{"id":898,"date":"2024-04-03T12:48:50","date_gmt":"2024-04-03T12:48:50","guid":{"rendered":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=898"},"modified":"2024-04-03T12:49:55","modified_gmt":"2024-04-03T12:49:55","slug":"aspectos-estilisticos-da-literatura-primitiva-por-franz-boas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2024\/04\/03\/aspectos-estilisticos-da-literatura-primitiva-por-franz-boas\/","title":{"rendered":"Aspectos estil\u00edsticos da literatura primitiva, por Franz Boas"},"content":{"rendered":"\n<p>Voc\u00ea ir\u00e1 ler, a seguir, um trecho da obra &#8220;Ra\u00e7a, Linguagem e Cultura: Volume II&#8221;, por Franz Boas. Caso deseje saber mais sobre o livro, ou adquirir a obra, clique na capa abaixo.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"231\" height=\"328\" src=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/boas-capa-cultura.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-596\" srcset=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/boas-capa-cultura.jpg 231w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/boas-capa-cultura-211x300.jpg 211w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/boas-capa-cultura-106x150.jpg 106w\" sizes=\"(max-width: 231px) 100vw, 231px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"> <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><a>Aspectos estil\u00edsticos da literatura primitiva<\/a><a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/h1>\n\n\n\n<p>Nas pr\u00f3ximas p\u00e1ginas, proponho discutir em que medida caracter\u00edsticas mentais gerais explicam o desenvolvimento da poesia e da arte narrativa, e em que medida condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas especiais exerceram uma influ\u00eancia importante.<\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, pode-se apontar que as duas formas fundamentais, m\u00fasica e conto, s\u00e3o encontradas entre todos os povos do mundo e devem ser consideradas as formas prim\u00e1rias de atividade liter\u00e1ria. N\u00e3o \u00e9 preciso mencionar especificamente que a poesia primitiva n\u00e3o ocorre sem m\u00fasica e que frequentemente \u00e9 acompanhada por gestos expressivos ou dan\u00e7a. Portanto, \u00e9 mais correto falar de m\u00fasica do que de poesia.<\/p>\n\n\n\n<p>Para dar maior precis\u00e3o ao nosso problema, devemos destacar uma diferen\u00e7a importante entre a prosa moderna e a prosa primitiva. A forma da prosa moderna \u00e9 amplamente determinada pelo fato de ser lida, n\u00e3o falada, enquanto a prosa primitiva se baseia na arte da entrega oral e, portanto, est\u00e1 mais relacionada \u00e0 orat\u00f3ria moderna do que ao estilo liter\u00e1rio impresso. A diferen\u00e7a estil\u00edstica entre as duas formas \u00e9 consider\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisa da narrativa primitiva, bem como da poesia, comprova que a repeti\u00e7\u00e3o, especialmente a repeti\u00e7\u00e3o r\u00edtmica, \u00e9 uma caracter\u00edstica fundamental. Toda narrativa em prosa consiste em parte de elementos livres, cuja forma depende do gosto e da habilidade do narrador. Entre essas passagens, encontramos outras de forma fixa, que conferem \u00e0 narrativa, em grande parte, seu atrativo formal. Com frequ\u00eancia, essas passagens consistem em conversas entre os personagens, nas quais n\u00e3o \u00e9 permitida a diverg\u00eancia da f\u00f3rmula fixa. Em outros casos, elas possuem forma r\u00edtmica e devem ser consideradas poesia ou c\u00e2nticos, em vez de prosa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 muito dif\u00edcil obter uma compreens\u00e3o correta das formas da prosa primitiva, porque a maioria do material dispon\u00edvel foi registrado apenas em l\u00ednguas europeias, e \u00e9 imposs\u00edvel determinar a precis\u00e3o da transcri\u00e7\u00e3o. Na maioria dos registros, h\u00e1 uma clara tentativa de adotar o estilo liter\u00e1rio europeu. Mesmo quando o material est\u00e1 dispon\u00edvel no texto original, podemos presumir que, pelo menos na maioria dos casos, n\u00e3o alcan\u00e7a o padr\u00e3o de excel\u00eancia da narrativa nativa. A dificuldade de transcri\u00e7\u00e3o fon\u00e9tica de l\u00ednguas estrangeiras requer lento trabalho de ditado, o que inevitavelmente prejudica o estilo art\u00edstico. O n\u00famero de coletores que t\u00eam pleno dom\u00ednio da l\u00edngua nativa \u00e9 muito pequeno. A melhor aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0 arte narrativa dos povos primitivos provavelmente est\u00e1 nos casos em que nativos educados transcrevem os textos ou nos registros feitos por mission\u00e1rios que, em longos anos de contato pessoal e \u00edntimo com o povo, adquiriram completo dom\u00ednio de sua l\u00edngua e est\u00e3o dispostos a nos dar exatamente o que ouvem.