7a \u00e9 localizada, seu mal definido e classificado, o paciente volta ao normal. Se \u00e9 ele quem sofre, ele admite, no entanto, que o m\u00e9dico sabe t\u00e3o bem ou melhor do que ele qual \u00e9 a causa e a natureza do estado em que se encontra. Entregue a si mesmo, ele inventaria e proporia uma explica\u00e7\u00e3o. Mas, assim que sua doen\u00e7a \u00e9 conhecida, ele entra em uma categoria, ele tem seu lugar no sistema de ideias da sociedade; mesmo que tenha que carregar sua dor por muito tempo, ele avan\u00e7a por caminhos frequentados e que foram iluminados para ele de antem\u00e3o. Ele se entrega, corpo e alma, \u00e0s m\u00e3os da sociedade, porque \u00e9 dela que espera tanto ajuda quanto explica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 completamente diferente para o doente mental ou deprimido. Nele, os estados afetivos que est\u00e3o em uma rela\u00e7\u00e3o t\u00e3o estreita com o funcionamento nervoso s\u00e3o primeiramente e diretamente alterados. Sentimentos de ang\u00fastia, preocupa\u00e7\u00e3o, terror se sucedem nele, ang\u00fastia surda, preocupa\u00e7\u00e3o vaga, terror cego, e \u00e9 precisamente isso que constitui seu mal. Esse mal n\u00e3o tem um local definido, n\u00e3o \u00e9 localizado<a href=\"#_ftn15\" id=\"_ftnref15\">[15]<\/a>. Manifesta-se apenas por estados internos como aqueles em que nos encontramos quando uma desgra\u00e7a que nos atinge nos entristece, quando uma desgra\u00e7a que vemos chegar nos deixa inquietos. Apenas aqui, \u00e9 uma tristeza e uma preocupa\u00e7\u00e3o cuja causa n\u00e3o pode ser encontrada externamente. Pelo menos, o m\u00e9dico e os entes queridos do paciente n\u00e3o podem encontr\u00e1-lo, e se esfor\u00e7am para demonstrar que ele est\u00e1 preocupado e triste sem motivo. Mas o paciente sabe, do seu lado, que est\u00e1 atormentado. Nenhuma demonstra\u00e7\u00e3o vale contra esse fato. O fato \u00e9 t\u00e3o real, est\u00e1 t\u00e3o em destaque em sua consci\u00eancia, que precisa ser explicado. \u00c9 o pr\u00f3prio paciente que constr\u00f3i essa explica\u00e7\u00e3o. Dissemos que, com o ambiente externo permanecendo o mesmo, a atitude do paciente em rela\u00e7\u00e3o ao mundo pode mudar a ponto de haver um desequil\u00edbrio entre ele e o mundo. Mas, como o delirante n\u00e3o pode mais se readaptar ao mundo, \u00e9 necess\u00e1rio que o mundo se readapte a ele. \u00c9 por isso que ele projetar\u00e1 em seu meio as causas presumidas de sua inquieta\u00e7\u00e3o. Ou seja, ele interpretar\u00e1 no sentido de suas preocupa\u00e7\u00f5es sinais e circunst\u00e2ncias insignificantes, ou que n\u00e3o t\u00eam esse alcance. Ele imaginar\u00e1 ver o que n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1, lembrar o que nunca aconteceu. Se os eventos contradizem claramente suas previs\u00f5es, ele n\u00e3o se desconcertar\u00e1 e logo imaginar\u00e1 outro sistema de explica\u00e7\u00e3o que se ajuste ou n\u00e3o, ou que se ajuste apenas parcialmente ao anterior.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessas condi\u00e7\u00f5es, como ele poderia se entender com os outros e ser compreendido por eles ou compreend\u00ea-los? Primeiro, acontece que, em princ\u00edpio, todos lhe s\u00e3o suspeitos, incluindo seus pais e principalmente o m\u00e9dico. Se o infort\u00fanio que o amea\u00e7a est\u00e1 escondido, \u00e9 porque resulta de uma conspira\u00e7\u00e3o. Mas quem s\u00e3o aqueles que participam e quem n\u00e3o participam? Os argumentos que lhe s\u00e3o opostos esbarram nele com uma convic\u00e7\u00e3o t\u00e3o forte e total que os contraditores s\u00f3 podem ser, aos seus olhos, c\u00famplices ou v\u00edtimas daqueles que tramaram contra ele uma trama t\u00e3o terr\u00edvel. Assim, n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m em quem ele possa confiar, ou que seja capaz de entend\u00ea-lo. Sem d\u00favida, esta \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o de mais de um artista, mais de um inventor, mais de um reformador que se julga incompreendido. Mas eles, at\u00e9 certo ponto, podem esperar, e n\u00e3o \u00e9 suas vidas que est\u00e3o em jogo. O que \u00e9 cruelmente contradit\u00f3rio, no caso do ansioso ou do deprimido ciclot\u00edmico, \u00e9 que ele precisaria se livrar imediatamente de seu terr\u00edvel segredo para os outros, e os outros se esquivam, nenhum pode entender o que \u00e9 t\u00e3o