{"id":947,"date":"2022-08-14T17:54:00","date_gmt":"2022-08-14T17:54:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=947"},"modified":"2024-08-14T17:58:07","modified_gmt":"2024-08-14T17:58:07","slug":"rembrandt-de-georg-simmel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2022\/08\/14\/rembrandt-de-georg-simmel\/","title":{"rendered":"Rembrandt, de Georg Simmel"},"content":{"rendered":"\n<p>Abaixo voc\u00ea ir\u00e1 ler um trecho da obra &#8220;Rembrandt: Um ensaio em Filosofia da Arte&#8221;, por Georg Simmel. Caso voc\u00ea tenha interesse em adquirir a obra <a href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/rembrandt\/\" data-type=\"page\" data-id=\"941\">clique aqui<\/a>, ou na capa do livro abaixo.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/rembrandt\/\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"231\" height=\"328\" src=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/capinha_rembrandt_photopea2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-942\" srcset=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/capinha_rembrandt_photopea2.jpg 231w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/capinha_rembrandt_photopea2-211x300.jpg 211w, https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/capinha_rembrandt_photopea2-106x150.jpg 106w\" sizes=\"(max-width: 231px) 100vw, 231px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\"> <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><a>1. A express\u00e3o da vida interior<\/a><\/h1>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>A Continuidade da Vida e o Movimento de Express\u00e3o<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>As necessidades pr\u00e1ticas e a divis\u00e3o do trabalho das nossas for\u00e7as receptivas e atuantes raramente nos permitem perceber a vida em sua unidade e totalidade, mas sim seus conte\u00fados individuais, destinos, culmina\u00e7\u00f5es \u2013 fragmentos e partes que comp\u00f5em o todo. Isso se deve ao fato de que nossa vida assume a forma de um processo em curso com conte\u00fados em constante mudan\u00e7a, e esses conte\u00fados, al\u00e9m de ocuparem um lugar na sequ\u00eancia da vida, tamb\u00e9m podem ser categorizados em v\u00e1rias outras sequ\u00eancias: l\u00f3gicas, t\u00e9cnicas, ideais. Um objeto observado, por exemplo, n\u00e3o \u00e9 apenas um ato de representa\u00e7\u00e3o mental, mas est\u00e1 inserido em um sistema de conhecimento f\u00edsico; uma decis\u00e3o de vontade n\u00e3o \u00e9 apenas uma a\u00e7\u00e3o interna, mas representa um grau espec\u00edfico na sequ\u00eancia de valores morais objetivos; um casamento n\u00e3o \u00e9 apenas a experi\u00eancia de dois indiv\u00edduos, mas um elemento de uma constitui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-social. No entanto, ao considerar esses conte\u00fados enfatizados separadamente, eles novamente s\u00e3o considerados como \u201ca vida\u201d, o que sugere que a vida \u00e9 uma mera sucess\u00e3o deles, e que eles compartilham o car\u00e1ter e a din\u00e2mica da vida de forma proporcional entre si. De toda forma, a no\u00e7\u00e3o de vida como a soma de todos os momentos que ocorrem sucessivamente n\u00e3o pode ser aplicada ao fluxo cont\u00ednuo da vida real; em vez disso, ela substitui esse fluxo cont\u00ednuo pela adi\u00e7\u00e3o dos conte\u00fados que podem ser identificados por meio de conceitos materiais. Esses conte\u00fados s\u00e3o considerados n\u00e3o como vida, mas formas de constru\u00e7\u00e3o ideais ou materiais.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, eu acredito em outra maneira poss\u00edvel de considerar a vida, que n\u00e3o separa o todo das partes dessa maneira. Para essa perspectiva, as categorias de <em>todo<\/em> e <em>parte<\/em> n\u00e3o s\u00e3o aplic\u00e1veis \u00e0 vida. A vida \u00e9 um processo unificado, cuja natureza \u00e9 composta de momentos distingu\u00edveis em sua qualidade ou conte\u00fado. Essa primeira forma de concep\u00e7\u00e3o gira em torno do \u201ceu puro\u201d ou da \u201calma\u201d, que de certa forma s\u00e3o entidades independentes, al\u00e9m dos conte\u00fados express\u00e1veis que emergem dentro delas, em termos conceituais. Mas para mim, parece que o ser humano inteiro, o absoluto da alma e do eu, est\u00e1 contido em cada experi\u00eancia espec\u00edfica. Pois a produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fados em constante mudan\u00e7a que ocorre nele \u00e9 a maneira como a vida se expressa, e ela n\u00e3o reserva qualquer forma de \u201cpureza\u201d separ\u00e1vel ou aut\u00f4noma al\u00e9m de seus pr\u00f3prios pulsos. Em um pensamento semelhante que diz respeito ao \u201ccar\u00e1ter\u201d humano e suas a\u00e7\u00f5es individuais, Goethe disse uma vez: \u201cA fonte s\u00f3 pode ser pensada na medida em que flui\u201d. Trata-se de superar a contraposi\u00e7\u00e3o entre a multiplicidade e a unidade, a alternativa de que a unidade de diversidades est\u00e1 al\u00e9m delas, como algo superior e abstrato \u2013 ou, permanecendo no dom\u00ednio das diversidades, \u00e9 composta por elas, peda\u00e7o a peda\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, a vida n\u00e3o pode ser expressa com nenhuma dessas f\u00f3rmulas. Pois \u00e9 uma continuidade absoluta, na qual n\u00e3o h\u00e1 partes ou fragmentos componentes, mas sim uma unidade que se expressa em si mesma a cada momento de uma forma diferente. Isso n\u00e3o pode ser deduzido mais profundamente porque a vida, que est\u00e1 sendo de alguma forma formulada aqui, \u00e9 um fato fundamental e imposs\u00edvel de ser constru\u00edda. Cada momento da vida \u00e9 a vida inteira, cujo fluxo constante \u2013 essa \u00e9 a sua forma singular \u2013 tem sua realidade apenas na altura da onda \u00e0 qual se eleva a cada momento. Cada momento presente \u00e9 determinado por todo o percurso de vida anterior, \u00e9 o resultado de todos os momentos anteriores, e, portanto, a presen\u00e7a da vida atual \u00e9 a forma na qual a vida inteira do sujeito \u00e9 verdadeiramente manifestada.