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Prefácio do Autor
O julgamento que foi proferido contra uma feiticeira, ao qual fui chamado no último dia de abril de mil quinhentos e setenta e oito, deu-me ocasião para empunhar a pena e esclarecer o assunto dos feiticeiros, que a todas as pessoas parece extraordinariamente estranho e a muitos inacreditável. A feiticeira que mencionei chamava-se Jeanne Harvilliers, natural de Verberie, perto de Compiègne, acusada de haver feito morrer vários homens e animais, como confessou sem interrogatório nem tortura, embora à primeira vista tenha negado obstinadamente e tivesse mudado várias vezes.
Confessou também que sua mãe, quando ela tinha doze anos, a havia apresentado ao Diabo na figura de um grande homem negro, de estatura superior à dos homens, vestido de tecido negro, dizendo-lhe que a havia, tão logo nascera, prometido àquele que ela chamava Diabo, e que prometera tratá-la bem e torná-la feliz; e que, desde então, ela renunciara a Deus e prometera servir ao Diabo. E que naquele mesmo instante tivera cópula carnal com o Diabo, continuando desde a idade de doze anos até os cinquenta, ou em torno disso, que era então quando foi presa. Disse igualmente que o Diabo se lhe apresentava quando queria, sempre no traje e na forma em que se mostrara na primeira vez: esporado, calçado com botas, tendo uma espada ao lado e seu cavalo à porta, que ninguém via senão ela. E com ela teve, algumas vezes, cópula, sem que seu marido, deitado ao seu lado, o percebesse.
Ora, porquanto ela foi dissimulada em ser grande feiticeira, e foi quase impossível conter os camponeses que pretendiam arrebata-la das mãos da justiça para a queimar, temendo que ela escapasse, ordenou-se, antes de proceder ao julgamento definitivo, que fosse enviada a Verberie, lugar onde nascera, para inquirir sobre sua vida, e às outras aldeias onde ela houvera residido. Foi encontrado que, trinta anos antes, ela tivera o castigo do açoite pelo mesmo crime, e que sua mãe fora condenada a ser queimada viva, por acórdão da Corte do Parlamento que confirmara a sentença do juiz de Senlis; e verificou-se que ela costumava mudar de nome e de lugar para encobrir seus feitos. E que por toda parte fora tida por feiticeira.
Vendo-se condenada, ela pediu perdão, fingindo repeti-lo; negou, todavia, muitas das maldades que tinha cometido e anteriormente confessado. Mas ela persistiu na confissão que havia feito do último homicídio, tendo lançado alguns pós que o Diabo lhe havia preparado, e que ela pôs no lugar por onde devia passar aquele que havia batido em sua filha. Outro aí passou, ao qual ela não desejou mal nenhum, e prontamente sentiu uma dor pungente em todo o seu corpo. E visto que todos os vizinhos que o haviam visto entrar no lugar onde ela havia lançado o sortilégio, naquele mesmo dia, ao verem o homem atacado por uma enfermidade tão súbita, acreditaram que ela havia lançado o sortilégio.
Ela prometeu curá-lo, e, de fato, cuidou do paciente durante a enfermidade, e confessou que, na quarta-feira anterior a ser presa, havia suplicado ao Diabo que curasse seu doente, ao que ele respondeu que era impossível. E que ela disse então ao Diabo que ele a enganava sempre, e que não viesse mais vê-la. E desde que ele disse que não viria mais, dois dias depois o homem morreu. E logo ela foi esconder-se em um celeiro, onde foi encontrada.
Aqueles que assistiram ao julgamento estavam bem convencidos de que ela merecia a morte; mas quanto à forma e ao gênero da morte houve alguém mais brando, e de natureza mais piedosa, que opinava que bastava enforcá-la. Os outros, depois de haverem examinado os crimes detestáveis, e as penas estabelecidas pelas leis divinas e humanas, e igualmente o costume geral de toda a Cristandade, observado neste Reino desde tempos antigos, foram de opinião que ela devia ser condenada a ser queimada viva: e isso foi decidido, e a sentença, da qual não houve apelação, foi executada no último dia de abril por iniciativa de Mestre Claude Dofay, Procurador do Rei em Ribemont.