<\/p>\n\n\n\n<p>Em quase todas as cole\u00e7\u00f5es confi\u00e1veis, as partes formalmente fixas t\u00eam consider\u00e1vel import\u00e2ncia. Em poucos casos, como entre os Wailaki da Calif\u00f3rnia, o texto conectivo desaparece quase completamente.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil formar uma opini\u00e3o correta sobre o car\u00e1ter r\u00edtmico da prosa formal; em parte porque o senso r\u00edtmico das pessoas primitivas \u00e9 muito mais desenvolvido do que o nosso. A simplifica\u00e7\u00e3o do ritmo da m\u00fasica folcl\u00f3rica moderna e da poesia destinada a agradar ao gosto popular embotou nossa percep\u00e7\u00e3o da forma r\u00edtmica. \u00c9 necess\u00e1rio um estudo cuidadoso para entender a estrutura do ritmo primitivo, mais ainda na prosa do que na m\u00fasica, porque, neste caso, falta o aux\u00edlio do padr\u00e3o mel\u00f3dico.<\/p>\n\n\n\n<p>Acredito que o gosto pela repeti\u00e7\u00e3o frequente de motivos isolados se deve em parte ao prazer proporcionado pela repeti\u00e7\u00e3o r\u00edtmica. Por exemplo, os contos dos ind\u00edgenas Chinook s\u00e3o sempre constru\u00eddos de forma que cinco irm\u00e3os, um ap\u00f3s o outro, tenham a mesma aventura. Os quatro mais velhos perecem enquanto o mais novo tem sucesso. O conto \u00e9 repetido literalmente para todos os irm\u00e3os, e seu comprimento, que para nosso ouvido e nosso gosto \u00e9 intoler\u00e1vel, provavelmente proporciona prazer pela forma repetida. As condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o bastante semelhantes nos contos de fadas europeus relacionados aos destinos de tr\u00eas irm\u00e3os, dois dos quais perecem ou falham em suas tarefas, enquanto o mais jovem tem sucesso. Repeti\u00e7\u00f5es similares s\u00e3o encontradas no conto alem\u00e3o de Chapeuzinho Vermelho, na hist\u00f3ria amplamente difundida na Europa do galo que vai enterrar sua companheira ou na hist\u00f3ria dos tr\u00eas ursos. Nos contos orientais, os incidentes do conto s\u00e3o \u00e0s vezes repetidos literalmente, sendo contados por um dos her\u00f3is.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns exemplos adicionais retirados das narrativas de povos estrangeiros ilustrar\u00e3o a ocorr\u00eancia geral da tend\u00eancia \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o. No conto Basuto chamado Kumonngoe, um homem leva sua filha para a selva onde ela ser\u00e1 devorada por um canibal. No caminho, ele encontra tr\u00eas animais e o filho de um chefe. Em cada caso, segue-se a mesma conversa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPara onde voc\u00ea est\u00e1 levando sua filha?\u201d \u2013 \u201cPergunte a ela mesma, ela j\u00e1 \u00e9 adulta.\u201d Ela responde:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu dei a Hlabakoane Kumonngoe<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>,<\/p>\n\n\n\n<p>Ao rebanho de nossas vacas Kumonngoe<\/p>\n\n\n\n<p>Eu pensei que nossas vacas iriam ficar no curral, Kumonngoe,<\/p>\n\n\n\n<p>E assim eu dei a ele o Kumonngoe do meu pai\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um conto Omaha sobre um Homem-Cobra, \u00e9 relatado que um homem foge de uma serpente. Tr\u00eas ajudantes em sequ\u00eancia d\u00e3o a ele mocassins que na manh\u00e3 seguinte retornam por conta pr\u00f3pria aos seus donos, e toda vez a mesma conversa \u00e9 repetida. Quando a serpente parte em persegui\u00e7\u00e3o, ela pergunta a todos os animais por informa\u00e7\u00f5es com exatamente as mesmas palavras. Em uma tradi\u00e7\u00e3o dos Kwakiutl da Ilha de Vancouver, a mesma f\u00f3rmula \u00e9 repetida quarenta vezes juntamente com a descri\u00e7\u00e3o do mesmo cerimonial. Nos contos dos \u00edndios Pueblo, o mesmo incidente \u00e9 repetido quatro vezes, ocorrendo com quatro irm\u00e3s; a menina amarela, vermelha, azul e branca. Em um conto siberiano sobre a Lebre, ouvimos que um ca\u00e7ador se esconde sob os galhos de um salgueiro ca\u00eddo. Uma lebre ap\u00f3s a outra aparece para se alimentar, avista o ca\u00e7ador e foge. Em um conto de Papua, Nova Guin\u00e9, os p\u00e1ssaros v\u00eam um ap\u00f3s o outro e tentam abrir o est\u00f4mago de uma pessoa afogada para que saia a \u00e1gua que ele engoliu. Aparece ainda mais claramente esse tipo de repeti\u00e7\u00e3o em um conto da Nova Irlanda. Os p\u00e1ssaros tentam derrubar o casuar de um galho de \u00e1rvore em que ele est\u00e1 empoleirado. Para conseguir isso, um ap\u00f3s o outro pousa ao lado do casuar no mesmo galho, mas mais perto do tronco. Assim, ele \u00e9 obrigado a se mover cada vez mais para fora at\u00e9 finalmente cair.<\/p>\n\n\n\n<p>As repeti\u00e7\u00f5es r\u00edtmicas em can\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito mais marcantes. As genealogias polin\u00e9sias oferecem um excelente exemplo. Assim, encontramos no Hava\u00ed a seguinte can\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p>Lii-ku-honua, o homem.<\/p>\n\n\n\n<p>Ola-ku-honua, a mulher.<\/p>\n\n\n\n<p>Kumo-honua, o homem.