<\/p>\n\n\n\n<p>Se procuramos uma express\u00e3o te\u00f3rica para a solu\u00e7\u00e3o de Rembrandt para seus problemas de representa\u00e7\u00e3o do movimento, sejam eles de maior ou menor escopo, ela est\u00e1 completamente alinhada com essa compreens\u00e3o da vida. Enquanto nas artes cl\u00e1ssicas e na arte estilizada mais estrita a representa\u00e7\u00e3o de um movimento ocorre por meio de uma esp\u00e9cie de abstra\u00e7\u00e3o, ao destacar um momento espec\u00edfico do fluxo cont\u00ednuo de vida que leva at\u00e9 ele e continua ap\u00f3s ele, e cristalizar esse momento em uma forma autossuficiente \u2013 em Rembrandt, o momento representado parece conter todo o impulso que leva at\u00e9 ele, narrando a hist\u00f3ria desse fluxo de vida. Ele n\u00e3o \u00e9 apenas uma parte fixada no tempo de uma mobilidade f\u00edsico-psicol\u00f3gica, em que al\u00e9m disso, uma forma art\u00edstica se destaca, mas \u00e9 o todo dessa mobilidade, desse evento interiormente em curso. Ele torna evidente como o momento do movimento representado realmente \u00e9 todo o movimento ou, melhor ainda, \u00e9 o movimento em si, e n\u00e3o um estado s\u00f3lido. Isso \u00e9 a invers\u00e3o do \u201cmomento f\u00e9rtil\u201d. Enquanto o momento f\u00e9rtil leva o movimento do presente para o futuro na imagina\u00e7\u00e3o, o momento rembrandtesco re\u00fane o passado desse movimento no presente: n\u00e3o tanto um momento f\u00e9rtil, mas um momento de colheita.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como \u00e9 a natureza da vida estar completamente presente em cada momento, porque sua totalidade n\u00e3o \u00e9 a soma mec\u00e2nica de momentos singulares, mas um fluxo cont\u00ednuo e em constante muta\u00e7\u00e3o \u2013 da mesma forma, \u00e9 a natureza do movimento expressivo de Rembrandt permitir sentir todo o sucessivo de seus momentos na singularidade de um \u00fanico, superando sua divis\u00e3o em uma sucess\u00e3o de momentos separados.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto muitos pintores parecem ter visualizado o movimento na imagina\u00e7\u00e3o ou no modelo, e ent\u00e3o criaram a imagem a partir desse fen\u00f4meno acabado que alcan\u00e7ou a perfei\u00e7\u00e3o de sua superf\u00edcie, realista ou n\u00e3o, em Rembrandt o impulso do movimento parece derivar do ponto de origem carregado de significado emocional ou ser guiado por ele. A partir desse embri\u00e3o, desse potencial coletado do todo e de seu significado, o desenho se desenvolve parte por parte, assim como o movimento se desdobra na realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ele, o ponto de partida ou o fundamento da representa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a imagem do momento visto de fora, onde o movimento atingiu o \u00e1pice de sua representa\u00e7\u00e3o, um corte transversal do seu curso temporal; mas desde o in\u00edcio \u00e9 a din\u00e2mica do ato inteiro, reunida como uma unidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O sentido expressivo completo que o movimento possui j\u00e1 est\u00e1 contido no primeiro tra\u00e7o; esse tra\u00e7o j\u00e1 est\u00e1 preenchido com a vis\u00e3o ou o sentimento que cont\u00e9m o aspecto exterior do movimento como algo \u00fanico e singular. Portanto, \u00e9 compreens\u00edvel que as figuras de seus desenhos a m\u00e3o e esbo\u00e7os de gravuras lineares, ainda mais evidentes aqui do que nas pinturas \u2013 onde apenas um m\u00ednimo de tra\u00e7os, ou quase nada, est\u00e1 no papel \u2014, ainda assim transmitam com convic\u00e7\u00e3o uma postura e movimento absolutamente inequ\u00edvocos, bem como a profundidade completa de sua responsabilidade emocional e inten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o movimento est\u00e1 focado no definitivo de sua representa\u00e7\u00e3o, na extens\u00e3o do momento de sua apar\u00eancia, para que ele alcance sua express\u00e3o completa, \u00e9 fundamental ter uma completa manifesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, aqui \u00e9 como se uma pessoa quisesse expressar uma emo\u00e7\u00e3o profunda que a abalou completamente: ela n\u00e3o precisa dizer toda a frase que logicamente explica o conte\u00fado de seu movimento emocional, uma vez que o tom emocional revela tudo desde a primeira palavra.<\/p>\n\n\n\n<p>Naturalmente, isso n\u00e3o se refere a uma diferen\u00e7a absoluta e imediata em rela\u00e7\u00e3o a todos os outros artistas. Trata-se de uma diferen\u00e7a de princ\u00edpios, que, como princ\u00edpios, s\u00e3o opostos polares, mas nas quais as manifesta\u00e7\u00f5es emp\u00edricas representam uma escala de maior ou menor participa\u00e7\u00e3o em ambos.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso fica ainda mais evidente quando as express\u00f5es de movimento no jovem Rembrandt partem da mera perspectiva externa. Como, por exemplo, \u2013 para, agora, nos concentrarmos apenas nas pinturas \u2013 nas figuras em <em>O Rapto de Europa<\/em> de 1632 ou nas obras um pouco mais tardias como <em>Mene Tekel<\/em> ou <em>A Incredulidade de S\u00e3o Tom\u00e9<\/em>, o movimento \u00e9 exclusivamente o fen\u00f4meno fixado de um momento de movimento. Ent\u00e3o, com obras como <em>A Prega\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Jo\u00e3o Batista<\/em> (em Berlim), come\u00e7a um movimento interno, preparado nas camadas emocionais mais profundas, que, com v\u00e1rias flutua\u00e7\u00f5es ao longo dos anos 1640 e 1650, enfim confere \u00e0s suas pinturas um car\u00e1ter incompar\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>A vis\u00e3o art\u00edstica de Rembrandt n\u00e3o simplesmente cont\u00e9m a visibilidade do gesto em seu momento de representa\u00e7\u00e3o; o seu significado e intensidade n\u00e3o surgem apenas na superf\u00edcie da percep\u00e7\u00e3o, mas direcionam e preenchem j\u00e1 o primeiro tra\u00e7o, o qual, portanto, revela plenamente a totalidade do processo interno-externo (em sua distintiva indiferencia\u00e7\u00e3o art\u00edstica).<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como a f\u00f3rmula mais profunda da vida apareceu como sendo que sua totalidade n\u00e3o est\u00e1 fora de seus momentos individuais, mas que em cada um destes ela est\u00e1 totalmente presente, porque consiste exclusivamente no movimento atrav\u00e9s de todas essas oposi\u00e7\u00f5es \u2013 da mesma forma, a figura em movimento em Rembrandt revela que, por assim dizer, na auto viv\u00eancia e autorrevela\u00e7\u00e3o de um destino interno, n\u00e3o h\u00e1 partes, mas que, ao contr\u00e1rio, cada fragmento separado de algum ponto de vista percept\u00edvel \u00e9 o todo desse destino interno e expressivo.<\/p>\n\n\n\n<p>O fato de ele ser capaz de retratar cada pequena parte da figura em movimento como sua totalidade \u00e9 a express\u00e3o tanto direta quanto simb\u00f3lica de que cada um dos momentos continuamente conectados da vida em movimento \u00e9 a vida inteira, personificada na forma espec\u00edfica.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>Ser e Tornar-se Retrato<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>Essa mesma f\u00f3rmula que governa a rela\u00e7\u00e3o entre o momento de movimento retratado e o evento interno expressivo como um todo tamb\u00e9m define a abordagem de Rembrandt \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do retrato em si.