Leia, a seguir, um trecho da obra “Os Prolegômenos” de Ibn Khaldun. Caso deseje mais informações sobre o livro, clique aqui, ou na imagem da capa abaixo.
Livro Primeiro. Da sociedade humana e dos fenômenos que ela apresenta, tais como a vida nômade, a vida sedentária, a dominação, a aquisição, os meios de ganhar a sua subsistência, as ciências e as artes. Indicação das causas que levaram a estes resultados.
A história tem como verdadeiro objetivo nos fazer compreender o estado social do homem, ou seja, a civilização, e nos ensinar sobre os fenômenos que a ela se relacionam naturalmente, como a vida selvagem, o amolecimento dos costumes, o espírito de família e de tribo, os diversos gêneros de superioridade[i] que os povos exercem uns sobre os outros e que levam ao surgimento de impérios e dinastias, a distinção de classes, as ocupações às quais os homens dedicam seus trabalhos e esforços, como as profissões lucrativas, os ofícios que sustentam, as ciências e as artes; enfim, todas as mudanças que a natureza das coisas pode operar no caráter da sociedade.
Ora, como a mentira se introduz naturalmente nos relatos históricos, é importante indicar aqui as causas que a produzem: 1ª o apego dos homens a certas opiniões e doutrinas. Enquanto o espírito mantém sua imparcialidade, ele examina o relato que lhe é apresentado e o considera com a atenção que o assunto exige, conseguindo assim reconhecer a falsidade ou a veracidade da informação. No entanto, se o espírito se deixa influenciar por seu apego a certas opiniões e doutrinas, ele acolhe, sem hesitação, o relato que está de acordo com elas. Essa inclinação e esse apego lançam um véu sobre os olhos da inteligência, impedindo a análise crítica e a avaliação atenta, de modo que a mentira é aceita e transmitida aos outros.
A segunda causa que introduz a mentira nos relatos é a confiança depositada na palavra das pessoas que os transmitem. Para reconhecer se essas pessoas são dignas de fé, é preciso recorrer a um exame semelhante ao que se designa pelas palavras reprovação e confirmação[ii].
Uma terceira causa é a ignorância do objetivo que os protagonistas dos grandes eventos tinham em mente. A maioria dos narradores, ao não saber com que propósito as coisas que observaram ou das quais ouviram falar foram feitas, expõe cada evento segundo a maneira como o compreendeu e, deixando-se enganar pela imaginação, acaba caindo na mentira.
A quarta causa dos erros é a facilidade com que o espírito humano acredita que possui a verdade. Esse defeito é bastante comum e geralmente decorre de um excesso de confiança nas pessoas que transmitem as informações.
Como quinta causa, podemos indicar a ignorância das relações que existem entre os eventos e as circunstâncias que os acompanham. Isso se nota nos historiadores, quando os detalhes de um relato sofreram remanejamentos e alterações. Eles narram os eventos conforme os compreenderam, mas suas informações foram modificadas, o que altera a exatidão.
A sexta causa é a tendência dos homens a favorecer personagens ilustres e elevados em dignidade; eles empregam louvores e elogios, embelezam os fatos e, em seguida, os propagam. Esses relatos, maculados de falsidade, recebem ampla divulgação. De fato, os espíritos são atraídos pela adulação; os homens ambicionam os bens do mundo, como status e riquezas, e, em geral, demonstram pouco empenho em se distinguir por nobres qualidades ou em[iii] mostrar consideração por pessoas de verdadeiro mérito.
Outra causa, que se sobrepõe às que acabamos de indicar, é a ignorância da natureza das coisas que surgem da civilização. Tudo o que acontece, seja espontaneamente, seja por efeito de uma influência externa, possui um caráter próprio, tanto em sua essência quanto nas circunstâncias que o acompanham. Assim, o homem que coleta informações e conhece de antemão os caracteres que realmente apresentam os eventos e os fatos, bem como suas causas, possui um meio pelo qual pode controlar toda espécie de relato e distinguir a verdade da mentira. Esse meio é mais eficaz do que todos os outros.
