{"id":966,"date":"2024-08-23T12:45:29","date_gmt":"2024-08-23T12:45:29","guid":{"rendered":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/?p=966"},"modified":"2024-08-23T12:45:29","modified_gmt":"2024-08-23T12:45:29","slug":"a-reconstrucao-do-pensamento-religioso-no-isla-de-muhammad-iqbal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2024\/08\/23\/a-reconstrucao-do-pensamento-religioso-no-isla-de-muhammad-iqbal\/","title":{"rendered":"A Reconstru\u00e7\u00e3o do Pensamento Religioso no Isl\u00e3, de Muhammad Iqbal"},"content":{"rendered":"\n<p>Voc\u00ea ir\u00e1 ler, a seguir, o primeiro cap\u00edtulo da obra &#8220;A Reconstru\u00e7\u00e3o do Pensamento Religioso no Isl\u00e3&#8221; de Muhammad Iqbal. 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Existe um elemento permanente na constitui\u00e7\u00e3o deste universo? Como estamos relacionados a ele? Qual \u00e9 o lugar que ocupamos nele e qual \u00e9 o tipo de conduta que condiz com o lugar que ocupamos? Essas quest\u00f5es s\u00e3o comuns \u00e0 religi\u00e3o, filosofia e poesia elevada. Mas o tipo de conhecimento que a inspira\u00e7\u00e3o po\u00e9tica traz \u00e9 essencialmente individual em seu car\u00e1ter; \u00e9 figurativo, vago e indefinido. A religi\u00e3o, em suas formas mais avan\u00e7adas, se eleva acima da poesia. Ela se move do individual para o social. Em sua atitude em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Realidade \u00daltima, ela se op\u00f5e \u00e0s limita\u00e7\u00f5es humanas; amplia suas reivindica\u00e7\u00f5es e oferece a perspectiva de nada menos do que uma vis\u00e3o direta da Realidade. Ent\u00e3o, seria poss\u00edvel aplicar o m\u00e9todo puramente racional da filosofia \u00e0 religi\u00e3o? O esp\u00edrito da filosofia \u00e9 o de uma investiga\u00e7\u00e3o livre. Desconfia de toda autoridade. Sua fun\u00e7\u00e3o \u00e9 rastrear as suposi\u00e7\u00f5es n\u00e3o cr\u00edticas do pensamento humano at\u00e9 seus esconderijos, e nessa busca pode acabar, finalmente, na nega\u00e7\u00e3o ou em uma franca admiss\u00e3o da incapacidade da raz\u00e3o pura de alcan\u00e7ar a Realidade \u00daltima. A ess\u00eancia da religi\u00e3o, por outro lado, \u00e9 a f\u00e9; e a f\u00e9, como o p\u00e1ssaro, v\u00ea seu \u201ccaminho sem rastros\u201d sem a interven\u00e7\u00e3o do intelecto que, nas palavras do grande poeta m\u00edstico do Isl\u00e3, \u201capenas embosca o cora\u00e7\u00e3o vivo do homem e o despoja da riqueza invis\u00edvel da vida que reside interiormente.\u201d No entanto, n\u00e3o se pode negar que a f\u00e9 \u00e9 mais do que mero sentimento. Ela tem algo como um conte\u00fado cognitivo, e a exist\u00eancia de partidos rivais \u2013 escol\u00e1sticos e m\u00edsticos \u2013 na hist\u00f3ria da religi\u00e3o mostra que a ideia \u00e9 um elemento vital na religi\u00e3o. Al\u00e9m disso, a religi\u00e3o, em seu lado doutrin\u00e1rio, conforme definido pelo Professor Whitehead, \u00e9 \u201cum sistema de verdades gerais que t\u00eam o efeito de transformar o car\u00e1ter quando s\u00e3o sinceramente sustentadas e vividamente apreendidas.\u201d Agora, visto que a transforma\u00e7\u00e3o e a orienta\u00e7\u00e3o da vida interior e exterior do homem \u00e9 o objetivo essencial da religi\u00e3o, \u00e9 \u00f3bvio que as verdades gerais que ela incorpora n\u00e3o devem permanecer indefinidas. Ningu\u00e9m arriscaria agir com base em um princ\u00edpio de conduta duvidoso. De fato, em vista de sua fun\u00e7\u00e3o, a religi\u00e3o est\u00e1 em maior necessidade de uma funda\u00e7\u00e3o racional de seus princ\u00edpios \u00faltimos do que at\u00e9 mesmo os dogmas da ci\u00eancia. A ci\u00eancia pode ignorar uma metaf\u00edsica racional; de fato, ela a tem ignorado at\u00e9 agora. A religi\u00e3o dificilmente pode se dar ao luxo de ignorar a busca por uma reconcilia\u00e7\u00e3o das oposi\u00e7\u00f5es da experi\u00eancia e uma justificativa do ambiente em que a humanidade se encontra. \u00c9 por isso que o Professor Whitehead observou agudamente que \u201cas eras de f\u00e9 s\u00e3o as eras do racionalismo\u201d. Mas racionalizar a f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 admitir a superioridade da filosofia sobre a religi\u00e3o. A filosofia, sem d\u00favida, tem a jurisdi\u00e7\u00e3o para julgar a religi\u00e3o, mas o que deve ser julgado \u00e9 de tal natureza que n\u00e3o se submeter\u00e1 \u00e0 jurisdi\u00e7\u00e3o da filosofia, exceto em seus pr\u00f3prios termos. Ao julgar a religi\u00e3o, a filosofia n\u00e3o pode dar \u00e0 religi\u00e3o um lugar inferior entre seus dados. A religi\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o departamental; n\u00e3o \u00e9 apenas pensamento, nem apenas sentimento, nem apenas a\u00e7\u00e3o; \u00e9 uma express\u00e3o do homem inteiro. Assim, na avalia\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o, a filosofia deve reconhecer a posi\u00e7\u00e3o central da religi\u00e3o e n\u00e3o tem outra alternativa sen\u00e3o admiti-la como algo focal no processo de s\u00edntese reflexiva. Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para supor que pensamento e intui\u00e7\u00e3o sejam essencialmente opostos um ao outro. Ambos brotam da mesma raiz e se complementam. Um apreende a Realidade em partes, o outro a apreende em sua totalidade. Um fixa seu olhar no eterno, o outro no aspecto temporal da Realidade. Um \u00e9 o desfrute presente de toda a Realidade; o outro visa percorrer o todo especificando lentamente e fechando as v\u00e1rias regi\u00f5es do todo para observa\u00e7\u00e3o exclusiva. Ambos precisam um do outro para rejuvenescimento m\u00fatuo. Ambos buscam vis\u00f5es da mesma Realidade, que se revela a eles de acordo com sua fun\u00e7\u00e3o na vida. Na verdade, a intui\u00e7\u00e3o, como Bergson corretamente diz, \u00e9 apenas um tipo mais elevado de intelecto.<\/p>\n\n\n\n<p>A busca por fundamentos racionais no Isl\u00e3 pode ser considerada como tendo come\u00e7ado com o pr\u00f3prio Profeta. Sua ora\u00e7\u00e3o constante era: \u201c\u00d3 Deus! Concede-me conhecimento da natureza \u00faltima das coisas!\u201d O trabalho dos m\u00edsticos posteriores e dos racionalistas n\u00e3o-m\u00edsticos constitui um cap\u00edtulo extremamente instrutivo na hist\u00f3ria de nossa cultura, na medida em que revela um anseio por um sistema coerente de ideias, um esp\u00edrito de devo\u00e7\u00e3o total \u00e0 verdade, bem como as limita\u00e7\u00f5es da \u00e9poca, que tornaram os diversos movimentos teol\u00f3gicos no Isl\u00e3 menos frut\u00edferos do que poderiam ter sido em uma \u00e9poca diferente. Como todos sabemos, a filosofia grega foi uma grande for\u00e7a cultural na hist\u00f3ria do Isl\u00e3. No entanto, um estudo cuidadoso do Alcor\u00e3o e das v\u00e1rias escolas de teologia escol\u00e1stica que surgiram sob a inspira\u00e7\u00e3o do pensamento grego revela o fato not\u00e1vel de que, embora a filosofia grega tenha ampliado muito a perspectiva dos pensadores mu\u00e7ulmanos, ela, no geral, obscureceu sua vis\u00e3o do Alcor\u00e3o. S\u00f3crates concentrou sua aten\u00e7\u00e3o apenas no mundo humano. Para ele, o estudo adequado do homem era o homem e n\u00e3o o mundo das plantas, insetos e estrelas. Qu\u00e3o diferente \u00e9 o esp\u00edrito do Alcor\u00e3o, que v\u00ea na humilde abelha um recept\u00e1culo da inspira\u00e7\u00e3o Divina e constantemente chama o leitor para observar a mudan\u00e7a perp\u00e9tua dos ventos, a altern\u00e2ncia do dia e da noite, as nuvens, os c\u00e9us estrelados e os planetas nadando pelo espa\u00e7o infinito! Como um verdadeiro disc\u00edpulo de S\u00f3crates, Plat\u00e3o desprezava a percep\u00e7\u00e3o sensorial que, em sua vis\u00e3o, produzia mera opini\u00e3o e nenhum conhecimento real. Qu\u00e3o diferente \u00e9 o Alcor\u00e3o, que considera \u201caudi\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cvis\u00e3o\u201d como os presentes Divinos mais valiosos e declara que ser\u00e3o cobrados por suas atividades neste mundo. Isso \u00e9 o que os primeiros estudantes mu\u00e7ulmanos do Alcor\u00e3o perderam completamente sob o encantamento da especula\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica. Eles leram o Alcor\u00e3o \u00e0 luz do pensamento grego. Levou-lhes mais de duzentos anos perceber \u2013 embora n\u00e3o de forma totalmente clara \u2013 que o esp\u00edrito do Alcor\u00e3o era essencialmente anticlassicista, e o resultado dessa percep\u00e7\u00e3o foi uma esp\u00e9cie de revolta intelectual, cujo pleno significado n\u00e3o foi compreendido nem mesmo at\u00e9 hoje. Foi em parte devido a essa revolta e em parte \u00e0 sua hist\u00f3ria pessoal que Ghaz\u0101l\u012b<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a> baseou a religi\u00e3o no ceticismo filos\u00f3fico \u2013 uma base bastante insegura para a religi\u00e3o e n\u00e3o totalmente justificada pelo esp\u00edrito do Alcor\u00e3o. O principal oponente de Ghaz\u0101l\u012b, Ibn Rushd<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, que defendeu a filosofia grega contra os rebeldes, foi levado, atrav\u00e9s de Arist\u00f3teles, \u00e0quilo que \u00e9 conhecido como a doutrina da Imortalidade do Intelecto Ativo, uma doutrina que exerceu enorme influ\u00eancia na vida intelectual da Fran\u00e7a e da It\u00e1lia, mas que, na minha opini\u00e3o, \u00e9 totalmente oposta \u00e0 vis\u00e3o que o Alcor\u00e3o tem do valor e destino do ego humano. Assim, Ibn Rushd perdeu de vista uma grande e frut\u00edfera ideia no Isl\u00e3 e, sem querer, ajudou ao crescimento daquela filosofia de vida enfraquecedora que obscurece a vis\u00e3o do homem sobre si mesmo, seu Deus e seu mundo. Os mais construtivos entre os pensadores Ash\u2019aritas<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a> estavam, sem d\u00favida, no caminho certo e anteciparam algumas das formas mais modernas de Idealismo; no entanto, no geral, o objetivo do movimento Ash\u2019arita