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IX. Os judeus na caricatura do século XIX
No século XIX a história do judaísmo europeu recebeu seu mais importante corte. E isto por meio da emancipação dos judeus que, nesse século, se impôs na Europa Ocidental, entendida como sua igualdade civil e política oficial.
A declaração de emancipação dos judeus tem, nos diferentes países da Europa Ocidental, sempre uma data bem determinada: França, a grande Revolução e a legislação napoleônica; América, a mesma época; Hungria, 1839; Alemanha, 1848; Inglaterra, 1858; Itália, 1859; Suíça, 1866, etc. Mas, apesar dessas datas oficiais, tratou-se em todos os lugares de um processo gradual de transformação, cujo término às vezes só se alcançou muito mais tarde, conforme as particularidades das condições econômicas e políticas de cada país. Na Alemanha hohenzollerniana esse processo ainda não estava de modo algum concluído quando a arrogância feudal, incitada por massas politicamente confusas, em sua estupidez floresceu em pecados e entrou na guerra mundial como um rinoceronte em uma armadilha. Por outro lado, os judeus na Inglaterra, em virtude de seu desenvolvimento político mais maduro, já no século XVIII possuíam direitos muito amplos. No leste da Europa, na Rússia, a igualdade civil havia sido inteiramente negada aos judeus até a guerra mundial; só foi realizada pela revolução bolchevique.
A emancipação dos judeus é, em geral, louvada como um resultado da humanidade: como o resultado da crescente percepção de que o judeu “por assim dizer e realmente” também seria um ser humano. Esse triunfo da humanidade, tão frequentemente afirmado, é um completo disparate, porque a história jamais conhece tais triunfos. Ela conhece apenas triunfos de importantes interesses econômicos vitais de uma época, que se apresentam sob o manto dissimulador do triunfo da humanidade. E assim sucedeu também em cada país no que se refere à emancipação dos judeus.
A emancipação dos judeus é a forma política para a libertação definitiva da economia monetária da tutela de um governo autoritário de curta duração, que a impedia de seu desenvolvimento sem restrições. Pois a economia monetária tinha de poder desabrochar completamente por essa época, se queria cumprir as tarefas da economia mundial exigidas pelo desenvolvimento da técnica, da indústria e do comércio. Esse processo tornou-se uma emancipação dos judeus porque era impossível desencadear a economia monetária sem, ao mesmo tempo, conceder os direitos politicamente lógicos de propriedade ao seu portador mais importante, tanto em número quanto em capacidade técnico-profissional. Não se pode tornar a coisa ágil enquanto se mantêm atadas as mãos que devem dirigi-la. A emancipação dos judeus tornou-se, portanto, o mínimo existencial político para a possibilidade de desenvolvimento do grande capitalismo na Europa a partir do momento em que a era da manufatura foi substituída pela era da máquina e suas perspectivas econômicas enormes iam brilhando cada vez mais claramente nos cérebros dos previdentes. E, a partir desse momento, ela também se tornou realidade, em parte mais cedo, em parte mais tarde. Seria, portanto, muito mais claro se, em vez de falar da emancipação dos judeus, se falasse da emancipação da economia monetária moderna. Mas a humanidade, afinal, gosta de se enganar a si mesma.
Ao tornar-se, pela emancipação dos judeus, inteiramente livres as enormes forças monetárias e as extraordinárias potências intelectuais do judaísmo do oeste europeu (seus conhecimentos especializados inigualáveis na economia monetária), essas forças tornaram-se não apenas livres e úteis para a construção geral da moderna economia de lucros do grande capitalismo, mas também simultaneamente para a construção do moderno Estado burguês que por esse caminho surgiu. O Estado burguês moderno é, aliás, uma “fundação judaica”, cujos benefícios favoreceram, em cada país, pelo menos cinquenta vezes mais cristãos do que judeus. –
A transição da era da manufatura para a era da máquina, a transformação econômica fundamental da modernidade, que geralmente se realizou na primeira metade do século XIX, conduziu em todos os lugares as classes médias, condenadas por isso à dissolução, a graves crises e apertos financeiros. No inevitável contexto desse período de profundas convulsões surgiram em todos os lugares fortes correntes antissemitas. Em determinados países, e sobretudo na Alemanha, o ódio aos judeus assumiu formas tão graves como não se via há séculos. Esse novo período de perseguição aos judeus foi tanto mais inquietante quanto sua primeira etapa de emancipação judaica na Europa Ocidental – na França – havia ocorrido antes.