Com frequência, homens, baseando-se em um simples ouvir dizer, adotam histórias absurdas, que comunicam aos outros e que se transmitem em suas palavras. Tal é a narração de Masudi sobre Alexandre, o Grande. Segundo esse historiador, Alexandre, ao ver que monstros marinhos o impediam de fundar a cidade de Alexandria, mandou fabricar um cofre de madeira que continha uma caixa de vidro. Colocando-se dentro dessa caixa, ele desceu ao fundo do mar, de modo que pôde desenhar as figuras dos monstros diabólicos que se apresentavam à sua vista e reproduzir suas formas com certos metais. Ele colocou essas imagens diante dos edifícios que havia começado, e, quando os monstros saíram de seu esconderijo e viram as imagens, fugiram, permitindo a conclusão das construções. Tudo isso faz parte de uma longa história, repleta de detalhes fabulosos e absurdos. Não se pode fabricar um cofre de vidro capaz de resistir à violência das ondas; além disso, um rei não empreenderia voluntariamente uma tentativa tão arriscada. Se ele se envolvesse em uma empreitada semelhante, isso resultaria em sua própria perda: o pacto social se quebraria e seus súditos se reuniriam em torno de outro príncipe, sem lhe dar tempo de voltar de sua expedição temerária. Ademais, os gênios não têm formas nem figuras que lhes sejam próprias, mas podem assumir a seu critério. Quando se diz que eles têm um grande número de cabeças, o objetivo não é dizer a verdade, mas inspirar horror e pavor.
Todas essas circunstâncias são suficientes para desacreditar a narração de Masudi; mas há um fato que demonstra, de maneira ainda mais evidente, o absurdo e a impossibilidade física do que ele relata. O homem que mergulhasse na água, mesmo que estivesse encerrado em um cofre, logo sentiria uma grande dificuldade para respirar, devido à escassez de ar, e seu hálito não tardaria a se aquecer. Privado do ar frio, que mantém o equilíbrio entre o pulmão e os espíritos cordiais[iv], ele morreria instantaneamente. Essa é a causa que leva à morte das pessoas encerradas em uma sala de banho cujos respiradouros foram obstruídos para excluir o ar frio. Isso também é a causa que faz perecer aqueles que são descidos em poços ou subterrâneos de grande profundidade; o ar ali é aquecido por miasmas, e os ventos não podem penetrar para dissipar essas emanações; assim, aquele que desce ali morre instantaneamente.
Daí resulta que o peixe cessa de viver quando está fora do mar; o ar não lhe é suficiente para manter o equilíbrio em seu pulmão, cujo extremo calor precisa ser temperado pela frescura da água. A atmosfera na qual se o faz entrar, sendo quente, resulta em que o calor prevalece sobre os espíritos animais, e o peixe morre subitamente.
Explica-se da mesma maneira a morte das pessoas atingidas por raios. Mais uma história absurda é relatada por Masudi. Segundo este autor, na cidade de Roma, há a imagem de um estorninho, em torno da qual, em um determinado dia de cada ano, os outros pássaros dessa espécie se reúnem em multidão, cada um trazendo uma oliva. Os frutos que chegam dessa forma servem, segundo ele, para fornecer aos habitantes óleo suficiente para seu consumo. Veja quão fora do curso natural das coisas é essa maneira de se conseguir óleo!
Entre esses contos, pode-se incluir o que El Bekri relata sobre a cidade chamada Dhat el Abouab[v], cuja circunferência, segundo ele, era de mais de trinta jornadas de marcha e cujas portas somavam dez mil. Ora, cidades não são construídas senão para garantir segurança e defesa, como diremos adiante; quanto a esta, seria impossível bloqueá-la, e muito menos transformá-la em abrigo ou fortaleza. O mesmo se aplica à história que Masudi conta sobre a Cidade de Cobre (Medinet en Nahhas). Segundo ele, essa cidade é inteiramente construída de cobre e ocupa um local no deserto de Sidjilmessa. Mouça Ibn Noceir chegou diante dela por acaso, durante sua expedição no Magrebe. As portas estavam fechadas, e todos os homens que ousaram escalar as muralhas, ao chegarem ao alto do parapeito, bateram palmas, precipitaram-se para o interior da cidade e nunca mais reapareceram. Isso faz parte de um relato bastante absurdo para ser incluído entre as histórias contadas pelos contadores públicos[vi]. O deserto de Sidjilmessa foi percorrido, em todas as direções, por caravanas e guias, sem que esses viajantes tivessem obtido a menor notícia da Cidade de Cobre. Além disso, todos os detalhes que se dão sobre esse lugar são absurdos, se os julgarmos pela experiência diária, e não podem ser conciliados com os procedimentos utilizados na fundação de uma cidade: os metais são usados, no máximo, para fabricar vasos e utensílios domésticos; afirmar que se construiu uma cidade com esses materiais é, evidentemente, uma afirmação inverossímil e absurda. Relatos desse tipo são numerosos, mas é fácil descobrir sua falsidade quando se conhece os caracteres naturais da civilização. Por meio desse conhecimento, é possível constatar mais facilmente o valor de um relato e distinguir o verdadeiro do falso, em vez de examinar primeiro a credibilidade das pessoas que o transmitiram. Este último método deve ser empregado apenas após o estudo do relato em si, a fim de reconhecer se os fatos que ele contém são possíveis ou não. Se a impossibilidade for demonstrada, é inútil recorrer a esse procedimento[vii].