era simplesmente defender a opini\u00e3o ortodoxa com as armas da dial\u00e9tica grega. Os Mu\u2019tazilah<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, conceituando a religi\u00e3o meramente como um corpo de doutrinas e ignorando-a como um fato vital, n\u00e3o notaram os modos n\u00e3o conceituais de abordar a Realidade e reduziram a religi\u00e3o a um mero sistema de conceitos l\u00f3gicos terminando em uma atitude puramente negativa. Eles falharam em perceber que, no dom\u00ednio do conhecimento \u2013 cient\u00edfico ou religioso \u2013 a completa independ\u00eancia do pensamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 experi\u00eancia concreta n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se pode, no entanto, negar que a miss\u00e3o de Ghaz\u0101l\u012b foi quase apost\u00f3lica, como a de Kant na Alemanha do s\u00e9culo XVIII. Na Alemanha, o racionalismo apareceu como um aliado da religi\u00e3o, mas logo se percebeu que o lado dogm\u00e1tico da religi\u00e3o era incapaz de demonstra\u00e7\u00e3o. O \u00fanico caminho aberto era eliminar o dogma do registro sagrado. Com a elimina\u00e7\u00e3o do dogma veio a vis\u00e3o utilit\u00e1ria da moralidade, e assim o racionalismo completou o reinado da descren\u00e7a. Tal era o estado do pensamento teol\u00f3gico na Alemanha quando Kant apareceu. Sua <em>Cr\u00edtica da Raz\u00e3o Pura<\/em> revelou as limita\u00e7\u00f5es da raz\u00e3o humana e reduziu todo o trabalho dos racionalistas a um monte de ru\u00ednas. E, justamente, ele tem sido descrito como o maior presente de Deus para seu pa\u00eds. O ceticismo filos\u00f3fico de Ghaz\u0101l\u012b, que, no entanto, foi um pouco longe demais, fez virtualmente o mesmo tipo de trabalho no mundo isl\u00e2mico ao quebrar as costas daquele racionalismo orgulhoso, mas superficial, que se movia na mesma dire\u00e7\u00e3o do racionalismo pr\u00e9-kantiano na Alemanha. H\u00e1, no entanto, uma diferen\u00e7a importante entre Ghaz\u0101l\u012b e Kant. Kant, consistente com seus princ\u00edpios, n\u00e3o podia afirmar a possibilidade de um conhecimento de Deus. Ghaz\u0101l\u012b, n\u00e3o encontrando esperan\u00e7a no pensamento anal\u00edtico, voltou-se para a experi\u00eancia m\u00edstica e ali encontrou um conte\u00fado independente para a religi\u00e3o. Dessa forma, ele conseguiu assegurar \u00e0 religi\u00e3o o direito de existir independentemente da ci\u00eancia e da metaf\u00edsica. Mas a revela\u00e7\u00e3o do Total Infinito na experi\u00eancia m\u00edstica convenceu-o da finitude e inconclusividade do pensamento e o levou a tra\u00e7ar uma linha de separa\u00e7\u00e3o entre pensamento e intui\u00e7\u00e3o. Ele falhou em ver que pensamento e intui\u00e7\u00e3o est\u00e3o organicamente relacionados e que o pensamento deve necessariamente simular finitude e inconclusividade devido \u00e0 sua alian\u00e7a com o tempo serial. A ideia de que o pensamento \u00e9 essencialmente finito e, por isso, incapaz de capturar o Infinito baseia-se em uma no\u00e7\u00e3o equivocada do movimento do pensamento no conhecimento. \u00c9 a inadequa\u00e7\u00e3o da compreens\u00e3o l\u00f3gica, que encontra uma multiplicidade de individualidades mutuamente contrastantes sem perspectiva de sua redu\u00e7\u00e3o \u00faltima a uma unidade, que nos torna c\u00e9ticos quanto \u00e0 possibilidade de conclus\u00e3o do pensamento. Na verdade, a compreens\u00e3o l\u00f3gica \u00e9 incapaz de ver essa multiplicidade como um universo coerente. Seu \u00fanico m\u00e9todo \u00e9 a generaliza\u00e7\u00e3o baseada em semelhan\u00e7as, mas suas generaliza\u00e7\u00f5es s\u00e3o apenas unidades fict\u00edcias que n\u00e3o afetam a realidade das coisas concretas. Em seu movimento mais profundo, no entanto, o pensamento \u00e9 capaz de alcan\u00e7ar um Infinito imanente, em cujo movimento auto desdobra os v\u00e1rios conceitos finitos que s\u00e3o meramente momentos. Em sua natureza essencial, ent\u00e3o, o pensamento n\u00e3o \u00e9 est\u00e1tico; \u00e9 din\u00e2mico e desdobra sua infinitude interna no tempo como a semente que, desde o in\u00edcio, carrega dentro de si a unidade org\u00e2nica da \u00e1rvore como um fato presente. O pensamento \u00e9, portanto, o todo em sua autoexpress\u00e3o din\u00e2mica, aparecendo para a vis\u00e3o temporal como uma s\u00e9rie de especifica\u00e7\u00f5es definidas que n\u00e3o podem ser compreendidas exceto por uma refer\u00eancia rec\u00edproca. Seu significado n\u00e3o reside em sua autoidentidade, mas no todo maior do qual s\u00e3o aspectos espec\u00edficos. Esse todo maior \u00e9, para usar uma met\u00e1fora do Alcor\u00e3o, uma esp\u00e9cie de \u201cTabuleta Preservada\u201d<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, que mant\u00e9m todas as possibilidades indeterminadas do conhecimento como uma realidade presente, revelando-se no tempo serial como uma sucess\u00e3o de conceitos finitos que parecem alcan\u00e7ar uma unidade j\u00e1 presente neles. \u00c9, na verdade, a presen\u00e7a do Total Infinito no movimento do conhecimento que torna o pensamento finito poss\u00edvel. Tanto Kant quanto Ghaz\u0101l\u012b falharam em perceber que o pensamento, no pr\u00f3prio ato de conhecimento, ultrapassa sua pr\u00f3pria finitude. As finitudes da Natureza s\u00e3o reciprocamente exclusivas. N\u00e3o \u00e9 o caso das finitudes do pensamento, que, em sua natureza essencial, \u00e9 incapaz de limita\u00e7\u00e3o e n\u00e3o pode permanecer aprisionado no circuito estreito de sua pr\u00f3pria individualidade. No vasto mundo al\u00e9m de si mesmo, nada \u00e9 estranho a ele. \u00c9 na sua participa\u00e7\u00e3o progressiva na vida do aparentemente alheio que o pensamento derruba as paredes de sua finitude e desfruta de sua potencial infinitude. Seu movimento torna-se poss\u00edvel apenas pela presen\u00e7a impl\u00edcita, em sua individualidade finita, do infinito, que mant\u00e9m viva dentro dele a chama da aspira\u00e7\u00e3o e o sustenta em sua busca intermin\u00e1vel. \u00c9 um erro considerar o pensamento como inconclusivo, pois ele tamb\u00e9m, \u00e0 sua maneira, \u00e9 um cumprimento do finito com o infinito.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante os \u00faltimos quinhentos anos, o pensamento religioso no Isl\u00e3 tem estado praticamente estacion\u00e1rio. Houve um tempo em que o pensamento europeu recebia inspira\u00e7\u00e3o do mundo isl\u00e2mico. No entanto, o fen\u00f4meno mais not\u00e1vel da hist\u00f3ria moderna \u00e9 a enorme rapidez com que o mundo isl\u00e2mico est\u00e1 se movendo espiritualmente em dire\u00e7\u00e3o ao Ocidente. N\u00e3o h\u00e1 nada de errado nesse movimento, pois a cultura europeia, em seu lado intelectual, \u00e9 apenas um desenvolvimento adicional de algumas das fases mais importantes da cultura isl\u00e2mica. Nosso \u00fanico receio \u00e9 que o exterior deslumbrante da cultura europeia possa interromper nosso movimento e falhemos em alcan\u00e7ar a verdadeira ess\u00eancia dessa cultura. Durante todos os s\u00e9culos de nosso estupor intelectual, a Europa tem pensado seriamente sobre os grandes problemas nos quais os fil\u00f3sofos e cientistas do Isl\u00e3 estavam t\u00e3o profundamente interessados. Desde a Idade M\u00e9dia, quando as escolas de teologia mu\u00e7ulmana foram completadas, um avan\u00e7o infinito ocorreu no dom\u00ednio do pensamento e da experi\u00eancia humana. A amplia\u00e7\u00e3o do poder do homem sobre a Natureza deu-lhe uma nova f\u00e9 e um novo senso de superioridade sobre as for\u00e7as que constituem seu ambiente. Novos pontos de vista foram sugeridos, problemas antigos foram reexplicados \u00e0 luz de novas experi\u00eancias e novos problemas surgiram. Parece que o intelecto humano est\u00e1 ultrapassando suas pr\u00f3prias categorias mais fundamentais \u2013 tempo, espa\u00e7o e causalidade. Com o avan\u00e7o do pensamento cient\u00edfico, at\u00e9 mesmo nosso conceito de inteligibilidade est\u00e1 passando por uma mudan\u00e7a. A teoria de Einstein trouxe uma nova vis\u00e3o do universo e sugere novas maneiras de olhar para os problemas comuns tanto da religi\u00e3o quanto da filosofia. N\u00e3o \u00e9 de se admirar, ent\u00e3o, que a gera\u00e7\u00e3o mais jovem do Isl\u00e3 na \u00c1sia e na \u00c1frica exija uma nova orienta\u00e7\u00e3o de sua f\u00e9. Com o despertar do Isl\u00e3, portanto, \u00e9 necess\u00e1rio examinar, de forma independente, o que a Europa pensou e at\u00e9 que ponto as conclus\u00f5es alcan\u00e7adas por ela podem nos ajudar na revis\u00e3o e, se necess\u00e1rio, reconstru\u00e7\u00e3o do pensamento teol\u00f3gico no Isl\u00e3. Al\u00e9m disso, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ignorar a propaganda geralmente antirreligiosa e especialmente anti-isl\u00e2mica na \u00c1sia Central, que j\u00e1 cruzou a fronteira indiana. Alguns dos ap\u00f3stolos desse movimento s\u00e3o mu\u00e7ulmanos de nascimento, e um deles, Tevfik Fikret, o poeta turco que faleceu h\u00e1 pouco tempo, chegou ao ponto de utilizar nosso grande poeta-pensador, M\u012brz\u0101 \u2018Abd al-Q\u0101dir Bedil de Akbar\u0101b\u0101d, para os prop\u00f3sitos desse movimento<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. Certamente, \u00e9 chegada a hora de voltar \u00e0 ess\u00eancia do Isl\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Nestas palestras, proponho realizar uma discuss\u00e3o filos\u00f3fica sobre algumas das ideias b\u00e1sicas do Isl\u00e3, com a esperan\u00e7a de que isso possa, ao menos, ajudar na compreens\u00e3o adequada do significado do Isl\u00e3 como uma mensagem para a humanidade. Tamb\u00e9m, com o objetivo de fornecer um tipo de esbo\u00e7o para discuss\u00f5es futuras, proponho, nesta palestra preliminar, considerar o car\u00e1ter do conhecimento e da experi\u00eancia religiosa.