As Facécias, de Poggio Bracciolini

Você irá ler, a seguir, um trecho do livro “As Facécias”, de Poggio Bracciolini. Clique na imagem da capa para mais informações sobre a obra, e como adquiri-la.

245. Brincadeira de um ignorante que deixou os eruditos embaraçados.

Vários monges disputavam sobre a idade e as obras de nosso Salvador, e dizia-se que ele, depois de seus trinta anos, tivera início nas pregações. Perguntou-lhes então um dos presentes, que não era tão versado nas ciências como eles, o que Jesus tivera feito logo após completar o trigésimo ano de sua vida. Enquanto uns nada souberam responder e outros expressaram diferentes opiniões, disse ele: “Com toda a vossa sabedoria, ignorais algo que é tão fácil de reconhecer.” E quando lhe perguntaram então o que Jesus fizera primeiro, replicou: “Ele entrou no seu trigésimo primeiro ano de vida.” Todos tiveram de rir e acharam o gracejo bom.

246. Um mercador que acusava outros recebe uma resposta.

Carlo Gerio, um mercador florentino, era daqueles banqueiros que seguiam a cúria romana, e veio, como muitos mercadores que negociam em vários países, a Avinhão. Quando mais tarde retornou a Roma, foi, numa refeição entre amigos, perguntado como viviam os florentinos em Avinhão e como se comportavam. “São alegres e desinibidos”, respondeu ele; “pois todo aquele que lá permanece um ano se descontrola.” Perguntou-lhe então um homem muito espirituoso entre os convidados, chamado Aldigherio, quanto tempo ele estivera em Avinhão. Ao responder: “Apenas seis meses”, disse o outro: “Tens, portanto, um entendimento excelente, Carlo, pois fizeste, em meio ano, aquilo para que outros precisam de um ano.” Tivemos todos de rir dessa resposta cortante.

247. Uma dama dá uma resposta formosa a um jovem apaixonado por ela.

Um jovem florentino ardia de amor por uma mulher nobre e honrada e seguia-a frequentemente às igrejas, por onde quer que ela fosse. Disse aos amigos que desejava um momento propício e uma boa ocasião para dirigir-lhe aquelas palavras que já havia composto e preparado. Quando a senhora, em um dia de festa, entrou na igreja de Santa Lúcia, um de seus amigos lhe disse que era hora de agir, pois ela estava sozinha junto à pia de água-benta. Contudo perdera toda a presença de espírito e aproximou-se somente quando o amigo o empurrou e cutucou. Tinha, entretanto, esquecido tudo quanto preparara e não ousou dizer uma palavra. Seu amigo, porém, encorajou-o a falar ao menos algumas palavras. Por fim disse: “Senhora, eu sou vosso servo.” Ao que a dama, sorrindo, respondeu: “Em casa tenho servos suficientes, sim, mais do que suficientes, que varrem e lavam a louça, e não preciso de nenhum outro.” – E os amigos riram da estupidez de seu companheiro e da formosa resposta da dama.

248. De um cavaleiro nos tempos do imperador Frederico, que se mostrava bravo no falar, mas não combatia.

Na época em que o imperador Frederico (que morreu em Buonconvento, uma cidade sienesa) acampou inimigo a duas milhas de Florença, correram muitos nobres para armar-se em defesa da pátria e atacaram a posição dos inimigos. Um fanfarrão de família distinta montou também, armado a cavalo, e galopou em larga passada até o portão, censurando os demais por sua lentidão e gritando que vinham atrás como se tivessem medo de que, se necessário, ele combatesse sozinho contra os inimigos. Depois de galopar uma milha adiante e de gastar suas forças em jactâncias, viu alguns combatentes cobertos de feridas voltarem da batalha e foi gradualmente reduzindo o andamento, até deixar o cavalo andar a passo. Ao ouvir, porém, o estrondo dos inimigos que lutavam com os cidadãos e ver de longe o tumulto da batalha, deteve-se e não se mexeu do lugar. Quando alguns, que tinham ouvido suas grandes palavras, lhe perguntaram por que não prosseguira e entrara na luta, respondeu depois de longo silêncio: “Sinto-me nem tão forte nem tão experiente em armas como me imaginara.” Deve-se pesar as forças da alma e do corpo e não prometer mais do que se pode cumprir.

249. De um homem que por dois anos não tomou nem alimento nem bebida.

Receio que aquilo que agora incluo em nossas conversas pareça ainda mais fabuloso do que muitos dos demais, pois é contra a natureza e parece facilmente refutável.