Os investigadores da verdade consideram, entre os pontos que levam à rejeição da autenticidade de um relato, a impossibilidade do fato que ele enuncia, seja mantendo a significação natural das palavras, seja dando-lhes uma interpretação que repugne à razão. Quanto às informações relacionadas à lei muçulmana, consistem, na maioria, em prescrições arbitrárias, às quais o legislador deseja que se conforme, e que devem ser aceitas desde que se acredite que são autênticas. Para chegar a essa crença, é preciso estar perfeitamente convencido da credibilidade e da exatidão das pessoas que transmitiram essas informações. Quanto aos relatos de eventos, não se pode considerá-los verdadeiros e autênticos até que se reconheça seu acordo com o que ocorre no mundo. Para isso, é necessário examinar se o fato é possível: esse é um meio mais eficaz do que o procedimento de justificação e deve ser empregado primeiro. A validade das prescrições arbitrárias se estabelece apenas pela justificação, enquanto o valor de uma informação histórica se obtém pelo emprego desse procedimento em conjunto com o exame do acordo que existe entre o relato e o que acontece ordinariamente no mundo[viii].
As coisas sendo[ix] assim, a regra que deve ser empregada para discernir a verdade do erro nos relatos, uma regra fundamentada na apreciação do possível e do impossível, consiste em examinar a sociedade humana, ou seja, a civilização; distinguir, de um lado, o que é inerente à sua essência e à sua natureza, e, de outro lado, o que é acidental e não deve ser levado em conta, reconhecendo assim o que ela não admite. Agindo dessa forma, temos uma regra segura para distinguir, nos relatos, a verdade do erro, o verdadeiro do falso, por meio de um método demonstrativo que não deixa margem à dúvida. Portanto, se ouvimos contar algum evento que teria ocorrido na sociedade humana, estamos em condições de reconhecer se devemos aceitá-lo como verdadeiro ou rejeitá-lo como falso. Assim, dispomos de um instrumento que permite apreciar os fatos com exatidão e que poderá servir aos historiadores que, em seus escritos, buscam seguir o caminho da verdade.
Esse é o objetivo que nos propusemos alcançar no primeiro livro de nossa obra. Trata-se de uma ciência sui generis, pois tem, antes de tudo, um objeto especial, ou seja, a civilização e a sociedade humana, e aborda várias questões que servem para explicar sucessivamente os fatos relacionados à própria essência da sociedade. Tal é o caráter de todas as ciências, tanto aquelas que se apoiam na autoridade quanto aquelas que são fundadas na razão[x].
Os discursos nos quais iremos tratar esta matéria formarão uma ciência nova, que será notável tanto pela originalidade de suas visões quanto pela extensão de sua utilidade. Nós a descobrimos por meio de pesquisas e profundas meditações. Esta ciência não tem nada em comum com a retórica, que é um ramo da lógica e se limita ao uso de discursos persuasivos, destinados a levar a multidão a uma opinião ou afastá-la dela.
Ela não deve ser confundida com a ciência administrativa, que tem por objeto a maneira de governar uma família ou uma cidade de acordo com as exigências das boas maneiras e da sabedoria, de modo que o povo seja colocado em um caminho que possa levar à conservação e à duração da espécie. Embora possa parecer oferecer alguns traços de semelhança com a retórica e a ciência administrativa[xi], no entanto, difere muito delas. É, por assim dizer, uma ciência nova, que surgiu espontaneamente; pois, com certeza, não conheço ninguém que tenha composto um tratado especial sobre essa matéria. Ignoro se devemos atribuir à negligência dos autores o esquecimento de um assunto como esse, o que, aliás, não deve prejudicar sua consideração.