claro para ele e admitir a realidade do que lhe imp\u00f5e tais tormentos. N\u00e3o importa que ele e eles falem a mesma l\u00edngua, tenham tantas ideias em comum, e possam, portanto, concordar em tudo o que n\u00e3o \u00e9 o tema atual de sua ang\u00fastia? Pois nada mais importa para ele. Quando a conversa muda para outro assunto e ele responde com t\u00e9dio, por tr\u00e1s das palavras s\u00f3 se vislumbram pensamentos ma\u00e7antes, sem resson\u00e2ncia, pensamentos entorpecidos porque n\u00e3o recebem mais calor do fogo central que suas vis\u00f5es alimentam. Quando um homem n\u00e3o se entende com os outros sobre o que \u00e9 mais importante para ele, e quando a representa\u00e7\u00e3o deles sobre pessoas e coisas e a dele n\u00e3o coincidem mais em nenhum ponto que o interesse, ele est\u00e1 completamente isolado entre eles, isolado menos porque n\u00e3o os compreende do que porque eles n\u00e3o querem entrar em suas ideias, isolado devido ao que h\u00e1 de singular e \u00fanico nele. Deus tamb\u00e9m est\u00e1 sozinho, porque \u00e9 \u00fanico. Pelo menos ele nunca viveu em uma sociedade de outros deuses, de modo que n\u00e3o sente seu isolamento. O neurast\u00eanico, pelo contr\u00e1rio, transforma todas as lembran\u00e7as que trouxe da vida social em armas que volta contra si mesmo, porque cada uma delas lhe faz sentir a que dist\u00e2ncia est\u00e1 agora de todos os outros. Ele sofre tanto por n\u00e3o estar mais sintonizado com eles que imagina que todos est\u00e3o contra ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, os estados psicop\u00e1ticos produzem o mesmo efeito que outros motivos de suic\u00eddio. N\u00e3o h\u00e1 nada que um pensamento moldado pela sociedade seja menos capaz de encarar do que o vazio social. \u00c9 esse estado de ang\u00fastia e terror que importa apenas, e abaixo do qual n\u00e3o h\u00e1 necessidade de retroceder ao explicar o suic\u00eddio. Entre o deprimido psicast\u00eanico, o homem arruinado, exposto \u00e0 desonra, gravemente ferido em seu amor pr\u00f3prio, privado de algu\u00e9m que ama, h\u00e1 sem d\u00favida muitas diferen\u00e7as, para quem examina o tipo especial de transtorno que se apoderou de cada um deles. No entanto, h\u00e1 um tra\u00e7o comum a todos. Todos s\u00f3 enxergam na sociedade seus aspectos hostis, seus lados mais \u00edngremes. Devemos atribuir o nome de motivos a esses eventos: doen\u00e7a mental, perda de dinheiro, luto, desgostos amorosos, pois s\u00e3o tantas formas particulares diferentes sob as quais se esconde um mesmo estado. Mas esse estado em si, ou seja, o sentimento de uma solid\u00e3o definitiva e sem recurso, \u00e9 a \u00fanica causa do suic\u00eddio. \u00c9 muito f\u00e1cil dizer: este homem se matou porque era ciclot\u00edmico, aquele outro porque teve grandes perdas financeiras etc. Isso \u00e9 uma esp\u00e9cie de narrativa um tanto grosseira, na qual apenas se prende aos fatos mais evidentes e singulares. Tais explica\u00e7\u00f5es s\u00f3 teriam sentido se o que determinasse o suic\u00eddio fosse, no transtorno nervoso, o que o distingue precisamente da perda de dinheiro, ou seja, se o estado de ang\u00fastia e depress\u00e3o, presente tamb\u00e9m no homem exposto \u00e0 mis\u00e9ria e \u00e0 decad\u00eancia, fosse exclu\u00eddo. Mas, se esse estado n\u00e3o o acompanhasse, \u00e9 \u00f3bvio demais que o transtorno nervoso n\u00e3o levaria ao suic\u00eddio. \u00c9 porque em ambos os casos o mesmo estado surge que o suic\u00eddio ocorre.<\/p>\n\n\n\n<p>*<\/p>\n\n\n\n<p>* *<\/p>\n\n\n\n<p>Este \u00e9 um ponto de vista que Durkheim n\u00e3o considerou. Ele n\u00e3o parece ter suspeitado que os estados delirantes est\u00e3o acompanhados por uma falta de adapta\u00e7\u00e3o entre o indiv\u00edduo e seu ambiente. Al\u00e9m disso, em seu \u00faltimo livro, ao estudar as cerim\u00f4nias religiosas e as festas em sociedades primitivas, ele foi surpreendido, pelo contr\u00e1rio, pelo fato de que quando o grupo est\u00e1 mais concentrado, quando seus membros s\u00e3o invadidos pelos mesmos sentimentos, dominados pelas mesmas imagens, ent\u00e3o se manifesta uma exalta\u00e7\u00e3o da vida ps\u00edquica pr\u00f3xima ao del\u00edrio. \u201cUma vida social muito intensa\u201d, diz ele, \u201csempre faz com que o organismo, assim como a consci\u00eancia do indiv\u00edduo, sofra uma esp\u00e9cie de viol\u00eancia que perturba seu funcionamento normal.