{"id":803,"date":"2022-10-14T17:07:00","date_gmt":"2022-10-14T17:07:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=803"},"modified":"2024-03-14T17:09:42","modified_gmt":"2024-03-14T17:09:42","slug":"teoria-e-historia-da-historiografia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2022\/10\/14\/teoria-e-historia-da-historiografia\/","title":{"rendered":"Teoria e Hist\u00f3ria da Historiografia"},"content":{"rendered":"\n<p>Voc\u00ea ir\u00e1 ler a seguir um trecho da obra &#8220;Teoria e Hist\u00f3ria da Historiografia&#8221; de Benedetto Croce. Caso tenha interesse em adquirir a obra, ou deseje mais informa\u00e7\u00f5es, clique na capa do livro.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/teoria-e-historia-da-historiografia\/\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"231\" height=\"328\" src=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/croce-capa-5a.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-603\" srcset=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/croce-capa-5a.jpg 231w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/croce-capa-5a-211x300.jpg 211w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/croce-capa-5a-106x150.jpg 106w\" sizes=\"(max-width: 231px) 100vw, 231px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\"> <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><a>IV. G\u00eanese ideal e dissolu\u00e7\u00e3o da \u201cfilosofia da hist\u00f3ria\u201d<\/a><\/h1>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>I<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>A concep\u00e7\u00e3o da chamada \u201cfilosofia da hist\u00f3ria\u201d \u00e9 perpetuamente oposta e resistida pela concep\u00e7\u00e3o determinista da hist\u00f3ria. Isso n\u00e3o apenas \u00e9 claramente vis\u00edvel pela inspe\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m \u00e9 evidentemente l\u00f3gico, porque a \u201cfilosofia da hist\u00f3ria\u201d representa a concep\u00e7\u00e3o transcendental do real, o determinismo o imanente.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, ao examinar os fatos, n\u00e3o \u00e9 menos certo que o determinismo hist\u00f3rico gera perpetuamente a \u201cfilosofia da hist\u00f3ria\u201d; nem esse fato \u00e9 menos logicamente evidente que o anterior, porque o determinismo \u00e9 naturalismo e, assim, com certeza, imanente, mas imanente de maneira insuficiente e falsa. Portanto, seria melhor dizer que ele deseja ser, mas n\u00e3o \u00e9, imanente, e, quaisquer que sejam seus esfor\u00e7os na dire\u00e7\u00e3o oposta, ele se converte em transcend\u00eancia. Tudo isso n\u00e3o apresenta qualquer dificuldade para algu\u00e9m que tenha claramente em mente as concep\u00e7\u00f5es do transcendente e do imanente, da filosofia da hist\u00f3ria como transcend\u00eancia e da concep\u00e7\u00e3o determinista ou naturalista da hist\u00f3ria como uma falsa iman\u00eancia. Mas ser\u00e1 \u00fatil ver em mais detalhes como esse processo de acordos e oposi\u00e7\u00f5es se desenvolve e se resolve em rela\u00e7\u00e3o ao problema da hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPrimeiro colete os fatos, depois conecte-os causalmente\u201d; \u00e9 assim que o trabalho do historiador \u00e9 representado na concep\u00e7\u00e3o determinista. <em>Apr\u00e8s la collection des faits, la recherche des causes<\/em>, para repetir a f\u00f3rmula muito comum nas pr\u00f3prias palavras de um dos te\u00f3ricos mais eloquentes e pitorescos dessa escola, Taine. Os fatos s\u00e3o brutos, densos, realmente reais, mas n\u00e3o iluminados com a luz da ci\u00eancia, n\u00e3o intelectualizados. Esse car\u00e1ter intelig\u00edvel deve ser conferido a eles por meio da busca por causas. Mas \u00e9 muito bem conhecido o que acontece quando um fato \u00e9 vinculado a outro como sua causa, formando uma cadeia de causas e efeitos: assim inauguramos uma regress\u00e3o infinita e nunca conseguimos encontrar a causa ou causas a que podemos finalmente anexar a cadeia que estivemos t\u00e3o diligentemente montando.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns, talvez muitos, dos te\u00f3ricos da hist\u00f3ria saem da dificuldade de uma maneira verdadeiramente simples: eles quebram ou deixam cair em certo ponto sua cadeia, que j\u00e1 est\u00e1 quebrada em outro ponto na outra extremidade (o efeito que eles se propuseram a considerar). Eles operam com seu fragmento de cadeia como se fosse algo perfeito e fechado em si mesmo, como se uma linha reta dividida em dois pontos devesse incluir o espa\u00e7o e ser uma figura. Da\u00ed, tamb\u00e9m, a doutrina que encontramos entre os metodologistas da hist\u00f3ria: que \u00e9 apenas necess\u00e1rio para a hist\u00f3ria procurar causas \u201cpr\u00f3ximas\u201d. Essa doutrina visa fornecer um fundamento l\u00f3gico para o processo acima. Mas quem pode dizer o que s\u00e3o as \u201ccausas pr\u00f3ximas\u201d? O pensamento, uma vez que se admite que est\u00e1 infelizmente obrigado a pensar de acordo com a cadeia de causas, nunca desejar\u00e1 conhecer nada al\u00e9m de causas \u201cverdadeiras\u201d, sejam elas pr\u00f3ximas ou distantes no espa\u00e7o e no tempo (espa\u00e7o, como o tempo, n\u00e3o faz nada ao caso). Na realidade, essa teoria \u00e9 uma folha de parreira colocada l\u00e1 para encobrir um procedimento