Desde a condenação ela confessou que havia sido transportada pelo Diabo às assembleias dos feiticeiros, depois de haver usufruído de algumas graças que o Diabo lhe dava, sendo conduzida com tal velocidade, e tão longe, que ela ficava toda exausta e enfraquecida, e que havia visto nas assembleias grande número de pessoas, que todas adoravam um homem negro, em lugar elevado, de idade como de trinta anos, a quem chamavam Belzebu. E depois disso se acasalavam carnalmente; e então o Príncipe lhes pregava sermões dizendo que confiassem nele, e que ele os vingaria de seus inimigos, e os faria bem-aventurados. Interrogada se se dava dinheiro, disse que não; e acusou um pastor e um coveiro de Genlis, que ela disse serem feiticeiros; confessou-se e arrependeu-se, pedindo perdão a Deus.
E porque havia os que julgavam o caso como estranho, e mesmo inacreditável, ocorreu-me redigir este tratado que intitulei DA DEMONIOMANIA DOS FEITICEIROS, pela fúria que eles têm de correr atrás dos demônios, para servir de advertência a todos os que os virem, a fim de fazer conhecer ao dedo e ao olho que não há crimes que sejam de longe tão execráveis quanto este, ou que mereçam penas mais gravosas. E em parte também para responder àqueles que, por livros impressos, se esforçam por salvar os feiticeiros por todos os meios; de modo que parece que Satanás os inspirou, e os atraiu para publicar esses belos livros, como foi um Pierre d’Apone, médico, que se esforçava por fazer entender que não há espíritos, e, no entanto, soube-se depois que era dos maiores feiticeiros da Itália.
E, para que não pareça estranho o que disse – que Satanás tem homens predestinados a escrever, publicar e sustentar que nada do que se afirma sobre os feiticeiros é verdadeiro –, darei um exemplo memorável. Pierre Mamor o registra no pequeno livro De Lamiis a propósito de um certo M. Guillaume de Line, doutor em teologia, acusado e condenado como feiticeiro em 12 de dezembro de 1453. Ao final, ele se arrependeu e confessou que fora várias vezes transportado, à noite, com outros feiticeiros, para adorar o Diabo, que ora aparecia em forma de homem, ora em forma de bode; declarou também que renunciara a toda religião. Foi ainda encontrado em posse de uma obrigação firmada com Satanás, contendo promessas recíprocas. Entre essas cláusulas, o doutor se comprometia a pregar publicamente que tudo o que se dizia dos feiticeiros era mera fábula e coisa impossível, e que não se devia acreditar nisso.
E por esse meio os feiticeiros se multiplicaram e tomaram grande incremento por esses textos, havendo os juízes deixado a perseguição que faziam contra os feiticeiros. O que mostra bem que Satanás tem leais súditos de todos os estados e de todas as qualidades: como o Cardeal Beno e Platin escrevem que houve vários papas, imperadores e outros príncipes, os quais se deixaram enganar pelos feiticeiros, e por fim foram precipitados infelizmente por Satanás.
E mesmo em Toledo, onde antigamente estava a escola dos feiticeiros, nunca se teria pensado que tais personagens dali fizessem parte: quando se relatavam os processos dos feiticeiros, eles começavam a rir, e faziam rir a todos com as tiradas que faziam, e afirmavam constantemente que era coisa fabulosa e impossível, e amoleciam tanto o coração dos juízes (como fez Alciato em seu tempo, depois que um Inquisidor fizera queimar no Piemonte mais de cem feiticeiros) que todos os feiticeiros escaparam. Monsieur Barthelemy Faye, presidente das investigações da Corte, queixou-se em suas obras de que a tolerância de alguns juízes em não fazer queimar feiticeiros, como o Parlamento tem feito desde tempos imemoriais, e outros povos igualmente, foi causa das grandes aflições que Deus nos enviou.