\u201d Ele desenvolveu a ideia de que \u201ca vida religiosa n\u00e3o pode atingir um certo grau de intensidade sem implicar uma exalta\u00e7\u00e3o ps\u00edquica que n\u00e3o est\u00e1 sem rela\u00e7\u00e3o com o del\u00edrio. \u00c9 por essa raz\u00e3o que os profetas, os fundadores de religi\u00f5es, os grandes santos, em uma palavra, os homens cuja consci\u00eancia religiosa \u00e9 excepcionalmente sens\u00edvel, apresentam muito frequentemente sinais de uma nervosidade excessiva e mesmo propriamente patol\u00f3gica: essas taras fisiol\u00f3gicas os predispunham aos grandes pap\u00e9is religiosos\u201d. Assim, enquanto, de acordo com Blondel, o desequil\u00edbrio mental corresponderia a uma insufici\u00eancia ou a uma defici\u00eancia, de acordo com Durkheim, \u00e9 uma intensidade excessiva da vida social que abriria as portas para o del\u00edrio.<\/p>\n\n\n\n<p>Pode-se pensar que as duas explica\u00e7\u00f5es se encontram. De fato, existem diferentes tipos de dist\u00farbios mentais, e, especialmente, existem psicast\u00eanicos que passam mais ou menos periodicamente por fases alternadas de hiperatividade e depress\u00e3o, de alegria e expans\u00e3o, de tristeza e reclus\u00e3o. Quando Durkheim associa o del\u00edrio \u00e0 exalta\u00e7\u00e3o coletiva, ele est\u00e1 certo no sentido de que, em ambos os casos, o ser humano demonstra mais atividade, uma atividade mais fren\u00e9tica e desordenada do que o normal: ele se exalta, como se pudesse escapar aos estreitos limites de seu corpo, ou como se sentisse dentro de si uma fonte de for\u00e7as que jorra repentinamente e que n\u00e3o se esgota. Mas ser\u00e1 que apenas essa forma de del\u00edrio existe, e todas as outras derivam dela? Durkheim n\u00e3o fez essa pergunta. No entanto, sabemos que isso n\u00e3o \u00e9 verdade, e que em outros casos, em outras fases, o delirante est\u00e1 deprimido, condenado ao isolamento mental e que, em vez disso, deveria ser comparado aos habitantes dessas cidades antigas, devastadas pela peste ou por algum flagelo, que se sentiam abandonados por seus deuses, n\u00e3o ousavam mais sair de suas casas e se arrastavam pelas ruas implorando em v\u00e3o por algum socorro. \u00c9 apenas nesses casos que o del\u00edrio leva ao suic\u00eddio<a href=\"#_ftn16\" id=\"_ftnref16\">[16]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, h\u00e1 uma grande diferen\u00e7a entre esses per\u00edodos de exalta\u00e7\u00e3o e depress\u00e3o, pelos quais todos os membros de uma sociedade passam, e os dist\u00farbios semelhantes que se desenvolvem em um indiv\u00edduo solit\u00e1rio, no meio de uma sociedade normal. Certamente, existem del\u00edrios coletivos. \u201cSe chamarmos del\u00edrio\u201d, diz Durkheim, \u201ctodo estado no qual a mente adiciona \u00e0s dados imediatos da intui\u00e7\u00e3o sens\u00edvel e projeta seus sentimentos e impress\u00f5es nas coisas, talvez n\u00e3o haja representa\u00e7\u00e3o coletiva que, de certa forma, n\u00e3o seja delirante. Todo o meio social [de fato] nos aparece como povoado de for\u00e7as que, na realidade, s\u00f3 existem em nossa mente.\u201d Portanto, para nos elevarmos a esse tipo de representa\u00e7\u00f5es, para participarmos desse del\u00edrio, para nos ajustarmos a um ambiente fervilhante e excitado, precisamos de uma certa quantidade de for\u00e7a adicional. Onde encontraremos isso? No pr\u00f3prio meio. Descreva-me uma assembleia na qual as paix\u00f5es ditam os gestos e as palavras. Considerando o estado de calma e indiferen\u00e7a em que me encontro, acreditarei que n\u00e3o poderei manter minha posi\u00e7\u00e3o l\u00e1, irei como espectador. Assim que eu atravessar a porta da sala, sentirei elevado acima de mim mesmo pelo espet\u00e1culo dos homens reunidos, por seus movimentos e vozes, adotarei sua atitude, desempenharei meu papel no palco social como se os outros atores e espectadores estivessem me soprando o que devo dizer. \u00c9 o mesmo quando \u00e9 preciso sair para o mundo. A mente est\u00e1 em outro lugar, \u00e9 um fardo do qual gostar\u00edamos de nos livrar, vamos nos entediar, n\u00e3o abriremos a boca, s\u00f3 encontraremos indiferentes. No entanto, quando voc\u00ea est\u00e1 entre os outros, a anima\u00e7\u00e3o da noite o contagia. Voc\u00ea entra em uma esp\u00e9cie de dan\u00e7a onde a m\u00fasica marca o ritmo dos seus passos: da mesma