Talvez já tenham escrito sobre essa matéria e tratado o assunto a fundo, mas seus livros não chegaram até nós. De fato, o número de ciências é muito grande, assim como o de sábios pertencentes às diversas raças da espécie humana; no entanto, os conhecimentos científicos que não nos chegaram superam em quantidade aqueles que recebemos. O que se tornou das ciências dos persas, cujos[xii] escritos, na época da conquista, foram aniquilados por ordem de Omar? Onde estão as ciências dos caldeus, dos assírios, dos habitantes da Babilônia? Onde estão os resultados e as marcas que deixaram nesses povos? Onde estão as ciências que, em tempos mais remotos, reinaram entre os copta? Há uma única nação, a dos gregos, cujas produções científicas possuímos exclusivamente, e isso graças aos cuidados que El-Mamun teve em fazer traduzir essas obras da língua original. Este príncipe teve sucesso em sua empreitada porque encontrou um grande número de tradutores e gastou muito dinheiro nisso. Não conhecemos nada das ciências dos outros povos.
Assim como toda verdade pode ser concebida pela inteligência e se harmoniza com a natureza das coisas, a busca dos acidentes que dependem de sua essência é uma tarefa realizável[xiii]. Portanto, o exame de cada verdade e de cada coisa compreendida pela mente gera uma ciência particular. Contudo, os sábios que consideraram essas matérias parecem ter se interessado por elas apenas para obter lucro. A ciência que nos ocupa não traz nenhum benefício, exceto para as pesquisas históricas, como os leitores poderão já vislumbrar. Embora as questões que se relacionam com sua essência e as circunstâncias que lhe são próprias forneçam um nobre tema de estudo, é preciso admitir que os resultados positivos oferecem apenas um fraco atrativo, uma vez que se limitam à simples verificação das informações. Pode ser por essa razão que os sábios evitaram se ocupar com isso. A propósito, Deus o sabe, e a ciência que você recebeu em parte se reduz a pouco. (Alcorão, sura XVII, vers. 87.)
Este ramo do conhecimento, que se tornou para nós, os primeiros, um objeto de exame, nos apresenta problemas que já se manifestaram acidentalmente aos eruditos e que lhes serviram de argumentos em apoio às ciências que cultivavam. No entanto, essas questões, por seu objeto e por sua abrangência, pertencem à classe daquelas com as quais nossa ciência se ocupa. Assim, os sábios, ao quererem demonstrar a missão divina dos profetas, alegam que os homens, que devem se ajudar mutuamente para poder existir, necessitam de um magistrado para controlá-los. É também assim que, nos tratados sobre os princípios fundamentais da jurisprudência, se expressa, no capítulo que trata da linguagem, que os homens precisam expressar seu pensamento para poderem se prestar auxílio mútuo e se reunir em sociedade, e que a linguagem é o instrumento[xiv] mais fácil que podem empregar. Os juristas, ao quererem explicar o estabelecimento das leis, indicam os motivos que levaram à sua promulgação, afirmando que a fornicação confunde as genealogias e prejudica a espécie, que o califado também causa danos, e que a tirania anuncia a ruína da civilização, resultando necessariamente em um grande prejuízo à espécie. Poderíamos citar ainda outros exemplos dos motivos que levaram o legislador a promulgar certas leis, todos baseados na necessidade de conservar a sociedade. De acordo com o que acabamos de expor, é evidente que essas questões se referem a circunstâncias que afetam a civilização. Encontramos também aqui e ali outras questões do mesmo gênero, que os sábios mencionaram sem as tratar a fundo.
Na fábula da coruja, conforme relatada por Masudi, o mubedano[xv] diz, entre outras coisas, a Behram, filho de Behram: “Ó rei, o soberano não chega ao auge do poder senão pela observância da lei, por uma submissão total a Deus e pela exatidão em respeitar seus mandamentos e suas proibições. A lei não pode subsistir sem o soberano; o soberano não é poderoso senão por seus soldados; para manter soldados, é preciso ter dinheiro; o dinheiro só se obtém pela agricultura; não há agricultura sem uma administração justa; a justiça é uma balança estabelecida pelo Senhor entre os homens, e perto da qual Ele colocou um inspetor, que é o rei.” Anuchiruan dizia sobre o mesmo assunto: “Sem exército, não há rei; sem dinheiro, não há exército; sem impostos, não há dinheiro; sem agricultura, não há impostos; sem administração justa, não há agricultura; sem retidão de conduta, não há boa administração; sem a integridade dos vizires, não há retidão de conduta. O ponto capital é que o rei examine por si mesmo a condição de seus súditos e que seja forte o suficiente para puni-los, a fim de que ele reine sobre eles e não seja dominado por eles.”
