{"id":95,"date":"2017-10-24T23:50:45","date_gmt":"2017-10-24T23:50:45","guid":{"rendered":"http:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=95"},"modified":"2017-10-24T23:50:45","modified_gmt":"2017-10-24T23:50:45","slug":"capitulo-1-de-introducao-aos-estudos-historicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2017\/10\/24\/capitulo-1-de-introducao-aos-estudos-historicos\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 1 de &#8220;Introdu\u00e7\u00e3o aos Estudos Hist\u00f3ricos&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Caso voc\u00ea prefira baixar o cap\u00edtulo em PDF, <a href=\"http:\/\/www.antoniofontoura.com.br\/pdf\/Introdu\u00e7\u00e3o aos Estudos Hist\u00f3ricos.pdf\">clique aqui<\/a>.<\/p>\n<p>Caso deseje adquirir o livro, <a href=\"http:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/introducao-aos-estudos-historicos\/\">clique aqui<\/a>.<\/p>\n<hr \/>\n<h2>A pesquisa de documentos (heur\u00edstica)<\/h2>\n<p>A hist\u00f3ria se faz com documentos. Os documentos s\u00e3o vest\u00edgios deixados pelos pensamentos e atos das pessoas do passado. Entre os pensamentos e atos humanos, s\u00e3o poucos os que deixam vest\u00edgios vis\u00edveis, e esses, assim que s\u00e3o produzidos, raramente s\u00e3o duradouros: um m\u00ednimo acidente pode apag\u00e1-los. Todo pensamento ou todo ato que n\u00e3o deixa vest\u00edgios, diretos ou indiretos, ou cujos vest\u00edgios acabam por desaparecer, est\u00e3o perdidos para a hist\u00f3ria; \u00e9 como se jamais tivessem existido. Sem documenta\u00e7\u00e3o, imensos per\u00edodos do passado da humanidade ser\u00e3o sempre desconhecidos. N\u00e3o se pode substituir os documentos: sem documentos, sem hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Para associar adequadamente um documento com o fato que \u00e9 seu vest\u00edgio, devem ser adotadas numerosas precau\u00e7\u00f5es, indicadas mais adiante. Mas, sem d\u00favida, previamente a qualquer exame cr\u00edtico e a qualquer interpreta\u00e7\u00e3o de documentos, coloca-se a quest\u00e3o de sabermos se existem documentos, e caso existam, quantos s\u00e3o e onde est\u00e3o. Se imaginamos investigar certo acontecimento na hist\u00f3ria<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote1sym\" name=\"sdfootnote1anc\"><sup>1<\/sup><\/a>, seja ele qual for, come\u00e7aremos por nos informar sobre o lugar ou lugares onde est\u00e3o os documentos necess\u00e1rios para estud\u00e1-lo, supondo que existam. Buscar e encontrar os documentos s\u00e3o a primeira parte, e uma das principais, do of\u00edcio de historiador. Na Alemanha recebe o nome de heur\u00edstica (<i>Heuristik<\/i>), termo conveniente por sua brevidade. \u00c9 necess\u00e1rio demonstrar a import\u00e2ncia capital da heur\u00edstica? N\u00e3o, sem d\u00favida. \u00c9 evidente que, se n\u00e3o for corretamente praticada, quer dizer, se n\u00e3o se consegue encontrar, antes de iniciar uma pesquisa hist\u00f3rica, todas as refer\u00eancias dispon\u00edveis, aumentam-se bastante as chances (j\u00e1 numerosas, de toda maneira) de trabalhar a partir de dados insuficientes: obras de erudi\u00e7\u00e3o ou hist\u00f3ria, preparadas conforme as normas metodol\u00f3gicas mais exatas, seriam prejudiciais, quando n\u00e3o inteiramente in\u00fateis, por conta da simples circunst\u00e2ncia material de que o autor desconhecia documentos que deveria ter \u00e0 m\u00e3o (e ficaria feliz em t\u00ea-los), que poderiam ter ilustrado, complementado ou desacreditado aqueles que utilizou. Considerando-se a igualdade nas demais situa\u00e7\u00f5es, a superioridade dos eruditos e historiadores de hoje frente aos de s\u00e9culos passados reside no fato de que estes \u00faltimos n\u00e3o dispunham de tantos recursos para se manter t\u00e3o bem informados como existem na atualidade<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote2sym\" name=\"sdfootnote2anc\"><sup>2<\/sup><\/a>. A heur\u00edstica, de fato, \u00e9 hoje muito mais f\u00e1cil que em outras \u00e9pocas, ainda que o bom Wagner esteja correto quando afirma:<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0in;\" align=\"CENTER\"><i>Wie schwer sind nicht die Mittel zu erwerben<\/i><\/p>\n<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0in;\" align=\"CENTER\"><i>Durch die man zu den Quellen steigt<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote3sym\" name=\"sdfootnote3anc\"><sup>3<\/sup><\/a>.<\/i><\/p>\n<p>Come\u00e7aremos por explicar por que a tarefa de estabelecer a documenta\u00e7\u00e3o de maneira adequada continua sendo \u00e1rdua, mesmo diante dos progressos realizados nos \u00faltimos cem anos; e como esta tarefa fundamental poderia ser simplificada por novos progressos.<\/p>\n<p>I. Aqueles que, pela primeira vez, buscaram escrever uma hist\u00f3ria partindo das fontes, depararam-se com uma situa\u00e7\u00e3o embara\u00e7osa. Deveriam recontar os acontecimentos recentes, cujas testemunhas ainda viviam? Havia o recurso de entrevistar as testemunhas sobreviventes. Tuc\u00eddides, Froissart e muitos outros, da Antiguidade at\u00e9 nossos dias, seguiram esse procedimento. Quando o historiador da costa do Pac\u00edfico, H. H. Bancroft, prop\u00f4s-se a reunir uma documenta\u00e7\u00e3o sobre determinados eventos, dos quais muitos protagonistas ainda viviam, n\u00e3o poupou gastos, e ergueu um ex\u00e9rcito de colaboradores para que iniciassem conversas com eles<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote4sym\" name=\"sdfootnote4anc\"><sup>4<\/sup><\/a>. Mas, como fazer no caso de acontecimentos antigos, dos quais as testemunhas n\u00e3o mais vivem, e a tradi\u00e7\u00e3o oral n\u00e3o tenha preservado qualquer mem\u00f3ria? N\u00e3o caberia outro meio sen\u00e3o reunir todo tipo de documentos, preferencialmente escritos, relativos ao passado long\u00ednquo que se pretendia estudar. Algo dif\u00edcil, posto que as bibliotecas eram raras, os arquivos secretos, e os documentos estavam dispersos. H. H. Bancroft, que se encontrava, por volta de 1860, na Calif\u00f3rnia, em situa\u00e7\u00e3o semelhante a de nossos primeiros historiadores, agiu da seguinte maneira: sendo rico, acabou adquirindo, sem se importar com valores, todos os documentos que se achavam \u00e0 venda, impressos ou manuscritos; negociou com fam\u00edlias ou empresas em dificuldades financeiras para a compra de seus arquivos, ou buscou autoriza\u00e7\u00e3o para que fossem copiados por seus auxiliares. Isso feito, armazenou sua cole\u00e7\u00e3o em um edif\u00edcio constru\u00eddo para este prop\u00f3sito, organizando o que havia conseguido. Teoricamente, nada mais racional. Mas este procedimento eficiente, caracter\u00edstico dos estadunidenses, com o esp\u00edrito empreendedor e o conjunto de recursos que asseguraram seu \u00eaxito, n\u00e3o seria poss\u00edvel de ser aplicado em todas as situa\u00e7\u00f5es; al\u00e9m disso, em diferentes lugares ou momentos teria sido simplesmente invi\u00e1vel. Em qualquer outro lugar, as coisas teriam se passado de forma diferente.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca do Renascimento, os documentos da Antiguidade e da Idade M\u00e9dia se achavam dispersos em um sem n\u00famero de bibliotecas particulares e uma quantidade infinita de arquivos, muitos inacess\u00edveis, sem mencionar aqueles que seguiam clandestinamente sem que ningu\u00e9m suspeitasse de sua exist\u00eancia. Era uma tarefa materialmente imposs\u00edvel encontrar um invent\u00e1rio completo dos documentos \u00fateis sobre um tema espec\u00edfico (por exemplo, a lista dos manuscritos conservados de uma obra antiga); e se por um milagre fosse poss\u00edvel obter essa lista, a consulta aos documentos teria exigido viagens e gastos intermin\u00e1veis. As consequ\u00eancias s\u00e3o f\u00e1ceis de prever. 