Mas M. d’Aventon, conselheiro no Parlamento, e depois presidente em Poitiers (ao qual sucedeu Saluert no estado de presidente), fez queimar quatro feiticeiros todos vivos em Poitiers no ano de 1573, não obstante o apelo interposto por eles, queixando-se de que anteriormente haviam sido enviados absolvidos outros feiticeiros apelantes, que desde então haviam infectado toda a região, e que todo o povo se amotinava. É verdade que confessaram ter cometido vários homicídios por encantamentos e sortilégios, e os faziam executar, como prenotáveis, não obstante o apelo: porque é pior (diz a Lei) matar com veneno do que com espada.
A impunidade dos feiticeiros daquele tempo foi razão para que obtivessem um notável acréscimo neste reino, para onde aportaram de todas as partes, inclusive da Itália; entre eles estava um grande feiticeiro napolitano chamado o Conservador, bastante conhecido por seus atos. Desde então continuaram, de modo que o feiticeiro Trois-Échelles Manseau, tendo obtido sua graça após o veredicto de morte proferido contra ele, com a obrigação de denunciar seus cúmplices, afirmou que havia mais de cem mil naquele reino – talvez falsamente, para minorar sua impiedade por ter tão bela companhia. Seja como for, denunciou um grande número deles; porém foi-lhe dado tão bom trato que todos, ou a maioria, escaparam, ainda que confessassem maldades tão execráveis que o ar se contaminava por elas.
Do que Deus, irritado, enviou terríveis perseguições, como Ele ameaçou[i] por sua lei de exterminar os povos que permitissem viver os feiticeiros. É por isso que Santo Agostinho, no livro Cidade de Deus, diz que todas as seitas já existiram decretaram penas contra os feiticeiros, exceto os epicuristas; estes foram refutados por Plutarco, no livro De Oraculorum defectu, e por Orígenes, em Contra Celsum, o Epicurista, e depois deles Jâmblico, Proclo e os Acadêmicos destruíram os fundamentos da seita epicuriana; embora esta estivesse bastante arruinada pelos princípios da Metafísica de Aristóteles.
Neste último, ele conclui por necessidade que há tantos céus quantas são as inteligências – ou espíritos inteligíveis – para os mover; as quais inteligências ele diz serem separadas dos corpos, e que o Anjo se move com o movimento do seu céu, como a alma do homem se move com o movimento do homem, o que demonstra bem que a disputa entre Anjos e Demônios não se pode tratar fisicamente. Negam-se muito aqueles que recusam a possibilidade de algo que seja impossível por natureza, pois o toque, o movimento e o lugar não podem concorrer senão ao corpo[ii], falando de corpo segundo, o físico; e, no entanto, se a verdade é sempre semelhante a si mesma, é necessário confessar que o toque, o movimento e o lugar convêm aos espíritos tanto quanto ao corpo, como Aristóteles demonstrou em sua Metafísica[iii], ao tratar dos Anjos, ou Inteligências, que movem os céus.
Plutarco[iv] e Apuleio[v] afirmam que Aristóteles deixou por escrito – o que, contudo, não se encontra nos livros que nos restaram, os quais não são a metade do que escreveu – que os pitagóricos se admirariam se houvesse homem no mundo que nunca tivesse conhecido demônio. De fato, o próprio Aristóteles confessa ter visto um chamado Thasius, que tinha incessantemente consigo um espírito em figura humana, que ninguém via senão ele – o que é comum a todos os feiticeiros. Platão, em sua Apologia, apresenta um argumento decisivo a favor da existência de demônios, visto que seus efeitos os evidenciam: as vozes, as palavras, os arroubos e outras ações admiráveis não podem ser sem causa.
Não faz muito tempo, François della Mirandola, escreveu haver visto dois sacerdotes feiticeiros, sempre acompanhados de dois demônios, Hiphialtes, como guias de mulheres, dos quais abusaram por mais de quarenta anos, conforme confessaram antes de serem queimados, como diremos em seu lugar.