do qual o historiador, que \u00e9 um pensador e um cr\u00edtico, tem vergonha, um ato de vontade que \u00e9 \u00fatil, mas que, por essa mesma raz\u00e3o, \u00e9 voluntarioso. A folha de parreira, no entanto, \u00e9 um sinal de pudor, e como tal tem seu valor, porque, se a vergonha for perdida, h\u00e1 o risco de finalmente se declarar que as \u201ccausas\u201d em que se fez uma parada arbitr\u00e1ria s\u00e3o as \u201ccausas \u00faltimas\u201d, as \u201ccausas verdadeiras\u201d, elevando assim o capricho do indiv\u00edduo ao n\u00edvel de um ato criador do mundo, tratando-o como se fosse Deus, o Deus de certos te\u00f3logos, cujo capricho \u00e9 a verdade. N\u00e3o desejo citar Taine novamente logo ap\u00f3s ter dito isso, pois ele \u00e9 um autor muito estim\u00e1vel, n\u00e3o devido \u00e0 sua constitui\u00e7\u00e3o mental, mas por sua f\u00e9 entusiasmada na ci\u00eancia; no entanto, me conv\u00e9m cit\u00e1-lo mesmo assim. Taine, em sua busca por causas, ao chegar a uma causa que ele \u00e0s vezes chama de \u201cra\u00e7a\u201d e \u00e0s vezes de \u201cidade\u201d, como por exemplo em sua hist\u00f3ria da literatura inglesa, quando ele alcan\u00e7a o conceito do \u201chomem do Norte\u201d ou \u201cgerm\u00e2nico\u201d, com o car\u00e1ter e o intelecto que seriam adequados a tal pessoa \u2013 frieza dos sentidos, amor por ideias abstratas, grosseria de gosto e desprezo pela ordem e regularidade \u2013, afirma gravemente: <em>L\u00e0 s\u2019arr\u00eate la recherche: on est tomb\u00e9 sur quelque disposition primitive, sur quelque trait propre \u00e0 toutes les sensations, \u00e0 toutes les conceptions d\u2019un si\u00e8cle ou d\u2019une race, sur quelque particularit\u00e9 ins\u00e9parable de toutes les d\u00e9marches de son esprit et de son cour. Ce sont l\u00e0 les grandes causes, les causes universelles et permanentes<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em>. O que aquela coisa primitiva e insuper\u00e1vel continha era conhecido pela imagina\u00e7\u00e3o de Taine, mas a cr\u00edtica \u00e9 ignorante a respeito; pois a cr\u00edtica exige que a g\u00eanese dos fatos ou grupos de fatos designados como \u201cidade\u201d e \u201cra\u00e7a\u201d seja dada, e ao exigir sua g\u00eanese declara que eles n\u00e3o s\u00e3o nem \u201cuniversais\u201d nem \u201cpermanentes\u201d, porque n\u00e3o se conhecem fatos universais e permanentes, que eu saiba, certamente n\u00e3o <em>le Germain<\/em> e <em>l\u2019homme du Nord<\/em>; nem m\u00famias s\u00e3o fatos, embora durem alguns milhares de anos, mas n\u00e3o para sempre \u2013 elas mudam gradualmente, mas mudam.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, quem adota a concep\u00e7\u00e3o determinista da hist\u00f3ria, desde que decida se abster de interromper a pesquisa que empreendeu de maneira arbitr\u00e1ria e fantasiosa, \u00e9 obrigado a reconhecer que o m\u00e9todo adotado n\u00e3o alcan\u00e7a o objetivo desejado; e, por outro lado, uma vez que come\u00e7ou, mesmo que de forma insuficiente, a pensar a hist\u00f3ria, n\u00e3o h\u00e1 alternativas sen\u00e3o: ou recome\u00e7ar do zero, mudando de caminho, ou avan\u00e7ar, mudando a dire\u00e7\u00e3o. A pressuposi\u00e7\u00e3o naturalista, que ainda se mant\u00e9m (\u201cprimeiro colete os fatos, depois procure as causas\u201d: o que \u00e9 mais evidente e mais inevit\u00e1vel do que isso?), leva necessariamente \u00e0 segunda alternativa. Mas adotar a segunda alternativa \u00e9 superar o determinismo, \u00e9 transcender a natureza e suas causas, \u00e9 propor um m\u00e9todo oposto ao seguido at\u00e9 ent\u00e3o \u2013 ou seja, renunciar \u00e0 categoria de causa por outra, que n\u00e3o pode ser outra sen\u00e3o a de fim, um fim extr\u00ednseco e transcendental, que \u00e9 o oposto an\u00e1logo, correspondente \u00e0 causa. Agora, a busca pelo fim transcendental \u00e9 a \u201cfilosofia da hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O naturalista consequente (entendendo-se por isso aquele que \u201ccontinua a pensar\u201d, ou, como geralmente se diz, a tirar as consequ\u00eancias) n\u00e3o pode evitar essa pesquisa, nem jamais a evita, de qualquer maneira que conceba sua nova investiga\u00e7\u00e3o. Isso ele nem mesmo pode fazer quando tenta declarar que o fim ou a \u201ccausa \u00faltima\u201d \u00e9 incognosc\u00edvel, porque (como j\u00e1 foi observado em outro lugar) um incognosc\u00edvel afirmado \u00e9 um incognosc\u00edvel de alguma forma conhecido. O naturalismo \u00e9 sempre coroado com uma filosofia da hist\u00f3ria, seja qual for o seu modo de formula\u00e7\u00e3o: quer ele explique o universo como composto de \u00e1tomos que se chocam e produzem a hist\u00f3ria por meio de seus diversos choques e giros, aos quais tamb\u00e9m podem p\u00f4r fim retornando ao seu estado primitivo de dispers\u00e3o, quer o Deus oculto seja chamado de Mat\u00e9ria ou do Inconsciente ou algo mais, ou ainda se Ele for concebido como uma Intelig\u00eancia que se vale da cadeia de causas para atualizar Seus conselhos. E todo fil\u00f3sofo da hist\u00f3ria \u00e9, por sua vez, um naturalista, porque ele \u00e9 um dualista e concebe um Deus e um mundo, uma ideia e um fato al\u00e9m ou abaixo da Ideia, um reino de fins e um reino ou sub-reino de causas, uma cidade celestial e outra que \u00e9 mais ou menos