1\u00aa: A heur\u00edstica lhes impunha dificuldades insuper\u00e1veis; os primeiros estudiosos e historiadores trabalharam n\u00e3o com todos os documentos, nem mesmo com os mais significativos, mas com aqueles que conseguiam encontrar, de modo que muitas vezes estiveram mal informados, e suas obras n\u00e3o t\u00eam interesse para n\u00f3s sen\u00e3o na medida em que registraram documentos hoje perdidos. 2\u00ba: Os primeiros estudiosos e historiadores relativamente bem informados foram aqueles que, por conta de sua profiss\u00e3o, tiveram acesso a bons arquivos: bibliotec\u00e1rios, arquivistas, religiosos, magistrados, cuja Ordem ou Associa\u00e7\u00e3o contava com bibliotecas e arquivos significativos<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote5sym\" name=\"sdfootnote5anc\"><sup>5<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que logo surgiram colecionadores que, apelando ao dinheiro, quando n\u00e3o a procedimentos mais question\u00e1veis, como o furto, formaram, com objetivos mais ou menos cient\u00edficos, seus pr\u00f3prios \u201cgabinetes\u201d, cole\u00e7\u00f5es de c\u00f3pias e documentos originais. Mas tais colecionadores europeus, bastante numerosos a partir do s\u00e9culo XV, eram muito diferentes de H. H. Bancroft. De fato, nosso californiano n\u00e3o recolheu sen\u00e3o documentos espec\u00edficos de um assunto particular (a hist\u00f3ria de determinados Estados do Pac\u00edfico), e teve a ambi\u00e7\u00e3o de organizar todos; a maior parte dos colecionadores europeus reuniu vest\u00edgios, fragmentos de todos os tipos e um pequeno n\u00famero de documentos, se compararmos com o colossal volume que existia naquele tempo. Al\u00e9m disso, n\u00e3o foi, em geral, pelo desejo de coloc\u00e1-los em dom\u00ednio p\u00fablico que os Peiresc, Gaigni\u00e8res, Clairambault, Colbert, e tantos outros, retiraram de circula\u00e7\u00e3o documentos que corriam o risco de se perder: contentavam-se (o que j\u00e1 era louv\u00e1vel) em compartilhar, de forma mais ou menos altru\u00edsta, com amigos. Mas o humor dos colecionadores (e de seus herdeiros) \u00e9 vol\u00favel, e mesmo exc\u00eantrico. \u00c9 certo que \u00e9 prefer\u00edvel que os documentos estejam em cole\u00e7\u00f5es privadas que expostos a todo tipo de riscos e furtados por completo \u00e0 pesquisa cient\u00edfica; mas para que a heur\u00edstica seja verdadeiramente facilitada, a primeira condi\u00e7\u00e3o \u00e9 que todas as cole\u00e7\u00f5es de documentos sejam <i>p\u00fablicas<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote6sym\" name=\"sdfootnote6anc\"><sup>6<\/sup><\/a><\/i>.<\/p>\n<p>Agora, as melhores cole\u00e7\u00f5es particulares de documentos \u2013 de bibliotecas e museus \u2013 estavam naturalmente, desde o Renascimento, nas casas reais da Europa. Dos tempos do antigo regime, as cole\u00e7\u00f5es reais permaneceram em sua maioria abertos, ou entreabertos, ao p\u00fablico. E enquanto as demais cole\u00e7\u00f5es eram com frequ\u00eancia vendidas quando seus propriet\u00e1rios faleciam, aquelas, por outro lado, n\u00e3o cessaram de se enriquecer: enriqueceram justamente com os restos das demais. O Gabinete de Manuscritos da Fran\u00e7a, por exemplo, formado pelos reis da Fran\u00e7a e colocados por eles \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, tinha, em fins do XVIII, absorvido a melhor parte das cole\u00e7\u00f5es reunidas por amadores e eruditos durante os dois s\u00e9culos precedentes<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote7sym\" name=\"sdfootnote7anc\"><sup>7<\/sup><\/a>. O mesmo aconteceu em outros pa\u00edses. A concentra\u00e7\u00e3o de um grande n\u00famero de documentos hist\u00f3ricos, em institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas ou semi-p\u00fablicas, foi o feliz resultado desse processo espont\u00e2neo.<\/p>\n<p>Ainda mais favor\u00e1veis e ben\u00e9ficas para a melhoria das condi\u00e7\u00f5es materiais da pesquisa hist\u00f3rica foram as a\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias. Na Fran\u00e7a, a Revolu\u00e7\u00e3o de 1789, bem como movimentos an\u00e1logos em outros pa\u00edses, buscou o confisco, pela viol\u00eancia e em benef\u00edcio do Estado, ou seja, de todo mundo, de uma grande quantidade de arquivos e cole\u00e7\u00f5es particulares: arquivos, bibliotecas e museus da coroa, arquivos e bibliotecas de conventos e corpora\u00e7\u00f5es desaparecidas, etc. Entre n\u00f3s, em 1790, a Assembleia Constituinte colocou nas m\u00e3os do Estado uma quantidade prodigiosa de dep\u00f3sitos de documentos hist\u00f3ricos at\u00e9 ent\u00e3o dispersos, e guardados da curiosidade dos pesquisadores; essas riquezas foram mais tarde organizadas em diferentes organismos nacionais. Este mesmo processo se repetiu mais recentemente, em menor escala, na Alemanha, Espanha e It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Nem as cole\u00e7\u00f5es do antigo regime, nem os confiscos revolucion\u00e1rios foram realizados sem perdas significativas. O colecionador \u00e9, ou muito frequentemente foi, um b\u00e1rbaro que n\u00e3o hesitava, para enriquecer sua cole\u00e7\u00e3o com exemplares ou amostras raras, em mutilar monumentos, arrancar a folhas de manuscritos, mudar de lugar folhas de arquivos, visando se apropriar de certos fragmentos. Numerosos vandalismos semelhantes foram cometidos antes da Revolu\u00e7\u00e3o. As a\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias, de confiscos e transfer\u00eancias, produziram tamb\u00e9m, naturalmente, consequ\u00eancias desastrosas: al\u00e9m da destrui\u00e7\u00e3o pela neglig\u00eancia, ou mesmo pelo mero prazer de destruir, teve-se a ideia de fazer uma sele\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica dos documentos, e de n\u00e3o conservar nada al\u00e9m daqueles que fossem \u201cinteressantes\u201d ou \u201c\u00fateis\u201d, desprezando o resto. Essa atividade de sele\u00e7\u00e3o foi realizada por indiv\u00edduos animados de boas inten\u00e7\u00f5es, mas incompetentes e sobrecarregados, o que os levou a perpetraram estragos irrepar\u00e1veis nos antigos arquivos: na atualidade s\u00e3o realizados trabalhos que buscam (e que devem demandar um longo tempo, al\u00e9m de paci\u00eancia, e cuidado) recompor os documentos dispersos, e devolver a seus locais os fragmentos separados pelo cuidado irrefletido daqueles que ent\u00e3o manipularam, inclusive com brutalidade, os documentos hist\u00f3ricos. Deve-se reconhecer que as mutila\u00e7\u00f5es causadas pelos colecionadores do Antigo Regime e pelas a\u00e7\u00f5es dos revolucion\u00e1rios s\u00e3o insignificantes se as compararmos com as produzidas pelos acidentes fortuitos e a a\u00e7\u00e3o natural do tempo. Fossem aquelas a\u00e7\u00f5es dez vezes mais graves, seriam totalmente compensadas por duas consequ\u00eancias bastante positivas, cuja import\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 demais destacar: 1\u00ba, a concentra\u00e7\u00e3o, em um n\u00famero relativamente reduzido de arquivos, de documentos at\u00e9 ent\u00e3o dispersos, e dados como perdidos, em centenas de locais diferentes; 2\u00ba, o car\u00e1ter p\u00fablico de tais arquivos. Desde ent\u00e3o, aqueles antigos documentos hist\u00f3ricos, em que pesem as destrui\u00e7\u00f5es devidas \u00e0 m\u00e1 sorte e ao vandalismo, encontram-se por fim em locais seguros, classificados, colocados \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, e tratados como parte de um patrim\u00f4nio social.