Aristóteles, no mesmo livro, narra também que em uma das sete ilhas de Eólo se ouvia um maravilhoso som de tamborins e címbalos sem se ver ninguém – fenômeno que é ordinário em muitos lugares Setentrionais, como diz Olaus, e no monte Atlas, segundo testificam Solino e Plínio –, que são as assembleias e danças habituais dos feiticeiros com os maus espíritos, atestadas por inúmeros processos. Aristóteles acrescenta ainda, no mesmo livro, que havia uma feiticeira na cidade de Tene, na Tessália, a qual enfeitiçava o basilisco com certas palavras e círculos que traçava – o que não pode ser feito por natureza, como diremos em seu lugar, mas pela força e potência dos espíritos; pois estes não poderiam realizar as ações estranhas que se veem ao olho se não estivessem no lugar em que se manifestam, como diz Tomás de Aquino. Seria, ademais, absurdo atribuir toque, lugar e movimento aos anjos que movem os céus e que estão separados dos céus – conforme concordam todos os peripatéticos, acadêmicos e estoicos, assim como os Hebreus e Árabes – e negar essas propriedades aos espíritos, os quais se situam entre os elementos.
Contudo, se os demônios forem corpóreos e de matéria elementar – como sustentou Aristóteles no Livro IV da Metafísica, e como afirmam Orígenes e Santo Agostinho (no Livro IX e no Livro VIII, cap. XVI, da Cidade de Deus), bem como Gregório Magno na homilia da Epifania, ao dizerem que os anjos são animais racionais – e ainda como Atanásio de Alexandria, no livro Sobre a essência do Pai, e Alexandre de Afrodisias, o mais douto dos peripatéticos, que sustentou que toda substância é corpórea – então cessam todos os argumentos dos que negam as ações dos demônios; pois tais ações se fundamentam e se demonstram por meio de coisas corpóreas, isto é, elementares.
Ora, Santo Agostinho diz, no terceiro livro, capítulo último da Trindade, que não se pode errar ao afirmar que os Demônios sejam corpóreos; e assim se pode sustentar, contra a opinião comum de que não há substância incorpórea senão Deus, que tal tese se apoia numa demonstração pouco examinada – isto é, a de que não há nada finito senão o corpo, por ter este sua grandeza e extensão determinadas; e que o que não tem extremidade superficial é infinito; segue-se, portanto, que não há coisa incorpórea senão Deus, caso contrário as criaturas seriam infinitas como Deus. Tal argumento serviria não para instruir aqueles que creem em um Deus e na pluralidade das inteligências – ambos demonstrados por Aristóteles[vi] e sustentados por toda a Sagrada Escritura –, mas para convencer mentes entorpecidas; não obstante, não pretende dar conta de todas as ações intelectuais dos Demônios, o que seria impossível, pois quem pudesse explicar todas as coisas seria semelhante a Deus, que sozinho sabe tudo. Do mesmo modo que é impossível conhecer Deus e compreendê-lo tal como é – pois aquele que O conhecesse e pudesse compreendê-lo dessa forma haveria de ser ele próprio Deus –, é necessário confessar que só Deus pode dar razão de todas as coisas. Para tanto exige-se uma ciência infinita, que não pode residir nem nos homens, nem nos Anjos, nem em criatura alguma do mundo.
É por isso que Aristóteles, no primeiro livro de sua Metafísica, onde trata dos espíritos e inteligências, confessa que não se pode conhecer a verdade, por causa da imbecilidade do espírito humano, que consiste em reconhecer bem a ignorância de todos em geral e não a sua em particular; pois, no mesmo livro, ele diz[vii] que não se deve procurar razão onde ela não há. Veja estas palavras. Como Plínio, em caso semelhante, diz no terceiro livro, capítulo quarto: “Não se procura o próprio propósito, mas busca-se a vontade da natureza.”