<\/p>\n\n\n\n<p>Lalo-honua, a mulher,<\/p>\n\n\n\n<p>e assim por diante, atrav\u00e9s de dezesseis pares. Ou em uma can\u00e7\u00e3o de ninar dos \u00edndios Kwakiutl:<\/p>\n\n\n\n<p>Quando eu for um homem, serei um ca\u00e7ador.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00d3 pai! Ya ha ha ha. Quando eu for um homem, serei um arpoador. \u00d3 pai! Ya ha ha ha.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando eu for um homem, ent\u00e3o serei um construtor de canoas, \u00f3 pai! Ya ha ha ha.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando eu for um homem, ent\u00e3o serei um carpinteiro, \u00f3 pai! Ya ha ha ha.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando eu for um homem, ent\u00e3o serei um artes\u00e3o, \u00f3 pai! Ya ha ha ha.<\/p>\n\n\n\n<p>Para que n\u00e3o fiquemos necessitados, \u00f3 pai! Ya ha ha ha.<\/p>\n\n\n\n<p>Na can\u00e7\u00e3o Esquim\u00f3 do corvo e dos gansos, o corvo canta:<\/p>\n\n\n\n<p>Oh, estou me afogando, me ajude!<\/p>\n\n\n\n<p>Oh, agora a \u00e1gua alcan\u00e7a meus tornozelos.<\/p>\n\n\n\n<p>Oh, estou me afogando, me ajude!<\/p>\n\n\n\n<p>Oh, agora a \u00e1gua alcan\u00e7a meus joelhos.<\/p>\n\n\n\n<p>e assim por diante, por todas as partes do corpo, at\u00e9 os olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Bastante not\u00e1vel \u00e9 a analogia entre essa can\u00e7\u00e3o e a seguinte can\u00e7\u00e3o de guerra australiana:<\/p>\n\n\n\n<p>Perfure sua testa,<\/p>\n\n\n\n<p>Perfure seu peito,<\/p>\n\n\n\n<p>Perfure seu f\u00edgado,<\/p>\n\n\n\n<p>Perfure seu cora\u00e7\u00e3o etc.<\/p>\n\n\n\n<p>Acredito que esse prazer proporcionado pela repeti\u00e7\u00e3o r\u00edtmica dos mesmos ou de elementos semelhantes, tanto na prosa quanto na poesia, mostra que a teoria de B\u00fccher, segundo a qual todo ritmo \u00e9 derivado dos movimentos que acompanham o trabalho, n\u00e3o pode ser mantida, certamente n\u00e3o em sua totalidade. Wundt deriva o ritmo das can\u00e7\u00f5es usadas em cerim\u00f4nias da dan\u00e7a, e o das can\u00e7\u00f5es de trabalho dos movimentos exigidos na execu\u00e7\u00e3o do trabalho, uma teoria praticamente id\u00eantica \u00e0 proposta por B\u00fccher, uma vez que os movimentos da dan\u00e7a s\u00e3o bastante hom\u00f3logos aos do trabalho. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que o sentimento pelo ritmo \u00e9 fortalecido pela dan\u00e7a e pelos movimentos exigidos na execu\u00e7\u00e3o do trabalho, n\u00e3o apenas no trabalho comum de grupos de indiv\u00edduos que devem tentar manter o ritmo, mas tamb\u00e9m no trabalho industrial, como a cestaria ou a cer\u00e2mica, que requerem movimentos regularmente repetidos em sua execu\u00e7\u00e3o. As repeti\u00e7\u00f5es na narrativa em prosa, assim como os ritmos da arte decorativa, na medida em que n\u00e3o s\u00e3o exigidos pela t\u00e9cnica, s\u00e3o prova da inadequa\u00e7\u00e3o da explica\u00e7\u00e3o puramente t\u00e9cnica. O prazer proporcionado pela repeti\u00e7\u00e3o regular em bordados, pintura e enfiar de contas n\u00e3o pode ser explicado como decorrente de movimentos regulares determinados tecnicamente, e n\u00e3o h\u00e1 indica\u00e7\u00e3o que sugira que esse tipo de ritmo tenha se desenvolvido posteriormente ao determinado pelos h\u00e1bitos motores.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim que entramos nas formas de arte de um \u00fanico grupo cultural, podemos observar que existem caracter\u00edsticas peculiares que n\u00e3o s\u00e3o propriedade comum da humanidade. Isso \u00e9 mais claro em certas formas de vida cultural que se espalham por grandes \u00e1reas sem alcan\u00e7ar uma distribui\u00e7\u00e3o universal. \u00c9 surpreendente que certas formas liter\u00e1rias sejam encontradas entre todas as ra\u00e7as do Velho Mundo, enquanto s\u00e3o pouco conhecidas na Am\u00e9rica. Isso se aplica particularmente ao prov\u00e9rbio. A importante posi\u00e7\u00e3o ocupada pelo prov\u00e9rbio na literatura da \u00c1frica, \u00c1sia e tamb\u00e9m da Europa at\u00e9 tempos bastante recentes \u00e9 bem conhecida. Na \u00c1frica, em particular, encontramos o prov\u00e9rbio em uso constante. Ele \u00e9 at\u00e9 a base das decis\u00f5es judiciais. A import\u00e2ncia do prov\u00e9rbio na Europa \u00e9 ilustrada pela maneira como Sancho Pan\u00e7a o aplica. A literatura asi\u00e1tica tamb\u00e9m \u00e9 rica em ditos proverbiais. Por outro lado, quase nenhum prov\u00e9rbio \u00e9 conhecido entre os \u00edndios americanos.