{"id":905,"date":"2023-08-04T17:19:00","date_gmt":"2023-08-04T17:19:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=905"},"modified":"2024-04-04T17:22:10","modified_gmt":"2024-04-04T17:22:10","slug":"algumas-criticas-recentes-a-antropologia-fisica-franz-boas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2023\/08\/04\/algumas-criticas-recentes-a-antropologia-fisica-franz-boas\/","title":{"rendered":"&#8220;Algumas cr\u00edticas recentes \u00e0 antropologia f\u00edsica&#8221;, Franz Boas"},"content":{"rendered":"\n<p>Voc\u00ea ir\u00e1 ler, a seguir, um trecho da obra &#8220;Ra\u00e7a, Linguagem e Cultura: Volume I&#8221;, de Franz Boas. Caso deseje saber mais sobre a obra e como adquiri-la, clique na capa do livro.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/raca-linguagem-e-cultura\/\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"231\" height=\"328\" src=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/boas-capa-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-595\" srcset=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/boas-capa-3.jpg 231w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/boas-capa-3-211x300.jpg 211w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/boas-capa-3-106x150.jpg 106w\" sizes=\"(max-width: 231px) 100vw, 231px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\"> <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><a>Algumas cr\u00edticas recentes \u00e0 antropologia f\u00edsica<\/a><a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/h1>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos anos, foram feitos diversos ataques severos aos m\u00e9todos da antropologia f\u00edsica, que s\u00e3o dirigidos principalmente contra dois pontos: (1) a possibilidade de classificar a humanidade de acordo com caracter\u00edsticas anat\u00f4micas e (2) a viabilidade da descri\u00e7\u00e3o de tipos por meio de medi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de tentarmos responder a essas cr\u00edticas, pode ser \u00fatil fazer algumas observa\u00e7\u00f5es breves sobre o desenvolvimento dos m\u00e9todos da antropologia f\u00edsica. Os representantes vivos das v\u00e1rias ra\u00e7as humanas foram originalmente descritos de acordo com sua apar\u00eancia geral \u2013 a cor da pele, a forma e cor do cabelo, a forma do rosto etc. Posteriormente, essa descri\u00e7\u00e3o geral foi complementada pelo estudo dos esqueletos de v\u00e1rias ra\u00e7as, e foram observadas v\u00e1rias diferen\u00e7as aparentemente caracter\u00edsticas. Uma das principais raz\u00f5es que levaram a um estudo mais detalhado do esqueleto e a uma tend\u00eancia de enfatizar ao m\u00e1ximo as caracter\u00edsticas do esqueleto foi a facilidade com que se podia obter material desse tipo. Visitantes de pa\u00edses distantes costumam trazer esqueletos e partes de esqueletos para casa, enquanto n\u00e3o h\u00e1 muita oportunidade de examinar minuciosamente um n\u00famero consider\u00e1vel de indiv\u00edduos de ra\u00e7as estrangeiras. A dificuldade de obter material relacionado \u00e0 anatomia das partes moles do corpo teve o efeito de que essa parte da descri\u00e7\u00e3o da anatomia humana recebeu pouca aten\u00e7\u00e3o. Em casos comparativamente poucos, tivemos a oportunidade de realizar um estudo minucioso das caracter\u00edsticas das partes moles do corpo de indiv\u00edduos pertencentes a ra\u00e7as estrangeiras. O desejo de encontrar caracter\u00edsticas espec\u00edficas boas no esqueleto tamb\u00e9m foi estimulado pela necessidade de estudar ra\u00e7as extintas. As condi\u00e7\u00f5es nesses casos s\u00e3o as mesmas encontradas nos estudos paleontol\u00f3gicos, onde apenas os restos \u00f3sseos de esp\u00e9cies extintas est\u00e3o dispon\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>As pesquisas sobre a hist\u00f3ria mais antiga do homem devem se basear em estudos do esqueleto.