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00faltima e mais abrangente inten\u00e7\u00e3o do retrato italiano est\u00e1 inserida na metaf\u00edsica de valor da Gr\u00e9cia cl\u00e1ssica: o sentido e o valor das coisas est\u00e3o no ser, em sua ess\u00eancia definida, conforme seu conceito atemporal os expressa; o fluxo do tornar-se, a mudan\u00e7a hist\u00f3rica das formas, o desenvolvimento sem um ponto final definido \u2013 isso estava, para os gregos, em desacordo com a natureza pl\u00e1stica, voltada para a autossufici\u00eancia do valor da forma.<\/p>\n\n\n\n<p>E o retrato renascentista reflete esse ser encerrado, essa ess\u00eancia qualitativa atemporal do indiv\u00edduo. Os tra\u00e7os essenciais da pessoa s\u00e3o dispostos como se lado a lado, em uma forma fixa; e embora, \u00e9 claro, os destinos e o desenvolvimento interno tenham levado \u00e0 apar\u00eancia apresentada, esses momentos de tornar-se s\u00e3o desativados para a impress\u00e3o dessa apar\u00eancia, assim como as etapas de um c\u00e1lculo n\u00e3o s\u00e3o relevantes onde apenas o resultado \u00e9 questionado.<\/p>\n\n\n\n<p>O retrato cl\u00e1ssico nos prende no momento de sua presen\u00e7a, mas esse momento n\u00e3o \u00e9 um ponto em uma s\u00e9rie de chegadas e partidas; ao contr\u00e1rio, ele denota a ideia atemporal que est\u00e1 al\u00e9m de tal sequ\u00eancia, a forma trans hist\u00f3rica da exist\u00eancia psicof\u00edsica.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso corresponde, por um lado, ao realismo conceitual, que condensa tanto a coexist\u00eancia das exist\u00eancias quanto a sucess\u00e3o da exist\u00eancia em uma constru\u00e7\u00e3o \u00fanica, simultaneamente individual e real e, por outro lado, \u00e0 nossa concep\u00e7\u00e3o da realidade externa e natural. Pois, por mais que em tal realidade cada manifesta\u00e7\u00e3o seja rigidamente determinada pela causa precedente, o passado se dissolve completamente e, por assim dizer, se torna impessoal em seu efeito, pois desaparece como passado e se torna indiferente, principalmente porque outras combina\u00e7\u00f5es de causas poderiam, em princ\u00edpio, levar ao mesmo efeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa analogia, parte metaf\u00edsica e parte f\u00edsica, a Renascen\u00e7a aborda o problema do retrato. No entanto, a forma\u00e7\u00e3o do aspecto psicol\u00f3gico \u00e9 diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>No curso dessa forma\u00e7\u00e3o, a causa n\u00e3o se dissolve em seu efeito, e sua particular determina\u00e7\u00e3o n\u00e3o se torna irrelevante. Em vez disso, na evolu\u00e7\u00e3o total da alma, sentimos que cada presente s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel por meio desse passado espec\u00edfico (embora certos diferentes caminhos isolados, artificialmente isolados, possam mostrar essa analogia f\u00edsica).<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui, o passado n\u00e3o \u00e9 apenas a causa do subsequente, mas seus conte\u00fados se sobrep\u00f5em como mem\u00f3rias ou realidades din\u00e2micas, cujos efeitos n\u00e3o poderiam ser provenientes de nenhuma outra causa. Camada sobre camada, o passado \u00e9 sobreposto, e assim, paradoxalmente, a sucess\u00e3o se torna a forma essencial de cada momento presente da totalidade ps\u00edquica. Quando, portanto, a alma, de acordo com sua verdadeira natureza, determina a forma\u00e7\u00e3o, n\u00e3o leva a uma abstra\u00e7\u00e3o visual em que todas as determina\u00e7\u00f5es se apresentam em uma vez por todas, na ess\u00eancia atemporal. Nas fisionomias retratadas por Rembrandt, sentimos claramente que um curso de vida, combinando destino ap\u00f3s destino, gera essa imagem do presente. Isso nos coloca, de certa forma, em uma perspectiva de onde podemos compreender o caminho que nos levou at\u00e9 ela \u2013 assim como pouco do conte\u00fado desse passado poderia ser expresso de forma natural\u00edstica, como muitos retratos com tend\u00eancias psicol\u00f3gicas sugerem.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso seria um interesse aned\u00f3tico ou liter\u00e1rio, al\u00e9m da linha da pura arte. De maneira maravilhosa, Rembrandt infunde na singularidade fixa da vis\u00e3o toda a vida movimentada que a conduziu, seu ritmo formal, seu estado de esp\u00edrito, seu tom do destino do processo vital. N\u00e3o se trata, como \u00e0s vezes se tentou interpretar Rembrandt, de pintura psicol\u00f3gica. Pois toda psicologia lida com elementos ou aspectos individualmente express\u00e1veis conceitualmente do evento interno completo. Um elemento, por assim dizer, logicamente compreens\u00edvel, \u00e9 apresentado pela arte, quando dominada pela psicologia, como representante dessa totalidade. A orienta\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica sempre causa uma singulariza\u00e7\u00e3o e, assim, uma certa solidifica\u00e7\u00e3o que se desvincula da totalidade presente em cada momento, mas continuamente fluindo da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>A representa\u00e7\u00e3o do ser humano em Rembrandt \u00e9 profundamente animada, mas n\u00e3o \u00e9 psicol\u00f3gica \u2013 uma diferen\u00e7a cuja profundidade passa despercebida se n\u00e3o considerarmos a vida como uma totalidade a qualquer momento e como uma mudan\u00e7a cont\u00ednua em contraposi\u00e7\u00e3o a qualquer qualidade individual isolada que possa ser logicamente fixada por si mesma. Pois apenas essa din\u00e2mica da vida, e n\u00e3o seu conte\u00fado ou caracter\u00edstica espec\u00edfica que pode ser expressa com conceitos individuais, \u00e9 o que molda nossos tra\u00e7os. Assim como Rembrandt trouxe a unidade de sua hist\u00f3ria para cada express\u00e3o individual, desde a mera potencialidade do primeiro impulso at\u00e9 a representa\u00e7\u00e3o e a sensa\u00e7\u00e3o, ele tamb\u00e9m capturou toda a linha de desenvolvimento pessoal no momento de observa\u00e7\u00e3o, de maneira intuitiva e \u00fanica. Apesar da sua forma de sucess\u00e3o, ela \u00e9 imediatamente dada e leg\u00edvel a partir desse momento. Rembrandt conseguiu um express\u00e3o art\u00edstica sem precedentes da vivacidade da vida, mas uma que n\u00e3o pode se tornar m\u00e9todo ou estilo, permanecendo vinculada \u00e0 genialidade pessoal. \u00c9 certo que a pintura de retratos florentina e veneziana n\u00e3o carece de vida e alma.