<\/p>\n<p>Os documentos hist\u00f3ricos antigos est\u00e3o ent\u00e3o hoje reunidos e conservados, em princ\u00edpio, nos organismos p\u00fablicos que denominamos arquivos, bibliotecas e museus. Na verdade n\u00e3o est\u00e3o l\u00e1 <i>todos<\/i> os documentos que existem, posto que, a despeito das constantes aquisi\u00e7\u00f5es que a cada ano s\u00e3o realizadas, al\u00e9m das doa\u00e7\u00f5es que arquivos, bibliotecas e museus v\u00eam recebendo anualmente h\u00e1 um longo tempo, existem ainda cole\u00e7\u00f5es privadas, antiqu\u00e1rios que comercializam documentos, e documentos que est\u00e3o em circula\u00e7\u00e3o. Mas a exce\u00e7\u00e3o, cujo volume \u00e9 negligenci\u00e1vel, n\u00e3o \u00e9, aqui, a regra. Todos os documentos antigos, em quantidade limitada, que ainda est\u00e3o em circula\u00e7\u00e3o, acabar\u00e3o, cedo ou tarde, em institui\u00e7\u00f5es do Estado, cujo propriet\u00e1rio compra sempre, mas jamais vende<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote8sym\" name=\"sdfootnote8anc\"><sup>8<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Em princ\u00edpio \u00e9 desej\u00e1vel que os lugares onde se guardam os documentos (arquivos, bibliotecas e museus) n\u00e3o sejam numerosos, e j\u00e1 dissemos que, felizmente, hoje s\u00e3o em muito menor quantidade se compararmos com centenas de anos atr\u00e1s. A centraliza\u00e7\u00e3o de documentos, cujas vantagens para os pesquisadores s\u00e3o evidentes, n\u00e3o poderia ser ampliada? N\u00e3o \u00e9 verdade que existem ainda cole\u00e7\u00f5es de documentos para os quais \u00e9 dif\u00edcil justificar sua exist\u00eancia independente? Possivelmente<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote9sym\" name=\"sdfootnote9anc\"><sup>9<\/sup><\/a>; mas o problema da centraliza\u00e7\u00e3o dos documentos n\u00e3o \u00e9 grave nem urgente, por conta do aperfei\u00e7oamento dos m\u00e9todos de reprodu\u00e7\u00e3o, e sobretudo ap\u00f3s os inconvenientes da exist\u00eancia de uma multiplicidade de arquivos fossem em parte solucionados pela estrat\u00e9gia, atualmente usual, de permitir que os documentos se desloquem de um lugar a outro: \u00e9 poss\u00edvel consultar, sem custo, na biblioteca p\u00fablica da pr\u00f3pria cidade onde se reside, documentos pertencentes a bibliotecas de S\u00e3o Petersburgo, Bruxelas ou Floren\u00e7a, por exemplo; cada vez mais raras s\u00e3o as institui\u00e7\u00f5es, como \u00e9 o caso dos Arquivos Nacionais de Paris, do Museu Brit\u00e2nico de Londres ou da Biblioteca M\u00e9janes de Aix-em-Provence<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote10sym\" name=\"sdfootnote10anc\"><sup>10<\/sup><\/a>, cujos estatutos pro\u00edbem categoricamente a retirada de seus documentos.<\/p>\n<p>II. Posto que a maior parte dos documentos hist\u00f3ricos est\u00e1 conservada hoje em institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas (arquivos, bibliotecas e museus), a heur\u00edstica seria extremamente facilitada se existissem bons invent\u00e1rios descritivos para todas as cole\u00e7\u00f5es de documentos, se cat\u00e1logos fossem fornecidos com \u00edndices gerais, ou se repert\u00f3rios (alfab\u00e9ticos, sistem\u00e1ticos, etc.) estivessem relacionados a eles; em uma palavra, se fosse poss\u00edvel consultar em qualquer lugar a cola\u00e7\u00e3o completa de tais documentos e seus correspondentes \u00edndices. Entretanto, a heur\u00edstica \u00e9 ainda extremamente penosa, porque estas condi\u00e7\u00f5es ainda est\u00e3o bastante longe de terem sido realizadas a contento.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, h\u00e1 dep\u00f3sitos de documentos (arquivos, bibliotecas e museus) cujo conte\u00fado nunca foi, nem mesmo parcialmente, catalogado, de modo que ningu\u00e9m sabe o que h\u00e1 neles. S\u00e3o raros os dep\u00f3sitos de que possu\u00edmos cat\u00e1logos descritivos completos; preservadas em importantes institui\u00e7\u00f5es, existem muitas cole\u00e7\u00f5es que s\u00f3 foram catalogadas em parte, e a maior parte delas ainda est\u00e1 para ser descrita<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote11sym\" name=\"sdfootnote11anc\"><sup>11<\/sup><\/a>. Em segundo lugar, existe uma imensa variedade de cat\u00e1logos! Existem modelos antigos que j\u00e1 n\u00e3o correspondem \u00e0 atual classifica\u00e7\u00e3o de documentos, e que n\u00e3o podem ser utilizados sem tabelas de consulta; existem novos cat\u00e1logos, que s\u00e3o igualmente baseados em sistemas obsoletos, sendo alguns muito detalhados enquanto h\u00e1 outros muito sum\u00e1rios; alguns s\u00e3o impressos, outros manuscritos, em fichas ou folhas de registros; alguns s\u00e3o produzidos com todo cuidado, mas outros tantos s\u00e3o imperfeitos, inadequados e provis\u00f3rios. Considerando-se os cat\u00e1logos impressos, \u00e9 necess\u00e1ria toda uma aprendizagem para que se possa aprender a diferenciar, nesta enorme massa de confus\u00e3o, o que \u00e9 confi\u00e1vel e o que n\u00e3o \u00e9; em outras palavras, para que possam ser usados de alguma maneira. Por \u00faltimo, onde est\u00e3o os cat\u00e1logos existentes para serem consultados? A maioria das grandes bibliotecas s\u00f3 possui cole\u00e7\u00f5es incompletas; n\u00e3o existe qualquer guia geral.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o deplor\u00e1vel. Na verdade, os documentos contidos em dep\u00f3sitos e cole\u00e7\u00f5es que n\u00e3o est\u00e3o catalogados acabam sendo, na pr\u00e1tica, inexistentes para pesquisadores, que n\u00e3o t\u00eam tempo livre para pesquisar a totalidade de seus conte\u00fados por si mesmos. Como dissemos anteriormente: sem documentos, sem hist\u00f3ria. Mas a inexist\u00eancia de bons cat\u00e1logos descritivos significa, na pr\u00e1tica, a impossibilidade de descobrir a exist\u00eancia de documentos sen\u00e3o por mero acaso. Percebemos que o progresso da hist\u00f3ria depende, em grande medida, do andamento do cat\u00e1logo geral de documentos hist\u00f3ricos que ainda \u00e9 fragment\u00e1rio e imperfeito. Sobre este ponto, h\u00e1 um consenso geral. Bernard de Montfaucon considerou sua <i>Bibliotheca bibliothecarum manuscriptarum nova<\/i>, uma cole\u00e7\u00e3o de cat\u00e1logos de bibliotecas, como \u201co trabalho mais \u00fatil e mais interessante que produziu em toda a sua vida\u201d<sup> <a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote12sym\" name=\"sdfootnote12anc\"><sup>12<\/sup><\/a><\/sup>. \u201cNo estado atual da ci\u00eancia\u201d, escreveu Renan em 1848, \u201cnada teria mais urg\u00eancia que um cat\u00e1logo cr\u00edtico dos manuscritos nas diferentes bibliotecas [&#8230;] uma tarefa aparentemente humilde; [&#8230;] e, ainda assim, as pesquisas dos estudiosos s\u00e3o dif\u00edceis e incompletas por conta da pend\u00eancia da sua conclus\u00e3o definitiva\u201d<sup> <a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote13sym\" name=\"sdfootnote13anc\"><sup>13<\/sup><\/a><\/sup>. \u201cTer\u00edamos melhores livros sobre a nossa literatura antiga\u201d, diz Meyer<sup> <a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote14sym\" name=\"sdfootnote14anc\"><sup>14<\/sup><\/a><\/sup>, \u201cse os antecessores de Delisle [na sua qualidade de administrador da <i>Biblioth\u00e8que Nationale de Paris<\/i>] tivessem se aplicado com igual ardor e dilig\u00eancia \u00e0 cataloga\u00e7\u00e3o dos tesouros deixados a seus cuidados\u201d.