diab\u00f3lica ou terrena. Pegue qualquer trabalho hist\u00f3rico determinista e voc\u00ea encontrar\u00e1 ou descobrir\u00e1 nele, de forma expl\u00edcita ou impl\u00edcita, a transcend\u00eancia (em Taine, por exemplo, ela recebe o nome de \u201cra\u00e7a\u201d ou de \u201c<em>si\u00e8cle\u201d<\/em>, que s\u00e3o verdadeiras e pr\u00f3prias divindades); pegue qualquer trabalho de \u201cfilosofia da hist\u00f3ria\u201d e encontrar\u00e1 o dualismo e o naturalismo l\u00e1 (em Hegel, por exemplo, quando ele admite fatos rebeldes e impotentes que resistem ou s\u00e3o indignos do dom\u00ednio da ideia). E veremos cada vez mais claramente como da barriga do naturalismo surge inevitavelmente a \u201cfilosofia da hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>II<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>Mas a \u201cfilosofia da hist\u00f3ria\u201d \u00e9 t\u00e3o contradit\u00f3ria quanto a concep\u00e7\u00e3o determinista da qual ela surge e \u00e0 qual se op\u00f5e. Tendo aceitado e superado o m\u00e9todo de vincular fatos brutos, ela n\u00e3o encontra mais fatos para vincular (pois estes j\u00e1 foram vinculados, tanto quanto poss\u00edvel, por meio da categoria de causa), mas fatos brutos, aos quais ela deve conferir n\u00e3o tanto uma liga\u00e7\u00e3o, mas um \u201csignificado\u201d, representando-os como aspectos de um processo transcendental, uma teofania. Agora, esses fatos, na medida em que s\u00e3o fatos brutos, s\u00e3o mudos, e a transcend\u00eancia do processo requer um \u00f3rg\u00e3o, n\u00e3o o do pensamento que pensa ou produz fatos, mas um \u00f3rg\u00e3o extra l\u00f3gico, para ser concebido e representado (como, por exemplo, o pensamento que procede abstratamente<em> a priori<\/em>, \u00e0 maneira de Fichte), e isso n\u00e3o \u00e9 encontrado no esp\u00edrito, exceto como um momento negativo, como o vazio do pensamento l\u00f3gico efetivo. O vazio do pensamento l\u00f3gico \u00e9 imediatamente preenchido com a pr\u00e1xis, ou o que \u00e9 chamado de sentimento, que ent\u00e3o aparece como poesia, por refra\u00e7\u00e3o te\u00f3rica. H\u00e1 um car\u00e1ter evidentemente po\u00e9tico perpassando todas as \u201cfilosofias da hist\u00f3ria\u201d. As da Antiguidade representavam os eventos hist\u00f3ricos como lutas entre os deuses de certos povos ou de certas ra\u00e7as ou protetores de certos indiv\u00edduos, ou entre o deus da luz e da verdade e os poderes das trevas e da mentira. Elas expressavam assim as aspira\u00e7\u00f5es de povos, grupos ou indiv\u00edduos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 hegemonia, ou do homem em dire\u00e7\u00e3o ao bem e \u00e0 verdade. A forma mais moderna de todas \u00e9 aquela inspirada por diversos sentimentos nacionais e \u00e9ticos (o italiano, o germ\u00e2nico, o eslavo etc.), ou aquela que representa o curso da hist\u00f3ria como levando ao reino da liberdade, ou como a passagem do \u00c9den do comunismo primitivo, atrav\u00e9s da Idade M\u00e9dia de escravid\u00e3o, servid\u00e3o e sal\u00e1rios, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o do comunismo, que j\u00e1 n\u00e3o ser\u00e1 inconsciente, mas consciente, j\u00e1 n\u00e3o ser\u00e1 ed\u00eanico, mas humano. Na poesia, os fatos n\u00e3o s\u00e3o mais fatos, mas palavras, n\u00e3o s\u00e3o realidade, mas imagens, e assim n\u00e3o haveria motivo para censur\u00e1-los se permanecessem pura poesia. Mas n\u00e3o \u00e9 isso o que acontece, porque essas imagens e palavras s\u00e3o colocadas l\u00e1 como ideias e fatos, isto \u00e9, como mitos: progresso, liberdade, economia, t\u00e9cnica, ci\u00eancia s\u00e3o mitos, na medida em que s\u00e3o considerados como agentes externos aos fatos. S\u00e3o mitos n\u00e3o menos do que Deus e o Diabo, Marte e V\u00eanus, J\u00fapiter e Baal, ou quaisquer outras formas mais rudimentares de divindade. E \u00e9 por isso que a concep\u00e7\u00e3o determinista, depois de ter produzido a \u201cfilosofia da hist\u00f3ria\u201d, que a contradiz, \u00e9 obrigada a se opor \u00e0 sua pr\u00f3pria filha, e a apelar do reino dos fins para o das conex\u00f5es causais, da imagina\u00e7\u00e3o para a observa\u00e7\u00e3o, dos mitos aos fatos.<\/p>\n\n\n\n<p>A refuta\u00e7\u00e3o rec\u00edproca do determinismo hist\u00f3rico e da filosofia da hist\u00f3ria, que faz de cada um vazio ou nada \u2013 ou seja, um \u00fanico vazio ou nada \u2013 parece para os ecl\u00e9ticos, como de costume, ser o cumprimento rec\u00edproco de duas entidades que efetuam ou devem efetuar uma alian\u00e7a para apoio m\u00fatuo. E uma vez que o ecletismo floresce na filosofia contempor\u00e2nea, <em>mutato nomine,<\/em> n\u00e3o \u00e9 surpreendente que, al\u00e9m do dever de investigar as causas, tamb\u00e9m seja atribu\u00eddo \u00e0 hist\u00f3ria o de verificar o \u201csignificado\u201d ou o \u201cplano geral\u201d do curso da hist\u00f3ria (ver as obras sobre a filosofia da hist\u00f3ria de Labriola, Simmel e Rickert). Como os escritores sobre o m\u00e9todo costumam ser emp\u00edricos e, portanto, ecl\u00e9ticos, encontramos tamb\u00e9m neles uma divis\u00e3o entre a hist\u00f3ria que une e critica documentos e reconstr\u00f3i eventos, e a \u201cfilosofia da hist\u00f3ria\u201d (ver o manual de Bernheim, t\u00edpico de todos eles). Por fim, como o pensamento comum \u00e9 