<\/p>\n\n\n\n<p>O principal objetivo do Alcor\u00e3o \u00e9 despertar no homem a consci\u00eancia superior de suas diversas rela\u00e7\u00f5es com Deus e o universo. \u00c9 tendo em vista esse aspecto essencial do ensino cor\u00e2nico que Goethe, ao fazer uma revis\u00e3o geral do Isl\u00e3 como uma for\u00e7a educacional, disse a Eckermann: \u201cVoc\u00ea v\u00ea, esse ensinamento nunca falha; com todos os nossos sistemas, n\u00e3o podemos ir, e, em termos gerais, nenhum homem pode ir, al\u00e9m disso.\u201d<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\">[7]<\/a> O problema do Isl\u00e3 foi realmente sugerido pelo conflito m\u00fatuo, e ao mesmo tempo pela atra\u00e7\u00e3o m\u00fatua, apresentado pelas duas for\u00e7as da religi\u00e3o e da civiliza\u00e7\u00e3o. O mesmo problema confrontou o cristianismo primitivo. O grande ponto do cristianismo \u00e9 a busca de um conte\u00fado independente para a vida espiritual que, de acordo com a vis\u00e3o de seu fundador, poderia ser elevado n\u00e3o pelas for\u00e7as de um mundo externo \u00e0 alma do homem, mas pela revela\u00e7\u00e3o de um novo mundo dentro de sua alma. O Isl\u00e3 concorda plenamente com essa vis\u00e3o e a complementa com a vis\u00e3o adicional de que a ilumina\u00e7\u00e3o do novo mundo assim revelado n\u00e3o \u00e9 algo estrangeiro ao mundo da mat\u00e9ria, mas o permeia por completo.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, a afirma\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito buscada pelo cristianismo n\u00e3o viria pela ren\u00fancia \u00e0s for\u00e7as externas que j\u00e1 est\u00e3o permeadas pela ilumina\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito, mas por um ajuste adequado da rela\u00e7\u00e3o do homem com essas for\u00e7as, \u00e0 luz recebida do mundo interior. \u00c9 o toque misterioso do ideal que anima e sustenta o real, e \u00e9 atrav\u00e9s dele que podemos descobrir e afirmar o ideal. Com o Isl\u00e3, o ideal e o real n\u00e3o s\u00e3o duas for\u00e7as opostas que n\u00e3o podem ser reconciliadas. A vida do ideal consiste n\u00e3o em uma ruptura total com o real, que tenderia a desmantelar a totalidade org\u00e2nica da vida em oposi\u00e7\u00f5es dolorosas, mas no esfor\u00e7o perp\u00e9tuo do ideal para apropriar-se do real com o objetivo eventual de absorv\u00ea-lo, convert\u00ea-lo em si mesmo e iluminar seu ser inteiro. \u00c9 a oposi\u00e7\u00e3o acentuada entre o sujeito e o objeto, o matem\u00e1tico externo e o biol\u00f3gico interno, que impressionou o cristianismo. O Isl\u00e3, no entanto, encara a oposi\u00e7\u00e3o com o objetivo de super\u00e1-la. Essa diferen\u00e7a essencial na forma de olhar para uma rela\u00e7\u00e3o fundamental determina as atitudes respectivas dessas grandes religi\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao problema da vida humana em seu ambiente atual. Ambas demandam a afirma\u00e7\u00e3o do eu espiritual no homem, com a \u00fanica diferen\u00e7a de que o Isl\u00e3, reconhecendo o contato do ideal com o real, diz \u201csim\u201d ao mundo da mat\u00e9ria e aponta o caminho para domin\u00e1-lo com o objetivo de descobrir uma base para uma regula\u00e7\u00e3o realista da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, qual \u00e9, de acordo com o Alcor\u00e3o, o car\u00e1ter do universo que habitamos? Em primeiro lugar, n\u00e3o \u00e9 o resultado de um mero capricho criativo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o criamos os C\u00e9us e a terra e tudo o que h\u00e1 entre eles por divers\u00e3o. N\u00e3o os criamos sen\u00e3o com a verdade; mas a maior parte deles n\u00e3o entende isso.\u201d (44:38-39)<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma realidade com a qual se deve contar:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNa cria\u00e7\u00e3o dos C\u00e9us e da terra, e na altern\u00e2ncia da noite e do dia, h\u00e1 sinais para os homens de entendimento; que, de p\u00e9, sentados ou reclinados, lembram-se de Deus e reflitam sobre a cria\u00e7\u00e3o dos C\u00e9us e da terra, e digam: \u201c\u00d3 nosso Senhor! N\u00e3o criaste isto em v\u00e3o\u201d\u201c (3:190-91).<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, o universo \u00e9 constitu\u00eddo de tal forma que \u00e9 capaz de expans\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c(Deus) acrescenta \u00e0 Sua cria\u00e7\u00e3o o que Lhe apraz\u201d (35:1).<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 um universo est\u00e1tico, um produto acabado, im\u00f3vel e incapaz de mudan\u00e7a. No fundo de seu ser interior, talvez, haja o sonho de um novo nascimento:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDize: percorrei a terra e vede como Deus fez surgir toda a cria\u00e7\u00e3o; depois, Ele a far\u00e1 nascer novamente\u201d (29:20).<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, esse balan\u00e7o misterioso e impulso do universo, esse nadar silencioso do tempo que aparece para n\u00f3s, seres humanos, como o movimento do dia e da noite, \u00e9 considerado pelo Alcor\u00e3o como um dos maiores sinais de Deus:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDeus faz com que o dia e a noite se sucedam. Em verdade, nisso h\u00e1 ensinamentos para os homens de vis\u00e3o\u201d (24:44).<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 por isso que o Profeta disse: \u201cN\u00e3o difamem o tempo, pois o tempo \u00e9 Deus.\u201d E essa imensid\u00e3o de tempo e espa\u00e7o carrega consigo a promessa de uma completa subjuga\u00e7\u00e3o pelo homem, cuja obriga\u00e7\u00e3o \u00e9 refletir sobre os sinais de Deus e, assim, descobrir os meios de realizar sua conquista da Natureza como um fato real:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o vedes como Deus colocou sob voc\u00eas tudo o que h\u00e1 nos C\u00e9us e na terra, e tem sido generoso com voc\u00eas em Suas d\u00e1divas, tanto no que \u00e9 vis\u00edvel quanto no que \u00e9 invis\u00edvel?\u201d (31:20).<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cE Ele vos sujeitou a noite e o dia, o sol e a lua, e as estrelas tamb\u00e9m est\u00e3o sujeitas a voc\u00eas por Sua ordem; verdadeiramente, nisso h\u00e1 sinais para aqueles que compreendem\u201d (16:12).<\/p>\n\n\n\n<p>Sendo assim a natureza e a promessa do universo, qual \u00e9 a natureza do homem que o enfrenta de todos os lados? Dotado de um ajuste m\u00fatuo de faculdades bastante adequado, ele se descobre em baixo na escala da vida, cercado por todos os lados pelas for\u00e7as de obstru\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNa mais excelente constitui\u00e7\u00e3o criamos o homem, depois o reduzimos ao mais baixo dos degraus\u201d (95:4-5).<\/p>\n\n\n\n<p>E como o encontramos nesse ambiente? Um ser \u201cinquieto\u201d absorvido em seus ideais a ponto de esquecer tudo o mais, capaz de infligir dor a si mesmo em sua incessante busca por novos horizontes de autoexpress\u00e3o. Com todas as suas falhas, ele \u00e9 superior \u00e0 Natureza, na medida em que carrega dentro de si uma grande confian\u00e7a que, nas palavras do Alcor\u00e3o, os c\u00e9us, a terra e as montanhas se recusaram a carregar:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNa verdade, propusemos aos C\u00e9us, \u00e0 terra e \u00e0s montanhas que recebessem o fardo (da personalidade), mas recusaram o peso e temeram receb\u00ea-lo. Somente o homem aceitou carreg\u00e1-lo, mas mostrou-se injusto e insensato!\u201d (33:72).<\/p>\n\n\n\n<p>Sua carreira, sem d\u00favida, tem um come\u00e7o, mas ele est\u00e1 destinado, talvez, a se tornar um elemento permanente na constitui\u00e7\u00e3o do ser:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPensa o homem que ser\u00e1 lan\u00e7ado fora como um objeto sem valor? N\u00e3o era ele um simples embri\u00e3o? Depois se tornou sangue coagulado, do qual Deus o formou e modelou, e fez dele dois, macho e f\u00eamea. N\u00e3o \u00e9 Ele poderoso o suficiente para vivificar os mortos?\u201d (75:36-40).<\/p>\n\n\n\n<p>Quando atra\u00eddo pelas for\u00e7as ao seu redor, o homem tem o poder de mold\u00e1-las e direcion\u00e1-las; quando frustrado por elas, possui a capacidade de construir um mundo muito mais vasto nas profundezas de seu pr\u00f3prio ser interior, onde descobre fontes de alegria e inspira\u00e7\u00e3o infinitas. Dif\u00edcil \u00e9 seu destino e fr\u00e1gil seu ser, como uma folha de rosa, ainda assim nenhuma forma de realidade \u00e9 t\u00e3o poderosa, inspiradora e bela quanto o esp\u00edrito humano! Assim, em seu \u00edntimo, o homem, conforme concebido pelo Alcor\u00e3o, \u00e9 uma atividade criativa, um esp\u00edrito ascendente que, em seu avan\u00e7o, passa de um estado de ser para outro:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMas, n\u00e3o! Juro pelo rubor do crep\u00fasculo e pela noite e suas reuni\u00f5es e pela lua quando est\u00e1 cheia, que de estado em estado sereis certamente transportados\u201d (84:16-19).<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o destino do homem participar das aspira\u00e7\u00f5es mais profundas do universo ao seu redor e moldar seu pr\u00f3prio destino, assim como o do universo, ora ajustando-se \u00e0s suas for\u00e7as, ora empregando toda a sua energia para moldar essas for\u00e7as aos seus pr\u00f3prios fins e prop\u00f3sitos. E nesse processo de mudan\u00e7a progressiva, Deus se torna um co-trabalhador com ele, desde que o homem tome a iniciativa:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNa verdade, Deus n\u00e3o mudar\u00e1 a condi\u00e7\u00e3o dos homens at\u00e9 que eles mudem o que est\u00e1 dentro de si mesmos\u201d (13:11).