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m indicar brevemente as causas e as respectivas consequ\u00eancias exatas de um estado de coisas que tem sido lamentado h\u00e1 tanto tempo, embora esteja melhorando, ainda que lentamente. \u201cGaranto a voc\u00eas\u201d, disse Renan<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote15sym\" name=\"sdfootnote15anc\"><sup>15<\/sup><\/a>, \u201cque com algumas poucas centenas de milhares de francos aplicadas, por um Ministro da Instru\u00e7\u00e3o P\u00fablica, ao prop\u00f3sito [de preparar cat\u00e1logos], seriam melhor empregadas do que tr\u00eas quartos da soma atualmente dedicada \u00e0 literatura\u201d. \u00c9 raro encontrar um ministro, na Fran\u00e7a ou em qualquer outro lugar, convencido desta verdade, e que esteja decidido a agir em fun\u00e7\u00e3o dela. Al\u00e9m disso, nem sempre seria correto afirmar que, a fim de obter bons cat\u00e1logos, seria suficiente, bem como necess\u00e1rio, fazer um sacrif\u00edcio pecuni\u00e1rio: s\u00f3 recentemente \u00e9 que os melhores m\u00e9todos de descrever documentos foram definitivamente fixados; a tarefa de recrutar trabalhadores competentes \u2013 sem grande dificuldade hoje em dia \u2013 n\u00e3o teria sido nem f\u00e1cil nem livre de ansiedade em uma \u00e9poca em que esses trabalhadores eram mais raros do que s\u00e3o agora. Esses s\u00e3o os obst\u00e1culos materiais \u2013 falta de dinheiro e falta de pessoal. Mas, raz\u00f5es de outro g\u00eanero influenciaram. Os funcion\u00e1rios encarregados da administra\u00e7\u00e3o de dep\u00f3sitos de documentos nem sempre exibiram o zelo que agora demonstram para tornar suas cole\u00e7\u00f5es acess\u00edveis por meio de cat\u00e1logos precisos. Preparar um amplo cat\u00e1logo (que seja exato e, ao mesmo tempo sum\u00e1rio) \u00e9 uma tarefa trabalhosa, ingrata e pouco recompensadora. Muitas vezes tem ocorrido que este funcion\u00e1rio, vivendo em virtude de seu trabalho, estando imerso em documentos que tem a liberdade de consultar a qualquer momento, e colocado em uma posi\u00e7\u00e3o muito mais favor\u00e1vel que o p\u00fablico, para a utiliza\u00e7\u00e3o da cole\u00e7\u00e3o sem o aux\u00edlio de um cat\u00e1logo, ao fazer descobertas, tenha preferido trabalhar por conta pr\u00f3pria, ao inv\u00e9s de trabalhar para os outros, e faz da constru\u00e7\u00e3o do tedioso trabalho de produ\u00e7\u00e3o de um cat\u00e1logo uma quest\u00e3o secund\u00e1ria em compara\u00e7\u00e3o a suas pr\u00f3prias pesquisas.<\/p>\n<p>Quem s\u00e3o as pessoas que em nossos dias descobriram, publicaram, e anotaram o maior n\u00famero de documentos? Os funcion\u00e1rios ligados aos dep\u00f3sitos de documentos. Sem d\u00favida, esta circunst\u00e2ncia retardou o desenvolvimento de cat\u00e1logos gerais de documentos hist\u00f3ricos. A situa\u00e7\u00e3o tem sido esta: as pessoas melhor capacitadas para n\u00e3o necessitar de cat\u00e1logos eram precisamente aquelas cujo dever era produzi-los.<\/p>\n<p>A imperfei\u00e7\u00e3o de cat\u00e1logos descritivos produz consequ\u00eancias que merecem a nossa aten\u00e7\u00e3o. Por um lado, nunca podemos ter certeza de que n\u00f3s esgotamos todas as fontes de informa\u00e7\u00e3o; quem sabe o que pode existir nas cole\u00e7\u00f5es n\u00e3o catalogadas?<sup> <a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote16sym\" name=\"sdfootnote16anc\"><sup>16<\/sup><\/a><\/sup> Por outro, a fim de obter o m\u00e1ximo de informa\u00e7\u00f5es, \u00e9 necess\u00e1rio que estejamos completamente familiarizados com os recursos fornecidos pela existente literatura da heur\u00edstica, e dedicar uma grande parte do tempo com pesquisas preliminares. Na verdade, todo aquele que se prop\u00f5e a recolher documentos para a discuss\u00e3o de um tema hist\u00f3rico come\u00e7a consultando \u00edndices e cat\u00e1logos<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote17sym\" name=\"sdfootnote17anc\"><sup>17<\/sup><\/a>. Principiantes realizam esta importante opera\u00e7\u00e3o t\u00e3o lentamente, com t\u00e3o pouca habilidade, e com tanto esfor\u00e7o, que provocam sentimentos de ironia ou piedade nos mais experientes, de acordo com a disposi\u00e7\u00e3o individual de cada um. Aqueles que se divertem em assistir novatos trope\u00e7ando e desperdi\u00e7ando seu tempo no labirinto dos cat\u00e1logos, negligenciando o que \u00e9 valioso, e explorando o que \u00e9 in\u00fatil, devem se lembrar que tamb\u00e9m eles passaram por situa\u00e7\u00f5es semelhantes: cada um aprende pela pr\u00f3pria experi\u00eancia. Aqueles que observam com pesar este desperd\u00edcio de tempo e energia consideram que, embora inevit\u00e1vel at\u00e9 certo ponto, n\u00e3o serve a qualquer bom prop\u00f3sito; perguntam-se se n\u00e3o poderia ser feito algo para tornar mais suport\u00e1vel a gravidade deste aprendizado da heur\u00edstica, que para eles tamb\u00e9m foi t\u00e3o dif\u00edcil. Al\u00e9m disso, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a pesquisa, no estado atual de seus recursos materiais, suficientemente dif\u00edcil qualquer que seja a experi\u00eancia do pesquisador? H\u00e1 estudiosos e historiadores que dedicam a maior parte de suas energias para buscar materiais. Certos ramos da pesquisa hist\u00f3rica, relacionados especialmente a temas medievais e modernos (os documentos de hist\u00f3ria antiga s\u00e3o em menor quantidade, t\u00eam sido mais estudados, e s\u00e3o mais catalogados que os demais), n\u00e3o implica apenas o uso ass\u00edduo de cat\u00e1logos, nos quais nem todos possuem \u00edndices, mas tamb\u00e9m uma investiga\u00e7\u00e3o pessoal de todo o conte\u00fado das imensas cole\u00e7\u00f5es que s\u00e3o ou mal catalogadas, ou n\u00e3o est\u00e3o, de nenhuma forma, catalogadas. A experi\u00eancia demonstra, para al\u00e9m de qualquer d\u00favida, que a perspectiva destas longas pesquisas, que devem ser realizadas antes que a parte mais intelectual do trabalho possa ser iniciada, tem desencorajado indiv\u00edduos de excelente capacidade, e continua a impedir o desenvolvimento do trabalho hist\u00f3rico. Eles s\u00e3o, de fato, confrontados com um dilema: ou trabalham com um conjunto de documentos que \u00e9 muito provavelmente incompleto, ou dever\u00e3o desperdi\u00e7ar muito tempo em buscas intermin\u00e1veis, muitas vezes infrut\u00edferas, cujos resultados raramente parecem compensar o tempo empregado. \u00c9 desalentador passar grande parte da vida revirando cat\u00e1logos sem \u00edndices, ou analisar, um ap\u00f3s o outro, todos os itens que formam os documentos acumulados em <i>miscellanea<\/i> n\u00e3o catalogada, a fim de obter alguma informa\u00e7\u00e3o (positiva ou negativa) que poderia ter sido obtida de forma f\u00e1cil e instant\u00e2nea se as cole\u00e7\u00f5es fossem catalogadas e se os cat\u00e1logos tivessem sido indexados.