É uma incongruência notável que um filósofo afirme que algo se faça sem razão e sem causa, e uma arrogância insuportável negar a existência de causa: antes de confessar a ignorância, o que se faz quando não a conhece? Alexandre de Afrodisias bem o confessou, dizendo que a natureza reservou em seu segredo a razão pela qual o ruído da lima torna os dentes entorpecidos. Ora, o mais belo louvor que se pode render a Deus é confessar a própria ignorância, e é injúria a Deus não reconhecer a fraqueza do próprio cérebro. É por isso que, depois de todos os discursos de Jó e de seus amigos, em que disputavam os atos de Deus, quando Jó pensava haver alcançado a verdade, Deus lhe apareceu em visão e começou a falar desta sorte: “Quem é este homem ignorante, que por discursos fora do propósito obscurece as obras do Soberano?”
Em seguida discorreu sobre a altura, a grandeza e o movimento terrível dos céus, sobre a força dos astros, as leis do céu sobre a terra, a terra fundada sobre as águas, as águas suspensas no meio do mundo e outras maravilhas que cada um vê; mostrou que toda a ciência humana está plena de ignorância. Muitos louvam o saber de Aristóteles, pois é certo que ele muito soube, e, contudo, não soube nem a milésima parte das coisas naturais. Porque todos os filósofos hebreus[viii] e acadêmicos demonstraram que ele nada viu das coisas inteligíveis, e das coisas naturais ignorou as mais belas: não soube sequer o número dos céus, notado pela Escritura Sagrada nas dez cortinas do Tabernáculo, que é o modelo deste mundo.
E quando se diz: “Os céus são as obras dos teus dedos”, que são em número de dez (pois em outros lugares se diz sempre “obras das mãos de Deus”) – isto foi ignorado por todos os filósofos e matemáticos até que Jean de Realmont o demonstrou. Mesmo Aristóteles não entendeu sequer a ordem dos planetas, pois coloca Vênus e Mercúrio acima do Sol, contrariamente ao que Ptolomeu demonstrou depois, nem compreendeu um só dos movimentos dos astros. E, sem ir tão longe nem procurar em Aristóteles a verdade dos demônios e das coisas sobrenaturais, vê-se que a maior parte das coisas naturais lhe foi desconhecida: como a falha do mar, que della Mirandola[ix], apelidado o Fênix de sua época, atribuiu à única providência de Deus.
E, no entanto, a origem das fontes dada por Aristóteles é ainda mais absurda. Segundo ele, elas provêm da putrefação do ar e das cavernas da terra, o que contrasta com as grossas e inesgotáveis nascentes, fontes e rios que têm curso perpétuo; todo o ar do mundo, por mais corrompido que fosse, não poderia engendrar em cem anos a água que delas sai em um dia. Os filósofos hebreus, e mesmo Salomão, mostraram que provêm do mar, assim como as veias do corpo humano têm origem no fígado.
E frequentemente se vê na natureza efeitos produzidos contra toda razão natural: vê-se, por exemplo, a neve – que é água gelada – aquecer a terra e proteger os cereais da geada, e a bruma fria, maravilhosamente, torrar e queimar os cereais e os brotos como em um forno; por essa causa, diz Feste Pompée, “a geada (pruina) recebe esse nome por ‘queimar completamente’ (perurere)”; e a Sagrada Escritura, entre as maravilhas de Deus, relata isto no Salmo cento e dezessete: “Que dá a neve como lã, e espalha a geada como cinza”, que Buchanan traduziu assim: “que cobre os céus de nuvens como velo de lã, e descreve as geadas espalhadas a modo de cinza.” E Teodoro de Beza Teodoro de Beza:
Que cobre os montes e a planície
De neve branca como lã,
E que vem a bruma derramar,
Tão miúda como cinza.
Mas eles não tocaram este belo milagre. Pois boa parte das comparações com a lã é notória, e a bruma não se assemelha em nada às cinzas. Porém poderia ser assim vertido:
Que a neve aquece a planície
Como de um manto de lã;
E que a bruma, os brotos tenros,
Torra-os como ardentes cinzas.