<\/p>\n\n\n\n<p>Se ele n\u00e3o tomar a iniciativa, se n\u00e3o evoluir a riqueza interior de seu ser, se deixar de sentir o impulso interno da vida que avan\u00e7a, ent\u00e3o o esp\u00edrito dentro dele se endurece em pedra e ele \u00e9 reduzido ao n\u00edvel da mat\u00e9ria morta. Mas sua vida e o avan\u00e7o de seu esp\u00edrito dependem do estabelecimento de conex\u00f5es com a realidade que o confronta. \u00c9 o conhecimento que estabelece essas conex\u00f5es, e o conhecimento \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o sensorial elaborada pelo entendimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando teu Senhor disse aos Anjos: \u201cNa verdade, estou prestes a colocar um substituto meu na terra\u201d, disseram: \u201cColocar\u00e1s ali algu\u00e9m que far\u00e1 o mal e derramar\u00e1 sangue, enquanto n\u00f3s celebramos Teu louvor e exaltamos Tua santidade?\u201d Deus disse: \u201cNa verdade, Eu sei o que voc\u00eas n\u00e3o sabem!\u201d E Ele ensinou a Ad\u00e3o os nomes de todas as coisas, e ent\u00e3o os apresentou aos Anjos e disse: \u201cDizei-me os nomes destas coisas, se \u00e9 que possu\u00eds sabedoria\u201d. Eles disseram: \u201cLouvado Sejas! N\u00e3o temos conhecimento al\u00e9m do que Tu nos concedeste. Tu \u00e9s o Conhecedor, o S\u00e1bio\u201d. Ele disse: \u201c\u00d3 Ad\u00e3o, informe-lhes os nomes\u201d. E quando ele os informou dos nomes, Deus disse: \u201cEu n\u00e3o vos disse que Eu conhe\u00e7o os segredos dos C\u00e9us e da terra, e que Eu sei o que voc\u00eas revelam e o que escondem?\u201d (2:30-33).<\/p>\n\n\n\n<p>O ponto destes versos \u00e9 que o homem \u00e9 dotado da faculdade de nomear as coisas, ou seja, de formar conceitos sobre elas, e formar conceitos sobre elas \u00e9 captur\u00e1-las. Assim, o car\u00e1ter do conhecimento do homem \u00e9 conceitual, e \u00e9 com a arma desse conhecimento conceitual que o homem se aproxima do aspecto observ\u00e1vel da Realidade. A caracter\u00edstica not\u00e1vel do Alcor\u00e3o \u00e9 a \u00eanfase que ele coloca nesse aspecto observ\u00e1vel da Realidade. Deixe-me citar aqui alguns versos:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cCertamente, na cria\u00e7\u00e3o dos C\u00e9us e da terra; e na altern\u00e2ncia da noite e do dia; e nos navios que passam pelo mar com o que \u00e9 \u00fatil para o homem; e na chuva que Deus faz descer do C\u00e9u, dando vida \u00e0 terra ap\u00f3s sua morte, e espalhando sobre ela todo tipo de gado; e na mudan\u00e7a dos ventos, e nas nuvens que s\u00e3o feitas para servir entre os C\u00e9us e a terra \u2013 h\u00e1 sinais para aqueles que \u201centendem\u201d\u201c (2:164).<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 Ele Quem estabeleceu para voc\u00eas para que possam se orientar na escurid\u00e3o da terra e do mar! Tornamos claros Nossos sinais para os \u201chomens de conhecimento\u201d. E \u00e9 Ele Quem criou voc\u00eas de uma s\u00f3 alma, e forneceu a voc\u00eas um lar e um lugar de descanso (no \u00fatero). Tornamos claros Nossos sinais para os \u201chomens de vis\u00e3o\u201d! E \u00e9 Ele Quem faz descer a chuva do C\u00e9u: e com ela fazemos brotar os brotos de todas as plantas, e delas fazemos crescer a folhagem verde, e o gr\u00e3o que se desenvolve, e as palmeiras com cachos de t\u00e2maras, e os vinhedos, e o azeite, e a rom\u00e3, semelhantes e diferentes. Olhem para os frutos quando amadurecem. Certamente, nisso h\u00e1 sinais para pessoas que acreditam (6:97-99).<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o viste como teu Senhor alonga a sombra? Se Lhe aprouvesse, Ele a teria tornado im\u00f3vel. Mas fizemos o sol ser seu guia; ent\u00e3o a reduzimos a N\u00f3s com facilidade (25:45-46).\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPodem eles n\u00e3o olhar para as nuvens, como s\u00e3o criadas; e para o C\u00e9u, como \u00e9 levantado; e para as montanhas, como s\u00e3o fincadas, e para a terra, como \u00e9 estendida? (88:17-20).\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cE entre Seus sinais est\u00e3o a cria\u00e7\u00e3o dos C\u00e9us e da terra, e a diversidade das suas l\u00ednguas e cores. Certamente, nisso h\u00e1 sinais para todos os homens (30:22).\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Sem d\u00favida, o objetivo imediato do Alcor\u00e3o nesta observa\u00e7\u00e3o reflexiva da Natureza \u00e9 despertar no homem a consci\u00eancia daquilo que a Natureza \u00e9, considerada um s\u00edmbolo. Mas o ponto a ser notado \u00e9 a atitude emp\u00edrica geral do Alcor\u00e3o, que gerou em seus seguidores um sentimento de rever\u00eancia pelo real e, em \u00faltima an\u00e1lise, os tornou fundadores da ci\u00eancia moderna. Foi um grande feito despertar o esp\u00edrito emp\u00edrico em uma \u00e9poca que renunciou ao vis\u00edvel como sem valor na busca do homem por Deus. Segundo o Alcor\u00e3o, como vimos antes, o universo tem um fim s\u00e9rio. Suas atualidades mut\u00e1veis for\u00e7am nosso ser a novas forma\u00e7\u00f5es. O esfor\u00e7o intelectual para superar o obst\u00e1culo que ele apresenta, al\u00e9m de enriquecer e ampliar nossa vida, agu\u00e7a nossa percep\u00e7\u00e3o, e assim nos prepara para uma inser\u00e7\u00e3o mais habilidosa em aspectos mais sutis da experi\u00eancia humana. \u00c9 o nosso contato reflexivo com o fluxo temporal das coisas que nos treina para uma vis\u00e3o intelectual do n\u00e3o-temporal. A realidade vive em suas pr\u00f3prias apar\u00eancias; e um ser como o homem, que deve manter sua vida em um ambiente obstrutivo, n\u00e3o pode se dar ao luxo de ignorar o vis\u00edvel. O Alcor\u00e3o abre nossos olhos para o grande fato da mudan\u00e7a, por meio da aprecia\u00e7\u00e3o e controle do qual apenas \u00e9 poss\u00edvel construir uma civiliza\u00e7\u00e3o duradoura. As culturas da \u00c1sia e, de fato, de todo o mundo antigo falharam, porque abordaram a Realidade exclusivamente de dentro para fora e se moveram de dentro para fora. Esse procedimento lhes deu teoria sem poder, e sobre mera teoria nenhuma civiliza\u00e7\u00e3o duradoura pode ser baseada.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que o tratamento da experi\u00eancia religiosa, como uma fonte de conhecimento Divino, \u00e9 historicamente anterior ao tratamento de outras regi\u00f5es da experi\u00eancia humana para o mesmo prop\u00f3sito. O Alcor\u00e3o, reconhecendo que a atitude emp\u00edrica \u00e9 uma etapa indispens\u00e1vel na vida espiritual da humanidade, atribui igual import\u00e2ncia a todas as regi\u00f5es da experi\u00eancia humana como fontes de conhecimento da Realidade \u00daltima, que revela seus s\u00edmbolos tanto interna quanto externamente. Uma maneira indireta de estabelecer conex\u00f5es com a realidade que nos confronta \u00e9 a observa\u00e7\u00e3o reflexiva e o controle de seus s\u00edmbolos \u00e0 medida que se revelam \u00e0 percep\u00e7\u00e3o sensorial; a outra maneira \u00e9 a associa\u00e7\u00e3o direta com essa realidade \u00e0 medida que se revela interiormente. O naturalismo do Alcor\u00e3o \u00e9 apenas um reconhecimento do fato de que o homem est\u00e1 relacionado com a natureza, e essa rela\u00e7\u00e3o, considerando sua possibilidade como meio de controlar suas for\u00e7as, deve ser explorada n\u00e3o no interesse do desejo injusto de domina\u00e7\u00e3o, mas no interesse mais nobre de um movimento livre e ascendente da vida espiritual. Em prol da obten\u00e7\u00e3o de uma vis\u00e3o completa da Realidade, portanto, a percep\u00e7\u00e3o sensorial deve ser complementada pela percep\u00e7\u00e3o do que o Alcor\u00e3o descreve como Fu\u2019\u0101d ou Qalb, ou seja, o cora\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDeus fez tudo o que criou muito bom; e come\u00e7ou a cria\u00e7\u00e3o do homem com barro; depois ordenou sua descend\u00eancia a partir de germes de vida, de \u00e1gua pobre; ent\u00e3o o moldou, soprou-lhe de Seu esp\u00edrito e deu-lhe a audi\u00e7\u00e3o, a vis\u00e3o e o cora\u00e7\u00e3o: qu\u00e3o poucos agradecimentos retornais? (32:7-9).\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O \u201ccora\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 uma esp\u00e9cie de intui\u00e7\u00e3o ou percep\u00e7\u00e3o interna que, nas belas palavras de R\u016bm\u012b<a href=\"#_ftn8\" id=\"_ftnref8\">[8]<\/a>, se alimenta dos raios do sol e nos coloca em contato com aspectos da Realidade diferentes daqueles acess\u00edveis \u00e0 percep\u00e7\u00e3o sensorial. Segundo o Alcor\u00e3o, \u00e9 algo que \u201cv\u00ea\u201d, e seus relatos, se devidamente interpretados, nunca s\u00e3o falsos. No entanto, n\u00e3o devemos consider\u00e1-lo como uma faculdade misteriosa e especial; \u00e9 antes uma maneira de lidar com a Realidade na qual a sensa\u00e7\u00e3o, no sentido fisiol\u00f3gico da palavra, n\u00e3o desempenha papel algum. Ainda assim, a vis\u00e3o de experi\u00eancia assim aberta para n\u00f3s \u00e9 t\u00e3o real e concreta quanto qualquer outra experi\u00eancia. Descrev\u00ea-la como ps\u00edquica, m\u00edstica ou sobrenatural n\u00e3o diminui seu valor como experi\u00eancia. Para o homem primitivo, toda experi\u00eancia era sobrenatural. Impelido pelas necessidades imediatas da vida, ele foi levado a interpretar sua experi\u00eancia, e dessa interpreta\u00e7\u00e3o gradualmente surgiu a \u201cNatureza\u201d no sentido que damos \u00e0 palavra. A Realidade total, que entra em nossa consci\u00eancia e aparece na interpreta\u00e7\u00e3o como um fato emp\u00edrico, tem outras formas de invadir nossa consci\u00eancia e oferece oportunidades adicionais de interpreta\u00e7\u00e3o. A literatura revelada e m\u00edstica da humanidade \u00e9 uma ampla testemunha do fato de que a experi\u00eancia religiosa tem sido t\u00e3o duradoura e dominante na hist\u00f3ria que n\u00e3o pode ser rejeitada como mera ilus\u00e3o. N\u00e3o parece haver raz\u00e3o, ent\u00e3o, para aceitar o n\u00edvel normal da experi\u00eancia humana como fato e rejeitar seus outros n\u00edveis como m\u00edsticos e emocionais. Os fatos da experi\u00eancia religiosa s\u00e3o fatos entre outros fatos da experi\u00eancia humana e, na capacidade de fornecer conhecimento por interpreta\u00e7\u00e3o, um fato \u00e9 t\u00e3o bom quanto outro. Tampouco h\u00e1 algo irreverente em examinar criticamente essa regi\u00e3o da experi\u00eancia humana. O Profeta do Isl\u00e3 foi o primeiro observador cr\u00edtico dos fen\u00f4menos ps\u00edquicos. Bukh\u0101r\u012b<a href=\"#_ftn9\" id=\"_ftnref9\">[9]<\/a> e outros tradicionalistas nos deram um relato completo de sua observa\u00e7\u00e3o do jovem judeu ps\u00edquico, Ibn Sayy\u0101d<a href=\"#_ftn10\" id=\"_ftnref10\">[10]<\/a>, cujos estados ext\u00e1ticos chamaram a aten\u00e7\u00e3o do Profeta. Ele o testou, questionou e examinou em seus v\u00e1rios estados de esp\u00edrito. Uma vez, ele se escondeu atr\u00e1s do tronco de uma \u00e1rvore para ouvir seus murm\u00farios. No entanto, a m\u00e3e do garoto o alertou sobre a aproxima\u00e7\u00e3o do Profeta. Ent\u00e3o, o menino imediatamente desfez seu estado de esp\u00edrito e o Profeta comentou: \u201cSe ela o tivesse deixado em paz, a situa\u00e7\u00e3o teria se esclarecido.