ecl\u00e9tico, nada \u00e9 mais f\u00e1cil do que concordar com a tese de que a simples hist\u00f3ria, que apresenta a s\u00e9rie de fatos, n\u00e3o \u00e9 suficiente, mas \u00e9 necess\u00e1rio que o pensamento volte \u00e0 cadeia j\u00e1 constitu\u00edda de eventos, a fim de descobrir a\u00ed o des\u00edgnio oculto e responder \u00e0s perguntas sobre de onde viemos e para onde vamos. Isso equivale a dizer que uma \u201cfilosofia da hist\u00f3ria\u201d deve ser posta ao lado da hist\u00f3ria. Esse ecletismo, que d\u00e1 subst\u00e2ncia a dois vazios opostos e os faz se unir, \u00e0s vezes tenta superar a si mesmo e misturar essas duas ci\u00eancias ou partes falaciosas da ci\u00eancia. Ent\u00e3o ouvimos a \u201cfilosofia da hist\u00f3ria\u201d ser defendida, mas com a ressalva de que ela deve ser conduzida com m\u00e9todo \u201ccient\u00edfico\u201d e \u201cpositivo\u201d, por meio da busca da causa, revelando assim a a\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o divina ou da provid\u00eancia<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. O pensamento comum rapidamente concorda com esse programa, mas depois n\u00e3o o consegue realizar<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui n\u00e3o h\u00e1 nada de novo tamb\u00e9m para aqueles que conhecem: a \u201cfilosofia da hist\u00f3ria\u201d a ser constru\u00edda por meio de \u201cm\u00e9todos positivos\u201d, a transcend\u00eancia a ser demonstrada pelos m\u00e9todos da falsa iman\u00eancia, \u00e9 o equivalente exato no campo dos estudos hist\u00f3ricos \u00e0quela \u201cmetaf\u00edsica a ser constru\u00edda por meio do m\u00e9todo experimental\u201d que foi recomendada pelos neocr\u00edticos (Zeller e outros), pois ela pretendia n\u00e3o apenas superar dois vazios que se refutam reciprocamente, mas faz\u00ea-los concordar entre si, e, depois de lhes dar subst\u00e2ncia, combin\u00e1-los em uma \u00fanica subst\u00e2ncia. Eu n\u00e3o gostaria de descrever as impossibilidades contidas no acima exposto como os prod\u00edgios de um alquimista (a met\u00e1fora parece ser muito elevada), mas sim como as confus\u00f5es de maus cozinheiros.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>III<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>O verdadeiro rem\u00e9dio para as contradi\u00e7\u00f5es do determinismo hist\u00f3rico e da \u201cfilosofia da hist\u00f3ria\u201d \u00e9 completamente diferente disso. Para obt\u00ea-lo, devemos aceitar o resultado da refuta\u00e7\u00e3o anterior, que mostra que ambos s\u00e3o f\u00fateis, e rejeitar, por falta de pensamento, tanto os \u201cdes\u00edgnios\u201d da filosofia da hist\u00f3ria quanto as cadeias causais do determinismo. Quando essas duas sombras tiverem sido dispersadas, nos encontraremos no ponto de partida: estamos novamente diante de fatos brutos e desconectados, fatos que est\u00e3o conectados, mas n\u00e3o compreendidos, para os quais o determinismo tentou empregar o cimento da causalidade, a \u201cfilosofia da hist\u00f3ria\u201d, a varinha m\u00e1gica da finalidade. O que faremos com esses fatos? Como os tornaremos claros em vez de densos, org\u00e2nicos em vez de inorg\u00e2nicos, intelig\u00edveis em vez de incompreens\u00edveis? Verdadeiramente, parece dif\u00edcil fazer algo com eles, especialmente para efetuar a transforma\u00e7\u00e3o desejada. O esp\u00edrito \u00e9 impotente diante daquilo que \u00e9, ou se sup\u00f5e ser, externo a ele. E quando os fatos s\u00e3o compreendidos dessa maneira, tendemos a assumir novamente a atitude de desprezo dos fil\u00f3sofos pela hist\u00f3ria, que tem sido quase constante desde a Antiguidade at\u00e9 o final do s\u00e9culo XVIII (para Arist\u00f3teles, a hist\u00f3ria era \u201cmenos filos\u00f3fica\u201d e menos s\u00e9ria do que a poesia, para Sexto Emp\u00edrico, era \u201cmaterial desprovido de m\u00e9todo\u201d; Kant n\u00e3o sentia ou entendia a hist\u00f3ria). Essa atitude se resume a isso: deixemos as ideias para os fil\u00f3sofos e os fatos brutos para os historiadores \u2013 satisfa\u00e7amo-nos com coisas s\u00e9rias e deixemos seus brinquedos para as crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas antes de sucumbir a essa tenta\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 prudente pedir conselho \u00e0 d\u00favida met\u00f3dica (que \u00e9 sempre muito \u00fatil) e dirigir a aten\u00e7\u00e3o precisamente para esses fatos brutos e desconexos a partir dos quais o m\u00e9todo causal afirma partir e diante dos quais n\u00f3s, que agora estamos abandonados por ele e por seu complemento, a filosofia da hist\u00f3ria, nos encontramos novamente. A d\u00favida met\u00f3dica sugerir\u00e1, acima de tudo, o pensamento de que esses fatos s\u00e3o um pressuposto que n\u00e3o foi provado, e ela nos levar\u00e1 a indagar se a prova pode ser obtida. Tendo tentado a prova, finalmente chegaremos \u00e0 conclus\u00e3o de que esses fatos realmente n\u00e3o existem.