<\/p>\n\n\n\n<p>As mesmas condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o encontradas em rela\u00e7\u00e3o ao enigma, um dos passatempos favoritos do Velho Mundo, que est\u00e1 quase completamente ausente na Am\u00e9rica. Enigmas s\u00e3o conhecidos do rio Yukon, uma regi\u00e3o na qual influ\u00eancias asi\u00e1ticas podem ser encontradas em v\u00e1rios tra\u00e7os culturais, e dos Esquim\u00f3s de Labrador. Em outras partes do continente, a investiga\u00e7\u00e3o cuidadosa n\u00e3o revelou sua ocorr\u00eancia. \u00c9 surpreendente que, mesmo no Novo M\u00e9xico e no Arizona, onde \u00edndios e espanh\u00f3is t\u00eam vivido lado a lado por v\u00e1rios s\u00e9culos e onde a literatura ind\u00edgena est\u00e1 repleta de elementos espanh\u00f3is, o enigma, no entanto, n\u00e3o tenha sido adotado, embora os espanh\u00f3is dessa regi\u00e3o gostem de enigmas como os de outras partes do seu pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Como terceiro exemplo, menciono o desenvolvimento peculiar do conto de animais. Comum a toda a humanidade \u00e9 a f\u00e1bula animal, por meio da qual s\u00e3o explicadas as formas e h\u00e1bitos dos animais, ou as formas dos fen\u00f4menos naturais. A f\u00e1bula moralizante, por outro lado, pertence ao Velho Mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>A distribui\u00e7\u00e3o da poesia \u00e9pica tamb\u00e9m \u00e9 ampla, mas ainda limitada a uma \u00e1rea bastante definida, ou seja, a Europa e uma parte consider\u00e1vel da \u00c1sia Central. Na Am\u00e9rica, conhecemos longas tradi\u00e7\u00f5es tribais conectadas, mas at\u00e9 o momento, nenhum tra\u00e7o de uma composi\u00e7\u00e3o que possa ser chamada de romance ou de uma verdadeira epopeia jamais foi descoberto. As lendas polin\u00e9sias que contam a descend\u00eancia e as fa\u00e7anhas de seus chefes tamb\u00e9m n\u00e3o podem ser consideradas poesia \u00e9pica. A distribui\u00e7\u00e3o dessa forma s\u00f3 pode ser entendida com base na exist\u00eancia de antigas rela\u00e7\u00f5es culturais.<\/p>\n\n\n\n<p>Com base na distribui\u00e7\u00e3o desses tipos, duas conclus\u00f5es podem ser estabelecidas: a primeira \u00e9 que essas formas n\u00e3o s\u00e3o etapas necess\u00e1rias no desenvolvimento da forma liter\u00e1ria, mas ocorrem apenas sob certas condi\u00e7\u00f5es; a segunda \u00e9 que as formas n\u00e3o s\u00e3o determinadas pela ra\u00e7a, mas dependem de acontecimentos hist\u00f3ricos.<\/p>\n\n\n\n<p>Se no momento em que os europeus chegaram ao Novo Mundo a literatura dos americanos n\u00e3o possu\u00eda os tr\u00eas tipos de literatura que mencionamos, isso n\u00e3o significa que eles teriam aparecido em um momento posterior. N\u00e3o temos nenhuma raz\u00e3o para supor que a literatura americana era menos desenvolvida do que a da \u00c1frica. A arte narrativa e po\u00e9tica estava altamente desenvolvida em muitas partes da Am\u00e9rica. Devemos assumir, ao contr\u00e1rio, que as condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas levaram a formas diferentes das do Velho Mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>A distribui\u00e7\u00e3o dessas formas entre europeus, mong\u00f3is, malaios e Negros prova a independ\u00eancia do desenvolvimento liter\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ascend\u00eancia racial. Isso mostra que \u00e9 uma das caracter\u00edsticas da \u00e1rea cultural enormemente estendida, que abrange quase todo o Velho Mundo e que tamb\u00e9m aparece em contraste distinto com o Novo Mundo. Menciono aqui apenas o desenvolvimento de um procedimento judicial formal, baseado na coleta de evid\u00eancias, no juramento e na prova\u00e7\u00e3o, e a aus\u00eancia desse complexo na Am\u00e9rica; e o fraco desenvolvimento na Am\u00e9rica da cren\u00e7a na obsess\u00e3o e no mau-olhado, t\u00e3o amplamente conhecida no Velho Mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas conclus\u00f5es s\u00e3o fortalecidas pelo estudo da literatura de \u00e1reas mais restritas. A investiga\u00e7\u00e3o dos contos de fadas europeus levou \u00e0 conclus\u00e3o de que em conte\u00fado e forma eles abrangem muitas sobreviv\u00eancias de tempos passados. As teorias de Grimm e as vis\u00f5es de Gomme tamb\u00e9m se baseiam nessa opini\u00e3o. \u00c9 evidente que os contos de fadas europeus modernos n\u00e3o refletem as condi\u00e7\u00f5es do estado atual nem as condi\u00e7\u00f5es da nossa vida di\u00e1ria, mas nos d\u00e3o uma imagem imaginativa da vida rural em tempos semifeudais e, devido \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es entre o intelectualismo moderno e a antiga tradi\u00e7\u00e3o rural, ocorrem conflitos de pontos de vista que podem ser interpretados como sobreviv\u00eancias. Nos contos de povos primitivos \u00e9 diferente. Uma an\u00e1lise detalhada dos contos tradicionais de v\u00e1rias tribos ind\u00edgenas mostra completa concord\u00e2ncia das condi\u00e7\u00f5es de vida com aquelas que podem ser abstra\u00eddas dos contos. Cren\u00e7as e costumes na vida e nos contos est\u00e3o em total acordo. Isso \u00e9 verdade n\u00e3o apenas para o material nativo antigo, mas tamb\u00e9m para hist\u00f3rias importadas que foram emprestadas h\u00e1 algum tempo. Elas s\u00e3o rapidamente adaptadas ao modo de vida predominante. A an\u00e1lise dos contos da costa noroeste e dos Pueblos d\u00e1 