\u201d Os companheiros do Profeta, alguns dos quais estavam presentes durante essa primeira observa\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica na hist\u00f3ria do Isl\u00e3, e at\u00e9 mesmo os tradicionalistas posteriores, que tomaram cuidado para registrar esse fato importante, entenderam totalmente mal o significado de sua atitude e a interpretaram de maneira inocente. O Professor Macdonald, que parece n\u00e3o ter ideia da diferen\u00e7a psicol\u00f3gica fundamental entre a consci\u00eancia m\u00edstica e a prof\u00e9tica, encontra \u201chumor suficiente nessa imagem de um profeta tentando investigar outro segundo o m\u00e9todo da Sociedade para Pesquisa Ps\u00edquica.\u201d<a href=\"#_ftn11\" id=\"_ftnref11\">[11]<\/a> Uma melhor aprecia\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito do Alcor\u00e3o, que, como mostrarei em uma palestra subsequente, iniciou o movimento cultural que culminou no nascimento da atitude emp\u00edrica moderna, teria levado o Professor a ver algo notavelmente sugestivo na observa\u00e7\u00e3o do Profeta sobre o judeu ps\u00edquico. No entanto, o primeiro mu\u00e7ulmano a perceber o significado e o valor da atitude do Profeta foi Ibn Khald\u016bn<a href=\"#_ftn12\" id=\"_ftnref12\">[12]<\/a>, que abordou o conte\u00fado da consci\u00eancia m\u00edstica com um esp\u00edrito mais cr\u00edtico e quase alcan\u00e7ou a hip\u00f3tese moderna dos <em>eus<\/em> subliminares. Como diz o Professor Macdonald, Ibn Khald\u016bn \u201ctinha algumas ideias psicol\u00f3gicas muito interessantes e provavelmente teria simpatizado com as Variedades da Experi\u00eancia Religiosa de William James.\u201d<a href=\"#_ftn13\" id=\"_ftnref13\">[13]<\/a> A psicologia moderna s\u00f3 recentemente come\u00e7ou a reconhecer a import\u00e2ncia de um estudo cuidadoso dos conte\u00fados da consci\u00eancia m\u00edstica, e ainda n\u00e3o possu\u00edmos um m\u00e9todo cient\u00edfico realmente eficaz para analisar os conte\u00fados dos modos de consci\u00eancia n\u00e3o-racionais. Com o tempo de que disponho, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel empreender uma investiga\u00e7\u00e3o extensa sobre a hist\u00f3ria e os v\u00e1rios graus de consci\u00eancia m\u00edstica em termos de riqueza e vivacidade. Tudo o que posso fazer \u00e9 oferecer algumas observa\u00e7\u00f5es gerais apenas sobre as principais caracter\u00edsticas da experi\u00eancia m\u00edstica.<\/p>\n\n\n\n<p>1. O primeiro ponto a ser notado \u00e9 a experi\u00eancia imediata. Nesse aspecto, ela n\u00e3o difere de outros n\u00edveis de experi\u00eancia humana que fornecem dados para o conhecimento. Toda experi\u00eancia \u00e9 imediata. Assim como as regi\u00f5es da experi\u00eancia normal est\u00e3o sujeitas \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o dos dados sensoriais para o nosso conhecimento do mundo externo, a regi\u00e3o da experi\u00eancia m\u00edstica est\u00e1 sujeita \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o para o nosso conhecimento de Deus. A imediata experi\u00eancia m\u00edstica simplesmente significa que conhecemos Deus da mesma forma que conhecemos outros objetos. Deus n\u00e3o \u00e9 uma entidade matem\u00e1tica ou um sistema de conceitos mutuamente relacionados entre si e sem refer\u00eancia \u00e0 experi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>2. O segundo ponto \u00e9 a totalidade n\u00e3o analis\u00e1vel da experi\u00eancia m\u00edstica. Quando eu experimento a mesa diante de mim, in\u00fameros dados de experi\u00eancia se fundem na experi\u00eancia \u00fanica da mesa. Dessa abund\u00e2ncia de dados, eu seleciono aqueles que se encaixam em uma certa ordem de espa\u00e7o e tempo e os relaciono com a mesa. No estado m\u00edstico, por mais v\u00edvido e rico que seja, o pensamento \u00e9 reduzido ao m\u00ednimo e tal an\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Mas essa diferen\u00e7a entre o estado m\u00edstico e a consci\u00eancia racional comum n\u00e3o significa descontinuidade com a consci\u00eancia normal, como pensava erroneamente o Professor William James<a href=\"#_ftn14\" id=\"_ftnref14\">[14]<\/a>. Em ambos os casos, \u00e9 a mesma Realidade que est\u00e1 operando sobre n\u00f3s. A consci\u00eancia racional comum, em vista da nossa necessidade pr\u00e1tica de adapta\u00e7\u00e3o ao nosso ambiente, toma essa Realidade de forma fragmentada, selecionando conjuntos isolados de est\u00edmulos para resposta. O estado m\u00edstico nos coloca em contato com a passagem total da Realidade na qual todos os diversos est\u00edmulos se fundem uns nos outros e formam uma unidade \u00fanica e n\u00e3o analis\u00e1vel na qual a distin\u00e7\u00e3o comum entre sujeito e objeto n\u00e3o existe.<\/p>\n\n\n\n<p>3. O terceiro ponto a ser notado \u00e9 que, para o m\u00edstico, o estado m\u00edstico \u00e9 um momento de associa\u00e7\u00e3o \u00edntima com um Outro Eu \u00danico, transcendente, abrangente e momentaneamente suprimindo a personalidade privada do sujeito da experi\u00eancia. Considerando seu conte\u00fado, o estado m\u00edstico \u00e9 altamente objetivo e n\u00e3o pode ser visto como um mero transporte \u00e0s n\u00e9voas da pura subjetividade. Mas voc\u00ea me perguntar\u00e1 como \u00e9 poss\u00edvel a experi\u00eancia imediata de Deus, como um Outro Eu Independente. O simples fato de que o estado m\u00edstico \u00e9 passivo n\u00e3o prova finalmente a verdadeira \u201calteridade\u201d do Eu experienciado. Essa quest\u00e3o surge porque assumimos, sem cr\u00edtica, que nosso conhecimento do mundo externo por meio da percep\u00e7\u00e3o sensorial \u00e9 o tipo de todo conhecimento. Se fosse assim, nunca poder\u00edamos ter certeza da realidade de nosso pr\u00f3prio eu. No entanto, em resposta, sugiro a analogia com nossa experi\u00eancia social di\u00e1ria. Como conhecemos outras mentes em nossa intera\u00e7\u00e3o social? \u00c9 \u00f3bvio que conhecemos nosso pr\u00f3prio eu e a Natureza por reflex\u00e3o interna e percep\u00e7\u00e3o sensorial, respectivamente. N\u00e3o possu\u00edmos nenhum sentido para a experi\u00eancia de outras mentes. O \u00fanico fundamento do meu conhecimento de um ser consciente diante de mim s\u00e3o os movimentos f\u00edsicos semelhantes aos meus, a partir dos quais deduzo a presen\u00e7a de outro ser consciente. Ou podemos dizer, seguindo o Professor Royce<a href=\"#_ftn15\" id=\"_ftnref15\">[15]<\/a>, que nossos semelhantes s\u00e3o conhecidos como reais porque respondem aos nossos sinais e, assim, constantemente fornecem o suplemento necess\u00e1rio aos nossos pr\u00f3prios significados fragment\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta, sem d\u00favida, \u00e9 o teste da presen\u00e7a de um eu consciente, e o Alcor\u00e3o tamb\u00e9m adota a mesma vis\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cE o teu Senhor diz: Invocai-Me e Eu responderei ao vosso chamado\u201d (40: 60).<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cE quando Meus servos te perguntarem sobre Mim, ent\u00e3o Eu estou perto deles e respondo ao clamor de quem Me clama\u201d (2: 186).<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 claro que, seja aplicando o crit\u00e9rio f\u00edsico ou o crit\u00e9rio n\u00e3o f\u00edsico e mais adequado de Royce, em ambos os casos nosso conhecimento de outras mentes permanece apenas algo como inferencial. No entanto, sentimos que nossa experi\u00eancia de outras mentes \u00e9 imediata e nunca temos d\u00favidas sobre a realidade de nossa experi\u00eancia social. N\u00e3o pretendo, no est\u00e1gio atual da nossa investiga\u00e7\u00e3o, construir um argumento idealista em favor da realidade de um Eu Compreensivo baseado nas implica\u00e7\u00f5es do nosso conhecimento de outras mentes. Tudo o que pretendo sugerir \u00e9 que a imediata experi\u00eancia no estado m\u00edstico n\u00e3o existe sem paralelos. Ela tem algum tipo de semelhan\u00e7a com nossa experi\u00eancia normal e provavelmente pertence \u00e0 mesma categoria.<\/p>\n\n\n\n<p>Como a qualidade da experi\u00eancia m\u00edstica \u00e9 ser diretamente experienciada, \u00e9 \u00f3bvio que ela n\u00e3o pode ser comunicada. Os estados m\u00edsticos s\u00e3o mais parecidos com o sentimento do que com o pensamento. A interpreta\u00e7\u00e3o que o m\u00edstico ou o profeta d\u00e1 ao conte\u00fado de sua consci\u00eancia religiosa pode ser transmitida aos outros na forma de proposi\u00e7\u00f5es, mas o conte\u00fado em si n\u00e3o pode ser transmitido dessa forma. Assim, nos seguintes versos do Alcor\u00e3o, \u00e9 a psicologia e n\u00e3o o conte\u00fado da experi\u00eancia que \u00e9 fornecido:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 dado ao homem que Deus lhe fale, exceto por vis\u00e3o ou de tr\u00e1s de um v\u00e9u; ou Ele envia um mensageiro para revelar, com Sua permiss\u00e3o, o que Ele quiser: pois Ele \u00e9 Exaltado, S\u00e1bio\u201d (42: 51).<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo astro quando se p\u00f5e,<\/p>\n\n\n\n<p>Teu compatriota n\u00e3o erra, nem se desvia.