Um homem, chamado Giacomo, que, na época do Papa Eugênio, pertencia aos funcionários da Cúria Romana chamados copistas, adoecera, quando voltou à sua cidade natal Noyon, na França, de uma enfermidade grave e prolongada. Minha narração se tornaria demasiado longa se eu repetisse tudo o que, segundo seu relato, lhe sucedera durante a doença. Passados muitos anos, no 6.º ano do pontificado de Nicolau V, ele finalmente regressou à Cúria. Veio, porém, pobre e despojado de tudo, pois, na viagem, caíra nas mãos de ladrões; dirigiu-se então a membros da Cúria – vizinhos meus, homens de muito boa honra que o conheciam de antes – e contou-lhes que, há dois anos, desde sua enfermidade, não havia comido nem bebido, embora o tivesse tentado por várias vezes. É sacerdote, muito magro e de juízo sadio; recita as orações sem falhas e assistiu à missa na minha presença. Muitos teólogos e médicos falaram seriamente com ele; dizem tratar-se de algo antinatural, porém tão inegável que seria obstinado quem não acreditasse nisso. Todos os dias vem muita gente interrogá-lo. As opiniões sobre ele são inteiramente diversas: alguns creem que seu corpo está possuído por um demônio, embora não haja sinal algum disso; ele se apresenta totalmente como um homem perspicaz, honrado e piedoso, que ainda hoje exerce seu ofício de copista; outros dizem que é seu temperamento melancólico que o sustenta. Eu mesmo conversei com ele por diversas vezes e estou convencido de que tudo quanto se ousou dizer a seu respeito é falso. Ele afirma que se espanta tanto quanto os outros com seu estado, mas que não chegou a isso de repente, e sim gradualmente. Eu me admiraria ainda mais com este caso se, recentemente, não tivesse folheado certos anais que outrora copiara na França e lido neles que, nos tempos do imperador Lotário e do Papa Pascoal, no ano de 822, sucedera o mesmo. Uma menina de doze anos, na região de Toul, na cidade de Commercy, abstivera-se, depois de comungar na Páscoa, primeiro por dez meses do pão, depois por três anos dos alimentos e das bebidas, e então voltou ao seu antigo costume de vida. Ele também espera que o mesmo suceda com ele.

250. Observação espirituosa de um homem que prometera ensinar um burro.

Um príncipe ordenou, sob pena severa, a um súdito – cujas propriedades desejava apoderar-se e que se gabava de que muitas coisas lhe eram possíveis – que ensinasse um burro a ler. Este declarou que isso seria impossível, se não lhe fosse concedido um longo prazo para o ensino. Ao ouvir-se dizer que pedisse tanto tempo quanto julgasse necessário, pediu dez anos. Todos zombaram dele e disseram que ele se havia proposto algo impossível. Contudo consolou seus amigos com as palavras: “Não me inquieto; pois ou eu morrerei entretanto, ou o burro, ou o príncipe.” Com isso mostrou que é benéfico alongar e adiar uma coisa difícil.

251. De um sacerdote que não sabia se a Epifania fora homem ou mulher.

Um amigo contou-me, no dia da Epifania, acerca da ridícula estupidez de um sacerdote de sua terra natal. Este anunciou à sua comunidade a celebração vindoura da Epifania com as palavras: “Amanhã comemorareis a Epifania com a mais profunda piedade; é uma festa muito grande, sim, uma festa principal; não sei se foi homem ou mulher, mas quem quer que tenha sido, devemos celebrar este dia com a mais alta humildade!”

252. De um usurário que fingiu arrependimento e tornou tudo pior do que antes.

A um velho usurário, que fingira haver abandonado seu ofício, veio um homem que queria pegar dinheiro emprestado com juros usurários e trouxe como penhor uma cruz de prata na qual estava incluído um fragmento da cruz de nosso Salvador. Quando pediu ao velho que lhe emprestasse dinheiro tendo aquilo como garantia, este disse: “Afasto-me já do pecado da usura, mas vai ao meu filho (e disse o nome dele), que quer perder a alma, e deixa que ele te empreste!” E enviou com ele um criado para lhe mostrar a casa do filho. Quando já estavam bem longe, o velho gritou ao criado: “Ei, tu! diz ao meu filho que não se esqueça de abater do valor o peso da madeira!” Aquele homem, que parecia haver-se arrependido de sua vida passada, não queria que seu filho avaliasse a madeira da cruz pelo mesmo valor da prata e a considerava menos valiosa que a prata. A natureza humana nunca se nega.

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