<\/p>\n<p>A principal consequ\u00eancia da presente imperfei\u00e7\u00e3o dos materiais para a heur\u00edstica \u00e9 o des\u00e2nimo que, sem d\u00favida, mant\u00eam-se entre muitos homens capazes que sabem o seu valor, e t\u00eam a exata no\u00e7\u00e3o da despropor\u00e7\u00e3o que existe entre esfor\u00e7o e recompensa<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote18sym\" name=\"sdfootnote18anc\"><sup>18<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Se fosse algo pr\u00f3prio da natureza das coisas que a busca por documentos hist\u00f3ricos em dep\u00f3sitos p\u00fablicos, devesse, necessariamente, ser t\u00e3o trabalhosa como ainda o \u00e9, poder\u00edamos nos resignar \u00e0 inconveni\u00eancia: ningu\u00e9m pensa em lamentar o inevit\u00e1vel gasto de tempo e trabalho que \u00e9 exigido pela pesquisa arqueol\u00f3gica, independentemente de quais possam ser os resultados obtidos. Mas a imperfei\u00e7\u00e3o dos instrumentos modernos de heur\u00edstica \u00e9 completamente desnecess\u00e1ria. O estado das coisas era, h\u00e1 alguns s\u00e9culos, muito pior; n\u00e3o h\u00e1 nenhuma raz\u00e3o v\u00e1lida para que algum dia n\u00e3o possa ser reformada por completo. O que nos leva, depois de termos tratado das causas e das consequ\u00eancias, dizer algumas palavras sobre as solu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Os instrumentos de heur\u00edstica est\u00e3o sendo continuamente aperfei\u00e7oados, diante de nossos olhos, de duas maneiras. Todos os anos, testemunhamos um aumento no n\u00famero de cat\u00e1logos descritivos dos arquivos, bibliotecas e museus, preparados pelos funcion\u00e1rios ligados a estas institui\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, importantes sociedades cient\u00edficas buscam contratar especialistas para que cataloguem os documentos existentes em v\u00e1rios dep\u00f3sitos, a fim de escolher todos de um tipo espec\u00edfico, ou relativos a um tema em particular: assim, a sociedade dos Bolandistas produziu um cat\u00e1logo geral de documentos hagiogr\u00e1ficos preparado por seus emiss\u00e1rios, e a Academia Imperial de Viena catalogou de maneira semelhante os monumentos da literatura patr\u00edstica. A sociedade respons\u00e1vel pelos <i>Monumenta Germaniae Historica<\/i> vem conduzindo, h\u00e1 tempos, importantes pesquisas do mesmo tipo; e foi pelo mesmo processo que pesquisas semelhantes em museus e bibliotecas em toda a Europa que foi tornada poss\u00edvel a confec\u00e7\u00e3o do <i>Corpus inscriptionum latinarum<\/i>. Afinal, diferentes governos decidiram tomar a iniciativa de enviar correspondentes ao estrangeiro com o objetivo de catalogar documentos de seu interesse: assim, agentes da Inglaterra, Holanda, Su\u00ed\u00e7a, Estados Unidos, etc., garantiram subs\u00eddios regulares para catalogar e transcrever, nos grandes arquivos europeus, os documentos que se referem \u00e0 hist\u00f3ria daqueles e outros pa\u00edses.<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote19sym\" name=\"sdfootnote19anc\"><sup>19<\/sup><\/a> Com que rapidez e perfei\u00e7\u00e3o t\u00e3o \u00fateis tarefas puderam ser realizadas, sempre que, desde o in\u00edcio, fosse providenciado um grupo de pessoas competentes dirigidas de modo eficaz, e que contasse ao mesmo tempo com um investimento adequado: isso \u00e9 exemplificado pela hist\u00f3ria do <i>Catalogue g\u00e9n\u00e9ral des manuscrits des biblioth\u00e8ques publiques de France<\/i>. Este excelente cat\u00e1logo descritivo iniciado em 1885, alcan\u00e7ou em 1897 quase cinquenta volumes, e logo estar\u00e1 terminado. O <i>Corpus inscriptionum latinarum<\/i> foi produzido em menos de cinquenta anos. Os resultados obtidos pelos Bolandistas e pela Academia Imperial de Viena n\u00e3o s\u00e3o menos conclusivos. Assegurando-se que nada estar\u00e1 faltando, com exce\u00e7\u00e3o de investimentos, assegura-se que em breve os estudos hist\u00f3ricos estar\u00e3o dotados com os instrumentos de pesquisa indispens\u00e1veis. Os m\u00e9todos empregados na constru\u00e7\u00e3o desses instrumentos est\u00e1 estabelecido, e n\u00e3o ser\u00e1 dif\u00edcil trabalhar com pessoal preparado. Esse pessoal deve ser, evidentemente, em sua maior parte composto por arquivistas e bibliotec\u00e1rios profissionais, mas dever\u00e1 contar com trabalhadores com uma clara voca\u00e7\u00e3o para a confec\u00e7\u00e3o de cat\u00e1logos e seus \u00edndices. Esses dever\u00e3o ser mais numerosos do que se poderia acreditar a princ\u00edpio. N\u00e3o que a cataloga\u00e7\u00e3o seja f\u00e1cil: requer paci\u00eancia, aten\u00e7\u00e3o escrupulosa aos detalhes e um conhecimento diversificado; mas muitas mentes s\u00e3o atra\u00eddas por este tipo de tarefas, por serem exatas, capazes de serem realizadas de um modo perfeito e de manifesta utilidade. Na ampla e heterog\u00eanea fam\u00edlia dos historiadores, h\u00e1 aqueles dedicados a promover o progresso dos estudos hist\u00f3ricos que, preparando \u00edndices e cat\u00e1logos descritivos, constituem um grupo \u00e0 parte. Quando est\u00e3o devotados exclusivamente \u00e0 sua arte, adquirem no desempenho de suas atividades, como seria de se esperar, um alto grau de habilidade.<\/p>\n<p>Ainda que se aguarde pelo reconhecimento de que o momento \u00e9 oportuno para promover internacionalmente a constru\u00e7\u00e3o de um cat\u00e1logo geral de todos os documentos hist\u00f3ricos, podemos optar por uma medida tempor\u00e1ria: \u00e9 importante que pesquisadores e historiadores, especialmente os principiantes, conhe\u00e7am de maneira precisa a situa\u00e7\u00e3o real dos instrumentos de pesquisa a seu alcance, e sejam regularmente informados sobre qualquer aperfei\u00e7oamento que neles pode ter sido realizado. O acaso e a experi\u00eancia durante muito tempo foram encarregadas de fornecer essa informa\u00e7\u00e3o; mas o conhecimento emp\u00edrico, apesar de seus benef\u00edcios, como foi dito, \u00e9 quase sempre incompleto. Recentemente foi colocada em pr\u00e1tica a tarefa de prepara\u00e7\u00e3o de cat\u00e1logos de cat\u00e1logos, cr\u00edticos e sistem\u00e1ticos. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que poucas tarefas bibliogr\u00e1ficas possuem um tal car\u00e1ter de utilidade geral.<\/p>\n<p>Mas os pesquisadores e os historiadores frequentemente precisam, em rela\u00e7\u00e3o aos documentos, de informa\u00e7\u00f5es que, em geral, n\u00e3o aparecem nos cat\u00e1logos descritivos: eles buscariam descobrir, por exemplo, se tal ou tal documento existe ou n\u00e3o, se j\u00e1 foi criticamente analisado, comentado ou utilizado<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote20sym\" name=\"sdfootnote20anc\"><sup>20<\/sup><\/a>. Essas informa\u00e7\u00f5es s\u00f3 podem ser encontradas nas obras de pesquisadores e historiadores anteriores. Na busca por se familiarizar com tais obras, \u00e9 preciso recorrer aos \u201crepert\u00f3rios bibliogr\u00e1ficos\u201d propriamente assim chamados, de todos os tipos, elaborados a partir de crit\u00e9rios muito diversos, j\u00e1 publicados. Entre as ferramentas imprescind\u00edveis da heur\u00edstica, devem ser reconhecidos os registros bibliogr\u00e1ficos de literatura hist\u00f3rica, bem como os registros de cat\u00e1logos de documentos originais.<\/p>\n<p>Fornecer uma rela\u00e7\u00e3o de todos os registros (registros de cat\u00e1logos, registros bibliogr\u00e1ficos) em conjunto com outros dados com informa\u00e7\u00f5es apropriadas, que economizem tempo e poupem os estudantes de erros, \u00e9 o objeto do que poder\u00edamos denominar \u201cci\u00eancia dos registros\u201d ou \u201cbibliografia hist\u00f3rica\u201d. Bernheim publicou um primeiro esbo\u00e7o desta disciplina<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote21sym\" name=\"sdfootnote21anc\"><sup>21<\/sup><\/a> que nos aventuramos a ampliar<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote22sym\" name=\"sdfootnote22anc\"><sup>22<\/sup><\/a>. O esbo\u00e7o ampliado est\u00e1 datado de 1896: numerosas adi\u00e7\u00f5es, para n\u00e3o falar de corre\u00e7\u00f5es, seriam necess\u00e1rias, pois o registro bibliogr\u00e1fico das ci\u00eancias hist\u00f3ricas est\u00e1 sendo renovado, atualmente, com imensa rapidez. Um livro com os registros \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de eruditos e historiadores torna-se, como regra geral, antiquado logo assim que \u00e9 finalizado.