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois quem, de fato, afirma a exist\u00eancia deles? Precisamente o esp\u00edrito, no momento em que est\u00e1 prestes a empreender a busca das causas. Mas ao realizar esse ato, o esp\u00edrito n\u00e3o possui os fatos brutos (<em>d\u2019abord la collection des faits<\/em>) e ent\u00e3o busca as causas (<em>apr\u00e8s, la recherche des causes<\/em>); mas ele torna os fatos brutos por esse mesmo ato, ou seja, ele os coloca dessa forma, porque \u00e9 \u00fatil a ele faz\u00ea-lo. A busca das causas, empreendida pela hist\u00f3ria, n\u00e3o \u00e9 de forma alguma diferente do procedimento do naturalismo, j\u00e1 v\u00e1rias vezes ilustrado, que analisa e classifica abstratamente a realidade. E ilustrar abstratamente e classificar implica, ao mesmo tempo, julgar ao classificar, ou seja, tratar os fatos n\u00e3o como atos do esp\u00edrito consciente de que os pensa, mas como fatos brutos externos. A Divina Com\u00e9dia \u00e9 aquele poema que recriamos em nossa imagina\u00e7\u00e3o em todos os seus detalhes enquanto o lemos e que compreendemos criticamente como uma determina\u00e7\u00e3o particular do esp\u00edrito, e ao qual, portanto, atribu\u00edmos seu lugar na hist\u00f3ria, com todo o seu contexto e todas as suas rela\u00e7\u00f5es. Mas quando essa atualidade do nosso pensamento e imagina\u00e7\u00e3o chega ao fim, ou seja, quando esse processo mental \u00e9 conclu\u00eddo, somos capazes, por meio de um novo ato do esp\u00edrito, de analisar separadamente seus elementos. Assim, por exemplo, classificaremos os conceitos relacionados \u00e0 \u201cciviliza\u00e7\u00e3o florentina\u201d ou \u00e0 \u201cpoesia pol\u00edtica\u201d e diremos que a Divina Com\u00e9dia foi um efeito da civiliza\u00e7\u00e3o florentina, e esta, por sua vez, um efeito da luta das comunas, e assim por diante. Tamb\u00e9m teremos preparado o caminho para aqueles problemas absurdos que costumavam irritar tanto de Sanctis em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 obra de Dante, e que ele descreveu admiravelmente quando disse que eles surgem apenas quando a express\u00e3o est\u00e9tica viva esfria e a obra po\u00e9tica cai nas m\u00e3os de pessoas enfadonhas e dedicadas a trivialidades. Mas se pararmos a tempo e n\u00e3o entrarmos no caminho desses absurdos, se nos restringirmos pura e simplesmente ao momento natural\u00edstico, \u00e0 classifica\u00e7\u00e3o e ao julgamento classificat\u00f3rio (que tamb\u00e9m \u00e9 conex\u00e3o causal), de maneira completamente pr\u00e1tica, sem tirar nenhuma dedu\u00e7\u00e3o disso, n\u00e3o teremos feito nada al\u00e9m do que \u00e9 perfeitamente leg\u00edtimo; na verdade, estaremos exercendo nosso direito e nos submetendo a uma necessidade racional, que \u00e9 a de naturalizar, quando a naturaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00fatil, mas n\u00e3o al\u00e9m desses limites. Assim, a materializa\u00e7\u00e3o dos fatos e a conex\u00e3o externa ou causal entre eles s\u00e3o completamente justificadas como puro naturalismo. E at\u00e9 mesmo a m\u00e1xima que nos ordena parar nas causas \u201cpr\u00f3ximas\u201d \u2013 ou seja, n\u00e3o for\u00e7ar a classifica\u00e7\u00e3o a ponto de perder toda utilidade pr\u00e1tica \u2013 encontrar\u00e1 sua justificativa. Relacionar o conceito da Divina Com\u00e9dia com o conceito de \u201cciviliza\u00e7\u00e3o florentina\u201d pode ser \u00fatil, mas n\u00e3o ser\u00e1 de forma alguma \u00fatil, ou infinitamente menos \u00fatil, relacion\u00e1-lo com a classe de \u201cciviliza\u00e7\u00e3o indo-europeia\u201d ou com a \u201cciviliza\u00e7\u00e3o do homem branco\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>IV<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>Voltemos, ent\u00e3o, com maior confian\u00e7a ao ponto de partida, o verdadeiro ponto de partida \u2013 ou seja, n\u00e3o ao dos fatos j\u00e1 desorganizados e naturalizados, mas \u00e0 mente que pensa e constr\u00f3i o fato. Ergamos os rostos depreciados dos caluniados \u201cfatos brutos\u201d e veremos a luz do pensamento resplandecendo em suas testas. E esse verdadeiro ponto de partida se revelar\u00e1 n\u00e3o apenas como um ponto de partida, mas como ponto de chegada e de partida, n\u00e3o como o primeiro passo na constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, mas a totalidade da hist\u00f3ria em sua constru\u00e7\u00e3o, que \u00e9 tamb\u00e9m sua autoconstru\u00e7\u00e3o. O determinismo hist\u00f3rico, e ainda mais a \u201cfilosofia da hist\u00f3ria\u201d, abandonam a realidade da hist\u00f3ria, embora tenham dirigido sua jornada para l\u00e1, uma jornada que se tornou t\u00e3o err\u00e1tica e cheia de repeti\u00e7\u00f5es in\u00fateis.<\/p>\n\n\n\n<p>Faremos o ing\u00eanuo Taine confessar que o que estamos dizendo \u00e9 a verdade quando lhe perguntamos o que ele quer dizer com a \u201ccole\u00e7\u00e3o de fatos\u201d e aprendemos com ele que a cole\u00e7\u00e3o em quest\u00e3o consiste em duas etapas ou momentos, na primeira das quais os documentos s\u00e3o revividos para alcan\u00e7ar, atrav\u00e9s da dist\u00e2ncia do tempo, o homem vivo, agindo, dotado de paix\u00f5es, com suas vozes e fisionomias, com seus gestos e roupas, distinto e completo como aquele que acabamos de deixar na rua; e na segunda etapa \u00e9 buscado e encontrado sob o homem exterior o homem interior, o \u201chomem invis\u00edvel\u201d, o \u201ccentro\u201d, o grupo de faculdades e sentimentos que produz o resto, o \u201cdrama interior\u201d, a \u201cpsicologia\u201d. Algo muito diferente, ent\u00e3o, das cole\u00e7\u00f5es de fatos! Se as coisas mencionadas pelo nosso autor realmente acontecem, se realmente fazemos