<\/p>\n\n\n\n<p>Os estudos do esqueleto humano n\u00e3o haviam avan\u00e7ado muito quando se constatou que n\u00e3o era t\u00e3o f\u00e1cil determinar as caracter\u00edsticas raciais com precis\u00e3o suficiente apenas por descri\u00e7\u00e3o verbal. Isso levou \u00e0 introdu\u00e7\u00e3o de medidas como substituto da descri\u00e7\u00e3o verbal. Com o aumento do material, a necessidade de descri\u00e7\u00e3o precisa tornou-se cada vez mais evidente, pois foram encontrados elos intermedi\u00e1rios entre formas existentes com maior frequ\u00eancia. Essas condi\u00e7\u00f5es levaram a uma aplica\u00e7\u00e3o muito extensa do m\u00e9todo m\u00e9trico no estudo do esqueleto humano e tamb\u00e9m no estudo da forma externa dos seres vivos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os resultados dos estudos minuciosos realizados dessa maneira parecem desanimadores para muitos estudiosos, porque n\u00e3o fomos capazes de encontrar nenhum crit\u00e9rio pelo qual seja poss\u00edvel distinguir com certeza um esqueleto de uma determinada ra\u00e7a de um esqueleto pertencente a outra ra\u00e7a, exceto de maneira muito geral. Um negro t\u00edpico de sangue puro pode ser distinguido de um homem branco, e um \u00edndio da Fl\u00f3rida de um esquim\u00f3, mas seria dif\u00edcil distinguir o esqueleto de um chin\u00eas do de certos \u00edndios norte-americanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa falta de caracter\u00edsticas descritivas individuais definidas levou muitos pesquisadores a concluir que o m\u00e9todo est\u00e1 equivocado e que o esqueleto n\u00e3o pode ser usado como base satisfat\u00f3ria para a classifica\u00e7\u00e3o da humanidade. Essa vis\u00e3o foi refor\u00e7ada pela cren\u00e7a, frequentemente expressa, de que as caracter\u00edsticas de cada ra\u00e7a n\u00e3o s\u00e3o est\u00e1veis, mas s\u00e3o influenciadas em grande medida pelo ambiente, tanto geogr\u00e1fico quanto social.<\/p>\n\n\n\n<p>Parece-me que essas opini\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o comprovadas pelas observa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis. A primeira obje\u00e7\u00e3o, que se baseia na falta de caracter\u00edsticas t\u00edpicas no indiv\u00edduo, n\u00e3o leva em considera\u00e7\u00e3o o fato de que o estudo antropol\u00f3gico n\u00e3o \u00e9 um estudo de indiv\u00edduos, mas de variedades locais ou sociais. Embora possa ser imposs\u00edvel classificar satisfatoriamente um indiv\u00edduo em particular, qualquer grupo local existente em um determinado per\u00edodo pode ser claramente caracterizado pela distribui\u00e7\u00e3o de formas presentes nesse grupo. N\u00e3o hesito em dizer que, desde que tiv\u00e9ssemos estat\u00edsticas satisfat\u00f3rias da distribui\u00e7\u00e3o das formas humanas em todo o globo, uma descri\u00e7\u00e3o exaustiva das caracter\u00edsticas f\u00edsicas de qualquer grupo de indiv\u00edduos pertencentes a uma localidade nos permitiria identificar o mesmo sem qualquer dificuldade. Isso enfatiza claramente o fato de que a classifica\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica deve ser considerada como um estudo estat\u00edstico de variedades locais ou sociais. Mas ser\u00e1 perguntado: como isso ajuda a classificar formas individuais? O problema deve ser considerado da seguinte maneira: cada unidade social consiste em uma s\u00e9rie de indiv\u00edduos cujas formas corporais dependem de sua ancestralidade e de seu ambiente. Se a opini\u00e3o dos cr\u00edticos da antropologia f\u00edsica sobre o efeito predominante do ambiente estiver correta, ent\u00e3o n\u00e3o podemos esperar fazer quaisquer descobertas sobre a ancestralidade de grupos locais ou sociais por meio de investiga\u00e7\u00f5es anat\u00f4micas. Se, por outro lado, puder ser demonstrado que a hereditariedade \u00e9 o fator predominante, ent\u00e3o as perspectivas de importantes descobertas sobre a hist\u00f3ria inicial da humanidade s\u00e3o realmente muito promissoras. Parece ao autor que uma considera\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica torna muito prov\u00e1vel que a influ\u00eancia da hereditariedade deva prevalecer, e at\u00e9 agora ele n\u00e3o encontrou provas conclusivas em contr\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Os