o mesmo resultado. Somente durante o per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o para novos modos de vida, como os trazidos pelo contato com os europeus, ocorrem contradi\u00e7\u00f5es. Assim acontece que, nos contos de Laguna, um dos Pueblos do Novo M\u00e9xico, o visitante sempre entra pelo telhado da casa, embora as casas modernas tenham portas. O chefe da organiza\u00e7\u00e3o cerimonial desempenha um papel importante em muitos contos, embora a pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o tenha em grande parte desaparecido. Os contos dos \u00edndios das plan\u00edcies ainda falam de ca\u00e7adas de b\u00fafalos, embora a pr\u00e1tica tenha desaparecido e o povo tenha se tornado agricultor e trabalhador.<\/p>\n\n\n\n<p>Seria err\u00f4neo supor que a aus\u00eancia de sobreviv\u00eancias de tempos antigos possa ser explicada pela perman\u00eancia das condi\u00e7\u00f5es, pela falta de mudan\u00e7a hist\u00f3rica. A cultura primitiva \u00e9 um produto do desenvolvimento hist\u00f3rico assim como a civiliza\u00e7\u00e3o moderna. O modo de vida, os costumes e as cren\u00e7as das tribos primitivas n\u00e3o s\u00e3o est\u00e1veis, mas a taxa de mudan\u00e7a, a menos que ocorram perturba\u00e7\u00f5es externas, \u00e9 mais lenta do que entre n\u00f3s. O que falta \u00e9 a estratifica\u00e7\u00e3o social pronunciada de nossos tempos, que faz com que os v\u00e1rios grupos representem, por assim dizer, diferentes per\u00edodos de desenvolvimento. Pelo que sei, o pano de fundo cultural e formal da arte narrativa dos povos primitivos \u00e9 quase totalmente determinado pelo estado cultural atual. As \u00fanicas exce\u00e7\u00f5es s\u00e3o encontradas em per\u00edodos de mudan\u00e7a excepcionalmente r\u00e1pida ou de desintegra\u00e7\u00e3o. No entanto, nesse caso tamb\u00e9m ocorre uma readapta\u00e7\u00e3o. Assim, as hist\u00f3rias dos Negros modernos de Angola refletem a cultura mista da costa oeste da \u00c1frica. No pano de fundo cultural da narrativa, as sobreviv\u00eancias n\u00e3o desempenham um papel importante, pelo menos n\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es normais. A trama pode ser antiga, mas passa por mudan\u00e7as radicais.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas observa\u00e7\u00f5es relacionadas \u00e0 literatura n\u00e3o significam, \u00e9 claro, que em outros aspectos da vida, costumes antigos e cren\u00e7as n\u00e3o possam persistir por longos per\u00edodos.<\/p>\n\n\n\n<p>As diferen\u00e7as da vida cultural, que se refletem na literatura, t\u00eam um efeito de longo alcance n\u00e3o apenas sobre o conte\u00fado, mas tamb\u00e9m sobre a forma da narrativa. Os motivos de a\u00e7\u00e3o s\u00e3o determinados pelo modo de vida e pelos principais interesses do povo, e as tramas nos d\u00e3o uma imagem disso.<\/p>\n\n\n\n<p>Em muitos contos t\u00edpicos dos Chukchee da Sib\u00e9ria, o tema do conto \u00e9 a tirania e a arrog\u00e2ncia dominante de um ca\u00e7ador ou guerreiro atl\u00e9tico e as tentativas dos alde\u00f5es de se libertarem. Entre os Esquim\u00f3s, um grupo de irm\u00e3os frequentemente substitui o valent\u00e3o da aldeia. Entre ambos os grupos de pessoas que vivem em pequenos assentamentos, sem qualquer organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica r\u00edgida, o medo da pessoa mais forte desempenha um papel importante, n\u00e3o importando se seu poder se baseia na for\u00e7a f\u00edsica ou em supostas qualidades sobrenaturais. A hist\u00f3ria geralmente usa um menino fraco e desprezado como salvador da comunidade. Embora contos de chefes autorit\u00e1rios ocorram entre os \u00edndios, eles n\u00e3o s\u00e3o, de forma alguma, um tipo predominante.<\/p>\n\n\n\n<p>O tema principal dos \u00edndios da Col\u00fambia Brit\u00e2nica, cujos pensamentos s\u00e3o quase inteiramente ocupados pelo desejo de obter status e posi\u00e7\u00e3o elevada em sua comunidade, \u00e9 o conto de um homem pobre que alcan\u00e7a uma posi\u00e7\u00e3o elevada ou das lutas entre dois chefes que tentam se superar em feitos que aumentar\u00e3o seu status social. Entre os Blackfeet, o tema principal \u00e9 a aquisi\u00e7\u00e3o de cerim\u00f4nias, cuja posse e pr\u00e1tica s\u00e3o elementos muito importantes em suas vidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Todas essas diferen\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o apenas de conte\u00fado, mas influenciam a forma da narrativa, porque os incidentes s\u00e3o conectados de maneiras diferentes. O mesmo motivo se repete muitas vezes nos contos dos povos primitivos, de modo que uma grande massa de material coletado da mesma tribo pode ser muito mon\u00f3tona e, ap\u00f3s atingir um certo ponto, obtemos apenas novas variantes de temas antigos.