Na França, com a grande Revolução, os judeus obtiveram em um só golpe todos os direitos civis e políticos. Embora Napoleão I os tenha restringido um tanto, os direitos permaneceram, durante todo o seu governo, em tal extensão que os judeus da Europa realmente tinham todas as razões para permanecer entusiasmados com Napoleão. Onde quer que seus regimentos pusessem o pé, trouxeram aos judeus a igualdade de direitos.

Prancha: Apelo eleitoral antissemita francês. Concebido e desenhado pelo candidato antissemita Adolf Willette. 1889.
Napoleão havia reconhecido melhor do que todos os seus colegas legítimos nos tronos da Europa a imensa importância da federação associativa judaica. Na medida em que a Alemanha esteve sob a plena esfera de poder de Napoleão, também aí os judeus obtiveram já então muitos direitos. Assim, por exemplo, em toda a Prússia da margem esquerda do Reno, assim como em Hamburgo e em Mecklemburgo (em contrapartida, permaneceram na Baviera a maioria, e na Saxônia e na Áustria todas as antigas restrições impostas aos judeus). A queda de Napoleão alterou a situação. Com sua queda ergueram-se imediatamente, no continente, todas as potências da reação feudal para recuperar o mais completamente possível os privilégios que a revolução lhes havia tomado. A essas restituições feudais juntou-se, precisamente por aquela época, a transformação econômica dupla já iniciada; as guerras napoleônicas haviam acelerado extraordinariamente o curso do desenvolvimento econômico. Uma política sensata poderia ter atenuado as consequências dessa alterada situação.
A reação, que ressurgia na Europa, tornou as coisas no seu oposto. Ao lançar cem obstáculos ao saudável prosseguimento, converteu o processo de transformação, que naturalmente não se podia deter, na mais grave e por muitos anos duradoura crise de miséria para toda a pequena e média burguesia. Em tal terreno havia de aflorar o ódio aos judeus, e ele proliferou como uma erva daninha que sufoca toda razão, em exuberância lasciva. Como na Alemanha as privações econômicas eram maiores, ressoou aqui, mais alto e mais poderoso do que em qualquer outro lugar, de novo pelo país o terrível grito: “O judeu é o culpado!” Milhares de gargantas de pequeno-burgueses o bradaram numa cidade após outra, e igualmente muitos responderam por sua vez em centenas de cidades alemãs. Assim ocorreu, no ano de 1819, a terrível onda de tumultos Hep-Hep, que começou em Würzburg e, sob pilhagem de lojas judaicas, destruição de casas judaicas e renovadas expulsões de judeus de suas residências, varreu por anos, como uma espantosa epidemia espiritual, metade da Alemanha. Em toda uma série de cidades, como Hamburgo, Danzig, Darmstadt, Düsseldorf, Frankfurt, Heidelberg, Karlsruhe etc., esse chamado tumulto Hep-Hep assumiu formas tão ameaçadoras que as autoridades, que, no fundo, não viam com desagrado o furor das massas desencadeadas contra os judeus, por fim também se alarmaram e convocaram o exército. Certamente, isso ocorreu muito menos para proteger os judeus, cujos bens e vidas estavam ameaçados, do que para evitar que a fúria popular um dia almejasse objetivos mais elevados. Em Frankfurt-am-Main, que no século XVIII havia, de fato, devido exclusivamente aos judeus sua grande prosperidade, mas, apesar de tudo, seguira uma política muito desavergonhada para com os judeus, estes haviam finalmente conquistado, no ano de 1811, os plenos direitos de cidadania. Mal, porém, a chamada “cidade livre” esteve inteiramente nas mãos de um grupo de pequeno-burgueses provincianos (1815), e logo esse pleno direito de cidadania dos judeus foi novamente revogado. E outra vez, exatamente como antes, qualquer bandoleiro que lhe aprouvesse, contanto que fosse cristão, tinha o direito de, a todo judeu