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, existe uma forma geral que retira os elementos de sua experi\u00eancia imediata e a ordem sequencial: a forma possui uma coes\u00e3o interna, que apenas disponibiliza as realiza\u00e7\u00f5es da atividade mental como material. Esse estilo tipificante n\u00e3o precisa resultar em semelhan\u00e7a de conte\u00fado entre os indiv\u00edduos (embora, em certo sentido, as pessoas se pare\u00e7am de alguma forma nas artes de Siena e, em parte, na \u00dambria), mas cria uma esp\u00e9cie particular de \u201cuniversalidade\u201d, ou seja, a representa\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo ideal, derivado da abstra\u00e7\u00e3o de todos os seus momentos individuais de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Rembrandt, a universalidade do indiv\u00edduo significa a acumula\u00e7\u00e3o desses momentos, preservando, por assim dizer, sua ordem hist\u00f3rica. Esse termo problem\u00e1tico se aproxima da adi\u00e7\u00e3o de momentos individuais, o que, como express\u00e3o de vida, \u00e9 justamente negado. Isso \u00e9 v\u00e1lido apenas se aceitarmos essa decomposi\u00e7\u00e3o como uma tradi\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gico-t\u00e9cnica e, de certa forma, tentarmos posteriormente mold\u00e1-la de volta \u00e0 totalidade da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Com essa acumula\u00e7\u00e3o, ou por meio dela, os retratos de Rembrandt capturam a vivacidade da vida mental, enquanto o retrato cl\u00e1ssico n\u00e3o \u00e9 apenas atemporal no sentido da arte em geral, ou seja, independente da rela\u00e7\u00e3o entre um antes e um depois do tempo mundial, mas tamb\u00e9m possui uma atemporalidade imanente em sua pr\u00f3pria ordena\u00e7\u00e3o de momentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, os retratos mais ricos e comoventes de Rembrandt s\u00e3o os dos idosos, porque eles representam uma vida vivida m\u00e1xima. Nos retratos de jovens, ele atingiu o mesmo efeito apenas com algumas imagens de Tito, girando a dimens\u00e3o. Aqui, de certa forma, a vida futura com suas evolu\u00e7\u00f5es e destinos \u00e9 acumulada e se torna vis\u00edvel como o presente do futuro sucessivo, assim como a sequ\u00eancia temporal j\u00e1 ocorrida.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>As s\u00e9ries de retratos e desenhos<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>Agora, a continuidade da totalidade fluida da vida, que se re\u00fane no retrato individual, ultrapassa isso e se expressa, de forma real e simb\u00f3lica, na clara inclina\u00e7\u00e3o de Rembrandt em capturar artisticamente a mesma pessoa em m\u00faltiplos est\u00e1gios da vida. Assim, repete-se, em um escopo mais amplo, o sentimento fundamental de que a vida, por assim dizer, n\u00e3o pode ser solidificada em um \u00fanico momento de cria\u00e7\u00e3o. Na s\u00e9rie de imagens de uma pessoa, ou seja, na pr\u00f3pria natureza de ser uma s\u00e9rie, o que o quadro individual mostra na forma de intensidade se desdobra em m\u00faltiplas partes. Isso \u00e9 especialmente evidente ao pensar na s\u00e9rie de seus autorretratos e como essa s\u00e9rie, por si s\u00f3, se contrasta com a concep\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica do ser humano. Ticiano, Andrea del Sarto, assim como Puvis de Chavannes e B\u00f6cklin, deixaram alguns poucos autorretratos nos quais pretendiam retratar sua ess\u00eancia inalter\u00e1vel de uma vez por todas. No entanto, em cada momento capturado como imagem por Rembrandt, toda a vida flui, e essa corrente continua at\u00e9 a pr\u00f3xima imagem. Eles se dissolvem como que em uma vida cont\u00ednua, mal marcando pontos de ancoragem: nunca \u00e9, mas est\u00e1 sempre se tornando. Eu entendo muito bem que se queira derivar o n\u00famero extraordin\u00e1rio desses autorretratos e retratos de fam\u00edlia de problemas puramente pict\u00f3ricos. Embora todos os argumentos a favor disso sejam considerados verdadeiros, essa isolamento do interesse \u201cpuramente pict\u00f3rico\u201d diante da paix\u00e3o pela representa\u00e7\u00e3o humana que irradia de cada retrato me parece algo completamente artificial e uma abstra\u00e7\u00e3o completamente irreal \u2013 compreens\u00edvel apenas em uma \u00e9poca cuja rea\u00e7\u00e3o, em si bastante justificada, a uma arte aned\u00f3tica e que transmite \u201cideias\u201d estranhas \u00e0 arte finalmente prejudicou a compreens\u00e3o da unidade da obra de arte. A for\u00e7a e profundidade absolutamente \u00fanicas com que esses retratos colocam cada pessoa inteira seriam uma coincid\u00eancia bastante not\u00e1vel se Rembrandt realmente tivesse almejado apenas o que hoje chamamos de \u201cpuro aspecto pict\u00f3rico\u201d na concep\u00e7\u00e3o art\u00edstica abstrata. De qualquer forma, como as imagens se apresentam, o problema \u201cpict\u00f3rico\u201d delas \u00e9 simplesmente a representa\u00e7\u00e3o da totalidade da vida humana, mas verdadeiramente pict\u00f3rico, n\u00e3o psicol\u00f3gico, metaf\u00edsico ou aned\u00f3tico. No entanto, assim como isso j\u00e1 acontecia na imagem individual fora dos limites cristalinos da tradi\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica, isso foi explicitado ou se expandiu, por assim dizer, para a multiplicidade dos retratos do mesmo modelo, dos quais ele n\u00e3o podia se cansar o suficiente. Por meio de cada uma dessas s\u00e9ries, ou melhor, como elas, vibra uma vida, que em sua unidade \u00e9 sempre nova e em sua novidade \u00e9 sempre uma. Seria um termo inadequado dizer que os componentes dessas s\u00e9ries se \u201ccomplementam\u201d, pois cada um j\u00e1 \u00e9 \u2013 sem distin\u00e7\u00e3o \u2013 uma totalidade art\u00edstica e uma totalidade de vida, porque esse \u00e9 precisamente o mist\u00e9rio da vida: ser o todo da vida a cada momento e, no entanto, cada momento \u00e9 singularmente diferente de todos os outros. Por isso, a revela\u00e7\u00e3o de sua vis\u00e3o de vida, que para ele, evidentemente, estaria muito distante dessa formula\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, s\u00f3 \u00e9 completa atrav\u00e9s do fato art\u00edstico dessas s\u00e9ries, principalmente de seus autorretratos. E, finalmente, esse conhecimento da vida, que fala n\u00e3o em termos de conceitos, mas de cria\u00e7\u00f5es, \u00e9 simbolizado de maneira diferente pela s\u00e9rie de suas obras desenhadas. Por mais que os movimentos expressivos de suas pinturas e gravuras mostrem a supramomentaneidade da vida, eles, como um todo, s\u00e3o estruturas fechadas e repousantes, que emergem do pr\u00f3prio ato criativo e s\u00e3o colocados em limites s\u00f3lidos, na objetividade e na insularidade da obra de arte acabada. No entanto, os desenhos s\u00e3o apenas como esta\u00e7\u00f5es pelas quais a vida passa sem demora, como os atos individuais de seu curso, ao inv\u00e9s de serem, como nas pinturas, de alguma forma contidos por eles. No seu conjunto, com algumas exce\u00e7\u00f5es, eles t\u00eam um car\u00e1ter diferente dos desenhos de outros mestres. &nbsp;Estes s\u00e3o ou de natureza mais