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, muito mais fundamentais s\u00e3o as diferen\u00e7as baseadas em uma vis\u00e3o cultural geral diferente. A mesma hist\u00f3ria contada por diferentes tribos pode ter uma apar\u00eancia totalmente diferente. N\u00e3o apenas o cen\u00e1rio \u00e9 distinto, a motiva\u00e7\u00e3o e os pontos principais dos contos s\u00e3o enfatizados de maneiras diferentes por diferentes tribos e adquirem uma colora\u00e7\u00e3o local que s\u00f3 pode ser compreendida em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cultura como um todo. Um exemplo selecionado entre os contos dos \u00edndios da Am\u00e9rica do Norte ilustrar\u00e1 esse ponto. Escolho a hist\u00f3ria do marido estelar, que \u00e9 contada nas pradarias, na Col\u00fambia Brit\u00e2nica e na costa do Atl\u00e2ntico Norte. As tribos das pradarias contam que duas donzelas saem para cavar ra\u00edzes e acampar. Elas veem duas estrelas e desejam se casar com elas. Na manh\u00e3 seguinte, elas se encontram no c\u00e9u casadas com as estrelas. A elas \u00e9 proibido cavar certas ra\u00edzes grandes, mas as jovens desobedecem as ordens de seus maridos e, atrav\u00e9s de um buraco no ch\u00e3o, veem a terra abaixo. Por meio de uma corda, elas descem. A partir daqui, a hist\u00f3ria assume formas distintas em diferentes \u00e1reas geogr\u00e1ficas. Em uma forma, s\u00e3o descritas as aventuras das mulheres ap\u00f3s seu retorno; na outra, as proezas da crian\u00e7a que uma delas carrega. O ponto de vista central da mesma hist\u00f3ria contada pelos \u00edndios da Col\u00fambia Brit\u00e2nica \u00e9 completamente alterado. As meninas de uma aldeia constroem uma casa onde brincam e, um dia, falam sobre as estrelas, como devem ser felizes por poderem ver o mundo inteiro. Na manh\u00e3 seguinte, elas acordam no c\u00e9u, na frente da casa de um grande chefe. A casa \u00e9 lindamente esculpida e pintada. De repente, v\u00e1rios homens aparecem fingindo abra\u00e7ar as meninas, mas as matam sugando seus c\u00e9rebros. Apenas a filha do chefe e sua irm\u00e3 mais nova s\u00e3o salvas. A irm\u00e3 mais velha se torna a esposa do chefe das estrelas. Por fim, o chefe as envia de volta com a promessa de ajud\u00e1-las sempre que precisarem. Elas encontram a aldeia deserta e o chefe das estrelas envia sua casa e as m\u00e1scaras e apitos pertencentes a uma cerim\u00f4nia que se torna propriedade heredit\u00e1ria da fam\u00edlia da mulher. O conto termina com a aquisi\u00e7\u00e3o da casa e da cerim\u00f4nia, assuntos que s\u00e3o quase o \u00fanico interesse na vida dos \u00edndios. Dessa forma, a hist\u00f3ria se torna uma das longas s\u00e9ries de contos de import\u00e2ncia semelhante, embora o conte\u00fado perten\u00e7a a um grupo totalmente distinto.<\/p>\n\n\n\n<p>Como segundo exemplo, menciono a hist\u00f3ria de Eros e Psiqu\u00ea, que foi moldada de forma diferente pelos \u00edndios Pueblo. Aqui, a ant\u00edlope aparece na forma de uma donzela. Ela se casa com um jovem a quem \u00e9 proibido ver a garota. Ele transgride essa ordem e, \u00e0 luz de uma vela, a v\u00ea enquanto ela est\u00e1 dormindo. Imediatamente, a garota e a casa desaparecem e o jovem se encontra na lama de uma ant\u00edlope.<\/p>\n\n\n\n<p>As transforma\u00e7\u00f5es das hist\u00f3rias b\u00edblicas tamb\u00e9m s\u00e3o instrutivas na boca dos nativos. A Dra. Benedict e o Dr. Parsons registraram uma hist\u00f3ria de natividade dos Zuni em que Jesus aparece como uma garota, filha do sol. Ap\u00f3s o nascimento da crian\u00e7a, os animais dom\u00e9sticos a lambem, apenas a mula se recusa a faz\u00ea-lo e \u00e9 punida com a esterilidade. Toda a hist\u00f3ria foi apresentada de uma nova perspectiva. Ela \u00e9 feita para explicar a fertilidade dos animais e conta como a fertilidade pode ser aumentada, um pensamento predominante nas mentes dos Pueblos.<\/p>\n\n\n\n<p>De outras maneiras, o interesse da tribo tamb\u00e9m se reflete no car\u00e1ter de sua literatura. Um povo que aprecia a beleza a expressar\u00e1 na forma de sua narrativa. Isso explica a diferen\u00e7a de estilo entre alguns contos polin\u00e9sios, com suas descri\u00e7\u00f5es altamente coloridas, e a aridez de muitas tradi\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas; ou a relativa riqueza dos contos dos Tsimshianos em contraste com os das tribos do Planalto. Deixe-me dar alguns exemplos que ilustram esses pontos. Na cole\u00e7\u00e3o de contos havaianos de Fornander, lemos: \u201cEles admiraram a beleza de sua apar\u00eancia. Sua pele era como uma banana madura. As pupilas de seus olhos eram como os brotos jovens de uma banana. Seu corpo era reto e sem defeitos e ele n\u00e3o tinha igual.\u201d Na hist\u00f3ria de Laieikawai, diz-se: \u201cEu n\u00e3o sou a senhora desta praia. Eu venho do interior, do topo da montanha que est\u00e1 vestida com uma roupa branca.\u201d Seria uma tarefa v\u00e3 procurar passagens semelhantes na literatura de muitas tribos.