<\/p>\n<p>III. O conhecimento dos registros \u00e9 \u00fatil para todos: toda busca preliminar de documentos \u00e9 laboriosa para todos, mas n\u00e3o no mesmo grau. Certas partes da hist\u00f3ria, que h\u00e1 tempos s\u00e3o investigadas, possuem hoje a vantagem de possuir todos os seus documentos descritos, conservados e classificados em grandes publica\u00e7\u00f5es especializadas; assim, a respeito de tais \u00e9pocas, o historiador pode trabalhar a partir de seu escrit\u00f3rio. O estudo da hist\u00f3ria local em geral n\u00e3o obriga a pesquisas al\u00e9m das locais. Muitas monografias importantes s\u00e3o baseadas em um n\u00famero reduzido de documentos, todos pertencentes a uma mesma cole\u00e7\u00e3o, e dada a sua natureza, seria sup\u00e9rfluo ampliar a busca em outros locais. Ao contr\u00e1rio, trabalhos mais modestos, como humildes edi\u00e7\u00f5es de textos dos quais v\u00e1rios exemplares antigos n\u00e3o s\u00e3o raros, e est\u00e3o dispersos por bibliotecas da Europa, podem envolver pesquisas, negocia\u00e7\u00f5es e gastos sem fim. Sendo in\u00e9dita, ou m\u00e1 editada, a maior parte dos documentos da Baixa Idade M\u00e9dia e da \u00e9poca moderna, pode-se colocar como regra geral que, na busca por uma contribui\u00e7\u00e3o significativa em hist\u00f3ria medieval ou moderna, ser\u00e1 necess\u00e1rio frequentar durante um tempo consider\u00e1vel os grandes arquivos de documentos originais, al\u00e9m de despender tempo sobre seus cat\u00e1logos.<\/p>\n<p>Assim, cada um deve escolher, com o m\u00e1ximo cuidado, o assunto sobre o qual se disp\u00f5e a pesquisar, ao inv\u00e9s deixar a decis\u00e3o \u00e0 pura sorte. Determinados temas, no estado atual dos recursos documentais, n\u00e3o podem ser abordados sen\u00e3o \u00e0s custas de enormes pesquisas, nas quais grandes esfor\u00e7os s\u00e3o consumidos com poucos ganhos. Esses temas n\u00e3o s\u00e3o necessariamente mais interessantes que outros, e um dia, talvez amanh\u00e3, melhorias dos recursos dispon\u00edveis poder\u00e3o torn\u00e1-los facilmente administr\u00e1veis. \u00c9 necess\u00e1rio que o estudante escolha seu tema de estudo com sensatez e conhecimento entre diferentes temas hist\u00f3ricos, de acordo com a exist\u00eancia ou n\u00e3o de invent\u00e1rios de documentos e registros bibliogr\u00e1ficos dispon\u00edveis; deve-se considerar ainda sua voca\u00e7\u00e3o para o trabalho de escrit\u00f3rio por um lado, ou a explora\u00e7\u00e3o de arquivos, por outro; e deve-se considerar mesmo as condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas para o uso de certas cole\u00e7\u00f5es em particular. \u201c\u00c9 poss\u00edvel trabalhar nas prov\u00edncias?\u201d Renan perguntava durante o Congresso das Sociedades Cient\u00edficas, em 1889 na Sorbonne; e respondia com intelig\u00eancia \u00e0 quest\u00e3o: \u201cAo menos a metade do trabalho cient\u00edfico pode ser feito do pr\u00f3prio escrit\u00f3rio [&#8230;] Tome a filologia comparada, por exemplo: sem mais que um investimento inicial de alguns milhares de francos e a assinatura de tr\u00eas ou quatro revistas especializadas, um estudante poderia dispor de todas as ferramentas para sua atividade [&#8230;] Algo semelhante seria poss\u00edvel dizer da filosofia universal [&#8230;] Muitos campos de pesquisa permitem trabalhar em um ambiente privado, e nos lugares mais remotos\u201d<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote23sym\" name=\"sdfootnote23anc\"><sup>23<\/sup><\/a>. Sem d\u00favida, mas h\u00e1 \u201craridades, especialidades, pesquisas que exigem toda uma maquinaria poderosa\u201d. Cerca de metade do trabalho pode ser feito a partir de seu escrit\u00f3rio, com recursos limitados, mas apenas metade; a outra metade exige ainda uma disponibilidade de meios, com rela\u00e7\u00e3o a cat\u00e1logos e documentos, que podem ser encontrados apenas em grandes institui\u00e7\u00f5es; frequentemente, inclusive, \u00e9 necess\u00e1rio visitar v\u00e1rias delas sucessivamente. Resumindo, ocorre com a hist\u00f3ria algo semelhante ao que acontece com a geografia: em rela\u00e7\u00e3o a determinadas regi\u00f5es, dispomos de documentos publicados de maneira bastante completa e bem ordenada, de modo que podemos falar deles sem sair de casa; j\u00e1 no caso de uma regi\u00e3o inexplorada ou mal conhecida, a mais insignificante monografia exige um consider\u00e1vel investimento de tempo e energia. \u00c9 perigoso escolher um tema de estudo, como muitos fazem, sem ter percebido em primeiro lugar a natureza e extens\u00e3o das pesquisas preliminares que se fazem necess\u00e1rias; h\u00e1 casos de indiv\u00edduos que se mantiveram ocupados durante anos com tais pesquisas, sendo que poderiam ter abordado temas diferentes. Como precau\u00e7\u00f5es contra este perigo, que \u00e9 mais formid\u00e1vel aos mais ativos e entusiasmados iniciantes, um exame das condi\u00e7\u00f5es atuais da heur\u00edstica em geral, al\u00e9m de no\u00e7\u00f5es de bibliografia hist\u00f3rica, s\u00e3o certamente bastante recomend\u00e1veis.<\/p>\n<div id=\"sdfootnote1\">\n<p style=\"text-indent: 0in; margin-bottom: 0in; page-break-before: always;\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote1anc\" name=\"sdfootnote1sym\">1<\/a><span style=\"font-size: small;\"> Na pr\u00e1tica, o mais comum, n\u00e3o \u00e9 propor e investigar determinado evento sem saber se existe a documenta\u00e7\u00e3o que permita estud\u00e1-lo. Inversamente, um documento encontrado por acaso incita a aprofundar o tema hist\u00f3rico correspondente, e a copiar com tal fim documentos do mesmo g\u00eanero.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote2\">\n<p style=\"text-indent: 0in; margin-bottom: 0in; page-break-before: always;\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote2anc\" name=\"sdfootnote2sym\">2<\/a><span style=\"font-size: small;\"> \u00c9 lament\u00e1vel ver como os melhores eruditos da Antiguidade arduamente, ainda que de maneira v\u00e3, lutaram para resolver dificuldades nas quais jamais haveriam trope\u00e7ado se lhes estivesse dispon\u00edvel uma documenta\u00e7\u00e3o melhor. Mas, nem mesmo a mais perspicaz intelig\u00eancia pode suprir a falta de determinados recursos materiais.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote3\">\n<p style=\"text-indent: 0in; margin-bottom: 0in; page-break-before: always;\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote3anc\" name=\"sdfootnote3sym\">3<\/a><span style=\"font-size: small;\"> Fausto, ato I, cena 1\u00aa<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote4\">\n<p style=\"text-indent: 0in; margin-bottom: 0in; page-break-before: always;\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote4anc\" name=\"sdfootnote4sym\">4<\/a><span style=\"font-size: small;\"> Vide Ch.-V. Langlois, \u201cH. H. Bancroft et C\u00ede.\u201d, na <\/span><span style=\"font-size: small;\"><i>Revue Universitarie<\/i><\/span><span style=\"font-size: small;\">, 1894, I, p. 233.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote5\">\n<p style=\"text-indent: 0in; margin-bottom: 0in; page-break-before: always;\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote5anc\" name=\"sdfootnote5sym\">5<\/a><span style=\"font-size: small;\"> Os antigos eruditos tiveram a percep\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es em que trabalhavam. Sofriam significativamente com a insufici\u00eancia dos meios de pesquisas e de instrumentos de compara\u00e7\u00e3o. Alguns fizeram grandes esfor\u00e7os para reunir documenta\u00e7\u00e3o. A troca abundante de cartas entre esses eruditos, nos \u00faltimos s\u00e9culos, de que nossas bibliotecas conservam preciosos vest\u00edgios, s\u00e3o provas disso; bem como mem\u00f3rias de pesquisas cient\u00edficas e de viagens em busca de documentos que, sob a denomina\u00e7\u00e3o de <\/span><span style=\"font-size: small;\"><i>iter<\/i><\/span><span style=\"font-size: small;\"> (<\/span><span style=\"font-size: small;\"><i>iter italicum<\/i><\/span><span style=\"font-size: small;\">, <\/span><span style=\"font-size: small;\"><i>iter germanicum<\/i><\/span><span style=\"font-size: small;\">, etc.) estavam em voga.