Também Alberto mostrou o erro de Aristóteles relativo ao arco no céu, ao afirmar que ele não ocorre à noite, o que é manifestamente falso, e, por conseguinte, igualmente mostrou a insuficiência da razão de Aristóteles – pois, na verdade, não há nem ritmo nem razão. Seria necessário, pela mesma razão, que todas as nuvens tivessem a mesma cor.
Deixo de lado mil maravilhas da natureza cuja causa ainda não foi descoberta. É por isso que o Cardeal Cusan, um dos homens mais eminentes de sua época, destacou a variedade, ambiguidade e incerteza da doutrina de Aristóteles, e antes dele o Cardeal Bessarion[x]. E, acima de todos, o Cardeal d’Ailly sustentou e defendeu com vigorosas razões que não existe, em Aristóteles, uma única demonstração necessária, salvo aquela pela qual ele demonstrou que havia um só Deus, e poucas outras que notou. Quanto à demonstração[xi] da eternidade do mundo por Aristóteles – opinião em que foi, entre os filósofos antigos, o primeiro e o único a sustentar tal tese – ela está repleta de ignorância, como mostraram Plutarco[xii], Galeno[xiii], os estoicos[xiv] e os acadêmicos[xv]; até os epicuristas[xvi] a ridicularizaram. Entre os hebreus, o rabino Maimônides[xvii], a quem, por seu saber eminente, apelidou a si mesmo de Grande Águia, discorreu eruditamente sobre a impossibilidade da demonstração de Aristóteles; e Filopono, em quatorze livros em grego que escreveu contra Proclo, o Acadêmico – obras que mereceriam ser traduzidas na íntegra – tratou desse assunto.
Posteriormente, Tomás de Aquino também assinalou a impossibilidade dessa demonstração por outros argumentos, os quais omitirei por ora, tendo-o tratado em outro lugar. E, todavia, sempre que Aristóteles se viu encurralado em algum ponto de que não podia sair, misturou de tal forma seus argumentos que ninguém consegue discernir o que quis dizer, como se vê no primeiro capítulo da Física e no livro da Alma, onde a Escola dos filósofos mais sutis que houve notou uma contradição incompatível nas razões de Aristóteles, da qual alguns inferiram a corrupção deste – como Dicearco, contemporâneo de Aristóteles[xviii], Epicuro Ático, Afrodísias, Simone Porzio e Pomponazzi.
E, pelo mesmo motivo, Teofrasto, Temisto, Filopono, Simplício, Tomás de Aquino, della Mirandola[xix] chegaram igualmente à conclusão da imortalidade das almas, e os Árabes também. Averróis concluiu, pelos mesmos lugares de Aristóteles, a unidade do intelecto e da natureza humana.
Pode-se considerar que Aristóteles não penetrou os belos segredos da Natureza, como bem notaram os antigos, figurando no verso de sua medalha uma mulher com o rosto coberto por um véu, chamada Physis, isto é, Natureza; significando que a beleza da Natureza lhe foi oculta, e que ele só viu o exterior das vestes. Também se diz que ele se precipitou ao mar, como Procópio, por não ter sabido compreender por que o mar, no estreito de Negrepont, em vinte e quatro horas, tem sete fluxos e outros tantos refluxos. E se os mais belos tesouros da Natureza nos são ocultos, como poderemos atingir as coisas sobrenaturais e inteligíveis? Por isso Heráclito primeiro, como escreve Plutarco, e depois dele Teofrasto, diziam que as mais belas coisas do mundo são ignoradas pela arrogância dos homens, que não querem crer em nada cuja razão o espírito humano não possa compreender. Entre essas coisas podem ser incluídas as estranhas ações dos espíritos malignos e dos feiticeiros, que ultrapassam o espírito humano e as causas naturais.