indiv\u00edduos e eventos reviverem na imagina\u00e7\u00e3o, e se pensamos o que est\u00e1 dentro deles \u2013 ou seja, se pensamos a s\u00edntese de intui\u00e7\u00e3o e conceito, que \u00e9 o pensamento em sua concretude \u2013 a hist\u00f3ria j\u00e1 est\u00e1 alcan\u00e7ada: o que mais se quer? N\u00e3o h\u00e1 mais nada a buscar. Taine responde: \u201cDevemos buscar causas\u201d. Ou seja, devemos matar o \u201cfato\u201d vivo pensado por pensamento, separar seus elementos abstratos \u2013 algo \u00fatil, sem d\u00favida, mas \u00fatil para a mem\u00f3ria e a pr\u00e1tica. Ou, como \u00e9 costume de Taine, devemos entender mal e exagerar o valor da fun\u00e7\u00e3o dessa an\u00e1lise abstrata, nos perdermos na mitologia das ra\u00e7as e das \u00e9pocas, ou em coisas diferentes, mas igualmente similares. Cuidado ao matarmos os pobres fatos, se desejamos pensar como historiadores, e na medida em que somos tais e realmente pensamos dessa maneira, n\u00e3o sentiremos a necessidade de recorrer nem ao v\u00ednculo extr\u00ednseco das causas, ao determinismo hist\u00f3rico, nem ao que \u00e9 igualmente extr\u00ednseco dos fins transcendentes, a filosofia da hist\u00f3ria. O fato pensado historicamente n\u00e3o tem causa nem fim fora de si mesmo, mas apenas nele mesmo, coincidente com suas qualidades reais e com sua realidade qualitativa. Porque (\u00e9 bom notar de passagem) a determina\u00e7\u00e3o dos fatos como fatos reais, de natureza desconhecida, afirmados, mas n\u00e3o compreendidos, \u00e9 ela pr\u00f3pria uma ilus\u00e3o do naturalismo (que assim anuncia sua outra ilus\u00e3o, a da \u201cfilosofia da hist\u00f3ria\u201d). No pensamento, realidade e qualidade, exist\u00eancia e ess\u00eancia, s\u00e3o todos um s\u00f3, e n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel afirmar um fato como real sem ao mesmo tempo saber que fato \u00e9 \u2013 ou seja, sem qualific\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando ao fato concreto e permanecendo nele, ou melhor, fazendo de si mesmo o pensamento que pensa o fato concretamente, experimentamos a forma\u00e7\u00e3o cont\u00ednua e o progresso cont\u00ednuo do nosso pensamento hist\u00f3rico e tamb\u00e9m nos tornamos conscientes da hist\u00f3ria da historiografia, que procede da mesma maneira. E vemos como (limito-me a isso, para n\u00e3o permitir que o olhar divague demais) desde os dias dos gregos at\u00e9 os nossos dias, a compreens\u00e3o hist\u00f3rica tem se enriquecido e aprofundado continuamente, n\u00e3o porque as causas abstratas e os fins transcendentes das coisas humanas tenham sido recuperados, mas apenas porque uma consci\u00eancia cada vez maior deles tem sido adquirida. Pol\u00edtica e moral, religi\u00e3o e filosofia e arte, ci\u00eancia e cultura e economia, tornaram-se conceitos mais complexos e, ao mesmo tempo, melhor determinados e unificados tanto em si mesmos quanto em rela\u00e7\u00e3o ao todo. Correlativamente a isso, as hist\u00f3rias dessas formas de atividade tornaram-se cada vez mais complexas e mais firmemente unidas. N\u00e3o sabemos as \u201ccausas\u201d da civiliza\u00e7\u00e3o assim como os gregos; e sabemos t\u00e3o pouco quanto eles sobre o deus ou os deuses que controlam o destino da humanidade. Mas conhecemos melhor a teoria da civiliza\u00e7\u00e3o do que os gregos e, por exemplo, sabemos (como eles n\u00e3o sabiam, ou n\u00e3o sabiam com igual clareza e seguran\u00e7a) que a poesia \u00e9 uma forma eterna do esp\u00edrito te\u00f3rico, que regress\u00e3o ou decad\u00eancia \u00e9 um conceito relativo, que o mundo n\u00e3o est\u00e1 dividido entre ideias e sombras de ideias, ou entre pot\u00eancias e atos, que a escravid\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma categoria do real, mas uma forma hist\u00f3rica do econ\u00f4mico, e assim por diante. Assim, j\u00e1 n\u00e3o ocorre a ningu\u00e9m (exceto \u00e0s sobreviv\u00eancias ou f\u00f3sseis, ainda encontrados entre n\u00f3s) escrever a hist\u00f3ria da poesia com base nos fins pedag\u00f3gicos que se sup\u00f5e que os poetas tinham em vista: pelo contr\u00e1rio, esfor\u00e7amo-nos para determinar as formas expressivas de seus sentimentos. N\u00e3o ficamos de todo perplexos quando nos deparamos com o que chamamos de \u201cdecad\u00eancias\u201d, mas buscamos o que coisa nova e maior estava sendo desenvolvida por meio de sua dial\u00e9tica. N\u00e3o consideramos a obra do homem como miser\u00e1vel e ilus\u00f3ria, nem a aspira\u00e7\u00e3o e admira\u00e7\u00e3o pelos c\u00e9us e pela ascese associada a ela e avessa \u00e0 terra como as \u00fanicas dignas de admira\u00e7\u00e3o e imita\u00e7\u00e3o. Reconhecemos a realidade do poder no ato e nas sombras a solidez das ideias, e na terra o c\u00e9u. Por fim, n\u00e3o achamos que a possibilidade da vida social tenha sido perdida com o desaparecimento do sistema de escravid\u00e3o. Tal desaparecimento teria sido a cat\u00e1strofe da realidade, se os escravos fossem naturais \u00e0 realidade \u2013 e assim por diante.