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote6\">\n<p style=\"text-indent: 0in; margin-bottom: 0in; page-break-before: always;\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote6anc\" name=\"sdfootnote6sym\">6<\/a><span style=\"font-size: small;\"> Assinalemos de passagem uma aberra\u00e7\u00e3o pueril, mas muito naturalizada e frequente entre os colecionadores: tendem a exagerar o interesse intr\u00ednseco dos documentos que possuem, unicamente porque s\u00e3o os seus. Documentos encontrados casualmente s\u00e3o publicados, com grande luxo de coment\u00e1rios, pelos seus propriet\u00e1rios. Esses mesmos receberiam pouca aten\u00e7\u00e3o se fossem casualmente encontrados em um arquivo p\u00fablico. De resto, \u00e9 apenas a manifesta\u00e7\u00e3o de uma tend\u00eancia geral: deve-se cuidar com aqueles documentos que n\u00f3s mesmos possu\u00edmos ou descobrimos, para n\u00e3o inflarmos sua import\u00e2ncia. <\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote7\">\n<p style=\"text-indent: 0in; margin-bottom: 0in; page-break-before: always;\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote7anc\" name=\"sdfootnote7sym\">7<\/a><span style=\"font-size: small;\"> Veja L. Delisle, <\/span><span style=\"font-size: small;\"><i>Le cabinet des Manuscrits de la Bibliotheque Nationole<\/i><\/span><span style=\"font-size: small;\">, Paris, 1868-1881. 3 vols. As numerosas hist\u00f3rias de antigos arquivos surgidos recentemente t\u00eam como modelo este admir\u00e1vel trabalho.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote8\">\n<p style=\"text-indent: 0in; margin-bottom: 0in; page-break-before: always;\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote8anc\" name=\"sdfootnote8sym\">8<\/a><span style=\"font-size: small;\"> Uma parte consider\u00e1vel de documentos ainda em circula\u00e7\u00e3o \u00e9 resultado de roubos realizados em \u00e9pocas passadas em institui\u00e7\u00f5es do Estado. As precau\u00e7\u00f5es adotadas na busca por evitar novas subtra\u00e7\u00f5es s\u00e3o hoje significativas e, assim, bastante eficazes. Quanto aos documentos modernos (impressos), as disposi\u00e7\u00f5es relativas ao dep\u00f3sito legal, adotadas em quase todos os pa\u00edses civilizados, asseguram sua conserva\u00e7\u00e3o nos arquivos p\u00fablicos.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote9\">\n<p style=\"text-indent: 0in; margin-bottom: 0in; page-break-before: always;\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote9anc\" name=\"sdfootnote9sym\">9<\/a><span style=\"font-size: small;\"> Sabemos que Napole\u00e3o I concebeu o quim\u00e9rico projeto de reunir em Paris os arquivos da Europa inteira e que enviou para l\u00e1 arquivos do Vaticano, do Sacro Imp\u00e9rio, da Coroa de Castela, etc., que mais tarde teve-se que restituir. Est\u00e1 fora de quest\u00e3o, hoje, confiscar arquivos. Mas os antigos arquivos notariais poderiam ser centralizados, como j\u00e1 se faz em alguns pa\u00edses, em espa\u00e7os p\u00fablicos. N\u00e3o se explica por que, em Paris, os minist\u00e9rios de Assuntos Exteriores, do Ex\u00e9rcito e da Marinha conservem documentos antigos cujo destino adequado seriam os arquivos nacionais. Seria poss\u00edvel citar um consider\u00e1vel n\u00famero de anomalias desta esp\u00e9cie, que em alguns casos, n\u00e3o apenas dificultam como, mesmo, impedem a tarefa dos pesquisadores, pois \u00e9 justamente nos pequenos dep\u00f3sitos, cuja exist\u00eancia \u00e9 in\u00fatil, que encontramos os regulamentos mais restritivos.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote10\">\n<p style=\"text-indent: 0in; margin-bottom: 0in; page-break-before: always;\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote10anc\" name=\"sdfootnote10sym\">10<\/a><span style=\"font-size: small;\"> O servi\u00e7o internacional de empr\u00e9stimo de documentos manuscritos funciona de modo regular (e gratuito para o p\u00fablico) na Europa, por meio das embaixadas. Al\u00e9m disso, a maior parte das institui\u00e7\u00f5es autoriza empr\u00e9stimos: esta via \u00e9 t\u00e3o segura, e por vezes mais r\u00e1pida, quanto a diplom\u00e1tica. Nestes \u00faltimos anos, os congressos de historiadores e bibliotec\u00e1rios inclu\u00edram com frequ\u00eancia em sua ordem do dia o problema do empr\u00e9stimo (ou da sa\u00edda das instala\u00e7\u00f5es em que se conservam) dos documentos originais. Os resultados obtidos at\u00e9 agora s\u00e3o muito satisfat\u00f3rios.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote11\">\n<p style=\"text-indent: 0in; margin-bottom: 0in; page-break-before: always;\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote11anc\" name=\"sdfootnote11sym\">11<\/a><span style=\"font-size: small;\"> Estas s\u00e3o, por vezes, grandes cole\u00e7\u00f5es que possuem um conjunto consider\u00e1vel de materiais; por isso, \u00e9 comum a cataloga\u00e7\u00e3o de pequenos arquivos, que exigem menor trabalho. \u00c9 pela mesma raz\u00e3o que muitos cartul\u00e1rios curtos e insignificantes foram publicados, enquanto outros, da mais alta import\u00e2ncia, por serem volumosos, continuam in\u00e9ditos.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote12\">\n<p style=\"text-indent: 0in; margin-bottom: 0in; page-break-before: always;\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote12anc\" name=\"sdfootnote12sym\">12<\/a><span style=\"font-size: small;\"> Veja sua autobiografia, publicada por E. de Broglie,<\/span><span style=\"font-size: small;\"><i> Bernard de Mountfaucon et les Bernardins<\/i><\/span><span style=\"font-size: small;\">, II, Paris, 1891, p. 323.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote13\">\n<p style=\"text-indent: 0in; margin-bottom: 0in; page-break-before: always;\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote13anc\" name=\"sdfootnote13sym\">13<\/a><span style=\"font-size: small;\"> E. Renan, <\/span><span style=\"font-size: small;\"><i>L\u2019avenir de la science<\/i><\/span><span style=\"font-size: small;\">, p. 217.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote14\">\n<p style=\"text-indent: 0in; margin-bottom: 0in; page-break-before: always;\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote14anc\" name=\"sdfootnote14sym\">14<\/a> <span style=\"font-size: small;\"><i>Romania<\/i><\/span><span style=\"font-size: small;\">, 1892, XXI, p. 632.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote15\">\n<p style=\"text-indent: 0in; margin-bottom: 0in; page-break-before: always;\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote15anc\" name=\"sdfootnote15sym\">15<\/a><span style=\"font-size: small;\"> Op. cit. <\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote16\">\n<p style=\"text-indent: 0in; margin-bottom: 0in; page-break-before: always;\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote16anc\" name=\"sdfootnote16sym\">16<\/a><span style=\"font-size: small;\"> H. H. Bancroft, em suas mem\u00f3rias, intituladas <\/span><span style=\"font-size: small;\"><i>Literary industries<\/i><\/span><span style=\"font-size: small;\"> (Nova Iorque, 1891) analisa com not\u00e1vel perspic\u00e1cia determinadas consequ\u00eancias pr\u00e1ticas das dificuldades da busca de documentos. \u201cSuponha, diz ele, que um pesquisador inteligente decida escrever a hist\u00f3ria de Calif\u00f3rnia. Procura sem dificuldade uns quantos livros, l\u00ea-os, prepara suas notas; tais livros remetem a outros, que consulta nas bibliotecas p\u00fablicas de sua cidade. Passam-se anos, quando