Mas, assim como seria com razão reputado louco e insensato aquele que quisesse negar que a calamita ou o ímã deixa uma impressão na agulha para fazê-la voltar para o vento do norte, por não compreender a razão; ou que não quisesse confessar que a arraia-elétrica[xx], estando entre suas redes, faz com que as mãos, depois os braços e enfim todo o corpo dos pescadores adormeçam e se tornem estúpidos, por não saber a razão; assim se deve reputar loucos e insensatos aqueles que, vendo as ações estranhas dos feiticeiros e dos espíritos, não querem nelas crer por não poderem compreender a causa, ou porque a causa lhes parece impossível por natureza. Pois mesmo Aristóteles[xxi], encontrando-se espantado por várias coisas cuja causa não conhecia, disse que aquele que revogar em dúvida o que se vê não dirá coisa melhor que os outros. O mesmo Autor, assim como Averróis, no livro 8 da Física, afirmam que o povo ignorante não crê senão naquilo que toca.
Ora, vemos que Orfeu, que viveu cerca de mil e duzentos anos antes de Jesus Cristo, e depois dele Homero, que são os primeiros autores entre os pagãos, deixaram por escrito as feitiçarias, necromancias e encantamentos que se praticam presentemente. Vê-se na Lei de Deus, publicada mais de dois anos antes de Orfeu, os feiticeiros de Faraó imitarem as obras de Deus. Vê-se a feiticeira de Saul evocar os espíritos e fazê-los falar. As proibições contidas na lei de Deus de recorrer a adivinhos, feiticeiros, pitonisas – onde todas as sortes de feitiçarias e adivinhações são especificadas – pelas quais Deus declara que havia exterminado da terra os amorreus e cananeus. E pelas quais feitiçarias Jeú fez comer pelos cães a rainha Jezabel, depois de a haver precipitado de seu palácio. Vê-se também as penas estabelecidas contra os feiticeiros nas Leis das Doze Tábuas, que os embaixadores dos romanos haviam extraído das leis gregas; vê-se ainda as mais cruéis[xxii] penas que existem em todas as constituições dos imperadores romanos estabelecidas contra os feiticeiros, nos quais são chamados inimigos da Natureza, inimigos do gênero humano e maléficos[xxiii] pelas grandes maldades que cometem, e as imprecações abomináveis trazidas pelas leis – que não se encontram em quaisquer outras leis senão contra os feiticeiros – as quais[xxiv] a peste cruel (diz a lei) possa extinguir e consumir.
[i] Levítico, cap. 20.
[ii] Livro IV e VI.
[iii] Aristóteles, Livro V; Livro VIII.
[iv] No livro Sobre o Demônio de Sócrates.
[v] No livro Sobre o Deus de Sócrates.
[vi] Livro VI da Física; Livro VIII da Metafísica.
[vii] Livro IV; Livro VI e VII da Metafísica.
[viii] Rabi Maimônides, Livro II do Guia dos Perplexos.
[ix] Pico della Mirandola em sua posição doutrinal.
[x] No Livro I das Sentenças, q. 3.
[xi] Livro I Do Céu.
[xii] No livro Sobre relatos maravilhosos.
[xiii] No livro II das Opiniões de Hipócrates.
[xiv] Plutarco, em Opiniões dos Filósofos.
[xv] Platão, no Timeu; Filopono, Livro XIV Contra Proclo.
[xvi] Lucrécio; Plutarco, em Opiniões dos Filósofos.
[xvii] Livro II do Nemore Haneboq.
[xviii] Livro II, distinção 1, questão 3.
[xix] Livro Do Método da História, cap. 6; Livro IV.
[xx] Os gregos chamam-no de narkē (νάρκη); os latinos, chamando-o de torpēdo pelo seu efeito, consideram-no o mais comum milagre da natureza.
[xxi] Aristóteles, na Ética a Nicômaco; Êxodo, cap. 2; Levítico 20 e 21; Deuteronômio 18; Jeremias 27, 19 e 50; Nabuco 3; 1 Reis, cap. 9; 2 Crônicas, cap. 33; Isaías 3, 4, 8 e 47; Números 23; Reis 23.
[xxii] Todo o título Dos Malefícios.
[xxiii] Em razão da grandeza dos malefícios, os maleficários são assim chamados na lei natural 3, Dos Malefícios, C.
[xxiv] Lei Neminem, mesmo título: “Que a peste infernal consuma os que…”