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa concep\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria e a considera\u00e7\u00e3o do trabalho historiogr\u00e1fico em si nos permitem ser justos em rela\u00e7\u00e3o ao determinismo hist\u00f3rico e \u00e0 \u201cfilosofia da hist\u00f3ria\u201d, os quais, ao reaparecerem continuamente, apontaram continuamente as lacunas em nosso conhecimento, tanto hist\u00f3rico quanto filos\u00f3fico, e com suas falsas solu\u00e7\u00f5es provis\u00f3rias anunciaram as solu\u00e7\u00f5es corretas dos novos problemas que temos proposto. N\u00e3o se afirmou que eles deixar\u00e3o de exercer essa fun\u00e7\u00e3o doravante (que \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o ben\u00e9fica das utopias de todos os tipos). E embora o determinismo hist\u00f3rico e a \u201cfilosofia da hist\u00f3ria\u201d n\u00e3o tenham hist\u00f3ria, pois n\u00e3o se desenvolvem, eles ainda recebem um conte\u00fado da rela\u00e7\u00e3o em que se encontram com a hist\u00f3ria, que se desenvolve \u2013 ou seja, a hist\u00f3ria se desenvolve neles, apesar de sua cobertura, extr\u00ednseca ao seu conte\u00fado, que obriga a pensar at\u00e9 mesmo aquele que prop\u00f5e esquematizar e imaginar sem pensar. Pois h\u00e1 uma grande diferen\u00e7a entre o determinismo que agora pode aparecer, ap\u00f3s Descartes, Vico, Kant e Hegel, e o que apareceu ap\u00f3s Arist\u00f3teles; entre a filosofia da hist\u00f3ria de Hegel e Marx e a do gnosticismo e do cristianismo. Transcend\u00eancia e falsa iman\u00eancia est\u00e3o em a\u00e7\u00e3o em ambas essas concep\u00e7\u00f5es, respectivamente; mas as formas abstratas e mitologias que surgiram em \u00e9pocas mais maduras do pensamento cont\u00eam essa nova maturidade em si mesmas. Como prova disso, vamos fazer uma pausa por um momento (passando pelas v\u00e1rias formas de naturalismo) no caso da \u201cfilosofia da hist\u00f3ria\u201d. J\u00e1 observamos uma grande diferen\u00e7a entre a filosofia da hist\u00f3ria, como aparece no mundo hom\u00e9rico, e a de Her\u00f3doto, para quem a concep\u00e7\u00e3o da ira dos deuses \u00e9 um simulacro da lei moral, que poupa os humildes e pisa nos orgulhosos; de Her\u00f3doto ao destino dos estoicos, uma lei \u00e0 qual os pr\u00f3prios deuses est\u00e3o sujeitos, e disso \u00e0 concep\u00e7\u00e3o da Provid\u00eancia, que aparece na antiguidade tardia como sabedoria que governa o mundo; dessa provid\u00eancia pag\u00e3 novamente ao cristianismo, que \u00e9 justi\u00e7a divina, prepara\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica e cuidado educativo da ra\u00e7a humana, e assim por diante, at\u00e9 a refinada provid\u00eancia dos te\u00f3logos, que geralmente exclui a interven\u00e7\u00e3o divina e opera por meio de causas secund\u00e1rias, at\u00e9 a de Vico, que opera como dial\u00e9tica do esp\u00edrito, at\u00e9 a Ideia de Hegel, que \u00e9 a conquista gradual da consci\u00eancia de si, que a liberdade alcan\u00e7a ao longo da hist\u00f3ria, at\u00e9 chegarmos finalmente \u00e0 mitologia do progresso e da civiliza\u00e7\u00e3o, que ainda persiste e supostamente tende \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o final de preconceitos e supersti\u00e7\u00f5es, a ser realizada por meio do aumento do poder e da divulga\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia positiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, a \u201cfilosofia da hist\u00f3ria\u201d e o determinismo hist\u00f3rico \u00e0s vezes alcan\u00e7am a leveza e a transpar\u00eancia de um v\u00e9u, que cobre e ao mesmo tempo revela a concretude do real no pensamento. As causas mec\u00e2nicas aparecem assim idealizadas, as divindades transcendentes humanizadas e os fatos s\u00e3o em grande parte despojados de seu aspecto brutal. Mas, por mais fino que seja o v\u00e9u, ele continua sendo um v\u00e9u, e por mais clara que seja a verdade, ela n\u00e3o \u00e9 totalmente clara, pois no fundo persiste a falsa persuas\u00e3o de que a hist\u00f3ria \u00e9 constru\u00edda com o \u201cmaterial\u201d de fatos brutos, com o \u201ccimento\u201d das causas e com a \u201cmagia\u201d dos fins, como se fossem tr\u00eas m\u00e9todos sucessivos ou concorrentes. O mesmo ocorre com a religi\u00e3o, que nas mentes elevadas se liberta quase completamente das cren\u00e7as vulgares, assim como sua \u00e9tica se liberta da heteronomia do comando divino e do utilitarismo de recompensas e puni\u00e7\u00f5es. Quase completamente, mas n\u00e3o totalmente, e por essa raz\u00e3o a religi\u00e3o nunca ser\u00e1 filosofia, exceto negando a si mesma, e assim a \u201cfilosofia da hist\u00f3ria\u201d e o determinismo hist\u00f3rico se tornar\u00e3o hist\u00f3ria apenas negando a si mesmos. A raz\u00e3o \u00e9 que, enquanto procedem de maneira positiva, o dualismo tamb\u00e9m persistir\u00e1, e com ele o tormento do ceticismo e do agnosticismo como consequ\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A nega\u00e7\u00e3o da filosofia da hist\u00f3ria, na hist\u00f3ria compreendida concretamente, \u00e9 sua dissolu\u00e7\u00e3o ideal, e como essa chamada filosofia \u00e9 nada mais do que um momento abstrato e negativo, fica claro por que afirmamos que a filosofia da hist\u00f3ria est\u00e1 morta. Ela est\u00e1 morta em sua positividade, morta como um corpo de doutrina, morta desse modo, juntamente com as outras concep\u00e7\u00f5es e formas do transcendental. N\u00e3o desejo acrescentar \u00e0 minha breve (mas, em minha opini\u00e3o, suficiente) exposi\u00e7\u00e3o do argumento uma explica\u00e7\u00e3o que para alguns parecer\u00e1 (como para mim) pouco