percebe que n\u00e3o conta sen\u00e3o com uma d\u00e9cima parte das fontes necess\u00e1rias; faz viagens, mant\u00e9m correspond\u00eancia, mas ao fim desiste de esgotar a mat\u00e9ria, e consola seu orgulho e sua consci\u00eancia com a desculpa de que a maior parte dos documentos que n\u00e3o p\u00f4de consultar \u00e9 provavelmente pouco importante, como tantos outros que consultou. Quanto aos jornais e a multid\u00e3o de registros oficiais do governo dos Estados Unidos que fazem refer\u00eancia a circunst\u00e2ncias curiosas para uma hist\u00f3ria californiana, sequer sonhou, se tiver bom senso, em explor\u00e1-los; pesquisou uns quantos; sabe bem que cada um de tais campos de investiga\u00e7\u00e3o demandaria o trabalho de v\u00e1rios anos, e que impor-se como tarefa estud\u00e1-los do principio ao fim seria como condenar a si mesmo um trabalho cansativo que jamais ter\u00e1 fim. Em que concerne os testemunhos orais e manuscritos, anotar\u00e1 algumas anedotas in\u00e9ditas, conforme as conversa\u00e7\u00f5es; obter\u00e1 algumas informa\u00e7\u00f5es novas; encontrar\u00e1 documentos em papeis familiares; utilizar\u00e1 tudo isso nas justificativas de seu livro. Dar\u00e1 com algum ou outro documento curioso nos dep\u00f3sitos do Estado; mas como seriam necess\u00e1rios quinze anos para examinar os recursos desse dep\u00f3sito, se contentar\u00e1 com uma pesquisa superficial. Passa, a seguir, \u00e0 escrita. Dever\u00e1 prevenir o p\u00fablico de que n\u00e3o consultou <\/span><span style=\"font-size: small;\"><i>todos<\/i><\/span><span style=\"font-size: small;\"> os documentos; ao contr\u00e1rio, dar\u00e1 import\u00e2ncia a todos que conseguiu encontrar ap\u00f3s vinte e cinco anos de trabalho constante&#8230;\u201d<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote17\">\n<p style=\"text-indent: 0in; margin-bottom: 0in; page-break-before: always;\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote17anc\" name=\"sdfootnote17sym\">17<\/a><span style=\"font-size: small;\"> Alguns dispensam a investiga\u00e7\u00e3o pessoal e delegam tal tarefa a funcion\u00e1rios; s\u00e3o estes \u00faltimos, ent\u00e3o, que realizam em seu lugar as buscas indispens\u00e1veis. Vemos em <\/span><span style=\"font-size: small;\"><i>Bouvard et P\u00e9cuchet<\/i><\/span><span style=\"font-size: small;\"> como os protagonistas se prop\u00f5em a escrever a biografia do duque de Angoul\u00eame; de fato, \u201cdecidiram passar quinze dias na biblioteca municipal de Caen para realizar ali suas pesquisas. O bibliotec\u00e1rio p\u00f4s ao seu dispor manuais de hist\u00f3ria e monografias&#8230;\u201d<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote18\">\n<p style=\"text-indent: 0in; margin-bottom: 0in; page-break-before: always;\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote18anc\" name=\"sdfootnote18sym\">18<\/a><span style=\"font-size: small;\"> Considera\u00e7\u00f5es desenvolvidas na <\/span><span style=\"font-size: small;\"><i>Revue Universitaire<\/i><\/span><span style=\"font-size: small;\">, 1894, I, pp. 321 e ss.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote19\">\n<p style=\"text-indent: 0in; margin-bottom: 0in; page-break-before: always;\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote19anc\" name=\"sdfootnote19sym\">19<\/a><span style=\"font-size: small;\"> Sabemos que, quando os Arquivos da Seja S\u00e9 foram abertos, v\u00e1rios governos e diferentes sociedades cient\u00edficas criaram em Roma institutos nos quais os membros est\u00e3o, em sua maior parte, ocupados em inventariar e publicar os documentos em colabora\u00e7\u00e3o com os funcion\u00e1rios do Vaticano. A <\/span><span style=\"font-size: small;\"><i>\u00c9cole fran\u00e7aise<\/i><\/span><span style=\"font-size: small;\"> de Roma, o Instituto Austr\u00edaco, o Instituto da Pr\u00fassia, a Miss\u00e3o Polaca, o Instituto da \u201cGoerresgesellschaft\u201d, pesquisadores belgas, holand\u00eas, espanh\u00f3is, portugueses, russos, etc., realizaram e prosseguem realizando consider\u00e1veis trabalhos de organiza\u00e7\u00e3o de invent\u00e1rios.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote20\">\n<p style=\"text-indent: 0in; margin-bottom: 0in; page-break-before: always;\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote20anc\" name=\"sdfootnote20sym\">20<\/a><span style=\"font-size: small;\"> Os cat\u00e1logos de documentos mencionam ocasionalmente, mas nem sempre, se um determinado documento foi publicado, atualizado ou utilizado. A regra geralmente admitida \u00e9 que o redator mencione as circunst\u00e2ncias deste g\u00eanero caso as conhe\u00e7a, sem lhe impor a desonesta tarefa de informar-se de todos os casos particulares.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote21\">\n<p style=\"text-indent: 0in; margin-bottom: 0in; page-break-before: always;\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote21anc\" name=\"sdfootnote21sym\">21<\/a><span style=\"font-size: small;\"> E. Bernheim, <\/span><span style=\"font-size: small;\"><i>Lehrbuch der historischen Methode<\/i><\/span><span style=\"font-size: small;\">, pp. 196-202.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote22\">\n<p style=\"text-indent: 0in; margin-bottom: 0in; page-break-before: always;\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote22anc\" name=\"sdfootnote22sym\">22<\/a><span style=\"font-size: small;\"> Ch.-V. Langlois, <\/span><span style=\"font-size: small;\"><i>Manuel de bibliographie historique, I, Instruments bibliographiques<\/i><\/span><span style=\"font-size: small;\">, Paris, 1896.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote23\">\n<p style=\"text-indent: 0in; margin-bottom: 0in; page-break-before: always;\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote23anc\" name=\"sdfootnote23sym\">23<\/a><span style=\"font-size: small;\"> E. Renan, <\/span><span style=\"font-size: small;\"><i>Feuilles d\u00e9tach\u00e9es<\/i><\/span><span style=\"font-size: small;\">, Paris, 1892, pp. 96 e ss.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<\/div>\n<div>\u00a0<a href=\"http:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/introducao-aos-estudos-historicos\/\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-26\" src=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/coluna-2-seignobos-1.jpg\" alt=\"\" width=\"231\" height=\"328\" \/><\/a><\/div>\n<h4><a href=\"http:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/principais-obras\/introducao-aos-estudos-historicos\/\">Adquira o livro!<\/a><\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Caso voc\u00ea prefira baixar o cap\u00edtulo em PDF, clique aqui. Caso deseje adquirir o livro, clique aqui. A pesquisa de documentos (heur\u00edstica) A hist\u00f3ria se faz com documentos. Os documentos s\u00e3o vest\u00edgios deixados pelos pensamentos e atos das pessoas do passado. Entre os pensamentos e atos humanos, s\u00e3o poucos os\u2026<\/p>\n<p class=\"continue-reading-button\"> <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2017\/10\/24\/capitulo-1-de-introducao-aos-estudos-historicos\/\">Leia mais<i class=\"crycon-right-dir\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":99,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[20],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95"}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=95"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/99"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=95"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=95"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=95"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}