forma, as palavras daqueles que o rodeiam, suas perguntas e respostas, a aten\u00e7\u00e3o voltada para voc\u00ea, comunicam \u00e0 sua mente um tipo de impulso do qual voc\u00ea precisava para brilhar neste c\u00edrculo e que voc\u00ea recebe deles pr\u00f3prios. H\u00e1 um contraste t\u00e3o grande entre o isolamento relativo em que passamos parte de nossos dias e esses ambientes sociais onde \u00e9 preciso se desdobrar que, se confi\u00e1ssemos apenas em nossas for\u00e7as individuais do momento, n\u00e3o os buscar\u00edamos, nem tentar\u00edamos nos misturar com os outros. Mas sabemos por experi\u00eancia que, em contato com eles, tiraremos delas as for\u00e7as necess\u00e1rias para pensar como eles e nos ajustarmos ao tom de sua vida afetiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Como resultado, esses per\u00edodos de atividade e exalta\u00e7\u00e3o social n\u00e3o s\u00e3o necessariamente seguidos por outros nos quais os homens que participaram dessas reuni\u00f5es e cerim\u00f4nias se sintam exaustos e deprimidos. Isso ocorre porque as for\u00e7as que eles gastaram n\u00e3o foram tiradas de si mesmos e de sua subst\u00e2ncia. Certamente, os abor\u00edgenes australianos, ap\u00f3s essas solenidades e festas onde se entregaram durante v\u00e1rios dias e noites consecutivos a todo tipo de dan\u00e7as e contor\u00e7\u00f5es, est\u00e3o fisicamente exaustos. Mas basta um pouco de descanso e sono para que esse tipo de fadiga seja esquecido.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 completamente diferente para o doente mental. Esse n\u00e3o se ajusta ao seu meio, mas, durante suas crises, ou n\u00e3o alcan\u00e7a, ou ultrapassa o grau de intensidade em que a vida social ao seu redor est\u00e1 elevada. Est\u00e1 deprimido? Isola-se, se esconde como em um esconderijo e se fecha sobre si mesmo<a href=\"#_ftn17\" id=\"_ftnref17\">[17]<\/a>. Explica suas ang\u00fastias, sua atonia pela atitude dos outros homens que o odeiam e o desprezam. Pois, desde que n\u00e3o seja mais sens\u00edvel aos benef\u00edcios da vida em sociedade, \u00e9 natural que atribua a ela todas as dores internas que suporta. Quando uma sociedade passa por uma crise de depress\u00e3o coletiva, seus membros n\u00e3o est\u00e3o completamente separados uns dos outros. A comunidade de sofrimento os mant\u00e9m unidos: \u201cCrian\u00e7as\u201d, diz \u00c9dipo, jovem descendente do antigo Cadmo, \u201cpor que voc\u00eas se aglomeram nessas escadas? Por que esses ramos suplicantes que vejo em suas m\u00e3os? O incenso queima em toda a cidade, que ressoa ao mesmo tempo com hinos de lamento e gemidos.\u201d Eles misturam suas lamenta\u00e7\u00f5es e suas preces. O deprimido mental, ao contr\u00e1rio, est\u00e1 sozinho em suportar seu mal. Ele seria mais compar\u00e1vel a algum membro de uma comunidade religiosa que passa por uma crise de f\u00e9 e d\u00favida, que n\u00e3o \u00e9 mais capaz de se harmonizar com os outros fi\u00e9is e de se abrir \u00e0s impress\u00f5es ou acolher as vis\u00f5es que os exaltam. \u201cEu estava doente na enfermaria\u201d, escreve Lutero falando de quando era monge. As tenta\u00e7\u00f5es mais cru\u00e9is (as tenta\u00e7\u00f5es do esp\u00edrito) exauriam meu corpo e o martirizavam, de modo que mal podia respirar e ofegar. Nenhum homem me consolava. Todos aqueles a quem eu reclamava respondiam: \u201cEu n\u00e3o sei.\u201d Ent\u00e3o eu pensava: \u201cSou o \u00fanico que deve estar t\u00e3o triste em esp\u00edrito?\u201d Oh! Eu via espectros e figuras horr\u00edveis.\u201d Lutero<a href=\"#_ftn18\" id=\"_ftnref18\">[18]<\/a> se voltar\u00e1 contra o papado e a Igreja, assim como o deprimido acusa a sociedade. No entanto, a sociedade mant\u00e9m suas for\u00e7as intactas. Mas ele n\u00e3o est\u00e1 mais em comunica\u00e7\u00e3o com ela. Ele n\u00e3o pode mais tirar do reservat\u00f3rio comum.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o psicast\u00eanico est\u00e1 na fase de exalta\u00e7\u00e3o e euforia, podemos dizer que, pelo contr\u00e1rio, ele est\u00e1 mais em contato com a sociedade do que os outros homens? \u00c9 dela que ele tira as for\u00e7as que sente transbordar dentro de si? \u00c9 exato que \u201cuma vida social intensa cause, ent\u00e3o, tanto ao seu organismo quanto \u00e0 sua consci\u00eancia, uma esp\u00e9cie de viol\u00eancia que perturba seu funcionamento normal?