filos\u00f3fica e at\u00e9 um tanto trivial. No entanto, preferindo o risco de um equ\u00edvoco ao da semi trivialidade, acrescentarei que, uma vez que a cr\u00edtica dos \u201cconceitos\u201d de causa e finalidade transcendental n\u00e3o pro\u00edbe o uso dessas \u201cpalavras\u201d, quando s\u00e3o palavras simples (falar, por exemplo, de maneira imaginativa sobre a liberdade como uma deusa, ou dizer, ao come\u00e7ar um estudo sobre Dante, que nossa inten\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201cbuscar a causa\u201d ou \u201ccausas\u201d dessa ou daquela obra ou ato dele), nada impede que continuemos a falar de \u201cfilosofia da hist\u00f3ria\u201d e filosofar a hist\u00f3ria, significando a necessidade de tratar ou de um melhor tratamento desse ou daquele problema hist\u00f3rico. Nada tamb\u00e9m impede que chamemos as pesquisas da gnoseologia hist\u00f3rica de \u201cfilosofia da hist\u00f3ria\u201d, embora nesse caso estejamos tratando de filosofia, n\u00e3o propriamente da hist\u00f3ria, mas da historiografia, duas coisas que costumam ser designadas com a mesma palavra em italiano e em outras l\u00ednguas. Tamb\u00e9m n\u00e3o desejamos impedir a afirma\u00e7\u00e3o (como fez um professor alem\u00e3o h\u00e1 alguns anos) de que a \u201cfilosofia da hist\u00f3ria\u201d deve ser tratada como \u201csociologia\u201d \u2013 ou seja, o adorno com esse antigo t\u00edtulo da chamada sociologia, a ci\u00eancia emp\u00edrica do estado, da sociedade e da cultura.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas denomina\u00e7\u00f5es s\u00e3o todas permitidas em virtude do mesmo direito invocado pelo aventureiro Casanova quando compareceu perante os magistrados para se justificar por ter mudado seu nome \u2013 \u201co direito de todo homem \u00e0s letras do alfabeto\u201d. Mas a quest\u00e3o tratada acima n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de letras do alfabeto. A \u201cfilosofia da hist\u00f3ria\u201d, da qual mostramos brevemente a g\u00eanese e a dissolu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 uma que seja usada em v\u00e1rios sentidos, mas um modo muito definido de conceber a hist\u00f3ria \u2013 o modo transcendental.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> \u201cAqui termina a pesquisa: encontrou-se alguma disposi\u00e7\u00e3o primitiva, algum tra\u00e7o pr\u00f3prio de todas as sensa\u00e7\u00f5es, de todas as concep\u00e7\u00f5es de uma \u00e9poca ou de uma ra\u00e7a, alguma particularidade insepar\u00e1vel de todos os procedimentos de sua mente e cora\u00e7\u00e3o. Essas s\u00e3o as grandes causas, as causas universais e permanentes.\u201d (N. T.)<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Veja, por exemplo, o trabalho de Flint; mas, menos radical que Flint, Hegel e os hegelianos tamb\u00e9m acabaram por admitir a converg\u00eancia dos dois m\u00e9todos opostos, tra\u00e7os dessa pervers\u00e3o tamb\u00e9m podem ser encontrados em suas \u201cfilosofias da hist\u00f3ria\u201d. Aqui, tamb\u00e9m deve ser observada a falsa analogia que levou Hegel a descobrir a mesma rela\u00e7\u00e3o entre fatos <em>a priori<\/em> e hist\u00f3ricos como entre a matem\u00e1tica e fatos naturais: Man muss mit dem Kreise dessen, worin die Prinzipien fallen, wenn man es so nennen will, a priori vertraut sein, so gut als Kepler mit den Ellipsen, mit Kuben und Quadraten und mit den Gedanken von Verh\u00e4ltnissen derselben a priori schon vorher bekannt sein musste, ehe er aus den empirischen Daten seine unsterblichen Gesetze, welche aus Bestimmungen jener Kreise von Vorstellungen bestehen, erfinden konnte. (Cf. Vorles. \u00fcb. d. Philos, d. Gesch., ed. Brunst\u00e4d, pp. 107-108.)<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> Nem mesmo Flint, mencionado acima, conseguiu faz\u00ea-lo, pois ele se perdeu em preliminares de documenta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e nunca passou para a prometida constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea ir\u00e1 ler a seguir um trecho da obra &#8220;Teoria e Hist\u00f3ria da Historiografia&#8221; de Benedetto Croce. Caso tenha interesse em adquirir a obra, ou deseje mais informa\u00e7\u00f5es, clique na capa do livro. IV. G\u00eanese ideal e dissolu\u00e7\u00e3o da \u201cfilosofia da hist\u00f3ria\u201d I A concep\u00e7\u00e3o da chamada \u201cfilosofia da hist\u00f3ria\u201d\u2026<\/p>\n<p class=\"continue-reading-button\"> <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2022\/10\/14\/teoria-e-historia-da-historiografia\/\">Leia mais<i class=\"crycon-right-dir\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":603,"comment_status":"closed","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[37,5],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/803"}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=803"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/803\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":804,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/803\/revisions\/804"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/603"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=803"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=803"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=803"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}