cr\u00edticos do m\u00e9todo da antropologia f\u00edsica, \u00e9 claro, concordar\u00e3o que uma crian\u00e7a negra deve ser negra e que uma crian\u00e7a \u00edndia deve ser \u00edndia. Sua cr\u00edtica \u00e9 dirigida contra a perman\u00eancia de tipos dentro da ra\u00e7a; por exemplo, contra a perman\u00eancia de estaturas altas ou baixas, ou contra a perman\u00eancia de formas da cabe\u00e7a. Deve-se admitir que o desenvolvimento muscular pode exercer uma influ\u00eancia importante na forma dos ossos, mas n\u00e3o parece prov\u00e1vel que possa provocar uma mudan\u00e7a completa de forma. A insufici\u00eancia da influ\u00eancia do ambiente fica evidente nos casos em que popula\u00e7\u00f5es de tipos bastante distintos habitam a mesma \u00e1rea e vivem em condi\u00e7\u00f5es id\u00eanticas. Esse \u00e9 o caso na costa noroeste do Pac\u00edfico de nosso continente; esse foi o caso em popula\u00e7\u00f5es sucessivas do sul da Calif\u00f3rnia e de Utah.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora isso possa ser considerado uma boa evid\u00eancia em favor da teoria da predomin\u00e2ncia do efeito da hereditariedade, a prova real deve ser procurada em compara\u00e7\u00f5es entre pais e filhos. Se puder ser mostrado que h\u00e1 uma forte tend\u00eancia por parte dos filhos de se assemelharem aos pais, devemos assumir que o efeito da hereditariedade \u00e9 mais forte do que o do ambiente.<\/p>\n\n\n\n<p>O m\u00e9todo desta investiga\u00e7\u00e3o foi desenvolvido por Francis Galton e Karl Pearson, que nos deram os meios de medir o grau de similaridade entre pais e filhos. Onde quer que esse m\u00e9todo tenha sido aplicado, tem sido mostrado que o efeito da hereditariedade \u00e9 o fator mais forte na determina\u00e7\u00e3o da forma do descendente. \u00c9 verdade que, at\u00e9 agora, esse m\u00e9todo n\u00e3o foi aplicado a s\u00e9ries de gera\u00e7\u00f5es e sob condi\u00e7\u00f5es em que ocorreu uma mudan\u00e7a consider\u00e1vel no ambiente, e aguardamos uma solu\u00e7\u00e3o definitiva para o problema do efeito da hereditariedade e do ambiente por meio da aplica\u00e7\u00e3o desse m\u00e9todo. No estudo de gera\u00e7\u00f5es passadas, n\u00e3o podemos, em geral, comparar diretamente pais e descendentes, mas temos que nos limitar a uma compara\u00e7\u00e3o entre a ocorr\u00eancia de tipos durante per\u00edodos sucessivos. A melhor evid\u00eancia dispon\u00edvel sobre esse assunto \u00e9 encontrada nas popula\u00e7\u00f5es da Europa. N\u00e3o parece prov\u00e1vel que a distribui\u00e7\u00e3o atual de tipos na Europa possa ser explicada de outra maneira sen\u00e3o pela suposi\u00e7\u00e3o de que a hereditariedade teve uma influ\u00eancia predominante. Muito tem sido feito da aparente mudan\u00e7a de tipo que ocorre nas cidades da Europa para mostrar que a sele\u00e7\u00e3o natural pode ter desempenhado um papel importante em tornar certos tipos de homem predominantes em uma regi\u00e3o ou outra. Ammon mostrou que a popula\u00e7\u00e3o urbana do sudoeste da Alemanha tem cabe\u00e7as mais curtas do que a popula\u00e7\u00e3o rural e conclui que isso se deve \u00e0 sele\u00e7\u00e3o natural. Todos os fen\u00f4menos desse tipo que foram descritos podem ser explicados satisfatoriamente pela suposi\u00e7\u00e3o de que a popula\u00e7\u00e3o urbana \u00e9 mais mista do que a popula\u00e7\u00e3o rural. Esse ponto foi destacado com mais clareza pelas pesquisas de Livi na It\u00e1lia. Ele provou que, em regi\u00f5es onde predominam formas de cabe\u00e7a alongadas no campo, na cidade a popula\u00e7\u00e3o tem cabe\u00e7as mais curtas; enquanto em regi\u00f5es do campo onde predominam formas de cabe\u00e7a curtas, na cidade a popula\u00e7\u00e3o tem cabe\u00e7as mais alongadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas condi\u00e7\u00f5es atuais, parece melhor n\u00e3o come\u00e7ar o estudo das caracter\u00edsticas anat\u00f4micas do homem a partir de pressupostos de longo alcance em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o do efeito da hereditariedade e do ambiente, mas, antes de tudo, determinar a distribui\u00e7\u00e3o dos tipos humanos. Este \u00e9 um problema definido que requer tratamento e investiga\u00e7\u00e3o tanto quanto o estudo das l\u00ednguas ou o estudo dos costumes de v\u00e1rias tribos. No momento atual, estamos longe de estar familiarizados com a distribui\u00e7\u00e3o dos tipos nos v\u00e1rios continentes.