<\/p>\n\n\n\n<p>Descri\u00e7\u00f5es e met\u00e1foras po\u00e9ticas aparecem com mais frequ\u00eancia em can\u00e7\u00f5es. No entanto, elas tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o encontradas em todos os lugares. As can\u00e7\u00f5es dos \u00edndios do Sudoeste sugerem que os fen\u00f4menos da natureza impressionaram profundamente o poeta; mas devemos lembrar que a maioria das met\u00e1foras e termos descritivos s\u00e3o determinados ceremonialmente. Como exemplo, dou a seguinte can\u00e7\u00e3o do povo Navajo<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a>:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPelo caminho marcado com p\u00f3len, posso caminhar,<\/p>\n\n\n\n<p>Com gafanhotos ao redor dos meus p\u00e9s, posso caminhar,<\/p>\n\n\n\n<p>Com orvalho ao redor dos meus p\u00e9s, posso caminhar,<\/p>\n\n\n\n<p>Com beleza, posso caminhar,<\/p>\n\n\n\n<p>Com beleza diante de mim, posso caminhar,<\/p>\n\n\n\n<p>Com beleza atr\u00e1s de mim, posso caminhar,<\/p>\n\n\n\n<p>Com beleza acima de mim, posso caminhar,<\/p>\n\n\n\n<p>Com beleza abaixo de mim, posso caminhar,<\/p>\n\n\n\n<p>Com beleza ao meu redor, posso caminhar,<\/p>\n\n\n\n<p>Na velhice, vagando por um caminho de beleza, animadamente, posso caminhar,<\/p>\n\n\n\n<p>Na velhice, vagando por um caminho de beleza, vivendo novamente, posso caminhar.<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1 completo em beleza.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>De car\u00e1ter semelhante \u00e9 a seguinte can\u00e7\u00e3o do povo Apache<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a>: \u201cNo leste, onde a \u00e1gua preta se encontra, est\u00e1 o grande milho, com ra\u00edzes firmes, seu grande caule, seu fio vermelho, suas folhas longas, seu pend\u00e3o escuro e expansivo, sobre o qual h\u00e1 o orvalho. No p\u00f4r do sol, onde a \u00e1gua amarela se encontra, est\u00e1 a grande ab\u00f3bora com suas gavinhas, seu caule longo, suas folhas largas, sua parte superior amarela sobre a qual h\u00e1 p\u00f3len.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A seguinte can\u00e7\u00e3o dos Pima tamb\u00e9m tem significado cerimonial<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a>:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAgora o vento come\u00e7a a cantar;<\/p>\n\n\n\n<p>Agora o vento come\u00e7a a cantar.<\/p>\n\n\n\n<p>A terra se estende diante de mim,<\/p>\n\n\n\n<p>Diante de mim se estende.<\/p>\n\n\n\n<p>A casa do vento agora est\u00e1 trovejando;<\/p>\n\n\n\n<p>A casa do vento agora est\u00e1 trovejando.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu vou rugindo pela terra,<\/p>\n\n\n\n<p>A terra coberta de trov\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelas montanhas ventosas;<\/p>\n\n\n\n<p>Pelas montanhas ventosas,<\/p>\n\n\n\n<p>Veio o vento de pernas in\u00fameras.<\/p>\n\n\n\n<p>O vento veio correndo para c\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>A Serpente Negra do Vento veio at\u00e9 mim;<\/p>\n\n\n\n<p>A Serpente Negra do Vento veio at\u00e9 mim.<\/p>\n\n\n\n<p>Veio e se envolveu,<\/p>\n\n\n\n<p>Veio aqui correndo com sua can\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A conhecida can\u00e7\u00e3o dos Esquim\u00f3s que descreve a beleza da natureza \u00e9 bem conhecida:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO grande monte Kunak l\u00e1 no sul, eu o vejo;<\/p>\n\n\n\n<p>O grande monte Kunak l\u00e1 no sul, eu o observo;<\/p>\n\n\n\n<p>O brilho radiante l\u00e1 no sul, eu contemplo.<\/p>\n\n\n\n<p>Fora de Kunak ele est\u00e1 se expandindo,<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo que Kunak em dire\u00e7\u00e3o ao litoral est\u00e1 completamente cercado.<\/p>\n\n\n\n<p>Veja, l\u00e1 no sul eles mudam e se transformam.<\/p>\n\n\n\n<p>Veja, l\u00e1 no sul eles tendem a se embelezar mutuamente,<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto do litoral eles s\u00e3o envolvidos em len\u00e7\u00f3is que ainda mudam,<\/p>\n\n\n\n<p>Do litoral envolvidos em embelezamento m\u00fatuo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Diferen\u00e7as importantes tamb\u00e9m s\u00e3o encontradas na tend\u00eancia de unir epis\u00f3dios isolados a uma unidade mais complexa. Em alguns povos, os epis\u00f3dios s\u00e3o breves e aned\u00f3ticos; em outros, h\u00e1 um desejo de uma estrutura mais complexa. Frequentemente, isso \u00e9 alcan\u00e7ado pelo dispositivo simples de concentrar todas as anedotas em torno de um \u00fanico personagem. Mas, em outros casos, h\u00e1 um esfor\u00e7o para estabelecer uma conex\u00e3o interna entre os contos. Assim, os contos do corvo na Sib\u00e9ria e no Alasca est\u00e3o, em sua maioria, conectados apenas pela individualidade do corvo e por sua voracidade. No sul da Col\u00fambia Brit\u00e2nica, alguns elementos desses contos foram trazidos para uma conex\u00e3o interna: o P\u00e1ssaro trov\u00e3o rouba uma mulher. Para recuper\u00e1-la, o corvo faz uma baleia de madeira e mata a goma porque ele precisa dela para calafetar a baleia. Em outro conto, o assassinato da goma \u00e9 a introdu\u00e7\u00e3o a uma visita ao c\u00e9u. Os filhos da goma assassinada ascendem ao c\u00e9u para se vingar. Entre os \u00edndios Pueblo, um grande n\u00famero de incidentes isolados \u00e9 combinado em um conto de origem conectado.