que encontrasse, dizer: “Mach’ Mores, Jud!” e expulsá-lo da calçada para a rua. Como antes, os judeus só podiam residir em determinados bairros. Em Bremen e Lübeck os judeus foram mesmo expulsos da cidade. Etc. Quando saiu a ordem de que os judeus deviam adotar nomes civis, isso foi, especialmente na Áustria, para inúmeros burocratas uma ocasião favorável para soltar as rédeas de sua arrogância subalterna e, além disso, de sua cobiça por subornos. Quem pagasse bem aos burocratas podia escolher um nome bonito ou discreto. Quem não tinha dinheiro e não podia saciar a ganância cristã por subornos era-lhe imposto algum nome ridículo ou até mesquinho – por exemplo, Wohlgeruch, Galgenvogel, Schweißloch -. Deste modo sucedeu que tantos judeus já, pelo próprio nome, exerciam um efeito ridículo.
Sob tais aberrações estapafúrdias da estreiteza mental, o Estado autoritário suprimiu tudo isso. Infelizmente essa supressão durou, em vários lugares, diversas décadas.
***
A caricatura daquele tempo é um espelho nítido de tudo isso. Ela é um testemunho flagrante de com quanta pouca sagacidade a mentalidade pequeno-burguesa, não esclarecida pelo grandioso prelúdio histórico da Revolução Francesa, mas apenas momentaneamente assustada, ainda continuou a enfrentar todos os problemas da época. Na Alemanha, pela queda de Napoleão e pelo subsequente triunfo da “Santa Aliança”, o pequeno-burguês se tornara ainda mais todo-poderoso do que em qualquer outro país; ele era, por assim dizer, o único governante. Todo acontecimento público trazia o seu selo inconfundível. E por isso também a caricatura sobre os judeus. Ela nunca foi mais pequeno-burguesa do que naquela época. Nenhum traço de audácia, nada de energia e grandeza se fazia sentir nela. Em contrapartida, havia muito mais pretensão ridícula. Cada folha isolada é um exemplo vívido disso. Observe-se as folhas “A morte de Absalão”, “O judeu na armadilha da raposa”, “Contemplação Sensível da Lua” e semelhantes (fig. 87-97); elas atestam esse clima da forma mais clara possível. Certamente, o humor, que no contentamento do pequeno-burguês ainda tem seu terreno mais fecundo, aqui frequentemente atinge plenamente sua expressão. A folha “Israelzinho engoliu um ducado” é, para isso, um exemplar delicioso. Também a folha “Contemplação Sensível da Lua” (fig. 97) é, do ponto de vista humorístico, uma peça primorosa. Porém esse humor foi muito cedo e fortemente sufocado pela indescritível malevolência que, após o deflagrar dos tumultos Hep-Hep, passou a constituir cada vez mais a tônica dominante. Pois já nessas folhas, notáveis por seu humor eficaz, ressoa uma maldade extraordinariamente forte. Rostos como os da folha “Israelzinho engoliu um ducado” só podem ser moldados pela malícia superior. Com o início dessa nova perseguição aos judeus principiou uma enxurrada de caricaturas antijudaicas como não se vira na Alemanha desde o século XVI. Numerosas cidades puseram caricaturas de judeus no mercado, sobretudo Nuremberg, que então constituía um centro da arte gráfica popular. Em termos de novos motivos temáticos, acrescentou-se nessa época muito: o judeu como literato, como amante, como dândi da moda etc. Certamente, muito já provinha de um tempo um pouco anterior. A época das querelas literárias, com que se inaugurou o novo século, havia, no ano de 1804, produzido um “Nathan, o Sábio” travestido (fig. 75), e a moda dos livrinhos de bolso e almanaques apresentou também satíricos “Livrinhos de Bolso para as Crianças de Israel”, nos quais o judeu não mais aparece apenas como varejista ou agiota, mas também como homem do mundo, como elegante etc. (fig. 77-80). Vale também mencionar aqui as, em 1806, aparecidas “Pretzels de Quaresma para judeus e cristãos”, ornadas com quatro xilogravuras.