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem fala por impulso.<\/p>\n\n\n\n<p>O Alcor\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o a revela\u00e7\u00e3o que lhe foi revelada:<\/p>\n\n\n\n<p>Aquele forte em poder lhe ensinou,<\/p>\n\n\n\n<p>Dotado de sabedoria e em equil\u00edbrio esteve<\/p>\n\n\n\n<p>Na parte mais alta do horizonte: Ent\u00e3o aproximou-se e chegou mais perto,<\/p>\n\n\n\n<p>E estava \u00e0 dist\u00e2ncia de dois arcos ou at\u00e9 mais pr\u00f3ximo<\/p>\n\n\n\n<p>E revelou ao servo de Deus o que lhe foi revelado:<\/p>\n\n\n\n<p>Seu cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o falsificou o que viu:<\/p>\n\n\n\n<p>Que! Ent\u00e3o, disputareis com ele sobre o que viu?<\/p>\n\n\n\n<p>Ele o viu tamb\u00e9m outra vez<\/p>\n\n\n\n<p>Pr\u00f3ximo \u00e0 \u00e1rvore Sidrah que marca o limite:<\/p>\n\n\n\n<p>Perto da qual est\u00e1 o jardim do repouso:<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a \u00e1rvore Sidrah estava coberta com o que a cobria: Seu olhar n\u00e3o desviou, nem vagou:<\/p>\n\n\n\n<p>Pois ele viu os maiores sinais do Senhor (53: 1-18).<\/p>\n\n\n\n<p>A intransmissibilidade da experi\u00eancia m\u00edstica se deve ao fato de que ela \u00e9 essencialmente uma quest\u00e3o de sentimento inarticulado, n\u00e3o tocado pelo intelecto discursivo. Deve-se, no entanto, notar que o sentimento m\u00edstico, como todo sentimento, tamb\u00e9m possui um elemento cognitivo; e, acredito, \u00e9 por causa desse elemento cognitivo que ele se presta \u00e0 forma de ideia. De fato, \u00e9 da natureza do sentimento buscar express\u00e3o no pensamento. Parece que os dois \u2013 sentimento e ideia \u2013 s\u00e3o os aspectos n\u00e3o temporais e temporais da mesma unidade de experi\u00eancia interior. Mas, sobre este ponto, n\u00e3o posso fazer melhor do que citar o Professor Hocking<a href=\"#_ftn16\" id=\"_ftnref16\">[16]<\/a>, que fez um estudo notavelmente agudo do sentimento em justificativa de uma vis\u00e3o intelectual do conte\u00fado da consci\u00eancia religiosa:<\/p>\n\n\n\n<p>O que \u00e9 aquele algo-al\u00e9m-do-sentimento no qual o sentimento pode terminar? Eu respondo, a consci\u00eancia de um objeto. O sentimento \u00e9 a instabilidade de um eu consciente inteiro: e aquilo que restaurar\u00e1 a estabilidade desse eu n\u00e3o est\u00e1 dentro de suas pr\u00f3prias fronteiras, mas al\u00e9m delas. O sentimento \u00e9 uma for\u00e7a que empurra para fora, assim como a ideia \u00e9 uma for\u00e7a que relata para fora: e nenhum sentimento \u00e9 t\u00e3o cego a ponto de n\u00e3o ter uma ideia de seu pr\u00f3prio objeto. \u00c0 medida que um sentimento possui a mente, tamb\u00e9m a mente possui, como uma parte integral desse sentimento, alguma ideia do tipo de coisa que o far\u00e1 descansar. Um sentimento sem dire\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o imposs\u00edvel quanto uma atividade sem dire\u00e7\u00e3o: e uma dire\u00e7\u00e3o implica algum objetivo. Existem estados vagos de consci\u00eancia nos quais parecemos estar totalmente sem dire\u00e7\u00e3o; mas, em tais casos, \u00e9 not\u00e1vel que o sentimento tamb\u00e9m est\u00e1 em suspens\u00e3o. Por exemplo, posso estar atordoado por um golpe, sem perceber o que aconteceu nem sofrer dor, e ainda estar totalmente consciente de que algo ocorreu: a experi\u00eancia espera um instante no vest\u00edbulo da consci\u00eancia, n\u00e3o como sentimento, mas puramente como fato, at\u00e9 que a ideia a toque e defina um curso de resposta. Nesse mesmo momento, \u00e9 sentido como doloroso. Se estamos certos, o sentimento \u00e9 t\u00e3o consciente do objetivo quanto a ideia: refere-se sempre a algo al\u00e9m do eu presente e n\u00e3o tem exist\u00eancia, exceto em direcionar o eu para aquele objeto na presen\u00e7a do qual sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria deve terminar!<a href=\"#_ftn17\" id=\"_ftnref17\"><strong>[17]<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Assim, pode-se ver que \u00e9 devido a essa natureza essencial do sentimento que, embora a religi\u00e3o comece com o sentimento, ela nunca, em sua hist\u00f3ria, se limitou a um mero sentimento e constantemente buscou a metaf\u00edsica. A condena\u00e7\u00e3o do intelecto pelo m\u00edstico como um \u00f3rg\u00e3o de conhecimento n\u00e3o encontra realmente qualquer justificativa na hist\u00f3ria da religi\u00e3o. Mas o trecho do Professor Hocking citado acima tem um escopo mais amplo do que a mera justifica\u00e7\u00e3o da ideia na religi\u00e3o. A rela\u00e7\u00e3o org\u00e2nica entre sentimento e ideia lan\u00e7a luz sobre a antiga controv\u00e9rsia teol\u00f3gica sobre a revela\u00e7\u00e3o verbal, que uma vez deu tanto trabalho aos pensadores religiosos mu\u00e7ulmanos. O sentimento inarticulado busca cumprir seu destino na ideia que, por sua vez, tende a desenvolver a partir de si mesma seu pr\u00f3prio manto vis\u00edvel. N\u00e3o \u00e9 mera met\u00e1fora dizer que ideia e palavra emergem simultaneamente do \u00fatero do sentimento, embora a compreens\u00e3o l\u00f3gica n\u00e3o possa deixar de tom\u00e1-las em uma ordem temporal e, assim, criar sua pr\u00f3pria dificuldade ao consider\u00e1-las mutuamente isoladas. H\u00e1 um sentido em que a palavra tamb\u00e9m \u00e9 revelada.<\/p>\n\n\n\n<p>A associa\u00e7\u00e3o \u00edntima do m\u00edstico com o eterno, que lhe d\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o da irrealidade do tempo serial, n\u00e3o significa uma ruptura completa com o tempo serial. O estado m\u00edstico, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua singularidade, permanece de algum modo relacionado \u00e0 experi\u00eancia comum. Isso \u00e9 claro pelo fato de que o estado m\u00edstico logo se desvanece, embora deixe um profundo senso de autoridade depois de ter passado. Tanto o m\u00edstico quanto o profeta retornam aos n\u00edveis normais de experi\u00eancia, mas com a diferen\u00e7a de que o retorno do profeta, como mostrarei mais tarde, pode estar carregado de significado infinito para a humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Para os prop\u00f3sitos do conhecimento, ent\u00e3o, a regi\u00e3o da experi\u00eancia m\u00edstica \u00e9 t\u00e3o real quanto qualquer outra regi\u00e3o da experi\u00eancia humana e n\u00e3o pode ser ignorada simplesmente porque n\u00e3o pode ser rastreada pela percep\u00e7\u00e3o sensorial. Tampouco \u00e9 poss\u00edvel desconsiderar o valor espiritual do estado m\u00edstico especificando as condi\u00e7\u00f5es org\u00e2nicas que parecem determin\u00e1-lo. Mesmo que se assuma como verdadeira a hip\u00f3tese da psicologia moderna sobre a interrela\u00e7\u00e3o entre corpo e mente, \u00e9 il\u00f3gico descreditar o valor do estado m\u00edstico como uma revela\u00e7\u00e3o da verdade. Psicologicamente falando, todos os estados, seja seu conte\u00fado religioso ou n\u00e3o-religioso, s\u00e3o organicamente determinados. A forma cient\u00edfica da mente \u00e9 t\u00e3o organicamente determinada quanto a religiosa. Nosso julgamento sobre as cria\u00e7\u00f5es de g\u00eanio n\u00e3o \u00e9 de forma alguma determinado ou mesmo remotamente afetado pelo que nossos psic\u00f3logos possam dizer sobre suas condi\u00e7\u00f5es org\u00e2nicas. Um certo tipo de temperamento pode ser uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para um certo tipo de receptividade; mas a condi\u00e7\u00e3o antecedente n\u00e3o pode ser considerada como toda a verdade sobre o car\u00e1ter do que \u00e9 recebido. A verdade \u00e9 que a causalidade org\u00e2nica de nossos estados mentais n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o com os crit\u00e9rios pelos quais os julgamos superiores ou inferiores em termos de valor. \u201cEntre as vis\u00f5es e mensagens\u201d, diz o Professor William James,<\/p>\n\n\n\n<p>algumas sempre foram excessivamente rid\u00edculas, entre os \u00eaxtases e convuls\u00f5es algumas foram muito frut\u00edferas para a conduta e o car\u00e1ter, para se passarem como significativas, muito menos como divinas. Na hist\u00f3ria do misticismo crist\u00e3o, o problema de discriminar entre tais mensagens e experi\u00eancias que eram realmente milagres divinos e outras que o dem\u00f4nio, em sua mal\u00edcia, foi capaz de falsificar, tornando a pessoa religiosa duas vezes mais filha do inferno do que antes, sempre foi um problema dif\u00edcil de resolver, exigindo toda a sagacidade e experi\u00eancia dos melhores diretores de consci\u00eancia. No final, chegamos ao nosso crit\u00e9rio empirista: pelos seus frutos os conhecereis, n\u00e3o pelas suas ra\u00edzes<a href=\"#_ftn18\" id=\"_ftnref18\"><strong>[18]<\/strong><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema do misticismo crist\u00e3o aludido pelo Professor James tem sido, na verdade, o problema de todo o misticismo. O dem\u00f4nio, em sua mal\u00edcia, falsifica experi\u00eancias que se infiltram no circuito do estado m\u00edstico. Como lemos no Alcor\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o enviamos nenhum Ap\u00f3stolo ou Profeta antes de ti cujos desejos Satan\u00e1s n\u00e3o tenha injetado algum desejo errado, mas Deus far\u00e1 com que o que Satan\u00e1s sugeriu se torne nulo. Assim Deus afirmar\u00e1 Suas revela\u00e7\u00f5es, pois Deus \u00e9 Conhecedor e S\u00e1bio\u201d (22: 52).