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o importa qual seja a explica\u00e7\u00e3o final da distribui\u00e7\u00e3o dos tipos, n\u00e3o podemos evitar a tarefa de investigar sua distribui\u00e7\u00e3o atual e procurar a explica\u00e7\u00e3o das raz\u00f5es para tal distribui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de entrar mais a fundo nesse assunto, pode ser bom abordar a segunda cr\u00edtica ao m\u00e9todo da antropologia f\u00edsica, que tem sido feita com cada vez mais frequ\u00eancia nos \u00faltimos anos. V\u00e1rios pesquisadores se op\u00f5em ao m\u00e9todo m\u00e9trico da antropologia e desejam substituir as medidas pela descri\u00e7\u00e3o. Essa proposta \u00e9 baseada em um mal-entendido sobre a fun\u00e7\u00e3o das medidas. A necessidade de fazer medidas surgiu quando se constatou que as variedades locais da humanidade eram muito parecidas \u2013 tanto que uma descri\u00e7\u00e3o verbal n\u00e3o conseguia deixar suas caracter\u00edsticas suficientemente claras. O processo pelo qual as medidas foram selecionadas foi puramente emp\u00edrico. Verificou-se que certas medidas diferem consideravelmente em v\u00e1rias ra\u00e7as e, por esse motivo, s\u00e3o bons crit\u00e9rios classificat\u00f3rios. Portanto, a fun\u00e7\u00e3o das medidas \u00e9 unicamente fornecer maior precis\u00e3o \u00e0 descri\u00e7\u00e3o verbal vaga. \u00c9 verdade que, com o tempo, desenvolveu-se uma tend\u00eancia de considerar como os \u00fanicos crit\u00e9rios dispon\u00edveis de ra\u00e7a as medidas que, pela experi\u00eancia, foram consideradas \u00fateis. Isso \u00e9 especialmente verdadeiro para o chamado \u00edndice cef\u00e1lico; ou seja, a propor\u00e7\u00e3o de largura para comprimento da cabe\u00e7a. Existem antrop\u00f3logos que subordinaram tudo o mais ao estudo do \u00edndice cef\u00e1lico, deixando de fora completamente as formas do cr\u00e2nio e do esqueleto, conforme expressas por suas rela\u00e7\u00f5es m\u00e9tricas ou por meio de desenhos ou diagramas. Frequentemente tem sido apontado que o mesmo \u00edndice cef\u00e1lico pode pertencer a formas que anatomicamente n\u00e3o podem ser consideradas equivalentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Encontramos, por exemplo, que o mesmo \u00edndice cef\u00e1lico pertence aos esquim\u00f3s, aos habitantes pr\u00e9-hist\u00f3ricos do sul da Calif\u00f3rnia e aos negros. Ainda assim, esses tr\u00eas tipos devem ser considerados fundamentalmente diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Os antrop\u00f3logos que limitam seu trabalho \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica das medidas, especialmente de medidas individuais, e que tentam tra\u00e7ar as rela\u00e7\u00f5es entre as ra\u00e7as por meio desse meio, n\u00e3o aplicam o m\u00e9todo m\u00e9trico de forma correta. Deve-se ter em mente que as medidas servem apenas para definir com mais precis\u00e3o certas peculiaridades e que a sele\u00e7\u00e3o das medidas deve ser adaptada ao prop\u00f3sito em quest\u00e3o. Acredito que a tend\u00eancia de desenvolver um sistema r\u00edgido de medidas a ser aplicado a todos os problemas da antropologia f\u00edsica \u00e9 um movimento na dire\u00e7\u00e3o errada. As medidas devem ser selecionadas de acordo com o problema que estamos tentando investigar. A rela\u00e7\u00e3o entre o comprimento e a largura da cabe\u00e7a pode ser uma medida muito desej\u00e1vel em um caso, enquanto em outro pode n\u00e3o ter nenhum valor. As medidas sempre devem ter um significado biol\u00f3gico. Assim que perdem seu significado, perdem tamb\u00e9m seu valor descritivo.