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se deve presumir que o estilo liter\u00e1rio de um povo seja uniforme; as formas s\u00e3o frequentemente bastante variadas. A unidade de estilo tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 encontrada na arte decorativa, pois muitos casos podem ser citados em que diferentes estilos s\u00e3o usados em diferentes ind\u00fastrias ou entre diferentes grupos da popula\u00e7\u00e3o. Da mesma forma, encontramos em uma tribo contos complexos que t\u00eam coes\u00e3o estrutural definida, e anedotas breves; alguns contados com um evidente prazer em detalhes difusos, outros quase reduzidos a uma f\u00f3rmula. Um exemplo disso s\u00e3o as hist\u00f3rias longas e as f\u00e1bulas animais dos Esquim\u00f3s. As primeiras tratam de eventos que ocorrem na sociedade humana, de viagens aventureiras, de encontros com monstros e seres sobrenaturais, de feitos de xam\u00e3s. S\u00e3o contos novel\u00edsticos. Por outro lado, muitas das f\u00e1bulas animais s\u00e3o meras f\u00f3rmulas. Contrastantes semelhantes s\u00e3o encontrados nos contos e f\u00e1bulas dos Negros.<\/p>\n\n\n\n<p>Os estilos das can\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m variam consideravelmente de acordo com a ocasi\u00e3o para a qual s\u00e3o compostas. Entre os Kwakiutl, encontramos longas can\u00e7\u00f5es em que a grandeza dos ancestrais \u00e9 descrita na forma de recitativos. Em festivais religiosos, s\u00e3o usadas can\u00e7\u00f5es de estrutura r\u00edtmica r\u00edgida, acompanhando dan\u00e7as. Nessas can\u00e7\u00f5es, as mesmas palavras ou s\u00edlabas s\u00e3o faladas repetidamente, exceto que outro nome para o ser sobrenatural em cuja honra \u00e9 cantada \u00e9 introduzido em cada nova estrofe. Novamente, de um tipo diferente s\u00e3o as can\u00e7\u00f5es de amor, que de forma alguma s\u00e3o raras.<\/p>\n\n\n\n<p>Descobrimos que as literaturas de todos os povos sobre os quais temos informa\u00e7\u00f5es compartilham uma caracter\u00edstica, a forma r\u00edtmica; no entanto, em detalhes, h\u00e1 grandes varia\u00e7\u00f5es; particularmente, algumas formas liter\u00e1rias, como o prov\u00e9rbio e o enigma, que nos parecem os produtos mais naturais da atividade liter\u00e1ria, de forma alguma s\u00e3o universais.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Journal of American Folk-Lore, vol. 38 (1925), pp. 329- 339.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> A menina tinha um irm\u00e3o chamado Hlabakoane, a quem ela havia dado um alimento m\u00e1gico, chamado Kumonngoe, que pertencia a seu pai e que a menina estava proibida de tocar.<\/p>\n\n\n\n<p><a id=\"_ftn3\" href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a> Washington Matthews, \u201cNavaho Myths, Prayers and Songs,\u201d University of California Publications, vol. 5, p. 48, linhas 61-73.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> P. E. Goddard, \u201cMyths and Tales from the White Mountain Apache,\u201d Anthropological Papers of the American Museum of Natural History, vol. 24 (1910), p. 131.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> Henry Rink, Tales and Traditions of the Eskimos (Londres, 1875), p. 68.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea ir\u00e1 ler, a seguir, um trecho da obra &#8220;Ra\u00e7a, Linguagem e Cultura: Volume II&#8221;, por Franz Boas. Caso deseje saber mais sobre o livro, ou adquirir a obra, clique na capa abaixo. Aspectos estil\u00edsticos da literatura primitiva[1] Nas pr\u00f3ximas p\u00e1ginas, proponho discutir em que medida caracter\u00edsticas mentais gerais explicam\u2026<\/p>\n<p class=\"continue-reading-button\"> <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2024\/04\/03\/aspectos-estilisticos-da-literatura-primitiva-por-franz-boas\/\">Leia mais<i class=\"crycon-right-dir\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":595,"comment_status":"closed","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[39,5],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/898"}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=898"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/898\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":900,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/898\/revisions\/900"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/595"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=898"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=898"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=898"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}