<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 na elimina\u00e7\u00e3o do sat\u00e2nico do Divino que os seguidores de Freud prestaram um servi\u00e7o inestim\u00e1vel \u00e0 religi\u00e3o; embora eu n\u00e3o possa deixar de dizer que a principal teoria dessa psicologia mais recente n\u00e3o me parece ser apoiada por evid\u00eancias adequadas. Se nossos impulsos errantes se afirmam em nossos sonhos, ou em outros momentos n\u00e3o somos estritamente n\u00f3s mesmos, n\u00e3o se segue que eles permane\u00e7am aprisionados em uma esp\u00e9cie de dep\u00f3sito atr\u00e1s do eu normal. A invas\u00e3o ocasional desses impulsos reprimidos na regi\u00e3o do nosso eu normal tende mais a mostrar a interrup\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria do nosso sistema habitual de respostas do que sua presen\u00e7a perp\u00e9tua em algum canto escuro da mente. No entanto, a teoria, apresentada de forma sucinta, \u00e9 esta: durante o processo de ajuste ao nosso ambiente, estamos expostos a todo tipo de est\u00edmulos. Nossas respostas habituais a esses est\u00edmulos gradualmente caem em um sistema relativamente fixo, crescendo constantemente em complexidade ao absorver alguns e rejeitar outros impulsos que n\u00e3o se encaixam em nosso sistema permanente de respostas. Os impulsos rejeitados recuam para o que \u00e9 chamado de \u201cregi\u00e3o inconsciente\u201d da mente e l\u00e1 esperam uma oportunidade adequada para se afirmarem e se vingar do eu focal. Eles podem perturbar nossos planos de a\u00e7\u00e3o, distorcer nosso pensamento, construir nossos sonhos e fantasias, ou nos levar de volta a formas de comportamento primitivo que o processo evolutivo abandonou. A religi\u00e3o, segundo se diz, \u00e9 uma pura fic\u00e7\u00e3o criada por esses impulsos repudiados da humanidade com o objetivo de encontrar uma esp\u00e9cie de pa\u00eds das maravilhas para um movimento livre e sem obst\u00e1culos. Cren\u00e7as e dogmas religiosos, de acordo com a teoria, n\u00e3o s\u00e3o mais do que teorias primitivas da Natureza, pelas quais a humanidade tentou redimir a Realidade de sua feiura elemental e apresent\u00e1-la como algo mais pr\u00f3ximo do desejo do cora\u00e7\u00e3o do que os fatos da vida justificariam. Que existem religi\u00f5es e formas de arte, que fornecem uma esp\u00e9cie de fuga covarde dos fatos da vida, eu n\u00e3o nego. Tudo o que eu contesto \u00e9 que isso n\u00e3o \u00e9 verdade para todas as religi\u00f5es. Sem d\u00favida, cren\u00e7as e dogmas religiosos t\u00eam um significado metaf\u00edsico; mas \u00e9 \u00f3bvio que eles n\u00e3o s\u00e3o interpreta\u00e7\u00f5es desses dados de experi\u00eancia que s\u00e3o objeto das ci\u00eancias da Natureza. A religi\u00e3o n\u00e3o \u00e9 f\u00edsica ou qu\u00edmica buscando uma explica\u00e7\u00e3o da Natureza em termos de causalidade; ela realmente visa interpretar uma regi\u00e3o totalmente diferente da experi\u00eancia humana \u2013 a experi\u00eancia religiosa \u2013 cujos dados n\u00e3o podem ser reduzidos aos dados de qualquer outra ci\u00eancia. Na verdade, deve-se dizer em justi\u00e7a \u00e0 religi\u00e3o que ela insistiu na necessidade de experi\u00eancia concreta na vida religiosa muito antes de a ci\u00eancia aprender a faz\u00ea-lo. O conflito entre os dois n\u00e3o se deve ao fato de que um \u00e9, e o outro n\u00e3o \u00e9, baseado em experi\u00eancia concreta. Ambos buscam a experi\u00eancia concreta como ponto de partida. Seu conflito se deve \u00e0 m\u00e1 compreens\u00e3o de que ambos interpretam os mesmos dados de experi\u00eancia. Esquecemos que a religi\u00e3o visa alcan\u00e7ar o verdadeiro significado de uma variedade especial de experi\u00eancia humana.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem \u00e9 poss\u00edvel explicar o conte\u00fado da consci\u00eancia religiosa atribuindo-o inteiramente ao funcionamento do impulso sexual. As duas formas de consci\u00eancia \u2013 sexual e religiosa \u2013 s\u00e3o frequentemente hostis ou, pelo menos, completamente diferentes em termos de seu car\u00e1ter, seu objetivo e o tipo de conduta que geram. A verdade \u00e9 que, em um estado de paix\u00e3o religiosa, conhecemos uma realidade factual de alguma forma fora do estreito c\u00edrculo de nossa personalidade. Para o psic\u00f3logo, a paix\u00e3o religiosa necessariamente aparece como obra do subconsciente devido \u00e0 intensidade com a qual ela abala as profundezas do nosso ser. Em todo conhecimento h\u00e1 um elemento de paix\u00e3o, e o objeto do conhecimento ganha ou perde em objetividade com o aumento ou a diminui\u00e7\u00e3o da intensidade da paix\u00e3o. O que \u00e9 mais real para n\u00f3s \u00e9 aquilo que agita toda a estrutura de nossa personalidade. Como o Professor Hocking coloca de maneira incisiva:<\/p>\n\n\n\n<p>Se algum dia, sobre o intervalo est\u00fapido de tempo de qualquer eu ou santo, uma vis\u00e3o surgir para direcionar sua vida e a nossa para novos caminhos, s\u00f3 pode ser porque essa vis\u00e3o admite em sua alma alguma invas\u00e3o concreta da plenitude da eternidade. Tal vis\u00e3o, sem d\u00favida, significa tamb\u00e9m prontid\u00e3o subconsciente e resson\u00e2ncia subconsciente \u2013 mas a expans\u00e3o das c\u00e9lulas de ar n\u00e3o argumenta que deixamos de respirar o ar exterior: \u00e9 exatamente o oposto!<a href=\"#_ftn19\" id=\"_ftnref19\"><strong>[19]<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Um m\u00e9todo puramente psicol\u00f3gico, portanto, n\u00e3o pode explicar a paix\u00e3o religiosa como uma forma de conhecimento. Est\u00e1 fadado a falhar no caso de nossos psic\u00f3logos mais recentes assim como falhou no caso de Locke e Hume. A discuss\u00e3o anterior, no entanto, certamente levantar\u00e1 uma quest\u00e3o importante em sua mente. A experi\u00eancia religiosa, como tentei manter, \u00e9 essencialmente um estado de sentimento com um aspecto cognitivo, cujo conte\u00fado n\u00e3o pode ser comunicado a outros, exceto na forma de um julgamento. Agora, quando um julgamento que afirma ser a interpreta\u00e7\u00e3o de uma determinada regi\u00e3o da experi\u00eancia humana, n\u00e3o acess\u00edvel a mim, \u00e9 apresentado para meu assentimento, tenho o direito de perguntar: qual \u00e9 a garantia de sua verdade? Estamos em posse de um teste que revelaria sua validade? Se a experi\u00eancia pessoal fosse o \u00fanico fundamento para a aceita\u00e7\u00e3o de um julgamento desse tipo, a religi\u00e3o seria a posse de apenas alguns indiv\u00edduos. Felizmente, estamos em posse de testes que n\u00e3o diferem daqueles aplic\u00e1veis a outras formas de conhecimento. Estes eu chamo de teste intelectual e teste pragm\u00e1tico. Pelo teste intelectual, quero dizer a interpreta\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, sem quaisquer pressupostos da experi\u00eancia humana, geralmente com o objetivo de descobrir se nossa interpreta\u00e7\u00e3o nos leva, em \u00faltima an\u00e1lise, a uma realidade do mesmo car\u00e1ter revelado pela experi\u00eancia religiosa. O teste pragm\u00e1tico julga-o pelos seus frutos. O primeiro \u00e9 aplicado pelo fil\u00f3sofo, o segundo pelo profeta. Na palestra que segue, aplicarei o teste intelectual.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Al- Ghaz\u0101l\u012b (1058-1111) foi um te\u00f3logo, fil\u00f3sofo e jurista mu\u00e7ulmano persa. Conhecido como \u201cHujjat al-Islam\u201d (Prova do Isl\u00e3), Al- Ghaz\u0101l\u012b desempenhou um papel crucial na s\u00edntese das correntes filos\u00f3ficas e teol\u00f3gicas do seu tempo. Sua obra <em>Ihya\u2019 \u2018Ulum al-Din<\/em> (<em>A Revitaliza\u00e7\u00e3o das Ci\u00eancias da Religi\u00e3o<\/em>), aborda uma ampla gama de t\u00f3picos, incluindo \u00e9tica, espiritualidade e pr\u00e1ticas religiosas. Al- Ghaz\u0101l\u012b se destacou por sua cr\u00edtica ao racionalismo e ao pensamento filos\u00f3fico, expresso em seu trabalho Tahafut al-Falasifa (A Incoer\u00eancia dos Fil\u00f3sofos), no qual desafia as ideias de fil\u00f3sofos isl\u00e2micos anteriores como Avicena (Ibn Sina).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Ibn Rushd (1126-1198), tamb\u00e9m conhecido como Averr\u00f3is, foi um fil\u00f3sofo, te\u00f3logo e jurista andaluz, cuja obra teve impacto tanto no mundo isl\u00e2mico quanto no ocidental. Distinto por sua defesa do pensamento aristot\u00e9lico, Ibn Rushd escreveu extensivamente sobre filosofia, teologia e direito. Suas obras incluem coment\u00e1rios sobre as obras de Arist\u00f3teles. Em Tahafut al-Tahafut (A Incoer\u00eancia da Incoer\u00eancia), Ibn Rushd responde \u00e0s cr\u00edticas de Al- Ghaz\u0101l\u012b \u00e0 filosofia, defendendo a compatibilidade entre a raz\u00e3o e a f\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> A escola teol\u00f3gica Ash\u2019arita, fundada por Al-Ash\u2019ari (c. 873-935), \u00e9 uma das principais tradi\u00e7\u00f5es de pensamento dentro do Isl\u00e3 sunita. Os pensadores Ash\u2019aritas procuraram defender a ortodoxia isl\u00e2mica utilizando ferramentas da dial\u00e9tica grega, contrastando com a abordagem racionalista dos Mu\u2019tazilah. Enquanto os Mu\u2019tazilah enfatizavam a raz\u00e3o e a l\u00f3gica na interpreta\u00e7\u00e3o religiosa, os Ash\u2019aritas focavam em afirmar a cren\u00e7a tradicional, como a iman\u00eancia de Deus e a impossibilidade de compreender totalmente os atributos divinos. Apesar das diferen\u00e7as, os Ash\u2019aritas foram influentes no desenvolvimento da teologia isl\u00e2mica e ajudaram a moldar o pensamento isl\u00e2mico ortodoxo.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> A escola Mu\u2019tazilah, ativa entre os s\u00e9culos VIII e IX, era conhecida por seu enfoque na raz\u00e3o e na l\u00f3gica para interpretar a religi\u00e3o isl\u00e2mica. Os Mu\u2019tazilah sustentavam que a religi\u00e3o deveria ser entendida principalmente como um sistema de doutrinas l\u00f3gicas, priorizando a raz\u00e3o sobre a revela\u00e7\u00e3o divina. Essa abordagem levou-os a ver a religi\u00e3o como um conjunto de princ\u00edpios que podiam ser analisados e compreendidos racionalmente, em contraste com a vis\u00e3o mais tradicional que valorizava a experi\u00eancia religiosa e a revela\u00e7\u00e3o divina como formas prim\u00e1rias de conhecimento. Sua \u00eanfase na raz\u00e3o e na autonomia do pensamento humano resultou em uma vis\u00e3o cr\u00edtica dos aspectos mais m\u00edsticos e menos racionais da f\u00e9 isl\u00e2mica.