<\/p>\n\n\n\n<p>O grande valor da medida reside no fato de nos fornecer os meios de uma descri\u00e7\u00e3o abrangente das variedades contidas em um grupo geogr\u00e1fico ou social. Uma tabela que nos informa sobre a frequ\u00eancia de v\u00e1rias formas, expressas por medidas que ocorrem em um grupo, nos d\u00e1 uma vis\u00e3o abrangente da variabilidade do grupo que estamos estudando.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos ent\u00e3o investigar a distribui\u00e7\u00e3o das formas de acordo com m\u00e9todos estat\u00edsticos; podemos determinar o tipo prevalente e o car\u00e1ter de sua varia\u00e7\u00e3o. A aplica\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos estat\u00edsticos r\u00edgidos nos d\u00e1 um excelente meio de determinar a homogeneidade e a perman\u00eancia do tipo que est\u00e1 sendo estudado. Se um grupo de indiv\u00edduos que apresentam um tipo homog\u00eaneo n\u00e3o est\u00e1 sujeito a mudan\u00e7as, devemos esperar encontrar os tipos dispostos de acordo com a lei das probabilidades; ou seja, o tipo m\u00e9dio ser\u00e1 o mais frequente e as varia\u00e7\u00f5es positivas e negativas ser\u00e3o de frequ\u00eancia igual. Se, por outro lado, o tipo homog\u00eaneo est\u00e1 passando por mudan\u00e7as, a simetria da disposi\u00e7\u00e3o ser\u00e1 perturbada, e se o tipo for heterog\u00eaneo, devemos esperar irregularidades em toda a distribui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Investiga\u00e7\u00f5es desse tipo requerem a medi\u00e7\u00e3o de s\u00e9ries muito extensas de indiv\u00edduos para estabelecer os resultados de maneira satisfat\u00f3ria. Mas o car\u00e1ter das distribui\u00e7\u00f5es que podem ser obtidas dessa forma fornecer\u00e1 material para decidir v\u00e1rias das quest\u00f5es mais fundamentais da antropologia f\u00edsica.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora posso voltar \u00e0 quest\u00e3o discutida anteriormente. Tentei mostrar que o m\u00e9todo m\u00e9trico pode nos fornecer material que comprove a homogeneidade ou heterogeneidade de grupos de certos indiv\u00edduos. Esse teste foi aplicado a diversos casos. Analisei sob esse ponto de vista os mesti\u00e7os norte-americanos, ou seja, indiv\u00edduos de ascend\u00eancia \u00edndia e branca misturada. Mostrei que o desenvolvimento transversal do rosto, que \u00e9 a diferen\u00e7a mais distintiva entre \u00edndios e brancos, mostra uma tend\u00eancia na ra\u00e7a mista de reverter para uma das ra\u00e7as parentais e que n\u00e3o h\u00e1 tend\u00eancia para o desenvolvimento de uma forma intermedi\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Bertillon mostrou que irregularidades semelhantes existem na Fran\u00e7a. Por outro lado, s\u00e9ries extensas de medidas de soldados alistados na It\u00e1lia mostram, em muitas partes do reino, uma s\u00e9rie comparativamente homog\u00eanea. De m\u00e3os dadas com esse fen\u00f4meno, h\u00e1 diferen\u00e7as not\u00e1veis de variabilidade. Nos lugares onde temos raz\u00e3o para acreditar que tipos distintos se misturaram, encontramos um grande aumento na variabilidade, enquanto em regi\u00f5es ocupadas por popula\u00e7\u00f5es homog\u00eaneas, a variabilidade parece diminuir.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses fatos s\u00e3o argumentos s\u00f3lidos para a suposi\u00e7\u00e3o de uma grande perman\u00eancia dos tipos humanos. \u00c9 necess\u00e1rio que a an\u00e1lise das distribui\u00e7\u00f5es de medidas seja levada muito al\u00e9m do ponto em que chegou at\u00e9 o presente; feito isso, acredito que obteremos um meio de determinar com consider\u00e1vel precis\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es de parentesco das variedades geogr\u00e1ficas do homem.