pict\u00f3rica; a inten\u00e7\u00e3o deles, seja conclu\u00edda ou n\u00e3o, \u00e9 uma obra de arte independente, limitada por uma estrutura ideal; ou s\u00e3o esbo\u00e7os ou estudos, fragmentos ou tentativas, onde o significado repousa em conex\u00f5es t\u00e9cnicas ou preparat\u00f3rias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os desenhos de Rembrandt escapam dessa alternativa. Eles t\u00eam algo peculiarmente inacabado, como se um seguisse imediatamente o outro, como uma respira\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a outra, e ainda assim nenhum deles tem a dimens\u00e3o transcendente do esbo\u00e7o \u2013 eles t\u00eam a uni\u00e3o de ser totalidade e continuar fluindo, que \u00e9 pr\u00f3pria de cada ato de nossa vitalidade. Pode-se dizer que s\u00e3o os desenhos de Rembrandt, em sua totalidade, que revelam a ess\u00eancia fundamental e viva de sua arte, que foi condensada em suas pinturas e movimentos expressivos em uma \u00fanica objetiva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>Fechamento e Abertura da Figura Retratada<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>Possivelmente, agora, uma distin\u00e7\u00e3o peculiar em rela\u00e7\u00e3o ao retrato renascentista se esclarece. Eu disse que o retrato renascentista expande seu car\u00e1ter de uma maneira quase atemporal, em uma abstra\u00e7\u00e3o que exclui a vitalidade em movimento de seu processo de forma\u00e7\u00e3o e apenas incorpora seus conte\u00fados puros. Embora o que foi incorporado dentro desse estilo seja apresentado com grande clareza, o selo do misterioso ou enigm\u00e1tico da personalidade impressiona mais alto do que mais baixo. Porque em nosso ser interno-externo h\u00e1 algo obscuro e encoberto, que s\u00f3 adquire compreens\u00e3o, na medida em que for pertinente, do processo de vida em que se torna. Ao elevar o retrato cl\u00e1ssico acima do plano em que esse processo ocorre, em uma unidade altamente fechada de estilo e impress\u00e3o, a personalidade representada adquire aquele car\u00e1ter peculiar de reclus\u00e3o que \u00e9 not\u00e1vel em tantos retratos renascentistas. H\u00e1 duas coisas extremamente not\u00e1veis \u200b\u200baqui. Primeiro, que uma caracter\u00edstica pr\u00f3pria ao estilo art\u00edstico, um princ\u00edpio de forma\u00e7\u00e3o que guia apenas a representa\u00e7\u00e3o em si, continua como uma qualidade do sujeito retratado. &nbsp;A estiliza\u00e7\u00e3o renascentista, na qual o modelo entra ap\u00f3s a atemporalidade de sua forma pura, de certa forma, fecha o entendimento deste modelo de acordo com sua vida temporal em desenvolvimento; e, enquanto geralmente a caracter\u00edstica da representa\u00e7\u00e3o e a caracter\u00edstica do retratado s\u00e3o mantidas distintas (a representa\u00e7\u00e3o do sens\u00edvel ou do banal n\u00e3o precisa ser uma representa\u00e7\u00e3o sens\u00edvel ou banal), aqui parece que o car\u00e1ter ou efeito do estilo inevitavelmente se projeta na realidade pessoal do objeto. O fato de que o homem \u00e9 capturado em uma camada de sua apar\u00eancia que nos afasta de uma intui\u00e7\u00e3o espec\u00edfica de sua vida age como uma reclus\u00e3o desse homem que lhe pertenceria como sujeito, al\u00e9m da arte! E n\u00e3o \u00e9 menos not\u00e1vel que a clareza alcan\u00e7ada por esse estilo e sua determina\u00e7\u00e3o de certa forma racionalista na representa\u00e7\u00e3o coloca seus conte\u00fados em um enigma e opacidade! Isso lan\u00e7a uma profunda luz sobre a diverg\u00eancia entre a conex\u00e3o atemporal e l\u00f3gica de conte\u00fados (mesmo que seja a l\u00f3gica da visibilidade, como aqui) e sua conex\u00e3o vital, que ocorre no fluxo do tempo; mostra como a unidade concebida desta \u00faltima ainda mant\u00e9m a \u00faltima como um mist\u00e9rio. O efeito das imagens de Rembrandt \u00e9 precisamente o oposto. Sacudidas por uma vida t\u00e3o profunda, entrela\u00e7adas em fios de destino t\u00e3o longos, suas figuras muitas vezes nos parecem \u2013 nenhuma delas possui aquele car\u00e1ter peculiar de mist\u00e9rio, como a Mona Lisa ou o Giuliano Medici de Botticelli, como as cabe\u00e7as de jovens de Giorgione em Berlim e Budapeste, ou o Jovem Ingl\u00eas de Ticiano no Pitti. Comparados a esses, o modo de percep\u00e7\u00e3o e apresenta\u00e7\u00e3o de Rembrandt \u00e9, sem d\u00favida, vibrante e se estende pelo nebuloso e, por assim dizer, infinito, faltando na transpar\u00eancia l\u00f3gica; mas, mesmo assim, a pessoa retratada \u00e9 muito mais acess\u00edvel para n\u00f3s, profundamente iluminada, uma entidade compreens\u00edvel e familiar. E isso n\u00e3o ser\u00e1 de forma alguma porque os modelos de Rembrandt eram pessoas mais simples e diretas do que os refinados italianos renascentistas, carregados de todas as nuances culturais. Mas, ao inv\u00e9s disso, \u00e9 porque a compreens\u00e3o mais intricada, rica em elementos e aparentemente menos clara de Rembrandt sobre a pessoa torna a sequ\u00eancia emocional de desenvolvimentos e destinos que deram forma \u00e0 apar\u00eancia atual, tang\u00edvel e, por conseguinte, compreens\u00edvel internamente e assimil\u00e1vel atrav\u00e9s do sentir. Na clara harmonia e equil\u00edbrio do retrato renascentista, os elementos se sustentam mutuamente, a corporalidade impregnada de espiritualidade \u00e9 moldada de acordo com as leis da visibilidade atual; no retrato de Rembrandt, os elementos que surgem, al\u00e9m de sua rela\u00e7\u00e3o imediata entre si, s\u00e3o como moldados a partir de um ponto subjacente, e ao apreend\u00ea-los sensualmente, vivenciamos a din\u00e2mica da vida e do destino que os esculpiram. O que \u00e9 altamente contradit\u00f3rio quando analisado atrav\u00e9s das categorias intelectuais e apenas parcialmente pode ser expressado por meio delas, aqui \u00e9 habilmente realizado artisticamente: \u00e9 moldada em uma estrutura puramente visual, sem qualquer associa\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria ou para al\u00e9m da arte, a vitalidade tornada real, a representa\u00e7\u00e3o do atualmente percept\u00edvel adquiriu a temporalidade de uma vida longa e, por meio de sua for\u00e7a e ritmo, absorveu em si mesma o passar do tempo, sem que a sucess\u00e3o tenha quebrado a coexist\u00eancia ou vice-versa. O flutuante e autossustent\u00e1vel daqueles outros construtos \u00e9 substitu\u00eddo pela estratifica\u00e7\u00e3o das passagens do passado, e com essas \u00faltimas, que de alguma forma se perdem na escurid\u00e3o, o presente \u00e9 trazido em contato eficaz atrav\u00e9s do fluxo de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Toda a arte do <em>Seicento<\/em> italiano \u00e9, apesar de toda a paix\u00e3o expressiva, claramente guiada pela