O tratado sobre a política atribuído a Aristóteles, que circula entre o público, contém várias observações desse tipo; no entanto, elas não são apresentadas de maneira completa, nem apoiadas em todas as provas que reclamam; além disso, encontram-se misturadas a outras matérias. No mesmo trabalho, o autor também indicou as máximas gerais que relatamos com base no Mubedan e Anuchiruan.
Ele as organizou em um círculo, do qual faz um grande elogio, apresentando-as da seguinte maneira: “O mundo é um jardim cujo governo é a cerca; o governo é uma potência que assegura a manutenção da lei; a lei é uma regra administrativa cuja execução é supervisionada pela realeza; a realeza é um vínculo que obtém sua força do exército; o exército é um corpo de auxiliares que servem por dinheiro; o dinheiro é um subsídio fornecido pelos súditos; os súditos são servos protegidos pela justiça; a justiça deve entrar nos hábitos do povo, pois assegura a existência do mundo. Ora, o mundo é um jardim, etc.” O autor retorna assim ao começo de sua proposição. Essas oito máximas estão igualmente ligadas à filosofia e à política; elas estão interconectadas, com o fim de uma se relacionando com o começo da outra, formando um círculo sem fim. Aristóteles se vangloriou muito de ter descoberto essa combinação e destacou pomposamente suas vantagens[xvi].
O leitor que desejar examinar o capítulo no qual trato das vantagens apresentadas pela realeza e pelos governos dinásticos, e que o tiver percorrido com a atenção que o assunto requer, encontrará o desenvolvimento dessas máximas e uma exposição completa de seu alcance; uma exposição simples, detalhada, sustentada pelos esclarecimentos e pelas provas mais satisfatórias. É graças à graça de Deus que adquirimos esses conhecimentos; não os devemos nem aos ensinamentos de Aristóteles, nem às lições do Mubedan.
Encontramos também nos escritos de Ibn el Mocaffâ[xvii] e nas epístolas em que expõe os princípios da política um grande número de questões idênticas às que pertencem ao tema de nosso livro. No entanto, em sua obra, essas questões não são sustentadas por provas que as respaldem. Ele as introduz em seus discursos, utilizando o estilo retórico característico dos escritos epistolares, com o intuito de causar impacto. O cádi Turtushi[xviii] abordou esse tema no Siradj el-Molouk, uma obra organizada em capítulos que apresenta muitas analogias com os capítulos e problemas contidos em nosso livro. Contudo, a presa à qual ele se dirigia lhe escapou; ele não a atingiu no flanco, e as questões permaneceram sem provas e sem esclarecimentos. Ele se contentou em dedicar a cada questão um capítulo específico, acumulando muitas anedotas e histórias, além de relatar diversas palavras atribuídas a sábios da Pérsia, como Buzurdjmihar e o Mubedan, assim como a filósofos da Índia, e acrescentou várias máximas atribuídas a Daniel, Hermes e outros grandes pensadores. No entanto, ele não conseguiu levantar o véu que encobria a verdade, nem dissipar, por meio de argumentos extraídos da natureza das coisas, as obscuridades que cercavam o assunto. Sua obra serve apenas para transmitir as ideias de outros e não passa de uma sequência de exortações semelhantes a sermões. O autor, por assim dizer, rondou o objetivo sem conseguir descobri-lo; ele não compreendeu bem o que queria fazer e não tratou nenhuma questão de maneira completa.
Quanto a mim, foi uma inspiração celestial que me conduziu a essa empreitada, fazendo-me encontrar uma ciência que me tornou o depositário de seus segredos e seu intérprete mais fiel. Se consegui abordar a fundo as questões relacionadas a ela, se soube reconhecer os diversos aspectos e as tendências dessa ciência e distingui-la das demais, isso se deve ao favor e à direção divinas. Se, na enumeração de seus caracteres distintivos, algo me escapou ou se alguma questão se encontra confundida com outra, o leitor crítico saberá corrigir meu erro; mas terei sempre o mérito de ter lhe aberto o caminho e indicado a direção, e Deus dirige por sua luz aqueles que lhe agradam[xix].
[i] Para ﺖﺎﺑﻠﻗﺗﻠﺍ, leia ﺖﺎﺑﻠﻐﺗﻠﺍ com os manuscritos.