<\/p>\n\n\n\n<p>Desejo dizer uma palavra aqui em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre as ra\u00e7as pr\u00e9-hist\u00f3ricas mais antigas e as ra\u00e7as atuais. Na medida em que a reconstru\u00e7\u00e3o das caracter\u00edsticas das ra\u00e7as pr\u00e9-hist\u00f3ricas possa ser baseada em material extenso, haver\u00e1 uma certa justificativa para uma reconstru\u00e7\u00e3o das partes moles, se uma compara\u00e7\u00e3o detalhada dos restos osteol\u00f3gicos de tipos pr\u00e9-hist\u00f3ricos e de tipos atuais os mostrar conform\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, quando a similaridade se baseia em alguns esp\u00e9cimes isolados, nenhuma reconstru\u00e7\u00e3o desse tipo \u00e9 admiss\u00edvel, porque a tentativa pressup\u00f5e a identidade da ra\u00e7a pr\u00e9-hist\u00f3rica com a atual. Como os restos do homem mais antigo s\u00e3o muito poucos em n\u00famero, \u00e9 dif\u00edcil obter uma ideia adequada das caracter\u00edsticas das partes moles do seu corpo, exceto na medida em que as formas de inser\u00e7\u00e3o muscular nos permitem inferir o tamanho e a forma dos m\u00fasculos. Quando baseamos nossas conclus\u00f5es nas considera\u00e7\u00f5es apresentadas neste artigo, devemos acreditar que o problema da antropologia f\u00edsica \u00e9 t\u00e3o definido quanto o de outros ramos da antropologia. \u00c9 a determina\u00e7\u00e3o e explica\u00e7\u00e3o da ocorr\u00eancia de diferentes tipos de homem em diferentes pa\u00edses. O fato de os indiv\u00edduos n\u00e3o poderem ser classificados como pertencentes a um determinado tipo mostra que a antropologia f\u00edsica n\u00e3o pode levar a uma classifica\u00e7\u00e3o da humanidade t\u00e3o detalhada quanto a classifica\u00e7\u00e3o baseada em l\u00edngua. O estudo estat\u00edstico dos tipos, no entanto, levar\u00e1 a uma compreens\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de parentesco entre diferentes tipos. Consequentemente, ser\u00e1 um meio de reconstruir a hist\u00f3ria da mistura de tipos humanos. \u00c9 prov\u00e1vel que tamb\u00e9m leve ao estabelecimento de v\u00e1rios bons tipos que permaneceram permanentes ao longo de longos per\u00edodos. Ver-se-\u00e1 que essa parte da hist\u00f3ria humana que se manifesta nos fen\u00f4menos que s\u00e3o objeto da antropologia f\u00edsica n\u00e3o \u00e9 de forma alguma id\u00eantica \u00e0quela parte da hist\u00f3ria que se manifesta nos fen\u00f4menos da etnologia e da linguagem. Portanto, n\u00e3o devemos esperar que as classifica\u00e7\u00f5es obtidas por meio desses tr\u00eas m\u00e9todos sejam de forma alguma id\u00eanticas. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 uma prova da incorre\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo f\u00edsico se os limites de seus tipos se sobrep\u00f5em aos limites dos grupos lingu\u00edsticos. Os tr\u00eas ramos da antropologia devem proceder de acordo com seu pr\u00f3prio m\u00e9todo, mas todos contribuem igualmente para a solu\u00e7\u00e3o do problema da hist\u00f3ria antiga da humanidade.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> American Anthropologist, N.S., vol. 1 (Janeiro, 1899).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea ir\u00e1 ler, a seguir, um trecho da obra &#8220;Ra\u00e7a, Linguagem e Cultura: Volume I&#8221;, de Franz Boas. Caso deseje saber mais sobre a obra e como adquiri-la, clique na capa do livro. Algumas cr\u00edticas recentes \u00e0 antropologia f\u00edsica[1] Nos \u00faltimos anos, foram feitos diversos ataques severos aos m\u00e9todos da\u2026<\/p>\n<p class=\"continue-reading-button\"> <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2023\/08\/04\/algumas-criticas-recentes-a-antropologia-fisica-franz-boas\/\">Leia mais<i class=\"crycon-right-dir\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":595,"comment_status":"closed","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[39,5],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/905"}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=905"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/905\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":906,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/905\/revisions\/906"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/595"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=905"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=905"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=905"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}