tend\u00eancia \u00e0 clareza racionalista. Cada forma deve revelar completamente o que se passa nela, cada afeto deve ser apresentado de maneira v\u00edvida e precisa at\u00e9 o \u00faltimo detalhe, os movimentos e posi\u00e7\u00f5es s\u00e3o intensificados ao m\u00e1ximo para n\u00e3o deixar d\u00favidas ao espectador sobre o que as pessoas est\u00e3o sentindo. A \u201cclareza\u201d cartesiana \u00e9 buscada. Uma profunda falta de vergonha emocional est\u00e1 presente nisso \u2013 mesmo que o objeto, concebido como realidade, n\u00e3o toque na \u00e1rea da vergonha. \u00c9 preciso manter em mente essa caracter\u00edstica da sociedade italiana altamente culta, \u00e1vida por boa forma e representa\u00e7\u00e3o, para apreciar a pura espiritualidade do filho de moleiro, pouco educado literariamente, que durante o auge de seu desempenho estava acampado em um bar miser\u00e1vel, tinha uma camponesa como amante e pareceria b\u00e1rbaro para aqueles decorativos italianos; e que na express\u00e3o de toda coisa espiritual mostrou a maior delicadeza, conten\u00e7\u00e3o e sutileza, que s\u00e3o os tra\u00e7os n\u00e3o procurados da alma quando ela realmente age puramente como alma<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Certamente, o s\u00e9culo XVII redescobriu a alma \u00e0 sua maneira; com uma consci\u00eancia mais agu\u00e7ada do que antes, como Descartes no <em>Cogito, ergo sum<\/em>. No entanto, o Barroco possu\u00eda apenas meios mecanicistas para express\u00e1-la, que, para atingir seu objetivo, se intensificaram ao extremo, sem conseguir alcan\u00e7\u00e1-lo, pois estava desde o in\u00edcio em um plano diferente. No entanto, \u00e9 da natureza da vida que sua compreens\u00e3o real permane\u00e7a ausente, desde que se exija apenas suas claridades que parecem permanecer entre si, e que ela s\u00f3 se torna clara para o olhar contemplativo quando suas claridades se desenvolvem a partir de suas obscuridades, que tamb\u00e9m permanecem obscuras \u2013 uma rela\u00e7\u00e3o que, ainda mais geralmente, continua no campo te\u00f3rico: em rela\u00e7\u00e3o a certos fatos e problemas fundamentais, o esfor\u00e7o pela clareza l\u00f3gico-conceitual de sua apresenta\u00e7\u00e3o e solu\u00e7\u00e3o sempre surgiu de uma obscuridade fundamental, que persistiu em n\u00e3o menores aparentes resultados.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou expresso de outra forma: o Ser, t\u00e3o mais pl\u00e1stico, seguro em sua forma, menos problem\u00e1tico do que o Devir parece ser, ainda \u00e9 misterioso e fechado, enquanto o Devir, que carece de todas essas qualidades do Ser, ainda \u00e9 o que podemos realmente sentir e assimilar, e cada est\u00e1gio do Ser nos assimila internamente e torna compreens\u00edvel \u2013 talvez porque at\u00e9 o ato de compreender \u00e9 uma forma de vida e apenas o que \u00e9 vivo pode verdadeiramente compreender a vida. Essa qualidade misteriosa, \u00e0s vezes intensificada at\u00e9 o inquietante, que frequentemente caracteriza o retrato cl\u00e1ssico, talvez decorra do fato de representar um estado de ser desvinculado da vivacidade temporal; o retrato de Rembrandt parece decifrar seus pr\u00f3prios mist\u00e9rios para n\u00f3s, pois ele escapa da vida sempre em devir, sujeita ao destino do tempo, ao qual ainda est\u00e1 ligado.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>O c\u00edrculo na representa\u00e7\u00e3o do ser humano<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p>Aqui, \u00e9 claro, um c\u00edrculo parece ser inevit\u00e1vel. Temos a representa\u00e7\u00e3o de uma apar\u00eancia atual, na qual, se entendo corretamente, sua hist\u00f3ria emocional \u00e9 de certa forma depositada e seu processo de desenvolvimento vivido de dentro para fora ainda \u00e9 vis\u00edvel, e, assim, adquire uma esp\u00e9cie de compreens\u00e3o. Mas essa hist\u00f3ria temporal e multifacetada s\u00f3 pode ser compreendida a partir da vis\u00e3o atemporal e \u00fanica! Se chamarmos isso brevemente de \u201cpresente\u201d da representa\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o este presente deve ser interpretado por meio do passado, mas esse passado s\u00f3 pode ser interpretado a partir do presente que j\u00e1 est\u00e1 presente! Essa forma completa de interpreta\u00e7\u00e3o: que a apar\u00eancia deve ser entendida a partir do que, por sua vez, s\u00f3 pode ser entendido a partir da apar\u00eancia, parece dominar a representa\u00e7\u00e3o do ser humano em todos os lugares. Pois essa representa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma express\u00e3o sens\u00f3rio-espacial, uma mera disposi\u00e7\u00e3o de cores que adquirem sentido para n\u00f3s apenas ao expressar algo \u2013 algo geral ou individualizado \u2013 relacionado ao \u00e2mbito da alma. Por\u00e9m, para entender esse aspecto da alma, n\u00e3o temos outra base de prova ou indica\u00e7\u00e3o sen\u00e3o a pr\u00f3pria visibilidade corporal dada. No entanto, o c\u00edrculo parece n\u00e3o ser insol\u00favel; ele repousa apenas na premissa n\u00e3o indiscut\u00edvel de que o aspecto da alma de uma apar\u00eancia humana se torne acess\u00edvel para n\u00f3s de uma maneira completamente separada e diferente do aspecto corporal, que podemos ver isso diretamente, enquanto inferimos aquilo indiretamente. No entanto, isso pode ser uma separa\u00e7\u00e3o artificial; assim como o ser humano como sujeito \u00e9 uma unidade indivis\u00edvel, uma vida total que impulsiona e molda o chamado f\u00edsico e o chamado mental em um processo unificado \u2013 assim tamb\u00e9m, como observador, ele possui uma capacidade correspondente: perceber o outro ser humano com uma fun\u00e7\u00e3o unificada, em que a percep\u00e7\u00e3o sensorial e mental n\u00e3o est\u00e3o separadas por uma linha divis\u00f3ria interna, assim como o f\u00edsico e o mental como fatos de vida tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O dualismo entre o sensorial-f\u00edsico e o mental \u00e9 abolido em Shakespeare, assim como em Rembrandt. Chamar o amor de Romeu e Julieta de meramente sensorial, causado apenas pela beleza f\u00edsica e dirigido apenas a ela, devido \u00e0 sua cria\u00e7\u00e3o rel\u00e2mpago, \u00e9 um entendimento revoltante. O ser humano inteiro ama o ser humano inteiro; e onde quer que esse amor aconte\u00e7a, ele \u00e9 algo totalmente irracional, e seu espanto n\u00e3o diminui nem se torna mais claro, mesmo que os indiv\u00edduos tenham se conhecido em sua totalidade mental durante cinco anos antes. O desejo sensorial n\u00e3o \u00e9 a causa, mas uma das manifesta\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas do evento central do amor. Assim como aqui um indiv\u00edduo recebe o corpo e a alma do outro