\u201d Certamente, neste per\u00edodo, longe de se acomodar \u00e0 solid\u00e3o, ele n\u00e3o espera que os outros venham at\u00e9 ele. Ele vai at\u00e9 eles. Ele empurra todas as portas entreabertas, busca as assembleias, os homens, reaviva amizades quase mortas, retoma rela\u00e7\u00f5es interrompidas, cria novas a cada dia e demonstra o mesmo apetite pela vida social como algu\u00e9m que tenha sido privado dela por muito tempo. Al\u00e9m disso, essa atividade voltada para os outros, febril, vibrante, superficial e v\u00e3, muitas vezes d\u00e1 a impress\u00e3o de um motor funcionando em vazio. O excitado se ilude sobre o alcance da efervesc\u00eancia de ideias e do aparente desdobramento de energia do qual \u00e9 alvo e fonte. Ele tamb\u00e9m se ilude sobre a atitude dos outros em rela\u00e7\u00e3o a ele. Ele se engana, assim como se enganava quando estava deprimido, mas ao contr\u00e1rio. Como sente dentro de si uma capacidade quase ilimitada de se adaptar aos diversos grupos pr\u00f3ximos a ele ou compreendidos em seu horizonte, ele n\u00e3o \u00e9 mais sens\u00edvel a nenhum dos obst\u00e1culos que o afastam de tal foco de vida social e n\u00e3o percebe nenhum dos desacordos que persistem entre ele e aqueles que o rodeiam. As obje\u00e7\u00f5es dos outros ou suas reservas, suas desconfian\u00e7as e antipatias, ou seja, as barreiras naturais que impedem que os homens, quando entram em contato, se fundam completamente uns nos outros, n\u00e3o existem mais para ele. Como n\u00e3o lhe custa nenhum esfor\u00e7o se deslocar de um grupo para outro, ele esquece, neste, as decep\u00e7\u00f5es que pode ter experimentado naquele. Assim, ele ama os outros homens, ele os ama demais, n\u00e3o apenas porque, apaixonado pela vida social, ele se interessa genuinamente por eles, mas porque s\u00f3 \u00e9 sens\u00edvel aos aspectos benevolentes, generosos e reconfortantes dos grupos.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, isso poderia ser apenas uma ilus\u00e3o de intensa vida coletiva. Entre os casos em que a pr\u00f3pria sociedade cria em seu seio, por meios apropriados, tais estados de exalta\u00e7\u00e3o aos quais participam a maioria de seus membros, e aquele em que um \u00fanico homem espalha sua excita\u00e7\u00e3o pelos grupos, h\u00e1 muitas diferen\u00e7as. O excitado, embora se espalhe assim para fora, n\u00e3o permanece igualmente fechado em seu eu m\u00f3rbido como o deprimido? Sem d\u00favida, as crises de megalomania observadas em um ciclot\u00edmico em per\u00edodo de excita\u00e7\u00e3o, t\u00e3o semelhantes que \u00e0s vezes parecem ao del\u00edrio de grandeza, que \u00e9 uma forma de aliena\u00e7\u00e3o, se distinguem pelo fato de que ele ainda mant\u00e9m rela\u00e7\u00f5es com os outros homens, que eles podem agir sobre ele, mesmo que seja apenas modificando os objetivos que ele persegue e apresentando-lhe novos assuntos de excita\u00e7\u00e3o, e que ele pr\u00f3prio tamb\u00e9m age sobre eles, talvez menos do que ele acredita, mas talvez mais do que um homem normal ou m\u00e9dio. Na maioria das vezes, eles n\u00e3o inventaram as teses que desenvolvem, n\u00e3o imaginaram os planos que constroem, n\u00e3o conceberam espontaneamente as simpatias, os \u00f3dios, os entusiasmos que se desenvolvem neles. No entanto, n\u00e3o se pode dizer que sua excita\u00e7\u00e3o resulta das circunst\u00e2ncias, e que essa chama que os consome foi acesa pela sociedade. Mesmo que ao seu redor tudo estivesse calmo, eles n\u00e3o estariam menos agitados. N\u00e3o \u00e9 da sociedade, mas deles pr\u00f3prios que eles tiram suas imagina\u00e7\u00f5es. Eles s\u00e3o t\u00e3o pouco adaptados ao seu meio em per\u00edodo de excita\u00e7\u00e3o quanto de depress\u00e3o. Mas n\u00e3o h\u00e1 nada que distinga os psicast\u00eanicos dos outros candidatos ao suic\u00eddio. Poder\u00edamos descrever completamente a ciclotimia em termos de adapta\u00e7\u00e3o ao meio. Mas se descrever\u00edamos de maneira bastante semelhante as fases pelas quais passa um homem que \u00e9 levado \u00e0 morte volunt\u00e1ria por uma m\u00e1goa de amor ou pela ru\u00edna. A trajet\u00f3ria percorrida por C\u00e9sar Birotteau, desde que sua esposa o surpreende \u00e0 noite planejando grandes investimentos, at\u00e9 o momento em que sua fortuna desmorona, onde ele s\u00f3 ouve um \u201csom de sinos f\u00fanebres\u201d e pensa no suic\u00eddio, poderia