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> No Alcor\u00e3o, a <em>Lau<\/em><em>\u1e25 al-Ma<\/em><em>\u1e25f\u016b<\/em><em>\u1e93<\/em>, ou Tabuleta Preservada, \u00e9 um conceito que se refere a um registro celestial e eterno em que tudo o que acontecer\u00e1 no universo est\u00e1 escrito e guardado por Deus. Esta ideia \u00e9 mencionada em v\u00e1rios versos do Alcor\u00e3o, como na Surata al-Buruj (85:21-22), que descreve o Alcor\u00e3o como um \u201cLivro preservado\u201d, e na Surata al-Qiyama (75:16-19), que menciona a preserva\u00e7\u00e3o e o conhecimento divino. A <em>Lau<\/em><em>\u1e25 al-Ma<\/em><em>\u1e25f\u016b<\/em><em>\u1e93<\/em> simboliza a totalidade e a imutabilidade do conhecimento divino, abrangendo todos os eventos passados, presentes e futuros.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[6]<\/a> Tevfik Fikret (1867-1915) foi um poeta e intelectual turco do per\u00edodo final do Imp\u00e9rio Otomano. Conhecido por seu papel na literatura e na pol\u00edtica, Fikret foi um defensor da moderniza\u00e7\u00e3o e da reforma na sociedade turca. Sua obra po\u00e9tica e suas ideias foram influenciadas por um desejo de atualizar a cultura turca e o pensamento isl\u00e2mico \u00e0 luz dos novos desenvolvimentos europeus. M\u012brz\u0101 \u2018Abd al-Q\u0101dir Bedil de Akbar\u0101b\u0101d (1642-1721) foi um poeta sufi da \u00cdndia Mughal, cujas obras s\u00e3o marcadas por uma profunda reflex\u00e3o filos\u00f3fica e espiritual. Bedil \u00e9 conhecido por suas contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 literatura persa e por suas ideias complexas sobre a espiritualidade e a metaf\u00edsica. Seu trabalho influenciou muitos poetas e pensadores na regi\u00e3o, incluindo Tevfik Fikret, que usou as ideias de Bedil para apoiar seus pr\u00f3prios objetivos de reforma e moderniza\u00e7\u00e3o. Ambos representam influ\u00eancias significativas na intera\u00e7\u00e3o entre a tradi\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica e as novas ideias emergentes, refletindo a tens\u00e3o entre preserva\u00e7\u00e3o cultural e adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as modernas.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\">[7]<\/a> Apud <em>Gespr\u00e4che mit Goethe<\/em>, obra em que Johann Peter Eckermann (1792-1854) apresenta conversas que teve com Goethe durante os \u00faltimos anos da vida de Goethe. O trecho completo de onde Iqbal extraiu sua cita\u00e7\u00e3o, no qual Goethe discute aspectos da filosofia isl\u00e2mica, \u00e9 o seguinte: \u201cEnt\u00e3o, os mu\u00e7ulmanos come\u00e7am seu ensino em filosofia, com a doutrina de que nada existe do qual o contr\u00e1rio n\u00e3o possa ser afirmado. Assim, eles treinam as mentes dos jovens, dando-lhes a tarefa de detectar e expressar o oposto de cada proposi\u00e7\u00e3o; a partir disso, uma grande habilidade em pensar e falar certamente surgir\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Certamente, depois que o contr\u00e1rio de qualquer proposi\u00e7\u00e3o foi mantido, surge a d\u00favida sobre qual \u00e9 realmente verdadeiro. Mas n\u00e3o h\u00e1 perman\u00eancia na d\u00favida; ela incita a mente a uma investiga\u00e7\u00e3o e experimenta\u00e7\u00e3o mais profunda, da qual, se bem conduzida, a certeza surge, e \u00e9 somente nisso que o homem pode encontrar uma satisfa\u00e7\u00e3o completa.<\/p>\n\n\n\n<p>Voc\u00ea v\u00ea, esse ensinamento nunca falha; com todos os nossos sistemas, n\u00e3o podemos ir, e, em termos gerais, nenhum homem pode ir, al\u00e9m disso.\u201d (ECKERMANN, J. P. Conversations of Goethe. Londres: Smith, Elder &amp; Co., 1850. V. I, p. 391).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\" id=\"_ftn8\">[8]<\/a> Jalal al-Din R\u016bm\u012b (1207-1273), conhecido simplesmente como R\u016bm\u012b, foi um poeta, te\u00f3logo e m\u00edstico persa. Nascido em Balch (atualmente Afeganist\u00e3o) e falecido em Konya (atualmente Turquia), R\u016bm\u012b \u00e9 uma figura central na literatura sufi e na tradi\u00e7\u00e3o m\u00edstica isl\u00e2mica. Seus trabalhos, incluindo o <em>Masnavi<\/em> e o <em>Diwan-e Shams-e Tabrizi<\/em>, exploram temas de amor divino e espiritualidade, oferecendo uma profunda reflex\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o ser humano e o divino. R\u016bm\u012b enfatiza a import\u00e2ncia do \u201ccora\u00e7\u00e3o\u201d (<em>Qalb<\/em>) como um centro de intui\u00e7\u00e3o e percep\u00e7\u00e3o interna, al\u00e9m das capacidades sensoriais f\u00edsicas, para alcan\u00e7ar uma compreens\u00e3o mais profunda da Realidade e da presen\u00e7a divina.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref9\" id=\"_ftn9\">[9]<\/a> Muhammad ibn Isma\u2019il al-Bukh\u0101r\u012b (810-870) foi um renomado compilador e estudioso de <em>hadith<\/em>, ou tradi\u00e7\u00f5es do Profeta Muhammad. Sua obra mais conhecida, <em>Sahih al-Bukh\u0101r\u012b<\/em>, \u00e9 considerada uma das cole\u00e7\u00f5es mais aut\u00eanticas e importantes de <em>hadith<\/em> no Isl\u00e3. Bukh\u0101r\u012b \u00e9 amplamente respeitado por seu rigor na verifica\u00e7\u00e3o da autenticidade dos relatos e desempenhou um papel crucial na preserva\u00e7\u00e3o e transmiss\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es isl\u00e2micas. Seu trabalho \u00e9 frequentemente referenciado em discuss\u00f5es sobre a vida e os ensinamentos do Profeta Muhammad, incluindo suas intera\u00e7\u00f5es com figuras hist\u00f3ricas e m\u00edsticas, como o jovem Ibn Sayy\u0101d.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref10\" id=\"_ftn10\">[10]<\/a> Muhammad ibn Sa\u2019id al-Khath\u2019ami, conhecido como Ibn Sayy\u0101d, foi um jovem judeu que viveu na \u00e9poca do Profeta Muhammad e \u00e9 mencionado em v\u00e1rias tradi\u00e7\u00f5es isl\u00e2micas. Ele \u00e9 not\u00f3rio por ter exibido comportamentos que foram interpretados por alguns como sinais de habilidades ps\u00edquicas ou m\u00edsticas. De acordo com os relatos tradicionais, o Profeta Muhammad observou e examinou Ibn Sayy\u0101d devido aos seus estados ext\u00e1ticos e supostos dons sobrenaturais, buscando entender melhor a natureza desses fen\u00f4menos e sua veracidade dentro do contexto isl\u00e2mico.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref11\" id=\"_ftn11\">[11]<\/a> MACDONALD, D. B. The religious attitude and life in Islam. Estados Unidos: The University of Chicago Press, 1906. p. 36. Duncan Black Macdonald (1863-1943) foi um proeminente estudioso e orientalista especializado em estudos isl\u00e2micos e \u00e1rabes.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref12\" id=\"_ftn12\">[12]<\/a> Ibn Khald\u016bn (1332-1406) foi um historiador, soci\u00f3logo e economista \u00e1rabe, amplamente considerado um dos pais da historiografia e da sociologia. Nascido em Tunes, ele \u00e9 mais conhecido por sua obra <em>Muqaddimah<\/em> (Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Hist\u00f3ria Universal), na qual apresenta uma an\u00e1lise inovadora das din\u00e2micas sociais, pol\u00edticas e econ\u00f4micas. Em sua obra, Ibn Khald\u016bn explorou a natureza da experi\u00eancia humana e da consci\u00eancia com uma abordagem cr\u00edtica e anal\u00edtica, antecipando algumas das ideias modernas sobre psicologia e comportamento social.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref13\" id=\"_ftn13\">[13]<\/a> MACDONALD, D. B. The religious attitude and life in Islam. Estados Unidos: The University of Chicago Press, 1906. p. 175.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref14\" id=\"_ftn14\">[14]<\/a> William James (1842 \u2013 1910) fil\u00f3sofo e psic\u00f3logo estadunidense.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref15\" id=\"_ftn15\">[15]<\/a> Josiah Royce (1855 \u2013 1916), fil\u00f3sofo pragm\u00e1tico estadunidense.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref16\" id=\"_ftn16\">[16]<\/a> William Ernest Hocking (1873 \u2013 1966), fil\u00f3sofo idealista estadunidense.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref17\" id=\"_ftn17\">[17]<\/a> <a>Hocking, W. E. The Meaning of God in Human Experience. Estados Unidos: Yale University Press, 1912. p. 66.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref18\" id=\"_ftn18\">[18]<\/a> JAMES, W. The varieties of religious experience. Londres: Longmans, 1902. p. 20.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref19\" id=\"_ftn19\">[19]<\/a> HOCKING, W. E. The Meaning of God in Human Experience. Estados Unidos: Yale University Press, 1912. p. 106-107.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea ir\u00e1 ler, a seguir, o primeiro cap\u00edtulo da obra &#8220;A Reconstru\u00e7\u00e3o do Pensamento Religioso no Isl\u00e3&#8221; de Muhammad Iqbal. Caso tenha interesse em adquirir o livro completo clique aqui, ou na capa do livro mostrada abaixo. Conhecimento e experi\u00eancia religiosa Qual \u00e9 o car\u00e1ter e a estrutura geral do\u2026<\/p>\n<p class=\"continue-reading-button\"> <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/2024\/08\/23\/a-reconstrucao-do-pensamento-religioso-no-isla-de-muhammad-iqbal\/\">Leia mais<i class=\"crycon-right-dir\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":962,"comment_status":"closed","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5,43],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/966"}],"collection":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=966"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/966\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":967,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/966\/revisions\/967"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/962"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=966"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=966"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antoniofontoura.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=966"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}