indiv\u00edduo indistintamente, ele tamb\u00e9m o recebe com seu pr\u00f3prio corpo e alma, ambos indistintos, o objeto e o sujeito do amor agem como uma unidade perfeita. \u00c9 completamente sem sentido falar do corpo e da alma como partes que comp\u00f5em o ser humano. Uma vez que eles tenham sido separados de maneira dualista, \u00e9 claro que \u00e9 dif\u00edcil ou imposs\u00edvel uni-los novamente. Enquanto afirmarmos que s\u00f3 podemos \u201cperceber\u201d o f\u00edsico, o que \u00e9 correto em defini\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m uma peti\u00e7\u00e3o de princ\u00edpio, que precisamos primeiro \u201centender\u201d o mental. Talvez, assim como temos uma exist\u00eancia total, tenhamos tamb\u00e9m uma percep\u00e7\u00e3o total, que \u00e9 dividida apenas por reflex\u00e3o por raz\u00f5es espec\u00edficas \u2013 talvez porque ela n\u00e3o se estende com igual seguran\u00e7a em todas as dimens\u00f5es e n\u00e3o pode determinar o \u201cmental\u201d de forma t\u00e3o inequ\u00edvoca quanto o \u201cf\u00edsico\u201d; no entanto, isso n\u00e3o exclui essa unidade, assim como a vis\u00e3o \u00f3ptica n\u00e3o \u00e9 menos uma fun\u00e7\u00e3o unificada porque o ponto de vis\u00e3o mais agu\u00e7ado e as bordas do campo de vis\u00e3o t\u00eam clareza muito diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>O que chamamos de autoconsci\u00eancia ou senso interno tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 uma coexist\u00eancia ou sequ\u00eancia de nossos elementos de vida percebidos individualmente, mas sim um conhecimento da unidade de todos esses elementos ou de nossa pessoa \u2013 independentemente de quando isso surge em nossa hist\u00f3ria de vida e de como definir melhor essa \u201cunidade\u201d aqui. Essa fun\u00e7\u00e3o, cujo portador pode ser chamado de \u201csentido total\u201d \u2013 embora o \u00f3rg\u00e3o desse sentido ainda n\u00e3o possa ser identificado \u2013 e que se prova inequivocamente diante da pr\u00f3pria pessoa, talvez encontre seu objeto em outras pessoas tamb\u00e9m; a unidade formal de percep\u00e7\u00e3o desse tipo de sentido poderia se aplicar tanto a estranhos quanto ao pr\u00f3prio eu. H\u00e1 muitas indica\u00e7\u00f5es a favor desse comportamento. J\u00e1 h\u00e1 algum tempo, temos observado como muitas coisas que acreditamos \u201cver\u201d diretamente na verdade n\u00e3o s\u00e3o vistas, mas, como dizemos, \u201ccompreendidas\u201d. Com uma an\u00e1lise mais aprofundada, aquilo que \u00e9 realmente percebido de forma puramente sensorial dentro da impress\u00e3o geral come\u00e7a a se fundir cada vez mais, mesclando-se com o que \u00e9 acess\u00edvel de outra forma, de forma cont\u00ednua. Assim, na coisa vista como uma unidade, a separa\u00e7\u00e3o entre o captado imediatamente e o captado indiretamente se torna problem\u00e1tica e artificial. Talvez a compreens\u00e3o kantiana de que mesmo o objeto emp\u00edrico s\u00f3 seja alcan\u00e7ada por fun\u00e7\u00f5es mentais, realizadas no material sensorial, v\u00e1 nessa dire\u00e7\u00e3o; se \u00e9 verdade que percep\u00e7\u00f5es sem conceitos s\u00e3o cegas e conceitos sem percep\u00e7\u00f5es s\u00e3o vazios, ent\u00e3o uma unidade \u00e9 criada por sua s\u00edntese, sendo ainda question\u00e1vel se essa unidade n\u00e3o corresponde a uma fun\u00e7\u00e3o originalmente unificada, cuja separa\u00e7\u00e3o em conceito e percep\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 intrinsecamente definida em sua pr\u00f3pria estrutura. Esse motivo leva, com uma modifica\u00e7\u00e3o talvez n\u00e3o t\u00e3o fundamental, a que a imagem do ser humano f\u00edsico e do ser humano mental seja alcan\u00e7ada por uma fun\u00e7\u00e3o fundamentalmente unificadora, que \u00e9 desmontada posteriormente pela vis\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica, por pontos de vista introduzidos de fora. Dentro da escultura, as figuras de Michelangelo talvez expressem isso de maneira mais intensa. Aqui, a forma f\u00edsica aparece objetivamente, criada pelo artista, de tal maneira impregnada pelo estado mental que um \u00fanico ato interno e insepar\u00e1vel do observador incorpora ambos: forma f\u00edsica e significado mental s\u00e3o apenas duas palavras para o mesmo estado de ser, que \u00e9 muito unificado para que sua apreens\u00e3o se componha de uma fun\u00e7\u00e3o puramente visual e interpretativa.<\/p>\n\n\n\n<p>O c\u00edrculo, onde o aspecto mental deve ser compreendido a partir do aspecto f\u00edsico, e o aspecto f\u00edsico deve ser compreendido a partir do aspecto mental, \u00e9 a consequ\u00eancia e a prova da unidade da manifesta\u00e7\u00e3o. Pois assim que um ser em si mesmo unit\u00e1rio \u00e9 dividido em uma dualidade de elementos, parece inevit\u00e1vel que um se baseie no outro e o outro no um. O c\u00edrculo n\u00e3o \u00e9 defeituoso, mas simplesmente denota a realidade dessa unidade; o fato de que ele \u00e9 continuamente percorrido pela nossa observa\u00e7\u00e3o, \u00e9 precisamente o testemunho da natureza do corpo animado. Certamente, nas complica\u00e7\u00f5es e decomposi\u00e7\u00f5es da vida emp\u00edrica, o c\u00edrculo n\u00e3o ocorre em sua relatividade absoluta, de maneira simult\u00e2nea e equilibrada, mas \u00e9 como se fosse desmembrado, com um peso vari\u00e1vel deste ou daquele elemento, sugerindo a ilus\u00e3o de seu funcionamento separado. Mas talvez seja precisamente inerente \u00e0 natureza da arte permitir que a unidade entre em vigor; \u00e9 precisamente a arte que molda a apar\u00eancia humana de tal forma que a dualidade da percep\u00e7\u00e3o f\u00edsica e mental, da observa\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o, na qual a rela\u00e7\u00e3o insatisfat\u00f3ria entre o observador e o observado muitas vezes estica a observa\u00e7\u00e3o \u2013 essa dualidade desaparece. Por isso, esse c\u00edrculo se torna ainda mais claro no retrato do que em qualquer outra objetifica\u00e7\u00e3o do ser humano: aqui, ele tamb\u00e9m expressa a unidade da percep\u00e7\u00e3o formadora, que corresponde \u00e0 unidade do ser.