representar as fases sucessivas pelas quais passaria uma doen\u00e7a mental que come\u00e7aria com um del\u00edrio euf\u00f3rico e terminaria com uma grave crise de depress\u00e3o. Birotteau, religioso, pai de fam\u00edlia e, ali\u00e1s, de cabe\u00e7a fraca, n\u00e3o se suicida. Ele remonta a trajet\u00f3ria, \u00e9 reabilitado e morre de excesso de alegria. Exceto por esse desfecho, pode-se prever que muitos desesperados, se pudessem resistir por um tempo \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de se matar, encontrariam motivos para viver. O mesmo aconteceria com muitos deprimidos. N\u00e3o afirmamos, no entanto, que seja assim em todos os casos. Basta-nos ter mostrado que o dist\u00farbio nervoso n\u00e3o desempenha aqui um papel diferente dos eventos \u2013 ru\u00edna, m\u00e1goa \u00edntima etc. \u2013 aos quais geralmente se associa o suic\u00eddio.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Dr de Fleury. L\u2019angoisse humaine, 1926, p. 100 a 158. Veja tamb\u00e9m a resenha dessa obra por Georges Dumas, no Journal de psychologie, 15 de dezembro de 1926, p. 1059.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Essa obje\u00e7\u00e3o, baseada no fato de que a imunidade das pessoas casadas ao suic\u00eddio se deve \u201cao que pode ser chamado de sele\u00e7\u00e3o matrimonial\u201d, foi antecipada e discutida por Durkheim (Le suicide, p. 186).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> Georges Dumas escreve, na resenha citada acima: \u201cPerguntei a mim mesmo o que minha experi\u00eancia pessoal me ensinou sobre a quest\u00e3o (do suic\u00eddio) e, depois de eliminar cuidadosamente todos os suic\u00eddios que conheci profissionalmente porque lido com psiquiatria, contei em minha experi\u00eancia, nos \u00faltimos quarenta anos, treze suic\u00eddios que, diretamente ou n\u00e3o, conheci de perto o suficiente para ter uma opini\u00e3o sobre o estado nervoso ou mental dos suicidas&#8230;. Encontrei quatro deles que se pode dizer&#8230; que n\u00e3o apresentavam dist\u00farbios psicop\u00e1ticos&#8230; Conto tr\u00eas que eram hiperemocionais e que cometeram suic\u00eddio sob a influ\u00eancia de um ataque de ansiedade. Os outros seis eram todos peri\u00f3dicos que cometeram suic\u00eddio durante um per\u00edodo de depress\u00e3o ansiosa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> \u201cQuando a alma \u00e9 fortemente abalada por um afeto violento e imprevisto, as fun\u00e7\u00f5es org\u00e2nicas s\u00e3o perturbadas, a raz\u00e3o \u00e9 perturbada, o homem&#8230; est\u00e1 em um verdadeiro del\u00edrio\u201d. Sobre o homem \u201cminado pelo \u00f3dio e pelo ci\u00fame, pelos infort\u00fanios da ambi\u00e7\u00e3o e da fortuna\u201d: \u201cEmbora atuem lentamente, as paix\u00f5es enfraquecem os \u00f3rg\u00e3os; v\u00e1rios (desesperados) nos asseguraram que n\u00e3o se lembravam do que haviam feito: v\u00e1rios tiveram alucina\u00e7\u00f5es singulares. Mas isso \u00e9 suic\u00eddio volunt\u00e1rio&#8230; \u00c9 certo que, no momento da execu\u00e7\u00e3o, a pessoa que est\u00e1 esperando que sua vida acabe (\u00e9 sempre um caso de suic\u00eddio volunt\u00e1rio) quase sempre parece um homem em desespero e del\u00edrio\u201d. Esquirol, loc. cit. p. 532, 536-537.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> \u201cFala-se demais da melancolia como uma doen\u00e7a que deve ser prolongada por um certo tempo e manter uma certa unidade&#8230; N\u00e3o vejo por que os indiv\u00edduos de que Durkheim fala, exauridos pelos esfor\u00e7os e medos de maus neg\u00f3cios, pela ru\u00edna e por terr\u00edveis responsabilidades, n\u00e3o deveriam cair em estados melanc\u00f3licos de curta dura\u00e7\u00e3o, capazes de levar a suic\u00eddios erroneamente considerados como atos normais. Os dist\u00farbios patol\u00f3gicos n\u00e3o devem ser separados do que consideramos arbitrariamente como funcionamento normal\u201d. Pierre Janet, De l\u2019angoisse \u00e0 l\u2019extase, tomo II, Les sentiments fondamentaux, 1928, p. 369. Para Janet, o suic\u00eddio \u00e9 sempre \u201cuma forma m\u00f3rbida de rea\u00e7\u00e3o ao fracasso\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[6]<\/a> \u201cA vida de indiv\u00edduos normais \u00e9 repleta de incidentes semelhantes aos que a comitiva de pacientes e os pr\u00f3prios pacientes alegam para explicar sua condi\u00e7\u00e3o. Felizmente, na grande maioria dos casos, eles apenas provocam emo\u00e7\u00f5es normais, cujas consequ\u00eancias se desenvolvem normalmente. Se, portanto, a emo\u00e7\u00e3o que elas produzem leva ao aparecimento de dist\u00farbios mentais, \u00e9 porque ela \u00e9 em si mesma m\u00f3rbida e deriva esse car\u00e1ter n\u00e3o do evento do qual surge, mas do terreno em que germinou\u201d. Dr. Charles Blondel, Morbid Consciousness (Consci\u00eancia M\u00f3rbida), 1914, p. 335<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\">[7]<\/a> \u00c9mile, livre II.