[ii] Para exercer as funções de testemunha, é necessário ter uma integridade bem reconhecida e cumprir fielmente os deveres da religião. No caso em que o cádi suspeita da moralidade do indivíduo que vem servir como testemunha ou depor em juízo, ele toma secretamente as informações necessárias para esclarecer suas dúvidas. Se o resultado desse tipo de investigação for favorável, o cádi declara que o testemunha é íntegro: o termo árabe é tâdil (justificatio); caso contrário, ele se recusa a admitir o testemunho dessa pessoa, a qual ele imprime assim uma espécie de estigma, em árabe tedjrih (improbatio). Este último termo significa mais exatamente ferir, e, em sentido figurado, ferir um homem em sua reputação. Os doutores que compilaram as tradições não aceitavam nenhuma como autêntica antes de se convencerem da probidade, da veracidade e da piedade de cada um dos tradicionalistas pelos quais essa tradição havia sido transmitida. Para isso, eles se dedicavam a longas pesquisas. Essa ramificação da ciência religiosa era designada pelos termos tedjrih oua tâdil (improbatio e justificatio).
[iii] Leia ﻻﻮ, no lugar de ﻻ.
[iv] Literalmente, “o espírito do coração”.
[v] As Portas caspianas, Derbend.
[vi] De fato, essa história se encontra na edição das Mil e Uma Noites impressa em Boulac, e na tradução inglesa desses contos, por Lane, volume III, p. 118.
[vii] Lit. “a investigação de justificação e de improbidade é inútil.”
[viii] Literalmente, “entre a enunciação e o extrínseco”.
[ix] Antes da palavra ﺍﺬﺍ, deve-se inserir a conjunção ﻭ.
[x] Literalmente, “seja impostas, seja intelectuais”. – O autor quer dizer que as matérias das quais se ocupa formam uma ciência porque oferecem um objeto especial (maudouâ), problemas a resolver (meçail) e um objetivo a alcançar (ghaia), as três condições de toda ciência. – No texto árabe, deve-se substituir ﻥﺀﺎﺸ por ﻥﺄﺷ.
[xi] Para ﻥﻳﺬﻠﺍ, leia ﻥﻳﺬﻠﻟﺍ.
[xii] Para ﻯﺫﻟﺍ, leia ﻰﺗﻠﺍ.
[xiii] Para ﺢﻟﺻﻳ, leia ﺢﻟﺻﻳﻮ. – Para as seis espécies de acidentes reconhecidas pelos lógicos árabes, veja a edição da Riçalet chemsiya publicada em Calcutá em 1854, por Sprenger, p. 3 da tradução. Este pequeno tratado deve servir de Apêndice ao grande trabalho intitulado Dictionary of the technical terms of the Musulmans.
[xiv] Para ﻥﺀﺎﺷ, leia ﻥﺎﺷ.
[xv] Mubedan é o plural da palavra persa mubed (sacerdote dos adoradores do fogo). Seu grande sacerdote portava o título de mubedi mubedan (sacerdote dos sacerdotes). Os autores árabes tomaram mubedan como um nome no singular e lhe deram como plural mewabeda.
[xvi] Busca-se inutilmente essa passagem na Política ou nas Econômicas de Aristóteles. Ibn Khaldun provavelmente a encontrou em um dos escritos apócrifos que estavam nas mãos dos muçulmanos, e que eles aceitaram como sendo traduções dos escritos deixados pelo grande filósofo grego.
[xvii] Abd Allah Ibn el Mocaffâ, o autor da tradução árabe das fábulas de Bidpai, foi empregado nos escritórios do governo abássida como secretário redator. Ele foi executado, por volta do ano 139 (756-757 d.C.), por ordem do califa El Mansura
[xviii] Abu Bakr Mohammed e Tortouchi nasceu em Tortosa, na Espanha, por volta do ano 451 (1059 d.C.). Ele viajou para o Oriente, fez a peregrinação e morreu em Alexandria, em 520 (1126 d.C.). Sua obra, o Siradj el Molouk, é uma espécie de manual para o uso dos soberanos e contém um grande número de anedotas mais ou menos instrutivas, que o autor distribuiu em sessenta e dois capítulos. Dozy apresentou algumas delas na segunda edição de suas Recherches sur l’histoire et la littérature de l’Espagne durant le moyen âge, t. II, p. 254 e segs. Encontrará uma nota de Quatremère sobre Tortouchi no Journal asiatique de 1861, caderno de fevereiro-março.
[xix] Alcorão, sura XXIV, vers. 35. Lê-se: ﻩﺭﻭﻨﻟ “em sua luz”, em vez de ﻩﺭﻭﻨﺒ “por sua luz”.