A nova enxurrada de caricaturas antijudaicas prende-se, em particular, à farsa publicada no ano do tumulto Hep-Hep, isto é, em 1819, intitulada “Unser Verkehr”. Essa farsa, que apareceu sob o pseudônimo K. B. Sessa, zombava da avareza judaica de modo tão espirituoso quanto maldoso; dou, em outro lugar, para caracterizá-la, a primeira cena dessa farsa.
Por trás do pseudônimo Sessa escondia-se um superintendente de Halberstadt, Maertens, fato que, porém, só veio a público décadas depois. Os contemporâneos atribuíram, em amplos círculos e por longo tempo, a autoria a Goethe, o que não é tão surpreendente, visto que seu ódio aos judeus era notório. Entre os judeus essa farsa despertou uma ira formidável. Diz-se que Rothschild ofereceu uma alta recompensa pela descoberta do verdadeiro autor. Essa indignação é perfeitamente compreensível, à vista da feroz maldade contida em cada linha. Tanto mais se considerar que a peça fez um verdadeiro desfile triunfal em quase todos os palcos alemães e por isso provocou imediatamente elaborações semelhantes. Cito apenas a farsa publicada no mesmo ano “Die Juden in der Klemme.” O aplauso que “Unser Verkehr” suscitou foi tão duradouro que, ainda quarenta anos depois, reapareceram novas edições (imagem 116 e 117). Mas houve também outra circunstância que constantemente aguçava novamente a ira dos judeus: essa farsa tornou-se, a saber, o arsenal de onde os caricaturistas das mais diversas cidades incessantemente retiravam motivos para caricaturas sobre os judeus. As cenas mais importantes da peça e todos os tipos aí apresentados foram repetidamente ilustrados satiricamente. E nas vitrines de todas as livrarias alemãs penduraram-se durante muitos anos essas caricaturas de judeus mais populares de todas. Dou aqui algumas das caricaturas mais difundidas (Imagem 85, 87, 98 e prancha). A máxima ilustrada pela Figura 85 foi a mais frequentemente repetida.
O auge da luta iconográfica e literária contra os judeus daqueles anos foi constituído pelos inúmeros libelos difamatórios que a editora Goedtsche’sche em Meißen publicou na década de 1830. Perante esse concentrado ataque de massas, tudo o mais desaparece. Em cerca de dez livretos ilustrados de 100 a 150 páginas cada, os judeus foram ridicularizados, caluniados e escarnecidos de todas as maneiras concebíveis e da forma mais desumana. Por meio de poemas satíricos, de canções de amor paródicas colocadas em pauta, narrativas, anedotas etc. Tudo em dialeto judaico; isto é, naquele alemão corrompido conhecido como Judendeutsch; dou em outro lugar uma pequena amostra. Como autor de todos esses panfletos é sempre mencionado Itzig Veitel Stern. Por trás desse pseudônimo diz-se que de fato teria se ocultado um literato judeu. Se isso realmente tivesse sido o caso, repetiria, naturalmente, apenas aquilo que tantas vezes se observa na luta contra os judeus: frequentemente são judeus renegados os autores dos ataques mais cruéis contra os próprios judeus. No século XVI, como é sabido, nenhum cristão injuriou mais os judeus do que o convertido judeu Pfefferkorn. Os mais importantes desses panfletos satíricos, todos publicados em diversas edições, são “O jardinzinho de sábado da nossa gente”, “Os costumes e o espírito de Israel” e “Poemas, provérbios e anedotas para a nossa gente”, este último publicado em várias partes. Reproduzo aqui algumas de suas capas e páginas de rosto ilustradas satiricamente, bem como algumas das ilustrações satíricas que os acompanhavam.