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\" id=\"_ftn8\">[8]<\/a> \u201cOs motivos que s\u00e3o assim, correta ou incorretamente, atribu\u00eddos aos suicidas n\u00e3o s\u00e3o as causas reais&#8230;. As raz\u00f5es dadas para o suic\u00eddio, ou que o suicida d\u00e1 a si mesmo para explicar seu ato, s\u00e3o geralmente apenas as causas aparentes&#8230;. Elas marcam, pode-se dizer, os pontos fracos do indiv\u00edduo\u201d. Durkheim, op. cit. pp. 144 e 147. Durkheim se baseia principalmente no fato de que a propor\u00e7\u00e3o de motivos dificilmente varia quando, no mesmo pa\u00eds, o n\u00famero de suic\u00eddios aumenta, ou quando se muda de uma profiss\u00e3o para outra, para se recusar a v\u00ea-los como as causas reais do fen\u00f4meno.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref9\" id=\"_ftn9\">[9]<\/a> A mis\u00e9ria\u201d, diz a Dra. Serin, autora da pesquisa analisada acima, \u201c\u00e9 uma grande fornecedora de morte volunt\u00e1ria\u201d. Dos 169 casos de suic\u00eddio n\u00e3o psicop\u00e1tico, ela encontrou 50 atribu\u00eddos \u00e0 pobreza ou a um rev\u00e9s da sorte. \u201c\u00c0s vezes, essa mis\u00e9ria \u00e9 consequ\u00eancia do alcoolismo e da psicopatia; muitas pessoas desempregadas s\u00e3o inst\u00e1veis. E, no entanto, \u00e9 a ang\u00fastia que os mata. \u201c\u00c0s vezes, tamb\u00e9m \u00e9 causada por doen\u00e7a, mas, mais frequentemente, por velhice, velhice enferma, velhice solit\u00e1ria ou abandonada. Muito mais raramente, a morte \u00e9 o resultado de uma ru\u00edna repentina, de uma especula\u00e7\u00e3o infeliz ou de uma fal\u00eancia que parece inevit\u00e1vel&nbsp;\u00bb. Se a pesquisa tivesse sido realizada em um ano de crise econ\u00f4mica, \u00e9 prov\u00e1vel que essa \u00faltima categoria tivesse sido mais importante. Afinal de contas, voc\u00ea pode ser rebaixado de um n\u00edvel social inferior ou superior.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref10\" id=\"_ftn10\">[10]<\/a> Na pesquisa da Dra. Suzanne Serin, de 169 suic\u00eddios n\u00e3o psicop\u00e1ticos, 72 puderam ser explicados por \u201cluto \u00edntimo\u201d. \u201cEsses foram os suic\u00eddios de vi\u00favas e vi\u00favos ap\u00f3s a morte de seus c\u00f4njuges, de maridos e amantes abandonados e de pais incapazes de sobreviver \u00e0 morte de um filho&nbsp;\u00bb. Parece \u00ab&nbsp;que alguns dos chamados suic\u00eddios passionais s\u00e3o simulados com o objetivo de chantagem sentimental. [Mas isso s\u00e3o tentativas]. Por outro lado, \u00e0s vezes \u00e9 dif\u00edcil saber se, por tr\u00e1s dessas tristezas tr\u00e1gicas, h\u00e1 um desequil\u00edbrio constitucional ou uma psicose que n\u00e3o foi reconhecida no in\u00edcio\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref11\" id=\"_ftn11\">[11]<\/a> Die Leiden des jungen Werthers, p. 55.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref12\" id=\"_ftn12\">[12]<\/a> Muitas vezes, ele nem mesmo deseja faz\u00ea-lo. Na <em>Nouvelle H\u00e9lo\u00efse<\/em>, Mylord Edouard refuta os argumentos apresentados por Saint-Preux a favor do suic\u00eddio. \u201cEles dizem: a vida \u00e9 um mal. Mas, mais cedo ou mais tarde, a pessoa ser\u00e1 consolada. Mas\u201d, continua ele, \u201credobra minhas tristezas ao pensar que elas acabar\u00e3o\u201d. Citado por Bayet, op. cit. p. 625.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref13\" id=\"_ftn13\">[13]<\/a> Ch. Blondel. Psychologie pathologique et sociologie, Journal of Moral and Pathological Psychology, 15 de abril de 1925, XXII, 4, p. 345, \u201cQuanto mais a mentalidade m\u00f3rbida acusa a si mesma, mais ela se mostra incapaz de contribuir para a constitui\u00e7\u00e3o de qualquer comunidade\u201d. Ibid, p. 345. Esquirol j\u00e1 havia escrito: \u201cAqueles que n\u00e3o sentem mais o bem de viver [hipocondr\u00edacos]&#8230; n\u00e3o t\u00eam mais sensa\u00e7\u00f5es ou desejos, esgotaram as fontes de vida, sentem um vazio terr\u00edvel, est\u00e3o em completo isolamento do mundo, o que os lan\u00e7a em um estado que preferem trocar pela morte. loc. cit. p. 598.