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa unidade \u00e9 continuamente vivenciada subjetivamente. No entanto, o evento t\u00edpico \u00e9 que essa unidade, quando \u00e9 objetificada por nossas categorias mentais \u2013 isto \u00e9, elevada acima da experi\u00eancia em si \u2014, se desintegra em elementos que parecem heterog\u00eaneos. Por\u00e9m, o mesmo reconhecimento, a mesma pr\u00e1tica por meio da qual isso acontece, imediatamente come\u00e7a seus esfor\u00e7os para reunir o que foi separado. Para ambos, isso \u00e9, em termos absolutos, um objetivo que est\u00e1 no infinito. Apenas a arte, cujas objetifica\u00e7\u00f5es em geral mant\u00eam rela\u00e7\u00f5es mais pr\u00f3ximas com a imediatez subjetiva da experi\u00eancia, parece ser capaz de realizar reflexos relativamente intactos dessa unidade \u2013 n\u00e3o uma reuni\u00e3o, uma s\u00edntese na qual as costuras nunca se fundem, mas um reflexo da unidade original, pr\u00e9-sint\u00e9tico, porque pr\u00e9-anal\u00edtico. Os te\u00f3ricos de arte italianos do s\u00e9culo XVII, de fato, colocaram a \u00eanfase do valor do retrato inteiramente em sua psicologia; a \u201cespressione\u201d claramente parecia ser a coisa principal. Eu gostaria de acreditar que Rembrandt teria rejeitado isso completamente, que ele simplesmente queria pintar as pessoas como elas pareciam \u2013 ou seja, a vis\u00e3o que ele tinha de suas apar\u00eancias; apenas que, dentro de sua pr\u00e1tica art\u00edstica, a \u201capar\u00eancia\u201d ainda n\u00e3o havia sido dividida em f\u00edsico e mental. \u00c9 interessante que, na mesma \u00e9poca, na Holanda, a alma e a corporalidade na teoria filos\u00f3fica foram separadas de forma dualista e radical, a ponto de a religi\u00e3o e a metaf\u00edsica terem que fornecer suas \u00faltimas informa\u00e7\u00f5es para permitir que elas se unissem. Arnold Geulinx invocou o Deus pessoal diante da absoluta falta de influ\u00eancia m\u00fatua entre o corpo e a alma, alegando que, em casos de eventos f\u00edsicos, Deus causava a sensa\u00e7\u00e3o correspondente, e em casos de atos de vontade, causava o movimento corporal correspondente! Spinoza torna tudo ainda mais inextric\u00e1vel, pois ele expressa o aspecto da alma por si s\u00f3 e o aspecto corporal por si s\u00f3, cada um em sua linguagem espec\u00edfica, de forma que n\u00e3o h\u00e1 lugar para um dentro do outro; a harmonia emp\u00edrica entre ambos \u00e9 poss\u00edvel apenas porque o ser expresso neles ou atrav\u00e9s deles \u00e9 absolutamente unit\u00e1rio, incapaz de diferencia\u00e7\u00e3o. Para a arte, no entanto, a unidade n\u00e3o \u00e9 algo conceitual atr\u00e1s dos elementos, mas sim a pr\u00f3pria visibilidade imediata dos elementos. Essa unidade em Rembrandt n\u00e3o est\u00e1 carregada de uma din\u00e2mica turbulenta, como em Michelangelo: aqui, ela alcan\u00e7a sua m\u00e1xima for\u00e7a de impacto ao parecer estar prestes a se romper. Em Rembrandt, essa unidade possui mais o car\u00e1ter de uma serena naturalidade. Inegavelmente, por\u00e9m, parece-me que, no auge da representa\u00e7\u00e3o pict\u00f3rica, Rembrandt n\u00e3o interpreta o corpo atrav\u00e9s da alma, nem a alma atrav\u00e9s do corpo. Na arte, onde n\u00e3o se deveria falar de \u201cmeios\u201d exceto no sentido puramente t\u00e9cnico e nos est\u00e1gios anteriores \u00e0 conclus\u00e3o da obra individual, isso implicaria uma deprecia\u00e7\u00e3o. O artista pode considerar qual meio alcan\u00e7ar\u00e1 um efeito espec\u00edfico; na obra de arte acabada e na impress\u00e3o que ela proporciona, n\u00e3o h\u00e1 separa\u00e7\u00e3o e subdivis\u00e3o de acordo com a categoria intelectual-pr\u00e1tica de meio e fim, aplica-se a frase de Schopenhauer: \u201cA arte est\u00e1 em todo lugar em seu objetivo.\u201d At\u00e9 a solu\u00e7\u00e3o \u00f3bvia: cada elemento na obra de arte \u00e9 simultaneamente meio e fim para todos os outros \u2013 afasta-se de sua unidade essencial e retorna a uma certa autonomia dos elementos, que justamente entregaram \u00e0 totalidade final da obra de arte. Certamente, essa conex\u00e3o teleol\u00f3gica dos elementos \u00e9 mais profunda e viva do que a mec\u00e2nica, que se apega \u00e0 mera coexist\u00eancia dos elementos, ao significado do indiv\u00edduo em si (claro, com certas reservas). No entanto, em \u00faltima inst\u00e2ncia, ambos est\u00e3o no mesmo plano, ambos s\u00e3o conex\u00f5es mais externas ou internas de partes concebidas separadamente e n\u00e3o alcan\u00e7am a unidade al\u00e9m de toda divis\u00e3o, como se manifesta na obra de arte em sua ess\u00eancia pura e final. Assim, de qualquer maneira, a obra de arte n\u00e3o pode ser concebida como a s\u00edntese de suas partes, como se fossem meios e fins \u2013 especialmente porque, como obra completa, n\u00e3o possui \u201cpartes\u201d no sentido independente que possibilitaria essa s\u00edntese. Portanto, o retrato, pelo menos na perfei\u00e7\u00e3o alcan\u00e7ada por Rembrandt, n\u00e3o aborda o corpo e a alma em uma \u201cintera\u00e7\u00e3o\u201d em que um seria o meio para a representa\u00e7\u00e3o ou interpreta\u00e7\u00e3o do outro, mas sim abrange a totalidade do ser humano, que n\u00e3o \u00e9 a s\u00edntese do corpo e da alma, mas sim sua indivisibilidade.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Especialmente em rela\u00e7\u00e3o a esse car\u00e1ter de \u00eanfase expressiva, \u00e9 muito instrutivo que, em certos desenhos falsificados \u00e0 m\u00e3o, afetos de uma clareza extraordin\u00e1ria e at\u00e9 grosseira sejam apresentados. O falsificador acreditava evidentemente que, por meio dessa veem\u00eancia de express\u00e3o, ele poderia impregnar seu trabalho com a espiritualidade rembrandtiana de maneira marcante e convincente. No entanto, \u00e9 exatamente por isso que ele se revelou: a franqueza insistente da comunica\u00e7\u00e3o espiritual torna as conten\u00e7\u00f5es e cascas inquebr\u00e1veis das express\u00f5es afetivas de Rembrandt ainda mais inconfund\u00edveis; de tal forma que a psicologia excessivamente \u00f3bvia desses trabalhos justificaria sua rejei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Abaixo voc\u00ea ir\u00e1 ler um trecho da obra &#8220;Rembrandt: Um ensaio em Filosofia da Arte&#8221;, por Georg Simmel. Caso voc\u00ea tenha interesse em adquirir a obra clique aqui, ou na capa do livro abaixo. 1. A express\u00e3o da vida interior A Continuidade da Vida e o Movimento de Express\u00e3o As\u2026<\/p>\n<p class=\"continue-reading-button\"> <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2022\/08\/14\/rembrandt-de-georg-simmel\/\">Leia mais<i class=\"crycon-right-dir\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":942,"comment_status":"closed","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5,42],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/947"}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=947"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/947\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":948,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/947\/revisions\/948"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/942"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=947"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=947"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=947"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}