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref14\" id=\"_ftn14\">[14]<\/a> Essa \u00e9 a tese de Blondel, que a contrap\u00f4s \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o de Janet, para quem a psicastenia resulta de um sentimento de \u201cincompletude\u201d. Para Janet, a atividade mental extrai tudo de dentro de si mesma. Nada essencial ou insubstitu\u00edvel nos vem de fora e de nosso ambiente social. Para explicar \u00ab&nbsp;por que nossa atividade n\u00e3o produz mais seu resultado normal&#8230; ele \u00e9 obrigado a invocar a exist\u00eancia de um d\u00e9ficit ps\u00edquico\u201d. Para Blondel, ao contr\u00e1rio, n\u00e3o h\u00e1 d\u00e9ficit, mas sim uma superabund\u00e2ncia e uma riqueza excessiva, no sentido de que \u201cos quadros coletivos n\u00e3o se aplicam mais aos estados de consci\u00eancia m\u00f3rbida\u201d, de modo que os elementos puramente individuais destes \u00faltimos, n\u00e3o sendo mais reprimidos ou eliminados, v\u00eam \u00e0 tona. O que \u00e9 reprimido \u00e9 o que vem de fora, ou seja, as rela\u00e7\u00f5es habituais com o ambiente social. Op. cit. p. 303.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref15\" id=\"_ftn15\">[15]<\/a> \u201cA dor\u201d, disse Montesquieu, \u201c\u00e9 um mal local que nos leva ao desejo de ver essa dor cessar; o fardo da vida \u00e9 um mal que n\u00e3o tem lugar espec\u00edfico e que nos leva ao desejo de ver essa vida terminar\u201d. Esprit des lois, livro XIV, cap. XII.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref16\" id=\"_ftn16\">[16]<\/a> Sem d\u00favida, a pessoa deprimida tamb\u00e9m costuma ser agitada. Mas \u201ca agita\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve ser confundida com excita\u00e7\u00e3o. A excita\u00e7\u00e3o consiste essencialmente em um r\u00e1pido aumento da tens\u00e3o psicol\u00f3gica acima do n\u00edvel que permaneceu inalterado por um certo tempo&#8230; A agita\u00e7\u00e3o consiste \u00e0s vezes em uma ativa\u00e7\u00e3o completa de certas tend\u00eancias muito inferiores, \u00e0s vezes em uma ativa\u00e7\u00e3o muito incompleta de certas tend\u00eancias ligeiramente superiores, mas ainda abaixo daquelas que o sujeito deveria usar\u201d. Pierre Janet, Trait\u00e9 de Psychologie du Dr. Dumas, t. I, p. 935 e seguintes.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref17\" id=\"_ftn17\">[17]<\/a> Ch. Blondel. \u201cO isolamento material e moral em que os psicopatas constitucionais vivem entre si \u00e9 bem conhecido dos alienistas&#8230;. Cada um permanece solit\u00e1rio e, como se diz, fechado em sua ilus\u00e3o\u201d. Artigo citado, p. 341.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref18\" id=\"_ftn18\">[18]<\/a> M\u00e9moires de Luther, traduzido e organizado por Michelet, 1837, I p. 10.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea ir\u00e1 ler um trecho da obra &#8220;As Causas do Suic\u00eddio&#8221;, de Maurice Halbwachs. Caso deseje conhece mais e adquirir a obra, clique na capa. XIV. An\u00e1lise da hip\u00f3tese psiqui\u00e1trica: o aspecto patol\u00f3gico e o aspecto social do suic\u00eddio N\u00e3o se l\u00ea sem um pouco de surpresa, em um trabalho\u2026<\/p>\n<p class=\"continue-reading-button\"> <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2024\/03\/13\/as-causas-do-suicidio-de-maurice-halbwachs\/\">Leia mais<i class=\"crycon-right-dir\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":796,"comment_status":"closed","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5,35],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/799"}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=799"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/799\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":800,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/799\/revisions\/800"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/796"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=799"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=799"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=799"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}